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quarta-feira, 11 de março de 2009

Religião do Amor, Religião da Cruz?


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Entrevista com Santo Agostinho de Hipona

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Tenho a impressão de que, hoje como ontem, o grande obstáculo para que muitas pessoas - sejamos sinceros: muitos cristãos - abracem de verdade o cristianismo é a Cruz. Com efeito, por que a religião do amor há de ser a religião da Cruz?

Santo Agostinho nos responde:

“ Era preciso mostrar ao homem quanto Deus nos amou e o que éramos quando nos amou: "quanto", para que não desesperássemos; "o que éramos", para que não nos ensoberbecêssemos. Gostaria de dizer ao ouvido de cada um: "A Vida eterna assumiu a morte, a Vida eterna quis morrer. Não morreu segundo o que era em Si mesma antes de morrer; morreu segundo O que tinha de comum contigo, depois de encarnada. De ti recebeu a natureza segundo a qual devia morrer por ti; e assumiu a morte para matar a tua morte. Escuta-me: és cristão, és membro de Cristo; considera bem o que és, pensa a que preço foste resgatado. Cristo quis padecer por ti. Ensinou-te a padecer, e ensinou-te padecendo Ele primeiro. Ter-lhe-iam parecido muito pouco as suas palavras, se não as tivesse acompanhado com o seu exemplo".

E como foi que nos ensinou? – o tom agora é intimo, dolorido. Como foi que nos ensinou? Pendia da cruz, e nós nos assanhávamos contra Ele; estava preso à cruz por ásperos cravos, mas não perdia a mansidão. Nós nos enfurecíamos contra Ele, ladrávamos à sua volta como cães e o insultávamos enquanto permanecia pendurado. Como loucos furiosos, atormentávamos o único Médico posto no meio de nós; e no entanto, pendurado, Ele nos curava. Pai, dizia, perdoa-lhes porque não sabem o que jazem. Pedia e pendia; e não descia, porque ia transformar o seu Sangue no remédio para esses loucos furiosos ...

Nós jazíamos mortos na nossa carne de pecado, e Cristo adaptou-se à semelhança da carne de pecado. Porque morreu quem não tinha razão para morrer; morreu o único livre dentre os mortos, porque toda a carne humana era certamente carne de pecado, e ... como é que essa carne haveria de reviver, se Aquele que não tinha pecado não se adaptasse ao morto, vindo até nós sob a semelhança da carne de pecado? Senhor, Tu padeceste por nós, não por Ti, porque não tinhas culpa, e te submeteste à pena para livrar-nos da culpa e da pena! Em conseqüência, também nós devemos recapacitar e dizer: [i]Senhor, compadece-te de mim; cura a minha alma, porque pequei contra Ti. [/i]Ó Senhor, dá-me sofrimentos, já que não poupaste o teu Unigênito. Ele foi atormentado, sem ter pecado, e eu ... Se foi retalhado Aquele que não tinha podridão, se a nossa própria Medicina não rejeitou o fogo medicinal, será razoável que nós nos revoltemos contra o Médico e Cirurgião, quer dizer, contra Aquele que nos cura do pecado através dos sofrimentos que nos permite padecer? Entregue- mo-nos em cheio nas mãos do Médico, pois Ele não erra, cortando a carne sã em vez da gangrenada; Ele conhece bem o que ausculta, conhece o vício por ter criado a natureza; conhece bem o que criou e teve de assumir por causa da nossa leviandade.


Não faltam, porém, aqueles que sustentam que isso de "tomar a Cruz" está ultrapassado, e que tudo o que signifique aceitar e buscar o sofrimento não passa de exagero neurótico.

“É preciso entender que foi o homem quem talhou para si mesmo um caminho áspero. Mas esse caminho foi percorrido primeiro por Cristo, no seu regresso para o Pai; e por isso Ele pode dizer-nos: Tome cada um a sua cruz e siga-me. Que significa isto? Que, quando começarmos a segui-lo nas suas virtudes e preceitos, encontraremos muitos que quererão contradizer-nos, muitos que lançarão obstáculos no nosso caminho, e muitos outros que tentarão dissuadir-nos de continuar, e tudo isso até entre aqueles que figuram como nossos companheiros de viagem rumo a Cristo. Devemos lembrar-nos de que, como nos dizem os Evangelhos, aqueles que proibiam os cegos de clamar por Cristo eram gente que caminhava ao lado dEle. Se queremos segui-lo, o melhor que podemos fazer é aceitar como cruzes as censuras, as coisas desagradáveis e todo o tipo de contradições; toleremos tudo, suportemos tudo, e não queiramos chegar logo ao fim. E, ao mesmo tempo, amemos o Único que não decepciona, o Único que não engana; amemo-lo porque é verdade o que promete, mesmo que não no-lo dê imediatamente e a fé ameace titubear. Resistamos, perseveremos, agüentemos, suportemos a demora: tudo isso é levar a nossa cruz. E se de verdade somos cristãos, esperemos tribulações neste mundo, não esperemos por tempos melhores: só nos estaríamos enganando. O que o Evangelho não nos prometeu, não o prometamos a nós mesmos. Quem perseverar com espírito ardente não esfriará na sua caridade; porque dá ouvidos Àquele que não se engana nem engana ninguém; e que nos prometeu a felicidade, não aqui, e sim nEle. E assim, quando tiverem passado todas as coisas desta terra, então poderemos esperar com firmeza que reinaremos com Ele por toda a eternidade

Renúncias, desapego, combate contra as paixões, sofrimentos, tribulações e cruzes ... Não será por causa da insistência nesses temas que muitos consideram a "visão cristã da vida" excessivamente ascética e dura, e dizem e escrevem que sufoca a alegria de viver?

“Os homens toleram de bom grado ser cortados e queimados para evitar o sofrimento de umas dores agudas, não digo já das penas eternas, mas de uma simples ferida um pouco mais grave. Para conseguir uma aposentadoria tranqüila, uma vida lânguida e incerta e de duração muito breve, o soldado - ... - suporta guerras cruéis; vive inquieto talvez durante muitos anos de trabalho, à espera unicamente de poder descansar um pouco. A que tempestades e tormentas não se expõem os mercadores -, só para conseguirem umas riquezas feitas de ar! Que calores, que frios, que precipícios e rios não enfrentam os caçadores, que escassez de comida e bebida, só para capturarem uma besta e satisfazerem assim nãouma necessidade, mas um capricho! Quantos incômodos de noites passadas em branco e de prazeres de que é preciso privar-se não suporta o estudante, não já para aprender a sabedoria, mas pelo dinheiro e pelas honras da vaidade, para aprender a fazer contas, a ler e a mentir com elegância! ... Em todas essas coisas, aqueles que não as amam sofrem com a dureza do que têm de padecer; e os que as amam padecem exatamente o mesmo na aparência, embora não sofram com a sua dureza. Por quê? Porque o amor torna fáceis e praticamente insignificantes todas as coisas duras e atrozes. Se, para evitar a miséria temporal, a ambição enfrenta trabalhos enormes, com quanto mais facilidade e decisão não fará a caridade o mesmo, quando se trata de evitar a miséria eterna e conseguir a paz duradoura!

Com razão diz-nos o Apóstolo Paulo, cheio de uma imensa alegria: Os padecimentos do tempo presente não têm proporção alguma com a glória jutura que se revelará em nós. Já se vê por que dizemos que o jugo de Cristo é suave e a sua carga leve. Se a vida cristã é dificil para os poucos que enveredam por ela, torna-se fácil para os que amam a Deus. Esses caminhos que parecem duros aos que "labutam" - aos que, kantianamente, só enxergam na vida cristã uma série de deveres a cumprir -, são suaves' para os que amam. Por isso, a divina Providência faz com que, o homem interior, que se renova de dia para dia, já não viva sob a Lei, mas sob a graça; libertado - pelo modo como as cumpre - da carga das inúmeras observâncias que constituíam um jugo pesado, mas muito conveniente para domar a sua dura cerviz - o seu orgulho intelectual, diríamos nós -, esse homem respira agora a facilidade de uma fé simples, de uma esperança boa e da santa caridade. Todos os incômodos impostos ao homem exterior tornam-se leves para o homem interior. Nada é tão fácil para uma vontade realmente boa como ser ela mesma, e isso basta para Deus


Que dizer então dessas pessoas, até bondosas, que cifram todo o seu ideal em poupar incomodidades e sofrimentos a si e aos outros? E, quando estão investidas em responsabilidade pelos outros, por serem pais, governantes, sacerdotes, evitam acima de tudo exigir condutas custosas àqueles que lhes estão confiados?

“Essas pessoas são como alguém que, para facilitar a vida dos pássaros, lhes cortasse as asas para aliviá-los do seu peso. Quanto mais peso lhes tirarem, mais presos os deixarão à terra! Porque lhe tiraram o peso, a ave já não voa; devolvam-lho, e voará até às nuvens! Assim é também o peso de Cristo; carreguem-no os homens, não sejam preguiçosos. Não dêem ouvidos aos que não querem arcar com ele; ponham-no aos ombros os que querem, e experimentarão como é leve, como é suave, como é alegre, como os arrebata para o céu, desprendendo-os da terra. Outras são as cargas que oprimem e esmagam; a de Cristo sustenta. Outra é a carga que pesa; a de Cristo é toda asas”

O senhor tocou já várias vezes num tema candente, o do amor. Podemos dizer que, segundo o seu modo de pensar, mais do que uma questão de cumprir umas leis morais, ou de aderir a um sistema de doutrinas, o cristianismo é questão de amor?

“É evidente: o verdadeiro amor consiste em aderír à verdade para viver na justiça. Ninguém desfruta daquilo que conhece se não o ama ... e ninguém persevera no cumprimento daquilo que ama senão com mais amor. Por outro lado, nenhum bem é perfeitamente conhecido se não for perfeitamente amado. Cada um será como for o seu amor. Amamos a terra? Seremos terra. Amamos a Deus? Que vou dizer que seremos Deus? Não ouso dizê-lo por mim mesmo, mas ouçamos a Escritura: Eu digo: deuses sois, e todos filhos do Altíssimo. Quando a alma vive na iniqüidade, está morta. Quando, pelo contrário, se torna justa, torna-se participante de uma outra vida distinta da sua; porque, elevando-se até Deus e unindo-se a Deus pelo amor, é justificada por Ele .


Fonte: Livro: Onde está Meu Deus? Editora quadrante

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Sofrimento, Oração e Desapego - Santa Catarina de Sena


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Carta 187

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Para João Sabbatini, Tadeu Malovoti e os Monges de Belriguardo

1 - Saudação e Objetivo

Em Nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, caríssimos filhos em Jesus Cristo, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos escrevo no Seu precioso sangue, desejosa de vos ver como soldados sem nenhum temor servil.

2- Valor do Sofrimento na Vida Cristã

De fato, nosso Salvador quer que tenhamos medo dele, não das pessoas deste mundo. Cristo disse: [i]”Não temais aqueles que podem matar o corpo, mas a Mim, que posso enviar ao inferno a alma e o corpo”[/i](cfr. Mt 10,28). Por isso eu quero que vos afogueis no sangue do Filho de Deus, inflamados no fogo da divina caridade. É onde se perde todo temor servil, restando na pessoa apenas o temor reverencial. E que podem fazer o mundo, o demônio e seus servidores contra quem atingiu o amor sem medida pelo sofrimento? Nada! Eles apenas nos fornecem a ocasião para provarmos nossa virtude. Realmente, a virtude é posta à prova pelo que lhe é contrário. A pessoa deve até alegrar-se e rejubilar-se, deve procurar sofrer sempre com Cristo crucuficado, deve aniquilar-se por Ele, deve humilhar-se. Deve deleitar-se na dor e na Cruz. E ao desejar o sofrimento, encontrará alegria. Mas se procurar a alegria, achará a dor.

A melhor coisa é, portanto, afogar-se no sangue e eliminar nossas perversas vontades mediante um amor livre pelo Criador, sem termos nenhuma compaixão de nós mesmos. Só então aquela alegria estará em vós. E deveis esperar os sofrimentos sem nenhuma angústia. Por nenhuma ordem, que nos for dada, deveremos nos queixar. Pelo contrário, devemos até nos alegrar. De fato, nenhuma ordem humana será capaz de nos afastar de Deus. Tais ordens até serão aptas a nos dar a virtude da paciência, tornando-nos solícitos em abraçar a árvore da Cruz, em procurar a visão invisível que jamais nos será tirada. Se assim decidimos, a caridade amorosa jamais nos será tomada. Que doce coisa sermos perseguidos por causa de Cristo crucuficado! Quero que vos alegreis quando a cruz vos é dada, qualquer que seja o modo! Não escolhamos o modo. Que ele seja escolhido por quem nos faz sofrer. Julgai-vos até indgnos de sofrer perseguição por Cristo crucificado.

3- Perseverai na Oração e no Amor Mútuo

Ficai sabendo, meus bondosos filhos em Jesus Cristo, que foi essa a senda percorrida pelos santos que imitaram Jesus Cristo. Não existe outra que nos conduz a vida! Quero, pois, que com empenho vos esforceis por trilhar essa senda, feliz e reta. Perseverai na oração com boa vontade, sempre que o Espírito vos oferecer ocasião. Não haja desprezo ou fuga em vós, também com perigo de vida. Não deixeis a oração para poupar e agradar o próprio corpo. O que o demônio mais deseja ver em nós, para nos afastar da oração, é que tenhamos cuidados com o corpo e tibieza espiritual. Por motivo algum tais coisas devem afastar-nos da prece. Recordando-nos de que Deus é bondoso e reconhecendo nossos defeitos, afastemos as tentações do diabo e toda autocompaixão. Escondei-vos nas chagas de Cristo crucificado, nada voa amedronte. Por Cristo crucificado vós tudo podeis. Ele estará convosco e vos fortalecerá.

4 –Sede Obedientes e Desapegados. Conclusão.

Sede obedientes até a morte no que vos for imposto, por mais grave que seja. Não desprezeis o prêmio por causa da dificuldade ou de alguma tentação do diabo querendo enganar-vos, sob pretexto de virtude, sugerindo-vos: ”Isto sera a alegria de minha vida e faria aumentar a virtude em mim”. Não acrediteis no diabo, mas sim em Deus, o qual vos dará de outro modo o que esperais dessa consolação. Vós sabeis que nenhuma folha cai de uma árvore sem a providência divina. Desse modo, tudo o que o diabo ou as pessoas fazem para nós, por providência divina colabora para a nossa salvação e progresso na perfeição. Portanto, acolhei tudo com respeito e despojai-vos dos bens materiais não necessários. Revesti-vos de Cristo crucificado, inebriai-vos no seu sangue. Nele encontrareis a alegria e a paz completa.

Nada mais acrescento. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.

Fonte: Catarina de Sena, Santa, 1347 -1380. Cartas Completas – Tradução: Frei João Alves Basílio O.P. São Paulo: Paulus 2005. ( Espiritualidade) .pag. 607 a 609.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A Mansidão para com o Próximo.


Da Vida de São Francisco de Sales.

Bispo da Igreja de Cristo


"Trabalhai por adquirir a Suavidade de Coração para com o Próximo".

1. A flor da Caridade.

1. Na sua "Introdução à Vida Devota" trata São Francisco de Sales "da doçura para com o próximo", que ele denomina "a flor da caridade". Com efeito, "aquele que é afável e brando, escreve ele em uma de suas cartas, não ofende a ninguém, suporta e atura de boa vontade os que o maltratam, enfim sofre pacientemente as pancadas e não retribui o mal com o mal. O manso nunca se aItera, mas embebe todas as suas palavras na humildade, vencendo o mal com o bem". Não nos cansemos de contemplar e escutar aquele que, de todos os santos, se aplicou melhor a reproduzir a mansidão e a benignidade de Cristo. Seu exemplo, como os seus ensinamentos, serão para nós uma luz benfazeja. Testemunhas da acolhida de São Francisco de Sales em seu bispado ou folheando a sua correspondência, admirar-lhe-emos a doçura amável e paciente, sempre igual, para com todos. Adquirida a poder de um longo esforço e cuidadosamente cultivada como uma virtude de eleição, alimenta-se ela na caridade do bispo de coração largo e magnânimo. Delicada e bem-humorada, indulgente e compassiva, ela nunca abdica da sua firmeza. Se nos entregarmos ao seu fascínio, ela nos conduzirá, pela renúncia oculta sob o véu do sorriso, bem longe, no caminho da santidade.

2. No bispado de Annecy.

Abeiremo-nos do Bispo de Genebra. A porta está sempre aberta, e para todos os que aí vêm bater. Os criados receberam ordem "de não mandar embora ninguém que lhe quisesse falar; e se, à conta de alguma imperiosa necessidade, fosse preciso despedi-los, exigia que fosse com tanta afabilidade que os visitantes não perdessem a confiança de voltar. Veja essas pessoas de qualidade, com que distinção as recebe. "Como não há ninguém que se preocupe menos das honras do que eu, dizia ele, não há ninguém disposto a dar mais honra aos outros do que eu". Sucedeu-lhe até, certa vez, tratar muito obsequiosamente o criado de um gentil homem; e como lhe chamassem a atenção: "Não sei distinguir muito as pessoas, explicou; só considero uma coisa: que todos trazem o caráter de cristão". De fato, não eram só as pessoas de qualidade que ele acolhia assim, mas todos os que dele se aproximavam; e eram numerosos, às voltas com alguma tribulação, os que acorriam a ele, porque se sabia que todo aquele que se dirigia a ele voltava consolado.

Os de casa o punham de sobreaviso contra as rusticidades e sensaborias desses humildes visitantes. "E nós, que somos?" respondia ele. Mas, diziam-lhe, fazeis mal de sofrer essas incomodidades. E ele: "Que quereis que eu faça? É preciso dar consolação aos que a vêm procurar". Pedia desculpas a uma nobre dama de a ter feito esperar ouvindo ‘todo o tempo que ela quis’, uma pobre mulher que acabava de perder os seus filhos e que desafogava com ele a sua amargura. "Gosto muito dessas pobres aldeãs, confessava ele, são almas tão boas, tão simples, tão cheias do temor de Deus!". Com que doçura abria os braços aos pecadores, aos maiores pecadores! Seus amigos se escandalizavam. "Com toda a certeza, disse-lhe um dia um deles, Francisco de Sales irá para o paraíso; mas quanto ao Bispo de Genebra, não sei; receio muito que sua mansidão lhe pregue alguma peça". – "Ah! respondeu ele, mais vale ter que dar contas de uma doçura demasiada que de uma severidade excessiva. Deus não é todo amor? Deus Pai é o Pai das misericórdias, Deus Filho se denomina um cordeiro, Deus Espírito Santo se mostra sob a forma de uma pomba, que é a mesma doçura. Se melhor coisa houvesse que a benignidade, Jesus no-lo teria dito, e no entanto Ele só nos dá duas lições que aprendemos dele: a mansitude e a humildade de coração. Quereis, então, impedir-me de aprender a lição que Deus me deu, e sois acaso mais sábio que Deus?".Mas, objetavam-lhe, são apóstatas, homens perdidos, indignos de vossas carícias". – "Que pena! respondia ele, então só existimos Deus e eu para amarmos esses pobres pecadores! Querem que eu me esqueça de que são minhas ovelhas, que eu recuse minhas lágrimas àqueles aos quais Jesus Cristo deu todo o Seu sangue; e a quem farei misericórdia, senão aos pecadores? .. Que aquele que gosta do rigor se afaste de mim, porque disso não quero eu ter".

Dessa admirável mansidão São Francisco de Sales nunca se apartava, mesmo quando se lhe apresentavam pessoas arrebatadas pela cólera. Como aquele homem que, considerando-se lesado pelo Bispo, levou cães uivantes é "fez soar a trompa de caça por desprezo e derisão" no pátio do Bispo, depois, subindo até a residência do Monsenhor, injuriou-o e chegou a levar a mão à guarda da espada. Ou ainda esse comendador de Malta que, vexado com o fracasso de um candidato que patrocinava, entrou em casa do Bispo de chapéu na cabeça, lançou-lhe em rosto as mais grosseiras injúrias, depois saiu precipitadamente. Às testemunhas indignadas da cena, o santo se contentou com dizer: "Devo ser-lhe grato por me ter dispensado do trabalho de opor minhas razões aos seus arrebatamentos".Se analisarmos a mansidão de São Francisco de Sales, distinguiremos nela um maravilhoso conjunto dessas pequenas virtudes, modestas e escondidas, que crescem ao pé da cruz, como ele próprio dizia, e que ele estimava tanto: a humildade, a paciência, a cortesia respeitosa e a sincera estima dos outros, todas ligadas entre si pelo sobrenatural amor das almas que o mantinha constantemente, numa perfeita abnegação, ao serviço dos outros. Ao serviço dos seus próprios criados ... "Meu amigo, quando entrei, escrevíeis, disse ele certo dia a um dos seus empregados que, surpreendido com a che¬gada do seu amo, empurrara para longe de si a caneta, o tinteiro e o papel. Que escrevíeis, pois? Não serei bastante de vossos amigos para que me façais essa confiança? O pobre rapaz, todo confuso, apresentou o papel ao bispo, que leu e concluiu: "Não entendeis nada disso". Em seguida, sentou-se e escreveu. "Aqui está, disse ele, copiai isso. Ponde-lhe o vosso nome e enviai-o e vereis que tudo irá bem". Alguns dias mais tarde uma jovem viúva, lisonjeada com a delicadeza com que o empregado lhe pedia a mão, vinha consultar o Bispo que a encorajou ao casamento".

E há coisa ainda melhor. Tinha Monsenhor um criado de quarto que não gostava de se deitar tarde. Mas não gostava tampouco de se deitar cedo, se o seu patrão, para dar conta da sua tarefa, fosse obrigado a prolongar a vigília. Francisco de Sales instava com ele para que fosse descansar, para não se aborrecer com a espera. "Tomais-me, então, por um dormido ou preguiçoso?" resmungava, mal-humorado, o criado. E o Bispo apressava então o seu trabalho, para poupar o seu empregado. Ao levantar, mesma perplexidade. Se o chamava, tinha o aspecto de se queixar de não haver dormido bastante. Se não chamava... "Quem vos vestiu?" pergunta o empregado, que irrompe subitamente no escritório do Bispo, absorvido no seu trabalho, com a impetuosidade de um homem que dormiu até mais não poder, e cujos olhos, empapuçados de sono, suportam mal a viva claridade do dia. – "Fui eu mesmo, responde o Bispo; acaso não sou bastante grande e forte para isso?" - "Será que vos custava tanto me chamar?" ralha o criado. – "Asseguro-vos que vos chamei diversas vezes; cheguei a ir ao vosso leito, e vos encontrei dormindo tão profundamente e com tanta vontade que não vos quis acordar". – "É isso, caçoai de mim!" – "Oh! meu amigo, não o disse por zombaria, mas por pura recreação. Ficai tranqüilo de futuro; prometo-vos que de outra vez, já que o quereis, não me vestirei mais sem vós. Despertar-vos-ei e vos farei levantar".

Ora, quer tenha São Francisco de Sales que se haver com os seus criados, quer receba vísitantes descorteses, quer acolha pobres pecadores, quer console os atribulados, quer converse com pessoas de qualidade ou humildes aldeãs, notou o leitor o tom, a doçura de sua voz? Admirava-se alguém da moderação com que repreendera a um jovem pelo seu mau procedimento. "Eu temia derramar em um quarto de hora, confessou ele, esse pouco de licor de mansuetude que procuro recolher há vinte e dois anos, como um orvalho, no vaso de meu coração". Deliciosa imagem, admirável, ao mesmo tempo, de delicadeza e verdade! Pessoas há que só sabem pronunciar palavras ásperas; é que têm no coração um licor amargo e corrosivo, que envenena todo o seu falar. Nos lábios do Bispo de Genebra, tudo é doçura e suavidade, porque, antes de sair de sua boca, as suas palavras passaram por essa toalha de mansuetude, com a qual se esforçou por encher, como com um orvalho refrigerante, o vaso de seu coração. E nós, a quem acontece acolhermos de maus modos, sermos duros para com os que nos vêm procurar, termos réplicas secas, reflexões descorteses, peçamos a São Francisco de Sales que nos ensine a mansidão .

3 -A doçura de Coração para com qualquer pessoa em particular.

"Não percais nenhuma ocasião, por pequena que seja, diz-nos ele, de exercitar a doçura de coração para com qualquer um". Retenhamos o conselho. E para procurarmos segui-lo com mais fidelidade, tratemos de descobrir porque faltamos à brandura e delicadeza em nosso trato com os outros. Por quê? É que estamos descontentes, - descontentes de nós mesmos e descontentes dos outros, que nos são antipáticos ou importunos. Descontentes conosco mesmos! Bem sabe ele que, com efeito, temos motivo de estar, não raro, descontentes conosco e que isso nos dispõe desfavoravelmente em relação ao próximo. Recomenda-nos, por conseguinte, que nos encha-mos de amor de Deus e, que sejam quais forem as nossas trapalhadas, fiquemos sempre sossegados e tratemos os outros com doçura. "Que vos posso dizer, minha querida filha, senão o que tão amiúde vos tenho dito, que vades sempre seguindo o vosso curso ordinário, o mais que puderdes, por amor de Deus, fazendo mais atos interiores desse amor e ainda exteriores, e sobretudo submetendo quanto puderdes o vosso coração à santa mansidão e tranqüilidade convosco mesma, ainda que tentada ou aflita, ainda que miserável". Essa tranqüilidade para conosco mesmos nos ajudará a suportar sossegadamente o próximo. Porque o próximo nos é por vezes antipático. Com muita freqüência, aliás, não saberíamos dizer porque. Sua fisionomia, sua atitude, o tom de sua voz não nos agradam. Outras vezes, temos bastante razão para achá-lo desagradável: suas manias nos enervam, e nos sentimos ofendidos com as suas esquisitices de caráter, seus desmandos de linguagem, seus modos de agir. São Francisco de Sales apela para o nosso espírito de fé. [i]“Força nos é considerarmos o próximo em Deus; ... após ter pedido o amor de Deus, é sempre necessário pedir o dos próximos, e particularmente daqueles para os quais a nossa vontade não tem nenhuma inclinação".

"Quando será que seremos inteiramente embebidos em doçura e suavidade para com o próximo? Quando veremos as almas de nossos próximos no peito sagrado do Salvador? Ai de nós! Quem olha o próximo fora disso, expõe-se ao risco de não o amar, nem puramente, nem constantemente, nem igualmente; mas lá, nesse lugar, quem o não amaria? Quem o não suportaria? Quem não lhe sofreria as imperfeições? Quem o acharia antipático? Quem o consideraria enfadonho?" "Sobretudo, insiste ele, é indispensável que tenhamos um coração bom, brando e afetuoso para com o próximo, e particularmente quando ele nos molesta e entedia; porque então não temos nada nele para o amar, exceto o respeito do Salvador, o que torna o amor, sem dúvida, mais excelente e digno, na proporção em que é mais puro e isento das condições caducas".Essas vistas sobrenaturais São Francisco de Sales as relembra sempre que nos exorta à mansidão e tolerância fraternas."Trabalhai por adquirir a suavidade de coração para com o próximo, considerando-o como obra de Deus, e que enfim gozará, se assim aprouver à bondade celeste, do paraíso que nos está preparado. E os que Nosso Senhor suporta, nós devemos suportar com ternura, com grande compaixão pelas suas enfermidades espirituais". Impelidos por esses motivos de fé, combateremos fielmente as nossas impaciências, reprimiremos nossos assomos de cólera, triunfaremos das aversões e repugnâncias pelo exercício da mansidão. "Combatei fielmente vossas impaciências não somente a todo propósito mas ainda fora de propósito, a santa bonhomia e mansidão em relação àqueles que vos são mais enfadonhos, e Deus abençoará o vosso desígnio". "Tratai com extrema doçura e caridade com o próximo e as Irmãs, sobretudo com aquelas que, devido à imperfeição de seu espírito, falta de graças naturais ou maus ofícios, vos ocasionarem alguma aversão e aborrecimento".

"Sede boa para com o próximo, e não obstante as revoltas e assomos da cólera, pronunciai em freqüentes ocasiões estas divinas palavras do Salvador: "Eu os amo, Senhor, Pai eterno, a esses próximos, porque vós os amais e mos destes por irmãos e irmãs, e quereis que, como vós os amais, eu os ame também! Amai, sobretudo, essas caras irmãs com as quais a própria mão da Providência divina vos associou e ligou com um vínculo celeste; suportai-as, acariciai-as e ponde-as dentro de vosso próprio coração". "Não duvido que se declarem aversões e repugnâncias em vosso espírito; mas, minha muito querida filha, são ou¬tras tantas ocasiões de exercitar a verdadeira virtude da mansidão; porque é mister fazer bem e santamente, e afetuosamente o que a cada um devemos, embora com repugnância e sem prazer".

Nunca aceitaremos em nosso coração sentimentos de ódio, e seremos bastante senhores de nós mesmos para refrearmos a nossa língua e nos proibirmos queixas e lamúrias sem fim por conta dos que nos teriam censurado. “É preciso, sobretudo, combater o ódio e os descontentamentos para com o próximo, e abster-se de uma imperfeição insensível, mas grandemente nociva, da qual poucos se abstêm; que é que, se nos acontece censurarmos o próximo ou nos queixarmos dele (o que raramente devia acontecer), não acabamos mais, mas recomeçamos sempre e repetimos nossas queixas e lamúrias sem fim: o que é sinal de um coração picado e que ainda não tem saúde verdadeira. Não se lamentam os corações fortes e enérgicos a não ser por grandes razões, e ainda assim, quanto a essas grandes razões, não conservam eles muito ressentimento, ao menos com perturbação e ansiedade". Esse conselho de São Francisco de Sales, empenhar-nos-emos nós em segui-lo, ainda que a nossa caridade não seja retribuída, porque é no Coração de Cristo que se aviva nos nossos a chama do puro e desinteressado amor ao próximo. "O grande bem, a nossa felicidade na perfeição, seria não termos nenhum desejo de sermos amados pelas criaturas. Que vos há de importar que vos amem ou não? E se encontrais ocasiões que vos fazem parecer que não gostam de vós, é necessário que prossigais em vosso caminho, sem vos entreterdes a considerá-las. Devemos amar ao próximo e ter-lhe afeição, a cada um na sua categoria, conforme o desejo de Nosso Senhor, tudo fazendo que esteja ao nosso alcance para contentá-lo e ser-lhe proveitosos, porque esse é o desejo de Deus. E se aprouver a Deus que tenhamos amor de seus corações, é uma grande consolação e bênção de Deus: e se isso não aprouver à sua bondade, deve contentar-nos com o amor do Coração de Nosso Senhor, que é mais do que suficiente".

Mesmo simpático, pode o próximo irritar-nos com as suas importunações, suas opiniões diferentes das nossas e, sobretudo se é de nossa família ou pessoa chegada a nós com as suas omissões e até com os seus testemunhos de afeição. Suas importunações. Não esconde o bispo que "as incursões que os amigos fazem em nossa liberdade, são mavilhosamente molestas; mas, afinal, escreve ele, cumpre suportá-las, depois carregá-las e finalmente amá-las como amadas. contradições". Estamos mergulhados em um trabalho que nos absorve toda a atenção, e vêm distrair-nos com bagatelas; rebaixam a gravidade de nosso espírito a futilidades, retêm-nos sobre questões ociosas."Amai a santa virtude de suportar os outros e a da santa flexibilidade", escrevia São Francisco de Sales; e, com a costumada condescendência, ei-Io que se adapta a todos os estados de alma e se esforça por responder a todas as perguntas. Uma religiosa da abadia de Santa Catarina tem algum escrúpulo de recitar um Pai Nosso para dissipar dores de cabeça: "O Pai Nosso que dizeis para a dor de cabeça não é proibido; mas, meu Deus, minha filha, não, eu não teria coragem de pedir a Nosso Senhor, pela dor que sentiu na cabeça, não ter dores nenhuma na minha. Acaso Ele suportou para que nós não suportássemos? Santa Catarina de Sena, vendo que seu Salvador lhe apresentava duas coroas, uma de ouro, outra de espinhos: "ó, eu quero a dor, diz ela, para este mundo: a outra será para o céu". Quisera empregar a coroação de Nosso Senhor para obter uma coroa de paciência à volta de minha dor de cabeça. .. Vivei toda entre os espinhos da coroa do Salvador e, como um rouxinol, no seu arbusto, cantai, filha minha: 'Viva Jesus’

Uma de suas filhas da Visitação se entristece e se inquieta por não conseguir chorar de devoção."Não vos digo nada, minha boa filha, de vosso coração quanto a não terdes lágrimas. Não, minha filha, porque o pobre coração não é responsável disso, visto como isso não acontece por falta de resoluções e vivos afetos de amar a Deus, e sim por falta de paixão sensível, que não depende em nada de nosso coração, mas, de outra espécie de disposições que não podemos conseguir; porquanto da mesma forma, minha querida filha, que neste mundo não é possível que possamos fazer chover quando queremos, nem impedir que chova quando não queremos que chova, também não está em nosso poder chorar quando queremos, por devoção, nem deixar de chorar também, quando a veemência dos afetos nos empolga. Isso não vêm de nossa falta, o mais das vezes, mas da providência de Deus, que nos quer fazer seguir o nosso caminho por terra e pelo deserto, e não pelas águas, e quer que nos acostumemos ao trabalho e à dureza".

Pergunta-lhe uma dama, cujo nome ignoramos, como afugentar o sono que a entorpece na oração. "Não vos perturbeis absolutamente com os vossos letargos, contra os quais é preciso fazer duas coisas: uma é mudar freqüentemente de posição na oração, como ter as mãos ora cruzadas sobre o estômago, ora juntas, ora estendidas, ora estar de pé, ora de joelhos num joelho, ora noutro, à medida que as sonolências vos chegarem. A segunda coisa é lançar freqüentemente palavras exteriores, de boca, semeadas entre vossa oração mais ou menos cerradamente, conforme vos virdes mais ou menos fortemente atacada de letargos". Isso o mudava inteiramente de madame de Chantal; mas que seja bendita, essa dama desconhecida, por nos ter valido estas linhas que enriquecem de modo tão original a espiritualidade de São Francisco de Sales. Que seja bendita e durma em paz! Eis o que é mais grave. "Nossas irmãs, conta uma religiosa da Visitação de Lyon, gozavam dessa santa alegria que é comumente o quinhão de uma alma que nada tem a censurar-se e que não disputa nada a Deus. É do lado da alegria que o inimigo as tentou. Caiu-se em algumas leviandades no coro durante o ofício. A superiora, a madre Favre, ficou aflita com isso e consultou o bispo. Recebeu esta resposta: "A tentação de rir na igreja e no ofício é má, embora possa afigurar-se apenas uma expansão inocente e ingênua, porque, depois da caridade, a virtude da religião é a mais excelente; na verdade, como a caridade dá a Nosso Senhor o amor que lhe é devido segundo as nossas possibilidades, também a religião lhe confere a honra e a reverência requeridas, e portanto, as faltas que se cometem contra ela são grandemente más. Verdade é que eu não vejo nisso nm grande pecado, porque é contra a vontade; más não deve passar sem alguma penitência. Quando o inimigo não consegue tornar nossas almas Marion, torna os nossos coraçães Robin; e pouco se lhe dá disso, contanto que o tempo se perca, o espírito se dissipe e sempre alguém se escandalize. Mas, reparai, cara filha do meu coração, Não atemorizeis essas boas jovens, porque de um extremo poderiam passar ao outro, o que não convém".

Pode o próximo parecer-nos importuno quando não se compagina com as nossas idéias. Nesse caso, na discussão, os esquentamos e defendemos o nosso parecer com um vigor obstinado. São Francisco de Sales não se obstinava. Tinha por regra "nunca contradizer ninguém, a não ser que houvesse pecado ou dano notável em deixar de fazê-lo". E dizia: "Quando é preciso contradizer alguém e opor a própria opinião à de outrem, é necessário usar de grande brandura e destreza, sem querer violentar o espírito de ninguém, porque não se ganha nada agindo com aspereza. .. O espírito humano pode ser persuadido, não constrangido. Constrangê-lo é revoltá-lo".

Na discussão com os protestantes, logo apaixonada, preferia ele, por isso, a exposição simples da doutrina cristã. Verdade é que infundia nela uma flama tal, um tal acento de amor, que comovia os corações e desse modo inclinava os espíritos a aceitar a verdade. Escrevia a madame de Chantal: "Estando em Paris e pregando na capela da Rainha sobre o dia do juízo (não é um sermão de controvérsia), encontrava-se aí uma senhorita, chamada mademoiselle Perdreauville, que viera por curiosidade; ela ficou nas redes, e com esse sermão fez o propósito de se instruir, e três semanas depois trouxe toda a família para se confessar comigo e fui padrinho de todos eles na confirmação. Vede, no entanto, que esse sermão que não foi feito contra a heresia, respirava, ainda assim, contra a heresia, porque Deus me deu nessa ocasião esse espírito em favor daquelas almas. Desde então tenho dito sempre que quem prega com amor prega bastante contra os herejes, embora não diga uma só palavra de disputa contra eles".

"Deveríeis todas as manhãs, antes de qualquer coisa, pedir a Deus que vos desse a verdadeira doçura de espírito que ele exige das almas que o servem, e tomar a resolução de vos exercitar bem nessa virtude, sobretudo para com as duas pessoas para com quem tendes o maior dever. Deveis fazer essa empresa de bem vos governardes nisso, e de vos lembrardes dela cem vezes ao dia, recomendando a Deus esse bom desígnio; porquanto não vejo que tenhais muito que fazer para bem sujeitar a vossa alma à vontade de Deus, a não ser abrandá-la dia a dia, pondo a vossa confiança em sua bondade. Feliz sereis, filha mui querida, se assim fizerdes, porque Deus habitará no centro de vosso coração e aí reinará em plena tranqüilidade. Mas se por acaso cometerdes alguma falta, não percais a coragem; tornai a vós sem detença, exatamente como se não tivésseis caído. Curta é esta vida, e não nos é dada senão para ganharmos a outra; e bem a empregareis se fordes doce e tratável para com essas duas pessoas com as quais Deus vos colocou". Essa “doçura incomparável com a qual, sem violência alguma, submetia tudo à sua vontade”, causava admiração ao seu amigo, o bispo de Belley. A respeito do bispo de Genebra dizia ele certa vez a um grande e santo prelado: “Ele faz o que quer, e de maneira tão suave e apesar disso tão forte, que nada lhe pode resistir. Caem mil à sua esquerda e dez mil à sua direita. Tudo cede às suas persuasões; atingindo o objetivo ao qual visa e fortemente, não diríeis que ele o atingisse e que está feito”. Responde-lhe outro: “É a mesma doçura que o torna tão poderoso”. Como efetivamente, resistir ao encanto sedutor de tão amável virtude?

São Francisco de Sales bem o sabia. Costumava dizer ”que se atraem mais moscas com um colherada de mel que com cem barris de vinagre”, e que se “O espírito humano se engrila contra o rigor, pela suavidade torna-se submisso a tudo”. Assim resumia sua experiências: ”Bem-aventurados os que são doces: possuirão a terra, ou seja, serão os donos dos corações e todas as vontades estarão nas suas mãos, sobretudo a vontade de Deus”.

São Francisco de Sales: rogai por nós!

Adaptação do livro: As fontes da Alegria - SALES, São Francisco. – A Mansidão para com o Próximo - Tradução: Cônego F. Vidal. Edições Loyola –São Paulo -1978. pgs.155 -191

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Fazer a Vontade de Deus .....


Segundo Santo Afonso de Ligório

Afonso de Ligório, jovem advogado, teve sua fama aumentada quando começou a pregar, realizando uma revolução nos corações dos pobres e humildes de Nápoles, pois acreditava com todo fervor, que quando se “ propõe adequadamente o bem”, qualquer pessoa a ele se entrega e se transforma. Seu apostolado crescia e muitos aderiam à força de sua mensagem, pois sabia que todos somos chamados, em grau maior ou menor a ser santos.

Assim, qualquer “alma redimida pelo Batismo, tornando-se pela graça templo do Espírito Santo, possui em potência o indispensável para atingir a santidade”. Alertava a todos que só as orações vocais e atos externos de piedade dificilmente levam à santificação, e que por isso deveriam recorrer a uma vida de intensa piedade interior, estimulando-os à oração mental, tão necessária ao crescimento das virtudes, pois coloca a alma contantemente na presença de Deus e da insuficência própria, iluminando-a a respeito das perfeições de Deus e das limitaçoes e defeitos próprios.

Nesta sua caminhada de santidade e de profundo amor a Deus e as almas, descobre como se deve conduzir para se fazer a vontade de Deus que é sempre soberana e que conduz o homem ao seu fim último que é santidade e perfeição. Esta caminhada que percorreremos, pedindo à Santíssima Virgem que nos ajude a compreender tal vontade, para sermos também, como Santo Afonso, santos e irrepreensíveis aos olhos do Pai, que é Santíssimo.

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O Caminho da Santidade

O mais importante é fazer a Vontade de Deus, nos diz Santo Afonso de Ligório, e nos revela que toda perfeição ou santidade consiste no amor a Deus, entretanto, toda a perfeição do amor consiste em conformar nossa vontade a Sua vontade , porque no dizer de São Basílio, “o efeito principal do amor é: unir as vontades dos que se amam de maneira que tenham uma só vontade”. Não há dúvida que agradam a Deus nossos sacrifícios, renúncias e meditações, obras de misericórdia, exercícios de piedade, contanto que tudo esteja de acordo com a sábia vontade do Senhor. Caso contrário, Deus os reprova e são merecedores de castigo. Se nossas obras e atividades não se realizam segundo o agrado divino, como poderiam agradar a Deus?

O profeta Samuel quando disse: “A obediência vale mais que sacrifícios” (I Samuel 15,22), mostrou que obedecendo a Deus o agradamos mais que se fizermos sacrifícios, já que o homem que deseja agir por conta própria, comete uma espécie de idolatria, porque neste caso, adora sua própria vontade, não a vontade de Deus. Pode-se dizer seguramente que a maior glória que damos a Deus é quando fazemos Sua vontade, foi o que fez Jesus quando veio a este mundo, justamente para glorifica-lo, pois disse várias vezes que não veio para fazer a Sua vontade mas a do Pai que o enviou e isso se cumpriu quando entrou no mundo se fazendo vítima de expiação para a remissão dos pecados da humanidade. Deus recusou todos os sacrifícios dos homens para receber a vítima perfeita, esta vítima era Cristo. O mundo haveria de entender este amor imenso pela vontade do Pai, que era remir os homens que estavam nas trevas do pecado e da condenação eterna, por isso, a cruz foi o caminho escolhido. Antes de se entregar disse: “ Para que o mundo saiba que eu amo o Pai, e faço como o Pai me mandou, levantai-vos e saiamos daqui”(Jo 14, 31).

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Seus seguidores seriam identificados como tal se fizessem como Ele, a vontade do Pai: “Pois todo aquele que fizer a vontade de Meu Pai que está nos céus, este será meu irmão, irmã e mãe”(Mt 12,50).

Se tem algo que os santos descobriram, é que ninguém se torna santo sem a busca da perfeição cristã e que toda sua luta consistiu nisso, em fazer sua vontade se conformar à vontade de Deus. Eles são exemplos para nós, que participamos da Igreja militante rumo ao céu, o seu amor puro e perfeito, e a glória a que se encontram há de nos estimular a buscar também fazer a vontade de Deus, amando-o acima de qualquer coisa, o que então facilitará muito em aceitarmos Sua vontade seja ela qual for. Jesus nos ensinou a pedir a graça de fazer Sua vontade na terra, como o fazem os santos no céu: “Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu”(Mt 6,10).

Santa Tereza nos diz: ”Toda a aspiração de quem começa a rezar deve ser esta: quero trabalhar, quero me esforçar para em tudo conformar minha vontade com a vontade do Pai. Nisto consiste a maior perfeição que se pode alcançar no caminho espiritual”(Moradas, 2). O bem-aventurado Henrique Suso dizia que: “Deus não exige de nós que tenhamos muitas idéias luminosas, mas que façamos sua vontade” e que “Preferia ser o mais desprezível verme na terra por vontade de Deus do que um anjo no céu por sua própria vontade”.

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Nossa vontade seja também a vontade de Deus, esta é a mais alta perfeição que podemos aspirar e para isso é preciso que entreguemos tudo a Ele, porque se assim o fizermos estamos nos dando a Ele por inteiro. “Quem dá esmolas, entrega ao Senhor parte de seus bens, que se sacrifica, lhe dá um pedaço de si próprio. Quem pratica o jejum, oferece seu alimento, mas aquele que lhe oferece sua vontade, se consagra totalmente a Deus. Não reserva nada para si” e por isso pode verdadeiramente dizer a Deus: ‘Meu Deus e meu Senhor, sou pobre, mas eu vos dou tudo o que tenho, tudo o que sou, porque dando-vos minha vontade, nada mais me sobra para vos dar’, e é precisamente isto que o Senhor nos pede quando diz: “Meu filho, dá-me teu coração”(Pr 23, 26), isto é, tua vontade.

Santo Agostinho nos lembra que não podemos fazer oferenda mais agradável a Deus do que lhe dizer: “Tomai, Senhor, posse de mim; eu vos dou toda a minha vontade; dai-me entender o que quereis de mim, e dai-me disponibilidade para realizá-lo”.

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O Caminho da Paz

O bem-aventurado João de Ávila diz que “mais vale um muito obrigado, Meu Deus, na adversidade, do que mil Graças a Deus na prosperidade”, constatanto que é exatamente nas provações que se avalia se estamos mesmo conformando nossa vontade à vontade d’Ele. A perfeição desta virtude consiste nesta união, tanto na prosperidade como na adversidade, na alegria e na tristeza, no sucesso e no fracasso, na saúde e na doença. Quando se trata de sucesso e prosperidade, até os pecadores sabem aceitar gostosamente as disposições de Deus, mas os santos sabem unir sua vontade aos desejos do Senhor, mesmo que contrariem seu amor próprio. Certo e de fé que nada sucede no mundo senão por permissão de Deus, entendendo isso poderemos receber com resignação cristã o que diretamente vem de Suas mãos, independente do que seja, como também é preciso receber o que vem por meio das criaturas, da maldade dos homens: desprezo, calúnias, injustiças, perseguições de toda a sorte.

O Senhor nunca aprova o pecado e a manifestação de injúrias por parte das pessoas, mas se utiliza e até as permite, para delas tirar um bem maior para seus servos e amigos. O Cristão que se exercita no cumprimento desta virtude, não somente se santifica, mas gozará na terra de uma paz impertubável, porque sabe que ”tudo concorre para o bem daqueles que O amam, daqueles que segundo seu desígno, são eleitos”. (Rm 8,28). Diz o livro dos Provérbios: “Nenhum mal atingirá o justo, mas para os ímpios tudo serão males”(Pr 12,21).

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As pessoas que se esforçam por querer o que Deus quer, são muitas vezes humilhadas, mas amam as humilhações; padecem pobreza, mas amam a pobreza, enfim, aceitam com amor o que lhes acontece e levam assim uma vida calma, tranquila e feliz. Vem o frio, vem a chuva, vem o calor, vem o vento, o bom cristão aceita tudo por Deus, porque assim Deus o quer. Jó ao receber a notícia de toda a tragédia de sua vida disse categoricamente: “O Senhor mo deu, o Senhor mo tirou; bendito seja o nome do Senhor”(Jó 1,21), se ele perdeu algo, não culpou pessoas, porque sabia que nada acontece se não for da vontade do Senhor. Jó olhou com o olhar de Deus as provações e tribulações que pesou sobre ele, não como fruto do azar ou do destino, mas como sinal da vontade soberana de Deus.

Santo Agostinho gostava de dizer: “Tudo o que acontece contra nossa vontade, devemos nos convencer que sucede por vontade de Deus”. Esta é a liberdade tão admirável que gozam os filhos do Altíssimo. Liberdade interior que vale mais que todos os tesouros e poderes no mundo dos homens. É aquela paz que os santos experimentaram, “paz que supera todo o entendimento”(Fl 4,7).

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O homem santo permanece na sabedoria como o sol, mas o insensato muda como a lua. O pecador é como ela: hoje cheia, amanhã, minguante; hoje ri, amanhã chora de remorso, de angústia e tristeza; hoje parece tranquilo e sereno, amanhã furioso como o tigre. E por que? Porque seu contentamento depende das coisas boas ou más que lhe acontecem, e, por isso, mudam segundo sopram os ventos favoráveis ou contrários.

O justo é como o sol, sempre sereno e tranquilo, porque sua paz está fundada na conformidade de sua vontade com a vontade de Deus. Podemos gozar aqui na terra de um paraíso antecipado, pois esta paz causa alegria plena, e foi exatamente o que aconteceu aos santos, independente do que passavam; é uma alegria que o mundo não compreende mas que pode e deve estar no coração daquele que tudo se conforma a Deus, e nada, nem a dor, nem a fome, nem a tribulação, haverá de tirar esta paz e impedir que se cumpra de fato a vontade de Deus em sua vida.

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Seja Feita a Vossa Vontade

“Quem poderá resistir à vontade de Deus?”(Rm 9,19) diz São Paulo constatando que ninguém pode impedir que se cumpram os decretos divinos, e que por isso, sábio é aquele se deixa conduzir por Deus em todos as ocasiões de sua vida, e que todos os homens, grandes ou pequenos, ricos e pobres deverão carregar sua cruz. Os que carregam cheios de revolta, sem amor, terão neste mundo uma vida inquieta, vazia, e na outra terão sofrimentos maiores, é o que se lê no livro de Jó: “Deus é sábio de coração, forte e poderoso, quem lhe poderá resistir impunemente?”(Jó 9,4). “Que buscas, ó homem – dizia Santo Agostinho -, buscando bens e mais bens? Ama e busca, o único bem verdadeiro, no qual estão todos os bens. Busca Deus, entrega-te a Ele, abraça a sua santa vontade e viverás sempre feliz, nesta e na outra vida”.

Poderemos encontrar um amigo que nos ame mais que Deus? Todo seu desejo e empenho é de que ninguém se perca, pois sendo Ele por natureza, a bondade infinita, a própria bondade, e sendo próprio dela se comunicar a outros, Ele só deseja nos fazer participantes de seus bens e de sua eterna e infinita felicidade. Depois que Deus ofereceu ao mundo a salvação em Seu Filho Jesus Cristo pela Igreja, poderá negar-nos alguma coisa? “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”(Rm 8,31). Se queres ser agradável ao Senhor e levar neste mundo vida feliz e tranquila, procura estar unido, sempre e em todas as coisas, à vontade do Senhor e permanece fiel à oração nunca se esqueçendo de que todos os pecados, desordens e angústias de tua vida passada tem raiz e fundamento o te haveres separado da vontade de Deus.

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Apega-te de hoje em diante à vontade divina e em tudo que te acontece reza como Jesus Cristo: “Sim, ó Pai, porque isso foi do teu agrado” (Mt 11,26). Quando as humilhações e depressões pesarem, que teu espírito cheio de humildade e de conformidade diga a Deus: “Calo-me, já não abro a boca, porque sois Vós que operais” (Sl 38,10.) A isto deves orientar todos os teus pensamentos e orações, pedindo sempre ao Senhor, na meditação, na comunhão, na visita ao Santíssimo Sacramento, que tudo te ajude a cumprir a vontade d’Ele, dizendo: “Aqui me tendes, Meu Deus, fazei de mim o que quiserdes!” Santa Teresa assim o fazia, oferecendo-se a Deus muitas vezes por dia.

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Assim Na Terra Como No Céu

A enfermidade é a pedra de toque dos espíritos humanos, porque a seu contato se descobre a virtude, o valor que uma alma tem em si. Se suporta a provação sem perturbar-se, sem lamentar-se nem inquietar-se; se obedece ao médico e aos superiores; se permanece tranquila e resignada à vontade de Deus, é sinal que sua virtude é sólida. De nada adiantará a murmuração, o lamento, as queixas, já que sua alma não crescerá em virtude e não fará com isso a santa vontade de Deus, tornando seus tormentos maiores e pouco frutuosos, já que poderia te-los usados para sua própria santificação.

Devemos também resignar-nos à vontade de Deus nas desolações e securas espirituais. Quando uma alma se entrega à vida de justiça e santidade, o Senhor constuma mandar-lhe todo o gênero de sofrimentos e de desolações espirituais. Por que? – Para desprende-la dos prazeres da vida. Para ver se nosso amor é verdadeiro, desinteressado; para testar nossa fé e nossa fidelidade; para ver se procuramos “O Deus das consolações ou as consolações de Deus”. Os santos sofreram muitas desolações e securas espirituais. “Que duro está meu coração, exclamava São Bernardo; não tenho gosto nem para ler, não encontro consolo nem na oração nem na meditação”. Mas eles sabiam que as verdadeiras alegrias, santas e ternas, Deus as reserva para o céu. Esta terra é lugar de merecimento, ao passo que o paraíso é o lugar de prêmio e descanso, de repouso no Senhor.

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Finalmente, devemos nos resignar à vontade de Deus, quando a morte nos visitar, seja quanto ao tempo, ao lugar e ao modo. Viver procurando a Sua vontade em todas as circunstâncias de nossa vida é sinal de grande sabedoria cristã. Quer na vida, quer na morte, quer no tempo, quer na eternidade, minha felicidade está na realização da vontade divina. Assim procediam Jesus, Nossa Senhora e todos os santos, querem exemplos melhores? O temor de perder a Deus nos faz sermos vigilantes e sempre dispostos a jamais perder a graça alcançada.

Quem ama deseja a presença da pessoa amada. O amor requer presença. E como “quem não morre não vê a Deus”, devemos suspirar e não temer, como os santos pela hora da morte libertadora para entrarem no paraíso. Santo Agostinho rezava pedindo a salvação: “Morra eu, Meu Deus, para ir ver-te!”…E São Paulo desabafou: “Desejo partir para estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor”( Fl 1,23). E o profeta Davi, muitos séculos antes do Apóstolo, suspirava: - “A minha alma tem sede do Senhor, do Deus Vivo. Quando poderei chegar, para contemplar a face de Deus”(Sl 41,3). Assim falavam e rezavam todas as almas enamoradas do Senhor da vida.

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Os Bens Espirituais

Esta é a ambição que deves cultivar no coração: amar a Deus o máximo que puderes. Todavia não se deve desejar um grau de amor maior do que aquele que o Deus de amor determinou nos conceder desde toda a eternidade. Disse o bem-aventurado Pe. João de Ávila: - “Não creio que tenha existido um santo que não desejasse ser melhor do que era. Mas isso não lhe tirava a paz e estava sempre contente com os dons recebidos”. Por outro lado, sejamos diligentes e fervorosos em procurar nossa perfeição, usando todos os meios ao nosso alcance. Não devemos permitir jamais que a rotina e a tibieza invadam nossa vida espiritual e religiosa, dizendo: “Se Deus quiser, tudo vai dar certo”…”Deus é Pai e misericordioso”.

Não devemos nos deixar levar pelo desânimo e arrastar fraquesas, sem fazer esforço algum para romper com o egoísmo e os pecados. Sem perder a coragem, o ânimo e a confiança em Deus, com humildade, paciência e firmeza, procura valer-te da oração e dos sacramentos, do Evangelho e da devoção a Nossa Senhora, prosseguindo a caminhada para o alto. Não percas tempo desejando coisas sublimes como êxtases, visões, revelações, arroubos e outros dons sobrenaturais, o que interessa é a graça da oração, o amor de Deus e zelo pela salvação dos irmãos. E se não for do agrado de Deus levar-nos a tão sublime grau de perfeição e glória, tudo bem; o mais importante é o cumprimento de Sua vontade santa e santificadora.

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Conclusão

Em suma, devemos olhar como vindas das mãos de Deus todas as coisas que nos sucedem ou nos podem atingir. Todas as nossas ações sejam orientadas ao único fim de agradar a Nosso Senhor e de cumprir sua santa vontade, ela é o caminho mais seguro e firme que nos leva à justiça e à santidade. Para termos êxito neste caminho deixemo-nos guiar por nossos superiores e pela direção caridosa e sensata de nosso conselheiro espiritual. Esforcemo-nos por servir ao Senhor do modo que Ele deseja. Digo isto para que evitemos um engano muito comum, engano e erro em que muitos ainda estão, perdendo lastimosamente seu tempo precioso, alimentando fantasias, pensamentos tolos e dizendo ainda: “Se eu entrasse para o convento, para a vida religiosa, se me retirasse para um lugar solitário, fora de casa e longe dos amigos e dos parentes, eu me faria santo; eu me dedicaria mais à oração e à penitência!”…Contentam-se com dizer: “Eu me faria santo…eu me faria santo!” E, no entanto, não levam a cruz com amor, paciência e conformidade; não aceitam a vontade de Deus.

Meu amigo, cumprindo à risca a vontade do Senhor, certamente seremos santos, em qualquer estado ou situação de vida. Não queiramos mais do que Deus quer e, então, Ele levará o nosso nome gravado em suas mãos e em seu coração. Tenhamos sempre em mente algumas passagens da Escritura, que nos convidam a entrar no esquema da vontade divina: ”Senhor, que queres que eu faça?”( At 22,10); “Sou vosso, salvai-me”(Sl 118,94); Sim, Pai, eu vos bendigo, porque foi do vosso agrado fazer isto”(Mt 11,26). Mas entre todas as orações, é esta que devemos repetir e viver todo dia e todo momento: ”Seja feita a vossa vontade” – Seja para sempre bendita e louvada a vontade do Senhor, como também a Imaculada e bem-Aventurada Virgem Maria”.
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Referência:

LIGÓRIO, Santo Afonso Maria de Ligório. Conversando Sobre a Vontade de Deus. Editora Santuário: Aparecida. 1986.