Mostrando postagens com marcador Vaso de Argila. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vaso de Argila. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Por todas as Intenções



8,15

Por padre Leo Trese

"Lembrai-Vos, ó Pai, dos vossos filhos e filhas.."* Este é o momento da Missa que me dá forças e consolo para o resto do dia.

*(Palavras do memento dos vivos, da Oração Eucarística I, a que o autor se refer nas páginas que se seguem).

Ao juntar as mãos e inclinar a cabeça, pergunto-me se os outros padres passarão por momentos de angústia iguais aos meus: momentos em que a consciência da vastidão do meu trabalho e da minha inépcia parecem oprimir-me como um fardo insuportável; momentos em que tenho a impressão de estar lavrando um campo de quarenta alqueires com um palito; momentos em que o sentimento de frustração parece minar as nossas iniciativas e sufocar as mais legítimas ambições de um sacerdote.

Suponho que estes estados de ânimo momentâneos poderiam ser atribuídos a perturbações glandulares ou de deficiências hormonais - se não fosse porque o que realmente falta é fé.

No fim das contas, que é que salva as almas? Ele ou eu? Que importa que eu ande por aí a dar cabeçadas contra a parede? Ele não precisa de mim para alcançar os seus objetivos. Sou como uma criança que quer ver os seus deveres de casa cuidadosamente marcados com um "dez" na margem da página.

Lembrai-Vos, ó Pai...Sim, este é o momento em que as angústias parecem mesquinhas, em que erros se corrigem e os fracassos desaparecem. Diante de mim, a Missa derrama a sua inextinguível torrente de graças. Mal posso formular intenções suficientes para deter a sua magnifíca exuberância. Mas dura tão pouco! Não chega para nada. Tudo o que posso dizer é: "Senhor, por todas as intenções de que Vos falei na minha oração desta manhã".

É uma lista muito longa, cujo índice sofre diariamente adicionamentos e modificações.

"Por todas as intenções do vosso sagrado Coração, mediante a intercessão de Maria" - assim começa a minha ladainha, na qual peço por todos aqueles de quem me consigo lembrar.

"Peço-vos pelos meus pais...pelos meus paroquianos, especialmente pelos indiferentes e pelos pecadores...(agora em particular pelo velho Joe Marron, que resiste tão obstinadamente, e por Clem Snyder, que se casou na semana passada na igreja luterana); pelos não católicos que pertencem a minha paróquia, em especial pelos que estou catequizando ou já catequizei...; pelas crianças, especialmente pelas que estudam em escolas laicas...; pela graça das vocações sacerdotais nesta paróquia, sobretudo por Tommy e Don, que já estão "pensando nisso", e pela preseverança dos que responderam a vossa chamada...

"Por mim mesmo, Senhor, em agradecimento pelas inúmeras graças que recebi, em reparação dos meus pecados, pela graça da perseverança final... para que não me falte fé, amor, pureza e zelo no vosso serviço..., a fim de que possa cumprir sempre a vossa Vontade, seja ou não do meu agrado, saiba ou não que a estou cumprindo.

Fazei-me perseverante...

"Pelos meus parentes, amigos e benfeitores; por todos aqueles por quem devo ou desejo pedir, especialmente por aqueles que me foram confiados ou por quem de algum modo sou responsável; fazei com que nenhuma alma se perca ou sofra por minha culpa".

(Neste momento, a memória encarrega-se de agitar algumas recordações desagradáveis, que só podem ser apagadas pelo infinito caudal da Missa: o jovem Eddie, que expulsei do colégio quando, com um pouco de paciência, podia ter consertado a situação; os descrentes Morelli, que podiam ter-se convertido se eu tivesse sido um pouco mais indulgente quando procuravam dar sepultura cristã ao avô e eu os repeli tão asperamente. Quando medito no Juízo Final, não são os meus pecados que me fazem suar de medo - Deus os cobrirá com a sua graça - mas as minhas negligencias de pastor; é nisto que terei de haver-me com a justiça...)

"Pelo Papa, pelo meu bispo, pelo bispo que me ordenou, pelos párocos que me guiaram e pelas Irmãs que contribuiram para a minha formação; por todos os sacerdotes e religiosos, principalmente de minha diocese, e em particular pelos que se extraviaram, sobretudo por N. e N. (Senhor, por que graça estou eu aqui, ao passo que eles se perderam?); pelos missionários neste e em outros países, para que sejam confortados por Vós nos seus momentos de desanimo e ajudados no seu trabalho pela Vossa graça..."

Sim, é uma lista muito grande e cheia de ramificações, de imagens suscitadas pelo mal feito e pelo bem que ficou por fazer, se pessoas em necessidade e de almas aflitas, de responsabilidades esquivadas e de graças desperdiçadas... Como foi bom ter reservado estes dez minutos de minhas orações matutinas para enunciar as minhas intenções diárias!

Como é bom também que a Missa seja uma torrente inesgotável! Há tanto que pedir, tanto!...

E de todos que circundam este altar... No momento em que abro os braços, o meu fardo tornou-se mais leve e os meus nervos tranquilizaram-se.

Trabalhando com a graça de Cristo nos meus problemas, só um tolo se afligiria.

Fonte: Vaso de Argila

Veja Mais:

Começa um novo dia
Elas podem esperar
Sou um Meditador de Livros
Esperam-me os coroinhas
Ao Abrir o Missal
Purificai meu coração
O Vendedor e o Sacerdote
A Lição de São Lourenço
Temos um bom Sacerdote?
Faça alguma coisa, já!

Depois veremos:

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Purificai o Meu Coração


8,05

Por padre Leo Trese

Relembrando um pouco a minha vida passada, pergunto-me como fui capaz de habituar-me a celebrar a Missa como se o demônio estivesse agarrado a orla da alva.

Pensando melhor, talvez estivesse.

Realmente, houve qualquer coisa de insidioso no modo como passei dos primeiros dias do meu sacerdócio, quando a Missa era algo que saboreava e amava, para esse outro período em que me preocupava mais de celebrá-la às pressas do que de saborear a sua beleza.

Agora fico vermelho de vergonha só de pensar que, voluntaria ou involuntariamente, costumava preferir as fórmulas mais breves; que ficava impaciente se as pessoas presentes diziam arrastadamente "ó Senhor, tende piedade de nós"; que me sentia interiormente contrariado se a Missa precisava de Glória ou Credo.

Parece impossível, mas assim era, na verdade. Provavelmente, os meus movimentos e gestos acompanhavam o meu falso sentido de urgência. Nunca ninguém me disse que, com meu nervosismo, estava comprometendo a solenidade da Missa. O curioso é que foi uma pessoa de outra paróquia, que nunca me tinha visto celebrar, quem me trouxe ao bom caminho.

Contava-me como lhe agradava assistir a Missa do padre Quamprimum*. (Quamprimum, em latim significa "quanto antes"). "O Senhor, - dizia-me ele -, devia ver como celebra! A Missa, a homilia e a Comunhão, tudo em vinte e cinco minutos. Isso é que é uma Missa!".

E pôs tal enfase na observação que só a pude interpretar como um motejo. Sinto-me humildemente agradecido por ter feito cara de nojo ante o seu sorriso estúpido. Como uma bomba de ação retardada, o meu eu acusou o golpe: "Meu Deus, quem sabe se alguma vez não dirão isso de mim! Quem sabe se não estarão dizendo agora!"

Por graça de Deus, pouco depois atingiu-me outro golpe de misericórdia. Um dos meu paroquianos, um desses pais genuinamente católicos, comentou-me quando estava gostando da Missa de um missiónário que se encontrava entre nós de passagem. Não havia malícia nas suas palavras, mas não pude deixar de notar que, embora inocentemente, pensava em mim ao dizer:"Estou gostando de ouvir a Missa do padre M; faz-me sentir que tudo nela tem importância". E eu que já começava a criticar o padre M. pela sua lentidão!...

Em consequência, tentei celebrar mais devagar, mas não foi fácil, sobretudo no começo. Custou-me bastante passar a pronunciar todas as palavras com precisão e clareza. Demorei tempo a coordenar os gestos com as palavras que os acompanham. A princípio, preocupava-me o que lera há tempos no livro de Faber: um esforço consciencioso para dizer a Missa devagar não é devoção, antes demonstra que pensamos mais em nós mesmos do que em Cristo.

Por fim descobri que o inverso é igualmente verdadeiro, e que, se amamos a Cristo, a Missa será também regulada por esse amor, e o altar nunca mais se transformará numa pista de corrida.

Ontem à noite passei pelo salão paroquial, para ver os jovens da Ação católica ensaiarem um drama. O contra-regra repetia-lhes constantemente que não deviam correr: "Vocês acham que vão devagar - dizia-lhes - mas aqui fora parece que estão com pressa. Lembrem-se de que , para que os seus movimentos pareçam normais à assistência, vocês devem achá-los exageradamente lentos, até se habituarem".

A Missa também é um drama, pensei de mim para mim. E seria bom que, pelo menos de vez em quando, houvesse um diretor de cena, sentado num banco, que me repreendesse.

Fonte: Vaso de Argila

Veja Mais:

Começa um novo dia
Elas podem esperar
Sou um Meditador de Livros
Esperam-me os coroinhas
Ao Abrir o Missal
O Vendedor e o Sacerdote
A Lição de São Lourenço
Temos um bom Sacerdote?
Faça alguma coisa, já!

Depois veremos: Por todas as Intenções

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Ao Abrir o Missal


8,00

Por Padre Leo Trese

Não demora muito a desdobrar os corporais e abrir o Missal sobre o altar. Mas também não demora muito a chegarem as distrações, como se estivesse à espreita da ação mais sagrada do dia para se lançarem ao ataque.

Atiram-se como aviões de caça em vôo picado, depois de terem estado emboscados por trás de uma nuvem. Enquanto confiro as fitas do missal, percebo que começou a batalha diária entre distrações e a devoção. Posso prever até os seus maiores detalhes.

Haverá um começo brioso, mas na altura em que tiver acabado o "Confesso a Deus todo-poderoso", lembrar-me-ei de repente de que me esqueci de telefonar ao presidente da Confraria do santo nome para avisá-lo da mudança do dia da reunião. Haverá talvez uns segundos de recolhimento quando tiver acabado de dizer "Oremos", mas, logo que abrir os braços para rezar a oração, perguntarei a mim mesmo se não será bom experimentar aqueles novos emplastos para calos que ontem vi anunciados numa farmácia.

E assim continuará o augusto Sacrifício, ao longo de meia hora, entre triunfos e fracassos. Não há momento algum do dia, nem da vida, em que o sublime e o mesquinho se encontrem em tão espantoso contraste como na Missa. Ocorrem-me pensamentos inquietantes, vãos e disparatados, e, de vez em quando, até um ou outro que parece vir das mal-cheirosas profundezas do inferno; todos eles intrometendo-se na beleza do Prefácio, na solenidade do Pai Nosso.

Ora, este é o único momento do dia que justifica a minha existência como sacerdote!

Qualquer pessoa pode organizar associações, ensinar o Catecismo ou batizar; sim, e uma boa centena dos meus paroquianos pode estar rezando melhor que eu. A graça de Deus pode converter os pecadores, conquistar os hereges e fazer santos sem a minha ajuda. Mas nestes trinta tremendos minutos, que são eternos, Deus precisa de mim; só de mim; só eu posso oferecer o Sacrifício.

E no entanto, aqui estou eu em pé diante do altar, pensando que não seria nada mau jantar esta noite salcichas alemãs com couve lombarda... O remédio é obvio: necessito de um maior espírito de oração. Os santos pouco se preocupavam com isso...Ou será que não? Todas as vidas de santos que li falavam de êxtases no altar e de rostos iluminados. Mas talvez essas biografias não tomassem em consideração todas as missas que os santos celebravam. Talvez também eles tivessem as suas dificuldades. Consola-me pensar nisso.

Tenho também um momento de consolo com o pensamento de que ainda estou na via purificatica*. (A teologia ascética e mística chama "via purificativa" ao primeiro estágio da vida espiritual - etapa especialmente dedicada à purificação dos pecados e defeitos - que depois irá progredindo até a "via iluminativa" - em que Deus aumenta a visão da fé - e a "via unitiva" ou de mais perfeita união com Deus).

Que outra coisa se pode esperar de mim? Mas o consolo desvanece-se logo, ao considerar que houve demasiada negligencia na minha vida. Não é que não tenha tentado emendar-me. Já venci o mau hábito dos meus primeiros tempos de sacerdócio, quando o horário sobrecarregado de missas aos domingos me obrigava a pronunciar as orações muito depressa e desalinhadamente.

A minha língua não é muito expedita, e precisei de muitos meses de cuidadoso esforço para chegar a pronunciar tudo com exatidão e clareza. Invejei muitas vezes os meus colegas de palavra fácil, que celebravam a Missa em vinte minutos como quem bebe um copo de água. Não há dúvida de que os seus pensamentos seguiam passo a passo as consoantes pronunciadas a toda velocidade, mas eu nunca consegui fazer isso.

Contudo, a mera resolução de estar atento às palavras não é suficiente, ao menos para mim. A opinião dos psicólogos de que o espírito humano não é capaz de concentrar-se num único ponto por mais de seis segundos encontra em mim plena confirmação. A minha defesa consistiu em criar aqui e acolá, durante a Missa, alguns ancoradouros onde fixar o meu espírito, se os meus pensamentos errantes me levarem de um lado para o outro.

Um desses momentos de maior segurança com que posso contar é a conclusão exultante do Glória: "Só Vós, o Senhor; só Vós, o Altíssimo, Jesus Cristo". Por onde quer que meu espírito divague, estaca tão logo a presença do Rei se faz sentir nesta invocação majestosa. Há um outro momento semelhante no Santo; é impossível pensar em outra coisa quando os lábios pronunciam: "Bendito o que vem em nome do Senhor"!

O rítmo, a ação e a impressionante solenidade da Consagração são remédio quase suficiente para as distrações. Quase, mas não completamente. Mais de uma vez tenho dado graças a Deus por ter renovado cuidadosamente a intenção antes da Missa*. (A consagração é válida se o sacerdote, antes da Missa, já tinha a intenção de consagrar, mesmo que, por qualquer circunstância, tenha depois a infelicidade de se distrair enquanto consagra a Hóstia e o Cálice)

Há mais uma coisa que devo fazer necessariamente antes da Missa: enunciar um a um todos os vivos e defuntos que tenho de recordar particularmente. Os mementos destinados a isso dentro da Missa constituem muitas vezes uma armadilha para que a imaginação se derrame. Mas, por mais que divague, a minha atenção concentra-se profundamente no Pai Nosso, quando peço ao Senhor que venha a nós o seu reino e se faça a sua Vontade.

E assim andará a minha Missa esta manhã, cairei com frequência, para, em breves instantes, me levantar. As resoluções falharão, a natureza decaída teimará, mas nenhum defeito poderá vencer a minha esperança.

Sinto um rumor atrás de mim. Os coroinhas agitam-se. Meu Deus, esqueci que estive aqui como um hipócrita, de cabeça enterrada entre as mãos diante de vosso Crucifíxo!! Com um suspiro, desço os degraus do altar.

Amo a minha Missa.

Será para mim escuro e vazio o dia que começar sem ela. E, no entanto, quantas vezes os anjos em volta do altar não terão tido desejos de expulsar-me e tomar o meu lugar, ao surpreender-me pensando no jogo de futebol do dia seguinte, enquanto o Deus deles e meu esperava que O fizesse vir com a minha palavra!

Bem, talvez hoje eu consiga estar um pouco mais atenção, um pouco mais devoto..."Em Nome do Pai, do Filho..."

Fonte: Vaso de Argila

Veja Mais:

Começa um novo dia
Elas podem esperar
Depois veremos: Purificai o Meu Coração



segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Esperam-me os Coroinhas


7,55

Por Padre Leo Trese

Faltam cinco para as oito no relógio do presbitério. Antes de levantar-me, concluo com firmes propósitos a meditação da manhã.

Os coroinhas esperam-me na sacristia: Don, o dos cabelos ruivos e das mãos sujas de terra, como de costume; e Jimmy, o sardento, que, também como de costume, perdeu a batalha travada contra os seus cabelos rebeldes.

"Bom dia, padre", dizem-me em coro, respondendo a minha saudação. Terminado o meu lavabo, e depois de ter mandado Don fazer o seu, tomo o amito. - "Colocai Senhor, sobre a minha cabeça o elmo da salvação..." - (As breves frases que o autor cita são o começo das orações que o sacerdote pode rezar ao impor cada um dos paramentos litúrgicos para a Missa) - começo, mas, antes de acabar a oração, volta a aparecer o diabinho que tantas vezes atormenta os meus pensamentos.

Desta vez trata-se dos coroinhas.

Don, atrás de mim, enquanto deixa na toalha aquelas dedadas que deseperam a Irmã sacristã, pensa que há de vir a ser padre. Está ainda na 8ª série, e muitas coisas podem acontecer em doze anos, mas talvez seja uma das respostas ao meu memento diário na Missa para que haja muitas vocações nesta paróquia. Se as vocações sacerdotais não surgem dentre os coroinhas, de onde virão? Quem melhor do que eles pode escutar a voz de apelo que vem do sacrário?

"Branqueai-me, Senhor, e purificai o meu coração...,(início da oração que o sacerdote reza ao impor a alva) - mas o diabinho torna a fazer das suas. Percebo que Deus está tão interessado como o Papa ou eu mesmo em ver a sua Igreja abençoada com vocações suficientes. Disse suficientes? Abundantes seria melhor, pensando na liberalidade de um Deus que deixa cair mil bolotas para que possa nascer um só carvalho. Se as vocações não vingam, que é o responsável?

Um arrepio de culpa percorre-me a espinha enquanto aperto o cíngulo.

As fáceis desculpas habituais não se tem em pé: as famílias católicas são tíbias e só pensam em divertir-se. Já uma vez tentei enveredar por esses subterfúgios, mas não deu certo. Quem senão eu é responsável por essa falta de ambiente cristão nas famílias e pelo materialismo do meu rebanho? Tento encarar o assunto de frente. Se esta paróquia não concorre com a sua parte para as vocações sacerdotais, a responsabilidade será exclusivamente minha.

Significará que não tenho sabido cultivar as sementes que Deus lançou. Não dizem os teólogos que "a graça aperfeiçoa a natureza" ou coisa parecida? Para que a semeadura de Deus frutifique, o solo deve ser preparado e enriquecido, e os primeiros rebentos tem que ser cuidadosamente alimentados.

Enquanto coloco a estola, pergunto a mim mesmo se venho desempenhando bem o papel de administrador de vocações. Se os rapazes devem sentir-se atraídos pelo sacerdócio , então devemos fazer com que o sacerdócio seja uma coisa atraente."Pois caro!", como diria Jimmy.

O problema é que, para estes rapazes, o "sacerdócio" é uma coisa abstrata. Para eles, o sacerdócio sou eu. Se lhes agrada o que vêem em mim, ouvirão o doce chamado do Mestre. Mas vêem eles em mim a sobrenaturalidade do sacerdócio? Encontram-me ajoelhado diante do altar, quando vem ajudar à Missa, mesmo quando chegam meia hora mais cedo? Vêem-me assim outra vez, dando graças, quando se vão embora?

Assim é, na verdade, mas isso não é o suficiente, digo de mim para mim, enquanto prendo a estola com o cíngulo.

Os ideais destes moleques são tão "malditamente" altos e o seu instinto tão certeiro!...Ouviram falar, por exemplo, da suave caridade de Cristo, e bem sei que, inconscientemente, me comparam com Ele. Esta é uma das razões pelas quais lhes digo em tom afável:"Bom dia, meninos", antes da Missa e "obrigado, meninos", logo que ela termina.

Essa é também a razão pela qual cuido de dominar a minha impaciência, para que os seus erros humanos, os seus estouvamentos e leviandades não arranquem dos meus lábios uma repreensão amarga. Esse é o motivo pelo qual devo corrigir sem veneno e elogiar com generosidade.

Acompanho quase com suspiro as palavras "Senhor, Vós que dissestes: o meu jugo é suave e o meu fardo é leve...(Início da oração que o sacerdote reza ao colocar a casula)

São tantos os ingredientes de uma vocação que não me atrevo a omitir nenhum. Se os rapazes devem conhecer melhor o sacerdócio, devem conhecer-me melhor a mim. É por isso que, desde há muito tempo, cuido de instruí-los e orientá-los. É possível que não estejam tão bem arrumadinhos como quando a Irmã Ludwig se encarregava deles, mas consigo uma maior união enquanto celebro a Missa.

Não tenho agora desculpa nenhuma se volto a cabeça um pouco antes da Consagração e digo em tom sibilante: "por amor de Deus, toquem essa campainha!". Agora ganham consciência dos seus erros e expõem os seus problemas nas nossas reuniões semanais de caráter familiar.

Uma coisa me consola (o relógio diz-me que falta um minuto para as oito): os coroinhas não tem medo de mim. Nunca compreendi por que devia haver uma relação entre sacred(sagrado) e scared (assustado), embora as palavras pareçam semelhantes. Que alguém tenha medo de um padre é uma coisa horrível; mas que o tenham aqueles que espontaneamente a ajudam no altar é algo inconcebível.

Ninguém diz que não deva haver respeito pelas coisas sagradas e reverencia na sacristia. Mas se Eddie Higgin não resiste a contar-me, precisamente antes da Missa, que tem uma nova irmãnzinha, não posso imaginar que Cristo franza o sobrolho. Também eu não devo faze-lo.

Não devo esquecer nem mesmo os fatores humanos que podem fazer desabrochar uma vocação. Por causa do que chamam "culto ao herói", que ocupa um lugar tão importante na vida de uma criança, é difícil competir com o jogador de futebol ou com o cowboy favorito. Mas posso tentar. Para isso contribuem os nossos frequentes exercícios de natação no verão, os jogos de futebol no outono e os de hóquei ou os filmes no inverno.

Na minha pequena paróquia, com um dezena de coroinhas, esses programas não são difíceis de organizar. E nunca mais hei de sentir que perco o tempo ou que poderia aproveitá-lo para fins mais úteis.

Que pode ser mais útil do que um novo padre - exceto dois ou três?

E nestas cavilações passou o tempo sem eu dar por isso. Falta meio minuto para as oito e são horas de me dirigir ao altar.

Ao pegar o cálice e inclinar-me diante da Cruz, ocorre-me pensar que os clubes para moços são uma idéia eficaz, não por causa da sua organização, mas porque oferecem aos sacerdotes que os dirigem a possibilidade de fazer o que todos devíamos fazer sempre: trabalhar com todas as forças para encher as nossas fileiras.

A sineta da sacristia apanha-me com uma oração nos lábios: "que nenhuma vocação passe despercebida ou fique abandonada porque eu - pelas minhas palavras, pelo meu mau exemplo e negligência - deixei de dar plena ressonancia à voz do Senhor"

Fonte: Vaso de Argila

Veja Mais:

Começa um novo dia
Elas podem esperar
O Vendedor e o Sacerdote
A Lição de São Lourenço
Temos um bom Sacerdote?
Faça alguma coisa, já!
Sou um Meditador de Livros


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Sou um meditador de livros


7,30

Por padre Leo Trese

Um forte impulso me faz ir do genuflexório para a cadeira: começa a meia hora mais curta do dia.

Houve um tempo em que quinze minutos de meditação representavam para mim um ato verdadeiramente heróico - algo que podia ser omitido com uma desculpa razoável e sem qualquer sensação de perda. É muito doloroso pensar que tardei tanto tempo em descobrir que era verdade tudo o que nos tinham dito no seminário sobre a meditação. Refiro-me à sua necessidade e valor como fonte de energia.

E o pior é que nem mesmo quando cheguei ao fim do quarto ano de Teologia tinha aprendido a meditar. Armava tal confusão com prelúdios, composição de lugar, tempo e pessoas, com aplicações práticas e ramalhetes espirituais*, que nunca cheguei a penetrar a fundo no miolo da meditação.

(Padre Léo refere-se aos esquemas que algumas escolas de espiritualidade recomendam aos principiantes para fazer a meditação ou oração mental)

O papel que as diversas faculdades - memória, imaginação, inteligência e vontade - deviam representar estava suficientemente claro. Mas o que me distraía era ter de estar atento às "deixas"do contra-regra... Muito provavelmente a faculdade chamada a intervir em determinado momento andaria perdida Deus sabe onde.

Com o polegar, abro pela marca do livro do pe. Leen - A identificação com Cristo (sou um meditador de livros e sempre serei: uma dessas cabeças indisciplinadas que, enquanto pastam, tem que estar firmemente atadas. Confesso com pena que tudo o que sei sobre contemplação se reduz aos textos de Tanquerey e Patente).

Esta manhã, os meus pensamentos parecem estar inusitadamente irrequietos, mas o pe. Leen se encarregará de reconduzi-los ao bom caminho. Talvez para isso seja necessário ler um parágrafo inteiro - ou até duas ou três páginas - maz não há dúvida de que alguma coisa me chamará atenção: da págima há de saltar uma frase como que a dizer-me: "Isto é para ti, amigo". E a partir desse momento, a minha consciência tomará as rédeas.

O que mais me agrada no pe. Leen, em D. Columba Marmion ou em D. Chautard é que nenhum deles me exaspera dizendo-me "2ºponto" ou "3ºponto", precisamente no momento em que começava a entrever a verdade no "1ºponto"*(referência a meditação que costumavam fazer juntos os seminaristas na capela, lendo-se, a espaços regulares, três trechos de um livro, como "pontos" de meditação).

Bem que gostaria de saber quem foi que inventou essa embrulhada dos três pontos.

É verdade que no seminário nos ensinaram expressamente que, se um ponto oferecia matéria suficiente de meditação, devíamos insistir nele. No entanto, eram três os pontos que nos liam todas as manhãs na capela e nenhum livro de meditação se considerava completo sem eles. Não sei os outros, mas, quanto a mim, as frases preparatórias e os pontos enfileirados em ordem de bataha dão-me calafrios.

Se eu fosse diretor espiritual de um seminário!...Bem, para começar, acho que morreria de medo, só de pensar no fogo que deve arder no coração do diretor, se tem que acender todas e cada uma das "velas" que tem à sua volta. Mas, se tivesse de arcar com responsabilidade tão grande, julgo que procuraria eliminar a leitura de textos de meditação bem esquematizados com um exrcício comunitário. Se tivesse que usar um livro, usá-lo-ia para me fortificar a mim próprio privadamente, e só depois o meditaria junto com os outros.

Mas, quem sou eu para falar de meditação? Ouço os coroinhas que entram na sacristia, procurando falar em voz baixa para não me incomodarem, e eu nem sequer comecei ainda! Disto, sim, não posso culpar o seminário. Nem de muitas outras coisas.

Não foi culpa do seminário se, nos primeiros anos do meu sacerdócio, me deixei vencer pela heresia das boas obras: deitar-me tarde, por exemplo, para resolver assuntos relacionados com as atividades dos jovens, tinha como consequência que perdia a hora de levantar-me e mal me lembrava de rezar. Desculpava-me a mim próprio, pensando na "maravilhosa influência" que exercia sobre a juventude da paróquia, esquecendo-me de que Deus, com o dedo mindinho, podia conseguir muito mais que todo o meu trabalho atropelado.

A minha vaidade zombava da graça divina; tenho certeza de que os anjos deviam tremer com o meu atrevimento. Também não posso culpar o seminário pela minha enorme presunção. Por que nos previniam com tanta insistência sobre as tentações e os perigos? Afinal de contas, era tão fácil ser bom! Tudo o que tínhamos que fazer era simplesmente ter muito trabalho. Muito trabalho. Muito trabalho... Assim pensava eu!

Oh! já vem acender as velas, onde está a minha meditação?

Perdoai-me, meu Deus, por esta vez, por esta vez ainda. E permiti que esta cana rachada ofereça uma oração ao vosso sagrado Coração pelos novos rebentos que estão surgindo e que em breve nos haverão de substituir. Ensinai-os. Convencei-os. E se as suas cabeças forem tão duras como a minha, metei nelas a marteladas a convicção de que nada Vos servirão os seus talentos, sejam quais forem, se não beberem profundamente no vosso espírito, todas as manhãs.

Fonte: Vaso de Argila

Veja Mais:

Começa um novo dia
Elas podem esperar
O Vendedor e o Sacerdote
A Lição de São Lourenço
Temos um bom Sacerdote?
Faça alguma coisa, já!

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Elas podem Esperar



7,00

Por padre Léo Trese

A porta do convento está entreaberta. Quando a fecho atrás de mim, ouço o relógio bater às sete. As Irmãs esperam-me. Sim - penso eu enquanto subo as escadas que levam à capela - as Irmãs já estão à minha espera. Passaram uma boa parte da vida esperando e procurando os sacerdotes. De manhã, esperam por nós para lhes celebrarmos a Missa ou para lhes darmos a Comunhão. Esperam por nós nas salas de aula, com o Catecismo aberto e a lista de alunos sobre a mesa. Esperam por nós no dia de confissão. Esperam por nós para treinarmos os coroinhas, para lermos os boletins e purificarmos os sanguinhos.

Enquanto enfio apressadamente a sobrepeliz e coloco a estola, sinto remorsos por todos os preciosos minutos que tem perdido por minha causa.

Contam-se pelos dedos das mãos as vezes em que as fiz esperar por um motivo de força maior. Poucas horas são tão cuidadosamente planejadas como as das religiosas e nenhum minuto é gasto tão utilmente como os delas. E, no entanto, se alguém deve esperar, se há algum horário que deva ser modificado, dizem sempre: "Bem, por nós não há problema", e tudo se arruma.

Um dos mistérios mais desconcertantes do sacerdócio é o de sermos nós a tutelar quem nos excede em santidade, zelo e capacidade. O tom irônico com que nos referimos às "boas irmãzinhas" ou à "reverenda Madre" pode exaltar o nosso "ego", mas fará com que no céu haja um ou outro tabefe reservado à ingratidão dos corações dos sacerdotes.

Se os santos se reunissem em conversa, a assunto mais falado entre eles seria certamente este: "Por que é que os sacerdotes se comportam assim?"

As religiosas são, sem dúvida, seres humanos; a impecabilidade não é um dos seus atributos. Podemos ir mais longe e admitir quem nem sempre a Superiora é prudente e sensata. Isso é óbvio. Só uma Superiora muito imprudente se lembraria de pedir alguma coisa que, por exemplo, comprometesse a comodidade do padre em favor da conveniência das Irmãs. Só uma Madre muito temerária insinuaria que era preciso fazer qualquer coisa em que o padre já não tivesse pensado. E só uma irmã sem cabeça esperaria do sacerdote uma explicação sobre decisões que bem se poderiam tomar por caprichos ou bobagens.

O meu pensamento está longe do "Senhor Jesus Cristo, neste admirável Sacramento...", enquanto o recito. Reparo que a minha vocação (e a de tantos outros sacerdotes)é devida, depois de Deus, às sugestões, ao encorajamento e às orações das freiras. Sei que o fato de ter a igreja cheia e de a fila da Comunhão ser enorme não se deve precisamente à minha eloquência, mas ao longo e extenuante trabalho dessas cabeças com toucas, que nas aulas dão incansavelmente um significado real à vida cristã e aos Sacramentos.

É encantador ver os rapazes na rua dizerem-nos: "Bom dia, padre"; é uma grande satisfação ouvir o homem da garagem: "Oh não, padre, não custa nada!"; e chega a ser lisonjeiro que um policial motorizado nos diga: "Perdão, padre, não percebi que era o senhor". Onde é que aprenderam essa veneração pelos sacerdotes? Não foi com certeza no presbitério; aprenderam-na nas aulas da Irmã Eufêmia, quando crianças.

"Abençõe-vos Deus todo-poderososo..." Acho que nós, os sacerdotes, deveríamos habituar-nos a ver as Irmãs como seres humanos, com as suas influencias familiares e as suas características pessoais. Não são autômatos sem sentimentos nem sensibilidade. Não se vangloriam de ser santas. Alegram-se com êxitos, entristecem -se com os fracassos e agradam-lhes os louvores tanto como a nós, ou mais ainda, tendo em conta a sua vida circunscrita e ( mesmo que divinamente) compartimentada. Que as nossas visitas nos seus momentos de recreio, quando desfrutam de uma alegria angélica, não nos façam pensar que são continuamente anjos. Experimentam os seus aborrecimentos, sem terem à mão o porteiro ou a empregada sobre os quais descarregar o mau humor.

Enquanto apago as velas, pergunto-me o que é que me levou a pensar nisto. Talvez a minha consciência me acuse de ter sido incorreto com algumas delas. Hoje, quando entrar na sala, elogiarei a Irmã Francelin pelo modo como tem ensaiado os meninos do coro; a Irmã Elmira pela brancura imaculada das toalhas do altar; e a Madre Graça pela esplêndida disciplina da sua classe.

Ao sair da capela, sinto-me tão paternalmente condescendente que até sorrio à Madre quando, sumida na sua ação de graças , levanta a cabeça à minha passagem.

Vejo que fica admirada por um instante, mas depois devolve-me o sorriso amavelmente.

O padre tem sempre tanta razão....

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Começa um novo dia

6,30

Por padre Leo Trese

Uma mão tateia em busca do despertador e dois pés saltam para o chão. Mais uma vitória: começa um novo dia. Tenho pensado algumas vezes que a salvação de um padre depende desses primeiros dez segundos que se seguem ao toque do despertador. É tão fácil dizermos para conosco: "Só mais cinco minutos"! Os cinco passam a quinze ou trinta, vem depois uma lavadela à gato e lá vai um doido a toda a pressa para o altar. E assim começa o trabalho do dia, apenas com as orações rituais murmuradas ao vestir os paramentos. No entanto, sei muito bem que somente a oração pode dar rítmo e sentido ao novo dia.

É realmente estranho como caímos no mesmo erro, manhã após manhã, sem nos apercebermos da sua infantilidade. Acertamos o despertador para uma hora antes da Missa, a fim de tranquilizarmos a nossa consciência, mas sabemos muito bem que não temos a menor intenção de levantar-nos pontualmente. Claro que isto não acontece a toda a gente, mas foi o que se passou comigo durante muito tempo, depois de ter saído do seminário. Enquanto ponho lâmina nova no barbeador (uma cara bem barbeada tem muito mais dignidade do que dez minutos mais de sono), recordo os primeiros anos de sacerdócio.

Não compreendo como podia dormir tanto, ao ponto de obrigar os fiéis a esperarem por mim para a Missa. Não consigo compreender como não percebia que a falta de oração me estava arrastando para a tibieza e a moleza espiritual. Fico estupefado só de pensar que me contentava com uma breve intenção formulada às pressas, ao sair da casa paroquial rumo à sacristia.

Era como um tolo que se julga dotado de grandes virtudes. De modo algum quero insinuar que agora sou um bom sacerdote, mas apenas que já fui pior. E provavelmente te-lo-ia sido muito mais se Deus e o meu bispo não se tivessem posto de acordo para nomear-me pastor de uma paróquia minúscula, onde tinha que dar a Comunhão às religiosas uma hora antes da missa. De estomago vazio, nem o rádio nem o jornal da manhã oferecem aliciante algum. Tendo assim uma hora pela frente sem nada que fazer, instalava-me no genuflexório do presbitério, e por isso a minha vida de sacerdote começou verdadeiramente aos trinta e um anos.

(Enquanto enxugo o rosto e fricciono levemente a cabeça, penso que nunca chegarei a ser canonizado: encontrarão um tônico capilar em meu quarto de asseio).

Por que tiveram que passar nove anos para aprender o que devia saber ao sair do seminário? Tinham-me insistindo na necessidade da oração, mas aparentemente não me convenci disso. Talvez os muros do seminário nos dessem uma falsa sensação de segurança. Deixamos aquelas paredes animados por um ímpito inicial que procedia do ambiente e julgávamos que essa energia espiritual procedia de dentro de nós. O pior já tinha passado e agora tudo correria facilmente. É verdade que tínhamos ouvido falar de sacerdotes que se tinham extraviados, mas pareciam-nos tão lendários como Lutero. Não podíamos imaginar que fossem sacerdotes jovens como nós, com a mesma confiança em si próprios, presunçosos - esta é a palavra.

Como é que se explica que homens já feitos, de vinte e quatro anos ou mais, deixássemos o seminário ainda em vias de formar-nos? Somos tentados a perguntar-nos (evidentemente só rumino estes pensamentos enquanto abotoo a batina) se os seminários não fariam melhor se nos deixassem amadurecer um pouco mais antes da ordenação. Não quero dizer que o ordenando não deva ser como uma criança na simplicidade da sua clara consciência. O que quero dizer é que não deva ser acriançado quanto aos seus deveres e responsabilidades.

Ao abrir a janela, saúda-me uma lufada de ar fresco da manhã. Os lilases que guarnecem a sacada estão quase em flor. Os toques da sineta, vigentes em muitas casas paroquiais, parecem-me a admissão tácita de possíveis falhas na pontualidade do padre. Sem pretender que essa regra seja supérflua, estarei errado em pensar que não devia ser necessária?
(A porta do convento está entreaberta. São sete horas e as Irmãs esperam-me).

Alegro-me de não ser bispo ou reitor de um seminário. Seja como for, gostaria de que houvesse um meio de podermos entrar na vida com uma piedade mais sólida e um sentido de responsabilidade mais desenvolvido. Gostaria de que não tivéssemos de aprender tanto por experiência....

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Faça alguma coisa já!



Por Padre Léo Trese

Esquanto estou à porta da sala de aula da 8ª série, à espera de que toque a sineta para entrar e dar início à aula de religião, invade-me o mesmo sentimento de sempre: a minha incapacidade.

Através dos vidros da porta, vejo quarenta cabecinhas voltadas para a Irmã que explica a raiz quadrada no quadro negro. Quarenta cabecinha que deveriam conhecer melhor a Deus e quarenta corações que deveriam amá-Lo mais do que ninguém no mundo. Entrarei na sala para cumprir a minha tarefa semanal e quarenta vozes me cumprimentarão em coro: "Bom dia, padre", ao mesmo tempo que quarenta pares de olhos olharão para mim com ar de expectativa, felizes de mudar de assunto, mas sem se preocuparem muito com o que vou dizer.

Na semana passada, começaram a aprender o que é a Igreja e falei-lhe do Corpo Místico de Cristo. Estudaram a seguir a vida dos mártires, e hoje vou-lhes falar do poder do bom exemplo. Valendo-me de perguntas insinuantes, farei com que eles mesmos encontrem as respostas e experimentem a emoção de uma descoberta. Mas sairei da aula tal como entrei, com uma sensação de fracasso que só se salvará do desespero pela convicção de ter do meu lado o poder da graça divina.

Quarenta espíritos impressionáveis, quarenta personalidades em formação, cada uma delas santo ou pecador em potência. Dick poderia facilmente ir para o seminário e chegar a ser um sacerdote exemplar, mas também é possível que siga o exemplo de seu tio Jorge e se torne um bêbado contumaz. Quanto à Luiza, posso imaginá-la uma simpática mãe católica de meia dúzia de crianças, mas pode tambem vir a ser uma egoísta, casada com um divorciado.

O que é que determinará a diferença e que parte de responsabilidade me irá caber?

Talvez hoje me sinta exageradamente pessimista; a visita que me fez a sra. Borden está ainda demasiado viva no meu espírito. Veio ontem a minha casa para me falar da sua filha Helena, casada no dia anterior, por um pastor metodista, com um homem que não quer saber nada de padres. "E aqui está a medalha que ganhou nesta escola, padre; a madalha da Doutrina Cristã". A pobre senhora tinha-a na mão, como que para provar que tudo tinha sido uma ilusão, um pesadelo que precisava esquecer. Sim, lembro-me da Helena - podia-se contar sempre com a sua resposta certeira, quando todos os outros permaneciam calados.

E de quem é a responsabilidade por tantas Helenas, por tantos casos como o dela? Passam oito, dez e até mesmo dezesseis anos à sombra do altar e depois fogem para se tornarem espíritos errantes. Talvez a culpa seja, ao menos em parte, dos programas de estudo: tantos cursos magistralmente delineados, que ensinam todas as respostas, mas não ensinam a viver. As crianças dialogam a Missa com uma prefeição mecânica, mas não se olham a si mesmas como parte do Pão que está se oferecendo. Mas não me corresponde a mim elaborar os programas. Não tenho conhecimentos suficientes sobre educação para meter-me nisso. E muito menos para fazer das Irmãs o bode expiatório. Pobres almas, com cinco ou seis lições que preparar todos os dias!

Deixando de lado os textos e os professores, a verdade é que a responsabilidade é minha. Afinal de contas, eu sou o pároco e eles as minhas ovelhas. Devo enfrentar a questão: se um deles se extravia, cabe-me a mim uma boa parte do fracasso. Quando cedem a pressão do ambiente, não é por falta de conhecimentos, mas por falta de amor. E o amor não é uma coisa que se aprenda nos livros ou num quadro negro. Não se ensina, comunica-se. É um fogo que se acende por contato.

Nunca entraria numa sala de aula com toda esta relutância se o meu coração estivesse transbordando de amor por Cristo. Nunca teria de perguntar-me o que devo dizer aos pequenos, se os sentimentos do meu coração tivesse força para extravasar-se. Nessa altura, como a minha Missa sublimaria a quarta dimensão do Amor! Como o conceito de Corpo Místico sairia vivo e palpitante do limbo de uma imaginação estéril, que se esvai em figuras de retórica! Como os insípidos deveres da oração e do sacrifício se converteriam em desafios para participar das aventuras divinas!

Sim! Isso poderia acontecer aqui, pode acontecer agora. Basta que haja um sacerdote santo, um pároco piedoso. "Ouça, padre Trese - é o meu Anjo da Guarda que fala, e, muitas vezes, eu de bom grado o esganaria - ouça agora! Deixe de mudar de assunto. Deixe de falar à toa. Faça qualquer coisa e faça-o já!"

A sineta toca e quarenta pares de olhos se desviam da Irmã para a porta. Aí vem a mediocridade para falar da perfeição. Já tenho o quadro: um dedo trêmulo e hesitante apontando para alturas vertiginosas e indistintas.

Tenho de clarear a minha visão, mas esta tentativa de terapeutica ocular tem que começar de joelhos....

Fonte: Vaso de Argila


sábado, 9 de julho de 2011

O vendedor e o Sacerdote...


Por Padre Léo Trese

Mal acabo de tirar o sobretudo, ouço a campainha da porta tocar imperiosamente. Vejo o visitante através dos vidros: pelo aspecto, é um vendedor.Terei de adiar estes momentos de descanso em que costumo dar uma cachimbada na santa paz do Senhor. Sempre que a vontade de Deus se choca com a minha, sobrevém-me um gesto de impaciência.Por que há de haver vendedores? Por que não nos deixam fazer os pedidos por telefone ou por carta?

Isso era antes. Agora a minha impaciência se aplaca enquanto estendo a mão para o trinco da porta. Há muito tempo que aprendi ser cortês com as visitas, e o andar dos anos não conseguiu desvanecer em mim os efeitos da lição...Era um homem baixinho,de cara redonda, propenso a obesidade, que vendia extintores de incendio. Eu não precisava de nenhum extintor, e, por outro lado, tinha um compromisso muito importante - um encontro com outros três padres e uma bola de golfe.

Disse-lhe muito cavalheirescamente que não precisava de nada, mas ele era pior do que a peste e estava absolutamente convencido de que eu nunca tinha visto nada de semelhante ao seu produto... Não poderia entrar e fazer uma demonstração? O padre Vinicius tinha comprado três e dizia que eram uma maravilha. Era só um minuto.Derrubei-o no meio do combate. Se o homem tivesse um pouco de bom senso, teria percebido que eu me tinha posto ao ataque: "Não me ouviu dizer que não estou interessado? Não quero perder nem o seu tempo, nem o meu, compreendeu?"
Receio que as minhas palavras tenham sido muito mais duras que essas. Voltou-se, bateu com a porta e vi-o descer as escadas.

Foi então que lhe notei um remendo nas costas do paletó, os tacões dos sapatos nas últimas e o cabelo a precisar de um bom corte.

Impressionou-me o remendo - o remendo e a graça de Deus, já que sou pouco inclinado a impulsos generosos...Esqueci imediatamente o jogo de golfe (aliás, pareceu-me que estava começando a chover). Chamei-o e tentei mostrar-me gentil, pedindo-lhe desculpas. Sentamo-nos, mostrou-me o artefato, disse-lhe o que tínhamos e ele concordou em que estávamos bem servidos. Depois, enquanto eu puxava do meu cachimbo e ele de um cigarro, conversamos um pouco.

Disse-me que vivia num Estado vizinho com uma mulher e quatro filhos. A mulher era católica e ele tinha começado a aprender o Catecismo e estava quase preparado para receber o batismo.(Como a notícia me preturbou! Era um catecúmeno e eu, um padre, quase o tinha posto fora de minha casa!).Quando nos despedimos, já éramos amigos e ele tinha um terço que eu lhe fizera escorregar timidamente para as mãos. Senti-me feliz de ve-lo voltar-se no fundo das escadas e sorrir-me.

Começava mesmo a chover. Decidi ir até à escola; as crianças já não me viam há uma semana. A partir de então, foi-me muito mais fácil suportar a tortura do telefone e da porta. Sempre que era tentado a responder com um latido, bastava-me evocar a visão de uma mulher pondo um remendo num paletó. Vendedores de velas, representantes de vinhos, comerciantes de roupa e de sabão... quando lhes abro a porta, sorrio-lhes e convido-os a entrar antes de lhes perguntar o que vem vender.

O meu tempo é de Deus e o tempo de Deus é todo das almas.

Esse homem que traz um mostruário pode ser um bom paroquiano de qualquer outro padre e reservar parte das suas comissões ganhas com tanta dificuldade, para ajudar a Igreja e para enviar os filhos à escola paroquial; este outro com seu bloco de encomendas assomando pelo bolso, pode ser um convertido ou a parte não-católica de um casamento misto. E esse tão charlatão, que ostenta um emblema maçonico, faz parte do grande rebanho pelo qual Cristo morreu. Dentre eles alguns - ou todos - levarão para sempre a impressão que eu lhes tiver causado, eu, um homem de Deus.

Por isso lhes digo: "Entre. Lamento não precisar de nada, mas sente-se um pouco e descanse". A cortesia é tão barata e tão fácil!

Tão fácil?

Talvez tenha exagerado um pouco. Sinceramente, não posso dizer isso de mim com tanta certeza, quando se trata de um vendedor obstinado, de um pai enfadonho ou de uma criança que me aparece com um terço para benzer. Pelo menos duas ou três vezes por ano, tenho que pedir perdão a alguém. É nos momentos de maior tensão e esforço que a cortesia custa mais e os períodos mais perigosos são a abertura das aulas, a Semana Santa e a última semana do Advento. E como dói pedir desculpas, especialmente qdo sei que sou eu que tenho razão e não o outro! Mas o outro não é padre; não é dele que se espera que se pregue com o bom exemplo; não é ele que precisa da disciplina nem da penitência de pedir perdão como eu preciso.

É encatador observar como de um pedido de desculpas pode nascer uma íntima amizade. Os melhores presentes que recebi no último natal foram de duas pessoas a quem me obriguei a pedir desculpas. Não é que eu queira recomendar que se peçam desculpas como maneira de fazer bons negócios... Mas há muitas feridas no Corpo Místico de Cristo que se poderiam curar facilmente com uma palavrinha de sincero pesar. Ou melhor ainda, feridas que, se a paciência estivesse a postos, não seria necessário curar porque não se teriam produzido.

A minha mão ainda está agarrada ao trinco da porta. Demorei muito tempo em abri-la, e o meu amigo, do outro lado, faz um gesto suspeito de quem se prepara para chamar de novo. De modo que, toca a sorrir! Ele ganha o seu pão duramente e talvez também tenha um remendo nas costas do paletó.

Fonte: Vaso de Argila

(Depois continuaremos nosso estudo da Graça de Deus)

terça-feira, 21 de junho de 2011

Temos um bom Sacerdote?


Por Padre Léo Trese

"Os coroinhas saem batendo a porta e a igreja fica repentinamente em silêncio. Enquanto apoio os cotovelos no genuflexório para iniciar a minha ação de graças, noto que, de uma das velas, ainda sai um tênue espiral de fumo."O último suspiro após a sua imolação", diz a minha fantasia brincalhona. A sua própria imolação... Aqui está de novo esta palavra horrível. Horrível como todas as que se relacionam com ela: penitência, abnegação, mortificação...Há muito tempo que vêm seguindo os meus passos, através de cada página da leitura espiritual e de cada ponto da minha meditação.Tenho recorrido a tantos estratagemas para escapar da sua inexorável perseguição! Até um avestruz poderia aprender comigo.

"Temos um bom padre", dizem os meus paroquianos - e eu fico vexado. Vexado quando, junto de Katie Conelly, à cabeceira do seu filho que acaba de expirar, a ouço dizer enquanto agarra a minha mão: "É a vontade de Deus, não é, padre?"

Vexado quando, junto de Ed Fetter, diante do caixão de sua mulher, o ouço dizer enquanto três criancinhas se agarram às suas calças: "Se é isto o que Deus quer de nós, aceitaremos, padre".

Sou um bom padre? Como não havia de sê-lo, Meu Deus?

Com uma casa confortável, livre de prestações e hipotecas, sem crianças doentes que me preocupem...Com uma pensão de velhice que nehum instituto de previdência poderia superar...Sem andar apertado de tempo nem deixar de ganhar quando acontece de ir para a cama com um resfriado...Renunciei, a muitas coisas - penso continuamente. No entanto, por vezes, nem sequer sei onde está a cruz que devo levar diariamente, se quero seguir a Cristo.Por muito acostumado que esteja à evasão e aos subterfúgios, há ocasiões em que todas as minhas defesas se desmoronam. Desviando-me da porta de uma ovelha tresmalhada e endurecida na apostasia, consegui fazer ouvidos surdos a tênue voz que me murmurava: "Esta espécie de demonios só se pode vencer com a oração e jejum."

Mas já não fui tão bem sucedido quando a voz sussurrou bem dentro de mim:"Se alguém quizer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me".É uma seta contra qual ainda estou procurando um escudo eficaz.Deus permita que eu venha perder a batalha, e depressa. Aliás, sei perfeitamente que nunca a poderei ganhar.

Na verdade, acho que já comecei a perde-la. Gosto muito de romances policiais e agora limito-me a ler um por mês. Já não assino revistas profanas. Raríssimas vezes ligo a televisão. Prometi solenemente obedecer a todas as normas litúrgicas. Há algum tempo não vou a um jogo de futebol do Notre Dame ou a uma corrida de cavalos. Mas basta lembrar-me de São João da Cruz para logo me sentir terrivelmente ridículo, especialmente quando reparo que não posso passar sem um cigarro depois do café da manhã, sem a habitual costeleta ou um aperitivo com um amigo.

O que é que me levou a pensar em tudo isto?

Ah sim, as velas! bem, as velas já deixaram de fumegar; e como não quero que o café esfrie, é bom começar a rezar já o Trium puerorum*.*É o "cântico dos três jovens" que, como narra o profeta Daniel(Dn3, 57 ss), foram milagrosamente preservados das chamas da fornalha ardente onde foram lançados por ordem do rei da Babilonia, Nabucodonosor. Este belo cantico é tradicionalmente recomendado pela Igreja como oração de ação de graças após a Missa.

Na verdade, não foram só as velas. A bem dizer, foi o padre Lallemant no texto da meditação da semana passada. Havia nesse livro um parágrafo que parece ter ficado desagradavelmente gravado no meu espírito: - "Perdemos muitos anos e até a maior parte da vida discutindo conosco próprios se nos entregaremos ou não por inteiro ao Senhor. Não nos decidimos a aceitar um sacrifício tão completo, reservamos´para nós mesmos muitos afetos, desejos, projetos, esperanças, pretensões, de que não queremos desfazer-nos para chegar a essa perfeita nudez de alma que nos franqueia a plena posse de Deus".

Essa, sim, foi uma estocada muito forte, que me apanhou de guarda baixa. Uma estocada que me fará pensar por muito tempo. Um espelho não daria de mim uma imagem tão exata. Percebo que a minha paróquia podia transformar-se se eu já tivesse começado a dar os primeiros passos para a santidade. Percebo-o claramente,e, no entanto, contento-me com uns esforços insignificantes e com umas tentativas que pouco mais são do que subterfúgios.

Ultimamente, essas pancadas vêm sendo cada vez mais fortes e seguidas. Talvez uma delas deixe fora de combate a minha apatia e a minha sensualidade.Assim o espero.

Francamente, Senhor, assim o espero. Será um milagre conseguirdes que eu seja aquilo que quereis, mas Vós, Senhor, já tendes feito tantos milagres! Por favor, por favor, não me deixes entrar na Eternidade ainda olhando para trás.

Trium puerorum...Mas esses meninos é que eram homens"

Fonte: Vaso de Argila - Quadrante

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A Lição de São Lourenço.


Por Padre Léo Trese.

A padagogia avançou muito desde os tempos da minha infância. Hoje os alunos da 8ª série treinam uma apresentação em público. Joey está de pé e conta a vida de São Lourenço, enquanto os outros esperam a sua vez para poderem completar certos pormenores que Joey esquecerá. Mas há uma coisa que ele não esquece: "Virem-me para o outro lado- Joey cita São Lourenço - virem-me para o outro lado porque acho que deste já estou bem assado".

Os pequenos sabem apreciar o humor do santo na grelha, e há um riso geral meio reprimido, enquanto olham para mim para ver se eu também acho graça. Sorrio de volta, enquanto desejaria ter, como São Lourenço, o dom de não me dar importância a mim mesmo. Aqui está - digo de mim para mim - um bom padroeiro para os momentos de desalento. Desalento significa que me estou tomando muito a sério, sempre com a idéia de que devo ser eu sozinho a salvar o mundo...

Um paroquiano veio dizer-me que um casal de vizinhos recentes não está casado na Igreja. Não poderia eu ir visitá-los? Escrevo o nome e endereço num bloco de notas onde já estão apontados outros seis casos semelhantes de que cuidarei discretamente. Suspiro e volto ao trabalho, que naquele momento consiste em esboçar um talão de rifa para a nossa próxima excursão. "Foi para isto que me ordenei?", pergunto-me a mim mesmo.

Passo cinquenta por cento das minhas horas de trabalho no meu escritório, tratando de conseguir dinheiro, pagando duplicatas, atendendo vendedores, escrevendo cartas, acompanhando uma ou outra obra, fazendo cópias de circulares ou preenchendo impressos. Nove décimos deste trabalho podia ser feito por um leigo, ao passo que eu estou rodeado por todos os lados de almas que salvar. Ernie Stein, por exemplo. Li no jornal da tarde de ontem que ele se casou no domingo na Igreja batista. Faz precisamente ano e meio que o batizei; era um convertido que prometia muito. Pouco depois deixou a noiva católica. Se eu o tivesse acompanhado um pouco, se tivesse mantido algum contato com ele, talvez...

É justamente neste momento que São Lourenço intervém: "Ouça, meu agitado amigo", diz-me ele, "eu sou apenas um diácono, mas deixe-me dizer-lhe algumas coisas. Tudo o que você faz tem que ser feito. Talvez um leigo também o pudesse fazer, mas, neste momento, se você não o fizesse, ninguém o faria. Esses trabalhos burocráticos de que você se lamenta fazem parte de sua tarefa , se forem sublimados e fecundados na sua oração da manhã por um oferecimento espiritual. Reconheça em Deus um pouco de senso comum . Ele sabe o tempo de que você dispõe e traçou os seus planos tendo isso em conta. Em última análise, dois grãozinhos da sua graça valem mais do que nove litros do seu amor. Você acredita nisso não acredita?"

"Lembre-se - diz-me de que Deus está metido nesse assunto da salvação das almas há muito mais tempo do que você. Ele não cochila nem mesmo quando você acha que está perdendo o tempo projetando um filme para a Confraria do Santo Nome. O seu mal, padre - São Lourenço aponta o dedo para mim - o seu mal é que você não está interessado na salvação das almas como em ve-las salvar-se; o que você quer é conseguir inscreve-las uma após outra na coluna das pessoas definitivamente salvas. Eu não posso revelar nenhum segredo, mas algum dia você se surpreenderá ao saber quantos protestantes meteu no céu com as suas orações, ainda que não tenha conseguido incluí-los no seu relatório anual. Não pense que se pode encerrar a Deus nas estatísticas do Anuário Católico".

O meu visitante cala-se, mas por pouco tempo: "veja o caso do padre Harrumph: achava que eram demasiadas as suas responsabilidades e entregou-se a bebida. E que bem é o que faz agora, encerrado numa casa de saúde? Repare no padre Hustle, um cardíaco crônico e no padre Hurry * ( que significa pressa), que arranjou uma fiada de úlceras, achavam que o mundo se afundaria se eles não o carregasse pessoalmente as costas".

"Um momento por favor - Lourenço levanta a mão para que não o interrrompa com alguma objeção - não me fale de santos que se mataram de trabalhar pelo bem das almas. Quando você for santo, não terei inconveniente em vir cá em baixo discutir isso contigo. Logo que você comece a passar uma noite inteira em oração diante do Sacrário...A propósito - São Lourenço interrompe-se a si mesmo - já alguma vez pensou como o seu tempo seria frutífero se o empregasse mais em orar e menos em andar ronroneando em torno de si próprio?
Experimente. Seria caso para você se preocupar se um jogo de golfe chegasse a significar mais para você do que a instrução de um converso, ou uma noite de "poker" mais do que a sua saúde".

" Bem - São Lourenço retira o pé da cadeira enquanto sorri com ar brincalhão - fui demasiado sério para quem tem fama de humorista. Mas não se esqueça de que o marechal Foch disse um dia aos seus aduladores; " Senhores, o mesmo que eu fiz podia ter sido feito por Deus com o cabo partido de uma vassoura ". Há muito mais sacerdotes atormentados do que preguiçosos, e eu não sei se os atormentados não desonrarão mais a Deus do que os preguiçosos..."

Um ansioso estalar de dedos devolve-me à realidade. Joey terminou a sua exposição.

Enquanto clareio a voz e saio do meu sonho, tomo uma rápida decisão: da próxima vez em que a minha agenda estiver repleta de compromissos e o dia me parecer muito curto, em lugar de tomar bicarbonato de sódio, direi apenas:

"São Lourenço, Rogai por mim".

Fonte: Livro Vaso de Argila