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quinta-feira, 31 de maio de 2012

O Cristo sem Cruz, o Cristo voador, o Cristo sem Cruz nas Igrejas “nova moda”.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Homens e animais: suas diferenças segundo a moral católica



Autor: Everton do N. Siqueira

Introdução:

"Muito sem tem falado atualmente, na mídia ou mesmo nas redes sociais, da dignidade animal, levando em conta alguns casos isolados de "animais heróicos" que ajudaram a salvar vítimas de desastres, comparando-os a casos isolados de seres humanos crueis como assassinos, ladrões ou estupradores. Baseando-se nesse tipo de comparação, muitos vêem os animais como "semelhantes" aos homens.

Além do absurdo de dizer que homens e animais são igualmente queridos por Deus e são igualmente dignos das graças e méritos da salvação de Jesus Cristo, alguns extrapolam e dizem que os animais são até mesmo mais importantes que os homens, já que nós somos os únicos capazes de matar, ferir, humilhar ou cometer outros tipos de danos a nossos semelhantes ou a outros seres..

Neste artigo, pautando-se no ensino da Sagrada Tradição, do Sagrado Magistério e das Sagradas Escrituras, quero explicar o que a Igreja Católica ensina sobre o assunto, colocando cada um (homem e animal) em seu devido lugar, bem como desfazer os principais equívocos que rondam a nossa sociedade quando o assunto é esse.

Homens e animais - Igual dignidade?

Logo no início das Sagradas Escrituras, no Livro do Gênesis, está escrito que no sexto dia da criação Deus criou os animais e depois criou o HOMEM a sua imagem e semelhança, para reinar e dominar sobre os peixes, as aves, os animais domésticos e sobre TODA A TERRA. (Conf Gen 1,26-28)

Evidente que com isso, Deus não quis dizer que os animais são ruins ou merecem ser maltratados, pois Deus viu que "tudo era bom" (Gn 1,31). As Sagradas Escrituras apenas atestam que o homem é superior a qualquer forma animal ou vegetal, e deve reinar e governar sobre elas.

Em outras palavras, ainda que hajam seres humanos cometendo atos cruéis e até inimagináveis, ainda somos superiores às demais espécies existentes no planeta e é nosso dever utilizar delas conscientemente, já que foram feitos por Deus para nos servir.


Animais tem alma? Posso rezar pelos animais falecidos?

Os animais tem alma, mas a alma animal é uma alma mortal e perecível, ou seja, quando um animal morre, sua alma também morre, eles não serão julgados e portanto não vão ao céu ou ao inferno. Rezar por um animal falecido é errado, uma vez que não há animais no céu, no inferno ou no purgatório.

Maltratar animais é pecado?

O Catecismo da Igreja Católica afirma que "é contrário à dignidade humana fazer os animais sofrerem inutilmente e desperdiçar suas vidas."(CIC 2418), portanto, só se torna pecado maltratar um animal INUTILMENTE.

Entende-se como um "maltrato útil" aquele em que coloca-se um fim bom para justificar o mau trato, como por exemplo, a doma, quando se priva o animal de alimentos por algum período de tempo para que esse se torne mais obediente ou mais apto a realizar as funções que lhe forem impostas ou mesmo quando se prende o cachorro com uma corrente para que ele a force, tornando-se assim mais feroz e eficiente na sua função como cão de guarda. Esses são apenas exemplos, o mais importante é saber que, NEM TODO MAU TRATO AOS ANIMAIS É PECADO, somente os maus tratos inúteis (sem um objetivo bom).

Animais pecam?

Não, animais não pecam, apenas vivem seus instintos. Ainda que alguns estudiosos da ciência tentem explicar a inteligência animal, essa inteligência que alguns animais possuem não os fazem capaz de reconhecer a Deus como Senhor e Criador. Mesmo que a ciência prove algo ainda não descoberto sobre "inteligência animal", essa inteligência nunca será capaz de discernir o certo e o errado como nós seres humanos podemos fazer.

Se um animal mata o outro, ou faz "sexo ao ar livre" não comete pecado algum; seria tolice e absurdo achar que um cachorro peca contra a castidade quando começa a cruzar com uma cadela no meio da rua. Na mesma proporção, animais que fazem "atos heróicos", como salvar seus donos de um prédio em chamas, não recebem nenhum mérito de Deus por suas ações. Sua única finalidade neste mundo é servir ao homem e seguir seus instintos.

Até que ponto posso amar e cuidar bem dos animais?

O Catecismo da Igreja Católica ensina que TODOS OS HOMENS devem carinho aos animais, pois sua simples existência bendiz e dá glória a Deus (CIC 2416), também diz que "pode-se amar os animais, porém não se deve orientar para eles o afeto devido exclusivamente às pessoas." (CIC 2418)

Como se vê, a Igreja não estabelece um limite de "pode e não pode" no que tange à dedicação e amor aos animais,, a Igreja ensina apenas que o amor e a dedicação aos homens deve ser sempre maior, justamente porque todo homem (por pior que ele seja) é imagem e semelhança de Deus e merece nossa atenção no sentido de uma busca incessante pela salvação eterna, enquanto os animais estão neste mundo unicamente para nos servir.

Seria ilícito, e portanto pecado grave, por exemplo, comprar artigos de luxo para animais de estimação e deixar os filhos vivendo em condição miserável, ou deixar de ter mais filhos para dedicar mais tempo a cuidar dos animais de estimação.

Católico pode ser vegetariano?

Depende do motivo que leva a pessoa a optar pela abstinência completa de carnes.

Existem aquelas pessoas que optam por esse tipo de alimentação por achar que o consumo de carne faz mal à saúde, e que exclui-la completamente de seu cardápio trará benefícios à saúde. Neste caso, não há o menor problema, pois a Igreja jamais determina que tipo de alimentos devemos comer em nosso dia a dia.

Por outro lado, existem pessoas que excluem a carne do cardápio por achar que é crueldade matar os animais, ou que, por serem iguais aos homens, não podem ser usados para nossa alimentação. Óbvio que esse tipo de pensamento não é compatível à doutrina cristã, como já expliquei acima. O Catecismo também é claro ao afirmar que é lícito servir-se dos animais como alimentos, pensar ou afirmar o contrário é heresia.

E rodeios e touradas, são lícitos?

Antes de explicar convém relembrar um velho jargão: "o abuso não tolhe o uso".

O explicado abaixo serve para qualquer outro tipo de esportes, festas, atividades ou tradições em que sejam utilizados os animais.

Se em alguns lugares os rodeios acabam por maltratar animais ou fazê-los morrer de forma cruel, isso não tira a licitude de um evento que, DENTRO DOS LIMITES, o sofrimento do animal não seja inútil.

Em outras palavras, o animal, como inferior ao ser humano, PODE SER USADO para nossa diversão. Podemos comparar a tourada ou o rodeio, por exemplo, a um macaquinho que faz graças no zoológico em troca de bananas, a única diferença é que em "alguns rodeios ocorrem abusos", há pessoas que matam ou torturam o animal como finalidade, não como meio e são esses abusos que devem ser combatidos e não o rodeio e as touradas em si.

Alguns argumentam que os animais passam fome ou ficam amarrados, porém, esse tipo de ação é lícita se tem como fim torná-los mais obedientes ou aptos para realizar suas funções. Se existem alguns lugares onde os peões mutilam, machucam de forma injusta, matam ou torturam excessivamente os animais, esses abusos é que são ilícitos, mas isso não tira a licitude de um rodeio com limites e onde os "maus tratos" são feitos moderadamente e com as finalidades devidas.

Para saber se o rodeio é ou não lícito, deve-se analisar EM PRIMEIRA INSTÂNCIA o perigo causado às pessoas, tanto de quem participa como de quem assiste e não o perigo ou dano ao animal. Depois, obviamente, pode-se também analisar se o sofrimento animal é tido como fim ou meio, ou se foram excessivos, mas em primeiro lugar está os seres humanos envolvidos no evento.

Se alguns se chocam com algumas cenas ou espantam-se pelas palavras acima escritas é porque ainda há um pensamento politicamente correto de defesa animal de que homens e animais possuem iguais dignidade e nem se dão conta.

Para concluir convém lembrar: quem tem o coração sensível e não aguenta ver o touro ou o cavalo sofrer , não precisa ir. Simples!"

(grifos meus)

Fonte: AQUI

quarta-feira, 23 de maio de 2012

E nós nos gloriamos da Cruz





Por Gustavo Corção

"Hoje já é possível ser católico sem encontrar nas portas de engraxates os poemas  que zombam e os tratados que provam; de todo um volumoso lixo dum século racionalista sobrou apenas a poeira leve dum ateísmo crônico que funciona nos cursos oficiais.

Depois de Newman, de Maritain, de Karl Adam, o Catolicismo oferece nos mercados do pensamento alguns títulos de vitória intelectual, e agora, quando ouvimos falar de evolucionismo ou positivismo, somos nós que sorrimos e temos material para fácil escárnio.

Realmente, depois do século do vapor e da eletricidade, podemos tirar nossa esperada desforra e arvorar nossa glória intelectual com nomes prestigiosos de autores que todo o mundo respeita. É a nossa vez. Temos Maritain, Chesterton, Newman, Adam. Contam de Bergson que se converteu pouco antes de morrer. Temos o imenso Bloy, Péguy, Bernanos; temos Guardini, Dom Vonier, Dom Marmion....

O convertido encontra um caminho largo e fácil, tendo razão contra a tolice elementar das academias; em cada esquina aumenta seu triunfo porque em cada passo encontra mais um nome de autor respeitado ou grande convertido.

E lá vai ele, o novo cristão, contente, tendo razão, contente em ter razão, sem ouvir os antigos sarcasmos e até recebendo de vez em quando os cumprimentos respeitosos dos senhores bem vestidos que ficam conversando nas portas sobre mulheres ou gasogênio. Lá vai ele, o novo cristão, com sua coroa imaginária, com sua euforia  de sujeito que acertou, tendo razão num mundo em que os próprios ministros de nações poderosas já falam em civilização cristã.

O caminho parece fácil e largo; mais adiante um pouco, ali mesmo naquela volta do caminho, naquele ângulo do calendário, marcado por um solstício e por um plenilúnio, dir-se-ia que ele encontrará um monumento enguirlandado, um arco triunfal, um obelisco: mas de repente ele encontra a Cruz.

Esse momento é decisivo e essa prova é sempre dura; a glória da Cruz, vista pela fé, é uma prova que o homem novo tem de carregar todos os dias, entrando em luta com o homem velho que se tinha instalado no mundo com suas convicções, seus tiques intelectuais e sobretudo seu critério de vitória. Justamente quando lhe parecia estar próximo um novo triunfo, um acréscimo de prestígio, um formidável sucesso, ele esbarra na Cruz.

O homem novo sobressalta-se e esperneia sob o aguilhão; apalpa-se, busca apoio no seu próprio discernimento que até ali o servia como bússula fiel para indicar com nitidez os caminhos da credibilidade  e que agora perece ter enlouquecido sob a ação de estranho magnetismo. Ele mesmo pedira a fé. Pusera de joelhos seu corpo, sua alma, suas convicções, sua inteligência, pusera tudo de joelhos; submetera a razão à prova última do reconhecimento e do amor; escolhera, decidira casar-se em vez de ficar a vida inteira excogitando; optara; pedira a Deus com amoroso temor a nova aliança de noivado....E agora, ao levantar-se, sente nos ombros o peso duma Cruz"

Veja: Padre Antonio

Fonte: A descoberta do Outro.

terça-feira, 13 de março de 2012

Rodolfo, o pombo cristão


Quem me conhece sabe como gosto de ler, e esta é a razão deste Blog, levar aos leitores um pouquinho do que leio. Tenho lido textos maravilhosos de um irmão em Cristo, Alexandre Core -, que recebeu de Deus, nosso Pai, esta graça especial de escrever bem e nos prender à leitura, sempre nos dando a chance de tirar algo de bom de cada uma delas. Trouxe então um texto de sua autoria. Gostaria que lessem e conhecessem o trabalho deste tão maravilhoso escritor, que é um filho de Deus e servo de nossa Mãe Santíssima, o que muito nos honra.



O Herege

Por Alexandre Core - Blog o Apanágio dos Néscios


"Rodolfo era um pombo que vivia no telhado (forro) da Igreja Matriz de São João do Quentão. Gabava-se de ser todo branco, de não ter nenhuma pena de outra cor. Tão branco que era idêntico à pomba do vitral da igreja que representa o Espírito Santo. Quando a luz do Sol iluminava os vitrais um pouco antes das missas da manhã e da tarde, o Rodolfo sempre resolvia fazer o seu vôo exibicionista pousando em uma das cadeiras junto ao altar. Essa repetição de estrelismo já estava atraindo a atenção dos fiéis que agora levavam suas máquinas fotográficas para a igreja na intenção de registrar o espetáculo proporcionado pelo pombo santo quase todos os dias.

Rodolfo era vaidoso. Costumava gastar um tempão arrumando as penas antes de cada missa (ou deveria dizer, apresentação?). O Pe. Henrique já começava a ficar incomodado com as atitudes do exibido pombo. Percebia que a igreja sempre começava a encher de “fiéis” pouco antes do horário das missas, mas tão logo o Rodolfo fazia a sua aparição – considerada até por alguns respeitados leigos da comunidade como uma manifestação do próprio Espírito Santo – grande parte ia embora sem ficar para a missa . Cada qual se contentava em gravar o vôo do pombo em sua câmera digital e depois de um sinal da cruz feito sem vontade e de uma genuflexão tímida já feita quase na escadaria da igreja, voltar pra casa correndo para colocar o vídeo no Youtube.

O Pe. Henrique já havia percebido que de santo o Rodolfo não tinha nada. Além de estar atrapalhando o bom andamento das missas, havia toda uma série de outras coisas que o pombo fazia que, muito longe de serem manifestações do Espírito Santo, revelavam-se como trabalho digno de um verdadeiro espírito de porco. A começar que o Rodolfo não escolhia lugar para fazer as suas necessidades e, desse modo, não era difícil encontrar sinais de sua passagem pelos bancos da igreja. Da mesma forma, ele não tinha o controle sobre o rumo de suas penas, o que certa vez ocasionou um incidente desagradável com a Dona Gertrudes que bem no meio do “Hosana” engasgou com uma pena vinda sabe-se lá de onde. Por sorte foi levada para o hospital que, graças a Providência Divina, fica exatamente do outro lado da rua em frente a igreja. O inconveniente Rodolfo também não escolhia hora para arrulhar. Podia ser no meio da Homilia do Pe. Henrique ou mesmo durante a Comunhão. E o seu som, amplificado pela ótima acústica da igreja, transformava o pombo no próprio Godzilla de tão alto que era possível ouvi-lo.

O Pe. Henrique aceitava com uma certa dose de resignação todo aquele martírio que o Rodolfo lhe fazia passar, mas não sem ter tentado se livrar do herege. Tentou armadilhas de todos os tipos, gel para que o pombo achasse os locais preferidos de pouso gosmentos e não retornasse mais e até apitos para tentar espantá-lo (fora do horário das missas, claro!). Mas nada disso deu resultado. O Rodolfo continuava se sentindo o próprio Bispo – talvez até o Cardeal – já que era superior ao Pe. Henrique e mandava na paróquia.

Foi então que um leigo integrante do Grupo de Encontros de Casais com Cristo sugeriu a um cansado Pe. Henrique uma solução, digamos assim…, não muito cristã. O bondoso padre, que, realmente, nunca desejou mal à criatura alguma, a princípio se recusou a colocar aquela idéia em prática; mas, como cada dia que passava estava ainda mais difícil conviver com o Rodolfo, reconsiderou e decidiu fazer um teste.

Então, numa chuvosa manhã de segunda-feira, o Rodolfo que ainda dormia seu sono de pop-star católico cansado de todas as apresentações que fez no domingo – incluindo dezenas de fotografias com autógrafo já que foi dia de batizado – foi acordado por uma agitação atípica na secretaria da igreja. Sem se mexer muito, esticou a cabeça por cima do ombro de Santo Expedito e ficou acompanhando o que estava acontecendo na sala. Conseguiu ver o Pe. Henrique, o Jeremias (jardineiro da paróquia) e a Dona Rita (responsável pelo Apostolado da Oração) conversando. A Dona Rita só conseguia repetir: – Ah, mas coitado do pombinho, Pe. Henrique! – enquanto o pobre padre tentava justificar aquilo garantindo para a velha senhora que o santo do Rodolfo não sairia ferido.

O Rodolfo sentiu um frio na espinha com o que ouviu e quase desmaiou logo em seguida com o que viu. A próxima tentativa do Pe. Henrique de acabar com o seu reinado na igreja foi retirada pelo Jeremias de dentro de uma grande gaiola que estava no chão da secretaria. Quando o bicho estava no braço do jardineiro, esticou as asas e elas praticamente tocaram as paredes opostas da sala de tão grandes que eram. Nesse momento o Rodolfo pensou até em fazer uma promessa pra Santo Expedito, mas o medo foi maior e ele bateu asas para junto de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição que ficava mais próxima do altar e longe daquela visão aterradora"

domingo, 11 de março de 2012

O problema da Liberdade

Por Arcebispo Fulton Sheen

‎"A indiferença ao Cristo não termina e nem pode terminar na ausência do Cristo; acaba no Anticristo. Foi assim no começo; é assim agora, e será assim até o fim. ensinaram a Europa a cerrar o punho e a cuspir sempre que Seu nome é ouvido; não O podem deixar só. Eles não são precisamente homens sem religião; são homens contra a religião; não mostram frieza para com Deus. entregam-se ao ateísmo com todo o ardor.

Donde tiram eles energia para esse ódio? Donde tal entusiasmo pelo ateísmo? Como conseguem tal apostolado pelo Anticristo, tantas espadas para a pilhagem das coisas de Deus e assassínio das mulheres de Deus? Donde tirou a Rússia esse ímpeto para implantar em Valência, pela primeira vez na história do mundo ocidental, um regime declaradamente contra Deus? Tirou-o da realidade de Deus. Os homens não se entusiasmam por fantasmas. Os homens não saem a campo para dar combate às ficções da imaginação nem a mortos. Odeiam, entretanto, os vivos. Rejeitando-O, estão eles prestando-Lhe testemunho. Ninguém odeia César, Napoleão ou Genghis Khan. E por que não? Porque morre o ódio quando perece o objeto odiado. Os homens já não cerram mais os punhos contra um Bismarck, nem montam mais guarda ao túmulo de um Nélson. Mas cerram ainda os punhos contra o Cristo. Dizem que Ele está morto, mas põem sentinelas em Seu túmulo. Dizem que Ele é inofensivo enquanto criança, contudo Herodes manda os seus soldados matar a Criança indefesa.

A verdade é que eles odeiam porque creem - não com a fé dos redimidos, mas com a fé dos condenados."

Arcebispo Fulton Sheen. O problema da Liberdade. Editora Agir, 1962 pag. 15

sábado, 28 de janeiro de 2012

O olhar de Veríssimo sobre o BBB


Lendo o Blog de Dom Luiz Bergonzini, me deparei com este texto de Luiz Fernando Veríssimo - cronista e escritor brasileiro. O Achei excelente! Apesar de eu nunca ter assistido um só capítulo do BBB, sei que aquilo é lixo puro e de lixo não precisamos. Precisamos de água limpa, precisamos de valores que nos elevem, precisamos de uma vida santa para vermos a Deus, enfim, precisamos de Deus para sermos luz neste mundo. Leiam e reflitam na verdade destas palavras. Que bom que ainda temos gente de peso que pensa e não tem medo de condenar abertamente as obras das trevas.

Estas palavras de São Paulo servem para Luiz Fernando e para todos nós que não temos medo da santidade e da verdade: Efésios 5,10-17:

" Procurai o que é agradável ao Senhor, e não tenhais cumplicidade nas obras infrutíferas das trevas; pelo contrário, condenai-as abertamente. Porque as coisas que tais homens fazem ocultamente é vergonhoso até falar delas. Mas tudo isto, ao ser reprovado, torna-se manifesto pela luz. E tudo o que se manifesta deste modo torna-se luz. Por isto (a Escritura) diz: Desperta, tu que dormes! Levanta-te dentre os mortos e Cristo te iluminará (Is 26,19; 60,1)! Vigiai, pois, com cuidado sobre a vossa conduta: que ela não seja conduta de insensatos, mas de sábios que aproveitam ciosamente o tempo, pois os dias são maus. Não sejais imprudentes, mas procurai compreender qual seja a vontade de Deus"


O olhar de Veríssimo sobre o BBB

"Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço.

A nova edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência. Dizem que Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo.

O BBB é a pura e suprema banalização do sexo.

Impossível ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros...todos na mesma casa, a casa dos “heróis”, como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterossexuais. O BBB é a realidade em busca do IBOPE.

Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB . Ele prometeu um “zoológico humano divertido” . Não sei se será divertido, mas parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas.

Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo. Eu gostaria de perguntar se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.

Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis? São esses nossos exemplos de heróis?

Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros, profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores) , carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor e quase sempre são mal remunerados. Heróis são milhares de brasileiros que sequer tem um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir, e conseguem sobreviver a isso todo dia.

Heróis são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna. Heróis são inúmeras pessoas, entidades sociais e beneficentes, Ongs, voluntários, igrejas e hospitais que se dedicam ao cuidado de carentes, doentes e necessitados (vamos lembrar de nossa eterna heroína Zilda Arns).

Heróis são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada meses atrás pela própria Rede Globo.

O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral.

São apenas pessoas que se prestam a comer, beber, tomar sol, fofocar, dormir e agir estupidamente para que, ao final do programa, o “escolhido” receba um milhão e meio de reais. E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a "entender o comportamento humano". Ah, tenha dó!!!

Veja o que está por de tra$ $ do BBB:José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão.

Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social, moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros? (Poderia ser feito mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores)

Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores. Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa..., ir ao cinema....., estudar... , ouvir boa música..., cuidar das flores e jardins... , telefonar para um amigo... , ·visitar os avós... , pescar..., brincar com as crianças... , namorar... ou simplesmente dormir.

Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construído nossa sociedade."

Autor: Luiz Fernando Veríssimo é cronista e escritor brasileiro
Esta crônica está sendo divulgada pela internet a milhões de e-mails.

Fonte: AQUI

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O Purgatório na Bíblia



Por - Prof. Felipe Aquino,

"Muitos me perguntam onde está na Bíblia o Purgatório? Ele é uma exigência da razão e mesmo da caridade de Deus por nós. A palavra “Purgatório” não existe na Bíblia, foi criada pela Igreja, mas a realidade, o “conceito doutrinário” deste estado de purificação existe amplamente na Sagrada Escritura como vamos ver. A Igreja não tem dúvida desta realidade por isso, desde o primeiro século reza pelo sufrágio das almas do Purgatório.

1 – São Gregório Magno (†604), Papa e doutor da Igreja, explicava o Purgatório a partir de uma palavra de Jesus: “No que concerne a certas faltas leves, deve-se crer que existe antes do juízo um fogo purificador, segundo o que afirma aquele que é a Verdade, dizendo que se alguém tiver pronunciado uma blasfêmia contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado nem no presente século nem no século futuro (Mt 12,31). Desta afirmação podemos deduzir que certas faltas podem ser perdoadas no século presente, ao passo que outras, no século futuro” (Dial. 41,3). O pecado contra o Espírito Santo, ou seja a pessoa que recusa de todas as maneiras os caminhos da salvação, não será perdoado nem neste mundo, nem no mundo futuro. Mostra o Senhor Jesus, então, neste trecho, implicitamente, que há pecados que serão perdoados no mundo futuro, após a morte.

2 – O ensinamento sobre o Purgatório tem raízes já na crença dos próprios judeus do Antigo Testamento; cerca de 200 anos antes de Cristo, quando ocorreu o episódio de Judas Macabeus. Narra-se aí que alguns soldados judeus foram encontrados mortos num campo de batalha, tendo debaixo de suas roupas alguns objetos consagrados aos ídolos, o que era proibido pela Lei de Moisés. Então Judas Macabeus mandou fazer uma coleta para que fosse oferecido em Jerusalém um sacrifício pelos pecados desses soldados. “Então encontraram debaixo da túnica de cada um dos mortos objetos consagrados aos ídolos de Jâmnia, coisas proibidas pela Lei dos judeus. Ficou assim evidente a todos que haviam tombado por aquele motivos… puseram-me em oração, implorando que o pecado cometido encontrasse completo perdão… Depois [Judas] ajuntou, numa coleta individual, cerca de duas mil dracmas de prata, que enviou a Jerusalém para que se oferecesse um sacrifício propiciatório. Com ação tão bela e nobre ele tinha em consideração a ressurreição, porque, se não cresse na ressurreição dos mortos, teria sido coisa supérflua e vã orar pelos defuntos. Além disso, considerava a magnífica recompensa que está reservada àqueles que adormecem com sentimentos de piedade. Santo e pio pensamento! Por isso, mandou oferecer o sacrifício expiatório, para que os mortos fossem absolvidos do pecado” (2Mc 12,39-45).

O autor sagrado, inspirado pelo Espírito Santo, louva a ação de Judas: “Se ele não esperasse que os mortos que haviam sucumbido iriam ressuscitar, seria supérfluo e tolo rezar pelos mortos. Mas, se considerasse que uma belíssima recompensa está reservada para os que adormeceram piedosamente, então era santo e piedoso o seu modo de pensar. Eis porque ele mandou oferecer esse sacrifício expiatório pelos que haviam morrido, afim de que fossem absolvidos do seu pecado”. (2 Mac 12,44s) .Neste caso, vemos pessoas que morreram na amizade de Deus, mas com uma incoerência, que não foi a negação da fé, já que estavam combatendo no exército do povo de Deus contra os inimigos da fé. Cometeram uma falta que não foi mortal.

Fica claro no texto de Macabeus que os judeus oravam pelos seus mortos e por eles ofereciam sacrifícios, e que os sacerdotes hebreus já naquele tempo aceitavam e ofereciam sacrifícios em expiação dos pecados dos falecidos e que esta prática estava apoiada sobre a crença na ressurreição dos mortos. E como o livro dos Macabeus pertence ao cânon dos livros inspirados, aqui também está uma base bíblica para a crença no Purgatório e para a oração em favor dos mortos.

3 – Com base nos ensinamentos de São Paulo, a Igreja entendeu também a realidade do Purgatório. Em 1Cor 3,10, ele fala de pessoas que construíram sobre o fundamento que é Jesus Cristo, utilizando uns, material precioso, resistente ao fogo (ouro, prata, pedras preciosas) e, outros, materiais que não resistem ao fogo (palha, madeira). São todos fiéis a Cristo, mas uns com muito zelo e fervor, e outros com tibieza e relutância. E S. Paulo apresenta o juízo de Deus sob a imagem do fogo a provar as obras de cada um. Se a obra resistir, o seu autor “receberá uma recompensa”; mas, se não resistir, o seu autor “sofrerá detrimento”, isto é, uma pena; que não será a condenação; pois o texto diz explicitamente que o trabalhador “se salvará, mas como que através do fogo”, isto é, com sofrimentos.

4 – Na passagem de Mc 3,29, também há uma imagem nítida do Purgatório:”Mas, se o tal administrador imaginar consigo: ‘Meu senhor tardará a vir’. E começar a espancar os servos e as servas, a comer, a beber e a embriagar-se, o senhor daquele servo virá no dia em que não o esperar (…) e o mandará ao destino dos infiéis. O servo que, apesar de conhecer a vontade de seu senhor, nada preparou e lhe desobedeceu será açoitado com numerosos golpes. Mas aquele que, ignorando a vontade de seu senhor, fizer coisas repreensíveis será açoitado com poucos golpes.” (Lc 12,45-48). É uma referência clara ao que a Igreja chama de Purgatório. Após a morte, portanto, há um “estado” onde os “pouco fiéis” haverão de ser purificados.

5 – Outra passagem bíblica que dá margem a pensar no Purgatório é a de (Lc 12,58-59): “Ora, quando fores com o teu adversário ao magistrado, faze o possível para entrar em acordo com ele pelo caminho, a fim de que ele não te arraste ao juiz, e o juiz te entregue ao executor, e o executor te ponha na prisão. Digo-te: não sairás dali, até pagares o último centavo.”

O Senhor Jesus ensina que devemos sempre entrar “em acordo” com o próximo, pois caso contrário, ao fim da vida seremos entregues ao juiz (Deus), nos colocará na “prisão” (Purgatório); dali não sairemos até termos pago à justiça divina toda nossa dívida, “até o último centavo”. Mas um dia haveremos de sair. A condenação neste caso não é eterna. A mesma parábola está´ em Mt 5, 22-26: “Assume logo uma atitude reconciliadora com o teu adversário, enquanto estás a caminho, para não acontecer que o adversário te entregue ao juiz e o juiz ao oficial de justiça e, assim, sejas lançado na prisão. Em verdade te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo” . A chave deste ensinamento se encontra na conclusão deste discurso de Jesus: “serás lançado na prisão”, e dali não se sai “enquanto não pagar o último centavo”.

6 – A Passagem de São Pedro 1Pe 3,18-19; 4,6, indica-nos também a realidade do Purgatório:”Pois também Cristo morreu uma vez pelos nossos pecados (…) padeceu a morte em sua carne, mas foi vivificado quanto ao espírito. É neste mesmo espírito que ele foi pregar aos espíritos que eram detidos na prisão, aqueles que outrora, nos dias de Noé, tinham sido rebeldes (…).” Nesta “prisão” ou “limbo” dos antepassados, onde os espíritos dos antigos estavam presos, e onde Jesus Cristo foi pregar durante o Sábado Santo, a Igreja viu uma figura do Purgatório. O texto indica que Cristo foi pregar “àqueles que outrora, nos dias de Noé, tinham sido rebeldes”. Temos, portanto, um “estado” onde as almas dos antepassados aguardavam a salvação. Não é um lugar de tormento eterno, mas também não é um lugar de alegria eterna na presença de Deus, não é o céu. È um “lugar” onde os espíritos aguardavam a salvação e purificação comunicada pelo próprio Cristo"

Do livro: Purgatório. O que a Igreja ensina.

Prof. Felipe Aquino -

sábado, 31 de dezembro de 2011

2012 e o 'fim do mundo'


Por Padre Demétrio Gomes

Qual deve ser nossa atitude?

Iniciamos o ano de 2012. Ano frequentemente presente nos últimos meses na grande mídia (páginas web, redes sociais, e inclusive nas telas de cinema), especialmente por conta de supostas profecias que preveriam o fim do mundo para os seus dias. A esta data se chegou por intermédio de um complexo emaranhado de conjecturas que levariam a crer que o fim dos tempos coincidiria com o fim do calendário Maia, ou seja, em dezembro deste ano.

Afinal, há real motivo para nos preocuparmos?

Em primeiro lugar, há que se dizer que tais supostas profecias não constituem novidades na história da humanidade. Ao longo dos séculos foram muitos os pseudoprofetas que alardearam um fim do mundo iminente gerando grande inquietação entre os mais crédulos. Perderíamos a conta se fôssemos averiguar quantas vezes o “mundo já acabou”. Na própria época em que o Senhor estava em carne mortal em meio a nós, já existiam tais suposições. A resposta de Cristo? “Daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos que estão no céu, nem o Filho, senão o Pai” (Mc 13,32).

Um cristão não deve se preocupar com estas supostas previsões, pois o mesmo Senhor, que nos revelou todo o necessário para nossa salvação e felicidade, quis preservar no mistério de Deus o dia e a hora em que este mundo teria fim.

Como afirma o Catecismo da Igreja Católica (cf. n. 65), em Cristo o Pai nos disse tudo. Não haverá outra revelação além dessa. E o grande doutor místico espanhol, São João da Cruz, afirmava em sua “Subida ao Monte Carmelo”: «Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra - e não tem outra – [Deus] disse-nos tudo ao mesmo tempo e de uma só vez nesta Palavra única e já nada mais tem para dizer. [...] Porque o que antes disse parcialmente pelos profetas, revelou-o totalmente, dando-nos o Todo que é o seu Filho. E por isso, quem agora quisesse consultar a Deus ou pedir-Lhe alguma visão ou revelação, não só cometeria um disparate, mas faria agravo a Deus, por não pôr os olhos totalmente em Cristo e buscar fora d'Ele outra realidade ou novidade».

O Magistério da Igreja, seguindo os passos de seu Fundador, decretou em 1516, no V Concílio de Latrão: “Mandamos a todos os que estão, ou futuramente estarão, incumbidos da pregação, que de modo nenhum presumam afirmar ou apregoar determinado juízo. Com efeito, a Verdade diz: 'Não toca a vós ter conhecimento dos tempos e momentos que o Pai fixou por Sua própria autoridade'. Consta que os que até hoje ousaram afirmar tais coisas mentiram e, por causa deles, não pouco sofreu a autoridade daqueles que pregam com retidão. Ninguém ouse predizer o futuro apelando para a Sagrada Escritura, nem afirmar o que quer que seja, como se o tivesse recebido do Espírito Santo ou de revelação particular, nem ouse apoiar-se sobre conjecturas vãs ou despropositadas. Cada qual deve, segundo o preceito divino, pregar o Evangelho a toda criatura, aprender a detestar o vício, recomendar e ensinar a prática das virtudes, a paz e a caridade mútua, tão recomendada por nosso Redentor.”

Sabemos, pela fé, que este mundo não é definitivo, e cremos, como rezamos frequentemente no Símbolo Apostólico, que o Senhor voltará glorioso para julgar vivos e mortos. E qual deve ser nossa atitude enquanto Ele não aparece em Sua glória? É o próprio Senhor quem nos responde: “Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora há de vir o vosso Senhor” (Mt 24,42). Essa deve ser, portanto, a nossa atitude: a de espera. É justamente por isso que o fim do mundo jamais deverá surpreender a um fiel cristão, que não pode temer nem a vida, nem a morte. Para ele, o fim do mundo não será uma surpresa, pois ele o espera. Espera ansiosamente o encontro final com o Senhor de sua vida, a alegria sem fim, fruto da contemplação face a face do Amado de nossas almas. Os primeiros cristãos, nossos pais na fé, desejavam ardentemente essa vinda do Senhor ao suplicarem: "Vem, Senhor Jesus!" (cf. Ap 22,20).

A esperança cristã, no entanto, não nos faz desentendermos das coisas desta terra. Ao contrário, pelo fato de esperamos novos céus e nova terra, trabalhamos intensamente para estar preparados para este dia. Diante da consciência de que este mundo - tal qual conhecemos - não durará para sempre, somos interpelados a aproveitar ao máximo cada segundo que a paciência de Deus nos concede, para nos convertermos à Sua santa vontade. Na realização livre dos planos que o Todo-poderoso sonhou desde sempre para cada um de nós está a nossa felicidade, e, em definitiva, é só isso o que importa: querer o querer de Deus.

Certa vez os amigos de um jovem santo - dizem que foi São Luiz Gonzaga - perguntavam entre si o que fariam se soubessem que o mundo acabaria naquele exato momento. As respostas foram muitas: um buscaria confessar-se o quanto antes, o outro procuraria reconciliar-se com os seus familiares, etc. A resposta do santo? “Continuaria jogando, como estou fazendo agora”. Essa tranquilidade é consequência de saber-se em cada momento na vontade de Deus. Quem nela está não se preocupa se o mundo terminará hoje ou amanhã, pois em cada momento está preparado, esperando ansiosamente o encontro último com seu Senhor.

Padre Demétrio Gomes
Diretor do Instituto Filosófico e Teológico do
Seminário Arquidiocesano São José de Niterói

Fonte: Canção Nova

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

O Monge domador dos animais



Por Thiamer Toth

Muitos jovens estariam prontos para matar o dragão nos bosques, como Siegfied; mas, quando se trata do dragão de suas más tendências, não tem coragem e paciência para lhe dar combate. Preferem renunciar a tão santo trabalho.

Uma tarde, o Abade de um mosteiro perguntou a um dos seus monges: ”O que é que fizestes hoje!” Eu – respondeu o monge – como todos os outros dias, tenho estado tão ocupado que as minhas poucas forças não bastariam para o meu trabalho sem o auxílio da graça divina. Todos os dias eu devo guardar dois falcões, amarrar dois veados, obrigar dois gaviões a fazerem a minha vontade, vencer um verme, domar um urso e tratar um doente.

Que dizes tu?—— interrogou o Abade, rindo às gargalhadas. — No mosteiro não se faz semelhantes trabalhos!

No entanto, é isso que eu faço - replicou o monge. — Os dois falcões são os meus olhos, que eu devo vigiar continuamente para que não se detenham sobre os objectos proibidos. Os dois veados são os meus pés, cuja marcha devo ordenar, se não quero que me conduzam pelo caminho do mal. Os dois gaviões são as minhas mãos, que devo obrigar ao trabalho e a fazer o bem. O verme é a minha língua, que tem necessidade de ser reprimida mil vezes por dia para não dizer palavras vis e superficiais. O urso é o meu coração ,cujo egoísmo e vaidade tenho de dominar. E o doente é o meu corp0, com o qual tenho de ter incessantes precauções, para que não se apodere dele a sensualidade.

Este monge tinha muita razão. A luta contra os nossos instintos desordenados assemelha-se ao trabalho do domador; e todos aqueles que querem formar bem o seu caráter tem de entregar-se diariamente a este trabalho... E tu também, meu filho.

Não se podem realizar grandes coisas, vir a ser um grande homem, um grande santo, senão com uma grande paixão. Uma paixão em si mesma, não é um mal: mas, se a não dominas a tempo, pode vir a sê-lo. Na formação do teu caráter, não se te pedirá que arranques as paixões, mas que tires delas habilmente partido, que as faças tuas aliadas, tuas companheiras de armas. Não escutes os conselhos que elas te deram, serve-te, porém, de suas forças. Se as paixões são más conselheiras, são também inapreciáveis auxiliares.

É precisamente a paixão bem dominada que torna a vontade firme. Não poderão vencer-se todos os obstáculos senão prosseguindo apaixonadamente um nobre objetivo. À paixão assemelha-se ao fogo, pode ser uma benção ou uma maldição, como bem disse Schiller no seu canto do sino: “Se o homem o domina, o sustém, o fogo é poderoso para o bem“

Lembre-se sempre disso: “ Facienti quod est in se, Deus non degegat gratiam”: àquele que faz tudo quanto dele depende, nunca Deus recusa sua graça.

Fonte: O Jovem de Caráter

domingo, 2 de outubro de 2011

A Trindade de Pessoas em Deus


Por Dr. Rafael Vitola Brodbek

Sabemos que Deus existe não só pela fé como pela razão. Como católicos, temos ainda outro dado: Deus é um só! Entendamos, todavia, que a unicidade de Deus não é conhecida apenas pela luz da fé, senão também pela ciência racional. É impossível do ponto de vista lógico que haja mais de um Deus! Vejamos o que acabamos de expor.

Deus, pela própria natureza das coisas, é infinitamente perfeito. O Pe. Emmanuel André, conhecido teólogo que viveu de 1826 a 1903, em obra já citada, explica-nos que “Deus é essencialmente um e único. Ele não poderia, de modo algum, ser vários deuses, como há vários homens. Quem diz Deus, diz o poder, a sabedoria infinita, a bondade por essência. Se pudesse haver vários deuses, cada um deles seria limitado por algum lado, nenhum seria Deus. Logo só pode haver um Deus.” (ANDRÉ, Pe. Emmanuel. op. cit., III)

Podemos explicitar seu exemplo por uma simples analogia. Sendo Deus perfeito, pode-se comparar tal atributo como uma linha reta infinita, sem começo nem fim. Ora, supondo existir mais de um Deus, devemos visualizar tantas linhas quantos deuses houvesse. Ocorre que, dessa maneira, a linha tida por perfeita ou infinita, representando Deus, já não teria o atributo da perfeição, eis que o que há nela falta a uma outra, e o que falta nela há em uma outra, o que seja seu lugar no espaço. Só é perfeito aquilo em que nada lhe falte, e se falta a uma dessas linhas um pequeno detalhe que seja – o lugar no espaço de uma linha, que é diferente do lugar de outra –, não estamos mais falando de perfeição. Aliás, como duas coisas perfeitas podem ser diferentes, se a perfeição é que lhes dá ausência do oposto? Faltando a uma das linhas uma característica essencial, seu lugar no espaço, não é ela perfeita. Se um ser não é perfeito, não é Deus. Como é impossível haver mais de uma linha infinita que seja perfeita (pois se ocupassem lugares diferentes, já não seriam perfeitas, e ocupando lugares idênticos não seria mais de uma), é impossível haver mais de um Deus.

A razão corrobora a fé monoteísta!

Ajuda-nos, como de costume, Santo Tomás de Aquino: “Verifica-se também que é necessário que haja um só Deus. 1 – Se existirem muitos deuses, cada um deles será denominado deus por equivocidade ou por univocidade: se por equivocidade, a denominação não tem sentido, até porque nada me impediria, neste caso, de chamar de pedra o que outrem chama de deus; se por univocidade, concordarão os diversos deuses em gênero e em espécie. Ora, como já foi provado, Deus não pode ser gênero, nem espécie dividida por muitos integrantes. Logo, é impossível haver muitos deuses. 2 – Ademais, é impossível que aquilo que individualiza uma essência comum contenha simultaneamente os seus diversos indivíduos, pois, embora existam muitos homens, é impossível que este homem não seja senão um só homem. Ora, se a essência fosse por si mesma individualizada e não por outra realidade, ser-lhe-ia impossível multiplicar-se em muitos indivíduos. Ora, a essência divina é individualizada por si mesma, porque em Deus a essência identifica-se com o que Ele é, pois já foi provado que Ele é a sua própria essência. Logo, é impossível que não exista senão um só Deus. 3 – Finalmente, uma forma pode-se multiplicar de duas maneiras: uma, pelas diferenças, como forma geral: o calor, por exemplo, multiplica-se pelas diversas espécies de calor; outra, pelo sujeito, como, por exemplo, a brancura multiplica-se pelos diversos indivíduos brancos. A forma que não se pode multiplicar pelas diferenças, se não está como forma existente num sujeito, é impossível que seja multiplicada: a brancura, por exemplo, se não estivesse existindo nos indivíduos, seria uma só realidade subsistente. Ora, a essência divina é o próprio ser de Deus, que, como foi provado acima, não pode receber diferenças. Sendo, pois, o próprio ser divino como uma quase forma subsistente por si mesma, porque Deus é o seu próprio ser, é impossível que a essência divina não seja também senão uma só. Logo, é impossível que haja muitos deuses.” (Comp. Th., Prima Pars, c. XV)

Deus, portanto, é único, tem uma essência, uma natureza, uma substância una. “Em Deus, a natureza divina não se multiplica assim, ela não pode se multiplicar assim: e no entanto, sendo essencialmente una em si mesma, ela é comum a três Pessoas distintas. O Pai possui a natureza divina, o Filho a possui, o Espírito Santo a possui; e é a mesma e única natureza nos três. Assim, o Pai, o Filho e o Espírito Santo não são três deuses, mas um só Deus. Se eles fossem três deuses, haveria três naturezas divinas; ora, não pode haver mais do que uma. Essa natureza única não é dividida entre as três Pessoas, como se cada uma possuísse um terço; ela é inteira em cada, como a natureza humana é inteira em cada homem. O mistério consiste justamente nisso que a natureza divina é inteira em cada uma das três Pessoas sem ser por isso multiplicada ou triplicada. (...) Isso vem do fato que, diz Santo Anselmo, acrescentar Deus a Deus nunca dá mais do que um Deus, assim como somar a eternidade à eternidade nunca dá mais que uma eternidade, como juntar uma superfície a uma superfície sempre dá uma superfície. A concepção da natureza divina que ela seja una e indivisível; é assim impossível que ela seja multiplicada. O catecismo exprime essa verdade, quando diz: o Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito Santo é Deus; não são três deuses, mas um só Deus em três Pessoas.” (ANDRÉ, Pe. Emmanuel. op. cit., III)

O dogma da Santíssima Trindade justamente é este: embora uno na Sua natureza, Deus é trino em Suas Pessoas; embora uno na Sua essência, Deus é trino em Sua existência hipostática. Há uma só natureza divina, a qual não é dividida entre os três. Cada Pessoa isolada é inteiramente Deus. E juntas são ainda um só Deus. “A fé católica é que veneremos a um só Deus na Trindade, e a Trindade na unidade, sem confundir as Pessoas nem separar a substância. Porque uma é a Pessoa do Pai, outra a do Filho, e outra a do Espírito Santo; mas o Pai, o Filho e o Espírito Santo são uma só divindade, a qual corresponde igual glória e majestade.” (Símbolo de Santo Atanásio) O Filho é Aquele que, num determinado momento histórico, irá assumir nossa natureza humana, encarnando-Se, e tomando o nome de Jesus Cristo.

Como nos foi revelado esse mistério, proposto pela Igreja como dogma em seus primeiros concílios? Já no Antigo Testamento, há várias alusões à Trindade. Deus, todavia, não quis revelar tal mistério de modo mais claro para os judeus, pois eles estavam ainda muito propensos ao politeísmo e poderiam facilmente confundir-se e adotar uma religião que negasse a natureza única divina. Era preciso fixar bem na mente dos israelitas que há um só Deus, era necessário educá-los no monoteísmo. Entendida a unidade, aí sim poderia Deus ensinar a Trindade, como de fato o fez quando enviou Jesus. No batismo de Cristo (cf. Mt 3,17), há uma manifestação trinitária por excelência: o Pai fala acerca do Filho batizado, e sobre o qual repousa o Espírito Santo. Ao enviar Seus Apóstolos para pregar o Evangelho, Nosso Senhor é claro ao afirmar que eles deveriam ensinar a todas as pessoas a santa doutrina e batizá-las “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.” (Mt 28,19) A Igreja, aos poucos, em face das muitas heresias que, pretendendo perscrutar esse mistério, o entenderam equivocadamente, vai clareando seu ensino e explicitando aquilo que fora revelado. Como sabemos, toda a doutrina já foi revelada, mas só são explicitados determinados pontos da mesma com o passar dos anos, a pesquisa teológica e o surgimento de problemas reais que precisam ser enfrentados pelo firme Magistério da Igreja, o qual, quando propõe um ensino como infalível, tem direito de receber o assentimento da fé.

Três grandes heresias atacaram o coração do dogma trinitário. E foi contra elas que a Igreja precisou lutar logo nos primeiros séculos. Dessa luta, comandada por gigantes como Santo Atanásio de Alexandria, São Basílio Magno, São Gregório Nazianzeno e São Gregório de Nissa. Esses Padres da Igreja souberam ler nas páginas da Escritura o correto entendimento da verdade acerca da unidade e da Trindade em Deus, principalmente com a ajuda dos escritos de Santo Inácio de Antioquia, São Clemente de Roma, São Justino, Taciano, Teófilo de Antioquia, Atenágoras de Atenas, Santo Irineu de Lião, Santo Hipólito e Tertuliano. Mais tarde, com base nesses desenvolvimentos, o grande Santo Agostinho, Bispo de Hipona, irá expor, em obra magistral intitulada De Trinitate, uma compilação do autêntico entendimento católico sobre o tema, e Santo Tomás de Aquino reunirá esse conhecimento, prestando à Igreja uma ajuda inestimável nesse assunto.

As heresias principais que entenderam erradamente a Santíssima Trindade ou atacaram o ensino católico acerca de tal doutrina foram o sabelianismo, o arianismo e o macedonianismo.

O sabelianismo, monarquianismo, ou modalismo, foi um erro defendido por Sabélio, que negava a Trindade de Pessoas. Com o intuito de melhor assegurar a unidade de natureza em Deus, confundindo os termos, sustentavam os sabelianos que o Pai, o Filho e o Espírito Santo eram tão somente modos de manifestação divina, ou de compreensão do Criador. Para eles não havia três Pessoas distintas, mas uma só – confundindo a existência trina das Pessoas com a natureza una de Deus –, que se manifestava de três modos. Para Sabélio, “Pai, Filho e Espírito Santo são apenas nomes diferentes de um ser único.” (ZILLES, Mons. Urbano. “Jesus Cristo. Quem é este?” Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999; p. 218) O Papa Calixto I excomungou Sabélio e seus sequazes modalistas.

Querendo, por sua vez, assegurar a diferença entre as Pessoas, Ario, sacerdote da Igreja de Alexandria, negou a divindade de Cristo, o Filho, atribuindo-Lhe uma natureza diferente. Se Sabélio confundiu os termos, dizendo que eram o Pai, o Filho e o Espírito Santo da mesma natureza e a mesma Pessoa, o arianismo irá dizer que, sendo Pessoas distintas, são também de naturezas distintas. Como veremos, a posição católica está justamente em que há – como bem distingue Sabélio, ao contrário de Ario – a uma só natureza divina em três Pessoas distintas – como diz Ario, negando o “ensino” sabeliano. Ario considerava o Filho “como criatura do Pai” (Idem. op. cit.), pois para ele “Cristo não era Deus” (Idem. op. cit.). “Considerava, numa perspectiva neoplatônica, que só o Pai é eterno, incriado e imutável e, em sentido estrito, merece o nome de Deus. O Filho, criado do nada, é a primeira e mais excelente das criaturas. (...) ...não é da mesma substância do Pai.” (idem. op. cit.) Contra os erros de Ario foi convocado o Concílio Ecumênico de Nicéia I, em 325, a partir do qual o movimento foi perdendo força, principalmente pela atuação militante de Santo Atanásio, que não deu quartel à heresia. Retirando-se do Oriente, foi encontrar apoio somente nos bárbaros que iriam invadir o Império Romano, sendo finalmente vencidos pela constante oposição que lhe fizeram Santa Clotilde e os reis francos convertidos ao catolicismo.

Outra heresia anti-trinitária foi uma espécie de arianismo do Espírito Santo. O heresiarca Macedônio aceitou a divindade do Filho, mas negou a do Espírito, sendo por isso convocado outro sínodo, o Concílio Ecumênico de Constantinopla I. O macedonianismo pregava que, embora o Filho seja Deus, participe da mesma divindade de Deus, ainda que seja uma Pessoa distinta, o Espírito Santo é uma criatura, uma espécie de anjo enviado pelo Criador para executar Suas ações no mundo. Santo Atanásio novamente ataca as proposições heréticas e consegue ver em Constantinopla confirmada a doutrina católica, que será mais tarde desenvolvida pelos Padres Capadócios, por São Máximo, o Confessor, e por Santo Agostinho.

Qual é, pois, a ortodoxia, i.e., a doutrina correta, a verdade revelada por Deus, e guardada pela Igreja Católica, e explicitada pela mesma através de seu Magistério? Qual a autêntica verdade católica acerca da Trindade de Pessoas em Deus? Que diz o dogma que versa sobre o mistério da Santíssima Trindade? Sabemos que existe um mistério – Santíssima Trindade –, que, por isso mesmo, é inacessível em sua plenitude, mas que, sendo revelado por Deus, foi ensinado pela Igreja, que o definiu em dogma com termos bem precisos, já citados em parte: há um só Deus em três Pessoas, uma só natureza divina existente em três Hipóstases divinas. Os grandes teólogos, principalmente os santos aludidos acima, ajudaram a desenvolver o entendimento do mistério e do dogma. Santo Tomás de Aquino, na Idade Média, utilizou a razão para associar-se ao dado revelado e nos fornecer uma fantástica exposição sobre a Trindade. Vimos que o Pai, o Filho e o Espírito Santo têm a mesma natureza e ainda assim são Pessoas distintas.

Ora, tal distinção não pode existir em função da natureza, eis que ela é a mesma para todas as três Pessoas. Por outro lado, as Pessoas divinas também não se distinguem por suas perfeições nem por suas obras exteriores. Assim, nenhuma das Pessoas é mais poderosa ou mais sábia, pois, sendo igualmente o mesmo e único Deus, todas as três têm a mesma sabedoria e o mesmo poder. Tendo, enfim, pelo mesmo poder, idêntica onipotência – sob pena de não ser Deus quem não a tenha –, não se distinguem pelas obras exteriores as Pessoas divinas. A distinção está, como bem ensinou o Aquinate, nas relações de origem: o Pai não provém de nenhuma Pessoa; o Filho é gerado pelo Pai; o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. São essas relações de origem, relações de oposição, que distinguem uma Pessoa da outra. Bem definiu o Concílio Ecumênico de Florença, realizado no medievo, que “tudo é uno, a não ser quanto a oposição de relações.” (DS 703/1330)

O Pai não é o Filho, unicamente porque este é gerado por aquele, enquanto o Filho não é o Espírito Santo exatamente porque este é procedido do primeiro e do Pai. O Pai é igual ao Filho e ao Espírito Santo em sua natureza, mas destes se distingue pela sua relação de origem: é causa não proveniente de nenhuma Pessoa. O Filho é igual ao Pai e ao Espírito Santo em sua natureza, mas destes se distingue pela sua relação de origem: é gerado pelo Pai. O Espírito Santo é igual ao Pai e ao Filho em sua natureza, mas destes se distingue pela sua relação de origem: procede do Pai e do Filho. Notemos que, por sua perfeição, característica própria de Deus, pela mesma natureza eterna, a não proveniência do Pai, a geração do Filho, e a processão do Espírito Santo, são igualmente eternas. O Filho, como veremos, não é gerado em um dado momento histórico, mas, segundo a linguagem do Credo, “nascido do Pai antes de todos os séculos.” (Símbolo Niceno-constantinopolitano) O Espírito Santo, por Sua vez, não procede do Pai e do Filho em uma circunstância histórica. O Filho é gerado eternamente, i.e., desde sempre, não iniciou a ser gerado. O Espírito Santo procede eternamente, i.e., desde sempre, não iniciou a proceder.

Como se dá essa geração do Filho e essa processão do Espírito Santo é o tema deste item. O Pai, causa sem proveniência, é perfeito, e, por Sua perfeição, é levado a contemplar-Se. Nós, seres humanos, quando vemos algo belo, que reflete a perfeição divina, somos inclinados a contemplar essa beleza, temos a tendência de contemplação da beleza. Quanto mais Deus que pode contemplar de maneira mais excelente, e, ainda por cima, é a própria beleza e perfeição. O Pai, ao contemplar Sua perfeição, forma dela um conceito. Nós também, sempre que olhamos para algo, formamos, em nossa mente, um conceito, uma palavra. O Pai, quando contempla Sua perfeição, forma, então uma conceito dessa perfeição, e tal conceito é tido como Verbo, Logos (pois são termos para expressar essa palavra, esse conceito que é formado em quem contempla algo). Ora, se o Pai, que Se contempla, é perfeito, Seu Verbo também o é, pois o objeto da contemplação é o próprio Deus e Sua perfeição. A imagem que é formada em Deus pela contemplação de Si mesmo é da mesma natureza que o objeto da contemplação. Se o Pai contempla a Si, a imagem, o conceito, o Verbo, o Logos, formado pela contemplação é da mesma Sua natureza. Ao contemplar uma bola, formamos o conceito de uma bola. Ao contemplar um quadro, formamos o conceito de um quadro. Ao Deus contemplar Deus, forma-se o conceito de Deus. Essa contemplação que forma um conceito é chamada geração, sendo que o Verbo gerado é o Filho.

Assim, o Filho é da mesma natureza do Pai, pois sendo Este quem contempla, Aquele é a própria imagem da contemplação. Por outro lado, quando vemos algo belo, e o conhecemos, o amamos. Assim, o Pai ao contemplar-Se, gera o Filho, e, por conhecê-Lo – afinal, é da mesma natureza, e possui, como atributo divino, a onisciência, i.e., o pleno conhecimento de tudo e todas as coisas –, O ama. Por sua vez, se o Filho também é Pessoa – pois o conceito da perfeição em Deus é igualmente perfeito e, portanto, Pessoa, com os mesmos atributos e a mesma natureza –, é capaz de amar o Pai. Esse Amor entre o Pai e o Filho, entre o Contemplador e a Imagem formada pela contemplação, é propriamente o Espírito Santo. Como é o amor entre uma perfeição e outra, trata-se também de uma perfeição e, por isso mesmo, pessoal. Assim, o Amor entre o Pai e o Filho é também Pessoa, igualmente perfeita e divina. A inteligência é o ponto de entendimento da geração do Filho, e a vontade o da processão do Espírito Santo. O ato de intelecção perfeitíssimo do Pai ao contemplar-Se gera uma Imagem também perfeitíssima e, por isso, ela é Deus. Como é uma Imagem, um conceito da natureza de Deus, o Filho tem a mesma natureza do Pai. O ato de vontade perfeitísismo do Pai e do Filho ao Se amarem gera um Amor também perfeitíssimo e, por isso, ele é Deus. Como é um Amor da natureza de Deus – do Pai pelo Filho e do Filho pelo Pai –, o Espírito Santo tem a mesma natureza do Pai e do Filho.

O Pai é tem esse nome porque d´Ele é que saem as demais Pessoas divinas. O Filho é assim chamado por causa de Sua geração do Pai. É Jesus Cristo chamado Filho em sentido próprio, uma vez que Sua filiação é dada por natureza – nós, como veremos, somos filhos de Deus pela graça. O Espírito Santo, porém, em Seu nome não explicita nenhuma diferença, uma vez que também o Pai e o Filho são espíritos e santos. O nome próprio do Espírito Santo, segundo Santo Agostinho, é Amor, pois que é o amor entre o Pai e o Filho. Como esse amor é mútuo, e tudo que o Pai tem também o tem o Filho, o Espírito Santo não é gerado somente pelo Pai, mas pelo Pai e pelo Espírito Santo, ainda que nesse sentido fosse originalmente mudo o Credo de Constantinopla. A Igreja acrescentou ao Símbolo que o Espírito procede do Pai “e do Filho” (em latim, Filioque), o que foi negado por Fócio, Patriarca de Constantinopla, condenado pela autoridade eclesiástica e deposto de sua dignidade por usurpar o trono patriarcal. Fócio deu origem ao cisma, consumado em 1054, pelo Patriarca Miguel Cerulário, ocasiando o surgimento da Igreja “ortodoxa”.

Como já ensinamos, à Trindade de Pessoas não se opõe a unidade de natureza. Devemos crer na unidade da natureza divina e na Trindade de Pessoas divinas. Podemos falar, face à distinção das Pessoas por Suas relações de origem, em atividades de cada uma delas no seio da Trindade, verdadeiras funções hispostática, i.e., personalíssima, ad intra. A função eterna, hipostática, do Pai, no seio da Trindade, na vida divina ad intra, é ser a causa, o princípio, a fonte da divindade. O Filho possui a função de ser gerado. Por Sua vez, o Espírito Santo é aquele que procede de ambos. Contudo, para que se evitem confusões – e já as temos demais no ambiente atual da Igreja! –, diferenciemos o termo “causa” como filosoficamente entendido e como se o formula em teologia. Na filosofia, a causa antecede a conseqüência; são dois eventos historicamente separados. Todavia, campo da teologia trinitária, quando dizemos que o Pai é causa do Filho e do Espírito Santo, não estamos separando-Os de modo que pareça ter havido um tempo no qual um d’Ele não existia, conforme já expusemos itens acima. Se o Filho é gerado pelo Pai, não há um evento histórico, datado, dessa geração, que se dá eternamente. Desde todo o sempre, o Filho é gerado pelo Pai, e o Filho procede dos dois. “Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos.” (Credo Niceno-constantinopolitano) Por isso, o Pai é Pai: n’Ele está a fonte da divindade, embora desde sempre tenham existido o Filho e o Espírito Santo, e os três, juntos ou isoladamente, sejam igualmente adoráveis, co-eternos e perfeitamente divinos. As três atividades ad intra são conhecidas como paternidade, geração e expiração (ou processão), e correspondem, à luz do que se viu aos movimentos próprios de cada Pessoa designando Sua origem que a distingue das outras, ainda que tenham todas a mesma, única e indivisível natureza divina.

Quanto à atividade ad extra de Deus é ela comum a todas as Pessoas. Falamos de atividade ad extra quando queremos designar a ação das Pessoas da Trindade Santíssima no mundo criado, fora do seio da Trindade. São atividades extradivinas, i.e., que não se relacionam somente com as próprias Pessoas divinas, como que a distingui-las, mas com as coisas criadas por Elas. Toda atividade externa é obra conjunta da Trindade. Não podemos dizer, assim, que só o Pai cria, que só o Filho redime dos pecados, que só o Espírito Santo santifica as almas. Não é possível dizer que, fora das relações intradivinas, alguma das Pessoas da Trindade executa algo que outra não faz. Tudo é comum. Quem age não é uma Pessoa divina isolada, mas as três, pois contata-se a natureza divina com o universo criado, seja ele visível – homem, animais, plantas, pedras etc – ou invisível – anjos, demônios, almas no céu, no inferno ou no purgatório. Dessa maneira, na Criação agem tanto o Pai, quanto o Filho e o Espírito Santo, e o mesmo na Redenção, na Santificação e em qualquer ação de Deus fora de Si mesmo.

Embora isso seja verdade – que as atividades ad extra são comuns às três Pessoas da Trindade – costuma-se atribuir a cada uma delas uma função especial. Assim, sem negar que cada atividade externa é comum a todas as Pessoas divinas, a Tradição da Igreja, por relacionar cada uma das três atribuições principais de Deus no mundo com a origem de alguma Hipóstase – já vimos que Hipóstase significa Pessoa –, soube identificar nessas atribuições a ação especial: do Pai, na Criação; do Filho, na Redenção dos homens do pecado; do Espírito Santo, na Santificação das almas. Claro que tanto o Pai quanto o Filho e o Espírito Santo criam, mas, por relacionar-se especialmente com a atividade ad intra de paternidade, tal atribuição de Criação é identificada como sendo própria do Pai. Ainda tanto o Pai quanto o Filho e o Espírito Santo redimem, salvam, mas, por relacionar-se especialmente com a atividade ad intra de ser gerado – e nisso, sendo o conceito formado pela contemplação, o Filho é também a Sabedoria de Deus, pois é gerado pela via da intelecção –, tal atribuição é identificada a Salvação, pois ela é obra da sabedoria. Por fim sabemos que tanto o Pai quanto o Filho e o Espírito Santo santificam, mas, por relacionar-se especialmente com a atividade ad intra de proceder – e a processão se dá pela via da vontade, pela manifestação do amor entre o Pai e o Filho –, tal atribuição de Santificação é identificada como sendo própria do Espírito Santo, pois o homem é santificado por amar a Deus e corresponder, pela fé, a Seu amor. Outros teólogos ensinam que as atribuições de cada Pessoa podem se dividir em obras de Onipotência para o Pai, obras de Sabedoria para o Filho, e obras de Amor para o Espírito Santo, advertindo que, ainda assim, os três atributos pertencem a cada uma das Pessoas em comum, pois fazem parte da própria natureza divina, única e indivisível.

Como cristãos, nosso dever é adorar a Santíssima Trindade, pois assim adoramos todas e cada uma das Pessoas divinas, iguais e distintas, sem confusão nem separação: “Na verdade, é justo e necessário, é nosso dever e salvação dar-vos graças, sempre e em todo o lugar, Senhor, Pai santo, Deus eterno e todo-poderoso. Com osso Filho único e o Espírito Santo sois um só Deus e um só Senhor. Não uma única pessoa, mas três pessoas num só Deus. Tudo o que revelastes e nós cremos a respeito de vossa glória atribuímos igualmente ao Filho e ao Espírito Santo. E, proclamando que sois o Deus eterno e verdadeiro, adoramos cada uma das pessoas, na mesma natureza e igual majestade.” (Missal Romano; Prefácio da Santíssima Trindade) Quando fazemos o sinal-da-cruz, invocando Deus “em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo”, estamos prestando culto à Trindade e dizendo que acreditamos nesse mistério, que professamos esse dogma. Ainda hoje, infelizmente, muitos dos que se dizem cristãos negam a divindade de Jesus Cristo, e não crêem no mistério da Santíssima Trindade, tendo-o por falso e errado. Entre esses novos arianos, que não acreditam na Trindade de Pessoas em Deus – e, portanto, pensam que Jesus é apenas um homem –, estão a seita dos testemunhas de Jeová, os espíritas (kardecistas, participantes de cultos africanos, e membros da Legião da Boa Vontade), e mesmo certo ramo dos mórmons. Há ainda alguns protestantes que não crêem na Trindade, embora a grande maioria deles, a despeito de seus outros muitos erros, a confessem. Até quem se diz católico e faz o sinal-da-cruz nem sempre acredita na Santíssima Trindade ou nem sabe o que significa. É nossa responsabilidade ensiná-los.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O Caminho do Dever


"A criança que, desde os mais tenros anos, for educada na honestidade e rectidão, cumprirá nobremente o seu destino quando se tornar homem, e atravessará a vida sem perigo de naufragar" - (Platão)

"Conheces a história de Hércules, o herói maior das lendas gregas? Foi um modelo de força e de bravura. Criancita ainda, sufocou duas serpentes que um inimigo, no malvado intuito de o fazer perecer, lhe tinha colocado no berço. Mais tarde, matou a hidra de Lerna e o touro de Creta; venceu as amazonas; limpou as cavalariças de Ogias; apoderou-se dos pomos de ouro das Hespéridas ... Ora, um dia aconteceu encontrar- se na bifurcação de dois caminhos. Qual deles seguiria?

Escola do caminho a seguir

Era chegado a época da adolescência. Duas mulheres se lhe apresentaram, e uma delas, tomando a palavra, dirigiu-se-Ihe nestes termos:

_ «Vejo, Hércules, o teu embaraço por não saberes como conduzir-te na vida. Não te preocupes mais. Ségue-me e eu te levarei por um caminho agradável onde só conhecerás prazeres. As dificuldades desaparecerão por si mesmas. O teu único cuidado será comer e beber. Vem. conheço o caminho do prazer fácil."

_ «Como te chamas ?» -perguntou Hércules.
_ «Os amigos chamam-me Felicidade; os inimigos, Vício

Voltou-se por sua vez para ele a segunda mulher e disse-lhe:

_ «Não quero de modo nenhum fascinar-te com falsas miragens. Prefiro dizer-te a verdade em toda a sua rudeza simples. Os deuses, Hércules, não concedem a felicidade, sem luta. Por isso, se me seguires, o teu trabalho será penoso. Se quiseres que a Grécia te honre por uma vida virtuosa, esforça-te por colaborar com ela no bem geral. Se desejares que a terra te prodigalize riquezas, toma a charrua e trabalha. Se aspirares a que a vitória te sorria no campo da batalha, vai a casa dos heróis e exercita-te no manejo das armas. Se, finalmente, quiseres que os teus músculos sejam rijos como o aço, sujeita o corpo ao espírito, suporta o pesado fardo da existência e sofre.»

- «Repara, Hércules, - interrompeu o Vício - como é duro o caminho por onde esta mulher deseja levar-te, enquanto eu te conduzirei tão fàcilmente à felicidade!....

- «Miserável- gritou a virtude - que felicidade podes tu dar? como te atreves a pronunciar sequer o nome de felicidade, se nada fazes para adquiri-Ia? Tu comes antes de ter fome e bebes antes de ter sede. No calor do estio reclamas neve. Queres descansar sem ter feito nada. Levas os teus sequazes ao amor ântes da idade prefixa pela natureza. Tu desonras a terra com a impudicícia do homem e da mulher. Habituas os teus partidários a praticar o mal durante a noite e a dormir durante o dia. Embora sejas imortal, os deuses evitam-te e os homens de bem desprezam-te. Teus jovens amigos arruínam o corpo e os mais velhos, a alma. Na juventude sacía-Ios de prazeres até os cansares de tédio para depois, quando atingirem a idade madura, os transformares em pobres vencidos da vida. Quanto a mim, convivo com os deuses e com o melhor dos homens. Nenhuma acção digna se faz sem mim; por isso os deuses e os homens honram-me. Os artistas veneram-me como seu amparo e os pais de família constituem-me guarda dos seus lares. O pão e o vinho têm um sabor agradável na boca dos que me seguem, porque só comem quando têm fome e só bebem quando têm sede. O sono é-lhes mais suave do que ao preguiçoso, porque não lhe sacrificam nenhum dos seus deveres. Os amigos estimam-nos.; a Pátria honra-os. E, quando chega o momento derradeiro, não são lançados no esquecimento; a sua memória continua a viver. Hércules, descendente de uma raça ilustre, se agires assim, adquirirás uma glória imortal.»

Isto li eu na história de Hércules, no terceiro livro dos Memoráveis de Xenofonte. Contei-to, - meu filho, porque também tu te encontrarás em face de dois caminhos, segundo as palavras da Escritura: «Os desejos da carne são contrários aos do espírito» (Gal. V; 17). Também tu serás obrigado a optar por um deles

Fonte: Tihamar Toth - Juventude Radiosa - Quadrante

sábado, 23 de julho de 2011

A Graça sobrepuja os Milagres



Por: M. J. Scheeben

"Não bastaria afirmar que a graça supera as coisas naturais, excede ela também aos milagres operados por Deus. Sabemos manifestar-se a graça divina de preferência nas obras de sua misericórdia. Onde mais se evidencia esta misericórdia é ao conferir Deus sua graça ao homem.

Vejamos como interpreta Santo Agostinho esta notável promessa do Salvador: "Os que nele creem farão coisas maiores do que aquelas que Ele próprio realizou na terra" Como exemplo disto — fala ele — poderia servir o caso de S. Pedro que, com sua sombra, curava os enfermos, coisa esta que não se lê de Nosso Senhor". Esta verdade brilha, porém, com maior clareza ainda, na obra da justificação, em que devem os fieis cooperar pessoalmente, tanto no que a eles se refere, como ao próximo, cada qual a seu modo. É certo não sermos nós que produzimos a graça, mas não é menos certo também que, com o auxílio de Deus, podemos nos preparar a recebe-la, fazendo-nos dignos dela, infundindo animo aos outros; podemos, numa palavra, operar coisas maiores que os milagres de Cristo.

Tanto para Deus como para os homens, a graça é mais gloriosa que os milagres. Pelo milagre, operado ordinariamente sobre a matéria, Deus restitui a saúde ou a vida. Pela graça, sua ação termina-se na alma, torna, por assim dizer, a cria-la, eleva-a sobre a própria natureza, deposita nela o germe da vida sobrenatural, reproduz-se nela, imprime-lhe a imagem de sua própria substância.

Não será porventura o mais estupendo milagre da Onipotência divina?

A graça supera a criação do céu e da terra; não se pode compara-la, senão com a eterna geração do próprio Filho de Deus. É ela, por isto, sobrenatural, grande, misteriosa, já que, segundo a frase de S. Leão, "nos faz participantes da geração de Cristo" (Sermo 21, 3. MPL 54,192)

Quando os santos operam milagres, deles se vale Deus como de intermediários, de modo algum intervindo o próprio poder deles. Quando, porém, nos dá a graca, exige Deus de nós uma cooperação mais íntima: quer que, com seu auxílio, nos preparemos a recebe-la; quer que a aceitemos, conservemos e aumentemos.

Dignidade maravilhosa que nos conferiu o Senhor! Uniu-se Ele à nossa alma como o esposo à esposa. Pode nossa alma, pela virtude que recebe, reproduzir em si a imagem divina, converter-se em filha de Deus! Admirável o poder concedido por Deus à sua Igreja, de comunicar, mediante seus ensinamentos e Sacramentos, a graça a seus filhos!

Poderás desejar coisa melhor e colaborar em obra mais bela? Queres realizar coisas grandiosas, que causem admiração, já não digo aos homens mergulhados em sua loucura, mas aos próprios anjos? Queres transformar-te em espetáculo para os anjos e o mundo? Trabalha por adquirir e aumentar a graça em ti e em teu próximo. Se conhecessem os homens a grandeza de sua atitude, quando, por um arrependimento sincero, rompem com o pecado e começam uma nova vida! Aí tendes obra mais grandiosa que ressuscitar um morto, ou tirar um homem do nada.

"Se Deus te fez homem, diz S. Agostinho, e tu,- bem entendido-, com a graça de Deus te fazes justo, realizas uma coisa melhor do que a produzida por Deus"

Se mediante um ato de arrependimento pudesses restituir a vida a teu irmão, serias tão cruel em não querer faze-lo? Por um ato de contrição podes ressuscitar, não já teu corpo, mas tua própria alma, e livra-la da morte eterna. E apesar disto vacilas, recusas o maravilhoso socorro oferecido por Deus!

Ensina-nos São João Crisóstomo que excede em muito ressuscitar uma alma ferida a ressuscitar um corpo morto. Com efeito, a não ser que esteja completamente cego, como pode preferir alguem levar uma vida dissipada, falgazã, a introduzir uma alma na vida eterna e na glória celeste? Se desejamos milagres para a conservação de nossa vida terrena, por que não colaboremos no milagre que restitui a vida da alma?

O arrependimento, embora de maravilhosa eficácia, não é o único meio de obter a graça; todas as boas obras sobrenaturais, realizadas em estado de graça, aumentam-na em nossas almas. Cada grau de graça adquirido coloca-nos muito acima de nossa natureza e nos une mais intimamente a Deus.

Se estivera em nossas mãos operar milagres materiais, ou realizar com toda a facilidade grandiosos trabalhos, por certo tudo faríamos para usar semelhante poder. Ser-nos-ia uma questão de honra não deixar improdutivo este capital. Imitaríamos aos poetas e artistas que se esforçam em produzir, constantemente, obras cada vez mais belas.

Consideremos a eficácia de toda ação para aumentar a graça e merecer a glória eterna; não deixemos passar um só instante sem amar a Deus, sem suplicar-lhe e adora-lo; envergonhemo-nos de dar um suspiro que não seja para Ele. Alegremo-nos com os Apóstolos por termos sofrido ao menos alguma coisa por Deus. Se compreendessemos quanto vale para aumentar nossa dignidade um só ato de virtude, buscaríamos todas as ocasiões propícias para realiza-lo. Ninguém seria tão cruel que recusasse curar um enfermo ou tornar rico um pobre se o pudesse, mediante uma modesta esmola. Não somos nós muito mais crueis para com nossa alma quando, a tão pequeno preço, lhe negamos um aumento da glória celeste?

Impregnemos todas as nossas ações do espírito de fé e de caridade, convencidos de que, com cada uma delas, adquirimos um grau superior de graça, coisa que excede em beleza a toda a natureza, e sobrepuja em grandeza aos próprios milagres.

Já a aquisição da graça é um dos maiores milagres.

Como não nos deixarmos, então, tomar de assombro por semelhante fenômeno? -Primeiramente, por ser ele invisível, e depois porque, diferentemente dos outros milagres que raras vezes e apenas excepcionalmente se dão, a graça se adquire segundo uma lei geral. Entretanto, seus caracteristicos acima lembrados deveriam torna-la-para nós mais preciosa. Não é visível, visto afetar a alma e não ao corpo; não podemos ve-la, como tão pouco vemos Deus, a quem ela nos une. Deixaria Deus de ser infinito, se, pela natureza chegassemos a ve-lo. Do mesmo modo a graça, caso se torne visível, deixaria de ser tao maravilhosa.

É -nos dada a graça segundo uma lei geral. Podemos adquiri-la mediante determinadas ações, manifestando-se melhor assim o amor e o poder de Deus; e esta portentosa obra da graça, não a realiza Deus, como nos milagres, parcamente em casos raros e excepcionais, em determinadas pessoas apenas, mas a faz acompanhar todos os nossos atos; desaparece ela, por assim dizer, na corrente de nossa atividade ordinária.

Senhor! Desprezaremos este dom, porque o ofereces a todos, continuamente e com tanta facilidade? Se a um só homem o concedesses e por uma única vez, como poderia sequer pensar em repeli-lo? Senhor, excite tua generosidade em nós a lembrança de tua bondade. Faze, Senhor que guardemos este dom com todas as nossas forças e honremos tua benevolência.

Fonte: As Maravilhas da Graça divina - Quadrante

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Os Quatro Nâo


O saudoso D. Estevão Bettencourt, se referia muitas vezes ao que chamava de “Os Quatro Nãos da história”, que segundo ele foram responsáveis pela situação de descrença, materialismo, ateísmo, relativismo moral e religioso que vivemos hoje.

Segundo o mestre de muitos anos, o primeiro golpe foi o “Não à lgreja Católica”, dito pela Reforma protestante (séc. XVI).

Muitos homens continuaram a crer no Evangelho e em Jesus Cristo; não, porém, na Igreja fundada por Cristo. Os princípios subjetivos do “livre exame”, “sola Scriptura”, não à Igreja e ao Papa, não à Tradição Apostólica, estabelecidos por Lutero e seus seguidores, promoveu um esfacelamento crescente da Cristandade pela multiplicação de novas “igrejas”. Cristo foi mutilado. Segundo Teilhard de Chardin, “sem a Igreja Cristo se esfacela”. A túnica inconsútil do Mestre foi estraçalhada.

Até esta época da História, o mundo Ocidental girava em torno do ensinamento da Igreja, assistida e guiada pelo Espírito Santo. A Reforma “quebrou o gelo”, e inaugurou a contestação à doutrina ensinada pela Igreja, depois de quinze séculos. A partir daí muitas outras contestações foram inevitáveis. É preciso lembrar que após o início da Reforma, a Igreja realizou o mais longo Concílio Universal, o de Trento (1545-1563), por dezoito anos, e nada mudou da doutrina que recebeu de Cristo e dos Apóstolos.

O segundo golpe foi dado no século XVIII: foi dito um “Não a Cristo”. Não à religião Revelada por Cristo. Surgiu por parte do Racionalismo, que teve a sua expressão mais forte na Revolução Francesa (1789). Os iluministas, positivistas, introduziram a deusa da razão na Catedral de Notre Dame de Paris. Muitos pensadores passaram a professar o deísmo (crença em Deus como ser reconhecido pela razão natural apenas), em lugar do teísmo (crença em Deus que se revelou pelos profetas bíblicos e por Jesus Cristo).

Depois do Não à Igreja, veio o Não a Cristo.

O terceiro golpe foi dado no século XIX: o “Não ao próprio Deus” oriundo do ateísmo em suas diversas modalidades ateístas. A tomada de consciência da história e da sua influência, tal como Darwin e os evolucionistas a propuseram, contribuiu para disseminar o historicismo que coloca a história acima de Deus. Daí surgiu o relativismo e o ceticismo, que impregnaram muitas correntes de pensamento de então até os nossos dias. Hoje o Papa Bento XVI fala de uma “ditadura do relativismo”; que tenta negar a verdade objetiva.

Infelizmente assistimos hoje o triste espetáculo de pesquisadores que escrevem livros ensinando o ateísmo; difundindo isso nas universidades e afastando os jovens de Deus, como se crer fosse um subdesenvolvimento cultural ou mental.A mudança de mentalidade foi se realizando em velocidade crescente, principalmente a partir de meados do século passado (1850): o desenvolvimento das ciências e da técnica deixou os homens mais ou menos atordoados diante de perspectivas inéditas, sem que soubessem, de imediato, fazer a síntese dos novos valores com os clássicos.

O quarto Não é dito ao homem. Depois do Não à Igreja, à Cristo, à Deus, agora, como consequência, assistimos ao triste Não dito ao homem

São Tomás de Aquino dizia que “quanto mais o homem se afasta de Deus, mais se aproxima do seu nada”. É o que acontece hoje. Sem Deus o homem é um nada. O Papa João Paulo II disse na primeira encíclica que escreveu – “Jesus Cristo Redentor do Homem” – afirmou que “o homem sem Jesus Cristo permanece para si mesmo um desconhecido, um enigma indecifrável, um mistério insondável”.Quer dizer, sem Deus, sem Jesus Cristo, o homem é um desorientado; não sabe de onde veio, não sabe quem é, não sabe o que faz nesta vida, não sabe o sentido da vida, da morte, do sofrimento. E na agonia desse mistério insondável vive muitas vezes no desespero, como muitos filósofos ateus que desorientaram a muitos.

Esse Não dito ao homem, conseqüência dos Não anteriores, se manifesta hoje na perda dos valores transcendentes da pessoa humana, o desprezo pela sua dignidade humana, o desaparecimento do seu valor intrínseco. Isto se manifesta nas aprovações aberrantes de tudo que há 20 séculos ninguém tinha dúvida em condenar: aborto, eutanásia, manipulação e destruição de embriões, “camisinhas”, sexo livre, “família alternativa”, “casamentos alternativos”, e tudo o mais que a Igreja continua a condenar como práticas ofensivas a Deus e ao homem.

Mas em nossos dias nota-se um retorno aos valores eternos, que a Igreja guardou fielmente através das tempestades. Muitos se dão por desiludidos do cientificismo e do tecnicismo, e procuram de novo no transcendental os grandes referenciais do seu pensar e viver. A busca do ateísmo cede lugar de novo à consciência de Deus e dos valores místicos, sem os quais a vida humana se auto-destrói. O homem moderno percebe que os frutos da tecnologia por si só não lhe satisfazem; a prova disso é que crescem as mazelas humanas: depressão, guerras, injustiças, imoralidade…

A sociedade moderna decaiu. O Modernismo, o Relativismo e o Indiferentismo Religioso dominaram o mundo. Os dogmas foram desprezados; a fé e a moral calcados aos pés. Em lugar de Deus o homem idolatra-se a si mesmo, o dinheiro, a Ciência, o prazer da carne, … o pecado. O mundo moderno não deu atenção ao Papa Pio IX quando este apontou os erros que lhe levariam ao caos em seu Syllabus; não quis ouvir a voz da Igreja no Concílio Vaticano I, quando este mostrou a harmonia entre fé e razão e a suprema autoridade do Papa. Não ouviu também o apelo dos Papa Leão XIII, Pio X, Pio XI, Bento XV, Pio XII… quando eles apontaram os males do mundo moderno em suas encíclicas de fundo moral e social.

O resultado de tudo isso é a decadência moral, ética e sobretudo religiosa que assistimos hoje, razão de tantas desordens, crises e sofrimentos. Tudo nos faz lembrar a máxima de São Paulo: “O salário do pecado é a morte” (Rm 6,23). Por tapar os ouvidos à voz de Deus anunciada ao mundo pelos últimos Papas, o mundo experimentou duas terríveis guerras mundiais com mais de 60 milhões de mortos, e depois a tragédia do nazismo e comunismo com mais de 100 milhões de vítimas,

A sociedade moderna, enfim, rejeitou a voz da Igreja e dos Papas e preferiu dar ouvidos aos hereges. Hoje querem destruir a Igreja com um programa laicista em escala mundial. Por isso tudo, o homem moderno mergulha no caos do pecado e nas sombras da desesperança e da morte. Eis que surge mais uma vez o Vigário de Cristo a falar da Esperança que nasce em Deus (Salvi Spes). Será que será ouvido?

Somente abandonando os “valores” modernistas e deixando-se guiar pela Igreja é que a nossa Civilização poderá superar suas crises e dores. Está na hora da Civilização Ocidental voltar-se novamente a Jesus Cristo, que a espera de braços abertos.

A Igreja terá novamente de salvar a nossa Civilização, que começa a desabar, como há 13 séculos quando ela desabou com o Império Romano. Estejamos preparados.

Queridos, este texto é ótimo e infelizmente não sei o seu autor. Rezemos por ele.