quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A Trindade, a Igreja Católica e o Homem.


No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Tudo foi feito por Ele e sem Ele nada foi feito (Jo 1,1). Cristo é o Verbo incriado, o Deus unigênito que assume nossa condição humana e nos oferece a possibilidade de sermos filhos de Deus. Para Ele todas as coisas convergem e por Ele a criação foi ordenada e a humanidade restaurada.

por Ana Maria Bueno Cunha



Literalmente Jesus é o Filho amado do Pai, o Filho único, não é mais um, nem sequer o mais excelente de tantos filhos adotivos, mas com toda propriedade e força, Ele é verdadeiramente o Filho de Deus, o Unigênito, absolutamente distinto pela sua condição divina dos outros homens.

Veio para estabelecer o Reinado de Deus sobre eles, reinado que é justiça, amor, graça, retidão e, sobretudo, vida em abundância e eterna, já que ele não terá fim. Veio para elevar o homem à sua dignidade de filho que havia perdido pelo pecado. O Pai envia o Espírito para manifestar o Filho e este veio para salvar os homens, puro dom de Deus, amor gratuito que não olha as faltas, mas que se compadece e age. A Santíssima Trindade realiza a obra da redenção, realiza o que somente o amor pode realizar e somente Deus, que é amor, o pode fazer.

"Com grande propriedade a Igreja costuma atribuir ao Pai as obras em que brilha o poder, ao Filho as que brilham em sabedoria, ao Espírito Santo as que brilham o amor [...] O Pai, que é o princípio de toda a Trindade é causa eficiente de todas as coisas, da Encarnação do Verbo e da santificação das almas, d'Ele são todas as coisas: d'Ele, porque Pai. Já o Filho,Verbo imagem do Pai é a causa exemplar da qual todas as coisas refletem a forma e a beleza, a ordem e a harmonia; Ele que é para nós o Caminho, a Verdade e a Vida, aquele que reconcilia o homem com Deus, por Ele são todas as coisas, por Ele, porque Filho. O Espírito Santo é a causa última de todas as coisas, porque da mesma forma que a vontade e todas as coisas em geral encontram repouso em seu fim, assim Ele, que é a bondade e caridade que reúne entre o Pai e o Filho ...completa e termina as obras arcanas em vista da salvação do homem; n’Ele são todas as coisas: n’Ele, porque Espírito Santo (Denzinger n.3326 - Encíclica "Divinum Illud Munus - Papa Leão XIII).

Que é homem, Senhor, para cuidardes dele? Que é o filho do homem para que vos ocupeis dele? (Salmo 143, 3-4). Jesus veio ao mundo trazer a Boa Nova, o feliz anúncio. Ele não trouxe ao mundo uma nova doutrina filosófica, nem um projeto de reformas sociais, tampouco a consciência dos mistérios do além. Jesus transformou pela raiz a própria relação do homem com o Eterno, mostrando abertamente a todos a face de Deus, que antes mal se podia vislumbrar. Mostrou o agir e a vontade do Pai e por isto deu a conhecer o pensamento e a vontade de Deus. Sua boa nova fala precisamente desta vocação sublime do homem e da alegria que vem da união com o criador, sim porque o homem só se entende a partir de Deus e só quando vive na relação com Deus é que sua vida é correta, nos diz nosso amado Papa Bento XVI [RATZINGER, Josefh: Bento XVI: Jesus de Nazaré. São Paulo: Planeta, 2007. p. 121]

Jesus veio mostrar que esta união pode ser de cada pessoa com Deus, porque o amor de Deus por cada um é totalmente pessoal e traz em si um mistério de unicidade. Sua pregação não se dirige às massas, ao formigueiro anônimo, mas às pessoas, uma a uma. No meio da multidão, o nível espiritual do homem decai, fica ao sabor dos instintos do grupo. É por isso que Jesus dá importância ao destino dos indivíduos, porque cada homem tem em si um mundo inteiro, este homem que foi criado pelo Pai, com um pé no chão e outro na eternidade. Um indivíduo que tem sede das coisas eternas, que tem um espaço em seu coração que enquanto não for preenchido pela presença, pela inabitação de Deus, não descansa e cumpre seu fim. Onde Deus não está, nada pode ser bom; onde Deus não é visto, o homem arruína-se, e arruína-se o mundo.

"Tão tarde vos amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tão tarde Vos amei! Vós estáveis dentro de mim, mas eu estava fora, e fora de mim Vos procurava; com o meu espírito deformado, precipitava-me sobre as coisas formosas que criastes. Estáveis comigo e eu não estava convosco. Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria se não existisse em Vós. Chamastes, clamastes e rompestes a minha surdez. Brilhastes, resplandecestes e dissipastes a minha cegueira. Exalastes sobre mim o vosso perfume: aspirei-o profundamente, e agora suspiro por Vós. Saboreei-Vos, e agora tenho fome e sede de Vós. Tocastes-me e agora desejo ardentemente a vossa paz" (Santo Agostinho, Confissões).

Jesus quando fala do rebanho, não fala no todo, mas olha por cada ovelha individualmente, elas ouvem sua voz e isso é intimidade, identificação e é exatamente por isso que Jesus ia a todos indistintamente, não levando em conta suas grandes culpas e seu afastamento do Pai que os fazia sofrer, porque se perderam do caminho. Jesus foi o primeiro a falar do Pai que qualquer humano pode encontrar, basta querer e deixar-se conduzir pela voz que o chama em seu íntimo. Mas o Pai tem uma característica maravilhosa que é de ter um amor que não se impõe e que resguarda a liberdade humana. Deus é o dono da casa e convida todo homem a sentar-se à sua mesa. Tem um lugar para cada um que o reconhece como Pai e Senhor de tudo que há e tem os braços abertos na espera de todos, porque para Ele o pecado não constitui mais um problema, Ele o sanou ao enviar seu Filho, mas espera que cada um escute sua voz, o seu chamado permanente e incansável, para que possam ter a vida que Ele oferece gratuitamente. Puro dom, puro amor!

"A verdadeira liberdade é a marca por excelência da imagem de Deus no ser humano. Pois Deus quis deixar o homem nas mãos de sua própria decisão, para que busque a si mesmo o seu Criador e aderindo a Ele, plenamente chegue á plena e a beatífica perfeição” (cf Gaudium et Spes - Igreja no Mundo).

Este homem tem duas opções: - pode rejeitar, ignorar o convite para sua própria ruína e tais atitudes têm origens diversas como a revolta contra o mal do mundo, a ignorância ou indiferenças religiosas, as preocupações das coisas do mundo e com as riquezas, o mau exemplo dos cristãos, as correntes de pensamentos hostis à religião, e finalmente essa atitude do homem pecador que por medo, se esconde diante de Deus e foge diante do seu chamado; ou aceitá-lo, ouvindo a sua consciência, sim, porque no fundo dela, o homem descobre uma lei que ele não se dá a si mesmo, mas à qual deve obedecer. Essa voz que sempre o chama a amar, fazer o bem e a fugir do mal, soa no momento oportuno, na intimidade de seu coração: - faze isto, evita aquilo. O homem tem no coração uma lei inscrita pelo próprio Deus: a sua dignidade está em obedecer-lhe, e por ela é que será julgado; a consciência é o centro mais secreto e o santuário a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir

Jesus convida a todos, e para tanto o Pai se utiliza do seu divino Espírito, este que é Deus, a saber, a maravilhosa terceira pessoa da Santíssima Trindade, porque ninguém pode dizer Jesus é o Senhor a não ser no Espírito Santo. (I Cor 12,3)

Como ouvir este Espírito e como Ele age em nós para nos tornarmos santos e irrepreensíveis diante do Senhor? Ele que é nosso advogado, nosso consolador, o Espírito da Verdade. Ele que é um Deus oculto que não se revela a Si mesmo, mas somente aponta para outro tão sublime e tão importante quanto Ele e que se faz conhecer na pessoa do Verbo? Que atua desde sempre porque também estava junto de Deus na criação, manifestando-se nos profetas e agora na edificação e sustentação da Igreja onde todos poderão encontrar Aquele que Ele revela? Sim! Porque Ele desvenda Cristo, mostra-nos sua face e muito mais, mostra seu coração e sua obra redentora e com total poder e força age nos corações humanos para atraí-los a Cristo Redentor, e muitos, para alegria de Deus e para o seu próprio bem, sucumbem à sua voz para sua própria salvação.

Ele que inspirou as Escrituras, que agiu na Tradição tendo testemunhas tantos Padres maravilhosos, que assiste ao Magistério da Igreja, não o deixando errar, o capacitando a somente mostrar o verdadeiro caminho, que age na liturgia sacramental nos colocando em comunhão com Cristo; Ele que está na oração intercedendo por cada um de nós, que ora por nós e nos conduz a rezar com a Igreja sempre! Que distribui os carismas para que se coloque a serviço desta Igreja maravilhosa onde irradia Cristo no serviço aos irmãos. Como ouvi-lo, onde Ele se encontra, como Ele age? Nela o encontramos e é para Ela e para a pessoa de Cristo sua Cabeça, que o Espírito age impulsionando a todos. Todo homem há de se chegar a Ela para encontrar Cristo e conseqüentemente encontrar a vida.

Quando Jesus é glorificado, juntamente com o Pai, envia o Espírito aos que crêem n'Ele para que possam viver no Cristo e para o Cristo. E por Ele Deus pode fazer novas todas as coisas, Ele que ficará conosco para sempre, permanecerá conosco, nos ensinará tudo e nos recordará o que Cristo nos disse e d'Ele dará testemunho, e sempre levará os homens à verdade e sempre glorificará Cristo, o Senhor de todos.

O Espírito que unge o Filho é o mesmo que o Filho envia juntamente com o Pai para revelá-lo aos homens. E o dia glorioso de sua vinda – chamado Pentecostes - ficará marcado para sempre até que Cristo tenha entregue tudo e todos ao Pai, já que se consumou a vontade divina. Diz as Escrituras, que ao vir sobre os Apóstolos, o Espírito se manifestou em forma de vento e ruído mostrando sua presença e na forma de línguas de fogo distribuídas sobre eles, mostrando que Espírito Santo ilumina a inteligência dos discípulos fazendo-os compreender tudo que o mestre havia dito e ensinado, os inflamando de amor, eliminando os medos e dando-lhes todo destemor para anunciar e falar em Nome de Cristo dá a eles forças e sabedoria para continuar aqui sua obra, conduzindo visivelmente a Igreja, esposa santa do Senhor.

“Repartidas, pois, provinham de uma mesma fonte; para que aprendas que o poder vem do paraclito” (Bíblia de Navarra – São João Crisóstomo Homilia Sobre Atos, p. 67)

“O maravilhoso é que o pentecostes não foi um fato isolado na vida da Igreja. “Temos o direito, o dever de vos dizer que o pentecostes continua. Falamos legitimamente de ‘perenidade’ do pentecostes. Sabemos que cinqüenta dias depois da Páscoa, os Apóstolos, reunidos no mesmo Cenáculo que tinha servido para a primeira Eucaristia e onde depois se realizou o primeiro encontro do ressuscitado, descobrem em si a força do Espírito Santo, que desceu sobre eles, a força d’Aquele que o Senhor tinha prometido repetidamente pelo preço do Seu padecimento numa Cruz; e fortes com essa fortaleza, começaram a atuar, isto é, a realizar o seu serviço (...). nasce assim a Igreja apostólica. Mas ainda hoje – e aqui está a continuidade – a Basílica de São Pedro em Roma e cada templo, cada Oratório, cada lugar onde se reúnem os discípulos do Senhor é um prolongamento do primitivo cenáculo” ( Bíblia de Navarra p. 69 – João Paulo II, Hom. 25 – V – 1980).

Com o sopro do Espírito, nasceu na Igreja, a palavra, o testemunho, o anúncio da salvação em Jesus ressuscitado, e naquele que escuta o anúncio nasceu a fé e com ela uma consciência de nova vida, e para não diminuir este fluxo divino nasceu o apostolado, o sacerdócio. E no meio deste nascimento, aparece um homem, entre tantos, turrão, duro, calejado, mas com um coração grandioso capaz de amar até o fim – Pedro – quem poderia compreender tal mudança num homem assim? Ora! São João Crisóstomo nos ajuda a entender, porque compreendeu a força do Espírito que faz novas todas as coisas. ”Ouvi pregar e discutir com valentia, escreve, entre as massas de inimigos, aquele que pouco antes se assustava diante da palavra de uma simples criada! Esta ousadia é uma prova significativa da Ressurreição do seu Mestre, pois Pedro prega entre homens que zombam e se riem do seu entusiasmo (...). A calúnia ( estão cheios de vinho doce) não perturba o espírito dos Apóstolos; os sarcasmos não diminuem a sua coragem, pois a chegada do Espírito Santo fez deles homens novos e superiores a todas as provas humanas. Quando o Espírito Santo penetra nas almas, é para elevar os seus afetos e para fazer,de almas terrestres e de barro, almas escolhidas e de uma coragem intrépida (...). Admirai a harmonia que reina entre os Apóstolos” Como cedem a Pedro o encargo de tomar a palavra em nome de todos! Pedro eleva a voz e fala à multidão com confiança intrépida. Tal é a coragem do homem instrumento do Espírito Santo (...) igual a um carvão aceso, longe de perder o seu ardor, ao cair sobre um montão de palha, encontra ali ocasião de fazer sair o seu calor, assim Pedro, em contato com o Espírito Santo que o anima, estende à sua volta o fogo que o devora” (Bíblia de Navarra - Atos dos Apóstolos p.74)

Ali com Pedro e com o Espírito Santo que foi derramado, nasceu a esposa de Cristo, ornada com seus dons e com seu poder de levar os homens de novo ao seu encontro. Esta congregação de todos os batizados, unidos na mesma fé verdadeira, no mesmo sacrifício e nos mesmos sacramentos, sob a autoridade do Sumo Pontífice e dos Bispos em comunhão com ele. Esta que reúne o mundo reconciliado com Deus. Sim, ardemos a ela pela fé no Cristo, aceitando sua doutrina sob o olhar e o poder de nosso pastor o Papa.

Deus criou a Igreja de uma forma muito semelhante a criação do homem: Ele desenhou, o Corpo da Igreja na Pessoa de Jesus Cristo. Ele escolheu os seus doze apóstolos, destinados a serem os primeiros Bispos da sua Igreja. Durante três anos, instruiu-os e treinou-os nos seus deveres, e neste mesmo período desenhou também os sete canais,os sete sacramentos, pelos quais fluiriam as almas dos homens as graças que Ele ganharia na cruz. Nos deu dentre eles, a condição de nascermos de novo e perdoando nossas faltas nos fez filhos e membros de Sua Igreja. Cristo é a Cabeça do Corpo: - cada batizado é uma parte viva, um membro desse Corpo, cuja alma é o Espírito Santo

Quando somos batizados, o Espírito Santo toma posse de nós, de maneira muito semelhante àquela com que a nossa alma toma posse das células que se vão formando no corpo. Este mesmo Espírito Santo é por sua vez o Espírito de Cristo, que “se compraz em morar na amada alma do nosso Redentor como no seu santuário mais estimado; é o Espírito que Cristo nos mereceu na Cruz, pelo derramamento do seu sangue [...]. Porém, após a exaltação de Cristo na cruz, o seu espírito derrama-se superabundantemente sobre a Igreja, a fim de que ela e os seus membros individuais possam tornar-se dia a dia mais semelhantes ao seu Salvador” (Pio XII).

“Pelo batismo os homens são efetivamente enxertados no mistério pascal de Cristo: morrem com Ele, são sepultados com Ele e ressuscitados com Ele (Sacrosanctum Concilium n.5). “Note-se também que se trata de um mistério recôndito, que neste exílio terrestre nunca se poderá completamente desvendar ou compreender nem explicar em linguagem humana.[...].É assim que Nosso sapientíssimo Predecessor de feliz memória Leão XIII, tratando desta nossa união com Cristo e da habitação do Espírito Paráclito em nós, muito oportunamente fixa os olhos na visão beatífica, que um dia no céu completará e consumará esta união mística. "Esta admirável união, diz ele, que com termo próprio se chama "inabitação", difere apenas daquela com que Deus no céu abraça e beatifica os bem-aventurados, só pela nossa condição (de viajores na terra)".(55) Naquela visão poderemos com os olhos do Espírito, elevados pelo lume da glória, contemplar de modo inefável o Pai, o Filho e o Divino Espírito, assistir de perto por toda a eternidade às processões das divinas Pessoas e gozar de uma bem-aventurança semelhantíssima àquela que faz bem-aventurada a santíssima e indivisível Trindade.(Carta Enciclica Mistici corporis).

Deus através desta inabitação nos dá sua graça em abundância, nos capacita a buscá-lo, a estarmos aptos e vê-lo um dia, face a face no céu! Esta esperança que nos faz buscar a graça incessantemente, porque infelizmente pelo pecado - pois ainda pecamos -, podemos perdê-la, o que constitui nossa ruína.

Devemos, pois, ter a maior estima pela vida da graça; é uma vida nova, uma vida que nos une e assemelha a Deus, com todo o organismo necessário à sua atividade. E é uma vida muito mais perfeita que a vida natural. Se a vida intelectual está muito acima da vida vegetativa e sensitiva, a vida cristã transcende infinitamente a vida simplesmente racional. Na verdade, esta é devida ao homem, desde que Deus se resolve a criá-lo, ao passo que a vida da graça supera todas as atividades e merecimentos das mais perfeitas criaturas. Pois quem poderia reclamar o direito de ser constituído filho adotivo de Deus, e templo do Espírito Santo, ou o privilégio de ver a Deus face a face, como Ele se vê a Si mesmo? Devemos, pois, estimar esta vida mais que todos os bens criados, considerá-la como tesouro escondido, para cuja aquisição ninguém deve hesitar em vender tudo que possui.

Uma vez que entrou em posse deste tesouro, é mister sacrificar tudo, antes que expor-se a perdê-lo, sendo essa a conclusão que tira o Papa São Leão Magno: “Agnosce, o cristiane, dignitatem tuam, et, divinae consors factus naturae, noli in veterem vilitatem degeneri conversatione redire” – Ninguém mais que o cristão se deve respeitar a si mesmo, não certamente por causa dos próprios méritos, senão por causa desta vida divina de que participa, e por ser templo do Espírito Santo, templo sagrado, cuja beleza não é lícito contaminar: “ Domum tuam decet sanctitudo in longitudinem dierum” (Tanquerey – Natureza da Vida Cristã - p.113).

Neste contexto que o homem tem que se deixar conduzir pelo Espírito, se andamos com Ele, vivamos também para Ele. O Homem em sua vida sabe que terá de lutar contra todas as concupiscências - dos olhos, do mundo e da carne - e sabe que não termina senão com a morte, luta de importância capital, pois nela se joga a vida eterna. O homem velho, este que é carnal, com as tendências más que o batismo não eliminou de nossa alma, sempre tenderá a lutar contra o novo, o homem regenerado, com tendências nobres divinas sobrenaturais que o Divino Espírito produz em nós graças aos méritos de Jesus e à intercessão da Santíssima Virgem e dos Santos.

Esta luta é amenizada com nossos esforços aliada à graça de Deus. A esta que devemos a vitória, mas não podemos jamais nos esquecer que as graças são dadas para o combate e não para o repouso que seria nossa ruína, e que precisamos a todo custo estarmos de pé para não cairmos,lutando contra as paixões que combatem contra nosso ser. Mas se alguém cair e pecar temos diante do Pai um intercessor, justo, santo, capaz, que se compadece e nos restitui a graça de que tanto necessitamos.

Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo Se encontra, sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima e não às da terra. Porque estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, vossa vida aparecer, então também vós aparecereis com Ele na glória. (Col 3,1-4). E então poderás ouvir: ”Muito bem, servo bom e fiel; visto que foste fiel no pouco, eu te confiarei muito; entra no gozo de teu Senhor” (Mt 25,21). Amém.

A Mansidão para com o Próximo.


Da Vida de São Francisco de Sales.

Bispo da Igreja de Cristo


"Trabalhai por adquirir a Suavidade de Coração para com o Próximo".

1. A flor da Caridade.

1. Na sua "Introdução à Vida Devota" trata São Francisco de Sales "da doçura para com o próximo", que ele denomina "a flor da caridade". Com efeito, "aquele que é afável e brando, escreve ele em uma de suas cartas, não ofende a ninguém, suporta e atura de boa vontade os que o maltratam, enfim sofre pacientemente as pancadas e não retribui o mal com o mal. O manso nunca se aItera, mas embebe todas as suas palavras na humildade, vencendo o mal com o bem". Não nos cansemos de contemplar e escutar aquele que, de todos os santos, se aplicou melhor a reproduzir a mansidão e a benignidade de Cristo. Seu exemplo, como os seus ensinamentos, serão para nós uma luz benfazeja. Testemunhas da acolhida de São Francisco de Sales em seu bispado ou folheando a sua correspondência, admirar-lhe-emos a doçura amável e paciente, sempre igual, para com todos. Adquirida a poder de um longo esforço e cuidadosamente cultivada como uma virtude de eleição, alimenta-se ela na caridade do bispo de coração largo e magnânimo. Delicada e bem-humorada, indulgente e compassiva, ela nunca abdica da sua firmeza. Se nos entregarmos ao seu fascínio, ela nos conduzirá, pela renúncia oculta sob o véu do sorriso, bem longe, no caminho da santidade.

2. No bispado de Annecy.

Abeiremo-nos do Bispo de Genebra. A porta está sempre aberta, e para todos os que aí vêm bater. Os criados receberam ordem "de não mandar embora ninguém que lhe quisesse falar; e se, à conta de alguma imperiosa necessidade, fosse preciso despedi-los, exigia que fosse com tanta afabilidade que os visitantes não perdessem a confiança de voltar. Veja essas pessoas de qualidade, com que distinção as recebe. "Como não há ninguém que se preocupe menos das honras do que eu, dizia ele, não há ninguém disposto a dar mais honra aos outros do que eu". Sucedeu-lhe até, certa vez, tratar muito obsequiosamente o criado de um gentil homem; e como lhe chamassem a atenção: "Não sei distinguir muito as pessoas, explicou; só considero uma coisa: que todos trazem o caráter de cristão". De fato, não eram só as pessoas de qualidade que ele acolhia assim, mas todos os que dele se aproximavam; e eram numerosos, às voltas com alguma tribulação, os que acorriam a ele, porque se sabia que todo aquele que se dirigia a ele voltava consolado.

Os de casa o punham de sobreaviso contra as rusticidades e sensaborias desses humildes visitantes. "E nós, que somos?" respondia ele. Mas, diziam-lhe, fazeis mal de sofrer essas incomodidades. E ele: "Que quereis que eu faça? É preciso dar consolação aos que a vêm procurar". Pedia desculpas a uma nobre dama de a ter feito esperar ouvindo ‘todo o tempo que ela quis’, uma pobre mulher que acabava de perder os seus filhos e que desafogava com ele a sua amargura. "Gosto muito dessas pobres aldeãs, confessava ele, são almas tão boas, tão simples, tão cheias do temor de Deus!". Com que doçura abria os braços aos pecadores, aos maiores pecadores! Seus amigos se escandalizavam. "Com toda a certeza, disse-lhe um dia um deles, Francisco de Sales irá para o paraíso; mas quanto ao Bispo de Genebra, não sei; receio muito que sua mansidão lhe pregue alguma peça". – "Ah! respondeu ele, mais vale ter que dar contas de uma doçura demasiada que de uma severidade excessiva. Deus não é todo amor? Deus Pai é o Pai das misericórdias, Deus Filho se denomina um cordeiro, Deus Espírito Santo se mostra sob a forma de uma pomba, que é a mesma doçura. Se melhor coisa houvesse que a benignidade, Jesus no-lo teria dito, e no entanto Ele só nos dá duas lições que aprendemos dele: a mansitude e a humildade de coração. Quereis, então, impedir-me de aprender a lição que Deus me deu, e sois acaso mais sábio que Deus?".Mas, objetavam-lhe, são apóstatas, homens perdidos, indignos de vossas carícias". – "Que pena! respondia ele, então só existimos Deus e eu para amarmos esses pobres pecadores! Querem que eu me esqueça de que são minhas ovelhas, que eu recuse minhas lágrimas àqueles aos quais Jesus Cristo deu todo o Seu sangue; e a quem farei misericórdia, senão aos pecadores? .. Que aquele que gosta do rigor se afaste de mim, porque disso não quero eu ter".

Dessa admirável mansidão São Francisco de Sales nunca se apartava, mesmo quando se lhe apresentavam pessoas arrebatadas pela cólera. Como aquele homem que, considerando-se lesado pelo Bispo, levou cães uivantes é "fez soar a trompa de caça por desprezo e derisão" no pátio do Bispo, depois, subindo até a residência do Monsenhor, injuriou-o e chegou a levar a mão à guarda da espada. Ou ainda esse comendador de Malta que, vexado com o fracasso de um candidato que patrocinava, entrou em casa do Bispo de chapéu na cabeça, lançou-lhe em rosto as mais grosseiras injúrias, depois saiu precipitadamente. Às testemunhas indignadas da cena, o santo se contentou com dizer: "Devo ser-lhe grato por me ter dispensado do trabalho de opor minhas razões aos seus arrebatamentos".Se analisarmos a mansidão de São Francisco de Sales, distinguiremos nela um maravilhoso conjunto dessas pequenas virtudes, modestas e escondidas, que crescem ao pé da cruz, como ele próprio dizia, e que ele estimava tanto: a humildade, a paciência, a cortesia respeitosa e a sincera estima dos outros, todas ligadas entre si pelo sobrenatural amor das almas que o mantinha constantemente, numa perfeita abnegação, ao serviço dos outros. Ao serviço dos seus próprios criados ... "Meu amigo, quando entrei, escrevíeis, disse ele certo dia a um dos seus empregados que, surpreendido com a che¬gada do seu amo, empurrara para longe de si a caneta, o tinteiro e o papel. Que escrevíeis, pois? Não serei bastante de vossos amigos para que me façais essa confiança? O pobre rapaz, todo confuso, apresentou o papel ao bispo, que leu e concluiu: "Não entendeis nada disso". Em seguida, sentou-se e escreveu. "Aqui está, disse ele, copiai isso. Ponde-lhe o vosso nome e enviai-o e vereis que tudo irá bem". Alguns dias mais tarde uma jovem viúva, lisonjeada com a delicadeza com que o empregado lhe pedia a mão, vinha consultar o Bispo que a encorajou ao casamento".

E há coisa ainda melhor. Tinha Monsenhor um criado de quarto que não gostava de se deitar tarde. Mas não gostava tampouco de se deitar cedo, se o seu patrão, para dar conta da sua tarefa, fosse obrigado a prolongar a vigília. Francisco de Sales instava com ele para que fosse descansar, para não se aborrecer com a espera. "Tomais-me, então, por um dormido ou preguiçoso?" resmungava, mal-humorado, o criado. E o Bispo apressava então o seu trabalho, para poupar o seu empregado. Ao levantar, mesma perplexidade. Se o chamava, tinha o aspecto de se queixar de não haver dormido bastante. Se não chamava... "Quem vos vestiu?" pergunta o empregado, que irrompe subitamente no escritório do Bispo, absorvido no seu trabalho, com a impetuosidade de um homem que dormiu até mais não poder, e cujos olhos, empapuçados de sono, suportam mal a viva claridade do dia. – "Fui eu mesmo, responde o Bispo; acaso não sou bastante grande e forte para isso?" - "Será que vos custava tanto me chamar?" ralha o criado. – "Asseguro-vos que vos chamei diversas vezes; cheguei a ir ao vosso leito, e vos encontrei dormindo tão profundamente e com tanta vontade que não vos quis acordar". – "É isso, caçoai de mim!" – "Oh! meu amigo, não o disse por zombaria, mas por pura recreação. Ficai tranqüilo de futuro; prometo-vos que de outra vez, já que o quereis, não me vestirei mais sem vós. Despertar-vos-ei e vos farei levantar".

Ora, quer tenha São Francisco de Sales que se haver com os seus criados, quer receba vísitantes descorteses, quer acolha pobres pecadores, quer console os atribulados, quer converse com pessoas de qualidade ou humildes aldeãs, notou o leitor o tom, a doçura de sua voz? Admirava-se alguém da moderação com que repreendera a um jovem pelo seu mau procedimento. "Eu temia derramar em um quarto de hora, confessou ele, esse pouco de licor de mansuetude que procuro recolher há vinte e dois anos, como um orvalho, no vaso de meu coração". Deliciosa imagem, admirável, ao mesmo tempo, de delicadeza e verdade! Pessoas há que só sabem pronunciar palavras ásperas; é que têm no coração um licor amargo e corrosivo, que envenena todo o seu falar. Nos lábios do Bispo de Genebra, tudo é doçura e suavidade, porque, antes de sair de sua boca, as suas palavras passaram por essa toalha de mansuetude, com a qual se esforçou por encher, como com um orvalho refrigerante, o vaso de seu coração. E nós, a quem acontece acolhermos de maus modos, sermos duros para com os que nos vêm procurar, termos réplicas secas, reflexões descorteses, peçamos a São Francisco de Sales que nos ensine a mansidão .

3 -A doçura de Coração para com qualquer pessoa em particular.

"Não percais nenhuma ocasião, por pequena que seja, diz-nos ele, de exercitar a doçura de coração para com qualquer um". Retenhamos o conselho. E para procurarmos segui-lo com mais fidelidade, tratemos de descobrir porque faltamos à brandura e delicadeza em nosso trato com os outros. Por quê? É que estamos descontentes, - descontentes de nós mesmos e descontentes dos outros, que nos são antipáticos ou importunos. Descontentes conosco mesmos! Bem sabe ele que, com efeito, temos motivo de estar, não raro, descontentes conosco e que isso nos dispõe desfavoravelmente em relação ao próximo. Recomenda-nos, por conseguinte, que nos encha-mos de amor de Deus e, que sejam quais forem as nossas trapalhadas, fiquemos sempre sossegados e tratemos os outros com doçura. "Que vos posso dizer, minha querida filha, senão o que tão amiúde vos tenho dito, que vades sempre seguindo o vosso curso ordinário, o mais que puderdes, por amor de Deus, fazendo mais atos interiores desse amor e ainda exteriores, e sobretudo submetendo quanto puderdes o vosso coração à santa mansidão e tranqüilidade convosco mesma, ainda que tentada ou aflita, ainda que miserável". Essa tranqüilidade para conosco mesmos nos ajudará a suportar sossegadamente o próximo. Porque o próximo nos é por vezes antipático. Com muita freqüência, aliás, não saberíamos dizer porque. Sua fisionomia, sua atitude, o tom de sua voz não nos agradam. Outras vezes, temos bastante razão para achá-lo desagradável: suas manias nos enervam, e nos sentimos ofendidos com as suas esquisitices de caráter, seus desmandos de linguagem, seus modos de agir. São Francisco de Sales apela para o nosso espírito de fé. [i]“Força nos é considerarmos o próximo em Deus; ... após ter pedido o amor de Deus, é sempre necessário pedir o dos próximos, e particularmente daqueles para os quais a nossa vontade não tem nenhuma inclinação".

"Quando será que seremos inteiramente embebidos em doçura e suavidade para com o próximo? Quando veremos as almas de nossos próximos no peito sagrado do Salvador? Ai de nós! Quem olha o próximo fora disso, expõe-se ao risco de não o amar, nem puramente, nem constantemente, nem igualmente; mas lá, nesse lugar, quem o não amaria? Quem o não suportaria? Quem não lhe sofreria as imperfeições? Quem o acharia antipático? Quem o consideraria enfadonho?" "Sobretudo, insiste ele, é indispensável que tenhamos um coração bom, brando e afetuoso para com o próximo, e particularmente quando ele nos molesta e entedia; porque então não temos nada nele para o amar, exceto o respeito do Salvador, o que torna o amor, sem dúvida, mais excelente e digno, na proporção em que é mais puro e isento das condições caducas".Essas vistas sobrenaturais São Francisco de Sales as relembra sempre que nos exorta à mansidão e tolerância fraternas."Trabalhai por adquirir a suavidade de coração para com o próximo, considerando-o como obra de Deus, e que enfim gozará, se assim aprouver à bondade celeste, do paraíso que nos está preparado. E os que Nosso Senhor suporta, nós devemos suportar com ternura, com grande compaixão pelas suas enfermidades espirituais". Impelidos por esses motivos de fé, combateremos fielmente as nossas impaciências, reprimiremos nossos assomos de cólera, triunfaremos das aversões e repugnâncias pelo exercício da mansidão. "Combatei fielmente vossas impaciências não somente a todo propósito mas ainda fora de propósito, a santa bonhomia e mansidão em relação àqueles que vos são mais enfadonhos, e Deus abençoará o vosso desígnio". "Tratai com extrema doçura e caridade com o próximo e as Irmãs, sobretudo com aquelas que, devido à imperfeição de seu espírito, falta de graças naturais ou maus ofícios, vos ocasionarem alguma aversão e aborrecimento".

"Sede boa para com o próximo, e não obstante as revoltas e assomos da cólera, pronunciai em freqüentes ocasiões estas divinas palavras do Salvador: "Eu os amo, Senhor, Pai eterno, a esses próximos, porque vós os amais e mos destes por irmãos e irmãs, e quereis que, como vós os amais, eu os ame também! Amai, sobretudo, essas caras irmãs com as quais a própria mão da Providência divina vos associou e ligou com um vínculo celeste; suportai-as, acariciai-as e ponde-as dentro de vosso próprio coração". "Não duvido que se declarem aversões e repugnâncias em vosso espírito; mas, minha muito querida filha, são ou¬tras tantas ocasiões de exercitar a verdadeira virtude da mansidão; porque é mister fazer bem e santamente, e afetuosamente o que a cada um devemos, embora com repugnância e sem prazer".

Nunca aceitaremos em nosso coração sentimentos de ódio, e seremos bastante senhores de nós mesmos para refrearmos a nossa língua e nos proibirmos queixas e lamúrias sem fim por conta dos que nos teriam censurado. “É preciso, sobretudo, combater o ódio e os descontentamentos para com o próximo, e abster-se de uma imperfeição insensível, mas grandemente nociva, da qual poucos se abstêm; que é que, se nos acontece censurarmos o próximo ou nos queixarmos dele (o que raramente devia acontecer), não acabamos mais, mas recomeçamos sempre e repetimos nossas queixas e lamúrias sem fim: o que é sinal de um coração picado e que ainda não tem saúde verdadeira. Não se lamentam os corações fortes e enérgicos a não ser por grandes razões, e ainda assim, quanto a essas grandes razões, não conservam eles muito ressentimento, ao menos com perturbação e ansiedade". Esse conselho de São Francisco de Sales, empenhar-nos-emos nós em segui-lo, ainda que a nossa caridade não seja retribuída, porque é no Coração de Cristo que se aviva nos nossos a chama do puro e desinteressado amor ao próximo. "O grande bem, a nossa felicidade na perfeição, seria não termos nenhum desejo de sermos amados pelas criaturas. Que vos há de importar que vos amem ou não? E se encontrais ocasiões que vos fazem parecer que não gostam de vós, é necessário que prossigais em vosso caminho, sem vos entreterdes a considerá-las. Devemos amar ao próximo e ter-lhe afeição, a cada um na sua categoria, conforme o desejo de Nosso Senhor, tudo fazendo que esteja ao nosso alcance para contentá-lo e ser-lhe proveitosos, porque esse é o desejo de Deus. E se aprouver a Deus que tenhamos amor de seus corações, é uma grande consolação e bênção de Deus: e se isso não aprouver à sua bondade, deve contentar-nos com o amor do Coração de Nosso Senhor, que é mais do que suficiente".

Mesmo simpático, pode o próximo irritar-nos com as suas importunações, suas opiniões diferentes das nossas e, sobretudo se é de nossa família ou pessoa chegada a nós com as suas omissões e até com os seus testemunhos de afeição. Suas importunações. Não esconde o bispo que "as incursões que os amigos fazem em nossa liberdade, são mavilhosamente molestas; mas, afinal, escreve ele, cumpre suportá-las, depois carregá-las e finalmente amá-las como amadas. contradições". Estamos mergulhados em um trabalho que nos absorve toda a atenção, e vêm distrair-nos com bagatelas; rebaixam a gravidade de nosso espírito a futilidades, retêm-nos sobre questões ociosas."Amai a santa virtude de suportar os outros e a da santa flexibilidade", escrevia São Francisco de Sales; e, com a costumada condescendência, ei-Io que se adapta a todos os estados de alma e se esforça por responder a todas as perguntas. Uma religiosa da abadia de Santa Catarina tem algum escrúpulo de recitar um Pai Nosso para dissipar dores de cabeça: "O Pai Nosso que dizeis para a dor de cabeça não é proibido; mas, meu Deus, minha filha, não, eu não teria coragem de pedir a Nosso Senhor, pela dor que sentiu na cabeça, não ter dores nenhuma na minha. Acaso Ele suportou para que nós não suportássemos? Santa Catarina de Sena, vendo que seu Salvador lhe apresentava duas coroas, uma de ouro, outra de espinhos: "ó, eu quero a dor, diz ela, para este mundo: a outra será para o céu". Quisera empregar a coroação de Nosso Senhor para obter uma coroa de paciência à volta de minha dor de cabeça. .. Vivei toda entre os espinhos da coroa do Salvador e, como um rouxinol, no seu arbusto, cantai, filha minha: 'Viva Jesus’

Uma de suas filhas da Visitação se entristece e se inquieta por não conseguir chorar de devoção."Não vos digo nada, minha boa filha, de vosso coração quanto a não terdes lágrimas. Não, minha filha, porque o pobre coração não é responsável disso, visto como isso não acontece por falta de resoluções e vivos afetos de amar a Deus, e sim por falta de paixão sensível, que não depende em nada de nosso coração, mas, de outra espécie de disposições que não podemos conseguir; porquanto da mesma forma, minha querida filha, que neste mundo não é possível que possamos fazer chover quando queremos, nem impedir que chova quando não queremos que chova, também não está em nosso poder chorar quando queremos, por devoção, nem deixar de chorar também, quando a veemência dos afetos nos empolga. Isso não vêm de nossa falta, o mais das vezes, mas da providência de Deus, que nos quer fazer seguir o nosso caminho por terra e pelo deserto, e não pelas águas, e quer que nos acostumemos ao trabalho e à dureza".

Pergunta-lhe uma dama, cujo nome ignoramos, como afugentar o sono que a entorpece na oração. "Não vos perturbeis absolutamente com os vossos letargos, contra os quais é preciso fazer duas coisas: uma é mudar freqüentemente de posição na oração, como ter as mãos ora cruzadas sobre o estômago, ora juntas, ora estendidas, ora estar de pé, ora de joelhos num joelho, ora noutro, à medida que as sonolências vos chegarem. A segunda coisa é lançar freqüentemente palavras exteriores, de boca, semeadas entre vossa oração mais ou menos cerradamente, conforme vos virdes mais ou menos fortemente atacada de letargos". Isso o mudava inteiramente de madame de Chantal; mas que seja bendita, essa dama desconhecida, por nos ter valido estas linhas que enriquecem de modo tão original a espiritualidade de São Francisco de Sales. Que seja bendita e durma em paz! Eis o que é mais grave. "Nossas irmãs, conta uma religiosa da Visitação de Lyon, gozavam dessa santa alegria que é comumente o quinhão de uma alma que nada tem a censurar-se e que não disputa nada a Deus. É do lado da alegria que o inimigo as tentou. Caiu-se em algumas leviandades no coro durante o ofício. A superiora, a madre Favre, ficou aflita com isso e consultou o bispo. Recebeu esta resposta: "A tentação de rir na igreja e no ofício é má, embora possa afigurar-se apenas uma expansão inocente e ingênua, porque, depois da caridade, a virtude da religião é a mais excelente; na verdade, como a caridade dá a Nosso Senhor o amor que lhe é devido segundo as nossas possibilidades, também a religião lhe confere a honra e a reverência requeridas, e portanto, as faltas que se cometem contra ela são grandemente más. Verdade é que eu não vejo nisso nm grande pecado, porque é contra a vontade; más não deve passar sem alguma penitência. Quando o inimigo não consegue tornar nossas almas Marion, torna os nossos coraçães Robin; e pouco se lhe dá disso, contanto que o tempo se perca, o espírito se dissipe e sempre alguém se escandalize. Mas, reparai, cara filha do meu coração, Não atemorizeis essas boas jovens, porque de um extremo poderiam passar ao outro, o que não convém".

Pode o próximo parecer-nos importuno quando não se compagina com as nossas idéias. Nesse caso, na discussão, os esquentamos e defendemos o nosso parecer com um vigor obstinado. São Francisco de Sales não se obstinava. Tinha por regra "nunca contradizer ninguém, a não ser que houvesse pecado ou dano notável em deixar de fazê-lo". E dizia: "Quando é preciso contradizer alguém e opor a própria opinião à de outrem, é necessário usar de grande brandura e destreza, sem querer violentar o espírito de ninguém, porque não se ganha nada agindo com aspereza. .. O espírito humano pode ser persuadido, não constrangido. Constrangê-lo é revoltá-lo".

Na discussão com os protestantes, logo apaixonada, preferia ele, por isso, a exposição simples da doutrina cristã. Verdade é que infundia nela uma flama tal, um tal acento de amor, que comovia os corações e desse modo inclinava os espíritos a aceitar a verdade. Escrevia a madame de Chantal: "Estando em Paris e pregando na capela da Rainha sobre o dia do juízo (não é um sermão de controvérsia), encontrava-se aí uma senhorita, chamada mademoiselle Perdreauville, que viera por curiosidade; ela ficou nas redes, e com esse sermão fez o propósito de se instruir, e três semanas depois trouxe toda a família para se confessar comigo e fui padrinho de todos eles na confirmação. Vede, no entanto, que esse sermão que não foi feito contra a heresia, respirava, ainda assim, contra a heresia, porque Deus me deu nessa ocasião esse espírito em favor daquelas almas. Desde então tenho dito sempre que quem prega com amor prega bastante contra os herejes, embora não diga uma só palavra de disputa contra eles".

"Deveríeis todas as manhãs, antes de qualquer coisa, pedir a Deus que vos desse a verdadeira doçura de espírito que ele exige das almas que o servem, e tomar a resolução de vos exercitar bem nessa virtude, sobretudo para com as duas pessoas para com quem tendes o maior dever. Deveis fazer essa empresa de bem vos governardes nisso, e de vos lembrardes dela cem vezes ao dia, recomendando a Deus esse bom desígnio; porquanto não vejo que tenhais muito que fazer para bem sujeitar a vossa alma à vontade de Deus, a não ser abrandá-la dia a dia, pondo a vossa confiança em sua bondade. Feliz sereis, filha mui querida, se assim fizerdes, porque Deus habitará no centro de vosso coração e aí reinará em plena tranqüilidade. Mas se por acaso cometerdes alguma falta, não percais a coragem; tornai a vós sem detença, exatamente como se não tivésseis caído. Curta é esta vida, e não nos é dada senão para ganharmos a outra; e bem a empregareis se fordes doce e tratável para com essas duas pessoas com as quais Deus vos colocou". Essa “doçura incomparável com a qual, sem violência alguma, submetia tudo à sua vontade”, causava admiração ao seu amigo, o bispo de Belley. A respeito do bispo de Genebra dizia ele certa vez a um grande e santo prelado: “Ele faz o que quer, e de maneira tão suave e apesar disso tão forte, que nada lhe pode resistir. Caem mil à sua esquerda e dez mil à sua direita. Tudo cede às suas persuasões; atingindo o objetivo ao qual visa e fortemente, não diríeis que ele o atingisse e que está feito”. Responde-lhe outro: “É a mesma doçura que o torna tão poderoso”. Como efetivamente, resistir ao encanto sedutor de tão amável virtude?

São Francisco de Sales bem o sabia. Costumava dizer ”que se atraem mais moscas com um colherada de mel que com cem barris de vinagre”, e que se “O espírito humano se engrila contra o rigor, pela suavidade torna-se submisso a tudo”. Assim resumia sua experiências: ”Bem-aventurados os que são doces: possuirão a terra, ou seja, serão os donos dos corações e todas as vontades estarão nas suas mãos, sobretudo a vontade de Deus”.

São Francisco de Sales: rogai por nós!

Adaptação do livro: As fontes da Alegria - SALES, São Francisco. – A Mansidão para com o Próximo - Tradução: Cônego F. Vidal. Edições Loyola –São Paulo -1978. pgs.155 -191

Crer em Deus?


Por Alfonso Aguilló

Será que Deus Realmente Existe?

Uma constante na história dos Povos.

A noção da existência de Deus povoa a mente humana desde os tempos mais imemoriais. Aparece com insistência em todos os lugares e em todas as épocas, mesmo nas civilizações mais arcaicas e isoladas que se tem notícia. Não existe nem um povo nem período algum da história sem religião. A existência de Deus foi sempre uma das grandes questões humanas, pois apresenta-se perante o homem com um caráter radicalmente comprometedor. O homem procura uma resposta para os grandes enígmas da condição humana, que não importa a época, surge no mais fundo do coração: o sentido e o fim da nossa vida, o bem e o mal, a origem e a razão de ser da dor, o caminho pra alcançar a verdadeira felicidade, a morte, o juízo, a retribuição depois da morte. Tudo aponta para o mistério que envolve nossa existência - as perguntas “de onde vim?" e "para onde vou", rumo àquela força misteriosa que está sempre presente no curso de todos os acontecimentos humanos e que impregna a vida de um íntimo sentido religioso.


Mas, para muitas pessoas, não interessa o que todos os povos fizeram ao longo da história. Não querem fazer a mesma coisa que os outros fizeram no passado.

Não quiz dizer que devamos fazer exatamente as mesmas coisas que os nossos antepassados. As pessoas fazem muito bem em procurar o seu próprio caminho e em ser diferentes dos que as antecederam. O que eu queria dizer é que nunca é supérfluo lançar um olhar sobre a história, ao menos porque isso pode fornecer uma certa perspectiva que sempre projeta luz sobre a vida de cada qual. Já dizia Aristóteles que, se a religião é uma constante na história dos povos, não pode ser senão porque pertence à própria essência do homem. Por mais fortes que tenham sido, às vezes, a hostilidade e a influência secularizante do ambiente, nunca o homem foi totalmente indiferente a questão religiosa. Onde quer que as instituições religiosas tenham sido suprimidas e os fiéis perseguidos de uma maneira ou de outra, as idéias e as obras da religião voltaram a brotar uma e outra vez. As perguntas sobre o sentido da vida, sobre o enígma do mal e da morte, sobre o que acontecerá depois da morte, são perguntas a que nunca se pôde fugir. Deus está na própria origem existencial do homem.

Pode-se Atribuir tudo ao acaso?

- Mas não se pode pensar que o Universo inteiro é, simplesmente fruto do acaso?

Desde os tempos mais remotos, o homem interrogou-se com espanto sobre qual seria a explicação para toda essa harmonia que existe na configuração e nas leis do Universo. Quando o homem de hoje - comenta José Ramón Ayllón - observa a complexidade e perfeição dos processos bioquímicos no interior de uma célula, ou a dos mais gigantescos fenômenos de movimento e transformação das galáxias; quando assoma ao mundo microfísico e propõe leis que tentam explicar os fenômenos que acontecem em escalas de até um bilionésimo de milímetro; ou quando aprofunda na estrutura em grande escala do Universo até os limites de mais de um bilhão de bilhões de quilômetros - contemplando todo esse espetáculo grandioso, cada dia com maior profundidade graças aos avanços da ciência - torna-se cada vez mais difícil sustentar que tudo obedece a uma evolução misteriosa governada pelo acaso, sem que haja nenhuma inteligência por trás.

Onde existe um plano, tem de haver alguém que planeja.

E por trás de uma obra tão complexa e de tais proporções, tem de haver um Criador cujo poder e sabedoria transcendem qualquer medida. Pensar que toda a harmonia do Universo e todas as complexas leis da natureza são fruto do acaso seria como pensar que as andanças de Dom Quixote de La Mancha, escritas por Cervantes, podem ter aparecido íntegras extraíndo as letras ao acaso de uma gigantesca marmita com uma sopa de letras. Recorrer a um gigantesco acaso para explicar as maravilhas da natureza é uma explicação demasiado ingênua.

-Mas não é possível também sustentar, como dizem alguns, que o mundo sempre existiu?

Quando vemos um livro, um quadro ou um edifício, pensamos imediatamente que, por trás dessas obras, deve haver, respectivamente, um escritor, um pintor e um arquiteto. Assim como a ninguém passa pela cabeça pensar que o Quixote surgiu de um imenso monte de letras que caíram por obra do acaso sobre umas folhas de papel e se ordenaram precisamente dessa forma tão engenhosa, também não se pode dizer que aquele edifício "está aí desde sempre", ou que aquele quadro "se pintou a si mesmo", ou coisas desse tipo. Não podemos seriamente sustentar que o mundo "se fez soznho" ou que " se criou a si próprio". É uma incompatibilidade absolutamente evidente.

Tem de Haver Uma causa Primeira?

"- Não conheço nenhum oleiro - disse o vaso de barro - Nasci por mim mesmo e sou eterno."- “Ficou louco, coitado. O barro subiu-lhe à cabeça."

Assim expressava Franz Binhack, na sua obra Topfer und Topf (“Oleiro e vaso"), com um certo toque de humor, o que há de ridículo na atitude de quem fecha os olhos ante a inevitável pergunta sobre a origem do primeiro ser. Se de uma torneira sai água, é porque existe um encanamento que transporta esta água. E essa tubulação recebe-la-á de outra, e essa, por sua vez, de outra. Mas, em algum momento, os canos vão acabar e chegaremos ao reservatório. Ninguém afirmaria que sempre há água na torneira simplesmente porque os canos tem um comprimento infinito.

"Do nada - afirma Leo J.Trese - não podemos obter coisa alguma. Se não temos bolotas, não podemos plantar um carvalho. Sem pais não há filhos. Portanto se não existisse um Ser que fosse eterno (isto é um Ser que nunca tivesse começado a existir) e onipotente (capaz de fazer do nada alguma coisa), não existiria o mundo, e nós também não existiríamos. "Um carvalho origina-se de uma bolota, mas as bolotas crescem nos carvalhos. Quem fez a primeira bolota ou o primeiro carvalho?"Alguns evolucionistas diriam que tudo começou a partir de uma massa informe de átomos. Está bem, mas... quem criou essa massa de átomos? De onde procediam? Quem foi que dirigiu a evolução desses átomos, conforme leis que podemos descobrir, e que evitaram um desenvolvimento caótico? Alguém teve de fazê-lo. Alguém que, desde toda a eternidade, tenha possuído uma existência independente. Houve um tempo em que não existiu nenhum dos seres deste mundo, cada um deles deverá sempre a sua existência a outro ser. Todos, tanto vivos como os inertes, são elos de uma longa cadeia de causas e efeitos. Mas essa cadeia tem de chegar até uma causa primeira. Pretender que um número infinito de causas pudessem dispensar-nos de encontrar uma causa primeira seria a mesma coisa que afirmar que um pincel pode pintar sozinho


Há quem diga que é suficiente saber que os seres simplesmente existem. Que pouco importa saber de onde procedem e que, portanto, não é preciso pensar mais nisso.

Então estaríamos perto de dizer que não se deve pensar. Porque renunciar a uma parcela tão importante do pensamento equivale a deixar de lado uma parcela importante da realidade. Se vemos um paletó pendurado em uma parede (o exemplo é de Frank Sheed), mas não reparamos que está sustentado por um cabide, e isso nos leva a pensar que os paletós desafiam as leis da gravidade e se penduram das paredes pelo seu próprio poder, então não viveríamos no mundo real, mas num mundo irreal que nós mesmos forjamos. Da mesma forma, se observamos que as coisas existem e não vemos com clareza qual é a causa pela qual existem, e isso nos leva a negar ou a ignorar essa causa, estaríamos saindo do mundo real.

Um Pequeno "Drible" Dialético

Mas alguns filósosfos afirmaram que a relação causa-efeito não é senão uma dialética alheia à natureza, na qual os fenômenos se repetem de maneira incessante sem que essa relação de causa e efeito exista senão no nosso entendimento.

Não parece que a noção de causa seja uma simples elucubração humana. É algo que comprovamos todos os dias e que a ciência não cessa de invocar. "Se vejo umas crianças - observa André Frossard - a experiência diz-me que não se fizeram por si mesmas. Talvez um filósofo afirme que não posso demonstrá-lo, mas também ele se veria em apuros para demonstrar que estou errado se afirmo que surgiram de umas couves". Rejeitar dessa maneira a relação causa-efeito parece um atentado contra o bom senso. Na realidade, os que pensam assim, depois, na vida diária, não são consequentes com essa teoria. Sabem, por exemplo, que se meterem o dedo numa tomada, receberão o choque correspondente , e por isso procuram não fazê-lo. Sabem que a relação entre esse ato e o choque elétrico não é uma "dialética alheia à natureza" que "só exista no seu entendimento"…até porque o seu entendimento não está nos dedos. Quando - negando a evidência das causas - se diz que tudo o que existe é fruto do acaso, renuncia-se explicitamente ao uso da razão. A fé cristã confia totalmente na reta razão, mediante a qual se pode chegar ao conhecimento de Deus. Para os que creêm, a razão é inseparável da fé e deve ser respeitada como o que é, ou seja, um dom divino.

Mas se se pode chegar a Deus com as luzes da razão, para que é necessária a fé?

Não é difícil chegar a reconhecer que Deus existe. Acabamos de ver alguns raciocínios que nos levam a Ele, e veremos ainda muitos mais. De qualquer modo, nem sempre esse trabalho é fácil. Além de exigir - como acontece com todo o conhecimento - uma maneira reta de pensar e um profundo amor à verdade, é preciso levar em conta que, em muitos casos, nós, os homens, renunciamos a continuar a discorrer racionalmente, quando que contrariam os nossos egoísmos ou as nossas más paixões. Penso que esta pode ser uma das razões pelas quais Deus se adiantou e, dando-se a conhecer mediante a "Revelação," como sabemos, nos estendeu a mão. Assim, além disso, todos os homens podem conhecer todas essas verdades de modo mais fácil, com maior certeza e sem erros.

Um Conto de Fadas para Adultos

- Muitas pessoas dizem que a teoria do big bang, como tal, é perfeitamente a auto-criação do Universo, e portanto não precisa de Deus para explicar seja o que for.

O big-bang e a auto-criação do Universo são duas coisas bem diferentes. A teoria do big-bang, como tal, é perfeitamente conciliêvel com a existência de Deus*. (*Essa teoria diz que todo o universo se teria originado de um ponto inicial de massa e energia quase infinitas, mas a teoria nada afirma sobre a origem deste ponto inicial.) Mas, quanto à teoria da auto-criação - que sustenta, mediante explicações mais ou menos engenhosas, que o Universo se criou a si próprio do nada - seria preciso objetar duas coisas: Primeiro, que desde o momento em que se fala de criação a partir do nada, estamos já fora do método científico, já que o nada não existe e, portanto, não é possível aplicar-lhe o método científico. E, segundo, que é necessária muita fé para pensar que uma massa de matéria ou de energia possa ter-se criado a si mesma. Tanta fé, que o próprio Jean Rostand - para citar um cientista de reconhecida autoridade mundial nesta matéria e, no seu tempo, pouco suspeito de simpatia pela doutrina católica - chegou a dizer que essa história da auto-criação é como "um conto de fadas para adultos".

Afirmação que André Frossard reforça ironicamente dizendo que "se deve admitir que algumas pessoas adultas não são muito mais exigentes que as crianças a respeito dos contos de fadas[...]:as partículas originais, sem qualquer impulso nem direção exteriores, começam a associar-se, a combinar-se aleatoriamente entre elas para passar dos quasares aos átomos e dos átomos a moléculas de arquitetura cada vez mais complicada e diversa, até produzirem, depois de milhares de milhões de anos de esforços incenssantes, um professor de astrofísica de óculos e bigode. É o supra-sumo das maravilhas. A doutrina da Criação não pedia senão um milagre de Deus. A da auto-criação exige um milagre a cada décimo de segundo". Um milagre contínuo, universal e sem autor.

Evolução: está certo, mas a partir do quê?

- Há quem entenda a história do Universo como a evolução dos organismos vivos que emergiram da matéria e alcançaram um certo grau de complexidade...

Para os que defendem essas teorias, parece que o mundo é apenas um questão de geometria extraordinariamente complexa. No entanto, por mais que algumas estruturas se compliquem, e por mais que se admita uma vertiginosa evolução da sua complexidade, essa evolução da substância material depara com pelo menos duas objeções importantes. A primeira é que a evolução nunca explicaria a origem primeira dessa matéria incial. A evolução transcorre no tempo; tem por pressuposto a Criação. A segunda é que a passagem da matéria para a inteligência humana é um salto ontológico - um salto no modo de ser de cada coisa - que não se pode dever a uma simples evolução fruto do acaso. Por muito que a matéria se desenvolva, não é capaz de produzir um só pensamento que lhe permita compreender-se a si mesma, do mesmo modo que - como exemplifica André Frossard - nunca veríamos um triângulo que, depois de um extraordinário processo evolutivo, notasse de repente, maravilhado, que a soma dos seus angulos internos é igual a cento e oitenta graus.

- Há algum inconveniente em que um católico acredite na evolução das espécies? Muitos dizem que não faz sentido que a Igreja continue relutante em aceitar um dado que está provado cientificamente.

Talvez não estejam bem informados, porque a Igreja Católica não tem inconveniente algum em aceitar a evolução do corpo humano a partir de um primata. Para conciliar a doutrina da evolução humana com a teologia católica, é suficiente admitir que Deus agiu num momento determinado sobre o corpo do primeiro casal, infundindo-lhes uma alma humana. Deus pôde, com efeito, ir formando o corpo do homem a partir de alguma espécie de primata em evolução, de acordo com um projeto desenhado por Ele, e quando esse primata alcançou o grau de desenvolvimento requerido, dotou-o de alma humana. A Igreja não tem nenhum inconveniente em que um católico aceite essa hipótese, se a considera digna de crédito.


- Então um católico não tem de acreditar ao pé da letra no relato da Criação que aparece no Gênesis?

Não é preciso acreditar ao pé da letra. O relato do ato da Criação que o Gênesis oferece, não pretende seu uma explicação científica sobre a origem do ser humano. As descrições de fenômenos físicos ou naturais que encontramos na Bíblia não pretendem proporcionar-nos diretamente ensinamentos em matéria científica, e os detalhes contidos nessas descrições também não afetam diretamente a doutrina da salvação. Observa-se perfeitamente que a narrativa do Gênesis é um esquema teológico, que não pretende ser histórico, mas proporcionar uma visão geral das verdades mais fundamentais, a fim de deixar claro que o mundo procede somente do poder de Deus. O modo como o processo se levou a cabo é uma questão que a Bíblia deixa completamente em aberto. O autor do Gênesis não se propunha dar aulas de astrofísica ou de biologia molecular. Dá a entender que todo o homem, e o homem todo, em corpo e alma, vem de Deus, depende de Deus e foi criado por Deus; que o Universo não é auto-suficiente e que Deus é o Criador e Senhor de todas as coisas. As aparentes divergências que parecem observar-se entre algumas narrativas bíblicas e os conhecimentos científicos atuais devem-se ao sentido matafórico ou figurado com que, em alguns casos, os autores sagrados escreviam, ou então a um modo diferente de expressar-se, de acordo com as aparencias sensíveis ou a maneira de falar do povo da época.

Deus pode caber na minha cabeça?

A grandeza de um homem está em saber reconhecer sua pequenez - Blaise Pascal

Reconhecer as nossas limitações

Se um aluno do colegial vai um dia à Universidade e assiste a uma aula de doutorado que trata de uma matéria especialmente complexa, não deve estranhar que perca com frequência o fio da explicação (se é que em algum momento chegou a tê-lo nas mãos). Pensará que isso é natural, já que a matéria está muito acima da sua compreensão. Algo de semelhante acontece com a compreensão da natureza de Deus que o homem pode alcançar. Se o estudante do nosso exemplo dissesse que tudo o que ouviu nessa aula é mentira pela simples razão de que ele não entendeu nada, seria preciso fazê-lo ver - educadamente, sem dúvida - que não é a sua capacidade de entender as coisas que faz com que elas sejam verdadeiras. A verdade não tem obrigação de ser correspondida inteiramente por todas as pessoas. E isto não quer dizer que as pessoas sejam tolas, nem que se deva renunciar a razão, mas apenas que é preciso reconhecer que temos limitações. Por isso, disse Pascal e era um grande cientista – que a "grandeza de um homem está em saber reconhecer a sua pequenez".Para voltarmos ao nosso exemplo, o professor de pós-graduação talvez possa tornar a matéria mais acessível, com exemplos ou simplificações mais ou menos felizes que ajudem o aluno a entende-la. E também poderá refutar, com maior ou menor acerto pedagógico, as objeções que o rapaz levante. Mas não conseguirá faze-lo entender todas as aulas perfeitamente e até as últimas consequências. Porque está em outro nível.

Pensar que alguém é tão inteligente que possa abarcar Deus por completo é de uma ingenuidade tão espantosa como presunçosa. É, mais ou menos, como se o aluno do nosso exemplo pensasse que entendeu perfeitamente tudo o que escutou na aula (neste caso provavelmente teria entendido algo muito diferente do que realmente foi explicado). Se alguém diz que Deus não existe porque não cabe por completo na sua cabeça, será preciso fazê-lo considerar que, já não seria Deus. E isso não tem nada a ver com a possibilidade de a razão humana demonstrar a existência de Deus. A razão é capaz de chegar a Deus, mas demonstrar a existência de Deus não é compreender inteiramente o ser de Deus. Para crer, é preciso reconhecer humildemente - e sei que é difícil ser humilde - as limitações da razão humana. Assim poderemos aproximar-nos de uma realidade que é muito superior a nós.

Mas Deus não poderia ter feito alguma coisa para que O conhecêssemos mais facilmente?

Penso que já fez muito, uma vez que se “Revelou”. Talvez seja o homem quem precise fazer alguma coisa mais. Além disso, quem somos nós para prescrever a Deus o modo mais adequado de Se dar a conhecer? Deus não quis obrigar o homem a reconhecê-lo forçosamente. A razão humana pode demonstrar a existência de Deus e conhecer bastante sobre a Sua natureza. Mas não pode chegar por si só a alcançar muitas outras verdades relativas à natureza de Deus. O fato de o homem não conseguir captar algumas verdades não tem porque por em causa essas verdades. Como explica Mariano Artigas, isso também acontece continuamente nas ciências. Por exemplo, ninguém duvida da existência das partículas sub-atômicas, apesar de chocarmos com dificuldades - que, por enquanto são insolúveis - quando tentamos explicar a sua natureza. Mas essas dificuldades não impedem que tenhamos muitos conhecimentos bem comprovados sobre essas partículas e que possamos utilizá-las como base de algumas tecnologias muito avançadas. A fé é compatível com a razão, mas é difícil para o homem chegar a compreendê-la em profundidade com o auxílio exclusivo da razão. Por isso, a “Revelação” constitui uma grande ajuda no laborioso caminho da inteligência humana.

Crer em Alguma Coisa Que Não Estou Certo que Exista?

Há homens que se declaram agnósticos porque dizem que ninguém conseguiu demonstrar-lhes de forma convincente que Deus existe. Dizem que não podem rezar a um ser de quem não sabem com certeza se existe, porque seria como lançar ao mar mensagens numa garrafa, sem saber se alguém as apanhará.No entanto, os náufragos em ilhas desertas lançavam ao mar garrafas com mensagens dentro; pelo menos, é o que se conta. E imagino que o faziam porque confiar em alguma coisa que não é uma certeza esmagadora e incontestável não tem por que ser uma atitude absurda. Absurdo seria ficar sem fazer nada por não saber com toda a certeza de alguém chegará algum dia a encontrar a garrafa.

Sim, mas eles optam por não arriscar nada, e por isso preferem não crer em nada, já que não há nada claramente demonstrado.

Com esse modo de pensar, seria preciso deixar de acreditar até que se é filho dos próprios pais - peço desculpas pelo exemplo um pouco contundente - como a única solução segura para evitar o risco de amar pais falsos. A maioria de nossos conhecimentos procede da fé humana, isto é, do testemunho de outras pessoas e, na maioria dos casos, não podemos comprová-los. E isso inclui dados tão simples como quem são os nossos pais, o nosso lugar e data de nascimento, a maior parte da geografia e da história, e um lomguíssimo etcétera. No entanto costumamos acreditar que o remédio que tomamos é o que está indicado na caixa, ou que as placas de sinalização das estradas nos vão mandar ao lugar indicado, ou que realmente existe aquele país distante que aparece nos mapas e do qual a imprensa tanto fala, mas que nunca visitamos. Porque isso é o que é sensato. Passamos a vida inteira - todos, também aqueles que dizem não acreditar em nada - tendo fé em muitas coisas, correndo riscos, confiando no que não está claramente provado. Fé quer dizer crédito ou confiança. Se quizéssemos demonstrar tudo, acabaríamos por ver-nos metidos num processo infinito em que a desconfiança absoluta limitaria drasticamente os nossos movimentos e atos, e a nossa vida ficaria reduzida ao pequeníssimo âmbito daquilo que cada qual pode compreender pessoalmente. Por isso, o fato de a fé em Deus exigir uma atitude de aceitação é também algo muito sensato. O que não seria sensato é o ceticismo absoluto, ou pedir um desproporcionado grau de segurança. E menos sensato ainda se só se exigisse isso em questões de religião ou de moral. A própria amizade, sem ir mais longe, requer o exercício da fé e da confiança, já que, sem elas, nenhum amigo seria digno desse nome. Assim o entendia um pensador da Antiguidade, que se perguntava: "Como posso afirmar que não se deve acreditar em nada sem conhecê-lo diretamente, se, no caso de não se acreditar em nada que a razão não possa demonstrar com toda a certeza, não existiriam nem a amizade, nem o amor".

Acreditar em alguma coisa que me complica a vida?

- Por vezes, a resistência a crer em Deus é, sobretudo, uma resistência da vontade para evitar complicações morais .

Se, dúvida, e por isso muitos agnósticos se amparam na desculpa de que não se pode conhecer com certeza a existência de Deus, para assim viverem na prática como se Ele não existisse. E resolvem as suas dúvidas intelectuais apostando, na prática, pela não existência de Deus, como uma segurança e assumindo uns riscos difíceis de conciliar com os raciocínios de que partem.* (A palavra agnóstico, em grego: agnosceo significa "não sei"). Essa atitude pode ser muito atraente para aqueles que procuram eludir algumas das obrigações morais que a existência de Deus traz consigo, pois lhes permite evitar o incômodo de refutá-las. Dessa maneira, o seu agnosticismo acaba por ser uma simples fachada intelectual que esconde alguns posicionamentos que talvez pareçam comodos, mas são, sem dúvida, muito pouco consistentes. Há outros - a quem talvez devessemos elogiar inicialmente pela sua sinceridade - que afirmam crer em Deus, mas preferem colocá-lo entre parênteses porque, por algum motivo mais ou menos inconfessado, não tem interesse em ver afetada a sua vida. É o indiferentismo, que, embora possa ser efetivamente sincero, não parece um exemplo de coerência. Outros professam uma espécie de agnosticismo estético, e fazem, equilíbrios difíceis entre o ceticismo e a busca da aprovação social, ou entre o medo ao compromisso e o medo ao "que dirão". Parecem pensar que a incredulidade é uma prova de elegância e sabedoria, e talvez seja por isso que chegam ao extremo de fingi-la. Em qualquer caso, são atitudes nascidas de decisões pessoais, que podem ser tomadas com toda a liberdade, certamente, mas que com frequência, não se baseiam numa argumentação intelectual muito rigorosa. A argumentação costuma vir depois da decisão, para justificá-la.

Agnosticismo e Cálculo de Probabilidades.

- Outros - e parece que o dizem honestamente - garantem que, se alguém os convencesse de que Deus existe, se converteriam. Mas que não podem forçar um fé que não possuem. Chegam a dizer que gostariam de ter a sorte de possuir essa fé que faz os outros tão felizes.

Poderíamos inverter-lhe o raciocínio: que sejam eles a demonstrar que Deus não existe ou não pode ser conhecido, e, então, seria você que se converteria à posição deles.

- Penso que uma pessoa dessas começaria por dizer que não tem nenhum interesse em converter-me, como parece que eu tenho.

Acho que todo ser humano que esteja realmente persuadido de conhecer alguma verdade deve ter o desejo de compartilhá-la com os outros. Procurar que os outros se aproximem daquilo que uma pessoa considera verdadeiro - respeitando-lhe sempre a liberdade, sem dúvida - é algo positivo.

Nesse caso, o meu interlecutor diria que, como também não se pode demonstrar que Deus não existe, mas a Sua existência oferece dúvidas, parece-lhe razoável apostar por qualquer das duas opções. Mas ele, na prática, vive como se Deus não existisse. Em última instância, vive de acordo com alguma coisa que não pode demonstrar. No fundo, tem fé em alguma coisa, na não-existência de Deus, mas com agravante de que, se efetivamente, no fim, vier a acontecer que Deus existe - como descobriremos pessoalmente dentro de não muito tempo - o mais provável é que ele tenha saído perdendo nessa aposta e pelos séculos dos séculos.

Mas dirá que, se no fim acontece que Deus não existe, é voce quem perde, e Ele, pelo contrário, sai ganhando.

Não é tão seguro assim afirmar que aqueles que vivem à margem de Deus levam uma vida mais feliz. Eles próprios reconhecem muitas vezes – você mesmo o comentava atrás - que até gostariam de ter a fé que torna os outros tão felizes. E é lógico que assim suceda, já que ter fé é sempre servir um valor mais elevado e todo o homem - queira ou não - é servo das coisas em que põe a sua felidade. De modo que,se no fim da vida se comprova que Deus existe, o agnótico terá apostado no erro de maior transcendência que pode haver. E mesmo que Deus não existisse, o que é ele sairia ganhando? Portanto, até por esta razão de probabilidade, parece bastante razoável apostar na fé. Pascal resumia-o assim : Prefiro errar crendo num Deus que não existe a errar não crendo num Deus que existe." Porque - acrescentava com o seu habitual pragmatismo de cientista – se depois não há nada, evidentemente nunca o saberei, quando me afundar no nada eterno; mas se existe alguma coisa, se existe Alguém, terei que prestar contas da minha atitude de rejeição".Por outro lado, se Deus existe, tem de haver uma religião, pois a religião é própria da relação natural entre qualquer ser racional e aquele que o criou. Assim como é natural que um filho se relacione com os seus pais, pela simples razão de que o trouxeram ao mundo, o natural no homem é manter um relacionamento com o seu Criador, e pode-se dizer que isso é religião.


Fonte: É Razoável Crer? Questões Atuais sobre a Fé – AGUILÓ Alfonso – Tradução: Roberto da Silva Martins - Editora Quadrante - São Paulo 2006 - Coleção Vértice; Pags.8-25

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Sobre a Fé - São Tomás de Aquino


O primeiro bem necessário para o cristão é a fé. Sem a fé ninguém pode ser chamado de fiel cristão.

A Fé produz quatro bens:

1- É a união da alma com Deus. Pela fé realiza-se uma espécie de matrimônio entre a alma e Deus, conforme se lê no Profeta Oséias: Desposar-te-ei na fé (2,20). Quando o homem é batizado, deve, em primeiro lugar, confessar a fé ao responder à pergunta – Crês em Deus? - porque o Batismo é o primeiro Sacramento da Fé. O Senhor mesmo disse: O que Crer e for batizado será salvo.

O Batismo sem fé é destituído de valor. Deve-se, portanto, ter por certo que ninguém pode ser aceito por Deus sem a fé. Sem a fé é impossível agradar a Deus, diz São Paulo (Heb 11,6). Santo Agostinho, comentando este texto da carta aos Romanos Tudo o que não procede da fé é pecado (14,23), assim se expressa: Onde não existe o conhecimento da verdade eterna e imutável, a virtude é falsa mesmo nas pessoas retas

2- Pela fé é iniciada em nós a vida eterna. E ela não consiste senão em conhecer a Deus, conforme lê-se em São João: ”Esta é a vida eterna que Vos conheçam como único Deus verdadeiro” (17,3). Esse conhecimento de Deus inicia-se aqui pela fé, mas é completado na vida futura, quando O conhecemos tal como é. Por isso lê-se na carta aos Hebreus: ”A fé é a substância das coisas que se esperam (11,1). Ninguém alcançará a bem-aventurança eterna, sem que tivesse primeiramente o conhecimento da fé, pois está escrito: Bem-aventurados os que não viram e creram (Jo 20,29).

3- O terceiro bem consiste: A vida presente é orientada pela fé. Para que o homem viva bem, é mister que conheça os princípios do bem viver. Se pelo próprio esforço devesse aprender esses princípios, ou não chegaria a conhece-los, ou só os poderia conhecer após um longo tempo. Mas a fé ensina todos os princípios do bem viver. Ora, ela ensina que há um só Deus, que Deus recompensa os bons e pune os maus, que existe uma outra vida, e outras verdades semelhantes. Esse conhecimento é suficiente para nos levar a praticar o bem e evitar o mal, pois diz o Senhor: o meu justo vive da fé.

Eis porque nenhum filósofo antes de Cristo, apesar do grande esforço intelectual que despendia, pôde chegar ao conhecimento de Deus e dos meios necessários para alcançar a vida eterna, como, depois do advento de Cristo, qualquer velhinha o pôde pela fé. Eis porque Isaias prefetizou esse advento nestes termos: Encheu-se a terra da ciência de Deus.

4- Pela fé vencem as tentações, conforme lê-se nas Escrituras: Os santos pela fé venceram os reinos (Hb 11,23). As tentações procedem do diabo, do mundo, ou da carne. O diabo tenta para que tu não obedeças nem te submetas a Deus. Ora, é pela fé que o repelimos, porque é pela fé que conhecemos que há um só Deus e que só Ele devemos obedecer. Por isso escreveu São Pedro: o diabo, vosso adversário, está rondando para ver se devora alguém: a ele deveis resistir pela fé (1 Pe 5,8).

O mundo nos tenta, seduzindo-nos na prosperidade, ou nos atemorizando nas advesidades. Mas ambas as tentações, vencemo-las pela fé. Ela nos faz crer numa vida melhor, e, por isso, desprezamos as prosperidades do mundo e não tememos as adversidades. Eis porque está escrito: Esta vitória que vence o mundo, a vossa fé (1 Jo 5,4). Além disso, a fé nos ensina a acreditar que há males maiores, isto é, que existe o inferno.

A carne nos tenta, conduzindo-nos para os deleites momentâneos da vida presente. Mas a fé nos mostra que por eles, se a eles indevidamente aderimos, perderemos os deleites eternos. Por isso nos aconselha o Apóstolo: Tende sempre nas mãos o escudo da fé (Ef 6, 16).

Por essas razões fica provado que é muito útil ter fé.

Mas pode alguém objetar: é insensatez acreditar naquilo que não se vê: não se deve crer senão naquilo que se vê. Respondo a esta objeção com os seguintes argumentos:

Primeiro: É a própria imperfeição da nossa inteligência que desfaz essa dúvida. Realmente, se o homem pudesse por si mesmo conhecer perfeitamente as coisas visíveis e invisíveis, seria insensanto acreditar nas coisas que não vemos. Mas o nosso conhecimento é tão limitado que nenhum filósofo até hoje conseguiu perfeitamente investigar a natureza de uma só mosca. Conta-se até, que certo filósofo levou trinta anos do deserto para conhecer a natureza das abelhas. Ora, se a nossa inteligência é assim tão limitada, é muito maior insensatez não querer acreditar am algo, a respeito de Deus, a não ser naquilo que o homem pode conhecer d’Ele por si mesmo. Lê-se no livro de Jó: Eis como Deus é grande e ultrapassa a nossa ciência.

Segundo: Considerando, por exemplo, um mestre que assimilou uma verdade e um aluno pouco inteligente que a entendeu diversamente, porque não a atingiu. Ora, esse aluno pouco inteligente deve ser considerado como bastante tolo. Sabemos que a inteligência dos Anjos ultrapassa a do maior filósofo, como a deste, a inteligência dos ignorantes. Portanto seria tolo o filósofo que não acreditasse nas coisas ditas pelos Anjos. Ele seria muito mais tolo se não acreditasse nas coisas ditas por Deus. Lê-se, a esse respeito, nas Escrituras: Foram-te apresentadas muitas verdades que ultrapassam a inteligência do homem (Ecle 3,25).

Terceiro: Se o homem não acreditasse senão nas coisas que vê, nem poderia viver neste mundo. Pode alguém viver sem acreditar em outrem? Como pode tu saber que este é teu pai? É , pois, necessário que o homem acredite em alguém, quando se trata de coisas que por si só não as pode conhecer. Ora, ninguém é mais digno de fé do que Deus. Por conseguinte, os que não acreditam nas verdades da fé não são sábios, mas tolos e soberbos. São Paulo refere-se a esses como sendo – soberbos e ignorantes… (1 Tim 6,4). Por isso São Paulo diz de si: Sei em quem acreditei e tenho certeza… (2 Tim 1,12). Tudo isso é confirmado no livro do Eclesiático: Vós que temeis o Senhor, acreditai n’Ele (2,8).

Quarto: Pode-se ainda responder dizendo que Deus comprova as verdades de fé. Se um rei enviasse suas cartas com o selo real, ninguém ousaria dizer que aquelas cartas não eram do próprio rei. É claro que as verdades nas quais os Santos acreditaram e que nos transmitiram como sendo de fé cristã, estão seladas com o selo de Deus. Tal selo é significado por aquelas obras que uma simples criatura não pode fazer, isto é, pelos milagres. Pelos milagres Cristo confirmou as palavras dos Apóstolos e dos santos.


Podes, porém, replicar, dizendo que ninguém viu esses milagres. É fácil responder esta objeção. É conhecido que todaa humanidade prestava culto aos ídolos e que a fé cristã foi perseguida, confirmando-o, além do mais, a história do paganismo. Converteram-se todos a Cristo, porém, em pouco tempo. Os sábios, os nobres, os ricos, os governos e os grandes converteram-se pela pregação de poucos homens rudes e pobres. Ora, não há saída: ou se conerteram porque viram milagres, ou não. Se foi porque viram milagres que se converteram, a tua objção não tem sentido. Se não o foi, respondo que não poderia haver maior milagre que esse de todos os homens converterem-se sem ter visto milagres. Deves te dar por vencido.

Eis porque ninguém pode duvidar da fé. Devemos acreditar mais nas verdades da fé do que nas coisas que vemos. Porque a vista do homem pode falhar, mas a ciência de Deus é sempre infalível.


Fonte: Exposição sobre o Credo – AQUINO, Santo Tomás – Edições Loyola - 5ª Edição: 2002. ps. 17-21.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Fazer a Vontade de Deus .....


Segundo Santo Afonso de Ligório

Afonso de Ligório, jovem advogado, teve sua fama aumentada quando começou a pregar, realizando uma revolução nos corações dos pobres e humildes de Nápoles, pois acreditava com todo fervor, que quando se “ propõe adequadamente o bem”, qualquer pessoa a ele se entrega e se transforma. Seu apostolado crescia e muitos aderiam à força de sua mensagem, pois sabia que todos somos chamados, em grau maior ou menor a ser santos.

Assim, qualquer “alma redimida pelo Batismo, tornando-se pela graça templo do Espírito Santo, possui em potência o indispensável para atingir a santidade”. Alertava a todos que só as orações vocais e atos externos de piedade dificilmente levam à santificação, e que por isso deveriam recorrer a uma vida de intensa piedade interior, estimulando-os à oração mental, tão necessária ao crescimento das virtudes, pois coloca a alma contantemente na presença de Deus e da insuficência própria, iluminando-a a respeito das perfeições de Deus e das limitaçoes e defeitos próprios.

Nesta sua caminhada de santidade e de profundo amor a Deus e as almas, descobre como se deve conduzir para se fazer a vontade de Deus que é sempre soberana e que conduz o homem ao seu fim último que é santidade e perfeição. Esta caminhada que percorreremos, pedindo à Santíssima Virgem que nos ajude a compreender tal vontade, para sermos também, como Santo Afonso, santos e irrepreensíveis aos olhos do Pai, que é Santíssimo.

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O Caminho da Santidade

O mais importante é fazer a Vontade de Deus, nos diz Santo Afonso de Ligório, e nos revela que toda perfeição ou santidade consiste no amor a Deus, entretanto, toda a perfeição do amor consiste em conformar nossa vontade a Sua vontade , porque no dizer de São Basílio, “o efeito principal do amor é: unir as vontades dos que se amam de maneira que tenham uma só vontade”. Não há dúvida que agradam a Deus nossos sacrifícios, renúncias e meditações, obras de misericórdia, exercícios de piedade, contanto que tudo esteja de acordo com a sábia vontade do Senhor. Caso contrário, Deus os reprova e são merecedores de castigo. Se nossas obras e atividades não se realizam segundo o agrado divino, como poderiam agradar a Deus?

O profeta Samuel quando disse: “A obediência vale mais que sacrifícios” (I Samuel 15,22), mostrou que obedecendo a Deus o agradamos mais que se fizermos sacrifícios, já que o homem que deseja agir por conta própria, comete uma espécie de idolatria, porque neste caso, adora sua própria vontade, não a vontade de Deus. Pode-se dizer seguramente que a maior glória que damos a Deus é quando fazemos Sua vontade, foi o que fez Jesus quando veio a este mundo, justamente para glorifica-lo, pois disse várias vezes que não veio para fazer a Sua vontade mas a do Pai que o enviou e isso se cumpriu quando entrou no mundo se fazendo vítima de expiação para a remissão dos pecados da humanidade. Deus recusou todos os sacrifícios dos homens para receber a vítima perfeita, esta vítima era Cristo. O mundo haveria de entender este amor imenso pela vontade do Pai, que era remir os homens que estavam nas trevas do pecado e da condenação eterna, por isso, a cruz foi o caminho escolhido. Antes de se entregar disse: “ Para que o mundo saiba que eu amo o Pai, e faço como o Pai me mandou, levantai-vos e saiamos daqui”(Jo 14, 31).

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Seus seguidores seriam identificados como tal se fizessem como Ele, a vontade do Pai: “Pois todo aquele que fizer a vontade de Meu Pai que está nos céus, este será meu irmão, irmã e mãe”(Mt 12,50).

Se tem algo que os santos descobriram, é que ninguém se torna santo sem a busca da perfeição cristã e que toda sua luta consistiu nisso, em fazer sua vontade se conformar à vontade de Deus. Eles são exemplos para nós, que participamos da Igreja militante rumo ao céu, o seu amor puro e perfeito, e a glória a que se encontram há de nos estimular a buscar também fazer a vontade de Deus, amando-o acima de qualquer coisa, o que então facilitará muito em aceitarmos Sua vontade seja ela qual for. Jesus nos ensinou a pedir a graça de fazer Sua vontade na terra, como o fazem os santos no céu: “Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu”(Mt 6,10).

Santa Tereza nos diz: ”Toda a aspiração de quem começa a rezar deve ser esta: quero trabalhar, quero me esforçar para em tudo conformar minha vontade com a vontade do Pai. Nisto consiste a maior perfeição que se pode alcançar no caminho espiritual”(Moradas, 2). O bem-aventurado Henrique Suso dizia que: “Deus não exige de nós que tenhamos muitas idéias luminosas, mas que façamos sua vontade” e que “Preferia ser o mais desprezível verme na terra por vontade de Deus do que um anjo no céu por sua própria vontade”.

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Nossa vontade seja também a vontade de Deus, esta é a mais alta perfeição que podemos aspirar e para isso é preciso que entreguemos tudo a Ele, porque se assim o fizermos estamos nos dando a Ele por inteiro. “Quem dá esmolas, entrega ao Senhor parte de seus bens, que se sacrifica, lhe dá um pedaço de si próprio. Quem pratica o jejum, oferece seu alimento, mas aquele que lhe oferece sua vontade, se consagra totalmente a Deus. Não reserva nada para si” e por isso pode verdadeiramente dizer a Deus: ‘Meu Deus e meu Senhor, sou pobre, mas eu vos dou tudo o que tenho, tudo o que sou, porque dando-vos minha vontade, nada mais me sobra para vos dar’, e é precisamente isto que o Senhor nos pede quando diz: “Meu filho, dá-me teu coração”(Pr 23, 26), isto é, tua vontade.

Santo Agostinho nos lembra que não podemos fazer oferenda mais agradável a Deus do que lhe dizer: “Tomai, Senhor, posse de mim; eu vos dou toda a minha vontade; dai-me entender o que quereis de mim, e dai-me disponibilidade para realizá-lo”.

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O Caminho da Paz

O bem-aventurado João de Ávila diz que “mais vale um muito obrigado, Meu Deus, na adversidade, do que mil Graças a Deus na prosperidade”, constatanto que é exatamente nas provações que se avalia se estamos mesmo conformando nossa vontade à vontade d’Ele. A perfeição desta virtude consiste nesta união, tanto na prosperidade como na adversidade, na alegria e na tristeza, no sucesso e no fracasso, na saúde e na doença. Quando se trata de sucesso e prosperidade, até os pecadores sabem aceitar gostosamente as disposições de Deus, mas os santos sabem unir sua vontade aos desejos do Senhor, mesmo que contrariem seu amor próprio. Certo e de fé que nada sucede no mundo senão por permissão de Deus, entendendo isso poderemos receber com resignação cristã o que diretamente vem de Suas mãos, independente do que seja, como também é preciso receber o que vem por meio das criaturas, da maldade dos homens: desprezo, calúnias, injustiças, perseguições de toda a sorte.

O Senhor nunca aprova o pecado e a manifestação de injúrias por parte das pessoas, mas se utiliza e até as permite, para delas tirar um bem maior para seus servos e amigos. O Cristão que se exercita no cumprimento desta virtude, não somente se santifica, mas gozará na terra de uma paz impertubável, porque sabe que ”tudo concorre para o bem daqueles que O amam, daqueles que segundo seu desígno, são eleitos”. (Rm 8,28). Diz o livro dos Provérbios: “Nenhum mal atingirá o justo, mas para os ímpios tudo serão males”(Pr 12,21).

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As pessoas que se esforçam por querer o que Deus quer, são muitas vezes humilhadas, mas amam as humilhações; padecem pobreza, mas amam a pobreza, enfim, aceitam com amor o que lhes acontece e levam assim uma vida calma, tranquila e feliz. Vem o frio, vem a chuva, vem o calor, vem o vento, o bom cristão aceita tudo por Deus, porque assim Deus o quer. Jó ao receber a notícia de toda a tragédia de sua vida disse categoricamente: “O Senhor mo deu, o Senhor mo tirou; bendito seja o nome do Senhor”(Jó 1,21), se ele perdeu algo, não culpou pessoas, porque sabia que nada acontece se não for da vontade do Senhor. Jó olhou com o olhar de Deus as provações e tribulações que pesou sobre ele, não como fruto do azar ou do destino, mas como sinal da vontade soberana de Deus.

Santo Agostinho gostava de dizer: “Tudo o que acontece contra nossa vontade, devemos nos convencer que sucede por vontade de Deus”. Esta é a liberdade tão admirável que gozam os filhos do Altíssimo. Liberdade interior que vale mais que todos os tesouros e poderes no mundo dos homens. É aquela paz que os santos experimentaram, “paz que supera todo o entendimento”(Fl 4,7).

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O homem santo permanece na sabedoria como o sol, mas o insensato muda como a lua. O pecador é como ela: hoje cheia, amanhã, minguante; hoje ri, amanhã chora de remorso, de angústia e tristeza; hoje parece tranquilo e sereno, amanhã furioso como o tigre. E por que? Porque seu contentamento depende das coisas boas ou más que lhe acontecem, e, por isso, mudam segundo sopram os ventos favoráveis ou contrários.

O justo é como o sol, sempre sereno e tranquilo, porque sua paz está fundada na conformidade de sua vontade com a vontade de Deus. Podemos gozar aqui na terra de um paraíso antecipado, pois esta paz causa alegria plena, e foi exatamente o que aconteceu aos santos, independente do que passavam; é uma alegria que o mundo não compreende mas que pode e deve estar no coração daquele que tudo se conforma a Deus, e nada, nem a dor, nem a fome, nem a tribulação, haverá de tirar esta paz e impedir que se cumpra de fato a vontade de Deus em sua vida.

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Seja Feita a Vossa Vontade

“Quem poderá resistir à vontade de Deus?”(Rm 9,19) diz São Paulo constatando que ninguém pode impedir que se cumpram os decretos divinos, e que por isso, sábio é aquele se deixa conduzir por Deus em todos as ocasiões de sua vida, e que todos os homens, grandes ou pequenos, ricos e pobres deverão carregar sua cruz. Os que carregam cheios de revolta, sem amor, terão neste mundo uma vida inquieta, vazia, e na outra terão sofrimentos maiores, é o que se lê no livro de Jó: “Deus é sábio de coração, forte e poderoso, quem lhe poderá resistir impunemente?”(Jó 9,4). “Que buscas, ó homem – dizia Santo Agostinho -, buscando bens e mais bens? Ama e busca, o único bem verdadeiro, no qual estão todos os bens. Busca Deus, entrega-te a Ele, abraça a sua santa vontade e viverás sempre feliz, nesta e na outra vida”.

Poderemos encontrar um amigo que nos ame mais que Deus? Todo seu desejo e empenho é de que ninguém se perca, pois sendo Ele por natureza, a bondade infinita, a própria bondade, e sendo próprio dela se comunicar a outros, Ele só deseja nos fazer participantes de seus bens e de sua eterna e infinita felicidade. Depois que Deus ofereceu ao mundo a salvação em Seu Filho Jesus Cristo pela Igreja, poderá negar-nos alguma coisa? “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”(Rm 8,31). Se queres ser agradável ao Senhor e levar neste mundo vida feliz e tranquila, procura estar unido, sempre e em todas as coisas, à vontade do Senhor e permanece fiel à oração nunca se esqueçendo de que todos os pecados, desordens e angústias de tua vida passada tem raiz e fundamento o te haveres separado da vontade de Deus.

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Apega-te de hoje em diante à vontade divina e em tudo que te acontece reza como Jesus Cristo: “Sim, ó Pai, porque isso foi do teu agrado” (Mt 11,26). Quando as humilhações e depressões pesarem, que teu espírito cheio de humildade e de conformidade diga a Deus: “Calo-me, já não abro a boca, porque sois Vós que operais” (Sl 38,10.) A isto deves orientar todos os teus pensamentos e orações, pedindo sempre ao Senhor, na meditação, na comunhão, na visita ao Santíssimo Sacramento, que tudo te ajude a cumprir a vontade d’Ele, dizendo: “Aqui me tendes, Meu Deus, fazei de mim o que quiserdes!” Santa Teresa assim o fazia, oferecendo-se a Deus muitas vezes por dia.

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Assim Na Terra Como No Céu

A enfermidade é a pedra de toque dos espíritos humanos, porque a seu contato se descobre a virtude, o valor que uma alma tem em si. Se suporta a provação sem perturbar-se, sem lamentar-se nem inquietar-se; se obedece ao médico e aos superiores; se permanece tranquila e resignada à vontade de Deus, é sinal que sua virtude é sólida. De nada adiantará a murmuração, o lamento, as queixas, já que sua alma não crescerá em virtude e não fará com isso a santa vontade de Deus, tornando seus tormentos maiores e pouco frutuosos, já que poderia te-los usados para sua própria santificação.

Devemos também resignar-nos à vontade de Deus nas desolações e securas espirituais. Quando uma alma se entrega à vida de justiça e santidade, o Senhor constuma mandar-lhe todo o gênero de sofrimentos e de desolações espirituais. Por que? – Para desprende-la dos prazeres da vida. Para ver se nosso amor é verdadeiro, desinteressado; para testar nossa fé e nossa fidelidade; para ver se procuramos “O Deus das consolações ou as consolações de Deus”. Os santos sofreram muitas desolações e securas espirituais. “Que duro está meu coração, exclamava São Bernardo; não tenho gosto nem para ler, não encontro consolo nem na oração nem na meditação”. Mas eles sabiam que as verdadeiras alegrias, santas e ternas, Deus as reserva para o céu. Esta terra é lugar de merecimento, ao passo que o paraíso é o lugar de prêmio e descanso, de repouso no Senhor.

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Finalmente, devemos nos resignar à vontade de Deus, quando a morte nos visitar, seja quanto ao tempo, ao lugar e ao modo. Viver procurando a Sua vontade em todas as circunstâncias de nossa vida é sinal de grande sabedoria cristã. Quer na vida, quer na morte, quer no tempo, quer na eternidade, minha felicidade está na realização da vontade divina. Assim procediam Jesus, Nossa Senhora e todos os santos, querem exemplos melhores? O temor de perder a Deus nos faz sermos vigilantes e sempre dispostos a jamais perder a graça alcançada.

Quem ama deseja a presença da pessoa amada. O amor requer presença. E como “quem não morre não vê a Deus”, devemos suspirar e não temer, como os santos pela hora da morte libertadora para entrarem no paraíso. Santo Agostinho rezava pedindo a salvação: “Morra eu, Meu Deus, para ir ver-te!”…E São Paulo desabafou: “Desejo partir para estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor”( Fl 1,23). E o profeta Davi, muitos séculos antes do Apóstolo, suspirava: - “A minha alma tem sede do Senhor, do Deus Vivo. Quando poderei chegar, para contemplar a face de Deus”(Sl 41,3). Assim falavam e rezavam todas as almas enamoradas do Senhor da vida.

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Os Bens Espirituais

Esta é a ambição que deves cultivar no coração: amar a Deus o máximo que puderes. Todavia não se deve desejar um grau de amor maior do que aquele que o Deus de amor determinou nos conceder desde toda a eternidade. Disse o bem-aventurado Pe. João de Ávila: - “Não creio que tenha existido um santo que não desejasse ser melhor do que era. Mas isso não lhe tirava a paz e estava sempre contente com os dons recebidos”. Por outro lado, sejamos diligentes e fervorosos em procurar nossa perfeição, usando todos os meios ao nosso alcance. Não devemos permitir jamais que a rotina e a tibieza invadam nossa vida espiritual e religiosa, dizendo: “Se Deus quiser, tudo vai dar certo”…”Deus é Pai e misericordioso”.

Não devemos nos deixar levar pelo desânimo e arrastar fraquesas, sem fazer esforço algum para romper com o egoísmo e os pecados. Sem perder a coragem, o ânimo e a confiança em Deus, com humildade, paciência e firmeza, procura valer-te da oração e dos sacramentos, do Evangelho e da devoção a Nossa Senhora, prosseguindo a caminhada para o alto. Não percas tempo desejando coisas sublimes como êxtases, visões, revelações, arroubos e outros dons sobrenaturais, o que interessa é a graça da oração, o amor de Deus e zelo pela salvação dos irmãos. E se não for do agrado de Deus levar-nos a tão sublime grau de perfeição e glória, tudo bem; o mais importante é o cumprimento de Sua vontade santa e santificadora.

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Conclusão

Em suma, devemos olhar como vindas das mãos de Deus todas as coisas que nos sucedem ou nos podem atingir. Todas as nossas ações sejam orientadas ao único fim de agradar a Nosso Senhor e de cumprir sua santa vontade, ela é o caminho mais seguro e firme que nos leva à justiça e à santidade. Para termos êxito neste caminho deixemo-nos guiar por nossos superiores e pela direção caridosa e sensata de nosso conselheiro espiritual. Esforcemo-nos por servir ao Senhor do modo que Ele deseja. Digo isto para que evitemos um engano muito comum, engano e erro em que muitos ainda estão, perdendo lastimosamente seu tempo precioso, alimentando fantasias, pensamentos tolos e dizendo ainda: “Se eu entrasse para o convento, para a vida religiosa, se me retirasse para um lugar solitário, fora de casa e longe dos amigos e dos parentes, eu me faria santo; eu me dedicaria mais à oração e à penitência!”…Contentam-se com dizer: “Eu me faria santo…eu me faria santo!” E, no entanto, não levam a cruz com amor, paciência e conformidade; não aceitam a vontade de Deus.

Meu amigo, cumprindo à risca a vontade do Senhor, certamente seremos santos, em qualquer estado ou situação de vida. Não queiramos mais do que Deus quer e, então, Ele levará o nosso nome gravado em suas mãos e em seu coração. Tenhamos sempre em mente algumas passagens da Escritura, que nos convidam a entrar no esquema da vontade divina: ”Senhor, que queres que eu faça?”( At 22,10); “Sou vosso, salvai-me”(Sl 118,94); Sim, Pai, eu vos bendigo, porque foi do vosso agrado fazer isto”(Mt 11,26). Mas entre todas as orações, é esta que devemos repetir e viver todo dia e todo momento: ”Seja feita a vossa vontade” – Seja para sempre bendita e louvada a vontade do Senhor, como também a Imaculada e bem-Aventurada Virgem Maria”.
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Referência:

LIGÓRIO, Santo Afonso Maria de Ligório. Conversando Sobre a Vontade de Deus. Editora Santuário: Aparecida. 1986.