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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A vida da Graça - da parte do Homem na vida cristã



A Vida Espiritual - Explicada e Comentada - de Adolfh Tanquerey

É evidente que, se Deus operou tantas maravilhas, para nos comunicar uma participação da Sua vida, nós devemos, da nossa parte, corresponder às suas amorosas antecipações, aceitar com reconhecimento essa vida, cultivá-la e preparar-nos assim para essa bem-aventurança eterna que coroa dos nossos esforços na terra.

A gratidão faz-nos disso um dever; é que, de fato, não há melhor meio de agradecer um benefício que utiliza-lo para o fim para que nos foi concedido. O nosso interesse espiritual exige-o: porque Deus nos recompensará segundo os nossos méritos, e a glória no céu corresponderá aos graus de graça que houvermos conquistado pelas nossas boas obras:«Unusquisque autem propriam mercedem accipiet secundum, suum laborem» ; assim como, pelo contrário, se verá obrigado a castigar severamente aqueles que, resistindo voluntariamente as suas divinas finezas, tiverem abusado da graça; porquanto, como diz o apóstolo, «a terra que, abeberada pela chuva que cai amiúde sobre a erva útil àqueles por quem é cultivada, tem parte na bênção de Deus; mas, se não produz mais que espinhos e cardos é julgada de má qualidade e perto de ser amaldiçoada: Terra enim saepe venientem super se bibens imbrem et generans herbam opportunam illis a quibus colitur, accipit benedictionem a Deo: proferens autem spinas ac tributos, reproba est et maledicto proxima» .

É indubitável que Deus, que nos criou livres, respeita a nossa liberdade, e não nos santificará contra a nossa vontade; mas não cessa de nos exortar a que nos aproveitemos das graças que nos outorga tão liberalmente «Adiuvantes autem exhortamur ne in vacuum gratiam Dei recipiatis : Exortamo-vos a que não recebais a graça de Deus em vão". Ora, para correspondermos a essa graça, devemos antes de tudo praticar aquelas grandes devoções que expusemos no artigo precedente: devoção à Santíssima Trindade, devoção ao Verbo Encarnado, devoção à Santíssima Virgem, aos Anjos e aos Santos.

Nelas encontraremos, efetivamente, o mais eficaz dos motivos, para nos darmos completamente a Deus, em união com Jesus, e com a proteção dos nossos poderosos intercessores; nelas encontraremos outrossim modelos de santidade que nos traçarão o caminho que devemos trilhar, e mais ainda energias sobrenaturais que nos permitirão aproximar-nos cada dia do ideal de santidade proposto à nossa imitação. - Notemos aqui, porém, que expusemos essas devoções na sua ordem ontológica ou de dignidade. Na prática não é a devoção à Santíssima Trindade a que se exercita em primeiro lugar; começamos em geral pela devoção a Nosso Senhor Jesus Cristo e à Santíssima Virgem, e só mais tarde é que nos elevamos à Santíssima Trindade.

Mas não basta. É nos indispensável utilizar todo esse organismo sobrenatural de que somos dotados e aperfeiçoá-lo, a despeito dos obstáculos de dentro e de fora, que se opõem ao seu desenvolvimento.

1 - Visto como permanece em nós a tríplice concupiscência, que incessantemente tende para o mal e é atiçada pelo mundo e pelo demônio, o primeiro passo será combatê-la energicamente, bem como os seus poderosos auxiliares.

2 - Com aquele organismo sobrenatural que nos foi dado para produzir atos deiforrnes, meritórios da vida eterna devem multiplicar os nossos méritos.

3 - Como aprouve enfim à Bondade divina instituir Sacramentos, que produzem em nós a graça segundo a medida da nossa cooperação, é necessário aproximar-nos deles com disposições, quanto possível, perfeitas. Por esse meio conservaremos em nós a vida da graça, mais ainda, fá-Ia-emos crescer indefinidamente.

I. Da luta contra os Inimigos Espirituais:
Estes inimigos são a concupiscência, o mundo e o demônio: a concuspiscência, inimigo interior que trazemos sempre conosco; o mundo e demônio, inimigos exteriores, que atiçam o fogo da concupiscência.
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I. Luta contra a concupiscência
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São João descreveu a concupiscência neste texto célebre: «Omne quod est in mundo concupiscentia carnis est et concupiscentia oculorum et superbia vitae» O que vamos dizer será a explicação deste texto.

1. Concupiscência da Carne

A concupiscência da carne é o amor desordenado dos prazeres dos sentidos.

A) O mal. O prazer não é mau em si; Deus permite-o, ordenando-o a fim superior, o bem honesto; se liga o prazer a certos atos bons, é para facilitar e nos atrair assim ao cumprimento do dever. Gozar o prazer com moderação, referindo-o ao seu fim, que é o bem moral e sobrenatural, não é mal; é até um ato bom, pois que tende a um fim bom, que em última análise é Deus. Querer, porém, o prazer independentemente desse fim que legitima, querê-lo, por conseguinte, temente desse fim no qual se para, é desordem, pois é ir contra a ordem sapientíssima estabelecida por Deus. E esta desordem arrasta consigo outra: quem opera pelo prazer, fica exposto a amá-Io com excesso, porque já não se guia pelo fim que impõe limites à sede imoderada do prazer que existe em cada um de nós. Assim, por exemplo, quis Deus na sua sabedoria que um certo prazer andasse inerente à comida, para nos estimular a sustentar as força do corpo.

Mas, como bem diz Bossuet, «os homens ingratos e carnais tomaram ocasião deste deleite, para se afeiçoarem ao seu corpo mais que a Deus, que o havia feito ... O prazer do alimento cativa-os: em lugar de comerem para viver, parece como dizia um antigo, e depois dele Santo Agostinho, que não vivem senão para comer. Ainda aqueles sabem regular os seus apetites, e são levados à mesa pela necessidade da natureza, iludidos pelo prazer, e arrastados mais longe do que convém pelos seus engodos, são transportados para além dos justos limites; deixam-se insensivelmente ganhar pelo apetite, e não crêem jamais haver satisfeito inteiramente à necessidade, enquanto o comer e o beber lhes lisonjeiam a gosto». Daqui, excessos no comer e beber, opostos à temperança. E que dizer do prazer, ainda mais perigoso, da volúpia, «dessa profunda e vergonhosa chaga da natureza, dessa concupiscência que liga a alma ao corpo por laços tão amaviosos e violentos, de que tanto nos custa desprender-nos e causa também no gênero humano tão espantosas desordens?»

Este prazer sensual é tanto mais perigoso quanto é certo que se encontra espalhado por todo o corpo. A vista é por ele infeccionada, visto ser pelos olhos que começa a sorver o veneno do amor sensual. Os ouvidos são por ele infectados, quando, por meio de conversas perigosas e cantos eivados de moleza, se acendem ou se alimentam as chamas do amor impuro e essa disposição secreta que temos para os gozos sensuais.

E o mesmo se diga dos outros sentidos. - O que aumenta o perigo, é que todos esses prazeres sensuais se excitam uns aos outros; aqueles que seríamos levados a ter por mais inocentes, se não estamos continuamente de sobreaviso, preparam o caminho aos mais culpáveis. Há até mesmo uma certa moleza e delicadeza espalhada em todo o corpo que, levando-nos a buscar descanso no sensível, o despertam e lhe mantêm a viveza. Ama-se o corpo com uma paixão que faz esquecer a alma; um cuidado excessivo da saúde faz que se lisonjeie o corpo em tudo, e todos estes sentimentos ao outros tantos ramos da concupiscência

B) O remédio para tão grande mal é a mortificação do prazer sensual; porquanto, diz São Paulo: «Os que são de Cristo crucificaram a sua própria carne com os seus vícios e concupiscências: Qui autem sunt Christi, carnem suam crucifixerunt cum vitiis et concupiscentiis» . Ora crucificar a carne, diz M. Olier «é ligar, garrotar, sufocar interiormente todos os desejos impuros e desregrados, que sentimos em nossa carne»; é também mortificar os sentidos exteriores que nos põem em comunicação com os objetos de fora e excitam em nós desejos perigosos.

O motivo fundamental, que nos obriga a praticar esta mortificação, são as promessas do nosso batismo. Pelo batismo, que nos faz morrer ao pecado e nos incorpora em Cristo, somos obrigados a praticar esta mortificação do prazer sensual; porquanto, «segundo São Paulo, não somos já devedores da carne, para vivermos segundo a carne, mas somos obrigados a viver segundo o espírito; e, se vivemos pelo espírito, andemos segundo o espírito, que nos imprime no coração a inclinação para a cruz e a força de a levar»

O batismo de imersão pelo seu simbolismo, mostra-nos a verdade desta doutrina: imerso na água, o catecúmeno morre ali ao pecado e a suas causas, e, quando dela é retirado participa duma vida nova, a vida de Jesus ressuscitada. É a doutrina de São Paulo «Mortos ao pecado, como poderíamos ainda viver no pecado? Ignorais porventura que todos quantos fomos batizados em Cristo Jesus, foi na sua morte que fomos batizados? Porquanto, fomos juntamente sepultados com Ele pelo batismo em sua morte, para que, assim como Cristo ressurgiu dos mortos, pela glória do Pai, assim também nós andemos numa vida nova».

Assim pois a imersão batismal significa a morte ao pecado; e a obrigação de lutar contra a concupiscência que tende ao pecado; e a saída da água exprime a vida nova pela qual participamos da vida ressuscitada do Salvador O batismo obriga-nos, pois, a mortificar a concupiscência que fica em nós, e a imitar o Nosso Senhor Jesus Cristo que, crucificando a sua carne, nos mereceu a graça de crucificar a nossa. Os cravos, com que a crucificamos, são precisamente os diferentes atos de mortificação que praticamos. Tão imperiosa é esta obrigação de mortificar o prazer que daqui depende a nossa salvação e vida espiritual: "Porque, se viverdes segundo a carne, morrereis, mas, se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis: Si enim secundum carnem vixeritis, moriemini; si autem spiritu facta carnis mortificaveritis, vivetis".

Para ser completa a vitória, não basta renunciar aos prazeres maus (o que é de preceito); é mister ainda sacrificar os prazeres perigosos que conduzem quase infalivelmente ao pecado, em virtude do princípio: «qui amat periculum, in ilJo peribit»; mais ainda, é necessário privar-se de alguns dos prazeres lícitos, a fim de robustecer assim a vontade contra a sedução do prazer vedado: é que, efetivamente, quem quer que saboreia sem restrição todos os deleites permitidos, está bem perto de resvalar aos que o não são.

A concupiscência dos olhos (curiosidade e avareza)

A) O mal.

A concupiscência dos olhos compreende duas coisas: a curiosidade doentia e o amor desordenado dos bens da terra.

a) A curiosidade, de que se trata, é o desejo imoderado de ver, ouvir, conhecer o que se passa no mundo, por exemplo, as secretas intrigas que nele se urdem, não para daí tirar algum proveito espiritual, mas para gozar desse frívolo conhecimento. Estende-se aos séculos passados, quando revolvemos a história, não para colher nela exemplos proveitosos à vida humana, senão para apascentar a imaginação com todos os objetos que lhe prazem. Abraça mormente todas as falsas ciências divinatórias pelas quais se pretende esquadrinhar as coisas secretas ou futuras, cujo conhecimento Deus para si reservou: «é, pois, usurpar os direitos de Deus, é destruir a confiança com que nos devemos entregar à sua vontade»

1. Esta curiosidade estende-se até às ciências verdadeiras e úteis, quando um se lhes entrega com demasia, ou fora de tempo; faz-nos então sacrificar obrigações mais importantes, como sucede aos que lêem toda a qualidade de romances, comédias ou poesias. «Porquanto, tudo isso não é mais que uma intemperança, uma doença, um desregramento do espírito, um entibiamento do coração, um miserável cativeiro, que não nos deixa tempo de pensar em nós, enfim uma fonte de erros»

b) A segunda forma desta concupiscência é o amor desordenado do dinheiro; umas vezes considera-se como instrumento para adquirir outros bens, por exemplo, prazeres ou honras; outras vezes apega-se o coração ao dinheiro por ele mesmo, para o contemplar, apalpar e encontrar na sua posse uma certa segurança para o futuro: é a avareza propriamente dita. Num e noutro caso expõe-se o homem a cometer muitos pecados; porque este desejo imoderado é fonte de muitas fraudes e injustiças.

. B) O remédio.

a) Para combater a vã curiosidade, importa recordar que o que não é eterno é indigno de fixar e reter a atenção de seres imortais como nós. A figura deste mundo passa, não há senão uma coisa que permance: Deus e o céu, que é a eterna posse de Deus. Não devemos, pois, tomar interesse a valer senão pelas coisas eternas; porquanto, o que não é eterno, não é nada: quod aeternum non est, nihil est. É certo que os acontecimentos presentes, como os dos séculos passados, podem e devem interessar-nos, mas somente na medida em que contribuem para a glória de Deus ou salvação dos homens. Quando Deus criou o mundo e tudo quanto existe, não teve senão um fim: comunicar a Sua vida divina às criaturas inteligentes, aos Anjos e aos homens, e recrutar eleitos. Tudo o mais é acessório, e só deve ser estudado como meios para Deus e para o céu .

No que diz respeito ao amor desordenado dos bens da terra, é mister recordar que as riquezas não são fim, senão meio que nos dá a Providência para acudir às nossas necessidades; que Deus é sempre soberano Senhor das riquezas, que nós não somos afinal mais que administradores e que teremos de dar conta do seu uso: «redde rationem villicati-onis tuae É, pois, consumada prudência consagrar uma larga parte do superfluo a esmolas e boas obras: é acomodar-se aos desígnios de Deus que quer que os ricos sejam, por asssim dizer, os ecônomos dos pobres; é colocar no banco do céu um depósito, que nos será restituído centuplicamente quando entrarmos na eternidade: «Entesourai antes para vós tesouros onde nem ferrugem nem a traça destroem, e onde os ladrões não desenterram nem furtam: thesaurizate autem vobis thesaurus in caelo, ubi neque aerugo neque tinea demolitur, et ubi fures non effodiunt nec furantur

E é este o meio de desapegar nossos corações dos bens terrestres para os elevar até Deus: «Porquanto, acrescenta Nosso Senhor, onde está o teu tesouro, aí está o teu coração: «Ubi enim est thesaurus tuus, ibi est et cot tuum.» . Busquemos, pois, antes de tudo o reino de Deus, a santidade e o demais nos virá por acréscimo. Para o homem alcançar a perfeição, tem que fazer mais ainda; tem que praticar a pobreza evangélica: «Bem aventurados os pobres de espírito: Beati pauperes spiritu». O que de três maneiras se pode fazer, segundo as inclinações e possibilidades de cada um:

1 - Vender todos os seus bens e dá-los aos pobres: «Vendite quae possidetis et date eleemosynam»
2 - Colocar tudo em comum, como se pratica em certas Congregações;
3 - Conservar a propriedade e despojar-se do uso, não despendendo nada senão conforme o parecer de um prudente diretor.

Como quer que seja, o coração deve estar desprendido das riquezas, a fim de voar para Deus. É isto exatamente o que nos recomenda Bossuet: "Felizes os que, retirados humildemente na casa do Senhor se deleitam na nudez das suas pequeninas celas, e em todas as pobres alfaias de que têm necessidade nesta vida, que não é mais que uma sombra de morte, para em tudo isso não verem mais que a sua fraqueza e o jugo pesado com que o pecado os esmagou. Ditosas as Virgens sagradas, que não querem ser mais espetáculo do mundo, e desejariam esconder-se a si mesmas sob o véu sagrado que as envolve. Bendito o doce constrangimento a que se sujeitam os olhos, para não verem as vaidades, e dizerem com Davi : Afastai os meus olhos, a fim de as não verem! Ditosos aqueles que ficando, conforme o seu estado, no meio do mundo ... , não são por ele tocados, que passam por ele, sem se lhe apegarem ... que dizem com Ester sob o diadema: «Vós sabeis, Senhor, quanto eu desprezo este sinal de orgulho e tudo quanto pode servir à glória dos ímpios; e que vossa serva jamais se regozijou senão em vós unicamente, Deus de Israel».

Da soberba da vida

A) O mal.

«O orgulho, diz Bossuet , é uma depravação mais profunda: por ele o homem, entregue a si mesmo, considera-se como seu próprio Deus, pelo excesso do seu amor próprio». Esquecendo que Deus é o seu primeiro princípio e último fim, estima-se a si mesmo em excesso, aprecia as verdadeiras ou pretensas qualidades, como se foram suas, sem as referir a Deus. Daí esse espírito de independência ou de autonomia que o leva a subtrair-se à autoridade de Deus ou dos seus representantes; esse egoísmo que o inclina a operar para si mesmo como se fora o seu próprio fim: essa vã complacência que se deleita na própria excelência, como se Deus não fosse dela o autor; que se compraz em suas boas obras, como se elas não fossem, antes de tudo e principalmente, resultado da ação divina em nós; essa tendência a exagerar as próprias qualidades, a atribuir-se outras que não possui, a preferir-se aos demais, até por vezes a desprezá-los, como fazia o Fariseu.

A este orgulho vem juntar-se a vaidade, pela qual se busca desordenadamente a estima, a aprovação, o louvor dos outros. É o que se chama vanglória. Porquanto, como faz notar Bossuet , «se estes louvores são falsos ou injustos, que enorme é o meu erro em neles tanto me comprazer! E, se são verdadeiros, donde me vem esse outro erro, de me deleitar menos com a verdade que com o testemunho que lhe prestam os homens?»

Coisa estranha, na verdade! Mais nos desvelamos pela estima dos homens que pela virtude em si mesma, e mais humilhados 'nos sentimos de uma inadvertência pública que duma falta secreta. Quando este defeito se vem a assenhorear de alguém, não tarda em produzir outros: a jactância, que nos inclina a falar de nós mesmos, dos nossos triunfos; a ostentação que procurar atrair a atenção pública pelo luxo e fausto; a hipocrisia, que se mascara dos exteriores da virtude, sem se importar de a adquirir.

Os efeitos do orgulho são deploráveis: é o maior inimigo da perfeição.

1- Porque rouba a Deus a sua glória, e por isso mesmo nos priva de muitas graças e merecimentos, pois Deus não quer ser cúmplice da nossa soberba;
2 - É fonte de numerosos pecados: pecados de presunção, punidos com quedas lamentáveis e vícios odiosos; de desânimo, quando o orgulho vê que caiu tão baixo; de dissimulação, porque lhe custa confessar as suas desordens; de resistência aos superiores, de inveja e ciúme a respeito do próximo. etc.

O remédio é:

a) referir tudo a Deus, reconhecendo que Ele é o autor de todo bem e que, sendo o primeiro princípio das nossas ações, deve ser o seu último fim. É este o remédio que sugere São Paulo Que tens , que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se o não houvera recebido?Donde conclui que todas as nossas ações devem tender à glória de Deus. "Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus». E, para lhes dar mais valor, tenhamos cuidado de as fazer em nome, na virtude de Jesus Cristo. "Tudo que fazeis, por palavra ou por obra, fazei-o em nome do Senhor,dando por Ele graças ao Pai».

b)Como porém, a nossa natureza nos leva constantemente a buscar-nos a nós mesmos, é necessário para reagir contra esta tendência, lembrar-nos que de nós mesmos não somos mais que nada e pecado. Há em nós, sem dúvidas, boas qualidades naturais e sobrenaturais, que soberanamente devemos estimar e cultivar; mas, como estas qualidades vem de Deus, não é porventura a Deus que por causa delas devemos glorificar? Quando um artista saiu com uma obra-prima, a quem se devem os elogios? A tela ou ao seu autor?

Ora, de nós mesmos, não temos mais que o nada: «Eis o que éramos de toda a eternidade; e o ser, de que Deus nos revestiu, não é de nós, é de Deus: e, posto que nos tenha sido dado, não cessa contudo de ser ainda dom de Deus, pelo qual quer ser honrado».

Mais ainda: de nós mesmos somos pecado, neste sentido, que pela concupiscência tendemos para o pecado, de tal modo que, segundo Santo Agostinho, se não cometemos certos pecados, é à graça de Deus que o devemos: "Gratiae tuae deputo et quaecumque non feci mala. Quid enim non facere potui, qui etiam gratuitum facinun amavi?»

O que M. Olier explica assim: «O que vos posso dizer a este respeito, é que não há espécie de pecado que se possa conceber, não há imperfeição nem desordem, não há erro nem confusão, de que a carne não esteja repleta; de tal sorte que não há espécie de leviandade, não há espécie de loucura nem insensatez que a carne não fosse capaz de cometer a toda a hora».

É certo que a nossa natureza não está totalmente corrompida, como pretendia Lutero; pode fazer, com o concurso de Deus, natural ou sobrenatural, algum bem, e até faz muito bem, como se vê nos Santos; mas, como Deus fica sendo a sua causa primeira e principal é a Ele que por isso são devidas as graças.

Concluamos, pois, com Bossuet: "Não presumais de vós mesmos, porque isso é princípio de todo o pecado ... Não desejeis a glória dos homens, porque teríeis recebido a vossa recompensa, e não teríeis que esperar senão verdadeiros suplícios. Não vos glorifiqueis a vós mesmos: pois tudo quanto vos atribuís nas vossas boas obras, roubai-lo a Deus que é o seu autor, e pondes-vos em seu lugar. Não sacudais o jugo da disciplina do Senhor; não digais dentro de vós mesmos, como um soberbo orgulhoso: Não servirei; porque se não servis à justiça, sereis escravo do pecado e filho da morte. Não digais: Não estou manchado; e não creais que Deus tenha esquecido os vossos pecados, porque vós mesmos os esquecestes; porquanto o Senhor vos despertará, dizendo-vos: «Vede os vossos caminhos neste valezinho secreto: segui-vos por toda a parte e contei todos os vossos passos. Não resistais aos sábios conselhos e não vos arrebateis, quando vos repreendem: porque é o cúmulo do orgulho levantar-se contra a própria verdade, quando ela vos adverte, e recalcitrar contra a espora».

Procedendo desta maneira, seremos mais fortes para lutar contra o mundo, o segundo dos nossos inimigos espirituais

Luta contra a Mundo

O mundo, de que neste lugar se trata, não é o conjunto das pessoas que vivem na terra, entre as quais se encontram juntamente almas escolhidas e ímpios. É o complexo daqueles que são opostos a Jesus Cristo e escravos da tríplice concupiscência. São pois:

1 - Os incrédulos, hostis à religião, precisamente porque ela condena o seu orgulho, a sua sensualidade, a sua sede imoderada das riquezas;
2 - Os indiferentes, que não querem saber duma religião que os obrigue a sair da sua indolência;
3 - Os pecadores impenitentes, que amam o seu pecado, porque amam e não se querem desembaraçar dele;
4 - Os mundanos, que crêem e até praticam a religião, mas aliando-a ao amor do prazer, do luxo, do bem-estar, e que por vezes escandalizam seus irmãos, crentes ou incrédulos, fazendo-lhes dizer que a religião tem pouca influência sobre a vida moral. - Tal é o mundo que Jesus amaldiçoou por causa dos seus escândalos. «Vae mundo a scandalis"e do qual São João disse que estava todo inteiramente mergulhado no mal

Os perigos do mundo. O mundo, que penetra até nas famílias cristãs e ainda nas comunidades, pelas visitas que se fazem ou recebem, pelas correspondências, pela leitura dos livros ou dos jornais mundanos, é um grande obstáculo à salvação e perfeição; desperta e atiça em nós o fogo da concupiscência; seduz-nos e aterra-nos.

A - Seduz-nos pelas suas máximas, pelo estadear das suas vaidades, pelos seus exemplos perversos.

a) suas máximas, que estão em oposição direta com as máximas evangelicas. É com efeito o mundo elogia a felicidade dos ricos, dos fortes ou até dos violentos, dos filhos da fortuna, dos ambiciosos, dos que sabem gozar da vida. Com que eloqüência prega o amor do prazer: "Coroemo-nos de rosas, antes que elas murchem". Então, diz ele, não é um dever sagrado aproveitar a mocidade, gozar da vida? Há muitos outros que assim fazem, e Deus que é tão bom, não pode condenar a toda gente. - Ora! É preciso ganhar a vida, e, se fôssemos escrupulosos em questão de negócios, não chegaríamos nunca a enriquecer.

b) Pelo estadear das suas vaidades e dos seus prazeres: a maior parte das reuniões mundanas não têm por fim mais que lisonjear a curiosidade, a sensualidade e até mesmo a voluptuosidade. Para tornar o vício atraente, dissimula-se sob forma de divertimentos que se chamam honestos, mas não deixam de ser perigosos, como os vestidos decotados, as danças, algumas delas sobretudo que não parecem ter outro fim senão favorecer olhares lascivos e enlaces sensuais. E que dizer da maior parte das representações teatrais, dos espetáculos oferecidos ao público, dos livros licenciosos que expõem por toda a parte?

c) Os maus exemplos não vêm, infelizmente, senão aumentar o perigo; quando se vêem tantos jovens que se divertem, tantas pessoas casadas infiéis aos seus deveres, tantos comerciantes e homens de negócios que enriquecem por meios pouco escrupulosos, é forte a tentação de nos deixarmos arrastar a semelhantes desordens. - E depois, o mundo é tão indulgente para com as fraquezas humanas, que parece dar-lhes alento; um sedutor, é um homem galante; um financeiro, um comerciante que enriquece por meios pouco honestos, é um homem esperto: um livre pensador, é um homem sem preconceitos, que segue as luzes da sua consciência. Quantos se sentem alentados ao vício por apreciações tão benignas!

B) Quando nos não pode seduzir, trata o mundo de nos aterrar!

a) Por vezes, é uma verdadeira perseguição, organizada contra os crentes: privam-se da promoção, em certas repartições, os que cumprem publicamente os seus deveres religiosos, ou os que mandam os filhos a escolas católicas.

b) Outras vezes desviam-se da prática da religião os tímidos, metendo a riso os devotos, os tartufos, os ingênuos que acreditam em dogmas sediços, motejando das mães de família que persistem em vestir modestamente suas filhas, perguntando-lhes ironicamente se é assim que as esperam casar. E quantos, realmente, que vencidos do respeito humano, e mau grado os protestos da consciência, se deixam escravizar por essas modas tirânicas que já não respeitam o pudor!

c) em outras circunstâncias empregam-se ameaças: se fazeis assim alarde de vossa religião não há lugar para vós em nossos escritórios; se levais tão longe os melindres do pudor, é inútil vir às nossas salas; se sois tão escrupulosos, não vos posso empregar no meu serviço: é necessário proceder como toda a gente e enganar o público, para fazer dinheiro. E não há nada mais fácil do que deixar-se assim seduzir ou aterrar, pois que o mundo encontra um cúmplice em nosso próprio coração e no desejo natural que temos dos bons lugares, das honras, das riquezas.

O remédio

Para resistir a esta corrente perigosa, é necessário colocar-se corajosamente em frente da eternidade, e olhar o mundo com a luz da fé. Então nos aparecerá ele como inimigo de Jesus Cristo, que é preciso combater energicamente, para salvar a alma, e como teatro do nosso zelo, aonde devemos levar as máximas do Evangelho.

A) Já que o mundo é inimigo de Jesus Cristo, devemos tomar posição diamentralmente oposta às máximas e exemplos do mundo, repetindo-nos muitas vezes o dilema de São Bernardo «Ou Cristo se engana, ou o mundo erra; ora é impossível que a Sabedoria divina se engane: Visto que há oposição manifesta entre o mundo e Jesus é absolutamente necessário escolher posição, porque ninguém pode servir a dois senhores ao mesmo tempo. Ora, Jesus é a Sabedoria infalível; é pois, Ele que tem as palavras da vida eterna, e o mundo é que se engana. A nossa escolha, pois, bem depressa será feita: porquanto diz São Paulo, recebemos, não o espírito deste mundo, mas o Espírito que vem de Deus. Querer agradar ao mundo, acrescenta ele, é desagradar a Jesus Cristo"

E São Tiago acrescenta: "quem quer ser amigo do mundo, torna-se inimigo de Deus"

Por conseguinte, na prática:

1 - Ler e reler o Evangelho, dizendo-nos a nós mesmos que é a eterna verdade quem nos fala, e rogando àquele que o inspirou nos faça compreender, gostar e praticar as suas máximas: é assim que somos verdadeiramente cristãos ou discípulos de Cristo. Quando lemos, pois, ou ouvimos máximas contrárias às do Evangelho, digamo-nos corajosamente: é falso, pois é oposto à infalível verdade.

2 - Evitar as ocasiões perigosas, que por demais se encontram no mundo. É certo que aqueles que não vivem no claustro, são obrigados a conviver com o mundo numa certa medida; mas devem-se preservar do espírito do mundo, vivendo no mundo, como se não fossem deste mundo, pois que Jesus rogou a seu Pai, não que tirasse os seus discípulos do mundo, senão que os preservasse do mal. E São Paulo quer que usemos do mundo, como se dele não usássemos.

3 - É o que devem fazer sobretudo os eclesiásticos; como São Paulo, devem poder dizer que estão crucificados para o mundo, como o mundo está crucificado para eles: «Mihi mundus crucifixus est et ego mundo» . O mundo, sede da concupiscência, não pode ter encantos para nós; não pode inspirar-nos senão repulsão, assim como nós somos para ele um objeto de repulsa, porque o nosso caráter e o nosso hábito é uma condenação dos seus vícios. Devemos, pois, evitar as relações puramente mundanas, em que estaríamos deslocados. Já se entende que temos de fazer e receber visitas de cortesia, de negócios e sobretudo de apostolado; mas essas visitas serão curtas, e não esqueceremos o que se diz de Nosso Senhor depois da sua ressurreição, a saber, que Ele já não fazia a seus discípulos senão raras aparições, e essas eram para completar a sua formação e falar-lhes do reino de Deus

B) Não iremos, pois, ao mundo senão para exercermos direta ou indiretamente o apostolado, isto é, para lhe levarmos as máximas e os exemplos do Evangelho.

1 - Não esqueceremos que somos a luz do mundo: «Vos estis lux mundi»; e, sem transformarmos as nossas conversas numa espécie de pregação (o que pareceria descabido), apreciaremos tudo, as pessoas, os acontecimentos e as coisas à luz do Evangelho; em lugar de proclamarmos felizes os ricos e os fortes, observaremos, com toda a simplicidade que há outras fontes de felicidade diversas da riqueza e da fortuna, que a virtude encontra a sua recompensa já na terra, que as alegrias puras, saboreadas no seio da família, são as mais doces, que a satisfação do dever cumprindo consola muitos desgraçados e que uma boa consciência vale incomparavelmente mais que os inebriamentos do prazer.

Alguns fatos concretos, que citaremos, farão compreender estas observações.

Mas é sobretudo pelo exemplo que um sacerdote edifica no trato com o próximo: quando tudo, no seu porte e no seu falar, reflete a simplicidade, a bondade, a alegria franca, a caridade, numa palavra, a santidade, produz sobre os que o vêem e escutam, uma impressão profunda; ninguém se cansa de admirar aqueles que ajustam o viver às suas convicções, e estima-se uma religião que sabe inspirar virtudes tão sólidas. Ponhamos, pois, em prática o que nos diz Nosso Senhor: «Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus: «5ic luceat lux vestra coram hominibus, ut videant opera vestra bana et glorificent Patrem vestrum qui in caelis est» . E não são unicamente os sacerdotes que praticam este gênero de apostolado; os leigos de arraigadas convicções exercem influência tanto mais benéfica qto é menor a prevenção com que se olham os seus bons exemplos.

2 - É a estes homens de eleição e aos sacerdotes que pertence inspirar aos cristãos mais tímidos a coragem de lutar contra a tirania do respeito humano, da moda ou da perseguição legal. Um dos melhores meios é formar ligas ou associações, compostas de cristãos influentes e corajosos que não temam falar e proceder consoante as suas convicções. Foi assim que os Santos reformaram os costumes do seu tempo. Foi assim que se fundaram nas nossas grandes Escolas e até no Parlamento, grupos compactos que sabem fazer respeitar as suas crenças religiosas e arrastar os hesitantes. No dia em que esses grupos se houverem multiplicados não somente nas cidades mas ainda nos campos, o respeito humano estará bem perto de ser exterminado, e a verdadeira piedade, se não for praticada por todos, será ao menos respeitada.

Por conseguinte, na prática, nada de pactuações com o mundo no sentido em que o definimos, nada de concessões para lhe agradar ou atrair a sua estima. Como diz com razão São Francisco de Sales , «façamos o que fizermos, o mundo mover-nos-á sempre guerra ... Deixemos esse cego, Filotea: deixemo-lo gritar quanto quiser, como uma coruja, para inquietar as aves do dia. Sejamos firmes em nossos projetos, invariáveis em nossas resoluções; a perseverança fará ver bem se estamos desinteressadamente e deveras sacrificados a Deus e consagrados à vida devota». (Introdução à vida devota, V. P. ch. I)

Luta contra o Demônio

Existência e razão de ser da tentação diabólica.

Vimos anteriormente, como o demônio, invejoso da felicidade de nossos primeiros pais, os incitou ao pecado, e bem demais lhe sucederam suas traças; e, assim, o livro da Sabedoria declara que «foi pela inveja do demônio que a morte entrou no mundo: Jnvidia diaboli mors introivit in orbem .

Desde esse momento não cessou de mover guerra aos descendentes de Adão, de lhes estender armadilhas; e posto que, depois da vinda de Nosso Senhor à terra e do seu triunfo sobre Satanás, o império deste inimigo tenha declinado muitíssimo, nem por isso continua sendo menos verdade que temos de lutar não somente contra a carne e sangue, mas ainda contra o poder das trevas e os espíritos malignos.

É São Paulo que no-lo diz: «Não temos que lutar unicamente contra a carne e sangue, mas contra ... os espíritos malignos. Quoniam non est nobis colluctatio adversus carnem et sanguinem, sed adversus ... mundi rectores tenebrarum harum, contra spiritualia nequitiae».

São Pedro compara o demônio a um leão rugidor que gira em torno de nós para nos devorar: «Adversarius vester diabolus, tanquam leo rugiens, circuit quaerens quem devoret»

Se a Providência permite esses ataques, é em virtude do princípio geral que Deus governa as almas não só diretamente, mas também por intermédio das causas segundas, deixando às criaturas uma certa liberdade de ação. Adverte-nos, aliás, que estejamos de sobreaviso, e envia em nosso auxílio os seus bons anjos, em particular o nosso anjo da guarda, para nos proteger , sem falar do socorro que nos dá por si mesmo ou por seu Filho.

Aproveitando-nos desse auxílio, triunfamos do demônio, confirmamo-nos virtude e alcançamos merecimentos para o céu. Este admirável governo da Providência mostra-nos melhor a importância extrema que devemos ligar à nossa salvação e santificação, já que o céu e o inferno estão nisso interessados, e à roda da nossa alma, e por vezes dentro da nossa mesma alma, travam-se entre as potestades celestes e infernais ásperos combates, em que se joga a vida eterna. Para sair vitorioso, vejamos como procede o demônio.

A tática do demônio

A) O demônio não pode influir diretamente sobre as nossas faculdades superiores, a inteligência e a vontade. Deus reservou para si este santuário: só Deus pode penetrar no centro da nossa alma e mover as energias da nossa vontade, sem nos fazer violência: Deus solus animae illabitur.

Pode, porém, o demônio influir diretamente sobre o corpo, sobre os sentidos exteriores e interiores, em particular sobre a imaginação e a memória, bem como sobre as paixões que residem no apetite sensitivo, e por essa via influi indiretamente sobre a vontade que, pelos diversos movimentos da sensibilidade, é solicitada a dar o seu consentimento. Contudo, como nota Santo Tomás, fica sempre livre para consentir ou resistir a esses movimentos passionais: «Voluntas semper remanet libera ad consentiendum vel resistendum passioni»

B) Por outro lado, ainda que o poder do demônio seja muito extenso sobre as faculdades sensitivas e sobre o corpo, esse poder é limitado por Deus, que lhe não permite que nos tente acima das nossas forças: «Fidelis autem Deus est qui non patietur vos tentari supra id quod potestis: sed faciet etiam cum tentatione proventum» . Quem se apóia em Deus com humildade e confiança, está seguro de sair vitorioso

C) Não se deve crer, diz Santo Tomás, que todas as tentações que experimentamos, são obra do demônio: a nossa concupiscência, ativada por hábitos passados e imprudências presentes, basta para explicar grande número delas: «Unusquisque vero tentatur a concupiscentia sua abstractus et illectus» Mas também seria temerário afirmar que ele não tem influência sobre nenhuma tentação, contrariamente à doutrina manifesta da Sagrada Escritura e da Tradição; a sua inveja contra os homens e o desejo, que tem, de os escravizar, explicam suficientemente a sua intervenção

Como reconhecer, pois, a tentação diabólica?

É difícil, pois, que a nossa concupiscência basta para nos tentar violentamente. Pode-se dizer contudo que, se a tentação é repentina, violenta, e de duração desmesurada, tem nela grande parte o demônio. Em especial se pode isso conjeturar, quando a tentação lança na alma uma perturbação profunda e duradoura, quando sugere o gosto de coisas que dão na vista, de mortificações extraordinárias e aparentes, sobretudo quando a alma se sente fortemente inclinada a não dizer nada disso ao seu diretor e a desconfiar dos superiores

Remédios contra a tentação diabólica.

Estes remédios são indicados pelos Santos, e em particular por Santa Teresa

A) O primeiro é oração humilde e confiada, para pôr do nosso lado a Deus e aos seus Anjos. Se Deus está conosco, quem será contra nós? E na verdade, quem pode ser comparado com Deus. «Quis ut Deus?» Esta oração deve ser humilde; porque não há nada que ponha mais rapidamente em fuga o anjo rebelde que, tendo-se revoltado por orgulho, jamais soube praticar esta virtude: humilhar-se diante de Deus, reconhecer a incapacidade de triunfar sem o auxilio do céu, desconcerta os ardis do anjo soberbo. Deve ser confiada, porque, estando a glória de Deus interessada em nosso triunfo, podemos ter plena confiança na eficácia da sua graça.
É bom invocar também a São Miguel que, tendo infligido ao demônio uma insigne derrota, terá sumo prazer em completar a vitória em nós e por nós. O nosso Anjo da Guarda de bom grado o auxiliará, se confiarmos nele. Mas sobretudo não nos esqueçamos de implorar o socorro da Virgem Imaculada, que com seu pé virginal não cessa de esmagar a cabeça da serpente, e é mais terrível ao demônio que um exército em ordem de batalha.

B) O segundo meio é usar com muita confiança dos Sacramentos e Sacramentais. A confissão, por ser um ato de humildade, põe o demônio em fuga, a absolvição que a segue, aplica-nos os merecimentos de Jesus Cristo e torna-nos invulneráveis às flechas do inimigo, a sagrada comunhão, introduzindo em nosso peito Aquele que suplantou Satanás, inspira-lhe um verdadeiro terror. Os mesmos sacramentais, o sinal da Cruz, ou as orações litúrgicas feitas com espírito de fé, em união com a Igreja, são também um precioso auxílio.

Santa Teresa recomenda particularmente a água benta, talvez porque é humilhante para o demônio ver-se assim frustrado em seus ardis por um meio tão simples como aquele.

C) E assim, o último meio é um desprezo soberano do demônio.

É ainda Santa Teresa que no-lo diz: «Muito freqüentemente me atormentam estes malditos; mas inspiram-me muito pouco temor; porque, vejo-o muito bem, eles não podem mexer-se sem a permissão de Deus ... Saibam-no bem, todas as vezes que nós os desprezamos, diminuem as suas forças e a alma adquire sobre eles tanto mais império ... Eles não têm forças mais que sobre as almas covardes, que lhe entregam as armas: mas contra esses, fazem parada do seu poder»

Ver-se desprezar por seres mais fracos é, efetivamente, intolerável humilhação para esses espíritos soberbos. Ora, como já dissemos, apoiados humildemente em Deus, temos o direito e o dever de os desprezar: «Si Deus pro nobis, quis contra nos?» Podem ladrar, não podem morder-nos, a não ser que, por imprudência ou por orgulho, nos lancemos em seu poder: «Latrare potest, mordere non potest nisi volentem».

Assim, pois, a luta que temos que sustentar contra o demônio, bem como contra o mundo e contra a concupiscência, consolida-nos na vida sobrenatural e até nos permite fazer nela progressos.

Conclusão
A vida cristã é, como acabamos de ver, uma luta: luta penosa que, com variadas peripécias, não termina senão na morte; luta de importância capital, pois que nela se joga a vida eterna.

Como ensina São Paulo, há em nós dois homens:

a) o homem regenerado, o homem novo, com tendências nobres, sobrenaturais, divinas, que o Espírito Santo produz em nós, graças aos méritos de Jesus e à intercessão da Santíssima Virgem e dos Santos; tendências, a que nos esforçamos por corresponder, pondo em ação, sob a influência da graça atual, o organismo sobrenatural de que Deus nos dotou.

b) Mas, ao lado, há o homem natural, o homem carnal, o homem velho, com as tendências más, que o batismo não desarraigou de nossa alma: é a tríplice concupiscência, que temos da nossa primeira geração, e que o mundo e o demônio despertam e intensificam; tendência habitual que nos leva ao amor desordenado dos prazeres sensuais, da nossa própria excelência e dos bens da terra.

Estes dois homens entram fatalmente em conflito: a carne, ou o homem velho, deseja e procura o prazer, sem se lhe dar da sua moralidade; o espírito bem lhe recorda que há prazeres proibidos e perigosos que é mister sacrificar ao dever, isto é, à vontade de Deus; mas, como a carne persiste em seus desejos, a vontade, ajudada pela graça, é obrigada a mortificá-la e, se necessário for, a crucificá-la. O cristão é, pois, um soldado, um atleta que combate por uma coroa imortal, até à morte.

Esta luta é perpétua: porquanto, apesar dos nossos esforços, não podemos desembaraçar-nos jamais do homem velho; não podemos senão enfraquecê-lo, encadeá-lo, e fortificar ao mesmo tempo o homem novo contra os seus ataques.

Ao princípio, é, pois, mais viva a luta, mais encarniçada, e as contra-ofensivas do inimigo são mais numerosas e violentas. À medida, porém, que, por meio de esforços enérgicos e constantes, vamos ganhando vitórias, o inimigo vai enfraquecendo, as paixões acalmam, e, salvo certos momentos de provações mandadas por Deus para nos levar a mais alta perfeição, gozamos de relativo sossego, presságio da vitória definitiva.

É à graça de Deus que devemos a vitória.

Não esqueçamos, porém, que as graças, que são dadas, são graças de combate, e não de repouso, que somos lutadores, atletas, ascetas, e que devemos, como São Paulo, lutar até o fim, para merecer a nossa coroa: «Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Não me resta mais que receber a coroa de justiça que me dará o Senhor: Bonum certamen certa vi, cursum consummavi, fidem servasi. In reliquo est mihi coroa iustiotiae quam reddet mihi Dominus".

É o meio de aperfeiçoar em nós a vida cristã e de adquirir abundantes méritos.

Deus seja louvado!!

Depois veremos: Crescer na Vida Espiritual pelo Mérito:

1 - A Vida da Graça - Um tesouro a adquirir
2 - Queda e Castigo
3 - Redenção
4 - Natureza da Graça
5 - Do Organismo da Vida Cristã
6 - União entre a alma e Deus
7 - Das Virtudes e dos Dons
8 - Da Graça Atual
9 - Da parte de Jesus Cristo na vida cristã
10 -Da parte de Virgem Maria na vida cristã

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A Vida da Graça - da parte da Virgem Santíssima na vida cristã


É fora de toda a dúvida que não há mais que um só Deus e um Mediador necessário, Jesus Cristo: «Unus enim Deus, unus, et Mediator cominum, homo Christus Iesus». Mas aprouve à Sabedoria e Bondade divina dar-nos protetores, intercessores e modelos que estejam, ou ao menos pareçam estar mais perto de nós: são os Santos que, tendo reproduzido em si mesmos as perfeições divinas e as virtudes de Nosso Senhor, fazem parte do Seu corpo místico e se interessam por nós, que somos seus irmãos.

Honrá-los é honrar o próprio Deus neles, que são reflexo das suas perfeições: invocá-los é, em última análise, dirigir a Deus as nossas invocações, pois que pedimos aos Santos sejam nossos intercessores perante o Altíssimo; imitar as suas virtudes, é imitar a Jesus Cristo, já que eles mesmos não foram santos senão na medida em que produziram as virtudes do divino Modelo.

Esta devoção aos Santos, longe de prejudicar o culto de Deus e do Verbo Encarnado, não faz, pois, senão confirmá-lo e completá-lo. Como, porém, entre os Santos, a Mãe de Jesus ocupa um lugar à parte, exporemos qual seja o seu papel .

I. Da parte de Maria na vida cristã

1 - Fundamento da sua Missão. O papel de Maria depende da sua estreita união com Jesus, ou, por outros termos, do dogma da maternidade divina, que tem por corolário a sua dignidade e a sua missão de mãe dos homens.

A- É no dia da Encarnação que Maria é constituída Mãe de Jesus, Mãe dum Filho-Deus, Mãe de Deus. Ora, se bem repararmos no diálogo entre o Anjo e a Virgem, Maria é Mãe de Jesus, não somente enquanto este é pessoa privada, senão enquanto é Salvador e Redentor.« O Anjo não fala somente das grandezas pessoais de Jesus; é o Salvador, é o Messias esperado, é o Rei eterno da humanidade regenerada, cuja maternidade se propõe a Maria ... Toda a obra redentora está suspensa do Fiat de Maria. E disto tem a Virgem plena consciência. Sabe o que Deus lhe propõe. Consente no que Deus lhe pede, sem restrição nem condição; o seu Fiat responde à ampliação das proposições divinas, estende-se a toda a obra redentora». Maria é pois, a Mãe do Redentor, e, como tal, associada à sua obra redentora; e assim, tem na ordem da reparação o lugar que Eva teve na ordem da nossa ruína espiritual, como os Santos Padres o farão notar com Santo Ireneu.

Mãe de Jesus, Maria terá com as três divinas Pessoas as relações mais íntimas:

Será a Filha muito amada do Pai, e sua associada na obra da Encarnação; a Mãe do Filho, com direito ao seu respeito, ao seu amor, e até mesmo, na terra, à sua obediência; pela parte que terá nos seus mistérios, parte secundária, mas real, será a sua colaboradora na obra da salvação e santificação dos homens; será enfim o templo vivo, o santuário privilegiado do Espírito Santo, e, numa acepção analógica, a sua Esposa, neste sentido que, com Ele e em dependência dele, trabalhará em regenerar almas para Deus.

B -É igualmente no dia da Encarnação que Maria é constituída Mãe dos homens. Jesus, é o chefe da humanidade regenerada, a cabeça dum corpo místico, de que nós somos os membros. Ora Maria, Mãe do Salvador, gera-o todo inteiramente e, por conseguinte, como chefe da humanidade, como cabeça do corpo místico. Gera, pois, também todos os seus membros, todos aqueles que nele estão incorporados, todos os regenerados ou aqueles que são chamados a sê-lo. E assim, ao ser constituída Mãe de Jesus segundo a carne, é constituída ao mesmo tempo Mãe dos seus membros segundo o espírito. A cena do Calvário não fará senão confirmar esta verdade; no próprio momento em que a nossa redenção vai ser consumada pela morte do Salvador, diz este a Maria, mostrando-Ihe São João, e nele todos os seus discípulos presentes ou futuros: Eis aí teu filho e ao próprio São João: Eis aí a tua Mãe. Era declarar, segundo uma tradição que remonta até Orígenes, que todos os regenerados eram filhos espirituais de Maria. É este duplo título de Mãe de Deus e Mãe dos homens que deriva o papel que Maria desempenha em nossa vida espiritual.

2 – Maria Causa Meritória da Graça. Sabemos que Jesus é a causa meritória principal e em sentido próprio de todas as graças que recebemos. Maria, sua associada na obra da nossa santificação, mereceu secundariamente e somente de congruo (Esta expressão foi ratificada por São Pio X na Encíclica de 1904, em que declara que Maria nos mereceu de congruo todas as graças que Jesus nos mereceu de condigno), com mérito de conveniência, todas essas mesmas graças. Não as mereceu senão secundariamente, isto é, em dependência de seu Filho, e porque lhe conferiu o poder de merecer por nós. Mereceu-as, primeiro, no dia da Encarnação, no momento em que pronunciou o seu fiat. É que realmente a Encarnação é a Redenção começada, cooperar, pois, na Encarnação é cooperar na Redenção, nas graças que delas serão frutos, e por conseguinte, em nossa salvação e santificação.

E depois, no decurso de toda a sua vida, Maria, cuja vontade é em tudo conforme à de Deus, como à de seu Filho, associa-se à obra reparadora: É ela que educa a Jesus, que sustenta e prepara para imolação a vítima do Calvário; associada às suas alegrias como às suas provações, aos seus humildes trabalhos na casa de Nazaré, às suas virtudes, ela se unirá, por uma compaixão generosíssima, à Paixão e morte de seu Filho, repetindo o seu fiat ao pé da Cruz e consentindo na imolação daquele que ama indizivelmente mais que a si mesma, e o seu coração amante será trespassado espada de dor: «tuam ipsius animam pertransibit gladius» Que de merecimentos não adquiriu ela por esta imolação perfeita!

E continua a aumentá-los por esse longo martírio que padece depois da Ascensão de seu Filho ao céu: privada da presença daquele que fazia a sua felicidade, suspirando ardentemente pelo momento em que lhe poderá ser unida para sempre, e aceitando amorosamente essa provação, para fazer a vontade de Deus e contribuir para edificar a Igreja nascente, Maria acumula para nós inumeráveis merecimentos.

Os seus atos são tanto mais meritórios quanto mais perfeita é a pureza de intenção com que são praticados, «Magnificat anima mea Dominum», mais intenso o fervor com que cumpre em sua integridade a vontade de Deus «Ecce ancilla Domini, fiat mihi secundum verbum tu um», mais estreita a união com Jesus, fonte de todo o mérito. É certo que estes merecimentos eram antes de tudo para ela mesma e aumentavam o seu capital de graça e os seus direitos à glória; mas, em virtude da parte que tomava na obra redentora, Maria merecia também de congruo para todos, e, se é cheia de graça para si mesma, deixa transbordar essa graça sobre nós, segundo a expressão de São Bernardo:"Plena sibi, nobis superplena et supereffluens."

3 - Maria Causa Exemplar. Depois de Jesus, Maria é o mais belo modelo que é possível imitar: o Espírito Santo que, em virtude dos merecimentos de seu Filho, nela vivia, fez dela uma cópia viva das virtudes desse Filho: «Haec est imago Christi perfectissima, quam ad vivum depinxit Spiritus Sanctus». Jamais cometeu a mínima falta, a mínima resistência à graça, executando à letra o fiat mihi secundum verbum tuum. E, assim, os Santos Padres, em particular Santo Ambrósio e o Papa São Libério, representam-na como o modelo acabado de todas as virtudes, «caritativa e atenciosa para com todas as suas companheiras, sempre pronta a lhes prestar serviço, não dizendo nem fazendo nada que lhes pudesse causar o mínimo desgosto, amando-as a todas e de todas amada»

Baste-nos apontar as virtudes assinaladas no próprio Evangelho:

1) a sua fé profunda, que a levou a crer sem hesitação as coisas que o Anjo lhe anuncia da parte de Deus, fé de que a felicita Isabel, inspirada pelo Espírito Santo: «Feliz de ti que creste: Beata quae credidisti, quonicuam perficientur ea quae dicta sunt tibi a Domino»

2) a sua virgindade, que aparece na resposta ao Anjo; «Quomod: fiet istud, quoniam virtum non cognosco?» que mostra a sua firme vontade de permanecer virgem, ainda que fosse necessário para isso sacrifcar a dignidade de mãe do Messias;

3) a sua humildade, que resplandece na perturbação em que a lançam. Os elogios do Anjo, na declaração de ser sempre a escrava do Senhor no próprio momento em que é proclamada, Mãe de Deus, naquele Magnificat anima mea Dominum, que foi chamado o êxtase da sua humildade, no amor que mostra para com a vida oculta, quando, pela qualidade de Mãe de Deus, tinha direito a todas as honras;

4) o seu recolhimento interior que a leva a fixar no espírito e meditar silenciosamente tudo o que se refere a seu divino Filho. «Conservabat omnia verba haec, conferens in corde suo»

5) o seu amor para com Deus e para com os homens, que lhe faz aceitar generosamente todas as provações duma longa vida e sobretudo a imolação de seu Filho no Calvário e a longa separação desse Filho tão amado desde a Ascensão até o momento da sua morte.

Este modelo tão perfeito é, ao mesmo tempo, cheio de encanto: Maria é uma simples criatura como nós, é uma irmã, uma Mãe que nos sentimos estimulados a imitar, quando mais não fosse, para lhe testemunharmos o nosso reconhecimento, a nossa veneração, o nosso amor. E, depois, é modelo fácil de imitar, neste sentido, ao menos que Maria se santificou na vida comum, no cumprimento dos seus deveres de donzela, na vida oculta, nas alegrias como nas tristezas, na exaltação como nas humilhações mais profundas. Temos, pois, a certeza de estar em caminho perfeitamente seguro, quando imitamos a Santíssima Virgem: é o melhor meio de imitar a Jesus e obter a sua poderosa mediação.

4 –Maria Mediadora Universal da Graça. Há muito que São Bernardo formulou esta doutrina no texto tão conhecido: «Sic est voluntas eius qui totum nos habere voluit per Mariam». Importa determinar-lhe com precisão o sentido. É certo que Maria nos deu, duma maneira mediata, todas as graças, dando-nos Jesus, autor e causa meritória da graça. Mas, além disso, conforme o ensino, de dia para dia, mais comum , não há uma só graça, concedida aos homens, que não venha imediatamente de Maria, isto é, sem a sua intercessão. Trata-se, pois, aqui duma mediação imediata, universal, mas subordinada à de Jesus.

Para determinarmos com mais precisão esta doutrina, digamos com o Pe. de la Broise que «a ordem presente dos decretos divinos quer que todo o benefício sobrenatural concedido ao mundo seja outorgado com o concurso de três vontades, e que nenhum o seja de outra forma. É, em primeiro lugar, a vontade de Deus, que confere todas graças: depois, a vontade de Nosso Senhor Jesus Cristo, mediador, que as merece e obtém com todo o rigor de justiça, por Si mesmo; enfim, a vontade de Maria, mediadora secundária, que as merece e obtém com toda a conveniência, por Nosso Senhor Jesus Cristo». Esta mediação é imediata, neste sentido que, para cada graça concedida por Deus, Maria intervém pelos seus méritos passados ou pelas suas orações atuais; isto porém, não implica necessariamente que a pessoa que recebe estas graças deva implorar o socorro de Maria, a qual bem pode intervir, sem que ninguém lho peça.

É mediação universal, estendendo-se a todas as graças concedidas aos homens desde a queda de Adão; fica, porém, subordinada à mediação de Jesus, neste sentido que Maria não pode merecer ou obter graças senão pelo seu divino Filho; e assim, a mediação de Maria não faz mais que realçar o valor, e fecundidade da mediação de Jesus.

Esta doutrina acaba de ser confirmada pelo Ofício e Missa próprios em honra de Maria Mediadora, concedidos pelo Papa Bento XV às igrejas da Bélgica e a todas as da Cristandade que os pedirem. É, pois, doutrina segura, que podemos utilizar na prática e que não pode deixar de nos inspirar grande confiança em Maria.

Conclusão: Devoção à Santíssima Virgem

Desempenhando Maria papel tão importante em nossa vida espiritual, devemos ter para com Ela grandíssima devoção. Esta palavra quer dizer dedicação, e dedicação quer dizer dom de si mesmo. Seremos, pois, devotos de Maria, se nos dermos completamente a Ela, e, por Ela, a Deus. Nisto não faremos senão imitar o próprio Deus que se nos dá a nós e nos dá o Seu Filho por intermédio de Maria. Daremos a nossa inteligência pela veneração mais profunda, a nossa pela confiança mais absoluta, e nosso coração pelo amor mais filial, inteiramente todo o nosso ser pela imitação mais perfeita, que for possível, da suas virtudes.

A) Veneração Profunda. Esta veneração baseia-se na dignidade de Mãe de Deus e nas conseqüências que daí dimanam. E, com efeito, jamais nos será possível estimar demasiadamente Aquela que o Verbo Encarnado, venera como sua Mãe, que o Pai contempla com amor como sua Filha muito amada e que o Espírito Santo considera como seu templo de predileção.

O Pai trata-a com o maior respeito, enviando-lhe um Anjo que a saúda cheia de graça, e pede-lhe o seu consentimento na obra da Encarnação, à qual tão intimamente a quer associar; o Filho respeita-a, ama-a como Mãe e obedece-lhe; o Espírito Santo vem a Ela e nela tem as suas complacências. Venerando a Maria, não fazemos, pois, senão associar-nos às três divinas Pessoas e estimar o que Elas estimam. Há sem dúvida excessos que é mister evitar, particularmente tudo aquilo que porventura tendesse a colocá-la a par de Deus, ou a fazer dela a fonte da graça. Mas, enquanto a consideramos como criatura, que não tem grandeza, nem santidade, nem poder, senão na medida em que Deus lho confere, não há excesso que recear: é Deus que veneramos nela.

Esta veneração deve ser maior que a que temos para com os Anjos e santos, precisamos porque ela, pela sua dignidade de Mãe de Deus, pelo seu múnus de Mediadora, pela sua santidade, sobrepuja todas as criaturas. E, assim, o seu culto não obstante ser culto de dulia e não de latria é chamado com razão culto de hiperdulia, pois é superior ao que se tributa aos Anjos e Santos.

B)Confiança absoluta, fundada no poder e bondade de Maria.

- Este poder vem, não dela mesma, mas do seu poder de intercessão, já que Deus não quer recusar nada de legitimo àquela que venera e ama acima de todas as criaturas. Nada mais eqüitativo: tendo Maria subministrado a Jesus aquela humanidade que lhe permitiu merecer, tendo colaborado com Ele pelas suas ações e sofrimentos na obra redentora, é conveniente que tenha parte na distribuição dos frutos da Redenção; Jesus não recusará, pois, nada que ela pedir de legítimo, e assim se poderá dizer que ela é onipotente pelas suas súplicas omnipotentia supplex.
- Quanto à sua bondade, essa é a de Mãe que transfere para nós, membros de Jesus Cristo, a afeição que tem para com seu Filho; de Mãe que, tendo-nos dado à luz na dor, entre as angústias do Calvário, nos terá tanto mais amor quanto mais lhe custamos. Por conseguinte a nossa confiança para com Ela será inabalável e universal.

Inabalável, a despeito das nossas misérias e faltas. É que, na verdade, Maria é Mãe de misericórdia, mater misericordiae, que não tem que se ocupar de justiça, mas foi escolhida para exercer antes de tudo a compaixão, a bondade, a condescendência: sabendo que nos achamos expostos aos ataques da concupiscência, do mundo e do demônio, tem compaixão de nós, que não cessamos de ser seus filhos, ainda quando caímos em pecado. E assim, tanto que manifestamos o mínimo sinal de boa vontade, o desejo de voltar a Deus, ela nos acolhe com bondade; muitas vezes, até, é ela que, antecipando-se a esses bons movimentos, nos alcançará as graças que os excitarão em nossa alma. A Igreja compreendeu-o tão bem que instituiu, para certas dioceses, uma festa sob esta invocação que, à primeira vista, parece estranha, mas, na realidade é perfeitamente justificada, do Coração Imaculado de Maria, refúgio dos pecadores; precisamente porque é Imaculada e jamais cometeu a menor falta, é que Maria tem mais compaixão dos seus pobres filhos que não gozam, como Ela, do privilégio da isenção da concupiscência.

Universal, isto é, deve estender-se a todas as graças de que precisamos, graças de conversão, de progresso espiritual, de perseverança final, graças de preservação no meio dos perigos, das angústias, das dificuldades mais graves que se possam apresentar.

É esta confiança que recomenda tão instantemente São Bernardo «Se se levantam as tempestades das tentações, se vos encontrais no meio dos escolhos das tribulações, erguei os olhos para a estrela do mar, chamai a Maria em vosso auxílio; se sois sacudidos à mercê das vagas da soberba, da ambição, da maledicência, da inveja, olhai para a estrela, invocai a Maria. Se, perturbados pela grandeza dos vossos crimes, confusos pelo estado miserável da vossa consciência, transidos de horror com o pensamento do juízo, começais a soçobrar no abismo da tristeza e do desespero, pensai em Maria. No meio dos perigos, das angústias, das incertezas, pensai em Maria, invocai a Maria. A sua invocação, o pensamento dela não se afastem nem do vosso coração, nem dos vossos lábios; e, para obterdes mais seguramente o auxílio das suas preces, não vos descuideis de imitar os seus exemplos. Seguindo-A, não vos extraviais; suplicando-A, não desesperais; pensando nela, não vos perdeis. Enquanto Ela vos tem de sua mão, não podeis cair; sob a sua proteção, não tendes nada que temer; sob a sua guia, não há cansaço; com o seu favor, chega-se seguramente ao termo». E, como temos constantemente necessidade de graça, para vencer os nossos inimigos e progredir na virtude, devemos dirigir-nos muito amiúde àquela que tão justamente é chamada Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

C) À confiança juntaremos o amor, amor filial, cheio de candura, simplicidade, ternura e generosidade. Mas é seguramente a mais amável das mães, pois tendo-A Deus destinado para ser Mãe de seu Filho, lhe deu todas as qualidades que tornam uma pessoa amável: a delicadeza, a prudência, a bondade, a dedicação da mãe. É a mais amante, visto que o seu coração foi criado expressamente para amar um Filho-Deus e amá-lo com a possível perfeição. Ora esse amor que Ela tinha para com seu Filho, transpassa para nós que somos membros vivos desse divino Filho, sua extensão e complemento. E assim, esse amor resplandece no mistério da Visitação, em que Ela se apressa a levar a sua prima Isabel aquele Jesus que em seu seio e que, só pela sua presença, santifica toda a casa; nas Bodas de Caná, onde, atenta a tudo o que se passa, intervém junto de seu Filho, para evitar aos jovens esposos uma dolorosa humilhação; no Calvário, onde consente em sacrificar o que tem de mais caro, para nos salvar; no Cenáculo, onde exercita o seu poder de intercessão, para obter aos Apóstolos maior abundância dos dons do Espírito Santo.

Se Maria é a mais amável e a mais amante das mães, deve ser a mais amada. E, na verdade, é este um dos seus privilégios mais gloriosos; em toda a parte, onde Jesus é conhecido e amado, é o também Maria. Não se separa a Mãe do Filho; e, sem jamais se esquecer a diferença um e outro, envolvem-se na mesma afeição, posto que em grau diferente: ao Filho tributa-se o amor que é devido a Deus, a Maria, o que se deve à Mãe dum Deus :amor terno, generoso, dedicado, mas subordinado ao amor de Deus. É amor de complacência,que se goza das grandezas, virtudes e prerrogativos de Maria, repassando-as amiúde pela memória, admirando-as, comprazendo-se nelas e dando-lhe o parabém de a vermos tão perfeita. Mas é também amor de benevolência,que deseja sinceramente que o nome de Maria seja mais conhecido e amado, que ora para que se estenda a sua influência sobre as almas, e à oração ajunta a palavra e ação. É amorfilial, cheio de ilimitada confiança e simplicidade, de ternura e dedicação, chegando até àquela intimidade respeitosa que a mãe permite a seu filho. É e sobretudo amor de conformidade, que se esforça por conformar em todas as coisas a sua vontade com a de Maria e, por esse modo, com a de Deus, já que a união das vontades é o sinal mais autêntico da amizade. É o que nos leva à imitação da Santíssima Virgem.

D) A imitação é, com efeito, a homenagem mais delicada que se lhe pode tributar; é proclamar não somente com palavras, senão com atos, que Ela é um modelo perfeito, cuja imitação é para nós suprema ventura. Como, sendo Maria uma cópia viva de seu Filho, nos dá o exemplo de todas as virtudes. Aproximar-se dela é aproximar-se de Jesus; e por isso é que não podemos fazer nada mais excelente do que estudar as sua virtudes, meditá-las amiúde, esforçar-nos por as reproduzir.

Para melhor o alcançarmos, não podemos seguir método mais eficaz do que praticar todas e cada uma das nossas ações por Maria, com Maria e em Maria; per Ipsam etc cum Ipsa, et in Ipsa.

Por Maria, isto é, pedindo por meio dela as graças de que precisamos para a imitar, passando por Ela para ir a Jesus, ad Iesum per Mariam. Com Maria, isto é, considerando-A como modelo e colaboradora, perguntando-nos muitas vezes: Que faria a Mãe Santíssima, se estivesse em meu lugar? E pedindo-lhe humildemente que nos auxilie a conformar as nossas ações com os seus desejos. Em Maria na dependência desta boa Mãe, compenetrando-nos dos seus desígnios, das suas intenções, e fazendo as nossas ações, com Ela, para glorificar a Deus: Magnificat anima mea Dominum.

É com este espírito que havemos de recitar, em honra da Senhora, a Ave-Maria e o Angelus que lhe relembram a cena da Anunciação e o seu título de Mãe de Deus; o Sub tuum praesidium, que é o ato de confiança naquela que nos protege no meio de todos os nossos perigos; o Domina mea, que é o ato de entrega completa nas suas mãos, pelo qual lhe confiamos a nossa pessoa, as nossas ações e os nossos méritos; e sobretudo o Terço ou o Rosário, que unido-nos aos seus mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos, nos permite santificar em união com Ela e com Jesus, as nossas tristezas e as nossas glórias. O Officium da Santíssima Virgem é, para as pessoas que o podem recitar, o equivalente do Breviário, e relembrar-lhes muitas vezes ao dia as grandezas, a santidade e a missão santificadora desta Boa Mãe.

Ato de Consagração total a Maria

Natureza e extensão deste ato. É um ato de devoção que contém todos os demais. Tal qual o expõe São Luís Grignion de Montfort, consiste em se dar inteiramente a Jesus por Maria, e compreende dois elementos: um ato de consagração, que se renova de tempos a tempos, e um estado habitual que nos faz viver e operar sob a dependência de Maria. O ato de consagração, diz São Luís Grignion, «consiste em se dar um todo inteiramente, em qualidade de escravo, a Maria e a Jesus por Ela». Ninguém se escandalize do termo escravo, ao qual se deve tirar todo o sentido pejorativo, isto é, toda a idéia de coração; este ato, longe de implicar violência, é a expressão do amor mais puro. Não se conserve, pois, senão o elemento positivo, tal qual o explica o Bem-aventurado: Um simples servo ou criado recebe salário, fica livre de deixar o patrão e não dá mais que o seu trabalho, não dá a sua pessoa, os seus direitos pessoais, os seus bens; um escravo consente livremente em trabalhar sem salário; confiando no senhor, que assegura sustento e abrigo, dá-se para sempre, com todos os seus recursos, a sua pessoa e os seus direitos, para viver em completa dependência dele.

Para fazer aplicação às coisas espirituais, o perfeito servo de Maria, dá-lhe, e por Ela, a Jesus:

a) O corpo, com todos os seus sentidos, não conservando senão o uso, e obrigando-se a não se servir deles senão conforme o beneplácito da Santíssima Virgem ou de seu Filho: aceita de antemão todas as disposições providenciais relativas à sua saúde, enfermidade, vida e morte.

b) Todos os bens de fortuna, não usando deles senão sob a dependência de Maria, para sua glória e honra de Deus.

c) A alma com todas as suas formalidades, consagrando-as ao serviço de Deus e do próximo, sob a direção de Maria, e renunciando a tudo que pode pôr em risco a nossa salvação e santificação.

d) Todos os bens interiores e espirituais, merecimentos, satisfações e o valor impetratório das boas obras, na medida em que estes bens são alienáveis.

Expliquemos este último ponto:

1) Os nossos méritos propriamente ditos (de condigno), pelos quais merecemos para nós mesmos aumento de graça e de glória, são inalienávis; se, pois, os damos a Maria, é para que Ela os conserve e aumente, não para que Ela os aplique a outros. Mas os méritos de simples conveniência (de congruo), como podem ser oferecidos por outrem, deixamos que Maria disponha deles livremente.

2) O valor satisfatório dos nossos atos, incluindo as indulgências, é alienável, e deixamos a aplicação deles à Santíssima Virgem. (S. Thom., Supplement, q.XIII, a.2).

3) O valor impetratório, isto é, as nossas orações e as boas obras enquanto gozam deste mesmo valor, podem ser-lhe entregues e de fato o são por este ato de consagração.

Uma vez feito este ato, não podemos dispor mais destes bens sem a permissão da Santíssima Virgem; mas podemos e por vezes devem rogar-lhe se digne, conforme o seu beneplácito, dispor deles em favor das pessoas a que nos ligam obrigações particulares. O meio de tudo conciliar é oferecer-lhe, ao mesmo tempo, não somente a nossa pessoa e os nossos bens, mas todas as pessoas que nos são caras: «Tuus totus sum, omnia mea tua sunt, et omnes mei tui sunt»; deste modo a Santíssima Virgem servirse-á dos nossos bens e sobretudo dos seus tesouros e dos de seu Filho, para socorrer essas pessoas que, assim, longe de perderem, só ganharão com a nossa consagração à Santíssima Virgem.

A excelência deste ato. É um ato de confiança absoluta, já excelente como tal, mas que ademais contém os atos das mais belas virtudes.

1) Um ato de religião profunda para com Deus, Jesus e Maria: com ele, efetivamente reconhecemos o supremo domínio de Deus, o nosso próprio nada, e proclamamos de todo o coração os direitos que Deus deu a Maria sobre nós.

2) Um ato de humildade, pelo qual, reconhecendo o nosso nada e a nossa impotência, nos desapossamos de tudo quanto Deus Nosso Senhor nos deu, restituindo-lhe pelas mãos de Maria, de quem, depois dele e por Ele, tudo recebemos.

3) Um ato de amor cheio de confiança, pois que o amor é o dom de si mesmo, e, para se dar, é necessária confiança perfeita e fé viva.

Pode-se, pois, dizer que este ato de consagração se é bem feito, freqüentemente renovado de coração, e posto em prática, é mais excelente ainda que o ato heróico, pelo qual não se abandona mais que o valor satisfatório dos próprios atos e as indulgências que se ganham.

Os frutos desta devoção. Derivam da sua natureza.

1) Por este meio glorificamos a Deus e a Maria do modo mais perfeito, pois lhe damos tudo o que somos e tudo o que temos, sem reserva e para sempre; e isto fazemo-lo da maneira que lhe é mais agradável, seguindo a ordem estabelecida pela sua sabedoria, voltando a Ele pelo caminho que Ele seguiu para vir a nós.

2) Por este meio asseguramos outrossim a nossa santificação pessoal. É que, na verdade, Maria, vendo que nós lhe entregamos a nossa pessoa e bens, sente-se vivamente estimulada a ajudar a santificar aqueles que são, por assim dizer, propriedade Sua. Obter-nos-á, pois, graças abundantíssimas, para nos permitir aumentar os nossos pequenos tesouros espirituais que são seus, e para os conservar e fazer frutificar até o momento da morte. Para isso usará tanto da autoridade do seu crédito sobre o coração de Deus, como da superabundância dos seus méritos e satisfações.

3) Enfim a santificação do próximo, e sobretudo as almas que nos estão confiadas, não pode deixar de lucrar com isto; confiando a Maria a distribuição dos nossos méritos e satisfações segundo o seu beneplácito, sabemos que tudo será empregado da maneira mais acertada; Ela é mais prudente, previdente e dedicada que nós; por conseguinte, os nossos parentes e amigos só podem lucrar com isso.

Objeta-se que por este ato alienamos todo o nosso haver espiritual, sobretudo as nossas satisfações, as indulgências e sufrágios que poderiam oferecer por nós, e que assim poderíamos ficar longos anos no purgatório. Em si, é verdade; mais é uma questão de confiança: temos nós, sim ou não, mais confiança em Maria que em nós mesmos e em nossos amigos? Se sim, não receemos nada: Ela terá cuidado da nossa alma e dos nossos interesses, melhor do que nós o poderíamos fazer; se não, não façamos este ato de consagração total, de que poderíamos a vir mais tarde a arrepender-nos. Em todo o caso, não se deve fazer este ato senão depois de madura reflexão, e de acordo com o próprio diretor.

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Segundo, TANQUEREY, Adolph: A Vida Espiritual Explicada e Comentada. Anápolis: Aliança Missionária Eucarística Mariana, 2007. pgs. 123 -135).

Depois veremos: Da parte do Homem na vida cristã

1 - A Vida da Graça - Um tesouro a adquirir
2 - Queda e Castigo
3 - Redenção
4 - Natureza da Graça
5 - Do Organismo da Vida Cristã
6 - União entre a alma e Deus
7 - Das Virtudes e dos Dons
8 - Da Graça Atual
9 - Da parte de Jesus Cristo na vida cristã
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segunda-feira, 25 de julho de 2011

A Vida da Graça - Da Parte de Jesus na Vida Cristã



A Vida Espiritual - Explicada e Comentada - de Adolfh Tanquerey

É toda a Santíssima Trindade que nos confere esta participação da vida divina. Mas a Santíssima Trindade fá-lo por causa dos méritos e satisfações de Jesus Cristo que, por este motivo, desempenha um papel tão essencial em nossa vida sobrenatural que esta se chama com razão "vida cristã". Conforme a doutrina de São Paulo, Jesus Cristo é cabeça da humanidade regenerada, como Adão o tinha sido da raça humana em seu berço, mas de modo muito mais perfeito.

Pelos seus méritos, Jesus reconquistou os nossos direitos à graça e à glória; pelos seus exemplos, mostra-nos como devemos viver, para nos santificarmos e merecermos o céu; mas é, antes de tudo, a cabeça dum corpo místico de que nós somos os membros: é, pois, a causa meritória, exemplar e vital da nossa santificação.

1 - Jesus causa meritória da nossa vida espiritual

Quando dizemos que Jesus é causa meritória da nossa santificação, tomamos esta palavra no seu sentido mais lato, enquanto compreende a um tempo a satisfação e o mérito: «Propter nimiam caritatem qua diJexit nos, sua sanctissima passione in ligno crucis nobis iustificationem meruit et pro nobis satisfecit» Logicamente a satisfação precede o mérito, neste sentido que é mister reparar primeiro a ofensa feita a Deus, para obter o perdão dos nossos pecados e merecer a graça; mas em realidade todos os atos livres de Nosso Senhor eram ao mesmo tempo satisfatórios e meritórios; e todos tinham valor moral infinito. Não nos resta senão tirar desta verdade algumas conclusões.

A) Não há pecado irremessível, contanto que, contritos e humilhados, dele peçamos confiadamente perdão. É o que fazemos no santo tribunal da Penitência, onde a virtude do sangue de Jesus Cristo nos é aplicada por intermédio do ministro de Deus. É o que fazemos ainda no Santo Sacrifício da Missa, onde Jesus continua a oferecer-se, pelas mãos do sacerdote, como vítima de propiciação, excitando em nossa alma sentimentos profundos de contrição, tornando-nos a Deus propício, obtendo-nos perdão cada vez mais completo dos nossos pecados, e remissão mais abundante da pena que deveríamos sofrer para os expiar. Podemos acreditar que todos os nossos atos cristãos, unidos aos sofrimentos de Jesus, têm valor satisfatório para nós e para as almas por quem os oferecemos.

B) Jesus mereceu também para nós todas as graças de que necessitamos, para atingirmos o nosso fim sobrenatural e cultivarmos em nós a vida cristã: "Bendito seja Deus que nos abençoou-nos em Cristo com toda a sorte de bençãos espirituais»: graças de conversão, graças de perseverança, graça para resistir às tentações, graças para bem nos aproveitarmos das provações, graças de consolação no meio dos trabalhos, graças de renovação espiritual, graças de segunda conversão, graça de perseverança final; tudo isso nos mereceu Jesus Cristo; e afirma-nos que tudo quanto pedirmos a seu Pai em seu nome, isto é, apoiando-nos em seus merecimentos, nos será concedido. Para nos inspirar mais confiança, instituiu os Sacramentos, sinais visíveis que nos conferem a graça em todas as circunstâncias importantes da nossa vida - dão direito a graças atuais que obtemos em tempo oportuno.

C) Fez mais ainda: deu-nos o poder de satisfazer e merecer, querendo assim associar-nos a Si mesmo, como causas secundárias, e fazer-nos obreiros da nossa própria santificação. Dá-nos até sobre isso preceito, condição essencial da nossa vida espiritual. Se carregou sua Cruz, foi para que nós O seguíssemos, levando a nossa: «Si quis vult post me venire, abneget semetipsum, tollat cru cem suam, et sequatur me". Assim o compreenderam os Apóstolos: «Se queremos ter parte na sua glória, diz São Paulo, é mister que tenhamos parte nos seus sofrimentos, si tamen compatimur, ut et conglorificemur»;(Rm 8,13) e São Pedro acrescenta que, "se Cristo sofreu por nós, foi para que nós lhe seguíssemos as pisadas" (IPed2,21)

Há mais: as almas generosas sentem-se impelidas, como São Paulo a sofrer alegremente, em união com Cristo, pelo seu corpo místico que é a Igreja; e assim têm parte na eficácia redentora da sua Paixão e colaboram secundariamente na salvação de seus irmãos.

Como esta doutrina é mais verdadeira, mais nobre, mais consoladora do que a inacreditável afirmação de certos protestantes que têm a triste coragem de asseverar que, havendo Cristo padecido suficientemente por nós, não senão que gozar dos frutos da sua redenção, sem beber o seu cálice! Com isso pretendem render homenagem à plenitude dos merecimentos de Cristo, quando realmente esta faculdade de merecer não faz senão dar maior realce à plenitude da redenção. E na verdade, não será mais honroso para Cristo manifestar a fecundidade das suas satisfações, associando-nos à sua obra redentora e tornando-nos capazes de nela colaborar, posto que secundariamente, imitando os seus exemplos?

2 - Jesus causa exemplar da nossa vida

Jesus Cristo não se contentou de merecer por nós; quis ser causa exemplar, modelo vivo da nossa vida sobrenatural. Grande era a necessidade que tínhamos dum modelo deste gênero; porquanto, para cultivar uma vida, que é participação da própria vida de Deus, é mister aproximar-nos, o mais possível, da vida divina. Ora, como bem observa Santo Agostinho, "os homens que tínhamos diante dos olhos, eram demasiadamente imperfeitos para nos servirem de modelos, e Deus, que é a mesma santidade, parecia muito distante. Foi então que o Filho eterno de Deus, sua viva imagem, se fez homem, para nos mostrar, pelos seus exemplos, como é possível na terra aproximar-nos da perfeição divina. Filho de Deus e filho do homem, viveu uma vida verdadeiramente deiforrne, e pôde-nos dizer: «Qui videt me, videt et Patrem» I, quem me vê, vê o meu Pai. Tendo manifestado nas suas ações a santidade divina, pôde-nos propor como possível a imitação das divinas perfeições: «Estote ergo vos perfecti sicut et Pater vester caelestis perfectus est»

É por isso que o Pai no-lo propõe como modelo: no batismo e na transfiguração, aparece aos discípulos e diz-lhes, falando de seu Filho: «Hic est Filius meus dilectus in quo mihi bene complacui, eis aqui o meu Filho muito amado em quem tenho todas as minhas complacências». Se tem nele todas as suas complacências, é sinal que deseja que O imitemos. E assim, Nosso Senhor nos diz com toda a confiança; «Ego sum via ... nemo venit ad Patrem nisi per me ... Discite a me, quia mitis sum et humilis corde ... Exemplum enim dedi vobis, ut quemadmodum ego feci vobis, ita et vos faciatis» E que outra coisa é, em substância, o Evangelho senão a narração dos feitos e maravilhas de Nosso Senhor, enquanto são propostos à nossa intimidação «coepit facere et docere?"

Que é o Cristianismo senão a imitação de Jesus Cristo? Tanto assim que São Paulo resumirá todos os deveres cristãos no de imitar a Nosso Senhor: «Imitatores mei estote sicut et ego Christi»

a) Jesus é modelo perfeito Até mesmo por confissão daqueles que não crêem na sua divindade, Jesus é o protótipo mais acabado de virtude que jamais apareceu na terra. Praticou as virtudes em grau heróico, e com as disposições interiores mais perfeitas: religião para com Deus, amor do próximo, aniquilamento a respeito de si mesmo, horror ao pecado e do que a ele pode conduzir, e contudo é modelo imitável e universal, cheio de encanto, cujos exemplos são cheios de eficácia.

b) É modelo que todos podem imitar, pois se dignou desposar as misérias e fraquezas, passar até pela tentação, ser-nos semelhante em exceto o pecado. «Non enim habemus Pontificem qui non possit compati infirmitatibus nostris; tentatum autem per omnia pro similitudine absque peccato". Durante trinta anos, viveu a vida mais oculta, mais obscura, mais comum, obedecendo a Maria e a José, trabalhando como um aprendiz e operário, - "fabri fillius» ; e por esse modo veio a ser o modelo mais acabado da maior dos homens que não têm senão deveres obscuros que desempenhar, e se hão de santificar no meio das ocupações mais comuns.

Mas teve também a sua vida pública: praticou o apostolado, quer por meio dum escol, formando os Apóstolos, quer entre o povo, evangelizando as multidões. Então sofreu cansaço e fome; gozou da amizade de alguns e houve de suportar a ingratidão dos outros; teve os seus triunfos e os seus reveses; numa palavra, passou pelas vicissitudes de todo o homem que tem relações com amigos e com o público.

A Paixão deu-nos o exemplo da paciência mais heróica no meio das torturas e morais, que tolerou não somente sem se queixar, mas pedindo até por seus verdugos. E não se diga que, sendo Deus, sofreu menos. Era homem também: dotado de finíssima sensibilidade, sentiu mais vivamente que nós poderiamos sentir a ingratidão dos homens, o desamparo de seus amigos, a traição de Judas: experimentou tais sentimentos de tédio, de tristeza, de pavor que não deixar de orar para o cálix de amargura se afastasse dele, se era possível; e na Cruz, soltou este grito lancinante, que bem mostra a profundeza das suas agonias: «Deus meus, Deus meus, ut qui dereliquisti me?» Foi, pois, um modelo universal.

c) E mostra-se também cheio de encanto. - Havia anunciado que, tanto que fosse elevado da terra (fazendo alusão ao suplício da Cruz), atrairia tudo a Si. Esta profecia realizou-se ao verem o que Jesus fez e sofreu por eles, os corações generosos apaixonaram-se de amor para como divino Crucificado, e, conseqüentemente, para com a cruz; a despeito das repugnâncias da natureza, levam esforçadamente as suas cruzes interiores e exteriores, quer para mais se parecerem com o seu divino Mestre, quer para lhe testemunharem o seu amor, sofrendo com Ele e por Ele, quer para terem parte mais abundante nos frutos da redenção e colaborarem com Ele na santificação de seus irmãos. É o que aparece na vida dos Santos, que correm com mais sofreguidão atrás das cruzes que os mundanos atrás dos prazeres.

d) Este poder de atração é tanto mais forte quanto mais eficaz é a graça: como todas as ações de Jesus, antes de sua morte, eram meritórias, mereceu-nos a graça de as praticar semelhantes; quando consideramos a sua humildade, pobreza, mortificação e demais virtudes, sentimo-nos arrastados a imitá-lo não somente pela força persuasiva dos seus exemplos, mas ainda pela eficácia das graças que Ele nos mereceu, praticando as virtudes e nos concede nesta ocasião.

Há sobretudo certas ações de Nosso Senhor, às quais, por mais importantes, nos devemos unir de modo especial, visto conterem graças mais abundantes: são os seus mistérios. Assim, por exemplo, o mistério da Encarnação mereceu-nos uma graça de renúncia a nós mesmos e de união com Deus, visto que Nosso Senhor nos ofereceu consigo, para nos consagrar todos a seu Pai; o mistério da Crucifixão mereceu-nos a graça de crucificar a carne e as suas concuspicências; o mistério da Morte mereceu-nos o morrer ao pecado e as suas causas, etc.

Isto melhor o compreenderemos, vendo como Jesus é a cabeça do corpo místico de que somos membros

Jesus cabeça dum corpo místico ou fonte de vida

Esta doutrina encontra-se já substancialmente na palavra de Nosso Senhor: «Ego sum vi tis, vos palmites. Eu sou a videira, vós os sarmentos». Jesus afirma, efetivamente, que nós recebemos dele a nossa vida, como as varas a recebem da cepa a que estão unidas. Esta comparação faz, pois, sobressair a comunidade de vida que existe entre Nosso Senhor e nós; daqui é fácil passar à concepção do corpo místico em que Jesus, como cabeça, faz passar a vida aos seus membros. É São Paulo que insiste mais sobre esta doutrina tão fecunda em resultados

Num corpo requer-se uma cabeça, uma alma, e membros - São estes os elementos que vamos descrever, seguindo a doutrina do Apóstolo:

A cabeça desempenha no corpo humano uma tríplice função: função de preeminência, visto ser nele a parte principalíssima; função de centro de unidade, pois que liga harmonicamente e dirige todos os membros; função de influxo vital, já que é dela que parte o movimento e a vida. Ora, é precisamente esta tríplice função que Jesus exerce na Igreja e sobre as almas.

a) Tem, sem dúvida alguma, a preeminência sobre todos os homens. Ele que, como Homem-Deus, é o primogênito de toda a criatura, o objeto das complacências divinas, o modelo acabado de todas as virtudes, a causa meritória da nossa santificação, Ele que por causa dos seus méritos, foi exaltado acima de toda a criatura e diante do seu trono vê dobrar-se todos no céu, na terra e nos infernos.

b) Na Igreja, é Ele o centro de unidade. Duas coisas são essenciais no organismo perfeito: a variedade dos órgãos e das funções que desempenham, e a sua unidade num princípio comum: sem este duplo elemento não haveria senão uma massa inerte ou um agregado de seres vivos sem nexo orgânico. Ora, é ainda Jesus que, depois de ter estabelecido na Igreja a variedade dos órgâos pela instituição duma hierarquia, sendo o centro de unidade, pois que é Ele, o chefe invisível mas real, imprime aos chefes hierárquicos a direção e o movimento.

c) É Ele ainda o princípio do influxo vital que anima e vivifica todos os membros. Até mesmo como homem recebe a plenitude da graça, para no-lo comunicar: «Vidimus eum plenum gratiae et veritatis ... de cuius plenitudine nos omnes a ccepimus, et gratiam pro gratia». Pois não é causa meritória de todas as graças que recebemos, e que nos são distribuídas pelo Espírito Santo? É por isso que o Concílio de Trento afirma, sem hesitar, esta ação, este influxo vital de Jesus sobre os justos.

A qualquer corpo é indispensável não somente uma cabeça, também uma alma. Ora, é o Espírito Santo (isto é, a Santíssima Trindade designada por este nome) que é a alma do corpo místico de que Jesus é a cabeça; é Ele, efetivamente, que difunde nas almas a caridade e a graça merecidas por Nosso Senhor. Eis o motivo por que Ele é chamado Espírito que vivifica: «Credo in Spiritum ... VÍvificantem». Eis a razão por que Santo Agostinho nos diz que o Espírito Santo é para o corpo da Igreja o que a alma é para o corpo natural: «Quod est in corpore nostro anima, id est Spiritus Sanctus in corpore Christi quod est EccJesia» Esta expressão foi, aliás, consagrada por Leão XIII na sua Encíclica sobre o Espírito Santo . É ainda este divino Espírito que distribui os diversos carismas: a uns o discurso de sabedoria ou a graça da pregação, a outros o dom dos milagres, a estes o dom da profecia, àqueles o dom das línguas, etc.: «Haec autem omnia operatur unus atque idem Spiritus, dividens singulis prout vult»

Esta dupla ação de Cristo e do Espírito Santo, longe de se embaraçar mutuamente, completa-se. O Espírito Santo vem-nos por Jesus Cristo. Quando Jesus vivia na terra, possuía em sua alma santa a plenitude do Espírito; pelas suas ações e sobretudo pelos seus sofrimentos e pela sua morte mereceu que este Espírito nos fosse comunicado; é, pois, graças a Ele, que o Espírito Santo nos vem comunicar a vida e as virtudes de Cristo, e nos toma semelhantes a Ele.

Assim, tudo se explica: Jesus, sendo homem, é o único que pode ser a cabeça dum corpo místico composto de homens, já que a cabeça e os membros devem ser da mesma natureza; mas, como homem, não pode por si mesmo conferir a graça necessária à vida dos seus membros; o Espírito Santo supre-o, desempenhando essa função; mas, como o faz em virtude dos merecimentos do Salvador, pode-se dizer que o influxo vital parte verdadeiramente de Jesus para chegar aos seus membros.

Quais são os membros deste corpo místico? Todos os batizados.

É, efetivamente, pelo batismo que somos incorporados em Cristo, diz São Paulo: «Etenim in uno Spiritu omnes nos in unum corpus baptizati sumus». Eis o motivo por que ele ajunta que fomos batizados em Cristo, que pelo batismo nos revestimos de Cristo, isto é, participamos das disposições interiores de Cristo: o que o Decreto aos Armênios explica, dizendo que pelo batismo nos tornamos membros de Cristo e do corpo da Igreja: «per ipsum (baptismum) enim membra Christi ac de corpore efficimur EccJesiae» .

Daqui resulta que todos os batizados são membros de Cristo, mas em graus diversos: os justos estão-lhe unidos pela graça habitual e por todos os privilégios que a acompanham; os pecadores, pela fé e esperança; os bem-aventurados, pela visão beatífica. - Quanto aos infiéis, não são atualmente membros de seu Corpo místico; mas, enquanto estão na terra, são chamados a sê-lo; só os condenados estão para sempre excluídos deste privilégio.

Conseqüências deste dogma.

A) É sobre esta incorporação Cristo que se baseia a comunicação dos Santos: os justos da terra, as do Purgatório e os Santos do Céu fazem todos parte do corpo místico de Jesus, todos participam da sua vida, recebem a sua influência e devem amar-se e auxiliar-se mutuamente como membros dum mesmo corpo ; porquanto, diz-no-Io São Paulo, se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele, e se um membro é glorificado, todos se regozijam com ele: «Si quid patitur unum membrum, compatiuntur omnia membra; sive gloriatur unum membrum, congaudent omnia membra"

B) É por isso que todos os cristão são irmãos; doravante não há mais nem Judeu, nem Grego, nem homem livre nem escravo; somos todos em Cristo Jesus. Somos, pois, todos solidários, e o que é útil a um é aos outros, porquanto, seja qual for a diversidade dos dons e dos ofícios, o corpo todo aproveita do que há de bom em cada um dos membros, do mesmo modo que cada membro aproveita, por seu turno, dos bens do corpo. É ainda esta doutrina que explica o motivo por que Nosso Senhor dizer: o que fazeis ao menor dos meus, é a mim que o fazeis.

C) Daqui resulta que, segundo a doutrina de São Paulo, os cristãos são o complemento de Cristo: Deus, com efeito, deu-o por cabeça suprema à Igreja, que é seu corpo, a plenitude daquele que enche em todos. E na verdade, Jesus, perfeito em si mesmo, necessita dum complemento para formar o seu corpo místico: sob este aspecto não se basta a si mesmo, precisa de membros, para exercer todas as funções vitais.

E M. Oliver conclui «Emprestemos as nossas almas ao Espírito de Jesus Cristo, para que Ele cresça em nós. Se Ele encontra sujeitos dispostos, dilata-se, aumenta, difunde-se nos seus corações, e embalsama-os da unção espiritual de que Ele mesmo está embalsamado». - É assim que podemos e devemos completar a Paixão do Salvador Jesus, sofrendo como Ele sofreu, a fim de que esta Paixão, tão completa em si mesma, se complete ainda nos seus membros através do tempo e do espaço: Como se vê, pois, não há nada mais fecundo que esta doutrina sobre o Corpo místico de Jesus.

Conclusão: Devoção ao Verbo Encarnado

De tudo o que levamos dito sobre o papel de Jesus na vida espiritual, resulta que, para cultivar esta vida, devemos viver em união íntima, afetuosa, e habitual com Ele, por outros termos, praticar a devoção ao Verbo Encarnado: «Qui Manet in me et ego in eo, hic fert fructum multum; Aquele que permanece em mim e Eu nele, produz frutos abundantes»

É o que nos inculca a Santa Igreja, recordando-nos, ao fim do Cânone da Missa, que é por Ele que recebemos todos os bens espirituais, por Ele que somos vivificados e abençoados, por Ele, com Ele e n'Ele que devemos render toda a honra e glória a Deus Pai Todo-Poderoso, na unidade do Espírito Santo. É um programa completo de vida espiritual: tendo recebido tudo de Deus por Jesus Cristo, é por Ele que devemos glorificar a Deus, por Ele que devemos pedir novas graças, com Ele e n'Ele que devemos praticar todas as nossas ações.

Sendo Jesus o perfeito adorador de seu Pai, ou, como diz M. Olier, o religioso de Deus, o único que lhe pode oferecer homenagens infinitas, é evidente que, para tributarmos o devido culto à Santíssima Trindade, não podemos fazer nada melhor que unir-nos estreitamente a Ele, cada vez que queremos cumprir os nossos deveres de religião. O que é tanto mais fácil, quanto Jesus, sendo como é a cabeça dum corpo místico de que nós somos os membros, adora a seu Pai não somente em seu nome, mas em nome de todos aqueles que são incorporados nele, e põe à nossa disposição as homenagens que presta a Deus, permitindo-nos que nos apropriemos delas, para as oferecermos à Santíssima Trindade.

É igualmente com Ele e por Ele que mais eficazmente podemos pedir novas graças; porquanto Jesus, Sumo Sacerdote, não cessa de interceder por nós, «semper vivens ad interpellandum pro nobis» Até mesmo quando tivemos a infelicidade de ofender a Deus, Ele advoga nossa causa com tanto mais eloqüência quanto é certo que oferece ao mesmo tempo o seu sangue derramado por nós. Além disso, dá às nossas orações um valor tal que, se pedirmos em seu nome, isto é, apoiados nos seus merecimentos infinitos, temos a certeza de ser atendidos: «Amen, amen, dico bis, si quid petieritis Patrem in nomine meo, dabit vobis» O valor - seus méritos é, efetivamente, comunicado aos seus membros, e Deus pode recusar nada a seu Filho: «exauditus est pro sua reverentia"

Enfim, é em união com Ele que devemos praticar todas as nossas ações, tendo habitualmente, segundo uma bela expressão de M. Olie, Jesus diante dos olhos, no coração e nas mãos: - diante dos olhos, isto é, considerando-o como o modelo que devemos imitar, e perguntando-nos, como São Vicente de Paulo: Que faria Jesus, se estivesse em meu lugar? - no coração, atraindo a nós as suas disposições interiores, a sua pureza de intenção, o seu fervor, para praticarmos as nossas ações com seu espírito; - nas mãos, executando com generosidade, energia e constância as boas inspirações que Ele nos sugeriu.

Então será transformada a nossa vida, e viveremos da vida de Cristo:" Eu vivo, mas já não sou que e vivo, porque é Jesus que vive em mim» Glórias a Deus!!

(Depois veremos: Da Parte da Santissima Virgem na vida Cristã)

1 - A Vida da Graça - Um tesouro a adquirir
2 - Queda e Castigo
3 - Redenção
4 - Natureza da Graça
5 - Do Organismo da Vida Cristã
6 - União entre a alma e Deus
7 - Das Virtudes e dos Dons
8 - Da Graça Atual