sábado, 21 de fevereiro de 2009

Credo - Segundo Artigo



Creio em Jesus Cristo, Seu Filho Único, Nosso Senhor

Por São Tomás de Aquino

Não é somente necessário crerem os cristãos que existe um só Deus, e que Ele é Criador do céu, da terra e de todas as coisas, mas também é necessário crerem que Deus é Pai e que Cristo é seu verdadeiro Filho.

Esse mistério não é um mito, mas uma verdade certa e comprovada pela palavra de Deus no monte, conforme a afirmação de S. Pedro: ”Porque não foi baseando-nos em fábulas engenhosas que vos demos a conhecer o poder e a presença de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas por termos visto a Sua Majestade com os nossos próprios olhos. Porque Ele recebeu de Deus-Pai honra e glória, quando da magnífica glória lhe foram dirigidas estas palavras: Este. é meu Filho muito amado, em quem pus as minhas complacências. E nós mesmos ouvimos voz vinda do céu, quando estávamos com Ele no monte santo (2 Ped 1,16-18)

O próprio Jesus Cristo muitas vezes chama a Deus como seu Pai e, também, denominava-se Filho de Deus. Os Apóstolos e os Santos Padres colocaram entre os artigos de fé que Jesus Cristo é Filho de Deus, quando definiram este artigo do Credo: E em Jesus Cristo seu Filho, isto é, Filho de Deus.

Mas existiram alguns heréticos que acreditaram nessa verdade da fé, de um modo perverso:

1- Fotino, um deles, declarou que Cristo não é filho de Deus senão como os outros homens bons o são, os quais, por viverem bem, merecem ser chamados filhos de Deus por adoção, enquanto fazem a vontade de Deus. Do mesmo modo, dizem eles, Cristo, que viveu bem e fez a vontade de Deus, mereceu ser chamado FIlho de Deus. O mesmo herético queria que Cristo não tivesse existido antes da Virgem Maria, mas que só começasse a existir quando nela roi concebido .

Cometeu Fotino dois erros: um, porque não disse que Ele era Filho de Deus segundo a natureza; o outro, porque disse que Ele começou a existir, conforme todo o seu ser, no tempo, enquanto a nossa fé afirma que Ele é por natureza Filho de Deus e eterno. Ora, essas duas verdades encontram-se claramente expressas na Sagrada Escritura, opostas que são ao que ele afirma.

Contra o primeiro erro, declara a Escritura que Jesus Cristo não só é Filho de Deus, mas também Filho Unigênito: O Unigênito que está no seio do Pai é que O fez conhecido (Jo 1,18). Contra o segundo, lê-se: Antes de Abraão existir, eu já existia (Jo 8,58). Ora, é certo que Abraão existiu antes da Virgem Maria. Por esse motivo, os Santos Padres acrescentaram, em outro símbolo, contra o primeiro erro: Filho de Deus Unigênito; e, contra o segundo: nascido do Pai antes de todos os séculos.

2- Sabélio embora tivesse dito que Cristo existiu antes da Virgem Maria, afirmou que a Pessoa do Pai outra não era que a do Filho, e que o próprio Pai se encarnou. Desse modo, a Pessoa do Pai seria a mesma que a do Filho. Mas isso é um erro, porque destrói a trindade das Pessoas. Contra esse erro, há a autoridade do Evangelista S. João, que nos relatou as palavras do próprio Cristo: Eu não sou Eu só; sou Eu e o Pai que me enviou (Jo, 8,16). Ora, é evidente que ninguém pode ser enviado por si mesmo. Eis porque Sabélio errou. Acrescentou-se, por isso, no Símbolo dos Padres: Deus de Deus, luz de luz isto é, Deus Filho de Deus-Pai; Filho que é luz, luz que procede do Pai, que tambem é luz. É nessas verdades que devemos crer.

3-Ario, embora tivesse afirmado que Cristo existira antes da Virgem Maria e que era uma Pessoa do Pai, outra, a do Filho, atribuiu, ao ser de Cristo, três erros: primeiro, que Cristo foi criatura; segundo, que Ele foi feito por Deus como a mais nobre das criaturas, não desde a eternidade, mas no tempo; terceiro, que não havia uma só natureza de Deus-Filho com Deus-Pai, e, por esse motivo, Cristo não era verdadeiro Deus.

Tais afirmações são evidentemente errôneas porque contrárias à autoridade da Sagrada Escritura. Lê-se no Evangelho de S. João: Eu e o Pai somos um [/i](10 10,30), isto é, pela natureza. Ora, como o Pa-i sempre cxistiu, do mesmo modo o Filho; como o Pai é verdadeiro Deus, assim também o Filho. Em oposição à afirmação de Ario, isto é, que Cristo é criatura, está declarado no Símbolo dos Padres: gerado, não feito. Contra o erro propalado dc que Ele não era da mesma substância do Pai, foi acrescentado no Símbolo: consubstancial com o Pai.

Está, pois, esclarecido porque devemos crer que Cristo é o Filho Unigênito de Deus e verdadeiro Filho de Deus;que sempre existiu com o Pai; que uma é a Pessoa do Filho. outra, a do Pai; que Ele tem uma só natureza com o Pai. Cremos nessas verdades aqui, pela fé; conhecê-Ias-emos, porém, na vida eterna, por uma perfeita visão.

Para nossa consolação, acrescentemos algumas palavras a essas verdades:

Devemos saber que há diversos modos de geração, conforme a diversidade dos seres. A geração em Deus, é diferente da geração nos outros seres. Por isso, não podemos chegar a conhecer a geração de Deus, senão por meio da geração das criaturas que mais se aproximam de Deus e que mais se assemelham a Ele. Ora, como foi dito, nada se assemelha tanto Deus, como a alma humana. Há, na alma, uma espécie de geração, quando o homem conhece alguma coisa pela própria alma, que se chama concepção intelectiva. O conceito (efeito da concepção) tem a sua origem da própria alma, como de um pai. Chama-se verbo (isto é, palavra mental) da inteligência ou do homem. A alma, portanto, gera o seu verbo pelo conhecimento
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O Filho de Deus, também, nada mais é que o verbo de Deus, não como se fosse um verbo (uma palavra) já pronunciado exteriormente, porque assim seria transitório, mas como um verbo (uma palavra mental) concebido no interior. Desse modo este verbo de Deus possui a própria natureza de Deus, e é igual a Deus. O Bem-aventurado João, quando falou do Verbo de Deus, destruiu as três heresias acima definidas: a de Fotino, quando disse: No princípio já existia o Verbo; a de Sabélio, quando disse: e o Verbo estava em Deus; e a de Ario, quando disse: " e o Verbo era Deus.” Mas o verbo (a palavra mental) existe diversamente em nós e em Deus. Em nós, o verbo é um acidente; em Deus, o Verbo de Deus identifica-se mais com o próprio Deus, pois nada há em Deus que não seja a essência de Deus. Ninguém pode afirmar que Deus não possui um verbo, porque, se o fizesse, estaria também afirmando que em Deus não há absolutamente conhecimento.

Como, além disso, Deus sempre existiu, assim também o Verbo.

Como o artista executa as suas obras de acordo com o modelo que prefigurou em sua inteligência, que é o seu verbo; assim também Deus faz todas as coisas pelo seu Verbo, que é como Seu pensamento artístico. Por isso lê-se em São João: as coisas foram feitas por Ele(Jo 1,3). Se o Verbo de Deus é o Filho de Deus e todas as palavras de Deus possuem alguma semelhança com esse verbo, todos nós devemos, em primeiro lugar, ouvir com satisfação as palavras de Deus. Se ouvirmos com prazer as palavras de Deus, isto é mal de que amamos a Deus.

Em segundo lugar, devemos crer nas palavras de Deus porque é assim que o Verbo de Deus habita em nós, isto é, Cristo, que é o Verbo de Deus. Lê-se no Apóstolo S. Paulo:Habitar Cristo, pela fé, em vossos corações. (Ef 3,17). Lê-se também em João: Não tendes o Verbo de Deus permanecendo em vós que não acreditais nAquele que Ele enviou (Jo 5,38).

Em terceiro lugar, convém que sempre tenhamos o Verbo de Deus, que permanece em nós, como objeto das nossas meditações. Não é conveniente apenas crer, mas é necessário também meditar, pois, de outro modo, a fé não nos seria útil. A meditação sobre o Verbo de Deus é muito útil contra o pecado. Lê-se nos Salmos: Escondi no meu coração a Vossa palavra, para não pecar contra vós (SI 118,11). Lê-se, ainda, a respeito homem justo: Meditarei dia e noite na Sua Lei (SI 1,2). Por isso sabemos que a Virgem Maria conservava todas essas palavras, meditando sobre elas no seu coração (Lc. 2,51).

Em quarto lugar, convém que o homem comunique aos outros a palavra de Deus, admoestando, pregando-a para eles e afervorando-lhes a fé. Encontram-se nas cartas de S. Paulo os seguintes textos: Que nenhuma palavra má proceda da vossa boca, mas somente as boas palavras que edificam (Ef 4,29); Que a palavra de Cristo habite em vós abundantemente, com toda sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros[/i] (Col 3,16); Prega a palavra, insiste oportuna e importunamente, repreende, pede e ameaça com toda a paciência e com toda doutrina(2 Tes 4,2).

Em último lugar, devemos cumprir o que a palavra de Deus determinou. Lê-se em S. Tiago: Sede realizadores da palavra de Deus e não apenas ouvintes (Tgo 1,22).

Na mesma ordem a Bem-aventurada Virgem Maria seguiu essas cinco recomendações, quando nela foi gerado o Verbo Deus. Primeiramente, ouviu: O Espírito Santo virá sobre ti (Lc.1,35). Depois, consentiu pela fé :Eis a escrava do Senhor (Lc. 1,38). Em terceiro lugar, recebeu o Verbo Encarnado e O carregou em seu seio. Em quarto lugar, ela O pronunciou quando a Ele deu a luz. Finalmente, nutriu-O e amamentou-O. Eis porque a Igreja canta: A Virgem amamentava, fortalecida céu, o próprio Rei dos Anjos.

Cristo e a Riqueza


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Por Tihamer Toth – Prelado Húngaro (1889 - 1931)

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Extratos da Obra: Quem é Cristo?

Os habitantes da pequena aldeia bávara de Oberammergau fizeram no século XVII, durante a epidemia da peste, a promessa de representar a Paixão de Cristo de dez em dez anos se o flagelo desaparece. Em 1930 milhares de espectadores de todas as partes do mundo foram assistir com alma comovida às piedosas representações da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. A cena que sempre causa profunda impressão no espectador, preocupado com os problemas sociais atuais, não é o caminho da cruz nem a crucifixão ou a morte de Cristo; sem dúvida, essas cenas são comovedoras; é o lava-pés durante a Ceia a parte mais apreciada pelo público.


Quando o Salvador se levanta da mesa e calmamente lava os pés dos apóstolos, empreende uma revolução, subverte todos os conceitos que até então a humanidade possuía sobre poder e grandeza. O Salvador não proclama que os ricos irão para o inferno, que os capitalistas devem desaparecer, que não deve haver senhores. O Filho de Deus, Criador do mundo, levanta-se silenciosamente e ajoelha-se diante de simples pescadores para lavar-lhes os pés. Essa comovedora lição deve iluminar como um clarão o céu escuro do mundo atual. Cristo indica que é impossível suprimir as diferenças de classes entre os homens. Sempre haverá na terra: sábios e ignorantes, fortes e fracos, sadios e enfermos, ricos e pobres, patrões e operários. Não é correto incitar as classes umas contra as outras, semeando ódio e destruindo autoridade; cabe incutir nos superiores e mais fortes, nos mais instruídos e ricos, a idéia de que devem trabalhar praticando o amor caritativo, somente assim as lutas entre as classes sociais desaparecerão.

O Filho de Deus lavando os pés dos homens!

Não é o progresso que resolverá a questão social, a solução definitiva pode ser encontrada quando o patrão lavar os pés do empregado, isto é, quando o exemplo de Cristo elevar a vida cotidiana, enobrecendo o procedimento de agir e falar. A distância entre o trabalho e o capital, a riqueza e a miséria, preocupa o mundo atual. Chamei a atenção sobre o fato: todas as instituíções procuram reinvicar Jesus Cristo para si. A Sua personalidade é de tal grandeza que cada tendência deseja que Jesus pertença ao seu quadro. Houve quem achasse que Cristo foi o primeiro comunista, porque pronunciou esta ameaça: Ai de vós, ricos! Alguns viram como redentor social, o primeiro socialista. Consideremos o que Cristo ensinou sobre a propriedade privada, a riqueza e os bens do mundo. A atitude do Salvador perante a riqueza é especialmente posta em relevo nos episódios do jovem rico e no Sermão da Montanha.

Certo dia, um jovem rico encontrou-se com Cristo e cheio de entusiasmo disse: Bom Mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna? Jesus respondeu-lhe: Se queres entrar na vida eterna , observa os mandamentos. O jovem falou: Tenho observado tudo isso desde a minha infância. Que me falta ainda? Nosso Senhor olha profundamente. Percebe que este jovem rico tem sede de um grau mais alto de perfeição, então lhe responde: Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me. Esse sacrifício era demasiado para aquele jovem, que então prefere deixar o divino Mestre. Cristo lamenta: É difícil para um rico entrar no Reino do céus!

Os discípulos ficarm surpresos, não esperavam isso (na mentalidade judaica daquele tempo, acreditava-se que quem era rico e tinha saúde, estava na graça de Deus; pelo contrário quem era pobre ou possuía enfermidades era considerado pecador, por isso Deus o estava castigando. Jesus demonstrou como essa mentalidade era deturpada).Então os ricos não são felizes? Não são filhos queridos de Deus os que acumulam bens terrenos? Jesus acrescenta: É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos céus.. A estas palavras seus discípulos, pasmados, perguntaram: Quem poderá então se salvar? Jesus olhou para eles e disse: Aos homens é impossível, mas a Deus tudo é possível (Mt 19,24-26).

Para melhor compreender o pensamento do Salvador sobre a riqueza, analisemos o Sermão da Montanha. Este sermão proclama com clareza indiscutível a idéia de Cristo sobre a excelência da pobreza e da renúncia voluntária. Bem-aventurados vós que sois pobres, porque vosso é o Reino de Deus! Bem-aventurados vós que agora tendes fome, porque sereis fartos! Bem-aventurados vós que agora chorais, porque vos alegrareis! Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos expulsarem, vos ultrajarem, e quando e repelirem o vosso nome com infame por causa do Filho do homem! Alegrai-vos naquele dia e exultai, porque grande é o vosso galardão no céu(Lc 6, 20-23).Quem ler superficialmente essas importantes declarações de Jesus Cristo, talvez se escandalize. Mas quem reflete a fundo sobre o sentido dessas palavras e acrescenta as declarações feitas noutras partes pelo divino Mestre, nota que não condenou a civilização; apenas mostrou onde reside a riqueza verdadeiramente civilizadora e digna do homem.

Com efeito, as palavras do Salvador servem de equilíbrio à natureza humana, exageradamente inclinada para a matéria; para que possa se elevar do círculo egoísta dos instintos terrenos para o círculo dos interesses celestes.

Qual é a fonte mais terrível de qualquer maldade e insensiblidade humana no mundo? Que separa os amigos, os parentes, os irmãos e transforma em inferno a vida? O egoísmo. É nisso precisamente que as palavras de Cristo dão o golpe mortal, porque essas importantes palavras significam uma afirmação corajosa: o culto do Mammon (palavra hebraica que significa a personificação do mal; deus do dinheiro)não poderá ser banido, os excesos do capitalismo não poderão ser suprimidos, senão quando a tirania da cobiça for refreada. Também um milionário pode ser cristão e não se sujeitar ao domínio do dinheiro e um proletário, o mais pobre, pode ser escravo da riqueza. As palavras de Cristo mostram claramente que ninguém está obrigado a distribuir os bens; indica o perigo de o homem por facilmente nas riquezas toda a esperança, toda a confiança, todos os desejos, esquecendo-se de Deus. Para quem o dinheiro é deus, o Deus verdadeiro não pode entrar. Ai de vós, ó ricos!

Cristo teve discípulos com boas condições financeiras: Marta e Maria, Salomé, Nicodemos, José de Arimatéia, Mateus. Um dos amigos mais queridos, Lázaro, possuía uma residência grande, onde Jesus frequentemente descansava. Hospedou-se de boa vontade na casa do rico Zaqueu. Jesus não condena o rico que sabe colocar a salvação acima da riqueza, que usa o dinheiro para o bem, socorrendo os necessitados.Esse ensinamento traz sérias consequências. O amor de Cristo nos constrange(2Cor5,14). Nisso consiste a ação social; é unicamente na concepção religiosa que descobrimos o pobre, o abandonado, a alma imortal.

Tolstoi conta num romance, o pensamento de uma condessa sobre as criadas: “É verdadeiramente espantoso que estas serviçais façam nossas camas, enquanto tocamos Chopin! É verdadeiramente espantoso que a caridade de Cristo, com o exemplo do Lava-pés fique apenas como algo sentimental, porém não será espantoso quando o comunismo chegar, destruindo o piano e as partituras de Chopin”.

Ser cristão significa olhar ciosamente o céu? Esperar com suspiros o reino dos céus? Ficar de braços cruzados esperando as coisas acontecerem? De jeito nenhum, se assim fosse, o cristianismo seria o inimigo do progresso e do trabalho.

O bom cristão reza, confessa-se, comunga, jejua, assiste à Missa, pratica tudo isso; domina também os instintos, a dureza de coração, a preguiça, a impaciência e o egoísmo; é amável e indulgente com o próximo e severo consigo mesmo, acima de tudo cumpre os deveres com dedicação. Mesmo que uma pessoa reze muito e comungue todos os dias, se é indisciplinada, manhosa, insuportável, egoísta, nada esquece e perdoa, é negligente com os deveres, certamente não é cristã.

Para que um dia seja possível resolver a questão social, a humanidade deve estar impregnada do espírito cristão, viver como cristão é a única solução.

A associação russa dos sem-Deus publicou em Moscou um jornal em que aparecia uma gravura com o título: O guarda-vento. Via-se Cristo triste, estendendo as mãos para um grupo de infelizes: mulheres esqueléticas, crianças famintas, operários curvados e sujos pelo trabalho. Cristo parece dizer: Louve o trabalho, não se revoltem contra os exploradoress, não busquem uma vida melhor e mais humana para os filhos, tenham paciência. Atrás da imagem de Jesus está um gordo burguês – que a multidão não vê por causa de Cristo – com os dedos cheios de anéis de diamante, segurando uma corda que enforca o proletário indefeso. Diante desta imagem revoltante, não basta a indignação e o protesto, precisamos refletir com humildade e fazer um exame de consciência.

Há alguma verdade nessa cena blasfema? Esses revolucionários vermelhos estarão certos? É possível falar de cristianismo enquanto milhões trabalham como escravos para o capitalismo? Quem está com a razão: o comunismo ou o capitalismo? Onde encontramos Cristo, do lado daqueles que com avidez querem monopolizar tudo, ou daqueles que através de revoluções sangrentas querem tirar tudo?

Vejamos o que Cristo pensa da riqueza, antes vamos entender claramente o que é riqueza.

O que é necessário para viver não é riqueza, é meio indispensável de existência. O salário ganho honestamente, não é riqueza. O sustento não pode ser entendido apenas como alimentação, moradia e vestuário. Não sou homem pelo fato de me alimentar e sim pelo fato de possuir uma vida intelectual e igualmente necessidades intelectuais. Riqueza é tudo aquilo que está acima das necessidades.

Na parábola do rico e do pobre Lázaro (Lc 16,19-31) Jesus não condena o rico porque possuía riquezas, condena porque não tinha compaixão do pobre. Em nenhuma parte, o Senhor condena aqueles que possuem riquezas e propriedades; como já demosntramos, possuía entre os discípulos, pessoas de posses, apenas insistiu no perigo da riqueza.

Jesus, certa vez, disse: ”Ai de vós, ó ricos! Em outra ocasião: “Bem-aventurados os pobres!” Parece que amaldiçoa os ricos e abençõa os pobres. Isso seria por um lado uma severidade incompreensível e de outro lado não poderia haver progresso humano e social. Quem trabalharia, se não pudesse guardar as economias para no futuro pudesse comprar uma morada? O Senhor condena apenas os “ricos”, que veem na fortuna o bem único; em contrapartida, os “pobres” bem-aventurados são aqueles, que perante os gozos da vida, consideram preciosa a liberdade, aspiram e trabalham para introduzir na vida um valor verdadeiro. O conceito de Cristo, não é o mesmo do mundo. A sociedade se inclina diante dos ricos e este é o seu pensamento: tens muitos bens em depósito para muitíssimos anos; descansa, come, bebe e regala-te(Lc 12,19). É para estes que se aplicam as maldições do Senhor; dificilmente conseguirão entrar no reino dos céus.

Em compensação, os pobres entrarão facilmente no reino dos céus? Certamente os pobres de espírito, que não são apegados aos bens terrenos, sejam ricos ou pobres, e que colocaram os olhos no fim eterno. Diante de Deus o rico e o pobre possuem o mesmo valor; a única vantagem do pobre é não estar exposto ao perigo das grandes riquezas, embora possa estar extremamente apegado ao pouco que possui. Peçamos a Deus a graça de saber usar os bens com sobriedade, em favor da família, da Igreja, da Sociedade e dos mais necessitados.

O homem é por natureza egoísta e cobiçoso. O cristianismo, há vinte séculos, combate a falta de compaixão dos ricos, que estão muito longe do ideal cristão.Cristo ensinou que todos devem socorrer o próximo na parábola do bom samaritano, no entanto, a esmola não é a essência do cristianismo, apenas meio auxiliar. O fundamento é o trabalho digno, tanto que quem não trabalha não deve comer; é necessário acrescentar que não podemos falar de reino de Cristo, enquanto um homem que deseje trabalhar honestamente, não encontre emprego e morra de fome.

Exorta os ricos deste mundo a que não sejam orgulhosos nem ponham sua esperança nas riquesas volúveis [/i] (1Tm 6,17). Muitos que tinham posses, depois de uma queda do câmbio, de uma falência, acordaram pobres no dia seguinte. Vários milionários viajavam num transatlântico luxuoso, divertindo-se com danças e jogos. O rádio de repente deu a seguinte notícia: “Quebra na bolsa de Nova Iorque”. Estes magnatas que estavam tão alegres, ficaram empalidecidos, quando embarcaram eram milionários, agora apenas homens falidos no meio do mar. Já aconselhava São Paulo: Exorta os ricos deste mundo a que não sejam orgulhosos nem ponham sua esperança nas riquezas volúveis. O que torna o homem rico é a imitação da generosidade de Deus.

Recordemos as palavras dirigidas por São João Crisóstomo aos ricos sem coração, feitas há quinze séculos, e que servem perfeitamente para o homem de hoje : Vocês se banqueteiam e Cristo nem sequer tinha o necessário para comer; vocês comem iguarias deliciosas e Jesus não tinha sequer pão seco; vocês bebem vinho de Tharos e sequer dão um copo de água para Jesus; vocês descansam em leitos aconchegantes enquanto Cristo morre no frio; e não falo daqueles que convidam para suas casas mulheres de má vida, não me dirijo a estes, pois não tenho costume de falar com os cães; não falo daqueles que enriquecem injustamente, que enchem o estômago dos aduladores, porque não tenho nada a fazer com eles, como não tenho nada com os suínos; falo àqueles que gozam de suas riquezas, mas não tornam os outros participantes, consumindo somente para eles a herança. Estes cometeram pecados. Estão com medo por causa destas palavras? Pois bem! Tremam por causa de suas ações. (Sermão sobre o Evangelho de São Mateus 48 - homilias 78-79).

A Igreja fiel à doutrina de Cristo sempre exortou os fiéis como podemos ver nesta circular dos Bispos húngaros : Deus deu os bens deste mundo a todos, para serem bem usados e não adorados.

Deus distribuiu os bens entre todos indistintamente, não criou pobres e ricos, simplesmente homens; Deus os abençoou: Frutificai, disse ele e multiplica-vos, enchei a terra e submetei-a (Gen 1,28). Em conformidade com a lei divina, todos possuem direitos aos bens da terra, utilizando-os para a existência; aquele que exclui o próximo está contra essa lei.

Quem não quiser trabalhar, não tem o direito de comer(1 Ts 3,10). Aqueles que desejam trabalhar, obedecendo à ordem imposta por Deus, não podem ser excluídos por causa se um sistema econômico egoista. Hoje vemos milhões de homens estendendo as mãos em busca do pão de cada dia, a esses se aplicam as palavras da Escritura: Não rejeteis o pedido do aflito, não desveis o rosto do pobre ( Eclo 4,4). Então é preciso recordar aos ricos, que a obrigação de fornecer trabalho honesto e alimentação é uma lei divina; o Estado tem obrigação de tornar medidas e promulgar leis que fornecam trabalho aos que querem trabalhar e pão para os que têm fome.

O rico chega facilmente a pensar que não precisa de nada, mesmo de Deus. Por isso, Jesus disse na parábola do semeador que os ricos são sufocados pelos cuidados, riquezas e prazeres da vida e assim seus frutos não amadurecem (Lc 8,14)

Também a miséria é perigosa para a salvação. A pobreza material é companheira do pecado. O homem torturado pela fome, facilmente se revolta e deixa de rezar.

Com o capitalismo selvagem e o proletariado anfrajoso não são os ideias do cristianismo, então qual será esse ideal?
A Sagrada Escritura fornece este ideal: Não me dês nem pobreza nem riqueza, concede-me o pão que me é necessário(Pr 30,8), porque nada trouxemos ao mundo, como tampouco nada poderemos levar. Tendo alimento e vestuário, contentamo-nos com isto. Aqueles que ambicionam tornar-se ricos caem nas armadilhas do demônio e em muitos desejos insensatos e nocivos da ruína e da perdição, porque a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro. (1Tm 6, 7-10)

O mundo luta entre o capitalismo e o comunismo, porém o remédio é o cristianismo. A ordem social e econômica não pode ser baseada no vértice das pirâmides do Egito, onde milhões trabalhavam como escravos; a justiça e a propriedade particular são reconhecidas pelo ideal cristão, cuidado, pois ninguém pode servir a dois senhores…Não podeis servir a Deus e à riqueza(Mt 6,24-25) No cemitério de cães em Paris, há monumentos cujo valor bastaria para sustentar dezenas de famílias pobres; enquanto a ossada de uma cadela jaz abrigada do inverno, centenas de pessoas morrem de frio nos arredores de Paris. O cristão não pode aceitar semelhente coisa. Diante do esbanjamento insensato dos ricos, o mundo está repleto de crianças subnutridas e desabrigadas.

Recentemente um hotel americano organizou um jantar de mil dólares por pessoa. Enquanto no mundo milhões de operários sem trabalho passam fome, existem pessoas cuja consciência permite comer de entrada um prato que representa um castelo construído por fatias de caviar e pastéis de fígado de ganso, regado por champagne. Eis a solução social sem Cristo!

Santa Isabel da Hungria era bastante rica, possuía um castelo e poderia tomar parte em um banquete de mil dólares; ao contrário distinguiu-se destes milionários americanos, aceitando a doutrina de Cristo, não fez uma refeição de mil dólares, preferiu alimentar os pobres; descia voluntariamente do castelo para o profundo vale do sofrimento, da mortificação e da humilhação, para se elevar depois às alturas do amor de Deus e do próximo, com isso resolveu a questão social do povo de sua época.

Toth Tihamer - Bispo -Extratos da Obra: Quem é Cristo? Editora Formatto - Texto: Cristo e a Riqueza.

Sofrimento, Oração e Desapego - Santa Catarina de Sena


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Carta 187

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Para João Sabbatini, Tadeu Malovoti e os Monges de Belriguardo

1 - Saudação e Objetivo

Em Nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, caríssimos filhos em Jesus Cristo, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos escrevo no Seu precioso sangue, desejosa de vos ver como soldados sem nenhum temor servil.

2- Valor do Sofrimento na Vida Cristã

De fato, nosso Salvador quer que tenhamos medo dele, não das pessoas deste mundo. Cristo disse: [i]”Não temais aqueles que podem matar o corpo, mas a Mim, que posso enviar ao inferno a alma e o corpo”[/i](cfr. Mt 10,28). Por isso eu quero que vos afogueis no sangue do Filho de Deus, inflamados no fogo da divina caridade. É onde se perde todo temor servil, restando na pessoa apenas o temor reverencial. E que podem fazer o mundo, o demônio e seus servidores contra quem atingiu o amor sem medida pelo sofrimento? Nada! Eles apenas nos fornecem a ocasião para provarmos nossa virtude. Realmente, a virtude é posta à prova pelo que lhe é contrário. A pessoa deve até alegrar-se e rejubilar-se, deve procurar sofrer sempre com Cristo crucuficado, deve aniquilar-se por Ele, deve humilhar-se. Deve deleitar-se na dor e na Cruz. E ao desejar o sofrimento, encontrará alegria. Mas se procurar a alegria, achará a dor.

A melhor coisa é, portanto, afogar-se no sangue e eliminar nossas perversas vontades mediante um amor livre pelo Criador, sem termos nenhuma compaixão de nós mesmos. Só então aquela alegria estará em vós. E deveis esperar os sofrimentos sem nenhuma angústia. Por nenhuma ordem, que nos for dada, deveremos nos queixar. Pelo contrário, devemos até nos alegrar. De fato, nenhuma ordem humana será capaz de nos afastar de Deus. Tais ordens até serão aptas a nos dar a virtude da paciência, tornando-nos solícitos em abraçar a árvore da Cruz, em procurar a visão invisível que jamais nos será tirada. Se assim decidimos, a caridade amorosa jamais nos será tomada. Que doce coisa sermos perseguidos por causa de Cristo crucuficado! Quero que vos alegreis quando a cruz vos é dada, qualquer que seja o modo! Não escolhamos o modo. Que ele seja escolhido por quem nos faz sofrer. Julgai-vos até indgnos de sofrer perseguição por Cristo crucificado.

3- Perseverai na Oração e no Amor Mútuo

Ficai sabendo, meus bondosos filhos em Jesus Cristo, que foi essa a senda percorrida pelos santos que imitaram Jesus Cristo. Não existe outra que nos conduz a vida! Quero, pois, que com empenho vos esforceis por trilhar essa senda, feliz e reta. Perseverai na oração com boa vontade, sempre que o Espírito vos oferecer ocasião. Não haja desprezo ou fuga em vós, também com perigo de vida. Não deixeis a oração para poupar e agradar o próprio corpo. O que o demônio mais deseja ver em nós, para nos afastar da oração, é que tenhamos cuidados com o corpo e tibieza espiritual. Por motivo algum tais coisas devem afastar-nos da prece. Recordando-nos de que Deus é bondoso e reconhecendo nossos defeitos, afastemos as tentações do diabo e toda autocompaixão. Escondei-vos nas chagas de Cristo crucificado, nada voa amedronte. Por Cristo crucificado vós tudo podeis. Ele estará convosco e vos fortalecerá.

4 –Sede Obedientes e Desapegados. Conclusão.

Sede obedientes até a morte no que vos for imposto, por mais grave que seja. Não desprezeis o prêmio por causa da dificuldade ou de alguma tentação do diabo querendo enganar-vos, sob pretexto de virtude, sugerindo-vos: ”Isto sera a alegria de minha vida e faria aumentar a virtude em mim”. Não acrediteis no diabo, mas sim em Deus, o qual vos dará de outro modo o que esperais dessa consolação. Vós sabeis que nenhuma folha cai de uma árvore sem a providência divina. Desse modo, tudo o que o diabo ou as pessoas fazem para nós, por providência divina colabora para a nossa salvação e progresso na perfeição. Portanto, acolhei tudo com respeito e despojai-vos dos bens materiais não necessários. Revesti-vos de Cristo crucificado, inebriai-vos no seu sangue. Nele encontrareis a alegria e a paz completa.

Nada mais acrescento. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.

Fonte: Catarina de Sena, Santa, 1347 -1380. Cartas Completas – Tradução: Frei João Alves Basílio O.P. São Paulo: Paulus 2005. ( Espiritualidade) .pag. 607 a 609.

São Compatíveis a Ciência e a Fé?


”Para os que acreditam, Deus está no princípio. Para os cientistas, Deus está no final de todas as suas reflexões.” (Max Planck).

Pode a Ciência Controlar-se a Si Mesma?

O físico alemão Otto Hahn, inventor da fissão do átomo de urânio, estava internado num campo de concentração inglês, junto com outros eminentes cientistas. Quando, em agosto de 1945, recebeu a notícia de que Hirosshima tinha sido arrasada por uma bomba atômica, sentiu um profundíssimo sentimento de culpa. As suas pesquisas sobre a fissão do urânio tinham acabado por se utilizar para produzir um massacre terrível. Foi tal a sua angústia que tentou abrir as veias nos arames farpados que cercavam o campo. Depois que os seus companheiros conseguiram dissuadi-lo, o velho professor fez-lhes, desolado, a seguinte confissão:”Acabo de perceber que a minha vida não tem mais sentido. Pesquisei pelo puro desejo de revelar a verdade das coisas e todo o meu saber científico acaba de se converter num enorme poder aniquilador".

A experiência pessoal de Otto Hanh foi, na realidade, a experiência amarga de toda uma época. Uma aflitiva impressão de fracasso invadiu os espíritos de todos os que tinham lutado com tanta tenacidade por levar o conhecimento científico a máxima altura possível, convencidos de fazer com isso um grande bem a humanidade. Tinham trabalhado penosamente com a profunda convicção de que o aumento do saber teórico e o incremento da felicidade humana estavam inequivocamente vinculados. Acreditavam que fomentar o conhecimento científico teria sempre um valor positivo, que significaria automaticamente cotas mais elevadas de felicidade e igualdade. Pensaram que se tratava de um bem inquestionável e que, portanto, se traduziria indubitavelmente em bem-estar para o homem.

Mas esse entusiasmo plurissecular, que já tinha aberto fendas nas tricheiras de Verdun* (uma das batalhas mais sangrentas da 1ª guerra), ruiu estrepitosamente com os horrores da 2ª guerra mundial. O terrível poder destruidor das armas nucleares, os intensivos bombardeios da população civil, o extermínio sistemático e profundamente cruel de toda uma raça e um saldo de cinquenta milhões de mortos puseram tragicamente de manifesto que o saber teórico pode traduzir-se num saber técnico, e este, por sua vez, num amplo poder sobre a realidade, mas, por desgraça, todo esse domínio não leva automaticamente a uma maior felicidade dos homens se aqueles que detem esse poder não possuem uma consciência ética proporcional a sua responsabilidade.

Após séculos de febril incremento do saber científico, a idéia de que o progresso humano é sempre contínuo e não pode haver retrocesso revelou-se uma farsa irritante. O ideal do domínio científico e a consequente forma de humanismo desfizeram-se em pedaços ao entrarem em colisão com a obstinada realidade da história. Era patente que o futuro não devia caracterizar-se por essa ingênua crença no progresso como princípio motor de uma civilização, mas que era preciso alicerçá-lo em valores mais altos e seguros.

História de uma Desilusão.

O psiquiatra austríaco Viktor Frankl, depois da sua experiência pessoal em diversos campos de concentração, chegou à conclusão de que não foram os ministérios nazistas de Berlim os verdadeiros responsáveis por aquelas atrocidades, mas a filosofia niilista do século XIX. Se o homem é um simples produto de uma natureza mutável, um simples macaco evoluído, então, da mesma forma que o macaco pode ser enjaulado num zoológico, o homem pode ser encarcerado num campo de extermínio. Se o homem é um simples animal, ainda que extraordinariamente adestrado, e fazemos sabonetes com gordura animal, por que não fazê-lo com gordura humana?

O filósofo Edmund Husserl, esclarecido pela falência do mito do eterno progresso por ocasião da Segunda Guerra mundial - na qual viu, entre outras ocasiões, aquela racionalização perfeita da matança em massa de milhões de inocentes - percebeu claramente que a ciência, por força do seu método, não pode ser um princípio motor da vida humana. "O mundo da objetividade científica - escreveu - é um mundo fechado e inóspito. A forma pela qual o homem moderno, na segunda metade do séc. XIX, se deixou determinar totalmente pelas ciências positivas e cegar pela prosperidade a elas devida, significou pôr de lado as questões decisivas para uma humanidade autêntica. As ciências que só comtemplam meros fatos fazem com que os homens só enxergassem meros fatos".

Procurar o conhecimento científico objetivo das coisas é lícito e fecundo. Mas considerar esse modo de conhecer como modelo, como a única forma rigorosa de conhecimento, é uma parcialidade inaceitável, já que empobrece enormemente o homem. A Ilustração - o Iluminismo - pretendia alcançar o ideal renascentista que sonhava entregar o homem a si mesmo, torná-lo livre, permitindo-lhe viver sob o império exclusivo da razão. A esperança de que o homem atingiria a felicidade para sempre num mundo já dominado e sem segredos, por meio de uma ciência que tudo conheceria e tudo poderia, veio a ser um sonho que nunca se alcançaria e que o horror gigantesco das duas Guerras Mundiais converteu em algo pior que um pesadelo. O domínio da realidade escapava ao molde estreito do pensamento racionalista. E o perigo não derivava da ciência em si, mas dessa mentalidade que levava a considerar que só se pode conhecer aquilo que é mensurável, controlável, verificável, e a desprezar os aspectos da realidade que resistem a esse tipo de controle e cálculo.

Essa pretensão de domínio sem limites deixava o homem numa situação de desamparo. Logo se viu que a ciência, que tinha dominado com o seu prestígio o Século das Luzes, não podia, por si só, plenificar a vida do homem. Não era sua missão. A ciência não fala de valores, de sentido, de metas nem de fins, e o ser humano precisa de tudo isso para preservar a sua dignidade e ser feliz.

O otimismo ilustrado previra horizontes paradisíacos, mas a utopia científica mostrou como nunca a sua impotência. Não há dúvida de que o progresso científico foi grande e que esse desenvolvimento é uma coisa boa, ou pelo menos, não tem porque ser má. Mas, hoje em dia, muito poucos acreditam que tudo isso seja a panacéia, que possa fazer algo mais do que transferir a inquietação de uns temas para outros. O domínio das coisas é muito elevado, mas necessita de um humanismo válido que lhe dê sentido. Porque, do contrário, pode embriagar-se com os seus próprios êxitos e crescer em direções aberrantes para a dignidade do homem.

A técnica permite desenvolver meios de comunicação extremamente poderosos, rápidos, atraentes, sugestivos, mas esses meios podem ser uma arma de primeira grandeza para manipular as consciências, moldar as vontades e os sentimentos dos homens. A ciência precisa de alguns limites para a sua pretensão de soberania. Toda a grande conquista traz consigo uma inevitável ambivalência: um avanço num aspecto e um retrocesso em outro, talvez não menos valioso. O aumento de poder não corre sempre paralelamente ao aumento do domínio do homem sobre esse poder. A ciência não pode abandonar-se a sua própria dinâmica, mas deve ser regulada por uma instância externa que a oriente e lhe dê sentido.

O Processo Científico Implica um Declive Religioso?

A Idade Moderna começou por cultivar insistentemente as questões de método. Bacon, Descartes e Spinoza, por exemplo, concentraram a sua filosofia em torno da busca de um método rigoroso que lhes permitisse chegar à certeza e assentar a vida sobre convicções sólidas, inquebrantáveis, inexpugnáveis. Como as ciências avançam sobre dados seguros e conferidos, verificados pela experiência, foram surgindo pensadores convencidos de que, sempre que a ciência descobria um segredo, a religião dava um passo atrás. Parecia-lhes que o progresso da ciência reduzia inexoravelmente o domínio do religioso, cada dia mais confinado. Em contraposição ao que consideravam o crédulo espírito medieval, o homem moderno haveria de encontrar, apenas com a força da sua razão, um método sem fendas. E o grande modelo do pensamento autêntico era, para eles, o saber matemático.

Se se trabalha com a devida lógica, articulando bem os diversos passos do raciocínio – afirmavam -, chega-se em matemática a conclusões apodícticas, inquestionáveis. A ordem no raciocínio torna-se a chave do pensamento e do conhecimento retos. E essa ordem é estabelecida pela razão, pois a razão é o grande privilégio do homem. Por esse caminho – acabavam por concluir -, o homem basta-se a si mesmo, já que a razão lhe oferece recursos de sobra para descobrir as leis da realidade e conseguir um rápido domínio sobre ela. Mas de novo a passagem do tempo veio mostrar como esse domínio só é possível em termos quantitativos, naquilo que pode submeter-se a cálculo e medida. Mas o espírito escapa ao método matemático e à lógica cartesiana. Ao possibilitar a opção livre, o espírito torna possíveis muitas coisas que denunciam a insuficiência do modelo racionalista. Poderiam citar-se muitos exemplos.

Um dos mais característicos é a tentativa racionalista de explicar a inteligência humana. É difícil saber exatamente o que é o pensamento, mas, se eu reduzo o problema a uma questão de neurônios, posso conseguir uma tranqüilizadora impressão de exatidão: 1.350 gramas de cérebro humano, constituído por 100.000 milhões de neurônios, cada um dos quais forma entre 1.000 e 10.000 sinapses e recebe a informação que lhe chega dos olhos através de 1.000.000 de axônios acumulados no nervo ótico. Por sua vez, cada célula viva pode ser explicada pela química orgânica....Deste modo, posso pretender explicar a inteligência num plano biológico, a biologia em termos de processos químicos e a química em forma de matemática. Pois bem, qualquer leitor medianamente crítico perguntar-se-á o que têm a ver as porcentagens de carbono e hidrogênio, os neurônios e toda a matemática associada a esses processos, com algo tão humano e tão pouco matemático como conversar, entender uma piada, captar um olhar de carinho ou compreender o sentido da justiça.

A ciência moderna, com as suas descobertas maravilhosas, com as suas leis de uma exatidão assombrosa, oferece a tentação – um empenho que se deu em Descartes com uma força irresistível – de querer conhecer toda a realidade com uma exatidão matemática. Mas costuma-se esquecer algo essencial: que a matemática é exata à custa de considerar unicamente os aspectos quantificáveis da realidade. E reduzir toda a realidade ao quantificável é uma notável simplificação, é um reducionismo. Poderíamos replicar como aquele velho professor universitário, quando um aluno fazia alguma afirmação reducionista: “Isso é como se eu lhe perguntasse o que é esta mesa, e você me respondesse: cento e cinqüenta quilos”.

As grandezas matemáticas prestaram e prestarão um grande serviço à ciência, e à humanidade no seu conjunto, mas sempre prestaram um péssimo serviço quando se quis empregá-las de um modo exclusivista. A totalidade do real nunca poderá ser expressa só em cifras, porque as cifras expressam unicamente grandezas e a grandeza é apenas uma parte da realidade. E não é questão de dar mais números ou com mais decimais. Por muitos ou muito exatos que sejam, oferecem sempre um conhecimento notoriamente insuficiente. Você pesa 70 quilos, mas não é 70 quilos. E mede 1,83 metros, mas não é 1,83 metros. As duas medidas são exatas, mas você é muito mais que uma soma exata de centímetros e quilos. As suas dimensões mais genuínas não são quantificáveis: não podem ser determinadas numericamente as suas responsabilidades, a sua liberdade real, a sua capacidade de amar, a sua simpatia por tal pessoa ou a sua vontade de ser feliz.

Não querer reconhecer uma realidade alegando que não pode ser medida experimentalmente, seria proceder mais ou menos como um químico que se negasse a admitir as propriedades especiais dos corpos radioativos, sob o pretexto de que não obedecem às mesmas leis que explicam o que acontece com os outros corpos já conhecidos. Acima da ciência há outra face da realidade: a mais importante, e também a mais interessante do ser humano, aquela em que aparecem aspectos tão pouco quantificáveis como, por exemplo, os sentimentos – não é possível pesá-los, mas nada pesa mais do que eles na vida. Um pensamento ou um sentimento não podem honestamente ser qualificados como materiais. Não têm cor, sabor ou extensão, e escapam a qualquer instrumento que sirva para medir propriedades físicas. “Os fenômenos mentais – afirma John Eccles, Prêmio Nobel de Neurocirurgia – transcendem claramente os fenômenos da fisiologia e da bioquímica”.

“A ciência, apesar dos seus progressos incríveis – escreve o médico e pensador Gregório Maranón -, não pode nem poderá nunca explicar tudo. Cada vez ganhará mais terreno no campo daquilo que hoje parece inexplicável. Mas os limites fronteiriços do saber, por muito longe que cheguem, terão sempre pela frente um infinito mundo de mistério”.

A Fé Desaparecerá Quando a Sociedade Amadurecer?

Em um dos seus livros, López Quintás conta que um dia, ao entardecer, depois de visitar a catedral de Notre-Dame, enquanto vagueava pela velha Paris, deparou, sem querer, com um pequeno edifício abandonado, com as suas sórdidas janelas cruzadas por sarrafos de madeira. Aquela construção quase em ruínas era o famoso “Templo da Nova Religião da Ciência” que o filósofo francês Augusto Comte tinha erigido fazia século e meio. O contraste foi tão brusco como expressivo. O templo com o qual se pretendera dar culto ao progresso científico estava em ruínas. A velha catedral, pelo contrário, irradiava as suas melhores galas, como na sua brilhante época medieval. A música combinava nela com a harmonia das linhas arquitetônicas, com as belas palavras dos oradores, com o magnífico esplendor litúrgico que num dia de Natal, anos atrás, emocionara o grande poeta Claudel, até levá-lo à conversão.

A história daquele templo esquecido está aparentada com a da Ilustração, que no seu tempo se ergueu com o sonho de “despojar o homem dos grilhões irracionais das crenças e conhecimentos supersticiosos baseados na autoridade e nos costumes”. O pensamento ilustrado da Enciclopédia considerava os conhecimentos religiosos como “simples e ingênuas explicações sobre a vida dadas pelo homem não científico”. Na sua aversão à fé, uma multidão de pensadores deleitava-se em atribuir a origem mais baixa possível ao sentimento religioso. Concebiam os nossos antepassados como “seres perpetuamente atemorizados, empenhados em conjurar as forças hostis do céu e da terra mediante práticas irracionais”. Viam a Deus como um simples “produto do medo das civilizações primitivas, num tempo em que esses espíritos atrasados ainda acreditavam em fábulas”. A teoria de Comte sobre a evolução humana através dos três estados – religiosidade, pensamento filosófico e conhecimento científico – gozou na sua época de grande aceitação e em sua honra foi erigido aquele templo dedicado à “Nova Religião da Ciência”.

Não é curioso que a ciência adquirisse essa faceta religiosa? Foi efetivamente um curioso fenômeno de substituição. Fascinado pela ciência, o homem elevou-a até ocupar o lugar do sagrado. Mas não era um simples conflito entre a ciência e a fé. Com efeito, entronizar uma bonita mocinha parisiense na catedral de Notre–Dame – como fizeram durante a Revolução Francesa - , dando–lhe o título de “Deusa Razão”, não parece que fizesse parte das ciências experimentais. Por trás de tudo aquilo latejava o empenho ateu de proclamar a salvação da humanidade por si mesma, e o advento de uma sociedade iluminada unicamente pela razão humana.

Passaram-se menos de dois séculos, e o estado de abandono em que se encontra hoje aquele templo laico é talvez um fiel reflexo do abandono da concepção do homem que tanta força teve na sua época. Aquela ilusão segundo a qual o advento da era científica permitiria eliminar o mal do mundo acabou por ser um doloroso engano. As suas hipóteses acabaram por estar mais impregnadas de ingenuidade do que a que eles atribuíam às épocas históricas anteriores.

A Ciência Pode Explicar Tudo?

Um olhar sobre o progresso científico com um pouco de perspectiva histórica deixa-nos espantados com a rapidez com que as máquinas são ultrapassadas e vão parar nos museus. Muitas afirmações das revistas científicas atuais provavelmente serão motivos de riso ou de assombro para as gerações futuras, talvez em menos tempo ainda. A história da ciência adverte-nos, com teimosa insistência, sobre um fato irrefutável: poucas teorias científicas conseguem manter-se em pé, mesmo que por poucos séculos; muitas vezes, só por alguns anos; e em alguns casos, menos ainda. A maioria das afirmações da ciência vai sendo substituída, uma atrás da outra, pouco a pouco, por outras explicações mais complexas e mais fundamentadas dessa mesma realidade. Eram hipóteses tidas como certas durante uma série de anos, ou de séculos, e que um dia se descobre que estão superadas. Umas vezes, são englobadas dentro de teorias mais completas, das quais a antiga hipótese é um corolário ou um simples caso particular. Outras ficaram obsoletas e desapareceram por completo do âmbito científico. A postura própria da ciência experimental deve ser, portanto, extremamente cautelosa nas suas afirmações.

“Uma cilada perniciosa” – escrevia John Eccles pouco depois de ter recebido o Prêmio Nobel pelas suas pesquisas em neurocirurgia – surge da pretensão de alguns cientistas, mesmo eminentes, de que a ciência não demorará a proporcionar uma explicação completa de todas as nossas experiências subjetivas. É uma pretensão extravagante e falsa, que foi qualificada ironicamente por Popper como “materialismo promissório”. É importante reconhecer que, mesmo que um cientista possa manifestar essa pretensão, não se comportaria como cientista, mas como um profeta mascarado de cientista. Isso seria cientificismo, não ciência, embora impressione fortemente os profanos que pensam que a ciência produz de forma incontroversa a verdade. O cientista não deve pensar que possui um conhecimento certo de toda a verdade. O máximo que nós, os cientistas, podemos fazer é chegar mais perto de um entendimento verdadeiro dos fenômenos naturais mediante a eliminação de erros em nossas hipóteses. É da maior importância para os cientistas que apareçam perante o público como o que realmente são: humildes buscadores da verdade”.

Em contrapartida, a imodéstia costuma caminhar a par da ignorância. A auto-suficiência com que alguns falam reflete uma atitude muito pouco científica, pois os cientistas sensatos nunca conferem a categoria de dogma às suas hipóteses. O cientificismo orgulhoso prestou sempre um péssimo serviço ao rigor da verdadeira ciência.

A Razão Precisa da Fé?

O combate que o homem trava contra o mal excede infinitamente os meios da razão e da ciência. É o que demonstram fatos tão atuais como o racismo, a droga ou o alcool. Ou como todos esses terríveis crimes cometidos por totalitarismos ateus sistemáticos e pretensamente científicos ao longo do século XX: desde o genocídio nazista de Hitler até o de Pol Pot no Camboja, passando pelos do lenismo, do stalinismo ou do maoísmo.

O pior é que a maior parte desses crimes em massa foram cometidos em nome de teorias que, na sua época, receberam o aplauso de milhões de pessoas. Foram autênticos infernos fabricados por homens que procuravam um mundo perfeito que se bastasse a si mesmo e já não tivesse necessidade de Deus.

E assim como, lendo Lênin, se podia notar que os direitos do indivíduo não iam ser respeitos num sistema comunista, do mesmo modo, estudando as premissas da Ilustração, viu-se claramente que a Modernidade não atenderia às necessidades globais do ser humano. Não basta a razão para que uma sociedade seja justa, solidária e equilibrada. Para que haja equilíbrio na pessoa e na sociedade, é preciso atender, juntamente com a razão, à vontade e à sensibilidade. A pessoa e a sociedade, devem ter por objetivo procurar o bem, a verdade e a beleza; e isso significa falar de vontade, inteligência e sentimentos; e, por sua vez, de ética, de ciência e de arte. Quando se idolatra um método da inteligência, como é a razão, sem elevar à sua altura a ética e a estética, desenquilibram-se o indivíduo e a sociedade. Esse foi o fracasso da Ilustração.

Fracassou por ter pensado que da razão deriva automaticamente a ética, coisa que se demonstrou falsa ao ser confrontada com a realidade. A razão não pode ser salva pela razão. Isso seria ilusório. Esses crimes demonstram o que o homem pode chegar a fazer. E vimos como a razão não os impediu.

Os ilustrados pensavam que, mostrando ao homem o que é racional, este o adotaria, e a razão seria suficiente para organizar a sociedade. Mas não foi assim. Não basta proclamar o que é racional para que os homens o pratiquem.

O comportamento humano está cheio de sombras e de matizes alheias à razão, que desembestam cada qual por sua conta movendo as molas da vontade e do coração. Reconhecer os perigos que a razão encerra – afirma Jean–Marie Lustiger – é salvar a sua honra. Conceber a razão como a grande soberana, independente do bem que o homem deve procurar, é mais ou menos como pôr-se nas mãos de um computador: é um instrumento muito capaz, processa grande quantidade de dados que toma do exterior, todo o seu desenvolvimento é perfeitamente lógico, mas alguém tem de garantir que está bem programado. A verdadeira fé é um guia insubstituível, pois a razão pode extraviar-se.

Não quero, com isto, menosprezar a razão, antes pelo contrário. A razão é uma das mais nobres capacidades que distinguem a espécie humana, e alegra-nos ver os seus triunfos, bem como conquistas da ciência e a sua luta por construir um mundo melhor. Mas convém nunca esquecer a limitação humana, e igualmente a ordem natural imposta por Deus, que permite ao homem preservar a sua dignidade e evitar erros.

A história está cheia de cadáveres ideológicos, e ninguém acha estranho encontrá-los perfeitamente alinhados quando olha pra trás com a disposiçào de aprender. E, entre eles, espalhados ao longo dos séculos, pode-se ver toda uma legião de profetas que foram anunciando – sobretudo nos últimos duzentos anos – o próximo e definitivo desaparecimento da religião e da Igreja.

No entanto, a história mostra que são precisamente aqueles que, com tanta paixão, lançam essas condenações e essas profecias os que desaparecem uns após outros, enquando a Igreja continua adiante depois de dois mil anos, e a religiosidade continua a ser uma constante em todas as civilizações de todos os tempos.

A Igreja, que presenciou catástrofes que varreram impérios inteiros, testemunha pela sua mera subsistência e força que palpita nela. “Os povos passam – observa Napoleão -, os tronos e as dinastias desmoronam-se, mas a Igreja permanece”. É uma realidade que leva a pensar que o fato religioso faz parte da natureza do homem, e que a Igreja está animada de um espírito que não é de origem humana.


Fonte: É Razoável Crer? Questões Atuais sobre a Fé – AGUILÓ Alfonso – Tradução: Roberto da Silva Martins - Editora Quadrante - São Paulo 2006 - Coleção Vértice; 60.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A Sucessão Apostólica e o Governo dos Bispos



“Atendei ao Bispo, para que Deus vos atenda. Ofereço minha vida para os que se submetem ao Bispo, aos presbíteros e aos diáconos. Possa eu, com eles, ter parte em Deus. Trabalhai uns com os outros e, unidos, combatei, lutai, sofrei, dormi, despertai, como administradores, assessores e servidores de Deus. Procurai agradar Àquele sob cujas ordens militares e do qual recebeis vosso soldo. Não se encontre entre vós nenhum desertor. Que o vosso Batismo seja como escudo, a fé como elmo, o amor como lança, a perseverança como armadura. Atendei ao Bispo, como Jesus Cristo segue o Pai, e aos presbíteros como aos apóstolos; respeitai os diáconos como à lei de Deus. Sem o Bispo ninguém faça nada do que diz respeito à Igreja. Onde aparece o Bispo, aí esteja a multidão, do mesmo modo onde está Jesus Cristo, aí está a Igreja Católica. É bom reconhecer a Deus e ao Bispo. Quem respeita o Bispo é respeitado por Deus; quem faz algo às ocultas do Bispo, serve ao diabo.” (Santo Inácio de Antioquia aos Esmirniotas p. 118 e a Policarpo p. 123 – Padres Apostólicos – Paulus – São Paulo – 2002)



Cristo Nosso Senhor, para apascentar e aumentar continuamente o Povo de Deus, instituiu na Igreja diversos ministérios, para bem de todo o corpo. Com efeito, os ministros que têm o poder sagrado servem os seus irmãos para que todos os que pertencem ao Povo de Deus, - e por isso possuem a verdadeira dignidade cristã,- alcancem a salvação, conspirando livre e ordenadamente para o mesmo fim. Neste tempo da instituíção da Igreja, conta-nos o apóstolo Marcos que uma grande multidão O seguia, quando Ele decidiu subir ao monte e chamar para junto de Si, aqueles que dariam continuidade a implantação de seu Reino que Ele adquirira a preço de Seu sangue. Muitos eram os discípulos, mas escolheu somente doze deles - mostrando que a vocação é uma iniciativa divina - para a tarefa específica de Apóstolos (cf. Mc 3, 13-19), que quer dizer: "enviados". Por isso Jesus mais tarde diz: "Não fostes vós que Me escolhestes a Mim, mas Eu que vos escolhi a vós"(Jo 15,16). Esta escolha de doze apóstolos tem um profundo significado, pois o seu número corresponde ao dos doze Patriarcas de Israel, e os Apóstolos representam o novo povo de Deus, a Igreja, fundada por Cristo Jesus que quis assim por em relevo a continuidade entre o Antigo e o Novo Testamento. Eles são as colunas sobre as quais Cristo edifica a Igreja. A própria designação dos Doze mostra que formam um grupo determinado e completo.

Sendo Ele a Pedra Angular e Pedro o chefe visível de Sua Igreja, chamou-os para levar sua mensagem a todos aqueles que os escutassem, fazendo-os discípulos, santificando-os e governando-os com o poder do próprio Espírito de Deus, que foi derramado sobre eles no dia de Pentecostes, confirmando assim sua missão, dando-lhes poder para serem de fato testemunhas fieis da Ressurreição do Senhor e constituindo-os verdadeiros servos de Cristo em prol deste povo escolhido. Esta missão que lhes incumbiu, tem a garantia de durar até ao fim dos tempos, pois para levá-la a cabo, o próprio Cristo Glorioso promete acompanhar Sua Igreja e não abandoná-la. (Toda autoridade Me foi dada no céu e na terra […] Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo. Mt 28,18.20) ”Quando na Sagrada Escritura se afirma que Deus está com alguém, quer-se dizer que este terá êxito nas suas empresas. Daí que a Igreja, com a ajuda e a assistência do Seu Fundador divino, está segura de poder cumprir indefectivelmente a sua missão até ao fim dos séculos que será, em última análise, de ensinar aos homens as verdades acerca de Deus e a exigência de que identifiquem essas verdades, ajudando-os sem cessar com a graça dos sacramentos, instituídos por Cristo”. (Bíblia de Navarra – Evangelho de Mateus - p.443)

Ainda no estabelecimento de Sua Igreja, o Senhor, além de chamar seus escolhidos, instituiu os Sacramentos para administrar as graças que Ele havia adquirido na Cruz, para aqueles que haveriam de crer e aderir à Sua mensagem de salvação, sendo estes guardados e administrados por esta mesma e única Igreja, através destes escolhidos, a fim de levar adiante a missão de formar um povo santo, um reino de sacerdotes e uma nação consagrada para Deus.(Êxodo 19,6). Dentre os sete sacramentos, havia um - o da ordem - que capacitava e capacita o "ordenado a configurar-se a Cristo em virtude de uma graça especial do Espírito Santo, para que fosse instrumento de Cristo a serviço da Sua Igreja. Graças a este sacramento, a missão confiada por Cristo aos seus Apóstolos continua a ser exercida até ao fim dos tempos: ele é portanto, o sacramento do ministério apostólico, o que confere um dom do Espírito Santo, que o permite exercer um poder sagrado, que pode vir só de Cristo mediante a Igreja. O enviado do Senhor fala e atua não por autoridade própria, mas em virtude da autoridade de Cristo; não como membro da comunidade, mas falando a ela em nome de Cristo. Ninguém pode conferir a si mesmo a graça; ela deve-lhe ser dada e oferecida. Isto supõe ministros da graça, por Cristo ornados de autoridade e aptidão. O sacramento do ministério apostólico comporta três graus. O ministério eclesiástico, de instituição divina, é exercido em ordens diversas por aqueles que desde antigamente são chamados bispos, presbíteros, diáconos..("De diaconatu permanenti" - Declaração da Congregação do Clero em conjunto com a Congregação da Educação Católica - 22 fev 1998 - Sua Santidade João Paulo II)

Os Bispos, Sucessores dos Apóstolos

Como a missão da Igreja de salvar as almas, só acabará quando se consumar os tempos, haveria então de se ter sempre sucessores, nesta sociedade hierarquicamente estabelecida e organizada pelo Cristo, Senhor; por isso, enquanto ela existir, haverá nela os Bispos, sucessores dos Apóstolos, que apesar de humanos, a governará com todo poder e santidade, porque são alimentados, guiados e santificados pelo próprio Cristo, bom pastor e príncipe dos pastores, de uma forma ininterrúpta para serem os transmissores do múnus apostólico. E assim, como testemunha Santo Ireneu, a “tradição apostólica é manifestada em todo o mundo e guardada por aqueles que pelos Apóstolos foram constituídos Bispos e seus sucessores”. “Portanto, os Bispos receberam, com os seus colaboradores, os presbíteros e diáconos, o encargo da comunidade, presidindo em lugar de Deus e com poder de Sua graça, ao rebanho de que são pastores como mestres da doutrina, sacerdotes do culto sagrado, ministros do governo. E assim como permanece o múnus confiado pelo Senhor singularmente a Pedro, primeiro entre os Apóstolos, e que se devia transmitir aos seus sucessores, do mesmo modo permanece o múnus dos Apóstolos de apascentar a Igreja, o qual deve ser exercido perpetuamente pela sagrada Ordem dos Bispos. Ensina, por isso, o sagrado Concílio que, por instituição divina, os Bispos sucedem aos Apóstolos, como pastores da Igreja; quem os ouve, ouve a Cristo; quem os despreza, despreza a Cristo e Aquele que enviou Cristo” (Luc. 10,16). (Cf. Constituição Dogmática - Lumen Gentium n.20 – Sumo Pontífice Papa Paulo VI).

“Por meio de seu ministério, estes apascentam o rebanho e fazem Cristo presente no meio de Seu povo, sendo administradores dos Mistérios de Deus (cfr.1 Cor.4,1). Mistérios estes que são distribuídos em favor destes membros do Corpo Místico de Jesus Cristo, quando administram os sacramentos, que são como canais através dos quais flui a graça do Redentor em benefício de todos os homens. Assim em qualquer momento importante de sua vida, o cristão encontra ao seu lado o bispo que exerce o poder recebido de Deus e comunica-lhe ou acrescenta-lhe aquela graça, que é o princípio sobrenatural da vida celestial” (Sumo Pontífice Pio XI - Ad Catholic Sacerdotti - Bíblia de Navarra I Cor. 3 p.809).

Dom oferecido pelo Espírito à Igreja, o Bispo por um lado é, antes de tudo e como qualquer outro cristão, filho e membro da Igreja. Desta santa Mãe, recebeu ele o dom da vida divina no sacramento do Batismo e a primeira iniciação na fé. Com todos os outros fiéis, partilha a dignidade insuperável de filho de Deus, que há de ser vivida na comunhão e em espírito de grata fraternidade. Por outro lado o Bispo, em virtude da plenitude do sacramento da Ordem, é, diante dos fiéis, mestre, santificador e pastor, encarregado de agir em nome e vez de Cristo e esta plenitude, confere nele um caráter que se fundamenta e se enraíza o direito e o poder próprio da ordem que recebeu: ele é portanto aquele que confirma e ordena, isto é, transmite a outros o sacerdócio por meio deste mesmo sacramento da ordem.

“O Bispo é enviado, em nome de Cristo, como pastor para cuidar duma determinada porção do Povo de Deus. Por meio do Evangelho e da Eucaristia, deve fazê-la crescer como realidade de comunhão no Espírito Santo. Disto deriva para o Bispo a representação e o governo da Igreja que lhe foi confiada – com o poder necessário para exercer o ministério pastoral recebido sacramentalmente (munus pastorale) – como participação da própria consagração e missão de Cristo. Em virtude disso,” os Bispos governam as Igrejas particulares que lhes foram confiadas como vigários e legados de Cristo, por meio de conselhos, persuasões, exemplos, mas também com autoridade e poder sagrado que exercem unicamente para edificar o próprio rebanho na verdade e na santidade, lembrados de que aquele que é maior se deve fazer como o menor, e o que preside como aquele que serve (cf. Lc 22, 26-27) . O poder do Bispo é um verdadeiro poder, mas iluminado pela luz do Bom Pastor e moldado segundo o seu modelo. Exercido em nome de Cristo, este poder é ‘próprio, ordinário e imediato, embora o seu exercício seja superiormente regulado pela suprema autoridade da Igreja e possa ser circunscrito dentro de certos limites para utilidade da Igreja ou dos fiéis. Por virtude deste poder, têm os Bispos o sagrado direito e o dever, perante o Senhor, de promulgar leis para os seus súditos, de julgar e de orientar todas as coisas que pertencem à ordenação do culto e do apostolado’. Assim, em virtude do ofício que lhe foi confiado, o Bispo está investido de poder jurídico objectivo, destinado a exprimir-se em atos de poder pelos quais realiza o ministério de governo (munus pastorale) recebido no sacramento”. (Exortação Apostólica Pastores Gregis – Sumo Pontífice João Paulo II – n. 42-43)

Consagração Episcopal – Obra do Espírito Santo

Pela importância de suas funções, aprouve Deus enriquecer os apóstolos com o seu divino Espírito, que literalmente “desceu sobre eles” em Pentecostes (cfr Atos 1,8; 2,4; Jo. 20, 22-23) e que por sua vez, pela imposição das mãos, transmitem este mesmo dom aos seus colaboradores. “Quando se precisa de um novo Bispo para presidir uma diocese ou para alguma missão importante dentro da Igreja, o Papa, como sucessor de Pedro, designa o sacerdote que deve ser elevado à ordem episcopal. Este sacerdote recebe então, a terceira ‘imposição das mãos’de outro Bispo (as duas anteriores foram no diaconato e presbiterato) e, por sua vez, converte-se em Bispo. Ao poder de oferecer a Santa Missa e de perdoar pecados, junta-se agora o de administrar a Confirmação por direito próprio e o poder ‘exclusivo’ dos Bispos de ordenar outros sacerdotes e de consagrar Bispos. Com esta terceira imposição de mãos do Bispo consagrante (habitualmente acompanhado por outros sucessores dos apóstolos), o novo Bispo recebeu o Espírito Santo pela última vez. O Espírito Santo desceu sobre ele pela primeira vez quando recebeu o Batismo, o capacitando de participar com Cristo da sua oferenda sacrifical e de receber a graça dos demais sacramentos. O Espírito Santo desceu sobre ele mais uma vez na Confirmação e conferiu-lhe o poder de participar com Cristo no seu ofício profético: o poder de propagar a fé com a palavra e com as obras. Veio mais uma vez, como novos poderes e graças, no diaconato e no presbiterato. E, agora, ao ser ordenado Bispo, o Espírito Santo desce pela última vez: - já não há novos poderes que Deus possa conferir ao homem. Pela última vez sua alma será marcada com um caráter – o pleno e completo caráter do sacramento da Ordem Sagrada – o caráter Episcopal, revelando a superioridade da Graça neste servo de Deus, escolhido pelo Senhor, que pode por isso, com todo direito e poder, conduzir Seu povo. (TRESE, Léo, a Fé Explicada, Quadrante - São Paulo 2005 – p. 421/422). (Adendo meu).

A consagracão episcopal confere ao Bispo a plenitude do sacramento da ordem, a que é chamada Sumo Sacerdócio. Sua essência reside no poder de o Bispo se perpetuar a si mesmo, no poder de ordenar sacerdotes e de consagrar outros bispos , garantindo assim a sucessão apostólica que é um poder que jamais poderá se perder. Esta consagração juntamente com o poder de santificar, confere também os poderes de ensinar e governar, os quais só podem ser excercidos em comunhão hierárquica com a cabeça e os membros do colégio episcopal. Quando a graça do Espírito Santo, se une a imposição das mãos e as palavras da consagração, é impresso no Bispo o caráter sagrado, de tal modo que estes representam de forma absoluta o próprio Cristo, mestre, pastor e pontífice e atuam pela Igreja no lugar d`Ele, confirmando assim, a sobrenaturalidade e força da Igreja de Cristo neste mundo, dando a certeza de que tudo que Ela faz, através de seus servos, o faz pelo Cristo que dela é a cabeça. Falando em comunhão hierárquica, é preciso compreender que a unidade do colégio dos Bispos é importante para que se cumpra de fato a vontade de Deus neste mundo, através de Sua Igreja, que é caminho e sacramento de salvação aos homens, pelo qual Cristo morreu. O perpétuo e visível fundamento da unidade é o Romano Pontífice, sucessor de Pedro, tanto dos Bispos quanto do povo de Deus; e o Bispos em suas igrejas fazem este papel de princípio e fundamento desta unidade, pelo que, cada um dos Bispos representa a sua igreja e, todos em união com o Papa, no vínculo da paz, do amor e da unidade, a Igreja inteira.

” Pai santo, que conheceis os corações, dai a este vosso servo, por Vós eleito para o Episcopado, que apascente o vosso povo santo, exerça de modo irrepreensível diante de Vós o sumo sacerdócio” (Rito da Ordenação do Bispo: Oração de Ordenação.)

O Tríplice Ministério dos Bispos: Ensinar, Santificar e Reger

Ensinar: A Pregação do Evangelho ocupa posição de destaque na missão conferida por Cristo ao Bispo, já que cabe a este instruir o povo de Deus naquilo que seja necessário a sua salvação, acompanhando-o para que este não se desvie do reto caminho, que é um só, Jesus, em Sua Igreja Santa. O Bispos são verdadeiros doutores já que expõem sem erros a revelação do Senhor, seja por atos, palavras e documentos, mas sempre em total concordância com o Sumo Pontífice. São de fato, testemunhas da Verdade divina e Católica. Pelo ministério da palavra, os bispos comunicam a força de Deus , para a salvação dos que crêem (cfr. Rom. 1,16).

Santificar: Por estar revestido da plenitude do sacramento da Ordem, o Bispo é o administrador da graça do supremo sacerdócio, principalmente na Eucaristia, símbolo do amor e da unidade do corpo místico, sem o qual não pode haver salvação, que ele mesmo oferece ou delega a outro para que seja oferecida, pela qual vive e cresce a Igreja. Portanto, por meio dos sacramentos, santificam os fiéis, cuja distribuição é sempre ordenada por sua autoridade.

Reger: Devido a plenitude de seu encargo pastoral, ao Bispo é confiado a regência e o governo das ovelhas que Cristo lhe destinou, agindo como uma pai de famíla, que cuida dos seus na verdade, retidão e zelo constante, tendo como exemplo o Bom Pastor, Jesus, que não se poupou, mas deu sua vida por estas mesmas ovelhas, confiadas agora a ele. Por ser tão fraco como elas, pode-se compadecer delas, mas como é revestido com o poder e a graça que emana de Deus, pode então levá-las ao verdadeiro caminho, ajudando-as a se firmarem na rocha que é o próprio Cristo.

O Caminho Espiritual do Bispo

Por ser um servidor de Cristo, o Bispo deve como filho de Deus e como pastor de seu povo, se conformar a Cristo que é e sempre será seu modelo. Apesar de sua eleição, deve buscar sem cessar a plenitude das virtudes, para tanto é preciso que este busque a todo instante a santidade e o caminho da perfeição para chegar a estatura de Cristo, seu Senhor. Este caminho tem sua raiz na graça sacramental do batismo e confirmação, assim como todos nós cristãos que precisamos também percorrer este caminho de perfeição. Aqui se aplica as palavras de Santo Agostinho; cheias de realismo e sabedoria sobrenatural: ”Atemoriza-me o que sou para vós; consola-me o que sou convosco. Pois para vós sou Bispo; convosco sou cristão. Aquilo é um dever; isto, uma graça. O primeiro é um perigo; o segundo, salvação” (Exortação Apostólica Pastores Gregis – Sumo Pontífice João Paulo II – Santo Agostinho - Sermo 340, 1: PL 38, 1483). Sua vida deve se basear na leitura assídua da palavra de Deus, na oração incessante, na Eucaristia e por ser também frágil humanamente falando, deve sempre que necessário recorrer ao sacramento da penitência. Maria a Santísima mãe deve ser modelo de humildade, obediência e virtude.

O Papa, Bispo de Roma e Chefe Supremo da Igreja

São Cirilo, Bispo Alexandrino, diz: “A fim de permanecermos unidos ao nosso chefe apostólico, que ocupa o trono dos Pontífices Romanos, de quem nos compete receber o que devemos crer e professar, nós o veneramos e a ele rogamos, de preferência a todos os mais. Porque só ele pode repreender, corrigir, determinar, dispor, desatar e ligar, em lugar do fundador da Igreja, que a nenhum outro, só a ele, se deu a plenitude do poder; a quem todos, por direito divino, inclinam a cabeça e os mais elevados chefes do mundo lhe obedeçam como ao próprio Senhor Jesus Cristo. Logo, os Bispos dependem por direito divino, de um superior. Em toda parte onde muitos governantes dependem de um só, há de necessariamente haver um regime universal superior aos regimes particulares. Porque em tôdas as virtudes e em todos os atos, como diz Aristóteles, a ordem depende da ordenação dos fins. Ora, o bem comum é mais divino que o bem particular. Por onde, além do poder governamental, que visa o bem particular, deve haver um poder universal, que visa o bem comum; do contrário não poderia haver redução à unidade. Por isso, sendo toda a Igreja um só corpo, é necessário, para conservar essa unidade, haver um poder governativo da Igreja universal, superior ao poder episcopal a que obedece cada igreja especial. E esse é o poder do Papa” (Santo Tomás – Suma Teológica questão XL, cap VI, III)

“Como Bispo de Roma, o Papa exerce as funções normais dos Bispos residenciais e nessa qualidade é sucessor de São Pedro como primeiro Bispo da cidade. Mas é ao mesmo tempo, sucessor do Príncipe dos apóstolos a quem Jesus confiou a missão se assegurar a unidade da Igreja, não só como figura simbólica, mas com os poderes para isso requeridos de garante das verdades da fé, governo universal e juiz supremo. Nesta qualidade, goza em toda a Igreja de “poder ordinário, supremo, pleno, imediato e universal, que pode exercer livremente”, de forma que “contra uma (sua) sentença não há apelação nem recurso”. Exerce as suas funções em comunhão com os outros Bispos e com a ajuda deles, nomeadamente através do Sínodo dos Bispos , dos cardeias, e ainda de outras pessoas e instituições ligadas à Cúria Romana. (cf. CDC 331- 335 – Dom Manoel Franco Falcão)

Nós, Seus Filhos Espirituais

“É muito antiga a tradição que apresenta o Bispo como imagem do Pai, o qual, segundo Santo Inácio de Antioquia, é como que o Bispo invisível, o Bispo de todos. Por conseguinte, cada Bispo ocupa o lugar do Pai de Jesus Cristo, devendo, em virtude precisamente d'Aquele que representa, ser reverenciado por todos. Em nome desta estrutura simbólica que, especialmente na tradição da Igreja do Oriente, evoca a autoridade paterna de Deus, a cátedra episcopal só pode ser ocupada pelo Bispo. Da mesma estrutura deriva, para cada Bispo, o dever de cuidar, com amor de pai, do povo santo de Deus e guiá-lo – juntamente com os presbíteros, colaboradores do Bispo no seu ministério, e com os diáconos – pelo caminho da salvação. E vice-versa os fiéis, como adverte um texto antigo, devem amar os Bispos que são, depois de Deus, pais e mães. Por isso, segundo costume existente nalgumas culturas, beija-se a mão do Bispo como a do pai amoroso, dispensador de vida”. (Exortação Apostólica Pastores Gregis – Sumo Pontífice João Paulo II - n.7)

Portanto nós filhos do Pai Altíssimo, devemos por amor a Cristo e Sua Igreja, acolher, amar e sobretudo obedecer com diligência e solicitude o parecer dos Bispos, quando estão em comunhão com o Romano Pontífice, vendo neles de fato, o representante de Deus, um pai para nos instruir, um mestre para nos conduzir ao reto caminho, rumo a morada celeste, já que detém a autoridade do próprio Cristo para suceder o Colégio Apostólico, sustentáculo da Igreja e da Verdade. A ele toda nossa obediência e reverência, isto é bom e agradável ao Pai.

Confissão



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“Aquele que confessa os seus pecados e os acusa, já está de acordo com Deus. Deus acusa os teus pecados; se tu também os acusas, juntas-te a Deus. O homem e o pecador são, por assim dizer, duas realidades distintas. Quando ouves falar do homem, foi Deus que o criou: quando ouves falar do pecador, foi o próprio homem quem o fez. Destrói o que fizeste, para que Deus salve o que fez. [...] Quando começas a detestar o que fizeste, é então que começam as tuas boas obras, porque acusas as tuas obras más. O princípio das obras boas é a confissão das más. Praticaste a verdade e vens à luz” (AGOSTINHO, Santo: In Iohannis evangelium tractatus, 12, 13: CCL 36, 128 (PL 35, 1491).).


Se existe algo pelo qual nós, católicos, temos que agradecer profundamente a Deus, é pela chance que nos é dada de nos voltarmos a Ele; e como se não tivesse bastado Deus nos mostrar o caminho de volta, ainda nos foi dada a capacidade maravilhosa de nos santificarmos diante de Sua presença; ainda neste mundo. Ele que com todo amor nos amou, ao enviar Seu Filho para morrer por nós pecadores, mostrou e nos dispôs, através dos Sacramentos contidos em Sua Igreja, sua graça maravilhosa, restituindo o que foi perdido pelo pecado.

“Se dissemos que não temos pecados”... A perda do sentido do pecado é um perigo que espreita o homem de todos os tempos. “Enganados pela perda do sentido do pecado" – recorda o Papa João Paulo II - por vezes tentados por alguma ilusão pouco cristã de impecabilidade, os homens de hoje têm necessidade de voltar a escutar, como dirigida pessoalmente a cada um, a advertência de São João: “Se dissermos que não temos pecados, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós”; mais ainda, “o mundo inteiro jaz em poder do malígno”(1 Jo 5,19). Cada um, portanto, está convidado pela voz da Verdade divina a ler com realismo no interior de sua consciência e a confessar que foi gerado na iniquidade, como dizemos no Salmo Miserere (Biblia de Navarra, I Joh 1,8, p. 708).

Reconhecer sua própria miséria e que para ela existe solução quando se busca com toda clareza e propósito de mudança de vida, Deus que Se revelou no amor e na misericórdia, é o início da vida plena que o Senhor oferece para nós pecadores e que culmina com Sua visão beatífica, caso nos mantenhamos fiéis até o fim. E para que ningúem abuse da misericórdia divina, o seu amor e perdão nos convida ao arrependimento sempre, consciente de nossa fragilidade que nos alicia e corrompe. Regenerar o que foi degenerado pelo pecado foi o objetivo de Deus Pai, quando fez entrar neste mundo Seu Filho unigênito nascido de uma mulher, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, para nos elevar à dignidade de filhos adotivos, pela graça que nos santifica e restaura, fazendo-O morrer na Cruz para efetuar a redenção.

Pela misericórdia de Deus, Pai que reconcilia, o Verbo encarnou no seio puríssimo da Bem-aventurada Virgem Maria, para salvar o povo dos seus pecados (Mt 1,21) e abrir-lhe “o caminho da salvação”. São João Batista confirma esta missão, indicando Jesus como o “Cordeiro de Deus”, “Aquele que tira o pecado do mundo" (Jo 1,29). Toda a obra e a pregação do Precursor é uma chamada enérgica e premente à penitência e à conversão, cujo sinal é o Batismo administrado nas águas do Jordão. Também Jesus se submeteu àquele rito penitencial (cf. Mt 3,13-17), não porque tenha pecado, mas porque “se deixa contar entre o número dos pecadores; é já o 'Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo' (Jo 1,29), e antecipa já o 'batismo' da sua morte sangrenta. Assim, a salvação é, antes de mais nada, redenção do pecado, enquanto impedimento da amizade com Deus, e libertação do estado de escravidão, no qual se encontra o homem que cedeu à tentação do Maligno e perdeu a liberdade dos filhos de Deus (cf. Rom 8,21)" (Carta Apostólica de Nosso Papa João Paulo II sob forma de Motu Próprio – Misericórdia Dei).

Por isso, o homem precisa, iluminado pelo Espírito Santo, ao olhar para a Cruz, - consciente de que ali morreu O justo pelos injustos, O Santo pelos pecadores - entender que o amor de Deus é maior que o pecado e que por amor a Ele deve voltar atrás, para poder participar do plano de felicidade que quis Deus para sua alma, e este amor a Deus não é uma questão de sentimentos. O que de verdade prova meu amor a alguém, e sobretudo a Deus, é o que sou capaz de fazer por ela, não o nosso sentimentalismo. Nosso amor a Ele deve ser, portanto, arraigado na verdade, e reconhecer o próprío pecado, ou melhor, — indo mais ao fundo na consideração da própria personalidade — reconhecer-se pecador, capaz de pecar e de ser induzido ao pecado, é o princípio indispensável do retorno a Deus. Conhecer ”que o pecado, por leve que seja é uma ofensa a Deus, uma resistência à Sua vontade, uma ingratidão para com o mais amante e o mais amável dos pais e benfeitores, ingratidão que O fere tanto mais quanto é certo que somos seus amigos privilegiados. E assim se volta Ele para nós e diz: 'Se for um inimigo quem Me ultraja, suportá-lo-ia..Mas tu..tu eras um outro eu, Meu confidente e Meu amigo, vivíamos juntos numa doce intimidade:' (Sl 54,13-15)… Saibamos escutar estas censuras tão bem merecidas, banhar-nos na humilhação e confusão – Ouçamos também a voz de Jesus, digamo-nos a nós mesmos que as nossas faltas tornaram mais amargo o cálix que lhe foi apresentado no jardim das Oliveiras, mais intensa a Sua agonia. E então, do fundo da nossa miséria, peçamos humildemente perdão: 'Miserere mei, Deus, secundum misericordiam tuam…Penitus lava me a culpa mea…' "(TANQUEREY, Adolph: A Vida Espiritual Explicada e Comentada. Anápolis: Aliança Missionária Eucarística Mariana, 2007. p. 177).

Para tanto, supõe-se uma disposição interior do cristão, que deve se reconhecer pecador com humildade e verdade. “Se dissermos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos e a verdade não está em nós. Se confessarmos nossos pecados, Deus é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda culpa” (1 Jo 1,8-9). A penitência interior é, portanto, o dinamismo do “coração contrito” (Sal 51,19), movido pela graça divina a responder ao amor misericordioso de Deus. Implica a dor e a repulsa pelos pecados cometidos, o propósito firme de não mais pecar e a confiança na ajuda de Deus. Alimenta-se da esperança na misericórdia divina.

Na realidade, reconciliar-se com Deus supõe e inclui o apartar-se com lucidez e determinação do pecado, no qual se caiu. Supõe e inclui, portanto, o fazer penitência no sentido mais pleno do termo: arrepender-se, manifestar o arrependimento, assumir a atitude concreta de arrependido, que é a de quem se coloca no caminho do regresso ao Pai. Quem confessa seus pecados, na realidade, está na verdade que é luz. E esta luz o leva a crescer em santidade, esta que é tarefa para toda a vida. A semente divina da caridade, depositada em nossas almas, aspira a crescer e a dar frutos realmente agradáveis a Deus. Esta é a razão pela qual nos devemos preparar com um exame profundo, pedindo ajuda ao Senhor, para que possamos conhecê-lo melhor e conhecer-nos melhor. Não existe outro caminho, se queremos converter-nos de novo.


"Poenitentia cogit peccatorem omnia libenter sufferre; in corde eius contritio, in ore confessio, in opere tota humilitas vel fructifera satisfactio – A penitência leva o pecador a tudo suportar de bom grado: no coração, a contrição; na boca, a confissão; nas obras, toda a humildade e frutuosa satisfação" (Catecismo Romano 2, 5, 21, p. 299: cf. Concílio de Trento, Sess.14ª, Doutrina de Sacramento Penitência, c. 3: DS 1673.)

Sobre a Confissão dos pecados, nos diz São Clemente Romano, Papa da Igreja, que devemos sempre pedir para que sejam perdoadas as faltas e ações inspiradas pelo adversário. É melhor para o homem pedir perdão do que endurecer o coração, assim como temos muitos exemplos na história do povo de Deus, que se perderam pelo caminho, ele nos admoesta que o Senhor do universo não tem necessidade de nada. Ele não pede nada a ninguém, a não ser que se confesse a Ele, e para isto temos que entender que somos nada. Isto será imensamente agradável a Deus e quando, porventura, necessitarmos, O invoquemos no dia de nossa tribulação, Ele nos libertará e assim O glorificaremos (Sl 49, 14-15) (Cf. Papa Clemente Romano, adaptação – Padres apostólicos – Paulus -3@ Edição 2002 – p.48).

Dolorido por haver desagradado a Deus, o penitente não se contenta com palavras ou suspiros e prova o seu compungimento fazendo um gesto que lhe custa, porque humilha: repara a ofensa feita a Deus, acusando-se a seu representante; repara o dano causado à comunidade cristã submetendo-se a sentença daquele que é o representante legal, que como juiz atua para a absolvição, que atua na pessoa de Cristo que é Aquele que perdoa. Sabemos que Jesus deixou o Sacramento da Penitência para que todo fiel recorra ele caso tenha pecado após o Batismo, portanto esta acusação que se deve fazer não é um invento humano, mas divino. Além de ser condição para a remissão dos pecados, faz parte da própria essência do Sacramento, porque deriva do carater judicial que Nosso Senhor imprimiu ao rito da Penitência. Como juiz que absolve ou condena, o sacerdote não pode fazê-lo sem conhecimento de causa. E o faz da maneira dos apóstolos e seus sucessores, que julgavam os fiéis no tribunal da Penitência, abrindo-lhes e fechando-lhes as portas do Céu, e isto com pleno conhecimento do estado dessa almas, da extensão da culpa.

A confissão consiste na acusação distinta dos nossos pecados ao confessor, para dele recebermos a absolvição e a penitência. Chama-se à confissão acusação, porque não deve ser uma narração indiferente, mas sim uma verdadeira e dolorosa manifestação dos próprios pecados. "A confissão é a acusação dos pecados feita a um sacerdote aprovado, para obter dele a absolvição. A necessidade da confissão consiste em que o homem necessita do perdão divino, caso ele caia em pecado após o Batismo" (Conc. Trento, sess, XIV, c.5; DB.889 -0 916 ss.; cân.901).

Por que essa exigência divina? Porque, sendo o pecado um ato de rebeldia contra Deus, começamos a repará-lo fazendo um ato de submissão, reconhecendo-nos culpados. João Batista, para inaugurar a era messiânica, requeria dos que a ele vinham a confissão dos pecados (Cf. Mc 1, 5; Mt. 3, 6): ― “Então vinham a ele a circunvizinhança do Jordão, e eram por ele batizados no rio Jordão, confessando os seus pecados”. No Evangelho, encontramos os episódios de Madalena e Zaqueu, as parábolas do filho pródigo, do publicano e do fariseu. Nos Atos dos Apóstolos narra-se que, em conseqüência da pregação de São Paulo, “muitos dos que tinham crido, iam confessar e manifestar as suas obras” (At. 19, 18).

Desde as origens do gênero humano se nos depara a acusação contrita das faltas cometidas. O Altíssimo, embora conhecedor do pecado de Adão e Eva, interroga-os e incita-os a se reconhecerem culpados. O Antigo Testamento está repleto de textos relativos à humilde confissão de homens prevaricadores. A mais célebre é a do Rei Davi, adúltero e assassino: “Pequei contra o Senhor” (2 Reis 12, 13).

Confissão no Antigo Testamento:

ECL. 3, 4: ― “O que ama a Deus implorará o perdão de seus pecados e se absterá de tornar a cair neles”.
ECL. 4, 31: ― “Não te envergonhes de confessar os teus pecados, mas não te submetas a ninguém para pecar”.
IIª ESD. 9, 1 E 2: ― “E no dia 24 deste mês se ajuntaram os filhos de Israel em jejum e vestidos de sacos e cobertos de terra. E os da linhagem dos filhos de Israel foram separados de todos os filhos estrangeiros; e confessaram os seus pecados e as iniqüidades de seus pais”.
PROV. 28, 13: ― “Aquele que esconde as suas maldades não será bem sucedido; aquele, porém, que as confessar e se retirar delas alcançará misericórdia”.

Na Igreja Primitiva, usava-se a Confissão:

ATOS, 19 18: ― “E muitos dos que tinham crido iam confessar e manifestar suas obras”.
Iª S. JOÃO, I, 9: - “Se nós confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para perdoar estes nossos pecados e para nos purificar de toda iniqüidade”.
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As Qualidades da Confissão: Segundo Del Greco, Doutor em Direito Canônico, ela deve ser:

A- Verdadeira, excluindo toda mentira. O penitente peca gravemente se negar a verdade quando o confessor legitimamente interroga a respeito de pontos que julga de necessidade, para formar um juízo prudente a respeito do penitente.

B- Secreta: Feita somente ao sacerdote sem que outros a ouçam. Se alguém ignora a língua, não é obrigado a confessar-se por meio de interprete, pois do contrário a confissão deixaria de ser secreta (embora o intérprete fique obrigado ao segredo), mas mediante sinais ou gestos aptos à compreensão. Se quiser, entretanto, pode fazê-lo (c.c. 903,889 -2).

C- Oral: por meio da palavra falada. A escrita recorra-se só por motivo justificado, e neste caso o penitente ao entregar o escrito ao sacerdote dirá: "acuso-me dos pecados que lê neste papel". Os mudos não são obrigados a usar a escrita: podem confessar-se por meios de sinais. Os tímidos, os que devem se confessar com sacerdotes surdos ou os que padecem dos males da garganta, podem empregar a escrita.

D- Íntegra: Devem ser acusados todos os pecados mortais cometidos depois do Batismo e ainda não confessados (integridade material), ou pelo menos todos os pecados mortais que o penitente atualmente, atendendo às circunstâncias, pode e deve acusar, depois de um minucioso exame (integridade formal), porque estando nosso Senhor Jesus Cristo prestes a subir da terra ao céu, deixou os sacerdotes e seus vigários como presidentes e juizes, a quem devem ser denunciados todos os pecados mortais em que caírem os fiéis cristãos para que, com isso, dessem, em virtude do poder supremo das chaves, a sentença do perdão ou retenção dos pecados. Quanto aos pecados omitidos por esquecimento, são considerados incluídos na confissão, mas devem ser declarados na próxima confissão. A confissão repetida dos pecados já perdoados é lícita e recomendada, mas não necessária. Não é permitida a confissão com um sacerdote ausente ou uma absolvição a distância.

Confissão Nula: Ela pode ser nula por parte do confessor, ou por parte do penitente. Por parte daquele: se lhe falta o devido poder, se não pronunciou ou trocou a forma substancial, não ouviu ou não entendeu algum pecado. Por parte do penitente: se calou algum pecado grave ou mentiu em matéria grave relacionada com a confissão; se não tem propósito firme de emendar-se ou não está contrito, ou ainda se ignora as verdades consideradas de necessidade de meio para salvação. É necessário, portanto, confessar novamente os pecados graves que não foram diretamente submetidos ao poder das chaves.

A Absolvição dos Moribundos: Pode-se e deve-se absolver o moribundo que, por um qualquer sinal ou pela voz, se confessa e pede absolvição. Quanto aos moribundos católicos, privados dos sentidos, que viveram um vida pouco cristã, podem ser absolvidos sob condição. Quanto aos hereges e cismáticos, se estabelece: pode-se absolver aquele privado de sentido, caso seja batizado, e que se suponha que esteja com boa fé. Se não estão privados dos sentidos, não podem ser absolvidos, se antes, de melhor modo possível, não tiverem rejeitado seus erros e feito a profissão de fé (S. Of. 17 de maio de 1916); (cfr. Cân.731 -2). (Pe. Teodoro da Torre Del Greco, OFM. Teologia Moral, São Paulo: Paulinas, 1959, p. 568)

Com relação aos Pecados Veniais, pelos quais não ficamos excluídos da graça de Deus, e naquelas que caímos com freqüência ainda que se proceda com boas intenções, proveitosamente e sem nenhuma presunção, expondo-as em confissão, o que é costume das pessoas piedosas, não precisam necessariamente serem omitidas na confissão, pois ficarão perdoadas automaticamente. ” Sem ser estritamente necessária, a confissão das faltas quotidianas (pecados veniais) é contudo vivamente recomendada pela Igreja. Com efeito, a confissão regular dos nossos pecados veniais ajuda-nos a formar a nossa consciência, a lutar contra as más inclinações, a deixarmo-nos curar por Cristo, a progredir na vida do Espírito. Recebendo com maior frequência, neste Sacramento, o dom da misericórdia do Pai, somos levados a ser misericordiosos como Ele” (Catecismo da Igreja Católica n.1458).

Importa também saber da exortação que nos faz o Catecismo da Igreja Católica n.1457: "Segundo o mandamento da Igreja, «todo o fiel que tenha atingido a idade da discrição, está obrigado a confessar fielmente os pecados graves, ao menos uma vez ao ano» . Aquele que tem consciência de haver cometido um pecado mortal, não deve receber a Sagrada Comunhão, mesmo que tenha uma grande contrição, sem ter previamente recebido a absolvição sacramental; a não ser que tenha um motivo grave para comungar e não lhe seja possível encontrar-se com um confessor. As crianças devem aceder ao Sacramento da Penitência antes de receberem pela primeira vez a Sagrada Comunhão".

Lembremo-nos que o fim do homem nesta vida não é ganhar bens temporais, deste mundo; o fim último do homem é o próprio Deus, que é possuído como antecipação aqui na terra pela graça, e plenamente e para sempre na Glória. Nosso Senhor nos mostra o caminho, de renúncias, arrependimento e desapego, lavando a cruz com ajuda de Sua graça. Nada e nenhum bem neste mundo, é comparável à salvação eterna da alma. Como nos ensina São Tomás: ”o menor bem da graça é superior a todo o bem do universo” (Suma Teológica, I-II,q.113,a.9). Gastemos a vida na busca deste bem que necessarimente passa pelo arrependimento e confissão verdadeira diante do Sacerdote de Cristo.

Pedindo o Conhecimento dos Pecados

Eterna fonte de luz, Divino Espírito, dissipai as trevas da minha ignorância sobre a malícia do pecado. Não permitais que torne doravante a ofender-Vos, porque é a mais cruel das ingratidões. Concedei-me horror ao pecado, e um eterno amor a Vós.

Confiteor - Confesso-me

Eu pecador me confesso a Deus todo-poderoso, à bem-aventurada sempre Virgem Maria, ao bem-aventurado São Miguel Arcanjo, ao bem-aventurado São João Batista, aos Santos Apóstolos São Pedro e São Paulo, a todos os Santos e a vós, Padre, porque pequei muitas vezes, por pensamentos, palavras e obras, (bate-se por três vezes no peito) por minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa. Portanto, rogo à bem-aventurada Virgem Maria, ao bem-aventurado São Miguel Arcanjo, ao bem-aventurado São João Batista, aos Santos Apóstolos São Pedro e São Paulo, a todos os Santos e a vós, Padre, que rogueis a Deus Nosso Senhor por mim.

Eis me aqui, Senhor, confundido e penetrado de dor à vista de minhas faltas. Detesto-as, em Vossa presença, com grande pesar de ter ofendido um Deus tão bom, e digno de ser amado. Castigai-me, se quiserdes; sim, que sou ingrato.
Como levei tão longe a minha malícia e iniqüidade, até ofender um Deus que se deu à morte por mim! Peço-vos humildemente perdão de minhas faltas, e rogo-Vos me concedais a graça de fazer desde hoje até à morte uma sincera penitência.

Propósito de Emenda:

Como desejaria, Senhor, jamais tornar a ofender-Vos: Embora miserável, quero desde hoje mudar de vida e compensar, com amor, as ofensas que Vos tenho feito. Concedei-me esta graça, e ninguém me poderá apartar do Vosso amor. Amém.



“Se na Igreja não existisse a remissão dos pecados, não existiria nenhuma esperança, nenhuma perspectiva de uma vida eterna e de uma libertação eterna. Rendamos graças a Deus que deu à Sua Igreja um tal dom” (AGOSTINHO, Santo – Doutor da Igreja).