quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Crer em Deus?


Por Alfonso Aguilló

Será que Deus Realmente Existe?

Uma constante na história dos Povos.

A noção da existência de Deus povoa a mente humana desde os tempos mais imemoriais. Aparece com insistência em todos os lugares e em todas as épocas, mesmo nas civilizações mais arcaicas e isoladas que se tem notícia. Não existe nem um povo nem período algum da história sem religião. A existência de Deus foi sempre uma das grandes questões humanas, pois apresenta-se perante o homem com um caráter radicalmente comprometedor. O homem procura uma resposta para os grandes enígmas da condição humana, que não importa a época, surge no mais fundo do coração: o sentido e o fim da nossa vida, o bem e o mal, a origem e a razão de ser da dor, o caminho pra alcançar a verdadeira felicidade, a morte, o juízo, a retribuição depois da morte. Tudo aponta para o mistério que envolve nossa existência - as perguntas “de onde vim?" e "para onde vou", rumo àquela força misteriosa que está sempre presente no curso de todos os acontecimentos humanos e que impregna a vida de um íntimo sentido religioso.


Mas, para muitas pessoas, não interessa o que todos os povos fizeram ao longo da história. Não querem fazer a mesma coisa que os outros fizeram no passado.

Não quiz dizer que devamos fazer exatamente as mesmas coisas que os nossos antepassados. As pessoas fazem muito bem em procurar o seu próprio caminho e em ser diferentes dos que as antecederam. O que eu queria dizer é que nunca é supérfluo lançar um olhar sobre a história, ao menos porque isso pode fornecer uma certa perspectiva que sempre projeta luz sobre a vida de cada qual. Já dizia Aristóteles que, se a religião é uma constante na história dos povos, não pode ser senão porque pertence à própria essência do homem. Por mais fortes que tenham sido, às vezes, a hostilidade e a influência secularizante do ambiente, nunca o homem foi totalmente indiferente a questão religiosa. Onde quer que as instituições religiosas tenham sido suprimidas e os fiéis perseguidos de uma maneira ou de outra, as idéias e as obras da religião voltaram a brotar uma e outra vez. As perguntas sobre o sentido da vida, sobre o enígma do mal e da morte, sobre o que acontecerá depois da morte, são perguntas a que nunca se pôde fugir. Deus está na própria origem existencial do homem.

Pode-se Atribuir tudo ao acaso?

- Mas não se pode pensar que o Universo inteiro é, simplesmente fruto do acaso?

Desde os tempos mais remotos, o homem interrogou-se com espanto sobre qual seria a explicação para toda essa harmonia que existe na configuração e nas leis do Universo. Quando o homem de hoje - comenta José Ramón Ayllón - observa a complexidade e perfeição dos processos bioquímicos no interior de uma célula, ou a dos mais gigantescos fenômenos de movimento e transformação das galáxias; quando assoma ao mundo microfísico e propõe leis que tentam explicar os fenômenos que acontecem em escalas de até um bilionésimo de milímetro; ou quando aprofunda na estrutura em grande escala do Universo até os limites de mais de um bilhão de bilhões de quilômetros - contemplando todo esse espetáculo grandioso, cada dia com maior profundidade graças aos avanços da ciência - torna-se cada vez mais difícil sustentar que tudo obedece a uma evolução misteriosa governada pelo acaso, sem que haja nenhuma inteligência por trás.

Onde existe um plano, tem de haver alguém que planeja.

E por trás de uma obra tão complexa e de tais proporções, tem de haver um Criador cujo poder e sabedoria transcendem qualquer medida. Pensar que toda a harmonia do Universo e todas as complexas leis da natureza são fruto do acaso seria como pensar que as andanças de Dom Quixote de La Mancha, escritas por Cervantes, podem ter aparecido íntegras extraíndo as letras ao acaso de uma gigantesca marmita com uma sopa de letras. Recorrer a um gigantesco acaso para explicar as maravilhas da natureza é uma explicação demasiado ingênua.

-Mas não é possível também sustentar, como dizem alguns, que o mundo sempre existiu?

Quando vemos um livro, um quadro ou um edifício, pensamos imediatamente que, por trás dessas obras, deve haver, respectivamente, um escritor, um pintor e um arquiteto. Assim como a ninguém passa pela cabeça pensar que o Quixote surgiu de um imenso monte de letras que caíram por obra do acaso sobre umas folhas de papel e se ordenaram precisamente dessa forma tão engenhosa, também não se pode dizer que aquele edifício "está aí desde sempre", ou que aquele quadro "se pintou a si mesmo", ou coisas desse tipo. Não podemos seriamente sustentar que o mundo "se fez soznho" ou que " se criou a si próprio". É uma incompatibilidade absolutamente evidente.

Tem de Haver Uma causa Primeira?

"- Não conheço nenhum oleiro - disse o vaso de barro - Nasci por mim mesmo e sou eterno."- “Ficou louco, coitado. O barro subiu-lhe à cabeça."

Assim expressava Franz Binhack, na sua obra Topfer und Topf (“Oleiro e vaso"), com um certo toque de humor, o que há de ridículo na atitude de quem fecha os olhos ante a inevitável pergunta sobre a origem do primeiro ser. Se de uma torneira sai água, é porque existe um encanamento que transporta esta água. E essa tubulação recebe-la-á de outra, e essa, por sua vez, de outra. Mas, em algum momento, os canos vão acabar e chegaremos ao reservatório. Ninguém afirmaria que sempre há água na torneira simplesmente porque os canos tem um comprimento infinito.

"Do nada - afirma Leo J.Trese - não podemos obter coisa alguma. Se não temos bolotas, não podemos plantar um carvalho. Sem pais não há filhos. Portanto se não existisse um Ser que fosse eterno (isto é um Ser que nunca tivesse começado a existir) e onipotente (capaz de fazer do nada alguma coisa), não existiria o mundo, e nós também não existiríamos. "Um carvalho origina-se de uma bolota, mas as bolotas crescem nos carvalhos. Quem fez a primeira bolota ou o primeiro carvalho?"Alguns evolucionistas diriam que tudo começou a partir de uma massa informe de átomos. Está bem, mas... quem criou essa massa de átomos? De onde procediam? Quem foi que dirigiu a evolução desses átomos, conforme leis que podemos descobrir, e que evitaram um desenvolvimento caótico? Alguém teve de fazê-lo. Alguém que, desde toda a eternidade, tenha possuído uma existência independente. Houve um tempo em que não existiu nenhum dos seres deste mundo, cada um deles deverá sempre a sua existência a outro ser. Todos, tanto vivos como os inertes, são elos de uma longa cadeia de causas e efeitos. Mas essa cadeia tem de chegar até uma causa primeira. Pretender que um número infinito de causas pudessem dispensar-nos de encontrar uma causa primeira seria a mesma coisa que afirmar que um pincel pode pintar sozinho


Há quem diga que é suficiente saber que os seres simplesmente existem. Que pouco importa saber de onde procedem e que, portanto, não é preciso pensar mais nisso.

Então estaríamos perto de dizer que não se deve pensar. Porque renunciar a uma parcela tão importante do pensamento equivale a deixar de lado uma parcela importante da realidade. Se vemos um paletó pendurado em uma parede (o exemplo é de Frank Sheed), mas não reparamos que está sustentado por um cabide, e isso nos leva a pensar que os paletós desafiam as leis da gravidade e se penduram das paredes pelo seu próprio poder, então não viveríamos no mundo real, mas num mundo irreal que nós mesmos forjamos. Da mesma forma, se observamos que as coisas existem e não vemos com clareza qual é a causa pela qual existem, e isso nos leva a negar ou a ignorar essa causa, estaríamos saindo do mundo real.

Um Pequeno "Drible" Dialético

Mas alguns filósosfos afirmaram que a relação causa-efeito não é senão uma dialética alheia à natureza, na qual os fenômenos se repetem de maneira incessante sem que essa relação de causa e efeito exista senão no nosso entendimento.

Não parece que a noção de causa seja uma simples elucubração humana. É algo que comprovamos todos os dias e que a ciência não cessa de invocar. "Se vejo umas crianças - observa André Frossard - a experiência diz-me que não se fizeram por si mesmas. Talvez um filósofo afirme que não posso demonstrá-lo, mas também ele se veria em apuros para demonstrar que estou errado se afirmo que surgiram de umas couves". Rejeitar dessa maneira a relação causa-efeito parece um atentado contra o bom senso. Na realidade, os que pensam assim, depois, na vida diária, não são consequentes com essa teoria. Sabem, por exemplo, que se meterem o dedo numa tomada, receberão o choque correspondente , e por isso procuram não fazê-lo. Sabem que a relação entre esse ato e o choque elétrico não é uma "dialética alheia à natureza" que "só exista no seu entendimento"…até porque o seu entendimento não está nos dedos. Quando - negando a evidência das causas - se diz que tudo o que existe é fruto do acaso, renuncia-se explicitamente ao uso da razão. A fé cristã confia totalmente na reta razão, mediante a qual se pode chegar ao conhecimento de Deus. Para os que creêm, a razão é inseparável da fé e deve ser respeitada como o que é, ou seja, um dom divino.

Mas se se pode chegar a Deus com as luzes da razão, para que é necessária a fé?

Não é difícil chegar a reconhecer que Deus existe. Acabamos de ver alguns raciocínios que nos levam a Ele, e veremos ainda muitos mais. De qualquer modo, nem sempre esse trabalho é fácil. Além de exigir - como acontece com todo o conhecimento - uma maneira reta de pensar e um profundo amor à verdade, é preciso levar em conta que, em muitos casos, nós, os homens, renunciamos a continuar a discorrer racionalmente, quando que contrariam os nossos egoísmos ou as nossas más paixões. Penso que esta pode ser uma das razões pelas quais Deus se adiantou e, dando-se a conhecer mediante a "Revelação," como sabemos, nos estendeu a mão. Assim, além disso, todos os homens podem conhecer todas essas verdades de modo mais fácil, com maior certeza e sem erros.

Um Conto de Fadas para Adultos

- Muitas pessoas dizem que a teoria do big bang, como tal, é perfeitamente a auto-criação do Universo, e portanto não precisa de Deus para explicar seja o que for.

O big-bang e a auto-criação do Universo são duas coisas bem diferentes. A teoria do big-bang, como tal, é perfeitamente conciliêvel com a existência de Deus*. (*Essa teoria diz que todo o universo se teria originado de um ponto inicial de massa e energia quase infinitas, mas a teoria nada afirma sobre a origem deste ponto inicial.) Mas, quanto à teoria da auto-criação - que sustenta, mediante explicações mais ou menos engenhosas, que o Universo se criou a si próprio do nada - seria preciso objetar duas coisas: Primeiro, que desde o momento em que se fala de criação a partir do nada, estamos já fora do método científico, já que o nada não existe e, portanto, não é possível aplicar-lhe o método científico. E, segundo, que é necessária muita fé para pensar que uma massa de matéria ou de energia possa ter-se criado a si mesma. Tanta fé, que o próprio Jean Rostand - para citar um cientista de reconhecida autoridade mundial nesta matéria e, no seu tempo, pouco suspeito de simpatia pela doutrina católica - chegou a dizer que essa história da auto-criação é como "um conto de fadas para adultos".

Afirmação que André Frossard reforça ironicamente dizendo que "se deve admitir que algumas pessoas adultas não são muito mais exigentes que as crianças a respeito dos contos de fadas[...]:as partículas originais, sem qualquer impulso nem direção exteriores, começam a associar-se, a combinar-se aleatoriamente entre elas para passar dos quasares aos átomos e dos átomos a moléculas de arquitetura cada vez mais complicada e diversa, até produzirem, depois de milhares de milhões de anos de esforços incenssantes, um professor de astrofísica de óculos e bigode. É o supra-sumo das maravilhas. A doutrina da Criação não pedia senão um milagre de Deus. A da auto-criação exige um milagre a cada décimo de segundo". Um milagre contínuo, universal e sem autor.

Evolução: está certo, mas a partir do quê?

- Há quem entenda a história do Universo como a evolução dos organismos vivos que emergiram da matéria e alcançaram um certo grau de complexidade...

Para os que defendem essas teorias, parece que o mundo é apenas um questão de geometria extraordinariamente complexa. No entanto, por mais que algumas estruturas se compliquem, e por mais que se admita uma vertiginosa evolução da sua complexidade, essa evolução da substância material depara com pelo menos duas objeções importantes. A primeira é que a evolução nunca explicaria a origem primeira dessa matéria incial. A evolução transcorre no tempo; tem por pressuposto a Criação. A segunda é que a passagem da matéria para a inteligência humana é um salto ontológico - um salto no modo de ser de cada coisa - que não se pode dever a uma simples evolução fruto do acaso. Por muito que a matéria se desenvolva, não é capaz de produzir um só pensamento que lhe permita compreender-se a si mesma, do mesmo modo que - como exemplifica André Frossard - nunca veríamos um triângulo que, depois de um extraordinário processo evolutivo, notasse de repente, maravilhado, que a soma dos seus angulos internos é igual a cento e oitenta graus.

- Há algum inconveniente em que um católico acredite na evolução das espécies? Muitos dizem que não faz sentido que a Igreja continue relutante em aceitar um dado que está provado cientificamente.

Talvez não estejam bem informados, porque a Igreja Católica não tem inconveniente algum em aceitar a evolução do corpo humano a partir de um primata. Para conciliar a doutrina da evolução humana com a teologia católica, é suficiente admitir que Deus agiu num momento determinado sobre o corpo do primeiro casal, infundindo-lhes uma alma humana. Deus pôde, com efeito, ir formando o corpo do homem a partir de alguma espécie de primata em evolução, de acordo com um projeto desenhado por Ele, e quando esse primata alcançou o grau de desenvolvimento requerido, dotou-o de alma humana. A Igreja não tem nenhum inconveniente em que um católico aceite essa hipótese, se a considera digna de crédito.


- Então um católico não tem de acreditar ao pé da letra no relato da Criação que aparece no Gênesis?

Não é preciso acreditar ao pé da letra. O relato do ato da Criação que o Gênesis oferece, não pretende seu uma explicação científica sobre a origem do ser humano. As descrições de fenômenos físicos ou naturais que encontramos na Bíblia não pretendem proporcionar-nos diretamente ensinamentos em matéria científica, e os detalhes contidos nessas descrições também não afetam diretamente a doutrina da salvação. Observa-se perfeitamente que a narrativa do Gênesis é um esquema teológico, que não pretende ser histórico, mas proporcionar uma visão geral das verdades mais fundamentais, a fim de deixar claro que o mundo procede somente do poder de Deus. O modo como o processo se levou a cabo é uma questão que a Bíblia deixa completamente em aberto. O autor do Gênesis não se propunha dar aulas de astrofísica ou de biologia molecular. Dá a entender que todo o homem, e o homem todo, em corpo e alma, vem de Deus, depende de Deus e foi criado por Deus; que o Universo não é auto-suficiente e que Deus é o Criador e Senhor de todas as coisas. As aparentes divergências que parecem observar-se entre algumas narrativas bíblicas e os conhecimentos científicos atuais devem-se ao sentido matafórico ou figurado com que, em alguns casos, os autores sagrados escreviam, ou então a um modo diferente de expressar-se, de acordo com as aparencias sensíveis ou a maneira de falar do povo da época.

Deus pode caber na minha cabeça?

A grandeza de um homem está em saber reconhecer sua pequenez - Blaise Pascal

Reconhecer as nossas limitações

Se um aluno do colegial vai um dia à Universidade e assiste a uma aula de doutorado que trata de uma matéria especialmente complexa, não deve estranhar que perca com frequência o fio da explicação (se é que em algum momento chegou a tê-lo nas mãos). Pensará que isso é natural, já que a matéria está muito acima da sua compreensão. Algo de semelhante acontece com a compreensão da natureza de Deus que o homem pode alcançar. Se o estudante do nosso exemplo dissesse que tudo o que ouviu nessa aula é mentira pela simples razão de que ele não entendeu nada, seria preciso fazê-lo ver - educadamente, sem dúvida - que não é a sua capacidade de entender as coisas que faz com que elas sejam verdadeiras. A verdade não tem obrigação de ser correspondida inteiramente por todas as pessoas. E isto não quer dizer que as pessoas sejam tolas, nem que se deva renunciar a razão, mas apenas que é preciso reconhecer que temos limitações. Por isso, disse Pascal e era um grande cientista – que a "grandeza de um homem está em saber reconhecer a sua pequenez".Para voltarmos ao nosso exemplo, o professor de pós-graduação talvez possa tornar a matéria mais acessível, com exemplos ou simplificações mais ou menos felizes que ajudem o aluno a entende-la. E também poderá refutar, com maior ou menor acerto pedagógico, as objeções que o rapaz levante. Mas não conseguirá faze-lo entender todas as aulas perfeitamente e até as últimas consequências. Porque está em outro nível.

Pensar que alguém é tão inteligente que possa abarcar Deus por completo é de uma ingenuidade tão espantosa como presunçosa. É, mais ou menos, como se o aluno do nosso exemplo pensasse que entendeu perfeitamente tudo o que escutou na aula (neste caso provavelmente teria entendido algo muito diferente do que realmente foi explicado). Se alguém diz que Deus não existe porque não cabe por completo na sua cabeça, será preciso fazê-lo considerar que, já não seria Deus. E isso não tem nada a ver com a possibilidade de a razão humana demonstrar a existência de Deus. A razão é capaz de chegar a Deus, mas demonstrar a existência de Deus não é compreender inteiramente o ser de Deus. Para crer, é preciso reconhecer humildemente - e sei que é difícil ser humilde - as limitações da razão humana. Assim poderemos aproximar-nos de uma realidade que é muito superior a nós.

Mas Deus não poderia ter feito alguma coisa para que O conhecêssemos mais facilmente?

Penso que já fez muito, uma vez que se “Revelou”. Talvez seja o homem quem precise fazer alguma coisa mais. Além disso, quem somos nós para prescrever a Deus o modo mais adequado de Se dar a conhecer? Deus não quis obrigar o homem a reconhecê-lo forçosamente. A razão humana pode demonstrar a existência de Deus e conhecer bastante sobre a Sua natureza. Mas não pode chegar por si só a alcançar muitas outras verdades relativas à natureza de Deus. O fato de o homem não conseguir captar algumas verdades não tem porque por em causa essas verdades. Como explica Mariano Artigas, isso também acontece continuamente nas ciências. Por exemplo, ninguém duvida da existência das partículas sub-atômicas, apesar de chocarmos com dificuldades - que, por enquanto são insolúveis - quando tentamos explicar a sua natureza. Mas essas dificuldades não impedem que tenhamos muitos conhecimentos bem comprovados sobre essas partículas e que possamos utilizá-las como base de algumas tecnologias muito avançadas. A fé é compatível com a razão, mas é difícil para o homem chegar a compreendê-la em profundidade com o auxílio exclusivo da razão. Por isso, a “Revelação” constitui uma grande ajuda no laborioso caminho da inteligência humana.

Crer em Alguma Coisa Que Não Estou Certo que Exista?

Há homens que se declaram agnósticos porque dizem que ninguém conseguiu demonstrar-lhes de forma convincente que Deus existe. Dizem que não podem rezar a um ser de quem não sabem com certeza se existe, porque seria como lançar ao mar mensagens numa garrafa, sem saber se alguém as apanhará.No entanto, os náufragos em ilhas desertas lançavam ao mar garrafas com mensagens dentro; pelo menos, é o que se conta. E imagino que o faziam porque confiar em alguma coisa que não é uma certeza esmagadora e incontestável não tem por que ser uma atitude absurda. Absurdo seria ficar sem fazer nada por não saber com toda a certeza de alguém chegará algum dia a encontrar a garrafa.

Sim, mas eles optam por não arriscar nada, e por isso preferem não crer em nada, já que não há nada claramente demonstrado.

Com esse modo de pensar, seria preciso deixar de acreditar até que se é filho dos próprios pais - peço desculpas pelo exemplo um pouco contundente - como a única solução segura para evitar o risco de amar pais falsos. A maioria de nossos conhecimentos procede da fé humana, isto é, do testemunho de outras pessoas e, na maioria dos casos, não podemos comprová-los. E isso inclui dados tão simples como quem são os nossos pais, o nosso lugar e data de nascimento, a maior parte da geografia e da história, e um lomguíssimo etcétera. No entanto costumamos acreditar que o remédio que tomamos é o que está indicado na caixa, ou que as placas de sinalização das estradas nos vão mandar ao lugar indicado, ou que realmente existe aquele país distante que aparece nos mapas e do qual a imprensa tanto fala, mas que nunca visitamos. Porque isso é o que é sensato. Passamos a vida inteira - todos, também aqueles que dizem não acreditar em nada - tendo fé em muitas coisas, correndo riscos, confiando no que não está claramente provado. Fé quer dizer crédito ou confiança. Se quizéssemos demonstrar tudo, acabaríamos por ver-nos metidos num processo infinito em que a desconfiança absoluta limitaria drasticamente os nossos movimentos e atos, e a nossa vida ficaria reduzida ao pequeníssimo âmbito daquilo que cada qual pode compreender pessoalmente. Por isso, o fato de a fé em Deus exigir uma atitude de aceitação é também algo muito sensato. O que não seria sensato é o ceticismo absoluto, ou pedir um desproporcionado grau de segurança. E menos sensato ainda se só se exigisse isso em questões de religião ou de moral. A própria amizade, sem ir mais longe, requer o exercício da fé e da confiança, já que, sem elas, nenhum amigo seria digno desse nome. Assim o entendia um pensador da Antiguidade, que se perguntava: "Como posso afirmar que não se deve acreditar em nada sem conhecê-lo diretamente, se, no caso de não se acreditar em nada que a razão não possa demonstrar com toda a certeza, não existiriam nem a amizade, nem o amor".

Acreditar em alguma coisa que me complica a vida?

- Por vezes, a resistência a crer em Deus é, sobretudo, uma resistência da vontade para evitar complicações morais .

Se, dúvida, e por isso muitos agnósticos se amparam na desculpa de que não se pode conhecer com certeza a existência de Deus, para assim viverem na prática como se Ele não existisse. E resolvem as suas dúvidas intelectuais apostando, na prática, pela não existência de Deus, como uma segurança e assumindo uns riscos difíceis de conciliar com os raciocínios de que partem.* (A palavra agnóstico, em grego: agnosceo significa "não sei"). Essa atitude pode ser muito atraente para aqueles que procuram eludir algumas das obrigações morais que a existência de Deus traz consigo, pois lhes permite evitar o incômodo de refutá-las. Dessa maneira, o seu agnosticismo acaba por ser uma simples fachada intelectual que esconde alguns posicionamentos que talvez pareçam comodos, mas são, sem dúvida, muito pouco consistentes. Há outros - a quem talvez devessemos elogiar inicialmente pela sua sinceridade - que afirmam crer em Deus, mas preferem colocá-lo entre parênteses porque, por algum motivo mais ou menos inconfessado, não tem interesse em ver afetada a sua vida. É o indiferentismo, que, embora possa ser efetivamente sincero, não parece um exemplo de coerência. Outros professam uma espécie de agnosticismo estético, e fazem, equilíbrios difíceis entre o ceticismo e a busca da aprovação social, ou entre o medo ao compromisso e o medo ao "que dirão". Parecem pensar que a incredulidade é uma prova de elegância e sabedoria, e talvez seja por isso que chegam ao extremo de fingi-la. Em qualquer caso, são atitudes nascidas de decisões pessoais, que podem ser tomadas com toda a liberdade, certamente, mas que com frequência, não se baseiam numa argumentação intelectual muito rigorosa. A argumentação costuma vir depois da decisão, para justificá-la.

Agnosticismo e Cálculo de Probabilidades.

- Outros - e parece que o dizem honestamente - garantem que, se alguém os convencesse de que Deus existe, se converteriam. Mas que não podem forçar um fé que não possuem. Chegam a dizer que gostariam de ter a sorte de possuir essa fé que faz os outros tão felizes.

Poderíamos inverter-lhe o raciocínio: que sejam eles a demonstrar que Deus não existe ou não pode ser conhecido, e, então, seria você que se converteria à posição deles.

- Penso que uma pessoa dessas começaria por dizer que não tem nenhum interesse em converter-me, como parece que eu tenho.

Acho que todo ser humano que esteja realmente persuadido de conhecer alguma verdade deve ter o desejo de compartilhá-la com os outros. Procurar que os outros se aproximem daquilo que uma pessoa considera verdadeiro - respeitando-lhe sempre a liberdade, sem dúvida - é algo positivo.

Nesse caso, o meu interlecutor diria que, como também não se pode demonstrar que Deus não existe, mas a Sua existência oferece dúvidas, parece-lhe razoável apostar por qualquer das duas opções. Mas ele, na prática, vive como se Deus não existisse. Em última instância, vive de acordo com alguma coisa que não pode demonstrar. No fundo, tem fé em alguma coisa, na não-existência de Deus, mas com agravante de que, se efetivamente, no fim, vier a acontecer que Deus existe - como descobriremos pessoalmente dentro de não muito tempo - o mais provável é que ele tenha saído perdendo nessa aposta e pelos séculos dos séculos.

Mas dirá que, se no fim acontece que Deus não existe, é voce quem perde, e Ele, pelo contrário, sai ganhando.

Não é tão seguro assim afirmar que aqueles que vivem à margem de Deus levam uma vida mais feliz. Eles próprios reconhecem muitas vezes – você mesmo o comentava atrás - que até gostariam de ter a fé que torna os outros tão felizes. E é lógico que assim suceda, já que ter fé é sempre servir um valor mais elevado e todo o homem - queira ou não - é servo das coisas em que põe a sua felidade. De modo que,se no fim da vida se comprova que Deus existe, o agnótico terá apostado no erro de maior transcendência que pode haver. E mesmo que Deus não existisse, o que é ele sairia ganhando? Portanto, até por esta razão de probabilidade, parece bastante razoável apostar na fé. Pascal resumia-o assim : Prefiro errar crendo num Deus que não existe a errar não crendo num Deus que existe." Porque - acrescentava com o seu habitual pragmatismo de cientista – se depois não há nada, evidentemente nunca o saberei, quando me afundar no nada eterno; mas se existe alguma coisa, se existe Alguém, terei que prestar contas da minha atitude de rejeição".Por outro lado, se Deus existe, tem de haver uma religião, pois a religião é própria da relação natural entre qualquer ser racional e aquele que o criou. Assim como é natural que um filho se relacione com os seus pais, pela simples razão de que o trouxeram ao mundo, o natural no homem é manter um relacionamento com o seu Criador, e pode-se dizer que isso é religião.


Fonte: É Razoável Crer? Questões Atuais sobre a Fé – AGUILÓ Alfonso – Tradução: Roberto da Silva Martins - Editora Quadrante - São Paulo 2006 - Coleção Vértice; Pags.8-25

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Sobre a Fé - São Tomás de Aquino


O primeiro bem necessário para o cristão é a fé. Sem a fé ninguém pode ser chamado de fiel cristão.

A Fé produz quatro bens:

1- É a união da alma com Deus. Pela fé realiza-se uma espécie de matrimônio entre a alma e Deus, conforme se lê no Profeta Oséias: Desposar-te-ei na fé (2,20). Quando o homem é batizado, deve, em primeiro lugar, confessar a fé ao responder à pergunta – Crês em Deus? - porque o Batismo é o primeiro Sacramento da Fé. O Senhor mesmo disse: O que Crer e for batizado será salvo.

O Batismo sem fé é destituído de valor. Deve-se, portanto, ter por certo que ninguém pode ser aceito por Deus sem a fé. Sem a fé é impossível agradar a Deus, diz São Paulo (Heb 11,6). Santo Agostinho, comentando este texto da carta aos Romanos Tudo o que não procede da fé é pecado (14,23), assim se expressa: Onde não existe o conhecimento da verdade eterna e imutável, a virtude é falsa mesmo nas pessoas retas

2- Pela fé é iniciada em nós a vida eterna. E ela não consiste senão em conhecer a Deus, conforme lê-se em São João: ”Esta é a vida eterna que Vos conheçam como único Deus verdadeiro” (17,3). Esse conhecimento de Deus inicia-se aqui pela fé, mas é completado na vida futura, quando O conhecemos tal como é. Por isso lê-se na carta aos Hebreus: ”A fé é a substância das coisas que se esperam (11,1). Ninguém alcançará a bem-aventurança eterna, sem que tivesse primeiramente o conhecimento da fé, pois está escrito: Bem-aventurados os que não viram e creram (Jo 20,29).

3- O terceiro bem consiste: A vida presente é orientada pela fé. Para que o homem viva bem, é mister que conheça os princípios do bem viver. Se pelo próprio esforço devesse aprender esses princípios, ou não chegaria a conhece-los, ou só os poderia conhecer após um longo tempo. Mas a fé ensina todos os princípios do bem viver. Ora, ela ensina que há um só Deus, que Deus recompensa os bons e pune os maus, que existe uma outra vida, e outras verdades semelhantes. Esse conhecimento é suficiente para nos levar a praticar o bem e evitar o mal, pois diz o Senhor: o meu justo vive da fé.

Eis porque nenhum filósofo antes de Cristo, apesar do grande esforço intelectual que despendia, pôde chegar ao conhecimento de Deus e dos meios necessários para alcançar a vida eterna, como, depois do advento de Cristo, qualquer velhinha o pôde pela fé. Eis porque Isaias prefetizou esse advento nestes termos: Encheu-se a terra da ciência de Deus.

4- Pela fé vencem as tentações, conforme lê-se nas Escrituras: Os santos pela fé venceram os reinos (Hb 11,23). As tentações procedem do diabo, do mundo, ou da carne. O diabo tenta para que tu não obedeças nem te submetas a Deus. Ora, é pela fé que o repelimos, porque é pela fé que conhecemos que há um só Deus e que só Ele devemos obedecer. Por isso escreveu São Pedro: o diabo, vosso adversário, está rondando para ver se devora alguém: a ele deveis resistir pela fé (1 Pe 5,8).

O mundo nos tenta, seduzindo-nos na prosperidade, ou nos atemorizando nas advesidades. Mas ambas as tentações, vencemo-las pela fé. Ela nos faz crer numa vida melhor, e, por isso, desprezamos as prosperidades do mundo e não tememos as adversidades. Eis porque está escrito: Esta vitória que vence o mundo, a vossa fé (1 Jo 5,4). Além disso, a fé nos ensina a acreditar que há males maiores, isto é, que existe o inferno.

A carne nos tenta, conduzindo-nos para os deleites momentâneos da vida presente. Mas a fé nos mostra que por eles, se a eles indevidamente aderimos, perderemos os deleites eternos. Por isso nos aconselha o Apóstolo: Tende sempre nas mãos o escudo da fé (Ef 6, 16).

Por essas razões fica provado que é muito útil ter fé.

Mas pode alguém objetar: é insensatez acreditar naquilo que não se vê: não se deve crer senão naquilo que se vê. Respondo a esta objeção com os seguintes argumentos:

Primeiro: É a própria imperfeição da nossa inteligência que desfaz essa dúvida. Realmente, se o homem pudesse por si mesmo conhecer perfeitamente as coisas visíveis e invisíveis, seria insensanto acreditar nas coisas que não vemos. Mas o nosso conhecimento é tão limitado que nenhum filósofo até hoje conseguiu perfeitamente investigar a natureza de uma só mosca. Conta-se até, que certo filósofo levou trinta anos do deserto para conhecer a natureza das abelhas. Ora, se a nossa inteligência é assim tão limitada, é muito maior insensatez não querer acreditar am algo, a respeito de Deus, a não ser naquilo que o homem pode conhecer d’Ele por si mesmo. Lê-se no livro de Jó: Eis como Deus é grande e ultrapassa a nossa ciência.

Segundo: Considerando, por exemplo, um mestre que assimilou uma verdade e um aluno pouco inteligente que a entendeu diversamente, porque não a atingiu. Ora, esse aluno pouco inteligente deve ser considerado como bastante tolo. Sabemos que a inteligência dos Anjos ultrapassa a do maior filósofo, como a deste, a inteligência dos ignorantes. Portanto seria tolo o filósofo que não acreditasse nas coisas ditas pelos Anjos. Ele seria muito mais tolo se não acreditasse nas coisas ditas por Deus. Lê-se, a esse respeito, nas Escrituras: Foram-te apresentadas muitas verdades que ultrapassam a inteligência do homem (Ecle 3,25).

Terceiro: Se o homem não acreditasse senão nas coisas que vê, nem poderia viver neste mundo. Pode alguém viver sem acreditar em outrem? Como pode tu saber que este é teu pai? É , pois, necessário que o homem acredite em alguém, quando se trata de coisas que por si só não as pode conhecer. Ora, ninguém é mais digno de fé do que Deus. Por conseguinte, os que não acreditam nas verdades da fé não são sábios, mas tolos e soberbos. São Paulo refere-se a esses como sendo – soberbos e ignorantes… (1 Tim 6,4). Por isso São Paulo diz de si: Sei em quem acreditei e tenho certeza… (2 Tim 1,12). Tudo isso é confirmado no livro do Eclesiático: Vós que temeis o Senhor, acreditai n’Ele (2,8).

Quarto: Pode-se ainda responder dizendo que Deus comprova as verdades de fé. Se um rei enviasse suas cartas com o selo real, ninguém ousaria dizer que aquelas cartas não eram do próprio rei. É claro que as verdades nas quais os Santos acreditaram e que nos transmitiram como sendo de fé cristã, estão seladas com o selo de Deus. Tal selo é significado por aquelas obras que uma simples criatura não pode fazer, isto é, pelos milagres. Pelos milagres Cristo confirmou as palavras dos Apóstolos e dos santos.


Podes, porém, replicar, dizendo que ninguém viu esses milagres. É fácil responder esta objeção. É conhecido que todaa humanidade prestava culto aos ídolos e que a fé cristã foi perseguida, confirmando-o, além do mais, a história do paganismo. Converteram-se todos a Cristo, porém, em pouco tempo. Os sábios, os nobres, os ricos, os governos e os grandes converteram-se pela pregação de poucos homens rudes e pobres. Ora, não há saída: ou se conerteram porque viram milagres, ou não. Se foi porque viram milagres que se converteram, a tua objção não tem sentido. Se não o foi, respondo que não poderia haver maior milagre que esse de todos os homens converterem-se sem ter visto milagres. Deves te dar por vencido.

Eis porque ninguém pode duvidar da fé. Devemos acreditar mais nas verdades da fé do que nas coisas que vemos. Porque a vista do homem pode falhar, mas a ciência de Deus é sempre infalível.


Fonte: Exposição sobre o Credo – AQUINO, Santo Tomás – Edições Loyola - 5ª Edição: 2002. ps. 17-21.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Fazer a Vontade de Deus .....


Segundo Santo Afonso de Ligório

Afonso de Ligório, jovem advogado, teve sua fama aumentada quando começou a pregar, realizando uma revolução nos corações dos pobres e humildes de Nápoles, pois acreditava com todo fervor, que quando se “ propõe adequadamente o bem”, qualquer pessoa a ele se entrega e se transforma. Seu apostolado crescia e muitos aderiam à força de sua mensagem, pois sabia que todos somos chamados, em grau maior ou menor a ser santos.

Assim, qualquer “alma redimida pelo Batismo, tornando-se pela graça templo do Espírito Santo, possui em potência o indispensável para atingir a santidade”. Alertava a todos que só as orações vocais e atos externos de piedade dificilmente levam à santificação, e que por isso deveriam recorrer a uma vida de intensa piedade interior, estimulando-os à oração mental, tão necessária ao crescimento das virtudes, pois coloca a alma contantemente na presença de Deus e da insuficência própria, iluminando-a a respeito das perfeições de Deus e das limitaçoes e defeitos próprios.

Nesta sua caminhada de santidade e de profundo amor a Deus e as almas, descobre como se deve conduzir para se fazer a vontade de Deus que é sempre soberana e que conduz o homem ao seu fim último que é santidade e perfeição. Esta caminhada que percorreremos, pedindo à Santíssima Virgem que nos ajude a compreender tal vontade, para sermos também, como Santo Afonso, santos e irrepreensíveis aos olhos do Pai, que é Santíssimo.

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O Caminho da Santidade

O mais importante é fazer a Vontade de Deus, nos diz Santo Afonso de Ligório, e nos revela que toda perfeição ou santidade consiste no amor a Deus, entretanto, toda a perfeição do amor consiste em conformar nossa vontade a Sua vontade , porque no dizer de São Basílio, “o efeito principal do amor é: unir as vontades dos que se amam de maneira que tenham uma só vontade”. Não há dúvida que agradam a Deus nossos sacrifícios, renúncias e meditações, obras de misericórdia, exercícios de piedade, contanto que tudo esteja de acordo com a sábia vontade do Senhor. Caso contrário, Deus os reprova e são merecedores de castigo. Se nossas obras e atividades não se realizam segundo o agrado divino, como poderiam agradar a Deus?

O profeta Samuel quando disse: “A obediência vale mais que sacrifícios” (I Samuel 15,22), mostrou que obedecendo a Deus o agradamos mais que se fizermos sacrifícios, já que o homem que deseja agir por conta própria, comete uma espécie de idolatria, porque neste caso, adora sua própria vontade, não a vontade de Deus. Pode-se dizer seguramente que a maior glória que damos a Deus é quando fazemos Sua vontade, foi o que fez Jesus quando veio a este mundo, justamente para glorifica-lo, pois disse várias vezes que não veio para fazer a Sua vontade mas a do Pai que o enviou e isso se cumpriu quando entrou no mundo se fazendo vítima de expiação para a remissão dos pecados da humanidade. Deus recusou todos os sacrifícios dos homens para receber a vítima perfeita, esta vítima era Cristo. O mundo haveria de entender este amor imenso pela vontade do Pai, que era remir os homens que estavam nas trevas do pecado e da condenação eterna, por isso, a cruz foi o caminho escolhido. Antes de se entregar disse: “ Para que o mundo saiba que eu amo o Pai, e faço como o Pai me mandou, levantai-vos e saiamos daqui”(Jo 14, 31).

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Seus seguidores seriam identificados como tal se fizessem como Ele, a vontade do Pai: “Pois todo aquele que fizer a vontade de Meu Pai que está nos céus, este será meu irmão, irmã e mãe”(Mt 12,50).

Se tem algo que os santos descobriram, é que ninguém se torna santo sem a busca da perfeição cristã e que toda sua luta consistiu nisso, em fazer sua vontade se conformar à vontade de Deus. Eles são exemplos para nós, que participamos da Igreja militante rumo ao céu, o seu amor puro e perfeito, e a glória a que se encontram há de nos estimular a buscar também fazer a vontade de Deus, amando-o acima de qualquer coisa, o que então facilitará muito em aceitarmos Sua vontade seja ela qual for. Jesus nos ensinou a pedir a graça de fazer Sua vontade na terra, como o fazem os santos no céu: “Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu”(Mt 6,10).

Santa Tereza nos diz: ”Toda a aspiração de quem começa a rezar deve ser esta: quero trabalhar, quero me esforçar para em tudo conformar minha vontade com a vontade do Pai. Nisto consiste a maior perfeição que se pode alcançar no caminho espiritual”(Moradas, 2). O bem-aventurado Henrique Suso dizia que: “Deus não exige de nós que tenhamos muitas idéias luminosas, mas que façamos sua vontade” e que “Preferia ser o mais desprezível verme na terra por vontade de Deus do que um anjo no céu por sua própria vontade”.

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Nossa vontade seja também a vontade de Deus, esta é a mais alta perfeição que podemos aspirar e para isso é preciso que entreguemos tudo a Ele, porque se assim o fizermos estamos nos dando a Ele por inteiro. “Quem dá esmolas, entrega ao Senhor parte de seus bens, que se sacrifica, lhe dá um pedaço de si próprio. Quem pratica o jejum, oferece seu alimento, mas aquele que lhe oferece sua vontade, se consagra totalmente a Deus. Não reserva nada para si” e por isso pode verdadeiramente dizer a Deus: ‘Meu Deus e meu Senhor, sou pobre, mas eu vos dou tudo o que tenho, tudo o que sou, porque dando-vos minha vontade, nada mais me sobra para vos dar’, e é precisamente isto que o Senhor nos pede quando diz: “Meu filho, dá-me teu coração”(Pr 23, 26), isto é, tua vontade.

Santo Agostinho nos lembra que não podemos fazer oferenda mais agradável a Deus do que lhe dizer: “Tomai, Senhor, posse de mim; eu vos dou toda a minha vontade; dai-me entender o que quereis de mim, e dai-me disponibilidade para realizá-lo”.

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O Caminho da Paz

O bem-aventurado João de Ávila diz que “mais vale um muito obrigado, Meu Deus, na adversidade, do que mil Graças a Deus na prosperidade”, constatanto que é exatamente nas provações que se avalia se estamos mesmo conformando nossa vontade à vontade d’Ele. A perfeição desta virtude consiste nesta união, tanto na prosperidade como na adversidade, na alegria e na tristeza, no sucesso e no fracasso, na saúde e na doença. Quando se trata de sucesso e prosperidade, até os pecadores sabem aceitar gostosamente as disposições de Deus, mas os santos sabem unir sua vontade aos desejos do Senhor, mesmo que contrariem seu amor próprio. Certo e de fé que nada sucede no mundo senão por permissão de Deus, entendendo isso poderemos receber com resignação cristã o que diretamente vem de Suas mãos, independente do que seja, como também é preciso receber o que vem por meio das criaturas, da maldade dos homens: desprezo, calúnias, injustiças, perseguições de toda a sorte.

O Senhor nunca aprova o pecado e a manifestação de injúrias por parte das pessoas, mas se utiliza e até as permite, para delas tirar um bem maior para seus servos e amigos. O Cristão que se exercita no cumprimento desta virtude, não somente se santifica, mas gozará na terra de uma paz impertubável, porque sabe que ”tudo concorre para o bem daqueles que O amam, daqueles que segundo seu desígno, são eleitos”. (Rm 8,28). Diz o livro dos Provérbios: “Nenhum mal atingirá o justo, mas para os ímpios tudo serão males”(Pr 12,21).

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As pessoas que se esforçam por querer o que Deus quer, são muitas vezes humilhadas, mas amam as humilhações; padecem pobreza, mas amam a pobreza, enfim, aceitam com amor o que lhes acontece e levam assim uma vida calma, tranquila e feliz. Vem o frio, vem a chuva, vem o calor, vem o vento, o bom cristão aceita tudo por Deus, porque assim Deus o quer. Jó ao receber a notícia de toda a tragédia de sua vida disse categoricamente: “O Senhor mo deu, o Senhor mo tirou; bendito seja o nome do Senhor”(Jó 1,21), se ele perdeu algo, não culpou pessoas, porque sabia que nada acontece se não for da vontade do Senhor. Jó olhou com o olhar de Deus as provações e tribulações que pesou sobre ele, não como fruto do azar ou do destino, mas como sinal da vontade soberana de Deus.

Santo Agostinho gostava de dizer: “Tudo o que acontece contra nossa vontade, devemos nos convencer que sucede por vontade de Deus”. Esta é a liberdade tão admirável que gozam os filhos do Altíssimo. Liberdade interior que vale mais que todos os tesouros e poderes no mundo dos homens. É aquela paz que os santos experimentaram, “paz que supera todo o entendimento”(Fl 4,7).

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O homem santo permanece na sabedoria como o sol, mas o insensato muda como a lua. O pecador é como ela: hoje cheia, amanhã, minguante; hoje ri, amanhã chora de remorso, de angústia e tristeza; hoje parece tranquilo e sereno, amanhã furioso como o tigre. E por que? Porque seu contentamento depende das coisas boas ou más que lhe acontecem, e, por isso, mudam segundo sopram os ventos favoráveis ou contrários.

O justo é como o sol, sempre sereno e tranquilo, porque sua paz está fundada na conformidade de sua vontade com a vontade de Deus. Podemos gozar aqui na terra de um paraíso antecipado, pois esta paz causa alegria plena, e foi exatamente o que aconteceu aos santos, independente do que passavam; é uma alegria que o mundo não compreende mas que pode e deve estar no coração daquele que tudo se conforma a Deus, e nada, nem a dor, nem a fome, nem a tribulação, haverá de tirar esta paz e impedir que se cumpra de fato a vontade de Deus em sua vida.

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Seja Feita a Vossa Vontade

“Quem poderá resistir à vontade de Deus?”(Rm 9,19) diz São Paulo constatando que ninguém pode impedir que se cumpram os decretos divinos, e que por isso, sábio é aquele se deixa conduzir por Deus em todos as ocasiões de sua vida, e que todos os homens, grandes ou pequenos, ricos e pobres deverão carregar sua cruz. Os que carregam cheios de revolta, sem amor, terão neste mundo uma vida inquieta, vazia, e na outra terão sofrimentos maiores, é o que se lê no livro de Jó: “Deus é sábio de coração, forte e poderoso, quem lhe poderá resistir impunemente?”(Jó 9,4). “Que buscas, ó homem – dizia Santo Agostinho -, buscando bens e mais bens? Ama e busca, o único bem verdadeiro, no qual estão todos os bens. Busca Deus, entrega-te a Ele, abraça a sua santa vontade e viverás sempre feliz, nesta e na outra vida”.

Poderemos encontrar um amigo que nos ame mais que Deus? Todo seu desejo e empenho é de que ninguém se perca, pois sendo Ele por natureza, a bondade infinita, a própria bondade, e sendo próprio dela se comunicar a outros, Ele só deseja nos fazer participantes de seus bens e de sua eterna e infinita felicidade. Depois que Deus ofereceu ao mundo a salvação em Seu Filho Jesus Cristo pela Igreja, poderá negar-nos alguma coisa? “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”(Rm 8,31). Se queres ser agradável ao Senhor e levar neste mundo vida feliz e tranquila, procura estar unido, sempre e em todas as coisas, à vontade do Senhor e permanece fiel à oração nunca se esqueçendo de que todos os pecados, desordens e angústias de tua vida passada tem raiz e fundamento o te haveres separado da vontade de Deus.

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Apega-te de hoje em diante à vontade divina e em tudo que te acontece reza como Jesus Cristo: “Sim, ó Pai, porque isso foi do teu agrado” (Mt 11,26). Quando as humilhações e depressões pesarem, que teu espírito cheio de humildade e de conformidade diga a Deus: “Calo-me, já não abro a boca, porque sois Vós que operais” (Sl 38,10.) A isto deves orientar todos os teus pensamentos e orações, pedindo sempre ao Senhor, na meditação, na comunhão, na visita ao Santíssimo Sacramento, que tudo te ajude a cumprir a vontade d’Ele, dizendo: “Aqui me tendes, Meu Deus, fazei de mim o que quiserdes!” Santa Teresa assim o fazia, oferecendo-se a Deus muitas vezes por dia.

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Assim Na Terra Como No Céu

A enfermidade é a pedra de toque dos espíritos humanos, porque a seu contato se descobre a virtude, o valor que uma alma tem em si. Se suporta a provação sem perturbar-se, sem lamentar-se nem inquietar-se; se obedece ao médico e aos superiores; se permanece tranquila e resignada à vontade de Deus, é sinal que sua virtude é sólida. De nada adiantará a murmuração, o lamento, as queixas, já que sua alma não crescerá em virtude e não fará com isso a santa vontade de Deus, tornando seus tormentos maiores e pouco frutuosos, já que poderia te-los usados para sua própria santificação.

Devemos também resignar-nos à vontade de Deus nas desolações e securas espirituais. Quando uma alma se entrega à vida de justiça e santidade, o Senhor constuma mandar-lhe todo o gênero de sofrimentos e de desolações espirituais. Por que? – Para desprende-la dos prazeres da vida. Para ver se nosso amor é verdadeiro, desinteressado; para testar nossa fé e nossa fidelidade; para ver se procuramos “O Deus das consolações ou as consolações de Deus”. Os santos sofreram muitas desolações e securas espirituais. “Que duro está meu coração, exclamava São Bernardo; não tenho gosto nem para ler, não encontro consolo nem na oração nem na meditação”. Mas eles sabiam que as verdadeiras alegrias, santas e ternas, Deus as reserva para o céu. Esta terra é lugar de merecimento, ao passo que o paraíso é o lugar de prêmio e descanso, de repouso no Senhor.

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Finalmente, devemos nos resignar à vontade de Deus, quando a morte nos visitar, seja quanto ao tempo, ao lugar e ao modo. Viver procurando a Sua vontade em todas as circunstâncias de nossa vida é sinal de grande sabedoria cristã. Quer na vida, quer na morte, quer no tempo, quer na eternidade, minha felicidade está na realização da vontade divina. Assim procediam Jesus, Nossa Senhora e todos os santos, querem exemplos melhores? O temor de perder a Deus nos faz sermos vigilantes e sempre dispostos a jamais perder a graça alcançada.

Quem ama deseja a presença da pessoa amada. O amor requer presença. E como “quem não morre não vê a Deus”, devemos suspirar e não temer, como os santos pela hora da morte libertadora para entrarem no paraíso. Santo Agostinho rezava pedindo a salvação: “Morra eu, Meu Deus, para ir ver-te!”…E São Paulo desabafou: “Desejo partir para estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor”( Fl 1,23). E o profeta Davi, muitos séculos antes do Apóstolo, suspirava: - “A minha alma tem sede do Senhor, do Deus Vivo. Quando poderei chegar, para contemplar a face de Deus”(Sl 41,3). Assim falavam e rezavam todas as almas enamoradas do Senhor da vida.

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Os Bens Espirituais

Esta é a ambição que deves cultivar no coração: amar a Deus o máximo que puderes. Todavia não se deve desejar um grau de amor maior do que aquele que o Deus de amor determinou nos conceder desde toda a eternidade. Disse o bem-aventurado Pe. João de Ávila: - “Não creio que tenha existido um santo que não desejasse ser melhor do que era. Mas isso não lhe tirava a paz e estava sempre contente com os dons recebidos”. Por outro lado, sejamos diligentes e fervorosos em procurar nossa perfeição, usando todos os meios ao nosso alcance. Não devemos permitir jamais que a rotina e a tibieza invadam nossa vida espiritual e religiosa, dizendo: “Se Deus quiser, tudo vai dar certo”…”Deus é Pai e misericordioso”.

Não devemos nos deixar levar pelo desânimo e arrastar fraquesas, sem fazer esforço algum para romper com o egoísmo e os pecados. Sem perder a coragem, o ânimo e a confiança em Deus, com humildade, paciência e firmeza, procura valer-te da oração e dos sacramentos, do Evangelho e da devoção a Nossa Senhora, prosseguindo a caminhada para o alto. Não percas tempo desejando coisas sublimes como êxtases, visões, revelações, arroubos e outros dons sobrenaturais, o que interessa é a graça da oração, o amor de Deus e zelo pela salvação dos irmãos. E se não for do agrado de Deus levar-nos a tão sublime grau de perfeição e glória, tudo bem; o mais importante é o cumprimento de Sua vontade santa e santificadora.

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Conclusão

Em suma, devemos olhar como vindas das mãos de Deus todas as coisas que nos sucedem ou nos podem atingir. Todas as nossas ações sejam orientadas ao único fim de agradar a Nosso Senhor e de cumprir sua santa vontade, ela é o caminho mais seguro e firme que nos leva à justiça e à santidade. Para termos êxito neste caminho deixemo-nos guiar por nossos superiores e pela direção caridosa e sensata de nosso conselheiro espiritual. Esforcemo-nos por servir ao Senhor do modo que Ele deseja. Digo isto para que evitemos um engano muito comum, engano e erro em que muitos ainda estão, perdendo lastimosamente seu tempo precioso, alimentando fantasias, pensamentos tolos e dizendo ainda: “Se eu entrasse para o convento, para a vida religiosa, se me retirasse para um lugar solitário, fora de casa e longe dos amigos e dos parentes, eu me faria santo; eu me dedicaria mais à oração e à penitência!”…Contentam-se com dizer: “Eu me faria santo…eu me faria santo!” E, no entanto, não levam a cruz com amor, paciência e conformidade; não aceitam a vontade de Deus.

Meu amigo, cumprindo à risca a vontade do Senhor, certamente seremos santos, em qualquer estado ou situação de vida. Não queiramos mais do que Deus quer e, então, Ele levará o nosso nome gravado em suas mãos e em seu coração. Tenhamos sempre em mente algumas passagens da Escritura, que nos convidam a entrar no esquema da vontade divina: ”Senhor, que queres que eu faça?”( At 22,10); “Sou vosso, salvai-me”(Sl 118,94); Sim, Pai, eu vos bendigo, porque foi do vosso agrado fazer isto”(Mt 11,26). Mas entre todas as orações, é esta que devemos repetir e viver todo dia e todo momento: ”Seja feita a vossa vontade” – Seja para sempre bendita e louvada a vontade do Senhor, como também a Imaculada e bem-Aventurada Virgem Maria”.
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Referência:

LIGÓRIO, Santo Afonso Maria de Ligório. Conversando Sobre a Vontade de Deus. Editora Santuário: Aparecida. 1986.