sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A Contrição




“Queres reconciliar-te com Deus? Repara como procedes contigo, para que Deus te seja propício. Presta atenção ao Salmo, onde lemos: Porque se quisesses um sacrifício, eu o faria certamente; não te causam prazer os holocaustos. Então ficarás sem sacrifício para oferecer? Nada oferecerás? Com nenhuma oblação tornarás Deus propício? Que dissestes? Se quisesses um sacrifício, eu o faria certamente; não te causam prazer holocaustos. Continua, escuta e dize: Sacrifíco para Deus é o espírito contrito; o coração contrito e humilhado Deus não o despreza. Rejeitado aquilo que oferecias, encontraste o que oferecer. Como os antepassados, oferecias vítimas de animais, ditos sacrifício: Se quisesses um sacrifício, eu o faria certamente Não te queres este gênero de sacrifícios, no entanto procuras um sacrifíco. Não te causam prazer os holocaustos. Se não tens prazer com os holocaustos, ficarás sem sacrifício? De modo algum. Sacrifício para Deus é um espírito contrito e humilhado Deus não o despreza. Tens o que oferecer. Não examine o rebanho, não aprestes navios e não atravesses as mais longíquas regiões em busca de perfumes. Procura em teu coração aquilo que Deus gosta. O coração deve ser esmagado. Por que temes que o esmagado pareça? Lê-se aqui: Cria em mim, ó Deus um coração puro. Para que seja criado o coração puro, esmague-se o impuro”. (Santo Agostinho Bispo de Hipona e Doutor da Igreja in AQUINO, Felipe: Alimento Sólido. Editora Canção Nova, Cachoeira Paulista: 2005. 1ª Ed. p. 92)


"Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato”(I Jo 3,1). Para sermos felizes fomos criados e não para uma felicidade qualquer, porque fomos chamados à intimidade divina, a conhecer e amar a Deus Pai, a Deus Filho e a Deus Espírito Santo e, na Trindade e na Unidade de Deus, a todos os Anjos Santos, a Virgem Rainha dos Céus e a todos os homens. Esta grande bondade de Deus para conosco, foi manisfestada na excelência da vida sobrenatural que nos mereceu, fazendo-nos participantes realmente de Sua natureza e de Sua vida: diviniae consortes naturae. Esta vida vem de um pensamento afetuoso de Deus, que nos amou desde a eternidade e quis nos unir a Si mesmo na mais doce intimidade. ”Com amor eterno Eu te amei; por isso, compadecido de ti, te atraí a Mim ”(Jr 30). Para nossa ruína o pecado entrou no mundo e com ele a morte. O homem, agora sem a graça, se reduziu a mera criatura, doente, frágil, susceptível a enganos, maldades, dependente de suas debilidades e concupiscências. Se achou auto-suficiente e por sua iniciativa e resolução afastou-se de Deus que é fonte de vida plena, tendo como consequência a perda do céu. Mas Deus impulsionado pelo grande amor com que nos amou, vendo a triste condição do homem caído, cujo coração se endureceu, tornou-se arrogante, envia o Filho pra redimi-lo, regenera-lo, a preço de Seu Sangue. Ele, Jesus, nos tirou das trevas e nos trouxe para Sua luz admirável, por uma morte dolorosa e terrível. E desde então nos tem chamado a conversão, para que voltemos nosso olhar e sobretudo nosso coração para Ele, de onde nunca deveríamos ter nos afastado. O homem é convidado a cada instante e situação a se render, se deixar quebrar, talhar e lapidar, para que o Senhor, com sua graça bendita, faça de carne seu coração de pedra. Deus quer dar este coração novo e o homem precisa dele para viver, mas para isso precisa se converter, deixar o homem velho enraizado no pecado para se tornar nova criatura em Cristo, restaurado a Sua imagem santíssima. A conversão é antes de tudo uma obra da graça de Deus que reconduz o homem a Si : "Converte-nos a ti, Senhor, e nos converteremos" (Lm 5,21). Deus nos dá a força de começar de novo, e é descobrindo a grandeza de Seu amor, sua bondade e fidelidade, que nosso coração experimenta o horror e o peso do pecado e começa a ter medo de ofende-lo, de ser separado d ‘Ele. Nos diz São Tomás em sua Suma Teológica: ”Pois, o mais importante dos dons é o que Deus exige, principalmente, do homem. Ora, o que dele Deus exige sobretudo é o temor, conforme a Escritura (Dt 10, 12): Agora, pois, ó Israel, que é o que o Senhor teu Deus pede de ti, senão que temas o Senhor teu Deus; e ainda (Ml 1, 6): se Eu Sou Vosso Senhor onde está o temor que se Me deve?”(Santo Tomás de Aquino: Suma Teológica II, q. LXVIII, VII, a I, II, III, IV).

O coração humano converte-se olhando para Aquele que foi transpassado, e sabemos que o foi de uma forma brutal; o Justo pelos injustos, o Santo pelos pecadores. Como católicos e filhos de Deus pelo Batismo, temos que diante d’ Ele pedir perdão de nossas faltas caso queiramos viver em Sua presença fazendo Sua santa vontade, pela obediência as suas leis; e para que este perdão seja verdadeiro e frutuoso é preciso um espírito contrito e bom propósito, que dele é consequência. Precisamos pedir a graça de chorar nossos pecados e excercitar-nos nela, para podermos crescer em virtude e santidade, sem a qual ninguém verá o Senhor.

Sendo o Sacramento da Penitência junto com o Batismo o Sacramento mais importante para nós católicos, já que restitui a graça perdida essencial para nossa salvação, é justo que nos preparemos com toda sinceridade para obter os frutos que dele emana. Para isso, a contrição, que é a dor por termos cometido pecados que nos fazem perder a vida de Deus, deve ser totalmente verdadeira.

Contrição é voltar-se a Deus conscientemente e com liberdade. A moção da vontade, estimulada e sustentada pela graça, é o fundamento que afasta todo pecado e conduz a Deus. Para tanto é preciso que tenhamos consciência que é o Sangue derramado por Cristo que lava nossos pecados, e que é n’Ele e somente por Ele que temos o perdão, e que para nos dá-lo foi preciso derramar Seu Sangue Precioso através da humilhação, do quebrantamento de Seu Ser; Ele que não Se prevaleceu de Sua igualdade com Deus mas Se fez escravo, nos convida agora a aceitar Seu amor e buscar a pureza e santidade, para qual fomos criados. Baseado nisso, o homem tem que entender que para ter o céu, precisa primeiro se reconhecer pecador, dependente e imperfeito para que os méritos do Senhor venha regenerá-lo recuperando sua primeira condição, de Filho criado a imagem do Pai para viver sua vida gloriosa juntamente com Ele.

A contrição verdadeira exige de nós a tristeza de chorar os pecados, como nos ensina São Paulo, é a tristeza segundo Deus e é esta que é frutuosa já que nos leva a uma dor na alma pela detestação do pecado cometido com um grande propósito de não pecar – leva ao arrependimento sincero e à penitência, e o maravilhoso de nos deixarmos enraizar por ela, é que ela é esperançada, porque confia no perdão, por isso dela, podemos dizer que tras consigo a alegria. A tristeza segundo o mundo leva ao desespero, reconhece-se o pecado cometido, mas – por soberba – parece impossível alcançar o perdão. ”A tristeza que causa um arrependimento salutar – comenta Cassiano - é própria do homem obediente, afável, humilde, doce, suave e paciente, enquanto deriva do amor de Deus. Sofre infatigável a dor física e a contrição do espírito, graças ao vivo desejo de perfeição que o anima. É também alegre e em certo modo sente-se como robustecido pela esperança do seu aproveitamento(…). A tristeza diabólica é diametralmente aposta. É áspera, impaciente, dura, cheia de amargura e de desgosto, e caracteriza-a também uma espécie de desespero penoso” (Institutiones. Lib. IX, cap XI – Bíblia de Navarra – II Cor 7,9-11 – p. 1022-1023)

E que frutos nos trás esta tristeza e esta dor! Nos tornamos além de mais santos, mais atentos, com mais temor, zelo e solicitude para com as coisas do alto, onde nossa vida está escondida com Cristo em Deus, e sabemos que quando Cristo nossa vida aparecer, então apareceremos com Ele na glória. (Col 3, 1-4), está é nossa esperança gloriosa.

"Chora e geme por estares ainda tão carnal e mundano, tão pouco mortificado nas paixões, tão cheio de movimentos de concupiscência; tão pouco diligente na guarda dos sentidos exteriores, tão envolto muitas vezes em vãs imaginações; tão inchado às coisas exteriores, tão negligente nas interiores, tão fácil ao riso e à dissipação, tão duro para as lágrimas e compunção; tão disposto à relaxação e regalos da carne, tão lento para seguir vida austera e fervorosa; tão curioso para ouvir novidades e ver coisas formosas, tão remisso em abraçar as humildes e desprezadas; tão cobiçoso de ter muito, tão apertado em dar, tão avarento em reter; tão inconsiderado em falar, tão pouco acautelado no calar; tão pouco regulado nos costumes, tão indiscreto nas ações; tão intemperante no comer e beber, tão surdo às vozes de Deus; tão pronto para o descanso, tão preguiçoso para o trabalho; tão desperto para ouvir contos e fábulas, tão sonolento para velar na oração; tão impaciente por chegar ao fim, e tão vago na atenção, tão negligente em rezar o ofício divino, tão tíbio em celebrar a missa, tão indevoto na comunhão; tão fácil em te distraíres, tão difícil em te recolheres, tão ligeiro em irar-te, tão fácil em admoestar os outros; tão precipitado em julgar, tão rigoroso em repreender; tão alegre na prosperidade, tão abatido na desgraça; tão fecundo em bons propósitos e tão estéril em boas obras..."(KEMPIS, T. A. Imitação de Cristo. Rio de Janeiro: Ediouro, 1968. Livro 4, Cap. VI)

A contrição nada mais é que o pesar pelo mal moral ou pecado cometido, com um propósito de não mais comete-lo. Se o motivo deste pesar nasce de um perfeito ato de amor a Deus, - que vem de um desejo sincero e absoluto de não fazer nem querer nada que seja contrário aos desejos de Deus -, temos perdoados além das faltas veniais as mortais, se unido a firme resolução de recorrer, logo que possível a confissão sacramental. Esta se chama, perfeita. (Cfr. Catecismo da Igreja Católica n. 1452)

Se o motivo, embora de ordem sobrenatural (da fé), é a vergonha do pecado ou o medo do castigo merecido, a contrição se chama Imperfeita ou atrição, mas contudo é suficiente para se ter os pecados perdoados mediante a confissão sacramental. “A contrição faz parte da matéria do Sacramento da Penitência, pelo que ele seria inválido se ao penitente de todo ela faltasse . São meios de excitar a contrição ou compuslsão do coração: a oração, a consideracão dos sofrimentos de Cristo e a prática voluntária da penitência. (FALCÃO, Manoel Franco – Enciclopédia Católica)

A contrição ou a dor autêntica passa por requisitos necessários que são em número de quatro: deve ser Interna, Sobrenatural, Suma e Universal. E ela deve estar no coração e na vontade, não somente em palavras. Devemos pois com toda sinceridade e muito coerentemente evitar tudo o que possa ofender a Deus, com ajuda de Sua Graça. A dor deve ser interna, porque a vontade, que se afastou de Deus com o pecado, deve voltar para Deus, detestando o pecado cometido e deve ser excitada em nós pela graça do Senhor, e a devemos conceber levados por motivos que procedem da fé.

”A penitência interior é uma reorientação radical de toda a vida, um retorno, uma conversão para Deus de todo nosso coração, uma ruptura com o pecado, uma aversão ao mal e repugnância as obras que cometemos. Ao mesmo tempo, é o desejo e a resolução de mudar de vida com a esperança da misericórdia divina e a confiança na ajuda de sua graça. Esta conversão do coração vem acompanhada de uma dor e uma tristeza salutares, chamadas pelos Padres de "animi cruciatus (aflição do espírito)", "compunctio cordis (arrependimento do coração)" ( Catecismo da Igreja Católica n. 1431)

A dor deve ser sobrenatural, porque é sobrenatural o fim a que se dirige. Ela se eleva acima das considerações e motivos naturais, e se baseia na fé em algumas verdades que Deus ensinou como: o perdão de Deus, a aquisição da graça santificante e o direito à glória eterna. Quem se arrepende por ter ofendido a Deus infinitamente bom e digno por Si mesmo de ser amado, por ter perdido o Paraíso e merecido o inferno, ou então pela malícia intrínseca do pecado, tem dor sobrenatural, porque estes são os motivos fornecidos pela fé. Quem, ao contrário, se arrependesse só pela desonra ou castigo que lhe vem dos homens, ou por algum prejuízo puramente temporal, teria dor natural, porque se arrependeria só por motivos humanos.

A dor deve ser suma ou suprema, porque devemos considerar e odiar o pecado como o maior de todos os males, visto ser ofensa a Deus, sumo Bem; e não é necessário que materialmente se chore pela dor dos pecados; mas basta que no íntimo do coração se deplore mais ter ofendido a Deus, do que qualquer outra desgraça. Isto quer dizer que quando dizemos que arrependemos de nossos pecados estamos dispostos a fazer tudo, a sofrer qualquer coisa antes que ofende-lo outra vez, e sem se esquecer que nada se faz sozinho, mas sempre com a ajuda de Sua Graça. Tememos pecar outra vez e com toda certeza devemos desconfiar de nós mesmos e de nossa auto suficiência, o que requer uma humildade em reconhecer que somos fracos e podemos cair, se nos esquecermos de contar com a augusta graça de Deus. Temos portanto, que fazer tudo que esteja a nosso alcance e por isso devemos a todo custo evitar as tentações e seduções do pecado, do demônio e do mundo.

Ela também deve ser Universal, o que nos indica que temos que nos arrepender de todos os pecados mortais cometidos, sem exceção, porque um só dele nos afastaria de Deus definitivamente, já que nos fez perder a graça santificante, condição necessária para ser ver a Deus.

Para ter dor dos nossos pecados, devemos pedi-la, so Senhor, de todo o coração e excitá-la com a consideração do grande mal que fizemos, pecando. Para me excitar a detestar os pecados tenho que considerar o rigor da infinita justiça de Deus e a deformidade do pecado que enfeiou a minha alma, e me tornou merecedor das penas eternas do inferno; que perdi a graça, a amizade e a qualidade de filho de Deus, e a herança do Paraíso; que ofendi o meu Redentor que morreu por mim, que os meus pecados foram a causa da sua morte; e que desprezei o meu Criador, o meu Deus; que Lhe voltei as costas, a Ele, meu sumo Bem, digno de ser amado sobre todas as coisas, e servido fielmente. Com razão a bem-aventurança de ver a Deus é prometida aos corações puros. Pois os olhos imundos não podem ver o esplendor da verdadeira luz, será alegria das almas límpidas aquilo mesmo que será castigo dos corações impuros. Para longe então a fuligem das vaidades terrenas. Limpemos de toda a iniquidade suja os olhos interiores, e o olhar sereno se sacie de tão maravilhosa visão de Deus”. (São Leão Magno – Papa e Doutor da Igreja – Séc. V - AQUINO, Felipe – Alimento Sólido –Editora Canção Nova – Cachoeira Paulista, 2005 – 1@ Edição)

Jesus veio pra instaurar o Reino de Deus neste mundo, um Reino onde haverá espaço para aquele que luta para ser um bem aventurado; este chamado foi feito a todos aqueles que alcancem as disposições necessárias à voz de Cristo, que exige do homem uma mudança completa dos critérios humanos habituais e o chama a colocar acima de tudo os bens espirituais, sobrepondo os materiais, que se for apegado, só faz perder a vida. A honestidade para com Deus e consigo mesmo, unido a oração constante, vida regrada, santificada, com os sacramentos, são fundamentos para que nós nos aliemos à graça do Senhor, nos tornando este homem bem aventurado para o qual nós fomos chamados, e não somente a isso, mas o Senhor nos chamou a sermos perfeitos tal qual é perfeito nosso Pai criador e Senhor.

Vejamos o exemplo do rei Davi: " Reconheço meu pecado! porque reconheço meu crime e meu pecado está sempre diante de mim. David não estava atento aos pecados alheios. Caía em si, não se desculpava, mas em si mesmo penetrava e descia cada vez mais profundamente. Não se poupava, e por isso podia confiadamente pedir o perdão. Assim devemos ser, cada um olhando para si mesmo e buscando o perdão de Deus através de um verdadeiro arrependimento. O Santo Concílio de Trento nos exorta a considerar aqueles clamores dos santos: "Sempre pequei contra Ti, e em Tua presença cometi minhas culpas, estive oprimido no meio de meus gemidos, regarei com minhas lágrimas, todas as noites, o meu leito. Repassarei em Tua presença com a amargura de minha alma todo o transcurso de minha vida", e outros clamores da mesma espécie, compreenderá facilmente que emanaram todos estes de um ódio veemente da vida passada e de uma abominação muito grande dos pecados. O bem aventurado há de ser humilde e totalmente verdadeiro, reconhecendo sua indigência diante de Deus Santíssimo, porque sabe que não pode confiar nos méritos próprios e confia só na misericórdia de Deus e há de ser também um homem que chora pelos seus pecados e arrependido busca a fonte da graça que está no Sacramento da Igreja.

A humilde contrição é amiga dos santos e para aqueles que a cultivam o mundo inteiro se torna um grande fardo; grande e amargo. Ver a Deus, ser de Deus e fazer Sua vontade, é tudo que lhe agrada. Com ela e por ela, chegamos ao coração do Pai, que não resiste a docilidade de seus filhos, Ele que quer lhes dar nada mais que o céu. E quanto nos ajuda os irmãos que nos amam, quando por algum motivo nos repreende, para nosso bem e nos a levam a contrição, isto não poderá nunca rejeitar aquele que quer de fato ser filho de Deus em palavras e em atos. É certo que de início, doi a alma pela repreensão recebida, mas quanto mais queremos ser santos, tanto mais aprenderemos a aceita-la, para nosso bem e nossa salvação. Nos diz Santo Agostinho, Santo e doutor da Igreja: "Costuma acontecer e acontece com frequência, que o irmão se entristece de momento quando o repreendem, e resiste e discute. Mas logo reflete em silêncio, sem outra testemunha que não seja Deus e a sua consciência, e não teme desgostar os homens por ter sido corrigido, mas teme desagradar a Deus por não emendar. E então, já não volta a fazer aquilo pelo que o corrigiram, e quando mais odeia o seu pecado, mais ama o irmão, por ter sido inimigo do seu pecado” (Epístola .210,2 – Bíblia de Navarra – II Cor 7, 5-15 – p. 1021)

Cuidemos de não esmorecer na busca de um coração contrito, pois os dias são maus e o pecado continua seduzindo os homens. Saiba que nos últimos tempos, como alertou São Paulo a Timóteo (II Tim 3,1-5) e agora também a nós, que haveria um periodo difícil, porque os homens se tornariam egoístas, avarentos, fanfarrões, soberbos, rebeldes aos pais, ingratos, malvados, desalmados, desleais, caluniadores, devassos, cruéis, inimigos dos bons, traidores, insolentes, cegos de orgulho, amigos dos prazeres e não de Deus, ostentarão a aparência de piedade, mas desdenharào a realidade. Desta gente afasta-se! Por isso, ninguém deliberadamente para sua ruína, rejeite a graça que tão amorosamente o Senhor nos tem dado, e para quem ache isso difícil de acontecer este esmorecer no meio do caminho, também nos ensina São Tomás de Aquino, mestre e doutor da Igreja de Cristo: "Devemos notar que, embora um homem seja incapaz de, pelo movimento do seu livre-arbítrio, merecer ou adquirir a graça divina, ele pode no entanto impedir-se de a receber. Porque está escrito de alguns que disseram (Job 21, 14) "Afasta-te de nós, não desejamos o conhecimento dos Teus caminhos" e (Job 24, 13) "Eles aborrecem a luz". E como está no poder da vontade livre impedir ou não impedir a recepção da graça divina, aquele que coloca um obstáculo no caminho da recepção da graça é merecedor de censura. Porque Deus, pelo seu lado, está preparado para dar a graça a todos, porque Ele quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (1Tim 2, 4). Mas só são privados da graça aqueles que colocam a si mesmos obstáculos à graça. Assim também, aquele que fecha os olhos quando o sol brilha é censurado se ocorre um acidente, embora ele só seja capaz de ver porque a luz do sol lho permite (Suma Contra os Gentios de Santo Tomás de Aquino - Graça, Liberdade e Mérito: III, 159) - Da Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino - Liberdade e Lei Divina.

Cuidemos que ninguém perca esta eleição de filhos que somos, busquemos a Deus enquanto Ele tem se deixado encontrar, O procuremos enquanto está perto e que seja nossa meta tudo que nos pediu o Apóstolo São Paulo: “Tudo que é verdadeiro, tudo que é honesto, tudo que é justo, tudo que é puro, tudo que é amável, tudo que é de boa fama, tudo que é virtuoso e louvável, é o que deveis ter em mente”(Fil. 4,8). Por fim, olhai para Cristo, o Cordeiro que nos diz: “Referi-vos essas coisas para que tenhais a paz em Mim. No mundo haveis de ter aflições. Coragem, Eu venci o mundo!” (Jo 16,33). Saibamos com toda certeza, que o Espírito de Deus consolará com paz e alegria, mesmo neste mundo, os que choram os pecados, e depois participarão da plenitude da felicidade e da glória do céu: esses são os bem aventurados, da qual nós somos chamados. Apaixonemo-nos pelo que Deus ama e desprezemos o que Deus despreza.

Ato de Contrição (Segundo Catecismo de São Pio X)

Meu Senhor Jesus Cristo,
Deus e homem verdadeiro,
Criador, Pai e Redentor meu,
Por ser Vós quem sois e
porque Vos amo sobre todas as coisas,
pesa-me de todo o meu coração de Vos ter ofendido,
proponho firmemente a emenda de minha vida
para nunca mais pecar,
apartar-me de todas ocasiões de ofender-Vos,
confessar-me e cumprir a penitência que me foi imposta.
Vos ofereço, Senhor minha vida,
obras, e trabalhos em satisfação de todos os meus pecados
e assim como Vos suplico,
assim confio em Vossa bondade e misericórdia infinitas
que Mos perdoareis pelos méritos de Vosso preciosíssimo sangue,
paixão e morte e me dareis graça para emendar-me e perseverar
em Vosso santo serviço até o fim de minha vida.
Amém.

”Fui Eu quem fez o universo, e tudo Me pertence, declara o Senhor E o angustiado que atrai Meus olhares, o coração contrito que teme Minha palavra”(Isaías 66,2)

Credo - Primeiro Artigo



Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra

Por São Tomás de Aquino

Entre todas as verdades nas quais os fiéis devem acreditar, em primeiro lugar devem acreditar que Deus existe.

Convém, além disso, considerar o que significa este nome – Deus. Significa precisamente Aquele que governa e cuida de todas as coisas. Acredita, por conseguinte, na existência de Deus, quem acredita que todas deste mundo são por Ele governadas, e estão subordinadas à sua Providência. Mas quem pensa que todas as coisas originam-se do acaso, não acredita de Deus.

Não há ninguém tão insensato que creia que a natureza não seja governada, que não esteja submetida a uma providência e que não tivesse sido ordenada por alguém, vendo que tudo se processa a seu tempo, com ordem. Vemos o sol, a lua e as estrelas, e muitos outros elementos sa natureza obedecerem a um determinado curso. Ora, isso não aconteceria se tudo viesse do acaso. Eis porque seria um insensato o que não acreditasse na existência de Deus. Tal asserção é confirmada pelo salmista: O insensato diz em seu coração: não há Deus (Sl 13,1).

Há alguns que acreditam que Deus governa e ordena as coisas naturais, mas não acreditam que Deus atinja, pela Sua Providência, os atos humanos. Evidentemente pensam que os atos humanos não são ordenados por Deus. Porque veêm no mundo os bons sofrerem e os maus prosperarem, concluem que a Providência Divina não atinge os homens. Por eles falou Jó: Deus anda pelos caminhos do céu, mas não cuida de nós (22,14) .

Afirmar tal coisa é grande insensatez. Acontece com os que assim pensam, o que acontece àqueles que vendo o médico bom conhecedor de medicina dar a um doente água e a outro, vinho, julgassem, no seu deconhecimento da medicina, que o médico estava curando por acaso, e não por motivo ponderado. Deus também age como o médico. Por motivo justo e pela sua Providência dispõe Ele as coisas necessárias para os homens, quando aflige alguns bons e permite que alguns maus prosperem.

Quem acreditasse que isso fosse obra do acaso, evidentemente seria um insensato, como de fato o é. Assim, pensa, porque desconhece a maneira de Deus agir e a razão pela qual dispõe as coisas. Lê-se também em Jó: Oxalá Ele te revele os segredos da sua sabedoria e a multiplicidade dos seus planos(11,6).

Por conseguinte, deve-se crer firmemente que Deus governa e ordena as coisas naturais e também os atos humanos. Lê-se no Livro dos Salmos: Disseram os maus: Deus não vê. O Deus de Jacó não percebe as coisas. Compreendei agora, é néscios! Ó estultos, até quando sereis insensatos? Aquele que nos deu as orelhas, não ouve? Aquele que nos pôs os olhos, não vê? O Senhor conhece os pensamentos dos homens(93,7 -10).

Deus vê todas as coisas, os pensamentos e os segredos das vontades dos homens. Já que tudo o que pensam e fazem está patente aos olhos de Deus, os homens, de modo muito especial, são obrigados a praticar o bem. Escreve São Paulo aos Hebreus: Tudo está nú e descoberto aos seus olhos(4,13).

Deve-se acreditar que este Deus, que dispõe todas as coisas e as rege, é um só Deus. A razão por que devemos acreditar nessa verdade é a seguinte: o governo das coisas humanas é um bom governo, quando um só as dispõe e as governa. Uma multiplicidadede dirigentes constantemente provoca dissensões entre os súditos. Ora, como o governo divino é superior ao humano, torna-se claro que o governo do mundo não pode ser feito por muitos deuses, mas por um só.

Os homens são levados ao politeísmo por quatro motivos.

O primeiro, é a fraqueza da inteligência humana.

Há homens, cuja fraqueza de inteligência não lhes permitiu ir além das coisas corpóreas, e, por isso, não acreditaram na existência de alguma natureza superior aos seres corpóreos. Pensaram então que, entre aqueles seres corpóreos, os mais belos e mais dignos deveriam presidir e dirigir o mundo, e prestaram a eles um culto divino. Consideraram, como sendo os corpos mais sublimes, os astros do céu: o sol, a lua e as estrelas.

Acontece com eles o que aconteceu com aquele homem que, desejando ver o rei, foi à corte, e confundiu com o rei o primeiro que encontrou bem vestido, ou exercendo alguma função de ministro. Refere-se a esses o Livro da Sabedoria: consideraram o céu, a lua e as estrelas, como deuses que governam o universo (13,2). Lê-se também no Livro do Profeta Isaías: Levantai bem alto os olhos, e vede a terra por baixo. Os céus evaporar-se-ão como a fumaça, a terra envelhecerá como as vestes e os seus habitantes perecerão como ela. Mas a minha salvação será eterna, e a minha justiça não terá fim (51.6).

O segundo motivo, é a adulação dos homens.

Muitos desejando adular os reis e os senhores, tributaram-lhes a honra devida a Deus. Obedeceram e se submeteram a eles. Houve quem os endeusasse após a morte, e houve os que os endeusaram também em vida. Lê-se na Escritura: Todos saibam que Nabucodonosor é deus da terra, e além dele outro deus não há (Dt 5,29).

O terceiro motivo provém da afeição carnal para os filhos e parentes.

Alguns, levados por excessivo amor pelos parentes, levantaram-lhes estátuas após a morte, e, assim, foram conduzidos a prestar culto divino àquelas estátuas. É a eles que se refere a Escritura: Deram os homens às pedras e à madeira um nome incomunicável, porque submeteram-se demais à afeição aos reis (Sab 14,21).

A quarta razão, pela qual os homens são levados a acreditar na existência de muitos deuses, é a malícia do diabo.

Este, desde o início, quis ser igual a Deus: Colocarei meu trono no Aquilão, subirei aos céus e serei semelhante ao Altíssimo (Is 14,13). Até hoje ele não revogou essa vontade. Por isso esforça-se o mais possível para que os homens o adorem e lhe ofereçam sacrifícios. Não lhe satisfaz o ofertório de um cão ou de um gato, mas deleita-se quando lhe é prestado o culto· devido a Deus.

Disse o demônio a Cristo: Dar-te-ei tudo isto se de joelhos me adorares (Mt 4,9). Para que fossem adorados como deuses, os demônios entraram nos ídolos e por meio destes davam respostas. Lê-se na Escritura: Todos os deuses dos povos são demônios (Sl, 95,5); Quando os gentios oferecem sacrifícios, fazem-no aos demônios, não a Deus (1 Cor 10,20).

É muitíssimo desagradável a consideração dessas quatro causas do politeísmo, mas representam realmente as razões pelas quais os homens acreditam na existência de muitos deuses. Muitas vezes eles não manifestam pelas palavras ou pelo coração que acreditam em muitos deuses, mas pelos atos. Aqueles que acreditam que os astros podem modificar a vontade dos homens, que para agir esperam certas épocas, naturalmente consideram os astros como deuses que dominam os outros seres e fazem prodígios.

Por isso somos advertidos pela Escritura: Não temei os sinais dos astros que os gentios temem, porque as suas leis são vãs (Jer 10,2). Também aqueles que obedecem aos reis, ou a quem não devem obedecer, mais que a Deus, constituem a essas pessoas como os seus deuses. Adverte-nos também a Escritura: Convém mais obedecer a Deus que aos homens (At 5,29).

Assim também os que amam os filhos e os parentes mais que a Deus, revelam pelos atos que acreditam em muitos deuses. Ou mesmo aqueles que amam mais os alimentos que a Deus, aos quais se refere S. Paulo com estas palavras: Dos quais o ventre é deus (Fi! 3,19). Os que praticam a feitiçaria e se entregam aos sortilégios acreditam nos demônios como se eles fossem deuses, porque pedem aos demônios o que só se pode pedir a Deus, como sejam revelações e conhecimentos de coisas secretas ou futuras. Como tudo isso é falso, devemos, acima de tudo, acreditar que há um só Deus.

Como dissemos, deve-se primeiramente acreditar que há um só Deus. Em segundo lugar, deve-se acreditar que este Deus é criador, que fez o céu e a terra, as coisas visíveis e invisíveis.

Deixemos, por ora, de lado, os argumentos sutis e, por meio de um exemplo bem simples, esclareçamos como todas as coisas foram criadas e feitas por Deus: Se alguém indo a uma casa e desde a porta fosse sentindo calor e cada vez que mais nela penetrasse mais calor sentisse, evidentemente perceberia que havia fogo no seu interior, mesmo que não estivesse vendo o fogo. Acontece o mesmo conosco ao considerarmos as coisas deste mundo. Todas as coisas estão ordenadas conforme diversos graus de beleza e de nobreza, e quanto mais estão próximas de Deus, tanto melhores e mais belas são. Ora, os astros são mais nobres e mais belos que os corpos inferiores; as coisas invisíveis, que as visíveis. Deves então acreditar que todas as coisas têm a origem num só Deus, que lhes dá a existência e a perfeição.

Lê-se na Sagrada Escritura: São insensatos todos os homens que não conhecem a Deus, e que pelas coisas que viam, não compreenderam Aquele que existe, nem vendo as obras, não conheceram o artista (Sab 43,1). Lê-se no mesmo contexto: Pela beleza e grandeza da criatura se pode conhecer e contemplar seu criador(43,5).Devemos, portanto, ter por certo que todas as coisas foram criadas por Deus.

Com relação a isso, três erros devem ser evitados

O primeiro, é o erro dos Maniqueus .

Para eles, as coisas visíveis foram criadas pelo diabo, e só as invisíveis, por Deus.

Fundamentam o seu erro numa verdade, que Deus é o sumo bem e tudo o que por ele é feito, por ser bom, deve ser bom também; mas não distinguindo o bem do mal, creram eles que tudo o que de certo modo tivesse algo de mal, seria totalmente mal. Dizem que o fogo é totalmente mal, porque queima; que a água é má, porque afoga; e, assim, das outras coisas que produzem um efeito mau. Ora, como nenhuma das coisas sensÍveis é simplesmente boa, mas de certo modo má e deficiente, concluÍram que todas as coisas visíveis não foram feitas por Deus que é bom, mas sim por um ser mau.

Para refutá-los Santo Agostinho apresentou o seguinte exemplo: se alguém entrasse na casa de um operário e aí encontrasse uma ferramenta que o ferisse, e, por esse motivo, concluísse que operário era mau, porque usa tais ferramentas, seria um tolo, porque ele as usa tão somente para o trabalho. Eis porque é tolice dizer que as criaturas são totalmente más, porque em algum aspecto são nocivas. Podem elas ser nocivas para uns, mas úteis, para outros. Esse erro vai contra a fé da Igreja, pois recitamos no Credo: Criador das coisas visíveis e invisíveis. Fundamenta-se essa verdade na Escritura: No princípio Deus criou o céu e a terra (Gên 1,1). Todas as coisas foram feitas por Ele (Jo 1,3)).

O Segundo erro que deve ser evitado é o dos que afirmam que o mundo é eterno.

Coloca São Pedro na boca dos que assim falam, estas palavras: Desde que nossos pais morreram, tudo permanece como depois do começo da criação (2 Ped. 3,4). Foram levados a essa convicção porque não souberam considerar bem o início do mundo.

O Rabi Moisés comparou-os a uma criança que desde o nascimento fora levada para uma ilha onde nunca pôde ver uma mulher grávida, nem o nascimento de um homem. Se quando crescesse lhe fosse dito como um homem é concebido, como é carregado por nove meses no seio materno e como nasce, não acreditaria no que estava, porque lhe pareceria ser impossível um homem ser gerado no seio materno. Do mesmo modo comportam-se os que pensam que o mundo é eterno, porque não lhe viram o começo. Quem pensa assim está também em oposição à fé da Igreja, pois recitamos no Credo a verdade: Creio em Deus ... que fez o céu e a terra. Ora, se as coisas foram feitas, é claro que não poderiam ter sempre existido. Lê-se na Escritura: Deus disse, e as coisas feitas (SI 148,5).

O Terceiro erro a respeito da origem do mundo é seguido por aqueles que afirmam ter sido o mundo feito de uma matéria preexistente.

Chegaram a esse erro, porque quiseram medir o de Deus pelo nosso. Como o homem nada pode fazer uma matéria preexistente, assim também Deus para produzir as coisas teria usado de uma matéria que já existia. Isso é verdadeiro. O homem nada pode fazer sem uma matéria pré existente, porque a sua capacidade de operação é limitada,e, assim, só pode dar forma a uma matéria que já exista. O seu poder está limitado para operar só para esta forma, e, por isso, pode ser causa senão dela.

Deus, porém, é a causa universal de todas as coisas, e não só cria a forma, mas também a matéria. Por isso fez todas as do nada. Recitamos no Credo essa verdade: criador do céu e da terra. Há diferença entre criar e fazer: criar, é tirar alguma coisa do nada e fazer, é produzir uma coisa de outra coisa. Se Deus criou as coisas do nada, deve-se também acreditar ele pode refazê-Ias todas, se elas forem destruídas. Pode ista a um cego, ressuscitar um morto e fazer outros milagres. Diz a Escritura: O poder está a Vós submetido, quando quereis (Sab 12,18).

Das verdades acima enunciadas podemos tirar cinco conclusões práticas:

Em primeiro lugar, como devemos considerar a divina majestade

Se o artista é superior às obras, Deus, sendo o artista criador de todas as coisas, evidentemente é superior a tudo o que existe. Diz a Escritura: Se os homens atraídos pela beleza dos seres consideraram-nos deuses, saibam em quanto o Senhor deles é mais belo que eles ... ; ou se ficaram admirados pelo poder dos seres e pelas obras que produzem, compreendam como aquele que os fez é mais poderoso (Sab 13,34). Por isso tudo, o que podemos compreender ou pensar de Deus é inferior a Ele! Diz a Escritura: Eis o Deus grandioso que está acima de nossa ciência (Job 36,26).

Em segundo lugar, devemos dar graças a Deus.

Porque Deus é o criador de todas as coisas, tudo o que somos e tudo o que temos, nos vem de Deus. Diz o Apóstolo: O que tens, que não recebeste? (1 Cor 4,7). Lê-se no Saltério: Do Senhor é a terra e tudo o que a enche; o mundo e todos os seus habitantes. (SI 23,1). Por isso devemos sempre render graças a Deus: Que retribuirei ao Senhor, por tudo o que Ele me deu? (SI 115,12).

Em terceiro lugar, devemos suportar as adversidades com paciência.

Pois se todas as criaturas vêm de Deus, e por isso são boas por natureza, mesmo se em alguma coisa nos prejudicam se nos trazem penas, devemos acreditar que essas penas foram enviadas por Deus.

A culpa nossa, porém, não pode vir de Deus, porque nenhum mal pode vir de Deus, a não ser que ele seja dirigido para um bem. Ora, se toda pena que nos vem é enviada por Deus, devemos pacientemente suportá-Ia. As penas nos purificam dos pecados, humilham os réus, desafiam os bons para o amor de Deus. Lê-se no livro de Jó: Se recebo os bens das mãos de Deus, porque não recebo também os males? (Job 2,10).

Em quarto lugar, devemos usar bem das coisas criadas.

As coisas devem ser usadas conforme as finalidades que lhes foram dadas por Deus. As coisas foram criadas para dois fins: para a glória de Deus, porque todas as coisas para Si mesmo Deus as fez (Prov 16,4), e para nossa utilidade, porque Deus fez todas as coisas para servirem aos povos (Dt 4,19).

Devemos usar de todas as coisas para a glória de Deus, e muito Lhe agradaremos com isso, mas também, para nossa utilidade, evitando sempre o pecado. Diz a Escritura: De vós são todas as coisas e o que recebemos das vossas mãos, vos damos (1 Par 29,14). O que quer que possuas, seja a ciência, seja a beleza, tudo deves usar e dirigir para a glória de Deus.

Em quinto lugar, porque fomos criados por Deus, devemos reconhecer a nossa dignidade.

Deus fez todas as coisas para o homem, como se lê na Escritura: Todas as coisas submetestes aos seus pés (SI 8.8). O homem, depois dos anjos, é a criatura que mais se assemelha a Deus, como se lê no livro do Gênesis: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança (1,16). Não se referiu Deus neste texto nem às estrelas, nem aos céus, mas ao homem. Não é, porém, pelo corpo, mas pela alma, que possui vontade livre e é incorruptível, que o homem mais se assemelha a Deus que às outras criaturas.

Devemos, pois, considerar que o homem é, depois dos Anjos, a mais digna de todas as outras criaturas, e, por conseguinte, de maneira nenhuma queiramos diminuir essa nossa dignidade pelo pecado ou por algum desejo desordenado de coisas corpóreas, pois elas são inferiores a nós e foram feitas para nos servir. Que nos comportemos de acordo com os desígnios de Deus ao nos criar. Deus fez o homem para governar tudo o que há na terra, mas para que o homem ficasse submetido a Ele. Devemos, por isso, dominar e governar o mundo, mas nos submetendo a Deus, a Ele obedecendo e servindo. Por esse caminho certamente chegaremos à união com Deus.

Assim seja.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Sacramento da Penitência





“Os Apóstolos receberam, pois, o Espírito Santo para desligar os pecadores da cadeia dos seus pecados. Deus fe-los participantes do seu direito de julgar; e eles julgam em Seu Nome e em Seu lugar. Ora, como os Bispos são os sucessores dos Apóstolos tem o mesmo direito. E o pecador ao se confessar sincera e contritamente os seus pecados, é como Lázaro: já vive, mas está ainda ligado com as ataduras de seus pecados. Precisa de que o Sacerdote lhas corte; e corte-lhas absolvendo. (São Gregório Magno – Papa e doutor da Igreja – AQUINO, Felipe – A Sagrada Tradição – Editora Cléofas - Lorena: São Paulo – p. 126).


Sabendo o Senhor, que mesmo depois do Batismo o homem que foi elevado ao estado sobrenatural pela graça, não continuaria em estado de pureza e santo em Sua presença, devido sua tendência ainda ao orgulho e desobediência, o que tinha como fruto a perda da dignidade de filhos Seus; aprouve a Ele, amado Senhor, instituir um Sacramento que o pudesse curar e restabelecer a graça perdida, sem a qual ninguém O veria, já que estariam todos condenados a viverem longe de Sua face santíssima. Expressou o Seu amor e Sua misericordia estabelecendo o Sacramento da Penitência, e nada mais significativo o instituir justamente após sua Ressurreição, mostrando que como Ele vivia, assim todo homem renascido pelo Batismo, poderia viver também, caso caindo em pecado, buscasse Sua misericórdia que é infinita. Na tarde do dia da Páscoa, Jesus aparece aos Apóstolos reunidos no Cenáculo e, na plenitude da alegria pascal, infunde sobre eles o Espírito Santo, com estas palavras: "Recebei o Espírito Santo, àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem o retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (Jo 20,22), associando a este dom a missão e o dever, ou seja, o poder de perdoar os pecados. O Senhor que tinha nascido, vivido e morrido para redimir a humanidade, não hesita em conferir aos seus, apesar de homens, o poder inaudito de penetrar tão profundamente no destino dos pecadores. Nas mãos e na boca dos Apóstolos, seus mensageiros, o Pai depôs misericordiosamente um “ministério de reconciliação”, que eles exercem de maneira singular, em virtude do poder de agir in “persona Christi”.

O perdão, antes da vinda de Cristo, acontecia pela virtude da penitência, virtude esta que levava os homens, com consciência, arrependimento e propósito, a detestarem seus pecados caso desejassem ser santos diante do Deus Altíssimo. Se percorrermos todas as épocas verificamos que em cada geração o Senhor concedeu o tempo favorável da penitência e todos que O escutaram foram santificados e acolhidos. Sempre ouve no meio do povo de Deus um ministro da graça que inspirado pelo Espírito Santo pregaram a penitência. O próprio Senhor de todas as coisas também falou da penitência, com um juramento: Dize-lhes isto: “Por Minha vida – oráculo do Senhor Javé -, não Me comprazo com a morte do pecador, mas antes com a sua conversão, de modo que tenha a vida. Convertei-vos! Afastai-vos do mau caminho que seguis; por que haveis de perecer, Ó casa de Israel”?(cf. Ez 33,11).

Ao chegar a plenitude dos tempos, na Nova Aliança selada pelo sangue de Cristo, o Filho de Deus vindo como o Cordeiro que tira e carrega sobre Si o pecado do mundo, aparece como Aquele que tem poder, quer de julgar, quer de perdoar os pecados, que veio não para condenar, mas para perdoar e salvar; (Jo 3,17) e exatamente por isso, o Senhor instituiu o Sacramento da Penitência dando à Sua Igreja todo poder de perdoar as ofensas cometidas a Ele, onde a graça invisível seria derramada através de sinais visíveis e sensíveis, mediante um rito próprio, tendo como ministro o sacerdote, que age na pessoa do próprio Cristo, que é Aquele que perdoa. O Pai abre seus braços misericordiosos e realmente dá ao homem condições de santificação o tornando apto a vê-lo um dia, já que só Deus pode perdoar pecados. Esta é a grande graça de chamada à conversão, é a grande oportunidade para a vida plena e santa, já que todo batizado mesmo que sujo pelo pecado mortal, - pecado este que rompe a vida divina que faz merecer o céu, afasta do redil de Cristo, da comunhão dos santos, que de amigos e filhos, o torna inimigo de Deus pela desobediência; - se cometido com plena consciência, o que pressupõe o conhecimento do caráter pecaminoso do ato, da sua oposição à Lei de Deus, e ainda com total consentimento suficientemente deliberado para ser uma opção pessoal”. (Cfr. Catecismo da Igreja Católica n. 1859), - se com confiança, contrição verdadeira, sincera e arrependimento se confessa lealmente, por amor deste Deus, é purificado no sangue de Jesus Cristo, seu Filho amado que não se poupou por amor a ele.

Nos diz S. S. o Papa Paulo VI na Encíclica Lumem Gentium: “Aqueles que se aproximam do Sacramento da Penitência, obtêm da misericórdia de Deus o perdão da ofensa a Ele feita e ao mesmo tempo reconciliam-se com a Igreja, que tinham ferido com o seu pecado, a qual, pela caridade, exemplo e oração, trabalha pela sua conversão” (Lumem Gentium n. 11)

Um dos frutos deste Sacramento, se bem realizado, é a paz que brota da reconciliação com o Senhor, nosso Pai. ”É uma paz que brota da certeza – não de uma esperança insegura – de que os pecados foram perdoados, de que a amizade voltou e que o céu está disponível novamente. Com esta paz, vem ao coração do penitente uma grande consolação, pois o leva a uma “verdadeira ressurreição espiritual”, consequência da restituição da dignidade de filho que é, e dos bens próprios dos quais é a amizade do mesmo Deus. ”Feliz aquele cuja iniquidade foi perdoada, cujo pecado foi absolvido. Feliz o homem a quem o Senhor não argui de falta, e em cujo coração não há dolo. Enquanto me conservei calado, mirraram-se-me os ossos, entre contínuos gemidos. Pois, dia e noite, vossa mão pesava sobre mim; esgotavam-se-me as forças como nos ardores do verão. Então eu vos confessei o meu pecado, e não mais dissimulei a minha culpa. Disse: Sim, vou confessar ao Senhor a minha iniqüidade. E vós perdoastes a pena do meu pecado. Assim também todo fiel recorrerá a vós, no momento da necessidade.” (Salmo de Davi - 31, 1 - 6).

A Cruz de Cristo se faz presente no momento em que a Graça deste Sacramento é derramada no penitente, já que ao morrer, Jesus se oferecendo, merece, é causa meritória e vital pra todos os homens, desta vida nova e bendita. Nos diz São Tomás de Aquino que: ”A graça deste Sacramento e de todos os outros, ordena-se principalmente a duas coisas: a destruir os defeitos dos pecados passados, pois mesmo sendo passados aos atos, permanece o efeito (a culpa); e a aperfeiçoar a alma com relação ao culto de Deus, conforme a religião da vida cristã. Ficou então esclarecido que Cristo liberou-nos dos pecados, principalmente pela sua Paixão, e o fez como causa eficiente e meritória, bem como causa satisfatória. Por ela iniciou também o rito da religião cristã, oferecendo-se a Si mesmo a Deus como oblação e hóstia (Ef 5). Donde claramente se conclui que os Sacramentos da Igreja possuem, de modo especial, a força da Paixão de Cristo, força esta que, de certo modo, se junta a nós quando recebemos o Sacramento (S. Th. III, 62 , 5, c – Santo Tomás de Aquino - Exposição sobre o Credo – Edições Loyola -5@ edição – 2002 – Tradução e notas Dom Odilão Moura, OSB – p. 115).

Santo Agostinho muito inspiradamente vê na ressurreição de Lázaro uma figura do Sacramento da Penitência: “como Lázaro do túmulo, sais tu quando te confessas. Pois que quer dizer sair senão manifestar-se como vindo de um lugar oculto? Mas para que te confesses, Deus dá um grande grito, chama-te com uma graça extraordinária. E assim como o defunto saiu ainda atado, também o que se vai confessar ainda é réu. Para que fique desatado dos seus pecados disse o Senhor aos ministros: Desatai-o e deixai-o andar. Que quer dizer desatai-o e deixai-o andar? O que desatardes na terra será desatado no céu” (In Ioann. Evang. 49, 24 - Bílbia de Navarra – Santos Evangelhos p. 1295)

A condição indispensável para a excelência deste Sacramento é nosso amor a Deus, pois o homem não pode merecer o perdão dos pecados porque, sendo Deus o ofendido, a sua gravidade torna-se infinita e por amor Deus o instituiu. Nosso amor e nosso arrependimento é portanto condição para o perdão.

Diante de tão claras e precisas palavras de Jesus, entendeu sempre a Igreja universal - esta que é a arca para onde acorre todo homem que crê em Cristo -, que desde o momento da instituição deste Sacramento da misericordia, distribuiria as graças aos batizados arrependidos, acolhendo a todos como uma mãe para se formar o povo santo e reconciliado, tão querido pelo Pai, povo este que Deus espera ser toda a humanidade, já que Ele a amou até o fim e se entregou por Ela como vítima perfeita; e para que isso acontesse foi delegado aos Padres que estiveram em contato com os Apóstolos, e a seus legítimos sucessores, o poder de perdoar ou não os pecados, ao reconciliarem-se os fiéis que tenham caído neles depois do Batismo. Por séculos ininterrúptos e assim será até que se consuma os tempos, todo homem teve e terá a seu alcance o Sacramento da Misericordia. Mas Jesus, mediante esse ministério, instituído no Cenáculo na tarde do dia de Páscoa, perdoa os pecados também hoje com um ato dotado de eficácia atual, que não é a mera comemoração, como alguns defendem, da satisfação oferecida “semel pro semper” (duma vez por todas) no Calvário: esses não se dão conta de que, assim, esvaziam a economia sacramentária e diminuem o próprio e infinito poder do Sacrifício Redentor, que confere virtude salvífica aos atos sacramentais; da mesma forma que o infinito poder de Deus Criador não só age diretamente, mas confere dignidade de causa às criaturas. O Sacramento da Penitência, no entanto, destina-se a perdoar os pecados não indiscriminadamente a todos os homens, mas tão só aos que mediante o Batismo começaram a fazer parte, para sempre, da Igreja e são chamados a viver o seu mistério em plenitude; esses já não estão sozinhos no mundo, mas são como membros de um organismo cujo chefe é Cristo Crucificado e Ressuscitado, fonte de vida divina para todos os seus. (Prefácio do Cardeal Angelo Soldano sobre Alocuções a uma Carta Apostólica de João Paulo II sobre o Sacramento da Penitência)

A Igreja recomenda-o mesmo para o perdão dos pecados veniais, embora este perdão se possa obter também por outros meios. O Sacramento da Penitência é aquele cuja forma concreta mais evoluiu ao longo dos séculos (cf. Catecismo da Igreja católica n.1447), mantendo contudo a sua estrutura fundamental: de um lado, os atos do pecador penitente: 1) a contrição perfeita (quando o motivo é o amor de Deus, sendo então suficiente só por si para antecipar o perdão) ou pelo menos a atrição (quando o motivo, embora sobrenatural, se fica pelo medo do castigo divino ou pela fealdade do pecado); 2) a confissão íntegra de, pelo menos, pecados graves ainda não confessados, mas convenientemente dos demais; 3) o cumprimento da satisfação ou penitência imposta pelo confessor com eficácia sacramental como compensação pelos danos provocados pelos pecados (no caso de danos reparáveis cometidos contra terceiros, a sua reparação possível é condição a impor) e, do outro, a ação de Deus pela intervenção da Igreja (que, por meio do bispo e seus sacerdotes, absolve o pecador de seus pecados e fixa o modo de satisfazer por eles. (FALCÃO, Dom Manoel Franco – Enciclopédia Católica Popular)

Sobre a importância deste Sacramento o Concílio de Trento nos diz: Além disso, um é o fruto do Batismo, e outro é o da Penitência, pois vestindo-nos de Cristo pelo Batismo, passamos a ser novas criaturas Suas, conseguindo plena e eterna remissão dos pecados, mas por meio do Sacramento da Penitência, não poderemos chegar de modo algum a esta renovação e integridade sem muitas lágrimas e sacrifícios de nossa parte para solicitar a Divina Justiça, de modo que por esta razão chamaram os santos padres à Penitência de uma espécie de Batismo de sacrifícios e aflição. Em conseqüência, é tão necessário este sacramento da Penitência aos que pecaram, depois do Batismo, para conseguir a salvação, como é o mesmo Batismo aos que ainda não renasceram (Sacrossanto Concílio de Trento, Sessão XIV - Celebrada no tempo do Sumo Pontífice Júlio III, em 25 de novembro do ano do Senhor de 1551 - Doutrina do Santo Sacramento da Penitência). Portanto é condição para se obter a salvação, usufurir deste Sacramento , já que sem ele nenhum homem após haver pecado poderá adquirir o céu, recompensa para aqueles que permanecerem de pé com o auxílio de Cristo e de Sua graça.

Fora a paz que trás ao penitente, o Sacramento da Penitência, destina-se primariamente a perdoar ao pecador arrependido os pecados graves, restituindo-lhe a graça santificante e concedendo-lhe especial “graça sacramental” que o ajuda na luta para não recair nos pecados cometidos. Portanto o Sacramento da Penitência reconcilia a alma com Deus ao mesmo tempo que perdoa os pecados. “Toda força da penitência reside no fato de ela nos reconstituir na graça e de nos unir a Deus com a máxima amizade” (Catecismo Romano 2, 5, 18). Além disso o ajuda a crescer em graça, e como ela é todo bem distribuido por Deus aos homens, os torna seres deiformes, aptos a realizarem atos sobrenaturais com méritos de vida eterna e santidade, o que nos confirma S. S. o Papa Pio XII em sua Encíclica Misticis Corporis: “Para progredir mais rapidamente no caminho da virtude, recomendamos vivamente o pio uso, introduzido pela Igreja sob a inspiração do Espírito Santo, da confissão frequente, que aumenta o conhecimento próprio, desenvolve a humildade cristã, desairraiga os maus costumes, combate a negligência e tibieza espiritual, purifica a consciência, fortifica a vontade, presta-se à direção espiritual e por virtude do mesmo sacramento aumenta a graça” (Bíblia de Navarra – Evangelho de João – p. 1426)

Porque Nosso Senhor deseja que todos alcancem o céu; ao fazer da santa Confissão, o grande presente da Páscoa à Sua Igreja, desejou que ele deva ser antes de tudo, caminho de reconciliação com Deus, pelo perdão que concede aos homens. É um sacramento que depende muito da colaboracão do penitente, já que ele, antes de tudo, deve-se reconhecer pecador e falho, e que confia e sabe que Cristo deixou uma Igreja onde estaria ali o depósito de suas graças, que santificaria todo aquele que d’Ele se achegasse pelas mãos do sacerdote. Portanto, o Sacramento da Penitência deve ser entendido como um grande bem que requer fé e sobretudo disposição, desejo de santidade, desejo de fazer em tudo a vontade de Deus que é fonte de sabedoria.

Este digno Sacramento além de restaurar, aumentar a graça santificante e de perdoar pecados mortais e veniais (que neste caso se recebe um incremento de graça santificante, que fortalece a alma a participacao da vida divina pela qual esta unida a Deus, portanto devem também ser confessados, apesar de terem outros meios para te-los perdoados), no caso dos pecados mortais é cancelado o castigo eterno que são consequências deles, o que resultaria no fim triste para este homem caso viesse a morrer com ele, pois estaria definitivamente longe de Deus na eternidade, cujo fim é o inferno. Além de todos estes bens que o sacramento infunde no penitente, ele apaga também parte da pena temporaldevida ao pecado, que nasce da dívida de satisfação que se contrai com Deus, mesmo depois de terem sidos perdoados. Estas penas que seriam pagas no purgatório são diminuidas pela graça do sacramento aliada a orações, mortificações e outras obras feitas em estado de graça. Outro efeito do Sacramento da Penitência é devolver-nos os méritos das boas obras que tenhamos feito por amor a Deus e em estado de graça, que merece-nos um aumento de graça nesta vida, de glória no céu e que foram perdidos pelo pecado mortal. Que depósito de riquezas em Deus! Dando-nos direito a quaisquer graças atuais de que possamos precisar, que nos ajuda abundantemente a rejeitar o mal e buscar solidamente o bem. É a chamada graça sacramental que nos fortifica para não cairmos em pecado e que é ao mesmo tempo remédio que cura e fortalece. Isto só é possível graças ao infinitos méritos de Jesus Cristo conquistados na cruz e que neste Sacramento damos a Deus Pai, pelo nosso sim e amor arrependido, a chance de partilhar conosco estes bens maravilhosos.

Assim como na vida corporal as pessoas ficam doentes, e, se não tomarem remédio, morre, na vida espiritual pode-se também adoecer pelo pecado. Por este motivo, é necessário o antídoto para se curar e tal é a graça conferida pelo Sacramento da Penitência: ”Ele perdoa todas as suas faltas, que te cura de todas as tuas doenças”(Sl 102,3), desde que se faça bom uso e de acordo, com o que ele propõe aos filhos de Deus, pois é remédio pra toda doença espiritual, e para fazer uma confissão frutuosa é preciso que se faça um exame de consciência bem feito - levando em conta os mandamentos do Senhor, nossa relação com Ele, com os irmãos, com a Igreja e com o mundo em que vivemos -, tendo no coração um arrependimento sincero, que se caracteriza numa aversão ao pecado e desejo de santidade, propósito de não mais pecar, a confissão propriamente dita feita, de forma individual, a um sacerdote da Igreja e a penitência proposta. Conforme mandamento da Igreja, "todo fiel, depois de ter chegado à idade da discrição, é obrigado a confessar seus pecados graves, dos quais tem consciência, pelo menos uma vez por ano". Aquele que tem consciência de ter cometido um pecado mortal não deve receber a Sagrada Comunhão, mesmo que esteja profundamente contrito, sem receber previamente a absolvição sacramental, a menos que tenha um motivo grave para comungar e lhe seja impossível chegar a um confessor. As crianças devem confessar-se antes de receber a Primeira Eucaristia (Catecismo da Igreja Católica n.1457).

A confissão individual e íntegra e a absolvição constituem o único modo ordinário pelo qual o fiel, consciente de pecado grave, se reconcilia com Deus e com a Igreja; ”somente a impossibilidade fisica ou moral o escusa desta forma de confissão, podendo neste caso obter-se a reconciliação também por outros meios e por isso. “todo aquele que, em razão do ofício, tem cura da almas, está obrigado a providenciar para que sejam ouvidas as confissões dos fiéis que lhe estão confiados e que de modo razoável peçam para se confessar, a fim de que aos mesmos se ofereça a oportundade de se confessarem individualmente em dias e horas que lhes sejam convenientes”(S.S. João Paulo II em sua Carta Apostólica Misericórida Dei). “Não podemos esquecer, que a conversão é um ato interior de uma profundidade particular, no qual o homem não pode ser substituído pelos outros, não pode fazer-se “substitur”pela comunidade. Muito embora a comunidade fraterna dos fiéis, participantes na celebração penitencial, seja muito útil para o ato de conversão pessoal, todavia, definitivamente é necessario que neste ato se pronuncie o próprio individuo, com toda profundidade da sua consciência, com todo sentido da sua culpabilidade e da sua confiança em Deus, podo-se diante d’Ele, `a semelhança do salmista, para confessar: “Pequei conta Vós”. A Penitência , defende o direito particular da alma humana. É o direito a um encontro mais pessoal do homem com Cristo crucificado que perdoa, com Cristo que diz, por meio do ministro: “ São-te perdoados os teus pecados”; “vai e doravante não tornes a pecar”. Como é evidente, isto é ao mesmo tempo o direito do próprio Cristo em relação a todos e a cada um dos homens por Ele remidos. É o direito de encontrar-se com cada um de nós naquele momemto-chave da vida humana, que é o momento da conversão e do perdão. A Igreja, ao manter o Sacramento da Penitência, afirma expressamente a sua fé no ministério da Redenção, como realidade viva e vivificante, que corresponde à verdade interior do homem, corresponde à humana culpabilidade e também aos desejos da consciência humana. “Bem- aventurados os que tem fome e sede de justiça, porque serão saciados” (S. S. Papa João Paulo II – Carta Encíclica Redemptor Hominis)

"Em casos de necessidade grave, pode-se recorrer à celebração comunitária da reconciliação com confissão e absolvição gerais. Esta necessidade grave pode apresentar-se quando há um perigo iminente de morte sem que o os sacerdotes tenham tempo suficiente para ouvir a confissão de cada penitente. A necessidade grave pode também apresentar-se quando, tendo-se em vista o número dos penitentes, não havendo confessores suficientes para ouvir devidamente as confissões individuais num tempo razoável, de modo que os penitentes; sem culpa de sua parte, se veriam privados durante muito tempo da graça sacramental ou da sagrada Eucaristia. Nesse caso, os fiéis devem ter, para a validade da absolvição, o propósito de confessar individualmente seus pecados no devido tempo (Código de Direito Canônico - cân. 962,1).

Cabe ao Bispo diocesano julgar se os requisitos para a absolvição geral existem (CDC, cân. 961). Um grande concurso de fiéis por ocasião das grandes festas ou de peregrinação não constitui caso de tal necessidade grave (Código de Direito Canônico - cân. 961,1)." (Catecismo da Igreja Católica, 1483)

O Ministro da Penitência:

Só um Bispo ou um presbítero, que julga e absolve, cura e sara em nome de Cristo. Para ouvir a confissão se requer, além do poder da Ordem, o poder de jurisdição, porque o sacerdote é juiz que pronuncia a sua sentença, depois do verdadeiro julgamento (Cfr. Cân. 872) . Esta jurisdição é o poder público de reger os fieis em ordem à vida eterna. Mas é Cristo quem absolve. O Sacerdote é representante na terra deste canal de graça, que no Sacramento da Penitência empresta a voz para Cristo . ”É Deus quem em Cristo, reconciliava consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos homens , e pôs em nossos lábios a mensagem da reconciliação. Portanto, desempenhamos o encargo de embaixadores de Cristo, e é Deus mesmo que exorta por nosso intermédio. Em nome de Cristo vos rogamos: reconciliai-vos com Deus”(2Cor 5,19-20). Pede-se ao sacerdote, ministro de Cristo, que tenha grande compreensão e compaixão, já que ele mesmo tem que ter a consciência de sua própria debilidade. Por isso a Igreja, no Cânon romano da Santa Missa, põe nos lábios do sacerdote”E a nós pecadores, servos Teus…”O Sacerdote compadece-se e é compreensivo porque ”ele próprio está rodeado de debilidade”.

Sua Santidade o Papa Pio XI escrevia: ”quando vemos um homem exercer esta faculdade (perdoar os pecados) não podemos pelo menos deixar de repetir – não com escândalo farisaico, mas com reverente assombro – aquelas palavras: “Quem é este que até perdoa pecados?” (Lc 7,49). Foi o Homem-Deus que tinha e tem o “poder de perdoar os pecados na terra” (Lc 5,24), quem quis transmiti-lo aos Seus sacerdotes para encher com a liberalidade da misericórdia divina, a necessidade de purificação que sente a consciência humana. Daí brota uma grande consolação para o homem culpável, que sofre com os remorsos e que, arrependido, ouve a palavra do sacerdote, que em nome de Deus lhe diz: ”Eu te absolvo dos teus pecados”. Ouvir isto da boca de alguém que por sua vez terá a necessidade de pedir as mesmas palavras a outro sacerdote, não degrada o dom misericordioso de Deus, mas sublima-o, já que através da frágil criatura se vê na mão de Deus que opera este prodígio” (Carta Encíclica -Ad Catholici Sacerdotti, n. 6 – Sobre o Sacerdócio Católico)

Os sacerdotes devem incentivar os fiéis a receberem o sacramento da Penitência e devem mostrar-se disponíveis a celebrar o sacramento cada vez que os cristãos o pedirem de um modo conveniente (Catecismo da Igreja Católica n. 1464) São atos do ministro dotado do poder de absolver (cf. CDC 965-986): 1) o juízo sobre a acusação; 2) a absolvição em nome de Deus; 3) e a imposição da penitência ou satisfação. Diante da delicadeza e da grandiosidade deste ministério e do respeito que se deve às pessoas, a Igreja declara que todo sacerdote que ouve confissões é obrigado a guardar segredo absoluto a respeito dos pecados que seus penitentes lhe confessaram, sob penas severíssimas. Também não pode fazer uso do conhecimento da vida dos penitentes adquirido pela confissão. Este segredo, que não admite exceções, chama-se "sigilo sacramental", porque o que o penitente manifestou ao sacerdote permanece "sigilado" pelo sacramento. O sigilo do Sacramento da Reconciliação é sagrado e não pode ser traído sob nenhum pretexto. "O sigilo sacramental é inviolável; por isso, não é lícito ao confessor revelar o penitente, com palavras, ou de qualquer outro modo, por nenhuma causa." (Catecismo da Igreja Católica n. 2490)

Eucaristia e Sacramento da Reconciliação

“Os padres sinodais afirmaram, justamente, que o amor à Eucaristia leva a apreciar cada vez mais também o sacramento da Reconciliação. Por causa da ligação entre ambos os sacramentos, uma catequese autêntica acerca do sentido da Eucaristia não pode ser separada da proposta dum caminho penitencial (1 Cor 11, 27-29). Constatamos — é certo — que, no nosso tempo, os fiéis se encontram imersos numa cultura que tende a cancelar o sentido do pecado, favorecendo um estado de espírito superficial que leva a esquecer a necessidade de estar na graça de Deus para se aproximar dignamente da comunhão sacramental. Na realidade, a perda da consciência do pecado engloba sempre também uma certa superficialidade na compreensão do próprio amor de Deus. É muito útil para os fiéis recordar-lhes os elementos que, no rito da Santa Missa, explicitam a consciência do próprio pecado e, simultaneamente, da misericórdia de Deus. Além disso, a relação entre a Eucaristia e a Reconciliação recorda-nos que o pecado nunca é uma realidade exclusivamente individual, mas inclui sempre também uma ferida no seio da comunhão eclesial, na qual nos encontramos inseridos pelo Batismo. Por isso, como diziam os Padres da Igreja, a Reconciliação é um batismo laborioso (laboriosus quidam baptismus), sublinhando assim que o resultado do caminho de conversão é também o restabelecimento da plena comunhão eclesial, que se exprime no abeirar-se novamente da Eucaristia” (Exortação Apostólica Pós-Sinodal Sacramentum Caritatis de S.S. Papa Bento XVI Sobre a Eucaristia).

Enfim, somos filhos amados e temos a graça de um tesouro maravilhoso - o próprio Deus - em nossas almas, mas apesar disso lembremo-nos que fomos feitos pela argila e podemos nos quebrar com facilidade, apesar das lutas contra o mal; por isso precisamos nos recompor neste Sacramento de amor. Vivemos no tempo do cumprimento das promessas onde Deus tem-se deixado encontrar e não exita em carregar nos ombros nossas dores e fragilidades. Mons. Escrivá de Balager ensinava que “os cristãos, levando Deus na alma, podiam viver ao mesmo tempo, "no Céu e na Terra”, eudeusados; mas sabendo que somos do mundo e que somos terra, com a fragilidade própria do que é da terra: um púcaro de barro que o Senhor Se dignou aproveitar para o Seu serviço”. Fomos Batizados na Esperança (Santo Agostinho, Bispo de Hipona e Doutor da Igreja) e ela nos faz caminhar, buscando agradar em tudo nosso Senhor, que não exitou em dar-nos seu Filho e para com Ele nos fazer filhos, com a mesmo direito a herança, desde que deixemo-nos conduzir pelo seu Espírito Santo, através de Sua Igreja. O perdão está disponível e o Pai ansioso na estrada a nossa espera para que retornemos de onde nunca deveríamos ter saído, para vivermos na alegria de Sua casa, onde insiste em colocar em nossos dedos o anel, dando-nos roupa nova e pondo em nossos pés as sandálias para que sigamos confiando sempre em Sua misericórdia que é eterna. “Acheguemo-nos a Deus e Ele se achegará a nós, Ele que é a videira verdadeira e nós como ramos permaneçamos ligados a Ela, para que tanhamos a vida, comprada a preço de Seu sangue precioso - é promessa de Deus e nela confiamos agradecidos. Amém.

A Trindade, a Igreja Católica e o Homem.


No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Tudo foi feito por Ele e sem Ele nada foi feito (Jo 1,1). Cristo é o Verbo incriado, o Deus unigênito que assume nossa condição humana e nos oferece a possibilidade de sermos filhos de Deus. Para Ele todas as coisas convergem e por Ele a criação foi ordenada e a humanidade restaurada.

por Ana Maria Bueno Cunha



Literalmente Jesus é o Filho amado do Pai, o Filho único, não é mais um, nem sequer o mais excelente de tantos filhos adotivos, mas com toda propriedade e força, Ele é verdadeiramente o Filho de Deus, o Unigênito, absolutamente distinto pela sua condição divina dos outros homens.

Veio para estabelecer o Reinado de Deus sobre eles, reinado que é justiça, amor, graça, retidão e, sobretudo, vida em abundância e eterna, já que ele não terá fim. Veio para elevar o homem à sua dignidade de filho que havia perdido pelo pecado. O Pai envia o Espírito para manifestar o Filho e este veio para salvar os homens, puro dom de Deus, amor gratuito que não olha as faltas, mas que se compadece e age. A Santíssima Trindade realiza a obra da redenção, realiza o que somente o amor pode realizar e somente Deus, que é amor, o pode fazer.

"Com grande propriedade a Igreja costuma atribuir ao Pai as obras em que brilha o poder, ao Filho as que brilham em sabedoria, ao Espírito Santo as que brilham o amor [...] O Pai, que é o princípio de toda a Trindade é causa eficiente de todas as coisas, da Encarnação do Verbo e da santificação das almas, d'Ele são todas as coisas: d'Ele, porque Pai. Já o Filho,Verbo imagem do Pai é a causa exemplar da qual todas as coisas refletem a forma e a beleza, a ordem e a harmonia; Ele que é para nós o Caminho, a Verdade e a Vida, aquele que reconcilia o homem com Deus, por Ele são todas as coisas, por Ele, porque Filho. O Espírito Santo é a causa última de todas as coisas, porque da mesma forma que a vontade e todas as coisas em geral encontram repouso em seu fim, assim Ele, que é a bondade e caridade que reúne entre o Pai e o Filho ...completa e termina as obras arcanas em vista da salvação do homem; n’Ele são todas as coisas: n’Ele, porque Espírito Santo (Denzinger n.3326 - Encíclica "Divinum Illud Munus - Papa Leão XIII).

Que é homem, Senhor, para cuidardes dele? Que é o filho do homem para que vos ocupeis dele? (Salmo 143, 3-4). Jesus veio ao mundo trazer a Boa Nova, o feliz anúncio. Ele não trouxe ao mundo uma nova doutrina filosófica, nem um projeto de reformas sociais, tampouco a consciência dos mistérios do além. Jesus transformou pela raiz a própria relação do homem com o Eterno, mostrando abertamente a todos a face de Deus, que antes mal se podia vislumbrar. Mostrou o agir e a vontade do Pai e por isto deu a conhecer o pensamento e a vontade de Deus. Sua boa nova fala precisamente desta vocação sublime do homem e da alegria que vem da união com o criador, sim porque o homem só se entende a partir de Deus e só quando vive na relação com Deus é que sua vida é correta, nos diz nosso amado Papa Bento XVI [RATZINGER, Josefh: Bento XVI: Jesus de Nazaré. São Paulo: Planeta, 2007. p. 121]

Jesus veio mostrar que esta união pode ser de cada pessoa com Deus, porque o amor de Deus por cada um é totalmente pessoal e traz em si um mistério de unicidade. Sua pregação não se dirige às massas, ao formigueiro anônimo, mas às pessoas, uma a uma. No meio da multidão, o nível espiritual do homem decai, fica ao sabor dos instintos do grupo. É por isso que Jesus dá importância ao destino dos indivíduos, porque cada homem tem em si um mundo inteiro, este homem que foi criado pelo Pai, com um pé no chão e outro na eternidade. Um indivíduo que tem sede das coisas eternas, que tem um espaço em seu coração que enquanto não for preenchido pela presença, pela inabitação de Deus, não descansa e cumpre seu fim. Onde Deus não está, nada pode ser bom; onde Deus não é visto, o homem arruína-se, e arruína-se o mundo.

"Tão tarde vos amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tão tarde Vos amei! Vós estáveis dentro de mim, mas eu estava fora, e fora de mim Vos procurava; com o meu espírito deformado, precipitava-me sobre as coisas formosas que criastes. Estáveis comigo e eu não estava convosco. Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria se não existisse em Vós. Chamastes, clamastes e rompestes a minha surdez. Brilhastes, resplandecestes e dissipastes a minha cegueira. Exalastes sobre mim o vosso perfume: aspirei-o profundamente, e agora suspiro por Vós. Saboreei-Vos, e agora tenho fome e sede de Vós. Tocastes-me e agora desejo ardentemente a vossa paz" (Santo Agostinho, Confissões).

Jesus quando fala do rebanho, não fala no todo, mas olha por cada ovelha individualmente, elas ouvem sua voz e isso é intimidade, identificação e é exatamente por isso que Jesus ia a todos indistintamente, não levando em conta suas grandes culpas e seu afastamento do Pai que os fazia sofrer, porque se perderam do caminho. Jesus foi o primeiro a falar do Pai que qualquer humano pode encontrar, basta querer e deixar-se conduzir pela voz que o chama em seu íntimo. Mas o Pai tem uma característica maravilhosa que é de ter um amor que não se impõe e que resguarda a liberdade humana. Deus é o dono da casa e convida todo homem a sentar-se à sua mesa. Tem um lugar para cada um que o reconhece como Pai e Senhor de tudo que há e tem os braços abertos na espera de todos, porque para Ele o pecado não constitui mais um problema, Ele o sanou ao enviar seu Filho, mas espera que cada um escute sua voz, o seu chamado permanente e incansável, para que possam ter a vida que Ele oferece gratuitamente. Puro dom, puro amor!

"A verdadeira liberdade é a marca por excelência da imagem de Deus no ser humano. Pois Deus quis deixar o homem nas mãos de sua própria decisão, para que busque a si mesmo o seu Criador e aderindo a Ele, plenamente chegue á plena e a beatífica perfeição” (cf Gaudium et Spes - Igreja no Mundo).

Este homem tem duas opções: - pode rejeitar, ignorar o convite para sua própria ruína e tais atitudes têm origens diversas como a revolta contra o mal do mundo, a ignorância ou indiferenças religiosas, as preocupações das coisas do mundo e com as riquezas, o mau exemplo dos cristãos, as correntes de pensamentos hostis à religião, e finalmente essa atitude do homem pecador que por medo, se esconde diante de Deus e foge diante do seu chamado; ou aceitá-lo, ouvindo a sua consciência, sim, porque no fundo dela, o homem descobre uma lei que ele não se dá a si mesmo, mas à qual deve obedecer. Essa voz que sempre o chama a amar, fazer o bem e a fugir do mal, soa no momento oportuno, na intimidade de seu coração: - faze isto, evita aquilo. O homem tem no coração uma lei inscrita pelo próprio Deus: a sua dignidade está em obedecer-lhe, e por ela é que será julgado; a consciência é o centro mais secreto e o santuário a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir

Jesus convida a todos, e para tanto o Pai se utiliza do seu divino Espírito, este que é Deus, a saber, a maravilhosa terceira pessoa da Santíssima Trindade, porque ninguém pode dizer Jesus é o Senhor a não ser no Espírito Santo. (I Cor 12,3)

Como ouvir este Espírito e como Ele age em nós para nos tornarmos santos e irrepreensíveis diante do Senhor? Ele que é nosso advogado, nosso consolador, o Espírito da Verdade. Ele que é um Deus oculto que não se revela a Si mesmo, mas somente aponta para outro tão sublime e tão importante quanto Ele e que se faz conhecer na pessoa do Verbo? Que atua desde sempre porque também estava junto de Deus na criação, manifestando-se nos profetas e agora na edificação e sustentação da Igreja onde todos poderão encontrar Aquele que Ele revela? Sim! Porque Ele desvenda Cristo, mostra-nos sua face e muito mais, mostra seu coração e sua obra redentora e com total poder e força age nos corações humanos para atraí-los a Cristo Redentor, e muitos, para alegria de Deus e para o seu próprio bem, sucumbem à sua voz para sua própria salvação.

Ele que inspirou as Escrituras, que agiu na Tradição tendo testemunhas tantos Padres maravilhosos, que assiste ao Magistério da Igreja, não o deixando errar, o capacitando a somente mostrar o verdadeiro caminho, que age na liturgia sacramental nos colocando em comunhão com Cristo; Ele que está na oração intercedendo por cada um de nós, que ora por nós e nos conduz a rezar com a Igreja sempre! Que distribui os carismas para que se coloque a serviço desta Igreja maravilhosa onde irradia Cristo no serviço aos irmãos. Como ouvi-lo, onde Ele se encontra, como Ele age? Nela o encontramos e é para Ela e para a pessoa de Cristo sua Cabeça, que o Espírito age impulsionando a todos. Todo homem há de se chegar a Ela para encontrar Cristo e conseqüentemente encontrar a vida.

Quando Jesus é glorificado, juntamente com o Pai, envia o Espírito aos que crêem n'Ele para que possam viver no Cristo e para o Cristo. E por Ele Deus pode fazer novas todas as coisas, Ele que ficará conosco para sempre, permanecerá conosco, nos ensinará tudo e nos recordará o que Cristo nos disse e d'Ele dará testemunho, e sempre levará os homens à verdade e sempre glorificará Cristo, o Senhor de todos.

O Espírito que unge o Filho é o mesmo que o Filho envia juntamente com o Pai para revelá-lo aos homens. E o dia glorioso de sua vinda – chamado Pentecostes - ficará marcado para sempre até que Cristo tenha entregue tudo e todos ao Pai, já que se consumou a vontade divina. Diz as Escrituras, que ao vir sobre os Apóstolos, o Espírito se manifestou em forma de vento e ruído mostrando sua presença e na forma de línguas de fogo distribuídas sobre eles, mostrando que Espírito Santo ilumina a inteligência dos discípulos fazendo-os compreender tudo que o mestre havia dito e ensinado, os inflamando de amor, eliminando os medos e dando-lhes todo destemor para anunciar e falar em Nome de Cristo dá a eles forças e sabedoria para continuar aqui sua obra, conduzindo visivelmente a Igreja, esposa santa do Senhor.

“Repartidas, pois, provinham de uma mesma fonte; para que aprendas que o poder vem do paraclito” (Bíblia de Navarra – São João Crisóstomo Homilia Sobre Atos, p. 67)

“O maravilhoso é que o pentecostes não foi um fato isolado na vida da Igreja. “Temos o direito, o dever de vos dizer que o pentecostes continua. Falamos legitimamente de ‘perenidade’ do pentecostes. Sabemos que cinqüenta dias depois da Páscoa, os Apóstolos, reunidos no mesmo Cenáculo que tinha servido para a primeira Eucaristia e onde depois se realizou o primeiro encontro do ressuscitado, descobrem em si a força do Espírito Santo, que desceu sobre eles, a força d’Aquele que o Senhor tinha prometido repetidamente pelo preço do Seu padecimento numa Cruz; e fortes com essa fortaleza, começaram a atuar, isto é, a realizar o seu serviço (...). nasce assim a Igreja apostólica. Mas ainda hoje – e aqui está a continuidade – a Basílica de São Pedro em Roma e cada templo, cada Oratório, cada lugar onde se reúnem os discípulos do Senhor é um prolongamento do primitivo cenáculo” ( Bíblia de Navarra p. 69 – João Paulo II, Hom. 25 – V – 1980).

Com o sopro do Espírito, nasceu na Igreja, a palavra, o testemunho, o anúncio da salvação em Jesus ressuscitado, e naquele que escuta o anúncio nasceu a fé e com ela uma consciência de nova vida, e para não diminuir este fluxo divino nasceu o apostolado, o sacerdócio. E no meio deste nascimento, aparece um homem, entre tantos, turrão, duro, calejado, mas com um coração grandioso capaz de amar até o fim – Pedro – quem poderia compreender tal mudança num homem assim? Ora! São João Crisóstomo nos ajuda a entender, porque compreendeu a força do Espírito que faz novas todas as coisas. ”Ouvi pregar e discutir com valentia, escreve, entre as massas de inimigos, aquele que pouco antes se assustava diante da palavra de uma simples criada! Esta ousadia é uma prova significativa da Ressurreição do seu Mestre, pois Pedro prega entre homens que zombam e se riem do seu entusiasmo (...). A calúnia ( estão cheios de vinho doce) não perturba o espírito dos Apóstolos; os sarcasmos não diminuem a sua coragem, pois a chegada do Espírito Santo fez deles homens novos e superiores a todas as provas humanas. Quando o Espírito Santo penetra nas almas, é para elevar os seus afetos e para fazer,de almas terrestres e de barro, almas escolhidas e de uma coragem intrépida (...). Admirai a harmonia que reina entre os Apóstolos” Como cedem a Pedro o encargo de tomar a palavra em nome de todos! Pedro eleva a voz e fala à multidão com confiança intrépida. Tal é a coragem do homem instrumento do Espírito Santo (...) igual a um carvão aceso, longe de perder o seu ardor, ao cair sobre um montão de palha, encontra ali ocasião de fazer sair o seu calor, assim Pedro, em contato com o Espírito Santo que o anima, estende à sua volta o fogo que o devora” (Bíblia de Navarra - Atos dos Apóstolos p.74)

Ali com Pedro e com o Espírito Santo que foi derramado, nasceu a esposa de Cristo, ornada com seus dons e com seu poder de levar os homens de novo ao seu encontro. Esta congregação de todos os batizados, unidos na mesma fé verdadeira, no mesmo sacrifício e nos mesmos sacramentos, sob a autoridade do Sumo Pontífice e dos Bispos em comunhão com ele. Esta que reúne o mundo reconciliado com Deus. Sim, ardemos a ela pela fé no Cristo, aceitando sua doutrina sob o olhar e o poder de nosso pastor o Papa.

Deus criou a Igreja de uma forma muito semelhante a criação do homem: Ele desenhou, o Corpo da Igreja na Pessoa de Jesus Cristo. Ele escolheu os seus doze apóstolos, destinados a serem os primeiros Bispos da sua Igreja. Durante três anos, instruiu-os e treinou-os nos seus deveres, e neste mesmo período desenhou também os sete canais,os sete sacramentos, pelos quais fluiriam as almas dos homens as graças que Ele ganharia na cruz. Nos deu dentre eles, a condição de nascermos de novo e perdoando nossas faltas nos fez filhos e membros de Sua Igreja. Cristo é a Cabeça do Corpo: - cada batizado é uma parte viva, um membro desse Corpo, cuja alma é o Espírito Santo

Quando somos batizados, o Espírito Santo toma posse de nós, de maneira muito semelhante àquela com que a nossa alma toma posse das células que se vão formando no corpo. Este mesmo Espírito Santo é por sua vez o Espírito de Cristo, que “se compraz em morar na amada alma do nosso Redentor como no seu santuário mais estimado; é o Espírito que Cristo nos mereceu na Cruz, pelo derramamento do seu sangue [...]. Porém, após a exaltação de Cristo na cruz, o seu espírito derrama-se superabundantemente sobre a Igreja, a fim de que ela e os seus membros individuais possam tornar-se dia a dia mais semelhantes ao seu Salvador” (Pio XII).

“Pelo batismo os homens são efetivamente enxertados no mistério pascal de Cristo: morrem com Ele, são sepultados com Ele e ressuscitados com Ele (Sacrosanctum Concilium n.5). “Note-se também que se trata de um mistério recôndito, que neste exílio terrestre nunca se poderá completamente desvendar ou compreender nem explicar em linguagem humana.[...].É assim que Nosso sapientíssimo Predecessor de feliz memória Leão XIII, tratando desta nossa união com Cristo e da habitação do Espírito Paráclito em nós, muito oportunamente fixa os olhos na visão beatífica, que um dia no céu completará e consumará esta união mística. "Esta admirável união, diz ele, que com termo próprio se chama "inabitação", difere apenas daquela com que Deus no céu abraça e beatifica os bem-aventurados, só pela nossa condição (de viajores na terra)".(55) Naquela visão poderemos com os olhos do Espírito, elevados pelo lume da glória, contemplar de modo inefável o Pai, o Filho e o Divino Espírito, assistir de perto por toda a eternidade às processões das divinas Pessoas e gozar de uma bem-aventurança semelhantíssima àquela que faz bem-aventurada a santíssima e indivisível Trindade.(Carta Enciclica Mistici corporis).

Deus através desta inabitação nos dá sua graça em abundância, nos capacita a buscá-lo, a estarmos aptos e vê-lo um dia, face a face no céu! Esta esperança que nos faz buscar a graça incessantemente, porque infelizmente pelo pecado - pois ainda pecamos -, podemos perdê-la, o que constitui nossa ruína.

Devemos, pois, ter a maior estima pela vida da graça; é uma vida nova, uma vida que nos une e assemelha a Deus, com todo o organismo necessário à sua atividade. E é uma vida muito mais perfeita que a vida natural. Se a vida intelectual está muito acima da vida vegetativa e sensitiva, a vida cristã transcende infinitamente a vida simplesmente racional. Na verdade, esta é devida ao homem, desde que Deus se resolve a criá-lo, ao passo que a vida da graça supera todas as atividades e merecimentos das mais perfeitas criaturas. Pois quem poderia reclamar o direito de ser constituído filho adotivo de Deus, e templo do Espírito Santo, ou o privilégio de ver a Deus face a face, como Ele se vê a Si mesmo? Devemos, pois, estimar esta vida mais que todos os bens criados, considerá-la como tesouro escondido, para cuja aquisição ninguém deve hesitar em vender tudo que possui.

Uma vez que entrou em posse deste tesouro, é mister sacrificar tudo, antes que expor-se a perdê-lo, sendo essa a conclusão que tira o Papa São Leão Magno: “Agnosce, o cristiane, dignitatem tuam, et, divinae consors factus naturae, noli in veterem vilitatem degeneri conversatione redire” – Ninguém mais que o cristão se deve respeitar a si mesmo, não certamente por causa dos próprios méritos, senão por causa desta vida divina de que participa, e por ser templo do Espírito Santo, templo sagrado, cuja beleza não é lícito contaminar: “ Domum tuam decet sanctitudo in longitudinem dierum” (Tanquerey – Natureza da Vida Cristã - p.113).

Neste contexto que o homem tem que se deixar conduzir pelo Espírito, se andamos com Ele, vivamos também para Ele. O Homem em sua vida sabe que terá de lutar contra todas as concupiscências - dos olhos, do mundo e da carne - e sabe que não termina senão com a morte, luta de importância capital, pois nela se joga a vida eterna. O homem velho, este que é carnal, com as tendências más que o batismo não eliminou de nossa alma, sempre tenderá a lutar contra o novo, o homem regenerado, com tendências nobres divinas sobrenaturais que o Divino Espírito produz em nós graças aos méritos de Jesus e à intercessão da Santíssima Virgem e dos Santos.

Esta luta é amenizada com nossos esforços aliada à graça de Deus. A esta que devemos a vitória, mas não podemos jamais nos esquecer que as graças são dadas para o combate e não para o repouso que seria nossa ruína, e que precisamos a todo custo estarmos de pé para não cairmos,lutando contra as paixões que combatem contra nosso ser. Mas se alguém cair e pecar temos diante do Pai um intercessor, justo, santo, capaz, que se compadece e nos restitui a graça de que tanto necessitamos.

Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo Se encontra, sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima e não às da terra. Porque estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, vossa vida aparecer, então também vós aparecereis com Ele na glória. (Col 3,1-4). E então poderás ouvir: ”Muito bem, servo bom e fiel; visto que foste fiel no pouco, eu te confiarei muito; entra no gozo de teu Senhor” (Mt 25,21). Amém.

A Mansidão para com o Próximo.


Da Vida de São Francisco de Sales.

Bispo da Igreja de Cristo


"Trabalhai por adquirir a Suavidade de Coração para com o Próximo".

1. A flor da Caridade.

1. Na sua "Introdução à Vida Devota" trata São Francisco de Sales "da doçura para com o próximo", que ele denomina "a flor da caridade". Com efeito, "aquele que é afável e brando, escreve ele em uma de suas cartas, não ofende a ninguém, suporta e atura de boa vontade os que o maltratam, enfim sofre pacientemente as pancadas e não retribui o mal com o mal. O manso nunca se aItera, mas embebe todas as suas palavras na humildade, vencendo o mal com o bem". Não nos cansemos de contemplar e escutar aquele que, de todos os santos, se aplicou melhor a reproduzir a mansidão e a benignidade de Cristo. Seu exemplo, como os seus ensinamentos, serão para nós uma luz benfazeja. Testemunhas da acolhida de São Francisco de Sales em seu bispado ou folheando a sua correspondência, admirar-lhe-emos a doçura amável e paciente, sempre igual, para com todos. Adquirida a poder de um longo esforço e cuidadosamente cultivada como uma virtude de eleição, alimenta-se ela na caridade do bispo de coração largo e magnânimo. Delicada e bem-humorada, indulgente e compassiva, ela nunca abdica da sua firmeza. Se nos entregarmos ao seu fascínio, ela nos conduzirá, pela renúncia oculta sob o véu do sorriso, bem longe, no caminho da santidade.

2. No bispado de Annecy.

Abeiremo-nos do Bispo de Genebra. A porta está sempre aberta, e para todos os que aí vêm bater. Os criados receberam ordem "de não mandar embora ninguém que lhe quisesse falar; e se, à conta de alguma imperiosa necessidade, fosse preciso despedi-los, exigia que fosse com tanta afabilidade que os visitantes não perdessem a confiança de voltar. Veja essas pessoas de qualidade, com que distinção as recebe. "Como não há ninguém que se preocupe menos das honras do que eu, dizia ele, não há ninguém disposto a dar mais honra aos outros do que eu". Sucedeu-lhe até, certa vez, tratar muito obsequiosamente o criado de um gentil homem; e como lhe chamassem a atenção: "Não sei distinguir muito as pessoas, explicou; só considero uma coisa: que todos trazem o caráter de cristão". De fato, não eram só as pessoas de qualidade que ele acolhia assim, mas todos os que dele se aproximavam; e eram numerosos, às voltas com alguma tribulação, os que acorriam a ele, porque se sabia que todo aquele que se dirigia a ele voltava consolado.

Os de casa o punham de sobreaviso contra as rusticidades e sensaborias desses humildes visitantes. "E nós, que somos?" respondia ele. Mas, diziam-lhe, fazeis mal de sofrer essas incomodidades. E ele: "Que quereis que eu faça? É preciso dar consolação aos que a vêm procurar". Pedia desculpas a uma nobre dama de a ter feito esperar ouvindo ‘todo o tempo que ela quis’, uma pobre mulher que acabava de perder os seus filhos e que desafogava com ele a sua amargura. "Gosto muito dessas pobres aldeãs, confessava ele, são almas tão boas, tão simples, tão cheias do temor de Deus!". Com que doçura abria os braços aos pecadores, aos maiores pecadores! Seus amigos se escandalizavam. "Com toda a certeza, disse-lhe um dia um deles, Francisco de Sales irá para o paraíso; mas quanto ao Bispo de Genebra, não sei; receio muito que sua mansidão lhe pregue alguma peça". – "Ah! respondeu ele, mais vale ter que dar contas de uma doçura demasiada que de uma severidade excessiva. Deus não é todo amor? Deus Pai é o Pai das misericórdias, Deus Filho se denomina um cordeiro, Deus Espírito Santo se mostra sob a forma de uma pomba, que é a mesma doçura. Se melhor coisa houvesse que a benignidade, Jesus no-lo teria dito, e no entanto Ele só nos dá duas lições que aprendemos dele: a mansitude e a humildade de coração. Quereis, então, impedir-me de aprender a lição que Deus me deu, e sois acaso mais sábio que Deus?".Mas, objetavam-lhe, são apóstatas, homens perdidos, indignos de vossas carícias". – "Que pena! respondia ele, então só existimos Deus e eu para amarmos esses pobres pecadores! Querem que eu me esqueça de que são minhas ovelhas, que eu recuse minhas lágrimas àqueles aos quais Jesus Cristo deu todo o Seu sangue; e a quem farei misericórdia, senão aos pecadores? .. Que aquele que gosta do rigor se afaste de mim, porque disso não quero eu ter".

Dessa admirável mansidão São Francisco de Sales nunca se apartava, mesmo quando se lhe apresentavam pessoas arrebatadas pela cólera. Como aquele homem que, considerando-se lesado pelo Bispo, levou cães uivantes é "fez soar a trompa de caça por desprezo e derisão" no pátio do Bispo, depois, subindo até a residência do Monsenhor, injuriou-o e chegou a levar a mão à guarda da espada. Ou ainda esse comendador de Malta que, vexado com o fracasso de um candidato que patrocinava, entrou em casa do Bispo de chapéu na cabeça, lançou-lhe em rosto as mais grosseiras injúrias, depois saiu precipitadamente. Às testemunhas indignadas da cena, o santo se contentou com dizer: "Devo ser-lhe grato por me ter dispensado do trabalho de opor minhas razões aos seus arrebatamentos".Se analisarmos a mansidão de São Francisco de Sales, distinguiremos nela um maravilhoso conjunto dessas pequenas virtudes, modestas e escondidas, que crescem ao pé da cruz, como ele próprio dizia, e que ele estimava tanto: a humildade, a paciência, a cortesia respeitosa e a sincera estima dos outros, todas ligadas entre si pelo sobrenatural amor das almas que o mantinha constantemente, numa perfeita abnegação, ao serviço dos outros. Ao serviço dos seus próprios criados ... "Meu amigo, quando entrei, escrevíeis, disse ele certo dia a um dos seus empregados que, surpreendido com a che¬gada do seu amo, empurrara para longe de si a caneta, o tinteiro e o papel. Que escrevíeis, pois? Não serei bastante de vossos amigos para que me façais essa confiança? O pobre rapaz, todo confuso, apresentou o papel ao bispo, que leu e concluiu: "Não entendeis nada disso". Em seguida, sentou-se e escreveu. "Aqui está, disse ele, copiai isso. Ponde-lhe o vosso nome e enviai-o e vereis que tudo irá bem". Alguns dias mais tarde uma jovem viúva, lisonjeada com a delicadeza com que o empregado lhe pedia a mão, vinha consultar o Bispo que a encorajou ao casamento".

E há coisa ainda melhor. Tinha Monsenhor um criado de quarto que não gostava de se deitar tarde. Mas não gostava tampouco de se deitar cedo, se o seu patrão, para dar conta da sua tarefa, fosse obrigado a prolongar a vigília. Francisco de Sales instava com ele para que fosse descansar, para não se aborrecer com a espera. "Tomais-me, então, por um dormido ou preguiçoso?" resmungava, mal-humorado, o criado. E o Bispo apressava então o seu trabalho, para poupar o seu empregado. Ao levantar, mesma perplexidade. Se o chamava, tinha o aspecto de se queixar de não haver dormido bastante. Se não chamava... "Quem vos vestiu?" pergunta o empregado, que irrompe subitamente no escritório do Bispo, absorvido no seu trabalho, com a impetuosidade de um homem que dormiu até mais não poder, e cujos olhos, empapuçados de sono, suportam mal a viva claridade do dia. – "Fui eu mesmo, responde o Bispo; acaso não sou bastante grande e forte para isso?" - "Será que vos custava tanto me chamar?" ralha o criado. – "Asseguro-vos que vos chamei diversas vezes; cheguei a ir ao vosso leito, e vos encontrei dormindo tão profundamente e com tanta vontade que não vos quis acordar". – "É isso, caçoai de mim!" – "Oh! meu amigo, não o disse por zombaria, mas por pura recreação. Ficai tranqüilo de futuro; prometo-vos que de outra vez, já que o quereis, não me vestirei mais sem vós. Despertar-vos-ei e vos farei levantar".

Ora, quer tenha São Francisco de Sales que se haver com os seus criados, quer receba vísitantes descorteses, quer acolha pobres pecadores, quer console os atribulados, quer converse com pessoas de qualidade ou humildes aldeãs, notou o leitor o tom, a doçura de sua voz? Admirava-se alguém da moderação com que repreendera a um jovem pelo seu mau procedimento. "Eu temia derramar em um quarto de hora, confessou ele, esse pouco de licor de mansuetude que procuro recolher há vinte e dois anos, como um orvalho, no vaso de meu coração". Deliciosa imagem, admirável, ao mesmo tempo, de delicadeza e verdade! Pessoas há que só sabem pronunciar palavras ásperas; é que têm no coração um licor amargo e corrosivo, que envenena todo o seu falar. Nos lábios do Bispo de Genebra, tudo é doçura e suavidade, porque, antes de sair de sua boca, as suas palavras passaram por essa toalha de mansuetude, com a qual se esforçou por encher, como com um orvalho refrigerante, o vaso de seu coração. E nós, a quem acontece acolhermos de maus modos, sermos duros para com os que nos vêm procurar, termos réplicas secas, reflexões descorteses, peçamos a São Francisco de Sales que nos ensine a mansidão .

3 -A doçura de Coração para com qualquer pessoa em particular.

"Não percais nenhuma ocasião, por pequena que seja, diz-nos ele, de exercitar a doçura de coração para com qualquer um". Retenhamos o conselho. E para procurarmos segui-lo com mais fidelidade, tratemos de descobrir porque faltamos à brandura e delicadeza em nosso trato com os outros. Por quê? É que estamos descontentes, - descontentes de nós mesmos e descontentes dos outros, que nos são antipáticos ou importunos. Descontentes conosco mesmos! Bem sabe ele que, com efeito, temos motivo de estar, não raro, descontentes conosco e que isso nos dispõe desfavoravelmente em relação ao próximo. Recomenda-nos, por conseguinte, que nos encha-mos de amor de Deus e, que sejam quais forem as nossas trapalhadas, fiquemos sempre sossegados e tratemos os outros com doçura. "Que vos posso dizer, minha querida filha, senão o que tão amiúde vos tenho dito, que vades sempre seguindo o vosso curso ordinário, o mais que puderdes, por amor de Deus, fazendo mais atos interiores desse amor e ainda exteriores, e sobretudo submetendo quanto puderdes o vosso coração à santa mansidão e tranqüilidade convosco mesma, ainda que tentada ou aflita, ainda que miserável". Essa tranqüilidade para conosco mesmos nos ajudará a suportar sossegadamente o próximo. Porque o próximo nos é por vezes antipático. Com muita freqüência, aliás, não saberíamos dizer porque. Sua fisionomia, sua atitude, o tom de sua voz não nos agradam. Outras vezes, temos bastante razão para achá-lo desagradável: suas manias nos enervam, e nos sentimos ofendidos com as suas esquisitices de caráter, seus desmandos de linguagem, seus modos de agir. São Francisco de Sales apela para o nosso espírito de fé. [i]“Força nos é considerarmos o próximo em Deus; ... após ter pedido o amor de Deus, é sempre necessário pedir o dos próximos, e particularmente daqueles para os quais a nossa vontade não tem nenhuma inclinação".

"Quando será que seremos inteiramente embebidos em doçura e suavidade para com o próximo? Quando veremos as almas de nossos próximos no peito sagrado do Salvador? Ai de nós! Quem olha o próximo fora disso, expõe-se ao risco de não o amar, nem puramente, nem constantemente, nem igualmente; mas lá, nesse lugar, quem o não amaria? Quem o não suportaria? Quem não lhe sofreria as imperfeições? Quem o acharia antipático? Quem o consideraria enfadonho?" "Sobretudo, insiste ele, é indispensável que tenhamos um coração bom, brando e afetuoso para com o próximo, e particularmente quando ele nos molesta e entedia; porque então não temos nada nele para o amar, exceto o respeito do Salvador, o que torna o amor, sem dúvida, mais excelente e digno, na proporção em que é mais puro e isento das condições caducas".Essas vistas sobrenaturais São Francisco de Sales as relembra sempre que nos exorta à mansidão e tolerância fraternas."Trabalhai por adquirir a suavidade de coração para com o próximo, considerando-o como obra de Deus, e que enfim gozará, se assim aprouver à bondade celeste, do paraíso que nos está preparado. E os que Nosso Senhor suporta, nós devemos suportar com ternura, com grande compaixão pelas suas enfermidades espirituais". Impelidos por esses motivos de fé, combateremos fielmente as nossas impaciências, reprimiremos nossos assomos de cólera, triunfaremos das aversões e repugnâncias pelo exercício da mansidão. "Combatei fielmente vossas impaciências não somente a todo propósito mas ainda fora de propósito, a santa bonhomia e mansidão em relação àqueles que vos são mais enfadonhos, e Deus abençoará o vosso desígnio". "Tratai com extrema doçura e caridade com o próximo e as Irmãs, sobretudo com aquelas que, devido à imperfeição de seu espírito, falta de graças naturais ou maus ofícios, vos ocasionarem alguma aversão e aborrecimento".

"Sede boa para com o próximo, e não obstante as revoltas e assomos da cólera, pronunciai em freqüentes ocasiões estas divinas palavras do Salvador: "Eu os amo, Senhor, Pai eterno, a esses próximos, porque vós os amais e mos destes por irmãos e irmãs, e quereis que, como vós os amais, eu os ame também! Amai, sobretudo, essas caras irmãs com as quais a própria mão da Providência divina vos associou e ligou com um vínculo celeste; suportai-as, acariciai-as e ponde-as dentro de vosso próprio coração". "Não duvido que se declarem aversões e repugnâncias em vosso espírito; mas, minha muito querida filha, são ou¬tras tantas ocasiões de exercitar a verdadeira virtude da mansidão; porque é mister fazer bem e santamente, e afetuosamente o que a cada um devemos, embora com repugnância e sem prazer".

Nunca aceitaremos em nosso coração sentimentos de ódio, e seremos bastante senhores de nós mesmos para refrearmos a nossa língua e nos proibirmos queixas e lamúrias sem fim por conta dos que nos teriam censurado. “É preciso, sobretudo, combater o ódio e os descontentamentos para com o próximo, e abster-se de uma imperfeição insensível, mas grandemente nociva, da qual poucos se abstêm; que é que, se nos acontece censurarmos o próximo ou nos queixarmos dele (o que raramente devia acontecer), não acabamos mais, mas recomeçamos sempre e repetimos nossas queixas e lamúrias sem fim: o que é sinal de um coração picado e que ainda não tem saúde verdadeira. Não se lamentam os corações fortes e enérgicos a não ser por grandes razões, e ainda assim, quanto a essas grandes razões, não conservam eles muito ressentimento, ao menos com perturbação e ansiedade". Esse conselho de São Francisco de Sales, empenhar-nos-emos nós em segui-lo, ainda que a nossa caridade não seja retribuída, porque é no Coração de Cristo que se aviva nos nossos a chama do puro e desinteressado amor ao próximo. "O grande bem, a nossa felicidade na perfeição, seria não termos nenhum desejo de sermos amados pelas criaturas. Que vos há de importar que vos amem ou não? E se encontrais ocasiões que vos fazem parecer que não gostam de vós, é necessário que prossigais em vosso caminho, sem vos entreterdes a considerá-las. Devemos amar ao próximo e ter-lhe afeição, a cada um na sua categoria, conforme o desejo de Nosso Senhor, tudo fazendo que esteja ao nosso alcance para contentá-lo e ser-lhe proveitosos, porque esse é o desejo de Deus. E se aprouver a Deus que tenhamos amor de seus corações, é uma grande consolação e bênção de Deus: e se isso não aprouver à sua bondade, deve contentar-nos com o amor do Coração de Nosso Senhor, que é mais do que suficiente".

Mesmo simpático, pode o próximo irritar-nos com as suas importunações, suas opiniões diferentes das nossas e, sobretudo se é de nossa família ou pessoa chegada a nós com as suas omissões e até com os seus testemunhos de afeição. Suas importunações. Não esconde o bispo que "as incursões que os amigos fazem em nossa liberdade, são mavilhosamente molestas; mas, afinal, escreve ele, cumpre suportá-las, depois carregá-las e finalmente amá-las como amadas. contradições". Estamos mergulhados em um trabalho que nos absorve toda a atenção, e vêm distrair-nos com bagatelas; rebaixam a gravidade de nosso espírito a futilidades, retêm-nos sobre questões ociosas."Amai a santa virtude de suportar os outros e a da santa flexibilidade", escrevia São Francisco de Sales; e, com a costumada condescendência, ei-Io que se adapta a todos os estados de alma e se esforça por responder a todas as perguntas. Uma religiosa da abadia de Santa Catarina tem algum escrúpulo de recitar um Pai Nosso para dissipar dores de cabeça: "O Pai Nosso que dizeis para a dor de cabeça não é proibido; mas, meu Deus, minha filha, não, eu não teria coragem de pedir a Nosso Senhor, pela dor que sentiu na cabeça, não ter dores nenhuma na minha. Acaso Ele suportou para que nós não suportássemos? Santa Catarina de Sena, vendo que seu Salvador lhe apresentava duas coroas, uma de ouro, outra de espinhos: "ó, eu quero a dor, diz ela, para este mundo: a outra será para o céu". Quisera empregar a coroação de Nosso Senhor para obter uma coroa de paciência à volta de minha dor de cabeça. .. Vivei toda entre os espinhos da coroa do Salvador e, como um rouxinol, no seu arbusto, cantai, filha minha: 'Viva Jesus’

Uma de suas filhas da Visitação se entristece e se inquieta por não conseguir chorar de devoção."Não vos digo nada, minha boa filha, de vosso coração quanto a não terdes lágrimas. Não, minha filha, porque o pobre coração não é responsável disso, visto como isso não acontece por falta de resoluções e vivos afetos de amar a Deus, e sim por falta de paixão sensível, que não depende em nada de nosso coração, mas, de outra espécie de disposições que não podemos conseguir; porquanto da mesma forma, minha querida filha, que neste mundo não é possível que possamos fazer chover quando queremos, nem impedir que chova quando não queremos que chova, também não está em nosso poder chorar quando queremos, por devoção, nem deixar de chorar também, quando a veemência dos afetos nos empolga. Isso não vêm de nossa falta, o mais das vezes, mas da providência de Deus, que nos quer fazer seguir o nosso caminho por terra e pelo deserto, e não pelas águas, e quer que nos acostumemos ao trabalho e à dureza".

Pergunta-lhe uma dama, cujo nome ignoramos, como afugentar o sono que a entorpece na oração. "Não vos perturbeis absolutamente com os vossos letargos, contra os quais é preciso fazer duas coisas: uma é mudar freqüentemente de posição na oração, como ter as mãos ora cruzadas sobre o estômago, ora juntas, ora estendidas, ora estar de pé, ora de joelhos num joelho, ora noutro, à medida que as sonolências vos chegarem. A segunda coisa é lançar freqüentemente palavras exteriores, de boca, semeadas entre vossa oração mais ou menos cerradamente, conforme vos virdes mais ou menos fortemente atacada de letargos". Isso o mudava inteiramente de madame de Chantal; mas que seja bendita, essa dama desconhecida, por nos ter valido estas linhas que enriquecem de modo tão original a espiritualidade de São Francisco de Sales. Que seja bendita e durma em paz! Eis o que é mais grave. "Nossas irmãs, conta uma religiosa da Visitação de Lyon, gozavam dessa santa alegria que é comumente o quinhão de uma alma que nada tem a censurar-se e que não disputa nada a Deus. É do lado da alegria que o inimigo as tentou. Caiu-se em algumas leviandades no coro durante o ofício. A superiora, a madre Favre, ficou aflita com isso e consultou o bispo. Recebeu esta resposta: "A tentação de rir na igreja e no ofício é má, embora possa afigurar-se apenas uma expansão inocente e ingênua, porque, depois da caridade, a virtude da religião é a mais excelente; na verdade, como a caridade dá a Nosso Senhor o amor que lhe é devido segundo as nossas possibilidades, também a religião lhe confere a honra e a reverência requeridas, e portanto, as faltas que se cometem contra ela são grandemente más. Verdade é que eu não vejo nisso nm grande pecado, porque é contra a vontade; más não deve passar sem alguma penitência. Quando o inimigo não consegue tornar nossas almas Marion, torna os nossos coraçães Robin; e pouco se lhe dá disso, contanto que o tempo se perca, o espírito se dissipe e sempre alguém se escandalize. Mas, reparai, cara filha do meu coração, Não atemorizeis essas boas jovens, porque de um extremo poderiam passar ao outro, o que não convém".

Pode o próximo parecer-nos importuno quando não se compagina com as nossas idéias. Nesse caso, na discussão, os esquentamos e defendemos o nosso parecer com um vigor obstinado. São Francisco de Sales não se obstinava. Tinha por regra "nunca contradizer ninguém, a não ser que houvesse pecado ou dano notável em deixar de fazê-lo". E dizia: "Quando é preciso contradizer alguém e opor a própria opinião à de outrem, é necessário usar de grande brandura e destreza, sem querer violentar o espírito de ninguém, porque não se ganha nada agindo com aspereza. .. O espírito humano pode ser persuadido, não constrangido. Constrangê-lo é revoltá-lo".

Na discussão com os protestantes, logo apaixonada, preferia ele, por isso, a exposição simples da doutrina cristã. Verdade é que infundia nela uma flama tal, um tal acento de amor, que comovia os corações e desse modo inclinava os espíritos a aceitar a verdade. Escrevia a madame de Chantal: "Estando em Paris e pregando na capela da Rainha sobre o dia do juízo (não é um sermão de controvérsia), encontrava-se aí uma senhorita, chamada mademoiselle Perdreauville, que viera por curiosidade; ela ficou nas redes, e com esse sermão fez o propósito de se instruir, e três semanas depois trouxe toda a família para se confessar comigo e fui padrinho de todos eles na confirmação. Vede, no entanto, que esse sermão que não foi feito contra a heresia, respirava, ainda assim, contra a heresia, porque Deus me deu nessa ocasião esse espírito em favor daquelas almas. Desde então tenho dito sempre que quem prega com amor prega bastante contra os herejes, embora não diga uma só palavra de disputa contra eles".

"Deveríeis todas as manhãs, antes de qualquer coisa, pedir a Deus que vos desse a verdadeira doçura de espírito que ele exige das almas que o servem, e tomar a resolução de vos exercitar bem nessa virtude, sobretudo para com as duas pessoas para com quem tendes o maior dever. Deveis fazer essa empresa de bem vos governardes nisso, e de vos lembrardes dela cem vezes ao dia, recomendando a Deus esse bom desígnio; porquanto não vejo que tenhais muito que fazer para bem sujeitar a vossa alma à vontade de Deus, a não ser abrandá-la dia a dia, pondo a vossa confiança em sua bondade. Feliz sereis, filha mui querida, se assim fizerdes, porque Deus habitará no centro de vosso coração e aí reinará em plena tranqüilidade. Mas se por acaso cometerdes alguma falta, não percais a coragem; tornai a vós sem detença, exatamente como se não tivésseis caído. Curta é esta vida, e não nos é dada senão para ganharmos a outra; e bem a empregareis se fordes doce e tratável para com essas duas pessoas com as quais Deus vos colocou". Essa “doçura incomparável com a qual, sem violência alguma, submetia tudo à sua vontade”, causava admiração ao seu amigo, o bispo de Belley. A respeito do bispo de Genebra dizia ele certa vez a um grande e santo prelado: “Ele faz o que quer, e de maneira tão suave e apesar disso tão forte, que nada lhe pode resistir. Caem mil à sua esquerda e dez mil à sua direita. Tudo cede às suas persuasões; atingindo o objetivo ao qual visa e fortemente, não diríeis que ele o atingisse e que está feito”. Responde-lhe outro: “É a mesma doçura que o torna tão poderoso”. Como efetivamente, resistir ao encanto sedutor de tão amável virtude?

São Francisco de Sales bem o sabia. Costumava dizer ”que se atraem mais moscas com um colherada de mel que com cem barris de vinagre”, e que se “O espírito humano se engrila contra o rigor, pela suavidade torna-se submisso a tudo”. Assim resumia sua experiências: ”Bem-aventurados os que são doces: possuirão a terra, ou seja, serão os donos dos corações e todas as vontades estarão nas suas mãos, sobretudo a vontade de Deus”.

São Francisco de Sales: rogai por nós!

Adaptação do livro: As fontes da Alegria - SALES, São Francisco. – A Mansidão para com o Próximo - Tradução: Cônego F. Vidal. Edições Loyola –São Paulo -1978. pgs.155 -191