quarta-feira, 11 de março de 2009

Religião do Amor, Religião da Cruz?


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Entrevista com Santo Agostinho de Hipona

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Tenho a impressão de que, hoje como ontem, o grande obstáculo para que muitas pessoas - sejamos sinceros: muitos cristãos - abracem de verdade o cristianismo é a Cruz. Com efeito, por que a religião do amor há de ser a religião da Cruz?

Santo Agostinho nos responde:

“ Era preciso mostrar ao homem quanto Deus nos amou e o que éramos quando nos amou: "quanto", para que não desesperássemos; "o que éramos", para que não nos ensoberbecêssemos. Gostaria de dizer ao ouvido de cada um: "A Vida eterna assumiu a morte, a Vida eterna quis morrer. Não morreu segundo o que era em Si mesma antes de morrer; morreu segundo O que tinha de comum contigo, depois de encarnada. De ti recebeu a natureza segundo a qual devia morrer por ti; e assumiu a morte para matar a tua morte. Escuta-me: és cristão, és membro de Cristo; considera bem o que és, pensa a que preço foste resgatado. Cristo quis padecer por ti. Ensinou-te a padecer, e ensinou-te padecendo Ele primeiro. Ter-lhe-iam parecido muito pouco as suas palavras, se não as tivesse acompanhado com o seu exemplo".

E como foi que nos ensinou? – o tom agora é intimo, dolorido. Como foi que nos ensinou? Pendia da cruz, e nós nos assanhávamos contra Ele; estava preso à cruz por ásperos cravos, mas não perdia a mansidão. Nós nos enfurecíamos contra Ele, ladrávamos à sua volta como cães e o insultávamos enquanto permanecia pendurado. Como loucos furiosos, atormentávamos o único Médico posto no meio de nós; e no entanto, pendurado, Ele nos curava. Pai, dizia, perdoa-lhes porque não sabem o que jazem. Pedia e pendia; e não descia, porque ia transformar o seu Sangue no remédio para esses loucos furiosos ...

Nós jazíamos mortos na nossa carne de pecado, e Cristo adaptou-se à semelhança da carne de pecado. Porque morreu quem não tinha razão para morrer; morreu o único livre dentre os mortos, porque toda a carne humana era certamente carne de pecado, e ... como é que essa carne haveria de reviver, se Aquele que não tinha pecado não se adaptasse ao morto, vindo até nós sob a semelhança da carne de pecado? Senhor, Tu padeceste por nós, não por Ti, porque não tinhas culpa, e te submeteste à pena para livrar-nos da culpa e da pena! Em conseqüência, também nós devemos recapacitar e dizer: [i]Senhor, compadece-te de mim; cura a minha alma, porque pequei contra Ti. [/i]Ó Senhor, dá-me sofrimentos, já que não poupaste o teu Unigênito. Ele foi atormentado, sem ter pecado, e eu ... Se foi retalhado Aquele que não tinha podridão, se a nossa própria Medicina não rejeitou o fogo medicinal, será razoável que nós nos revoltemos contra o Médico e Cirurgião, quer dizer, contra Aquele que nos cura do pecado através dos sofrimentos que nos permite padecer? Entregue- mo-nos em cheio nas mãos do Médico, pois Ele não erra, cortando a carne sã em vez da gangrenada; Ele conhece bem o que ausculta, conhece o vício por ter criado a natureza; conhece bem o que criou e teve de assumir por causa da nossa leviandade.


Não faltam, porém, aqueles que sustentam que isso de "tomar a Cruz" está ultrapassado, e que tudo o que signifique aceitar e buscar o sofrimento não passa de exagero neurótico.

“É preciso entender que foi o homem quem talhou para si mesmo um caminho áspero. Mas esse caminho foi percorrido primeiro por Cristo, no seu regresso para o Pai; e por isso Ele pode dizer-nos: Tome cada um a sua cruz e siga-me. Que significa isto? Que, quando começarmos a segui-lo nas suas virtudes e preceitos, encontraremos muitos que quererão contradizer-nos, muitos que lançarão obstáculos no nosso caminho, e muitos outros que tentarão dissuadir-nos de continuar, e tudo isso até entre aqueles que figuram como nossos companheiros de viagem rumo a Cristo. Devemos lembrar-nos de que, como nos dizem os Evangelhos, aqueles que proibiam os cegos de clamar por Cristo eram gente que caminhava ao lado dEle. Se queremos segui-lo, o melhor que podemos fazer é aceitar como cruzes as censuras, as coisas desagradáveis e todo o tipo de contradições; toleremos tudo, suportemos tudo, e não queiramos chegar logo ao fim. E, ao mesmo tempo, amemos o Único que não decepciona, o Único que não engana; amemo-lo porque é verdade o que promete, mesmo que não no-lo dê imediatamente e a fé ameace titubear. Resistamos, perseveremos, agüentemos, suportemos a demora: tudo isso é levar a nossa cruz. E se de verdade somos cristãos, esperemos tribulações neste mundo, não esperemos por tempos melhores: só nos estaríamos enganando. O que o Evangelho não nos prometeu, não o prometamos a nós mesmos. Quem perseverar com espírito ardente não esfriará na sua caridade; porque dá ouvidos Àquele que não se engana nem engana ninguém; e que nos prometeu a felicidade, não aqui, e sim nEle. E assim, quando tiverem passado todas as coisas desta terra, então poderemos esperar com firmeza que reinaremos com Ele por toda a eternidade

Renúncias, desapego, combate contra as paixões, sofrimentos, tribulações e cruzes ... Não será por causa da insistência nesses temas que muitos consideram a "visão cristã da vida" excessivamente ascética e dura, e dizem e escrevem que sufoca a alegria de viver?

“Os homens toleram de bom grado ser cortados e queimados para evitar o sofrimento de umas dores agudas, não digo já das penas eternas, mas de uma simples ferida um pouco mais grave. Para conseguir uma aposentadoria tranqüila, uma vida lânguida e incerta e de duração muito breve, o soldado - ... - suporta guerras cruéis; vive inquieto talvez durante muitos anos de trabalho, à espera unicamente de poder descansar um pouco. A que tempestades e tormentas não se expõem os mercadores -, só para conseguirem umas riquezas feitas de ar! Que calores, que frios, que precipícios e rios não enfrentam os caçadores, que escassez de comida e bebida, só para capturarem uma besta e satisfazerem assim nãouma necessidade, mas um capricho! Quantos incômodos de noites passadas em branco e de prazeres de que é preciso privar-se não suporta o estudante, não já para aprender a sabedoria, mas pelo dinheiro e pelas honras da vaidade, para aprender a fazer contas, a ler e a mentir com elegância! ... Em todas essas coisas, aqueles que não as amam sofrem com a dureza do que têm de padecer; e os que as amam padecem exatamente o mesmo na aparência, embora não sofram com a sua dureza. Por quê? Porque o amor torna fáceis e praticamente insignificantes todas as coisas duras e atrozes. Se, para evitar a miséria temporal, a ambição enfrenta trabalhos enormes, com quanto mais facilidade e decisão não fará a caridade o mesmo, quando se trata de evitar a miséria eterna e conseguir a paz duradoura!

Com razão diz-nos o Apóstolo Paulo, cheio de uma imensa alegria: Os padecimentos do tempo presente não têm proporção alguma com a glória jutura que se revelará em nós. Já se vê por que dizemos que o jugo de Cristo é suave e a sua carga leve. Se a vida cristã é dificil para os poucos que enveredam por ela, torna-se fácil para os que amam a Deus. Esses caminhos que parecem duros aos que "labutam" - aos que, kantianamente, só enxergam na vida cristã uma série de deveres a cumprir -, são suaves' para os que amam. Por isso, a divina Providência faz com que, o homem interior, que se renova de dia para dia, já não viva sob a Lei, mas sob a graça; libertado - pelo modo como as cumpre - da carga das inúmeras observâncias que constituíam um jugo pesado, mas muito conveniente para domar a sua dura cerviz - o seu orgulho intelectual, diríamos nós -, esse homem respira agora a facilidade de uma fé simples, de uma esperança boa e da santa caridade. Todos os incômodos impostos ao homem exterior tornam-se leves para o homem interior. Nada é tão fácil para uma vontade realmente boa como ser ela mesma, e isso basta para Deus


Que dizer então dessas pessoas, até bondosas, que cifram todo o seu ideal em poupar incomodidades e sofrimentos a si e aos outros? E, quando estão investidas em responsabilidade pelos outros, por serem pais, governantes, sacerdotes, evitam acima de tudo exigir condutas custosas àqueles que lhes estão confiados?

“Essas pessoas são como alguém que, para facilitar a vida dos pássaros, lhes cortasse as asas para aliviá-los do seu peso. Quanto mais peso lhes tirarem, mais presos os deixarão à terra! Porque lhe tiraram o peso, a ave já não voa; devolvam-lho, e voará até às nuvens! Assim é também o peso de Cristo; carreguem-no os homens, não sejam preguiçosos. Não dêem ouvidos aos que não querem arcar com ele; ponham-no aos ombros os que querem, e experimentarão como é leve, como é suave, como é alegre, como os arrebata para o céu, desprendendo-os da terra. Outras são as cargas que oprimem e esmagam; a de Cristo sustenta. Outra é a carga que pesa; a de Cristo é toda asas”

O senhor tocou já várias vezes num tema candente, o do amor. Podemos dizer que, segundo o seu modo de pensar, mais do que uma questão de cumprir umas leis morais, ou de aderir a um sistema de doutrinas, o cristianismo é questão de amor?

“É evidente: o verdadeiro amor consiste em aderír à verdade para viver na justiça. Ninguém desfruta daquilo que conhece se não o ama ... e ninguém persevera no cumprimento daquilo que ama senão com mais amor. Por outro lado, nenhum bem é perfeitamente conhecido se não for perfeitamente amado. Cada um será como for o seu amor. Amamos a terra? Seremos terra. Amamos a Deus? Que vou dizer que seremos Deus? Não ouso dizê-lo por mim mesmo, mas ouçamos a Escritura: Eu digo: deuses sois, e todos filhos do Altíssimo. Quando a alma vive na iniqüidade, está morta. Quando, pelo contrário, se torna justa, torna-se participante de uma outra vida distinta da sua; porque, elevando-se até Deus e unindo-se a Deus pelo amor, é justificada por Ele .


Fonte: Livro: Onde está Meu Deus? Editora quadrante

domingo, 8 de março de 2009

Mérito



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Fonte: A Fé Explicada - padre Léo Trese - Editora Quadrante.

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Certa vez, li na secção de pequenas notícias de um jornal, que um homem construiu uma casa para a sua família. Ele mesmo executou quase todas as obras, investindo todas as suas economias nos materiais. Quando a terminou, verificou com horror que se tinha enganado de propriedade e que a tinha construído no terreno de um vizinho. Este, tranquilamente se apossou-se da casa, enquanto o construtor não pôde fazer outra coisa senão chorar o dinheiro e o tempo perdidos.

Por lamentável que nos pareça a história deste homem, não chega a ter importância se a compararmos com a pessoa que vive sem a graça santificante. Por nobres e heróicos que sejam as suas acões, não tem valor aos olhos de Deus. Se não recebeu o Batismo ou está em pecado mortal, essa alma separada de Deus vive os seus dias em vão. As suas dores e tristezas, os seus sacrifícios e bondades, tudo está desprovido de valor eterno, desperdiça-se diante de Deus. Não existe mérito no que é esse faz.

Então, que é esse Mérito?

O Mérito foi definido como:

Aquela propriedade de uma obra boa que habilita quem a realiza a receber uma recompensa. Estou certo de que todos concordamos em afirmar que, em geral, agir bem exige certo esforço. É fácil ver que alimentar um faminto, doente ou fazer um favor ao próximo requer certo sacrifício pessoal. Vê-se facilmente que estas ações têm um valor, merecem, ao menos potencialmente, um recompensa. Mas esta recompensa não pode ser pedida a Deus se Ele não teve parte nessas ações, se não existe comunicação entre Deus e aquele que as faz. Se um operário não quer que o incluam na folha de pagamento, não poderá exigir seu salário, por mais que trabalhe.

Por isso, só a alma que está em graça santificante pode adquirir méritos pelas suas ações. É esse estado que dá valor de eternidade a uma ação. As ações humanas, se são puramente humanas, não têm nenhuma significação sobrenatural. Só adquirem valor divino r quando se tomam obras do próprio Deus. E as nossas ações são em certo sentido obra de Deus quando Ele está presente numa alma pela graça santificante.

Diante de Deus, em sentido estritamente jurídico, não há mérito da parte do homem. Entre Ele e nós, a desigualdade é infinita, pois dEle, que é nosso Criador, recebemos tudo. [...] Aliás, o próprio mérito do homem depende de Deus, pois as suas boas ações procedem, em Cristo, das inspirações e do auxílio do Espírito Santo [...] A caridade de Cristo em nós constitui a fonte de todos os nossos méritos diante de Deus. A graça, unindo-nos a Cristo com um amor ativo, assegura a qualidade sobrenatural dos nossos atos e, por conseguinte, o seu mérito tanto diante de Deus como diante dos homens. Os santos sempre tiveram viva consciência, de que seus méritos eram pura graça" (ns. 2007 e 2011; cf. ns.. 2571-85 e 2588-9). E isto é tão verdadeiro que a menor das nossas ações adquire valor sobrenatural quando a fazemos em união com Deus. Tudo o que Deus faz, ainda que o faça através de instrumentos livres, tem valor divino. Isto permite que a menor das nossas obras, desde que moralmente boa, seja meritória enquanto tivermos a intenção, ao menos habitual, de fazer tudo por Deus.

Se o mérito é "a propriedade de uma obra boa que habilita quem a realiza a receber uma recompensa", a pergunta imediata e lógica será: Que recompensa? As nossas ações sobrenaturalmente boas merecem o quê?

A recompensa é tripla:

1 - uma aumento de graça santificante
2- a vida eterna
3- maior glória no céu.

Sobre a segunda parte desta recompensa - a vida eterna - é interessante ressaltar um aspecto: para a criança batizada, o céu é uma herança que lhe cabe pela sua adoção como filha de Deus , incorporada em Cristo; mas para o cristão no uso da razão, o céu é tanto herança como recompensa que Deus promete aos que O servem.
Quanto ao terceiro elemento do prêmio - uma maior glória no céu - vemos que é consequência do primeiro. O nosso grau de glória dependerá do grau de união com Deus, da medida em que a graça santificante tiver empapado a nossa alma. A nossa capacidade de glória no céu crescerá tanto quanto crescer a graça em nós.

No entanto, para alcançarmos a vida eterna e o grau de glória que tenhamos merecido, devemos, é claro, morrer em estado de graça. O pecado mortal arrebata todos os nosso méritos, como a falência de um banco arruína as economias de toda uma vida. E não há maneira de adquirir méritos depois da morte, nem no purgatório, nem no inferno, nem sequer no céu. Esta vida - e só esta vida - é o tempo de prova, o tempo de merecer.

Mas é consolador saber que os méritos que podemos perder pelo pecado mortal se restauram tão logo a alma se reconcilia com Deus por um ato de contrição perfeita ou por uma confissão bem feita. Os méritos revivem no momento em que a graça santificante volta à alma. Em outras palavras, o pecador contrito não tem que começar de novo: o seu tesouro anterior de méritos não está perdido para sempre.

Pra você e pra mim, que siginifica na prática, viver em estado de graça santificante?

Para responder à questão, observemos dois homens que trabalham juntos no mesmo escritório. Para quem os observa casualmente, os dois são muito parecidos. Tem a mesma categoria de trabalho, ambos são casados e tem família, ambos levam essa vida que poderíamos qualificar como "respeitável". Um deles, porém, é o que chamaríamos de "indiferente". Não pratica nenhuma religião e poucas vezes, para não dizer nenhuma, pensa em Deus. A sua filosofia é que a felicidade de cada qual depende dele mesmo, e por isso, deve procurar tirar da vida tudo o que esta pode oferecer. "Se eu não o consigo - diz ele - ninguém fará por mim".

Não é um mau homem. Pelo contrário, em muitas coisas despesperta admiração. Trabalha como um escravo porque quer triunfar na vida e dar à família tudo o que haja de melhor. Dedica-se sinceramente aos seus: orgulhoso da mulher, a quem considera uma companheira encantadora e generosa, devotado filhos, nos quais vê uma prolongação de si mesmo. "Eles são a única imortalidade que me interessa", diz ele aos seus amigos. É um bom amigo, apreciado por todos os que o conhece, moderadamente generoso e consciente dos seus deveres cívicos. A sua laboriosidade, sinceridade, honradez e delicadeza não se baseiam em princípios religiosos: "Isso é decente ou honesto - explica -; tenho que fazê-lo por respeito a mim mesmo e aos outros".

Temos aqui em breves traços o retrato do homem "naturalmente" bom. Todos nós tropeçamos com ele alguma vez e, ao os externamente, enchemo-nos de vergonha pensando em mais de uma pessoa que se chama cristã, mas parece encontrar-se se muito abaixo na escala moral. E, apesar disso, sabemos que esse homem falha no mais importante. Não faz o que é decente, não se comporta com respeito por si mesmo e pelos seus, porque ignora a única coisa realmente necessária, o fim para que foi criado: amar a Deus e provar esse amor cumprindo vontade divina. Precisamente por ser tão bom em coisas menos transcendentais, a nossa compaixão por ele é maior, a nossa oração por ele mais compassiva.

Dirijamos agora a nossa atenção ao outro homem.

Eesse que trabalha sentado à mesa, diante de um computador ou no balcão contíguo. À primeira vista, parece uma cópia do primeiro; não há diferença: em posição, família, trabalho e personalidade. Mas existe uma diferença incalculável que os olhos não podem apreciar facilmente, porque reside na intenção. A vida do segundo não se baseia no "decente" ou no "respeito por si mesmo", ou, menos, não principalmente. Os afetos e aspirações naturais, partilha com todo o gênero humano, nele se transformam afetos e aspirações mais altos: o amor a Deus e o desejo de cumprir a sua Vontade.

A sua esposa não é apenas a companheira no lar; é também companheira no altar. Ele e ela estão associados a Deus e ajudam-se mutuamente a caminhar para a santidade, cooperam com Deus na criação de novos seres humanos destinados à glória eterna. O amor que dedica aos filhos não é a mera extensão do amor por si mesmo; vê-os como uma solene prova de confiança que Deus lhe dá, considera-se como simples administrador

O seu trabalho é mais do que uma oportunidade de ganhar a vida e progredir. É parte da sua paternidade sacerdotal, é meio para atender às necessidades materiais da sua família e parte do plano querido por Deus para ele. Realiza assim o melhor que pode o seu trabalho, porque compreende que ele próprio é um instrumento nas mãos de Deus para completar a obra da Criação no mundo.

"O trabalho humano procede imediatamente das pessoas criadas à imagem de Deus e chamadas a prolongar, umas para as outras, a obra da criação dominando a terra. O trabalho é, pois, um dever: Se algum de vós não quer trabalhar, também não coma (2 Tes 3, 10). O trabalho honra os dons do Criador e os talentos recebidos. Também pode ser redentor. Suportando em união com Jesus, o artesão de Nazaré e o crucificado do Calvário, o que o trabalho tem de penoso, o homem colabora de maneira com o Filho de Deus na sua obra redentora e mostra-se discípulo de Cristo, carregando a cruz de cada dia na atividade que é chamado a realizar. O trabalho pode ser um meio de santificação e uma animação das realidades terrenas no Espírito de Cristo" (CIC. n. 2427).

A Deus só pode oferecer o melhor, e este pensamento acompanha-o ao longo do dia. A sua cordialidade natural está impregnada de espírito de caridade; a sua generosidade, aperfeiçoada pelo desprendimento; a sua delicadeza, imbuída da compaixão de Cristo. Talvez não pense freqüentemente nestas coisas mas também não passa o dia dependente de si mesmo e das suas virtudes. Começou a jornada com o ponto de mira bem centrado: em Deus e longe de si. "Meu Deus - disse ele -, ofereço-te todos os meus pensamentos, palavras e ações, e as contrariedades de hoje ... " Talvez tenha dado ao seu dia o melhor dos com assistindo à missa.

Mas existe outra coisa que é imprescindível para fazer homem um homem autenticamente sobrenatural. A reta intenção é necessária, mas não basta. O seu dia deve não só dirigir-se a Deus, como deve ser vivido em união com Ele, para que tenha valor eterno. Em outras palavras, esse homem deve viver estado de graça santificante.

Em Cristo, a mais insignificante das ações tinha valor infinito, porque a sua natureza humana estava unida à sua natureza divina. Tudo o que Jesus fazia, Deus o fazia. De modo semelhante - mas só semelhante -, o mesmo se passa conosco.
Quando estamos em estado de graça, não possuímos a natureza divina, mas participamos da natureza de Deus, compartilhamos a vida divina - de uma maneira especial. Em conseqüência, qualquer coisa que façamos - exceto o pecado -, Deus o faz por nós.

Deus, presente presente na nossa alma, vai dando valor eterno a tudo o que fazemos.

As mais caseiras das ações - limpar o nariz da criança ou trocar uma lâmpada - merece um aumento de graça santificante e um grau mais alto de glória no céu, se a nossa vida está Deus.

Eis o que significa viver em estado de graça santificante, eis o que significa ser um homem sobrenatural.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Sacramentos



Santos Sacramentos da Igreja, pelos quais tem início toda verdadeira Santidade pois se já começada, se submeta, e se perdida, se recobra totalmente.

O homem criado por Deus a Sua imagem e semelhança, desde sempre foi chamado a manter um relacionacionamento com Ele. Para tanto Deus se Revelou pelos profetas e nos últimos tempos, através de Seu Filho. Pela Revelação sabemos que Adão pecou e que todos ficaram privados da glória de Deus. Ainda por ela sabemos que na plenitude dos tempos Deus envia seu Filho pra resgatar este homem da condenação eterna a que estavam todos fadados, já que perderam pelo pecado original, a graça que os faria estar eternamente com Ele; e fez isso pelo sacrifício de Si mesmo, oferecendo-se em nosso favor. Ainda que Jesus Cristo tenha morrido por todos, nem todos participam do benefício de sua morte, mas somente aqueles a quem sejam comunicados os méritos de sua Paixão, porque, assim como nasceram os homens, efetivamente impuros, pois nasceram descendentes de Adão, e sendo concebidos pelo mesmo processo, contraem por esta descendência sua própria impureza, e do mesmo modo, se não renascessem por Jesus Cristo, jamais se salvariam, pois nesta regeneração é conferida a eles, pelo mérito de Sua paixão, a graça com que se tornam salvos.

O que a morte de Jesus significa, é que foi oferecida a infinita reparação pelo mal infinito da rebelião do homem contra Deus, foi pago um preço infinito para assegurar o fluxo ilimitado da graça que permite ao homem voltar a Deus e permanecer em união com Ele, durante toda a vida e a eterna. Deus, pelo Filho, nos fez dignos de entrar juntamente com os Santos na glória, nos tirou do poder das trevas e nos transferiu ao Reino de Seu Filho muito Amado, e é Nele que temos a redenção e o perdão dos pecados.

Os Evangelhos nos contam que na Cruz Jesus é perfurado por uma lança e do Seu lado direito brota sangue e água (Jo 19,34), Santo Agostinho e a tradição cristã vêem brotar os Sacramentos e a própria Igreja do lado aberto de Jesus: "Ali abria-se a porta da vida, donde manaram os Sacramentos da Igreja, sem os quais não se entra na verdadeira vida(...). Este segundo Adão adormeceu na Cruz para que dali fosse formada uma esposa que saiu do lado dAquele que dormia. Oh morte que dá vida aos mortos! Que coisa mais pura que este sangue? Que ferida mais salutar que esta?" (In Ioann Evang.,120,2 - Bíblia de Navarra, pag. 1412- 1413) .

Durante Sua vida pública as multidões se aglomeravam ao redor de Jesus para serem curadas. E eram curadas pelo Seu poder divino, servindo-se de Sua natureza humana, pois "somente ela, Sua Santíssima humanidade é o caminho para nossa salvação e o meio insubstituível para nos unir a Deus. Assim, pois, hoje nós podemos nos aproximar do Senhor por meio dos Sacramentos, de modo singular e eminente pela Eucaristia. Pelos Sacramentos flui também para nós, desde Deus através da Humanidade do Verbo, uma virtude que cura aqueles que os recebem com fé "(cfr. Suma Teológica, III,q.62,a.5).

Jesus enquanto esteve neste mundo, ao revelar a face misericordiosa de Deus, chama os apóstolos, os instrui e dá a eles poder de continuar aqui Sua missão até que Ele volte para entregar tudo ao Pai. No dia de Pentecostes, quando envia o Espirito Santo prometido, nasce a Igreja, inaugurando um tempo novo na “dispensação do mistério”: Cristo se manifesta, torna presente e comunica a Sua obra de salvação pela liturgia de Sua Igreja. Age nela e com ela pelos Sacramentos que instituiu Ele mesmo, para comunicar os frutos desta redenção maravilhosa. Cristo ressuscitado, ao dar o Espírito Santo, confere aos apóstolos o Seu poder de santificação, tornado-os assim, sinais sacramentais Dele mesmo. Estes, pelo poder do mesmo Espírito confere este poder aos seus sucessores, por isso a vida litúrgica é sacramental, para levar a efeito tão grande obra, através do qual Deus é glorificado e os homens santificados. Em todos os tempos e em todos os lugares, eis a grande misericóridia de Deus que não deixou os homens à deriva e fora de seu plano de amor.

Os Sacramentos são sinais sensíveis (palavras e ações), instituídos de modo permanente por Cristo, para santificar as almas, sendo acessíveis à nossa humanidade atual e realizam eficazmente a graça que significam, em virtude da ação de Cristo e pelo poder do Espírito Santo presente na Igreja. Eles são como que “Forças que saem” do corpo de Cristo, sempre vivo e vivificante: ações do Espírito Santo que opera no seu corpo que é a Igreja, os Sacramentos são “as obras-primas de Deus”, na nova e eterna Aliança. ( Catecismo da Igreja Católica n.1116)

Lembremo-nos da cena daquela mulher, a hemorroísa, que depois de anos doente com um fluxo de sangue e após gastar tudo que tinha, foi até Jesus, e numa atitude humilde e reverente, consciente de que estava diante d’Aquele que tudo pode, caiu ao chão e apenas tocou na orla do seu manto…Jesus sente que uma força sai de Si e pergunta aos apóstolos: ”quem Me tocou?” Ora, havia ali uma multidão mas sómente nesta mulher saiu como que uma força…esta cena maravilhosa, diz o Catecismo que retrata os Sacramentos, onde Cristo mesmo vem em favor dos que a Ele se achegam confiantes. Os homens neste mundo tem a chance de obter cura, e libertação para seus males, tanto físicos quanto espirituais, quando buscam a Cristo presente nos Sacramentos que deixou à Sua Igreja, para serem administrados pelos Seus ministros. Assim estamos hoje, uma multidão pode falar de Cristo, buscar a Cristo, mas somente aquele que se achega aos Sacramentos, se achega à fonte da graça. Toda oração, toda união com os irmãos, todo louvor em comum, todo movimento ou pastoral, deve levar o cristão necessariamente aos Sacramentos, porque sem eles não há salvação, sobretudo a Eucaristia e o da Penitência, que são aqueles que vivificam a alma pela graça presente, logicamente depois do Batismo que o torna filho de Deus.

“As palavras e as acções de Jesus durante a sua vida oculta e o seu ministério público já eram salvíficas. Antecipavam o poder do seu mistério pascal. Anunciavam e preparavam o que Ele ia dar à Igreja quando tudo estivesse cumprido. Os mistérios da vida de Cristo são os fundamentos do que, de ora em diante, pelos ministros da sua Igreja, Cristo dispensa nos Sacramentos, porque “o que no nosso Salvador era visível, passou para os seus mistérios” (Catecismo da Igreja Católica n.1115). São Tomás de Aquino define assim as diferentes dimensões do sinal sacramental: «Sacramentum est et signum rememorativum eius quod praecessit, scilicet passionis Christi; et demonstrativum eius quod in nobis efficitur per Christi passionem, scilicet gratiae; et prognosticum, id est, praenuntiativum futurae gloriae – O sacramento é sinal rememorativo daquilo que o precedeu, ou seja, da paixão de Cristo; e demonstrativo daquilo que em nós a paixão de Cristo realiza, ou seja, da graça; e prognóstico, quer dizer, que anuncia de antemão a glória futura» (São Tomás de Aquino, Summa theologiae, 3, q. 60, a. 3 c.: Ed. Leon. 12, 6.)

O cristão é chamado à santidade, a ser justo, e este é aquele que se esforça sinceramente por cumprir a vontade do Pai, que se manifesta nos mandamentos, nos deveres de estado e na união da alma com Deus. São Jerônimo ao comentar que Nosso Senhor não exige que tenhamos um simples desejo vago de justiça, mas que tenhamos sede e fome dela, mostra-nos que devemos com todas as forças e ajuda de Deus, buscar aquilo que nos faz justos diante dEle. Quem quer de fato a santidade cristã tem que amar os meios que a Igreja, instrumento universal de salvação, oferece e ensina a viver todos os homens: frequência de Sacramentos, convivência intima com Deus na oração e fortaleza para cumprir os deveres familiares, profissionais e sociais. (Comm.in Matth.5,6)

«Os sacramentos estão ordenados à santificação dos homens, à edificação do corpo de Cristo e, por fim, a prestar culto a Deus; como sinais, têm também a função de instruir. Não só supõem a fé, mas também a alimentam, fortificam e exprimem por meio de palavras e coisas, razão pela qual se chamam Sacramentos da fé». A fé da Igreja é anterior à fé do fiel, que é chamado a aderir a ela. Quando a Igreja celebra os Sacramentos, confessa a fé recebida dos Apóstolos. Daí o adágio antigo: «Lex orandi, lex credendi – A lei da oração é a lei da fé» (Ou: «Legem credendi lex statuat supplicandi – A lei da fé é determinada pela lei da oração», como diz Próspero de Aquitânia [século V]). A lei da oração é a lei da fé, a Igreja crê conforme reza. A liturgia é um elemento constitutivo da Tradição santa e viva (Catecismo n. 1123)

O Sacrossanto Concílio de Trento declarou que a Igreja tem o poder de, ao administrar os Sacramentos, determinar e mudar, sem lhes alterar a substância: Declara mais [este sagrado Concílio] que a Igreja sempre teve o poder de, ao administrar os Sacramentos, determinar e mudar, salva [sempre] a sua substância, o que julgar conveniente à utilidade dos que os recebem e à veneração dos mesmos Sacramentos, conforme a variedade dos tempos e lugares. Isto parece ter insinuado claramente o Apóstolo com estas palavras: ”Assim nos considere o homem como ministros de Cristo e dispenseiros dos mistérios de Deus ”(l Cor 4, l).

Os Sacramentos Instituídos por Cristo são sete: Batismo, Confirmação, Eucaristia, Penitência, Matrimônio, Ordem e Unção dos enfermos, sendo estes necessários `a salvação e são eficazes porque neles age o próprio Cristo, comunicando a graça inexistente pelo pecado (Batismo e confissão - Estes dois Sacramentos, chamam-se Sacramentos de mortos, ou. Atua ex opere operato : pelo próprio fato de a ação ser realizada). Fazendo uma analogia entre a vida natural e sobrenatural, podemos entender o porque deste número. “Para viver, conservar-se, levar uma vida útil a si mesmo e a sociedade, precisa o homem de sete coisas: nascer, crescer, nutrir-se; curar-se quando adoece; recuperar as forças perdidas; ser guiado na vida social, por chefes revestidos de poder e autoridade; conservar-se a si mesmo e ao genero humano, pela legitima propagação da espécie. O mesmo podemos dizer da vida espiritual que necessita de todas esta funções.” (Catecismo Romano)

“Os sacramentos pertencem à categoria dos meios, pelos quais se logra a salvação e a justificação “(Catecismo Romano II, IIIB) . Cristo os instituiu para facilitar a obtenção do fim ultimo do homem que é viver eternamente com Ele. Temos um caminho a seguir, mas precisamos de forças, de meios para conseguirmos o nosso intento, e para tanto Deus se utiliza de coisas visíveis para que a natureza humana perceba a graça invisível; as orações, os gestos e o objeto (agua, óleo, pão) constituem o sinal sensível. Estes nos mostram exteriormente, por certa imagem e semelhança, o que Deus opera interiormente, em nossa alma pelo Seu poder invisível. Todo cristão praticante confessa a eficácia dos sacramentos, pois como já disse, quem opera é Deus com Seu poder ilimitado e para comunicar a graça necessita da disposição e do preparo do homem. – “Os frutos dependem das disposições espirituais de quem os recebe, pelo que a Igreja insiste na necessidade da sua devida preparação”(cf. CDC 777,2)

Como vimos os sacramentos conferem a graça, a princípio a graça santificante, que é a vida sobrenatural, o partilhar da própria vida de Deus, que provém da inabitação do Espírito Santo em nós. O Batismo nos dá a graça que foi perdida pelo pecado original, estabelecendo a união com Deus perdida por Adão , e o Sacramento da Penitência, confere esta mesma graça caso a tenhamos perdido pelo pecado mortal.Os outros cinco Sacramentos, mais o da penitência caso o receba em estado de graça, aumentam a graça santificante, aumentando o nível de vitalidade espiritual, significando que aumenta a capacidade da alma para absorver o amor de Deus. (São chamados Sacramentos dos vivos). Além dela, cada Sacramento produz a chamada graça sacramental, que é característica de cada um deles e são ajudas de Deus às nossas necessidades particulares ou ao nosso estado de vida. Esta acrescenta a graça santificante sugundo São Tomás de Aquino, um vigor especial, destinado a produzir efeitos em relação com cada sacramento, ou segundo a doutrina universal, confere um direito a graças atuais especiais, que serão conferidas no tempo oportuno, para se cumprirem mais facilmente os deveres impostos pela recepção do Sacramento.

Além da graça santificante e sacramental, alguns Sacramentos conferem o que se chama de caráter, que é um sinal espiritual indelével, impresso na alma, pelo qual o homem é consagrado às coisas divinas e se distingue dos outros. Este capacita o homem para a recepção ou para o excercícios dos santos Mistérios. São eles: Batismo, Crisma, Ordem, não podendo por isso, ser reiterados na mesma pessoa.

Os Sacramentos só podem ser recebidos com dignidade, e por isso as disposições interiores são muito importantes, se não se torna infrutuoso, não conferindo por isso a graça santificante. Fora que eles devem ser recebidos como o que de fato são: Santíssimos, - portanto a devida instrução para os fieis é imprescindível, para que não aconteça de :” Dar aos cães o que é santo, nem lançar aos porcos as vossas pérolas”(Mt 7,6)

O Concílio de Trento nos ensina em sua sess.VI, cap7 que a quantidade da graça produzida pelos sacramentos depende juntamente de Deus e de nós. Segundo Tanquerey pag. 174 - Da nossa parte é preciso que tenhamos desejo de recebe-la, aliada a um arrependimento sincero de nossos pecados, fazendo assim com o sacramento opere de forma total e positiva, derramando em nós a graça. Pois aquele que com conhecimento recebe indignamente um Sacramento comete um sacrilégio

Ministro do Sacramento:

Os presbíteros, ministros dos Sacramentos

Deus, que é o único santo e santificação, quis unir a si, como companheiros e colaboradores, homens que servissem humildemente a obra da santificação. Donde vem que os presbíteros são consagrados por Deus, por meio do ministério dos Bispos, para que, feitos de modo.especial participantes do sacerdócio de Cristo, sejam na celebração sagrada ministros d'Aquele que na Liturgia exerce perenemente o seu ofício sacerdotal a nosso favor . Na verdade, introduzem os homens no Povo de Deus pelo Batismo; pelo sacramento da Penitência, reconciliam os pecadores com Deus e com a Igreja; com o óleo dos enfermos, aliviam os doentes; sobretudo com a celebração da missa, oferecem sacramentalmente o Sacrifício de Cristo. Em todos os Sacramentos, porém, como já nos tempos da Igreja primitiva testemunhou S. Inácio mártir, os presbíteros unem-se hieràrquicamente de diversos modos com o Bispo, e assim o tornam de algum modo presente em todas as assembleias dos fiéis .

”Tu amas-Me? Esta identificação amorosa com Cristo tem para nós, Bispos, outro lugar privilegiado no "munus sanctificandi", exercido in persona Christi Capitis na celebração dos Sacramentos. Sabemos que a Igreja, contra aqueles que vinculavam à santidade do ministro a própria validade dos Sacramentos, defendeu a sua eficácia ex opere operato. Era um modo de afirmar que Cristo está presente nos Sacramentos e opera para além da fragilidade do ministro. Mas, afirmando isto, é de igual modo evidente que a santidade do ministro é a condição mais natural para a celebração dos Sacramentos. A experiência pastoral mostra que há uma influência misteriosa que passa precisamente através do testemunho do ministro, quando nele resplandece íntima participação, envolvimento profundo, coerência total de fé e de vida. A santidade é algo que o povo de Deus percebe como que por instinto, e dela tem sede.”(Jubileu dos Bispos – Homilia de D. Giovanni Battista – Basílica de São João de Latrão, 6 de outubro de 2000).

Condições para a Administração dos Sacramentos - segundo Del Greco

Para a válida adminitração dos Sacramentos requer-se: O Poder divino e a devida intenção –

1 – O poder divino: Somente Deus de fato, pode comunicar a Graça interna à ação sacramental
2 – A devida intenção, porque aadministracão dos Sacramentos é um ato humano. O ministro deve ter pelo menos a intenção de fazer o que faz a Igreja. Este age em nome de Cristo, portanto, o Sacramento será válido na medida em que ele tem esta intenção, fazer em Nome de Cristo.

Para que o Sacramento seja válido, não se requer nem a fé, nem o estado de graça do ministro. Por isso o batismo realizado por um herege é válido se é administrado com a intencão e com o rito da Igreja.

Para a lícita administração dos Sacramentos requer-se:

1 – O estado de graça: a reverência para com o mesmo o requer. Um ministro que administra o Sacramento em pecado mortal, sem necessidade, peca mortalmente. Se não houve tempo de se confessar e se ele fez um ato de contrição perfeita, pode celebrar, deixando a confissão o mais breve possível.
2 – A intenção interna: Um Ministro voluntariamente distraído peca gravemente se a sua distração é causa de erros substanciais para o rito sagrado, por expo-los ao perigo de nulidade. Se ele executa uma ação externa incompatível com a interna, a administração torna-se inválida.
3 – A observância dos ritos e das cerimônias.
4 -A imunidade de censuras e irregularidaes. Um excomungado não pode licitamente confeccionar um Sacramento e administrá-los, a não ser se algum fiel lhe peça e se falte ministros para realiza-lo. Mas se ele for um excomungado vitando (Aquele que foi nominalmente excomungado pela santa Sé, mediante decreto e sentença pública) só em perigo de morte o poderá administra-lo.
5 – A devida licença.


Obrigação de negar os Sacramentos aos indignos

Entre os indignos estão incluídos: 1) os hereges e os cismáticoss, 2) os pecadores públicos, 3) os pecadores ocultos.

1 -É proibido ministrar os Sacramentos da Igreja hereges e cismáticos, mesmo se estes os pedem de boa fé, se antes não houverem abjurado os seus erros e se tiverem reconciliado com a Igreja (cân.731. -2). Sem a abjuração de seus erros, nem em perigo de morte se administrar os Sacramentos da Penitência e da Extrema-Unção aos hereges e cismáticos, mesmo só materialmente, se os pedem de boa fé (cfr. resposta do S. Ofício - de março de 1916 em DB. 2l81 a).
2 -Deve-se negar os Sacramentos a um pecador oculto quando os pede secretamente: não se pode, porém, negá-los quando o pedido é público. Assim requer a caridade e a religião. Mas se o sacerdote conhece a má disposição do penitente somente pela sua confissão, não lhe pode negar os Sacramentos; doutro modo, violado o sigilo sacramental.
3 – Deve-se negar os Sacramentos a um pecador público, que os peça privadamente, quer publicamente até que conste de sua emenda, penitência e reparação do escândalo (cân. 855-1)

Componentes essenciais dos Sacramentos:
Materia e Forma:

Cada Sacramento contém duas partes constitutivas: Uma com função de matéria: chama-se elemento. Outra tem o caráter de forma, que é a palavra. Santo Agoatinho nos diz: “Unindo-se a palavra ao elemento, daí nasce o Sacramento”(Aug. Tract. In Ioh. 80.3) Tanto elemento quanto a palavra são tidas por “coisas sensíveis” já que são percebidas por todos nós. São Paulo em Ef 5,25 -26 nos explica claramente ambas as partes: Cristo amou a Igreja e por ela Se entregou, a fim de santifica-la, purificando-a no banho de agua pela palavra da vida ” Ambas unidas dão a certeza de que houve de fato o Sacramento, pois hoje, na nova aliança, a forma da palavra é descrita de uma tal maneira, que se não for observada, deixa de ser Sacramento.


Diferença dos Sacramentos

1 -Quanto à necessidade: Todos os Sacramentos comportam em si uma virtude admirável e divina, mas nem todos são igualmente necessários, nem possuem a mesma graduacão e finalidade. Entre eles, tres são mais necessários, embora não o sejam por razões idênticas. Do Batismo declarou nosso Senhor ser absolutamente necessário para todos os homens: Quem não renascer da agua e do Espírito, não entrará no Reino de Deus

2 -Quanto à dignidade: A Eucaristia sobrepuja a todos os outros, sendo superior por santidade, número e grandeza de seus mistérios.

O Sujeito do Sacramento

O sujeito capaz dos Sacramentos é somente o “homo Viator”. Todavia nem todo homem é capaz de todos os Sacramentos. Somente aquele que não foi batizado é sujeito capaz do Batismo, sendo capaz de todos os outros Sacramentos qualquer batizado.

Para receber validamente os Sacramentos, não se requer nem o estado de graça nem a fé. Esta última porém se requer para o sacramento da Penitência., pois precisamos para recorrer a ele, uma dor sobrenatural que se tem por meio da fé. Para a validade dos outros sacramentos se requer o batismo, (aqui não basta o de desejo, mas o de água), pelo qual nos incorporamos à Igreja. Para aqueles que chegaram a idade da razão, se requer uma positiva e pessoal intenção.

Para receber licitamente os Sacramentos e com frutos, para os Sacramentos dos mortos se exige a atrição sobrenatural. E para os Sacramentos dos vivos se exige estado de graça, adquirida mediante a contrição perfeita ou pela absolvição sacramental.

Por fim, demos graças a Deus que no Filho nos abençoou e nos constituiu seu povo de predileção, dando-nos tudo para recebermos de Seus dons Santíssimos. Agradeçamos pela Igreja que continuará para sempre a obra de Cristo: ensinar aos homens as verdades acerca de Deus e a exigência de que se identifiquem com essas verdades, ajudando-nos sem cessar com a graça dos Sacramentos.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Cruz e Eucaristia - Amor ao extremo








A criação é obra do amor. Certamente, antes da Encarnação do Verbo, o homem podia duvidar que Deus o amava com ternura; porque, a rigor, a verdade desse fato, surpreendente e incrível, não era coisa que podíamos compreender na ordem natural. Mas depois que Ele nos revelou o seu segredo numa epifania de sangue, depois da morte de Jesus Cristo, quem poderia duvidar disso? Agora que a luz iluminou o nosso caminho compreendemos que, em todas as partes, Ele nos envolve com Seu amor irresistível. (Santo Afonso de Ligório - A prática do amor a Jesus Cristo - Editora Santuário - Ano 2002)


Quanto mais estudamos a doutrina de Cristo e as palavras dos santos que morreram por amor a Ele, mais entendemos que nossa santidade, aliás, toda nossa santidade e perfeição, consiste em amar nosso Redentor e Salvador, Jesus Cristo. O amor a Deus consiste na caridade que é o vínculo da perfeição e esta conserva todas as virtudes que fazem um homem perfeito. Santo Agostinho já dizia: "Ama e faz o que queres"

Se amamos a Deus, evitamos tudo que lhe desagrada e buscamos solidamente todo bem que é fazer de fato, tudo que lhe agrada. A história mostra, assim como toda criação e sobretudo cada um de nós, que Deus nos amou primeiro e tudo fez para demonstrar este amor eterno. Mas Ele num designo de pura bondade, não se contentando com tudo isso, deu-nos, para cativar nosso amor e compreendermos o Seu amor, Seu filho único e amado. Afinal, Deus que criou tudo do nada, e nos deu tantos dons, ao ver-nos mortos sem sua graça santíssima, levado por um amor excessivo, enviou este Filho para morrer por nós. "Mas Deus que é rico em misericórdia, pelo excessivo amor com que nos amou, quando ainda estávamos mortos por nossos pecados, nos vivificou juntamente com Cristo”(Ef 2,4-5)

Se Deus não poupou Seu próprio Filho, como não nos dará com Ele todas as coisas? (Rm 8,32). O Filho, por amor, deu-se a nós por inteiro, e para tanto se revestiu de carne – O Verbo de Deus se fez carne – para nos remir da morte eterna, recuperar a graça divina, o paraíso perdido. Eis aqui um Deus aniquilado! "Esvaziou-se a Si mesmo e assumiu a condição de servo tomando a semelhança humana”(Fl 2,7)

Jesus foi servo na dor, porque sem morrer nem sofrer, podia muito bem nos salvar. Mas não! Escolheu uma vida de aflições e desprezos e uma morte cruel e vergonhosa. Morreu numa Cruz, destinada aos criminosos: "Humilhou-se ainda mais e foi obediente até a morte e morte de Cruz”(Fl 2,8). Jesus escolheu morrer e sofrer simplesmente para mostrar o Seu infinito amor pelos pecadores e o desejou ardentemente, quando assim se expressava: “Devo receber o batismo, e quanto o desejo até que ele se realize” (Lc 12,50). Por isso a caridade de Cristo deve nos constranger e deve nos obrigar mesmo ama-lo. Como nos diz São Francisco de Sales: “Este sofrimento e morte de Cristo não é como que ter nosso coração debaixo de uma prensa?”(Tratado do amor de Deus) O que nos leva a compreender que devemos morrer para qualquer outro amor para viver no amor de Cristo.

Que loucura fez Deus diante da humanidade para se expor e morrer assim? Que vergonha para Sua grandeza. Quem fez isso? Pergunta São Bernardo. E responde: Foi o amor, que esqueceu sua dignidade. (Tractatus de caritate). É que o amor quando quer se fazer conhecido, não leva em conta aquilo que mais convém à dignidade da pessoa que ama, mas o que mais condiz manifestar-se à pessoa amada.

Se a fé não nos garantisse, quem poderia crer que Deus onipotente, Senhor de tudo, quis amar tanto os homens, parecendo até ficar fora de Si, por amor de nós? São Lourenço Justiniano dizia: “Vimos a própria sabedoria, o Verbo Encarnado enlouquecido por excessivo amor pelos homens”( Sermo im Nativ. Domini n. 4).

Devemos compreender que a origem do amor de Jesus Cristo para com os homens é sua caridade para com Deus. Ele mesmo disse aos Seus discípulos na Quinta feira Santa: "Para que o mundo saiba que amo o Pai levanta-vos e vamos”. Aqui também está a fonte de nosso amor, amar a tudo e a todos, mesmo nas dificuldades, por amor à Deus, que merece ser amado por tudo que nos fez.

Todos sofrimentos que Cristo se impôs para nos mostrar Seu amor, é muito menor que Seu amor distribuído, pois Ele amou muito mais do que sofreu. Somente por amor, Ele sofreu daquela maneira, e este amor, superou todo o sofrimento, o que nos leva a meditar na grandeza d” Aquele que amou até o fim. O maior sinal de amor é dar a vida pelos amigos e Jesus o fez, e este amor, quando se dá a conhecer, faz as pessoas saírem de si e ficarem estarrecidas e por isso muitas daquelas que compreendem este amor, sentem-se afervorar-se o coração, desejam o martírio, alegram-se nos sofrimentos, tem alívio nas dores. Passeiam nas brasas como se fossem rosas, desejam os tormentos, regozija-se com o que o mundo teme, abraçam o que o mundo detesta. Como nos diz Santo Ambrósio: "Para a pessoa unida à Cruz de Cristo, nenhuma coisa é mais consoladora e gloriosa do que trazer consigo os sinais de Jesus Crucificado.

Como pagar a Cristo este amor? São João de Ávila nos ajuda : "Ó grande amor, o que fizestes? Viestes para curar e me feristes? Viestes para me ensinar a viver e me tornastes semelhente a um louco? Ó sábia loucura, não viva mais eu sem vós! Senhor, quando vos vejo na Cruz, tudo me convida a amar: o madeiro, a vossa pessoa, as feridas de vosso corpo e principalmente o vosso amor. Tudo me convida a Vos amar e a não me esquecer mais de Vós”(Trattati del SS. Sacramento dell’Eucaristia).

Diante de tudo isso, devemos buscar meditar Sua paixão, pois é um poderoso meio de obter o perfeito amor a Jesus Cristo. Esta devoção nos consola, nos anima e nos enche de esperança e forças de lutar. Santo Agostinho nos diz: "Vale mais uma lágrima derramada ao lembrar da paixão, do que o jejum e água em cada semana

São Tomás de Aquino, mestre da Igreja, auxilia quem deseja chegar ao perfeito amor de Cristo e para isso nos mostra os meios adequados: Recordar continuamente dos benefícios divinos, gerais e particulares. Considerar a infinita bondade de Deus que está sempre nos fazendo o bem. Sempre nos ama e procura ser amado por nós. Evitar com cuidado tudo que O desagrada, por mínimo que seja. E por fim, renunciar a todos os bens sensíveis deste mundo: riquezas, honras e prazeres dos sentidos.

Um dia aconselharam a São Francisco de Assis, já doente, a ler um livro piedoso. Ele respondeu: “Meu livro é Jesus Crucificado” e disse: “ Quem não se enamora de Deus, vendo Cristo morto na Cruz, não se abrasará jamais”.

Como não se bastasse ter se tornado homem como nós e ter morrido na Cruz, Nosso Senhor, antes de deixar este mundo, quis deixar-nos a maior prova possível de Sua entrega. Ele nos deixou em memória de Seu amor nada mais nada menos que o Seu corpo, o Seu sangue, a Sua alma, a Sua divindade, Ele mesmo, todo, sem reservas.

Neste dom da Eucaristia – diz o Concilio de Trento – Cristo quis derramar todas as riquezas do amor que reservava para os homens. (Sess.XIII,c,2). Ele quis dar esse presente aos homens precisamente na noite em que eles lhe preparavam a morte. Esta é a maravilhosa prova de amor de Nosso Senhor a nós pecadores, e se algum dia duvidarmos dela, tenhamos neste Sacramento esta prova. Com tal garantia nas mãos, não podemos ter dúvidas de que Ele nos ama e muito!

São Bernardo chama este sacramento: “Amor dos amores”. É que este dom compreende todos os outros que o Senhor nos fez: A criação, a redenção, o destino ao Céu. Quando Jesus revelou a seus discípulos esse Sacramento que nos queria deixar, eles não puderam acreditar: “Como pode Ele nos dar a comer sua carne ?” Mas Jesus disse a eles: “Tomai e comei” – disse aos discípulos e por eles a todos nós, antes de morrer. Depois de dar graças, partiu-o e disse: “Isto é o Meu corpo que é dado por vós” Este alimento não é terreno, mas veio do céu para dar vida ao mundo. E para que todos pudessem recebe-lo, quis ficar sob as aparencias de pão, este a quem todos tem acesso.

As palavras de Cristo nos chama a ama-lo e a deseja-lo, e elas nos leva a desejar o paraíso quando O ouvimos dizer "Quem come a Minha carne viverá eternamente”. Também nos leva a rejeitar o mal quando nos diz: "Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o Seu sangue, não tereis a vida em vós”.

Santo Tomás nos ajuda a compreender o porque deste desejo divino de estar conosco, é que os amigos, que se amam de coração, querem estar unidos de tal modo que formem uma só pessoa. Deus não só se dá a eles no reino eterno, mas já neste mundo se deixa possuir pelos homens na união mais íntima possível.

Ali, - como nos diz Santo Afonso de Ligório, ele está como atrás de um muro nos olhando e nos ajudando, até que chegue o dia, no paraíso, em que O veremos face a face. Devemos, portanto, estar certos de que uma pessoa não pode fazer nem pensar fazer coisa mais agradável a Jesus Cristo, de que comungar com as disposições convenientes a tão grande hóspede. Assim se une a Cristo, pois esta é a intenção do Senhor.

Fiquemos atentos a isto: disposições convenientes e não dignas, porque se estas fossem exigidas, quem poderia comungar? Só um outro Deus seria digno de receber um Deus. Basta que ordinariamente falando, devemos comungar em estado de graça e com vivo desejo de crescer no amor a Jesus Cristo. O Pai tudo colocou nas mãos do Filho e este quando vem até nós traz consigo imensos tesouros de graças.

O Concílio de Trento nos ensina que a comunhão é o remédio que nos livra dos pecados veniais, das nossas faltas cotidianas e nos preserva dos mortais. (Sess.XIII,c.2). Diz-nos que somos livres das falhas cotidianas porque, segundo Santo Tomás, por meio deste sacramento, o homem é estimulado a fazer atos de amor e por eles se apagam os pecados veniais. Somos preservados dos pecados mortais, porque a comunhão nos confere o aumento da graça que nos preserva das faltas graves. (Summa Theol. 3p,q.79,a.4)

Sobre isso escreveu Inocêncio III: "Jesus Cristo com Sua Paixão nos livrou do poder do pecado, mas com a Eucaristia nos livra do poder de pecar. Além disso, este sacramento inflama de modo especial as pessoas no amor de Deus.

Por fim, somos de fato felizes pelo Senhor não nos ter deixado na ignorância, o que nos impele a ama-lo sempre , tendo confianca de que Ele colabora conosco , podendo nós dizer a ele: "Em vossas mãos entrego meu espírito, Salva-me Senhor, Deus da verdade." Esta verdade que nos auxilia a recuperar a esperança do perdão e da salvação eterna. Que mistérios de esperança são para nós a Paixão de Cristo e o Sacramento da Eucaristia!

São Paulo nos exorta: "Aproximemo-nos com confiança do trono da graça a fim de conseguir misericórdia e alcançar a graça de de uma ajuda oportuna” . Este trono é a Cruz de Cristo e a fonta que jorra abundantemente é a Eucaristia. Puro dom de Deus!

……
Minhas meditações dos escritos de santo Afonso de Ligório – Fonte: A prática do amor a Jesus Cristo – Editora santuário – Tradução Pe. Gervásio Fabri – Ano – 2002.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Credo - Segundo Artigo



Creio em Jesus Cristo, Seu Filho Único, Nosso Senhor

Por São Tomás de Aquino

Não é somente necessário crerem os cristãos que existe um só Deus, e que Ele é Criador do céu, da terra e de todas as coisas, mas também é necessário crerem que Deus é Pai e que Cristo é seu verdadeiro Filho.

Esse mistério não é um mito, mas uma verdade certa e comprovada pela palavra de Deus no monte, conforme a afirmação de S. Pedro: ”Porque não foi baseando-nos em fábulas engenhosas que vos demos a conhecer o poder e a presença de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas por termos visto a Sua Majestade com os nossos próprios olhos. Porque Ele recebeu de Deus-Pai honra e glória, quando da magnífica glória lhe foram dirigidas estas palavras: Este. é meu Filho muito amado, em quem pus as minhas complacências. E nós mesmos ouvimos voz vinda do céu, quando estávamos com Ele no monte santo (2 Ped 1,16-18)

O próprio Jesus Cristo muitas vezes chama a Deus como seu Pai e, também, denominava-se Filho de Deus. Os Apóstolos e os Santos Padres colocaram entre os artigos de fé que Jesus Cristo é Filho de Deus, quando definiram este artigo do Credo: E em Jesus Cristo seu Filho, isto é, Filho de Deus.

Mas existiram alguns heréticos que acreditaram nessa verdade da fé, de um modo perverso:

1- Fotino, um deles, declarou que Cristo não é filho de Deus senão como os outros homens bons o são, os quais, por viverem bem, merecem ser chamados filhos de Deus por adoção, enquanto fazem a vontade de Deus. Do mesmo modo, dizem eles, Cristo, que viveu bem e fez a vontade de Deus, mereceu ser chamado FIlho de Deus. O mesmo herético queria que Cristo não tivesse existido antes da Virgem Maria, mas que só começasse a existir quando nela roi concebido .

Cometeu Fotino dois erros: um, porque não disse que Ele era Filho de Deus segundo a natureza; o outro, porque disse que Ele começou a existir, conforme todo o seu ser, no tempo, enquanto a nossa fé afirma que Ele é por natureza Filho de Deus e eterno. Ora, essas duas verdades encontram-se claramente expressas na Sagrada Escritura, opostas que são ao que ele afirma.

Contra o primeiro erro, declara a Escritura que Jesus Cristo não só é Filho de Deus, mas também Filho Unigênito: O Unigênito que está no seio do Pai é que O fez conhecido (Jo 1,18). Contra o segundo, lê-se: Antes de Abraão existir, eu já existia (Jo 8,58). Ora, é certo que Abraão existiu antes da Virgem Maria. Por esse motivo, os Santos Padres acrescentaram, em outro símbolo, contra o primeiro erro: Filho de Deus Unigênito; e, contra o segundo: nascido do Pai antes de todos os séculos.

2- Sabélio embora tivesse dito que Cristo existiu antes da Virgem Maria, afirmou que a Pessoa do Pai outra não era que a do Filho, e que o próprio Pai se encarnou. Desse modo, a Pessoa do Pai seria a mesma que a do Filho. Mas isso é um erro, porque destrói a trindade das Pessoas. Contra esse erro, há a autoridade do Evangelista S. João, que nos relatou as palavras do próprio Cristo: Eu não sou Eu só; sou Eu e o Pai que me enviou (Jo, 8,16). Ora, é evidente que ninguém pode ser enviado por si mesmo. Eis porque Sabélio errou. Acrescentou-se, por isso, no Símbolo dos Padres: Deus de Deus, luz de luz isto é, Deus Filho de Deus-Pai; Filho que é luz, luz que procede do Pai, que tambem é luz. É nessas verdades que devemos crer.

3-Ario, embora tivesse afirmado que Cristo existira antes da Virgem Maria e que era uma Pessoa do Pai, outra, a do Filho, atribuiu, ao ser de Cristo, três erros: primeiro, que Cristo foi criatura; segundo, que Ele foi feito por Deus como a mais nobre das criaturas, não desde a eternidade, mas no tempo; terceiro, que não havia uma só natureza de Deus-Filho com Deus-Pai, e, por esse motivo, Cristo não era verdadeiro Deus.

Tais afirmações são evidentemente errôneas porque contrárias à autoridade da Sagrada Escritura. Lê-se no Evangelho de S. João: Eu e o Pai somos um [/i](10 10,30), isto é, pela natureza. Ora, como o Pa-i sempre cxistiu, do mesmo modo o Filho; como o Pai é verdadeiro Deus, assim também o Filho. Em oposição à afirmação de Ario, isto é, que Cristo é criatura, está declarado no Símbolo dos Padres: gerado, não feito. Contra o erro propalado dc que Ele não era da mesma substância do Pai, foi acrescentado no Símbolo: consubstancial com o Pai.

Está, pois, esclarecido porque devemos crer que Cristo é o Filho Unigênito de Deus e verdadeiro Filho de Deus;que sempre existiu com o Pai; que uma é a Pessoa do Filho. outra, a do Pai; que Ele tem uma só natureza com o Pai. Cremos nessas verdades aqui, pela fé; conhecê-Ias-emos, porém, na vida eterna, por uma perfeita visão.

Para nossa consolação, acrescentemos algumas palavras a essas verdades:

Devemos saber que há diversos modos de geração, conforme a diversidade dos seres. A geração em Deus, é diferente da geração nos outros seres. Por isso, não podemos chegar a conhecer a geração de Deus, senão por meio da geração das criaturas que mais se aproximam de Deus e que mais se assemelham a Ele. Ora, como foi dito, nada se assemelha tanto Deus, como a alma humana. Há, na alma, uma espécie de geração, quando o homem conhece alguma coisa pela própria alma, que se chama concepção intelectiva. O conceito (efeito da concepção) tem a sua origem da própria alma, como de um pai. Chama-se verbo (isto é, palavra mental) da inteligência ou do homem. A alma, portanto, gera o seu verbo pelo conhecimento
.
O Filho de Deus, também, nada mais é que o verbo de Deus, não como se fosse um verbo (uma palavra) já pronunciado exteriormente, porque assim seria transitório, mas como um verbo (uma palavra mental) concebido no interior. Desse modo este verbo de Deus possui a própria natureza de Deus, e é igual a Deus. O Bem-aventurado João, quando falou do Verbo de Deus, destruiu as três heresias acima definidas: a de Fotino, quando disse: No princípio já existia o Verbo; a de Sabélio, quando disse: e o Verbo estava em Deus; e a de Ario, quando disse: " e o Verbo era Deus.” Mas o verbo (a palavra mental) existe diversamente em nós e em Deus. Em nós, o verbo é um acidente; em Deus, o Verbo de Deus identifica-se mais com o próprio Deus, pois nada há em Deus que não seja a essência de Deus. Ninguém pode afirmar que Deus não possui um verbo, porque, se o fizesse, estaria também afirmando que em Deus não há absolutamente conhecimento.

Como, além disso, Deus sempre existiu, assim também o Verbo.

Como o artista executa as suas obras de acordo com o modelo que prefigurou em sua inteligência, que é o seu verbo; assim também Deus faz todas as coisas pelo seu Verbo, que é como Seu pensamento artístico. Por isso lê-se em São João: as coisas foram feitas por Ele(Jo 1,3). Se o Verbo de Deus é o Filho de Deus e todas as palavras de Deus possuem alguma semelhança com esse verbo, todos nós devemos, em primeiro lugar, ouvir com satisfação as palavras de Deus. Se ouvirmos com prazer as palavras de Deus, isto é mal de que amamos a Deus.

Em segundo lugar, devemos crer nas palavras de Deus porque é assim que o Verbo de Deus habita em nós, isto é, Cristo, que é o Verbo de Deus. Lê-se no Apóstolo S. Paulo:Habitar Cristo, pela fé, em vossos corações. (Ef 3,17). Lê-se também em João: Não tendes o Verbo de Deus permanecendo em vós que não acreditais nAquele que Ele enviou (Jo 5,38).

Em terceiro lugar, convém que sempre tenhamos o Verbo de Deus, que permanece em nós, como objeto das nossas meditações. Não é conveniente apenas crer, mas é necessário também meditar, pois, de outro modo, a fé não nos seria útil. A meditação sobre o Verbo de Deus é muito útil contra o pecado. Lê-se nos Salmos: Escondi no meu coração a Vossa palavra, para não pecar contra vós (SI 118,11). Lê-se, ainda, a respeito homem justo: Meditarei dia e noite na Sua Lei (SI 1,2). Por isso sabemos que a Virgem Maria conservava todas essas palavras, meditando sobre elas no seu coração (Lc. 2,51).

Em quarto lugar, convém que o homem comunique aos outros a palavra de Deus, admoestando, pregando-a para eles e afervorando-lhes a fé. Encontram-se nas cartas de S. Paulo os seguintes textos: Que nenhuma palavra má proceda da vossa boca, mas somente as boas palavras que edificam (Ef 4,29); Que a palavra de Cristo habite em vós abundantemente, com toda sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros[/i] (Col 3,16); Prega a palavra, insiste oportuna e importunamente, repreende, pede e ameaça com toda a paciência e com toda doutrina(2 Tes 4,2).

Em último lugar, devemos cumprir o que a palavra de Deus determinou. Lê-se em S. Tiago: Sede realizadores da palavra de Deus e não apenas ouvintes (Tgo 1,22).

Na mesma ordem a Bem-aventurada Virgem Maria seguiu essas cinco recomendações, quando nela foi gerado o Verbo Deus. Primeiramente, ouviu: O Espírito Santo virá sobre ti (Lc.1,35). Depois, consentiu pela fé :Eis a escrava do Senhor (Lc. 1,38). Em terceiro lugar, recebeu o Verbo Encarnado e O carregou em seu seio. Em quarto lugar, ela O pronunciou quando a Ele deu a luz. Finalmente, nutriu-O e amamentou-O. Eis porque a Igreja canta: A Virgem amamentava, fortalecida céu, o próprio Rei dos Anjos.

Cristo e a Riqueza


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Por Tihamer Toth – Prelado Húngaro (1889 - 1931)

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Extratos da Obra: Quem é Cristo?

Os habitantes da pequena aldeia bávara de Oberammergau fizeram no século XVII, durante a epidemia da peste, a promessa de representar a Paixão de Cristo de dez em dez anos se o flagelo desaparece. Em 1930 milhares de espectadores de todas as partes do mundo foram assistir com alma comovida às piedosas representações da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. A cena que sempre causa profunda impressão no espectador, preocupado com os problemas sociais atuais, não é o caminho da cruz nem a crucifixão ou a morte de Cristo; sem dúvida, essas cenas são comovedoras; é o lava-pés durante a Ceia a parte mais apreciada pelo público.


Quando o Salvador se levanta da mesa e calmamente lava os pés dos apóstolos, empreende uma revolução, subverte todos os conceitos que até então a humanidade possuía sobre poder e grandeza. O Salvador não proclama que os ricos irão para o inferno, que os capitalistas devem desaparecer, que não deve haver senhores. O Filho de Deus, Criador do mundo, levanta-se silenciosamente e ajoelha-se diante de simples pescadores para lavar-lhes os pés. Essa comovedora lição deve iluminar como um clarão o céu escuro do mundo atual. Cristo indica que é impossível suprimir as diferenças de classes entre os homens. Sempre haverá na terra: sábios e ignorantes, fortes e fracos, sadios e enfermos, ricos e pobres, patrões e operários. Não é correto incitar as classes umas contra as outras, semeando ódio e destruindo autoridade; cabe incutir nos superiores e mais fortes, nos mais instruídos e ricos, a idéia de que devem trabalhar praticando o amor caritativo, somente assim as lutas entre as classes sociais desaparecerão.

O Filho de Deus lavando os pés dos homens!

Não é o progresso que resolverá a questão social, a solução definitiva pode ser encontrada quando o patrão lavar os pés do empregado, isto é, quando o exemplo de Cristo elevar a vida cotidiana, enobrecendo o procedimento de agir e falar. A distância entre o trabalho e o capital, a riqueza e a miséria, preocupa o mundo atual. Chamei a atenção sobre o fato: todas as instituíções procuram reinvicar Jesus Cristo para si. A Sua personalidade é de tal grandeza que cada tendência deseja que Jesus pertença ao seu quadro. Houve quem achasse que Cristo foi o primeiro comunista, porque pronunciou esta ameaça: Ai de vós, ricos! Alguns viram como redentor social, o primeiro socialista. Consideremos o que Cristo ensinou sobre a propriedade privada, a riqueza e os bens do mundo. A atitude do Salvador perante a riqueza é especialmente posta em relevo nos episódios do jovem rico e no Sermão da Montanha.

Certo dia, um jovem rico encontrou-se com Cristo e cheio de entusiasmo disse: Bom Mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna? Jesus respondeu-lhe: Se queres entrar na vida eterna , observa os mandamentos. O jovem falou: Tenho observado tudo isso desde a minha infância. Que me falta ainda? Nosso Senhor olha profundamente. Percebe que este jovem rico tem sede de um grau mais alto de perfeição, então lhe responde: Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me. Esse sacrifício era demasiado para aquele jovem, que então prefere deixar o divino Mestre. Cristo lamenta: É difícil para um rico entrar no Reino do céus!

Os discípulos ficarm surpresos, não esperavam isso (na mentalidade judaica daquele tempo, acreditava-se que quem era rico e tinha saúde, estava na graça de Deus; pelo contrário quem era pobre ou possuía enfermidades era considerado pecador, por isso Deus o estava castigando. Jesus demonstrou como essa mentalidade era deturpada).Então os ricos não são felizes? Não são filhos queridos de Deus os que acumulam bens terrenos? Jesus acrescenta: É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos céus.. A estas palavras seus discípulos, pasmados, perguntaram: Quem poderá então se salvar? Jesus olhou para eles e disse: Aos homens é impossível, mas a Deus tudo é possível (Mt 19,24-26).

Para melhor compreender o pensamento do Salvador sobre a riqueza, analisemos o Sermão da Montanha. Este sermão proclama com clareza indiscutível a idéia de Cristo sobre a excelência da pobreza e da renúncia voluntária. Bem-aventurados vós que sois pobres, porque vosso é o Reino de Deus! Bem-aventurados vós que agora tendes fome, porque sereis fartos! Bem-aventurados vós que agora chorais, porque vos alegrareis! Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos expulsarem, vos ultrajarem, e quando e repelirem o vosso nome com infame por causa do Filho do homem! Alegrai-vos naquele dia e exultai, porque grande é o vosso galardão no céu(Lc 6, 20-23).Quem ler superficialmente essas importantes declarações de Jesus Cristo, talvez se escandalize. Mas quem reflete a fundo sobre o sentido dessas palavras e acrescenta as declarações feitas noutras partes pelo divino Mestre, nota que não condenou a civilização; apenas mostrou onde reside a riqueza verdadeiramente civilizadora e digna do homem.

Com efeito, as palavras do Salvador servem de equilíbrio à natureza humana, exageradamente inclinada para a matéria; para que possa se elevar do círculo egoísta dos instintos terrenos para o círculo dos interesses celestes.

Qual é a fonte mais terrível de qualquer maldade e insensiblidade humana no mundo? Que separa os amigos, os parentes, os irmãos e transforma em inferno a vida? O egoísmo. É nisso precisamente que as palavras de Cristo dão o golpe mortal, porque essas importantes palavras significam uma afirmação corajosa: o culto do Mammon (palavra hebraica que significa a personificação do mal; deus do dinheiro)não poderá ser banido, os excesos do capitalismo não poderão ser suprimidos, senão quando a tirania da cobiça for refreada. Também um milionário pode ser cristão e não se sujeitar ao domínio do dinheiro e um proletário, o mais pobre, pode ser escravo da riqueza. As palavras de Cristo mostram claramente que ninguém está obrigado a distribuir os bens; indica o perigo de o homem por facilmente nas riquezas toda a esperança, toda a confiança, todos os desejos, esquecendo-se de Deus. Para quem o dinheiro é deus, o Deus verdadeiro não pode entrar. Ai de vós, ó ricos!

Cristo teve discípulos com boas condições financeiras: Marta e Maria, Salomé, Nicodemos, José de Arimatéia, Mateus. Um dos amigos mais queridos, Lázaro, possuía uma residência grande, onde Jesus frequentemente descansava. Hospedou-se de boa vontade na casa do rico Zaqueu. Jesus não condena o rico que sabe colocar a salvação acima da riqueza, que usa o dinheiro para o bem, socorrendo os necessitados.Esse ensinamento traz sérias consequências. O amor de Cristo nos constrange(2Cor5,14). Nisso consiste a ação social; é unicamente na concepção religiosa que descobrimos o pobre, o abandonado, a alma imortal.

Tolstoi conta num romance, o pensamento de uma condessa sobre as criadas: “É verdadeiramente espantoso que estas serviçais façam nossas camas, enquanto tocamos Chopin! É verdadeiramente espantoso que a caridade de Cristo, com o exemplo do Lava-pés fique apenas como algo sentimental, porém não será espantoso quando o comunismo chegar, destruindo o piano e as partituras de Chopin”.

Ser cristão significa olhar ciosamente o céu? Esperar com suspiros o reino dos céus? Ficar de braços cruzados esperando as coisas acontecerem? De jeito nenhum, se assim fosse, o cristianismo seria o inimigo do progresso e do trabalho.

O bom cristão reza, confessa-se, comunga, jejua, assiste à Missa, pratica tudo isso; domina também os instintos, a dureza de coração, a preguiça, a impaciência e o egoísmo; é amável e indulgente com o próximo e severo consigo mesmo, acima de tudo cumpre os deveres com dedicação. Mesmo que uma pessoa reze muito e comungue todos os dias, se é indisciplinada, manhosa, insuportável, egoísta, nada esquece e perdoa, é negligente com os deveres, certamente não é cristã.

Para que um dia seja possível resolver a questão social, a humanidade deve estar impregnada do espírito cristão, viver como cristão é a única solução.

A associação russa dos sem-Deus publicou em Moscou um jornal em que aparecia uma gravura com o título: O guarda-vento. Via-se Cristo triste, estendendo as mãos para um grupo de infelizes: mulheres esqueléticas, crianças famintas, operários curvados e sujos pelo trabalho. Cristo parece dizer: Louve o trabalho, não se revoltem contra os exploradoress, não busquem uma vida melhor e mais humana para os filhos, tenham paciência. Atrás da imagem de Jesus está um gordo burguês – que a multidão não vê por causa de Cristo – com os dedos cheios de anéis de diamante, segurando uma corda que enforca o proletário indefeso. Diante desta imagem revoltante, não basta a indignação e o protesto, precisamos refletir com humildade e fazer um exame de consciência.

Há alguma verdade nessa cena blasfema? Esses revolucionários vermelhos estarão certos? É possível falar de cristianismo enquanto milhões trabalham como escravos para o capitalismo? Quem está com a razão: o comunismo ou o capitalismo? Onde encontramos Cristo, do lado daqueles que com avidez querem monopolizar tudo, ou daqueles que através de revoluções sangrentas querem tirar tudo?

Vejamos o que Cristo pensa da riqueza, antes vamos entender claramente o que é riqueza.

O que é necessário para viver não é riqueza, é meio indispensável de existência. O salário ganho honestamente, não é riqueza. O sustento não pode ser entendido apenas como alimentação, moradia e vestuário. Não sou homem pelo fato de me alimentar e sim pelo fato de possuir uma vida intelectual e igualmente necessidades intelectuais. Riqueza é tudo aquilo que está acima das necessidades.

Na parábola do rico e do pobre Lázaro (Lc 16,19-31) Jesus não condena o rico porque possuía riquezas, condena porque não tinha compaixão do pobre. Em nenhuma parte, o Senhor condena aqueles que possuem riquezas e propriedades; como já demosntramos, possuía entre os discípulos, pessoas de posses, apenas insistiu no perigo da riqueza.

Jesus, certa vez, disse: ”Ai de vós, ó ricos! Em outra ocasião: “Bem-aventurados os pobres!” Parece que amaldiçoa os ricos e abençõa os pobres. Isso seria por um lado uma severidade incompreensível e de outro lado não poderia haver progresso humano e social. Quem trabalharia, se não pudesse guardar as economias para no futuro pudesse comprar uma morada? O Senhor condena apenas os “ricos”, que veem na fortuna o bem único; em contrapartida, os “pobres” bem-aventurados são aqueles, que perante os gozos da vida, consideram preciosa a liberdade, aspiram e trabalham para introduzir na vida um valor verdadeiro. O conceito de Cristo, não é o mesmo do mundo. A sociedade se inclina diante dos ricos e este é o seu pensamento: tens muitos bens em depósito para muitíssimos anos; descansa, come, bebe e regala-te(Lc 12,19). É para estes que se aplicam as maldições do Senhor; dificilmente conseguirão entrar no reino dos céus.

Em compensação, os pobres entrarão facilmente no reino dos céus? Certamente os pobres de espírito, que não são apegados aos bens terrenos, sejam ricos ou pobres, e que colocaram os olhos no fim eterno. Diante de Deus o rico e o pobre possuem o mesmo valor; a única vantagem do pobre é não estar exposto ao perigo das grandes riquezas, embora possa estar extremamente apegado ao pouco que possui. Peçamos a Deus a graça de saber usar os bens com sobriedade, em favor da família, da Igreja, da Sociedade e dos mais necessitados.

O homem é por natureza egoísta e cobiçoso. O cristianismo, há vinte séculos, combate a falta de compaixão dos ricos, que estão muito longe do ideal cristão.Cristo ensinou que todos devem socorrer o próximo na parábola do bom samaritano, no entanto, a esmola não é a essência do cristianismo, apenas meio auxiliar. O fundamento é o trabalho digno, tanto que quem não trabalha não deve comer; é necessário acrescentar que não podemos falar de reino de Cristo, enquanto um homem que deseje trabalhar honestamente, não encontre emprego e morra de fome.

Exorta os ricos deste mundo a que não sejam orgulhosos nem ponham sua esperança nas riquesas volúveis [/i] (1Tm 6,17). Muitos que tinham posses, depois de uma queda do câmbio, de uma falência, acordaram pobres no dia seguinte. Vários milionários viajavam num transatlântico luxuoso, divertindo-se com danças e jogos. O rádio de repente deu a seguinte notícia: “Quebra na bolsa de Nova Iorque”. Estes magnatas que estavam tão alegres, ficaram empalidecidos, quando embarcaram eram milionários, agora apenas homens falidos no meio do mar. Já aconselhava São Paulo: Exorta os ricos deste mundo a que não sejam orgulhosos nem ponham sua esperança nas riquezas volúveis. O que torna o homem rico é a imitação da generosidade de Deus.

Recordemos as palavras dirigidas por São João Crisóstomo aos ricos sem coração, feitas há quinze séculos, e que servem perfeitamente para o homem de hoje : Vocês se banqueteiam e Cristo nem sequer tinha o necessário para comer; vocês comem iguarias deliciosas e Jesus não tinha sequer pão seco; vocês bebem vinho de Tharos e sequer dão um copo de água para Jesus; vocês descansam em leitos aconchegantes enquanto Cristo morre no frio; e não falo daqueles que convidam para suas casas mulheres de má vida, não me dirijo a estes, pois não tenho costume de falar com os cães; não falo daqueles que enriquecem injustamente, que enchem o estômago dos aduladores, porque não tenho nada a fazer com eles, como não tenho nada com os suínos; falo àqueles que gozam de suas riquezas, mas não tornam os outros participantes, consumindo somente para eles a herança. Estes cometeram pecados. Estão com medo por causa destas palavras? Pois bem! Tremam por causa de suas ações. (Sermão sobre o Evangelho de São Mateus 48 - homilias 78-79).

A Igreja fiel à doutrina de Cristo sempre exortou os fiéis como podemos ver nesta circular dos Bispos húngaros : Deus deu os bens deste mundo a todos, para serem bem usados e não adorados.

Deus distribuiu os bens entre todos indistintamente, não criou pobres e ricos, simplesmente homens; Deus os abençoou: Frutificai, disse ele e multiplica-vos, enchei a terra e submetei-a (Gen 1,28). Em conformidade com a lei divina, todos possuem direitos aos bens da terra, utilizando-os para a existência; aquele que exclui o próximo está contra essa lei.

Quem não quiser trabalhar, não tem o direito de comer(1 Ts 3,10). Aqueles que desejam trabalhar, obedecendo à ordem imposta por Deus, não podem ser excluídos por causa se um sistema econômico egoista. Hoje vemos milhões de homens estendendo as mãos em busca do pão de cada dia, a esses se aplicam as palavras da Escritura: Não rejeteis o pedido do aflito, não desveis o rosto do pobre ( Eclo 4,4). Então é preciso recordar aos ricos, que a obrigação de fornecer trabalho honesto e alimentação é uma lei divina; o Estado tem obrigação de tornar medidas e promulgar leis que fornecam trabalho aos que querem trabalhar e pão para os que têm fome.

O rico chega facilmente a pensar que não precisa de nada, mesmo de Deus. Por isso, Jesus disse na parábola do semeador que os ricos são sufocados pelos cuidados, riquezas e prazeres da vida e assim seus frutos não amadurecem (Lc 8,14)

Também a miséria é perigosa para a salvação. A pobreza material é companheira do pecado. O homem torturado pela fome, facilmente se revolta e deixa de rezar.

Com o capitalismo selvagem e o proletariado anfrajoso não são os ideias do cristianismo, então qual será esse ideal?
A Sagrada Escritura fornece este ideal: Não me dês nem pobreza nem riqueza, concede-me o pão que me é necessário(Pr 30,8), porque nada trouxemos ao mundo, como tampouco nada poderemos levar. Tendo alimento e vestuário, contentamo-nos com isto. Aqueles que ambicionam tornar-se ricos caem nas armadilhas do demônio e em muitos desejos insensatos e nocivos da ruína e da perdição, porque a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro. (1Tm 6, 7-10)

O mundo luta entre o capitalismo e o comunismo, porém o remédio é o cristianismo. A ordem social e econômica não pode ser baseada no vértice das pirâmides do Egito, onde milhões trabalhavam como escravos; a justiça e a propriedade particular são reconhecidas pelo ideal cristão, cuidado, pois ninguém pode servir a dois senhores…Não podeis servir a Deus e à riqueza(Mt 6,24-25) No cemitério de cães em Paris, há monumentos cujo valor bastaria para sustentar dezenas de famílias pobres; enquanto a ossada de uma cadela jaz abrigada do inverno, centenas de pessoas morrem de frio nos arredores de Paris. O cristão não pode aceitar semelhente coisa. Diante do esbanjamento insensato dos ricos, o mundo está repleto de crianças subnutridas e desabrigadas.

Recentemente um hotel americano organizou um jantar de mil dólares por pessoa. Enquanto no mundo milhões de operários sem trabalho passam fome, existem pessoas cuja consciência permite comer de entrada um prato que representa um castelo construído por fatias de caviar e pastéis de fígado de ganso, regado por champagne. Eis a solução social sem Cristo!

Santa Isabel da Hungria era bastante rica, possuía um castelo e poderia tomar parte em um banquete de mil dólares; ao contrário distinguiu-se destes milionários americanos, aceitando a doutrina de Cristo, não fez uma refeição de mil dólares, preferiu alimentar os pobres; descia voluntariamente do castelo para o profundo vale do sofrimento, da mortificação e da humilhação, para se elevar depois às alturas do amor de Deus e do próximo, com isso resolveu a questão social do povo de sua época.

Toth Tihamer - Bispo -Extratos da Obra: Quem é Cristo? Editora Formatto - Texto: Cristo e a Riqueza.

Sofrimento, Oração e Desapego - Santa Catarina de Sena


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Carta 187

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Para João Sabbatini, Tadeu Malovoti e os Monges de Belriguardo

1 - Saudação e Objetivo

Em Nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, caríssimos filhos em Jesus Cristo, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos escrevo no Seu precioso sangue, desejosa de vos ver como soldados sem nenhum temor servil.

2- Valor do Sofrimento na Vida Cristã

De fato, nosso Salvador quer que tenhamos medo dele, não das pessoas deste mundo. Cristo disse: [i]”Não temais aqueles que podem matar o corpo, mas a Mim, que posso enviar ao inferno a alma e o corpo”[/i](cfr. Mt 10,28). Por isso eu quero que vos afogueis no sangue do Filho de Deus, inflamados no fogo da divina caridade. É onde se perde todo temor servil, restando na pessoa apenas o temor reverencial. E que podem fazer o mundo, o demônio e seus servidores contra quem atingiu o amor sem medida pelo sofrimento? Nada! Eles apenas nos fornecem a ocasião para provarmos nossa virtude. Realmente, a virtude é posta à prova pelo que lhe é contrário. A pessoa deve até alegrar-se e rejubilar-se, deve procurar sofrer sempre com Cristo crucuficado, deve aniquilar-se por Ele, deve humilhar-se. Deve deleitar-se na dor e na Cruz. E ao desejar o sofrimento, encontrará alegria. Mas se procurar a alegria, achará a dor.

A melhor coisa é, portanto, afogar-se no sangue e eliminar nossas perversas vontades mediante um amor livre pelo Criador, sem termos nenhuma compaixão de nós mesmos. Só então aquela alegria estará em vós. E deveis esperar os sofrimentos sem nenhuma angústia. Por nenhuma ordem, que nos for dada, deveremos nos queixar. Pelo contrário, devemos até nos alegrar. De fato, nenhuma ordem humana será capaz de nos afastar de Deus. Tais ordens até serão aptas a nos dar a virtude da paciência, tornando-nos solícitos em abraçar a árvore da Cruz, em procurar a visão invisível que jamais nos será tirada. Se assim decidimos, a caridade amorosa jamais nos será tomada. Que doce coisa sermos perseguidos por causa de Cristo crucuficado! Quero que vos alegreis quando a cruz vos é dada, qualquer que seja o modo! Não escolhamos o modo. Que ele seja escolhido por quem nos faz sofrer. Julgai-vos até indgnos de sofrer perseguição por Cristo crucificado.

3- Perseverai na Oração e no Amor Mútuo

Ficai sabendo, meus bondosos filhos em Jesus Cristo, que foi essa a senda percorrida pelos santos que imitaram Jesus Cristo. Não existe outra que nos conduz a vida! Quero, pois, que com empenho vos esforceis por trilhar essa senda, feliz e reta. Perseverai na oração com boa vontade, sempre que o Espírito vos oferecer ocasião. Não haja desprezo ou fuga em vós, também com perigo de vida. Não deixeis a oração para poupar e agradar o próprio corpo. O que o demônio mais deseja ver em nós, para nos afastar da oração, é que tenhamos cuidados com o corpo e tibieza espiritual. Por motivo algum tais coisas devem afastar-nos da prece. Recordando-nos de que Deus é bondoso e reconhecendo nossos defeitos, afastemos as tentações do diabo e toda autocompaixão. Escondei-vos nas chagas de Cristo crucificado, nada voa amedronte. Por Cristo crucificado vós tudo podeis. Ele estará convosco e vos fortalecerá.

4 –Sede Obedientes e Desapegados. Conclusão.

Sede obedientes até a morte no que vos for imposto, por mais grave que seja. Não desprezeis o prêmio por causa da dificuldade ou de alguma tentação do diabo querendo enganar-vos, sob pretexto de virtude, sugerindo-vos: ”Isto sera a alegria de minha vida e faria aumentar a virtude em mim”. Não acrediteis no diabo, mas sim em Deus, o qual vos dará de outro modo o que esperais dessa consolação. Vós sabeis que nenhuma folha cai de uma árvore sem a providência divina. Desse modo, tudo o que o diabo ou as pessoas fazem para nós, por providência divina colabora para a nossa salvação e progresso na perfeição. Portanto, acolhei tudo com respeito e despojai-vos dos bens materiais não necessários. Revesti-vos de Cristo crucificado, inebriai-vos no seu sangue. Nele encontrareis a alegria e a paz completa.

Nada mais acrescento. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.

Fonte: Catarina de Sena, Santa, 1347 -1380. Cartas Completas – Tradução: Frei João Alves Basílio O.P. São Paulo: Paulus 2005. ( Espiritualidade) .pag. 607 a 609.

São Compatíveis a Ciência e a Fé?


”Para os que acreditam, Deus está no princípio. Para os cientistas, Deus está no final de todas as suas reflexões.” (Max Planck).

Pode a Ciência Controlar-se a Si Mesma?

O físico alemão Otto Hahn, inventor da fissão do átomo de urânio, estava internado num campo de concentração inglês, junto com outros eminentes cientistas. Quando, em agosto de 1945, recebeu a notícia de que Hirosshima tinha sido arrasada por uma bomba atômica, sentiu um profundíssimo sentimento de culpa. As suas pesquisas sobre a fissão do urânio tinham acabado por se utilizar para produzir um massacre terrível. Foi tal a sua angústia que tentou abrir as veias nos arames farpados que cercavam o campo. Depois que os seus companheiros conseguiram dissuadi-lo, o velho professor fez-lhes, desolado, a seguinte confissão:”Acabo de perceber que a minha vida não tem mais sentido. Pesquisei pelo puro desejo de revelar a verdade das coisas e todo o meu saber científico acaba de se converter num enorme poder aniquilador".

A experiência pessoal de Otto Hanh foi, na realidade, a experiência amarga de toda uma época. Uma aflitiva impressão de fracasso invadiu os espíritos de todos os que tinham lutado com tanta tenacidade por levar o conhecimento científico a máxima altura possível, convencidos de fazer com isso um grande bem a humanidade. Tinham trabalhado penosamente com a profunda convicção de que o aumento do saber teórico e o incremento da felicidade humana estavam inequivocamente vinculados. Acreditavam que fomentar o conhecimento científico teria sempre um valor positivo, que significaria automaticamente cotas mais elevadas de felicidade e igualdade. Pensaram que se tratava de um bem inquestionável e que, portanto, se traduziria indubitavelmente em bem-estar para o homem.

Mas esse entusiasmo plurissecular, que já tinha aberto fendas nas tricheiras de Verdun* (uma das batalhas mais sangrentas da 1ª guerra), ruiu estrepitosamente com os horrores da 2ª guerra mundial. O terrível poder destruidor das armas nucleares, os intensivos bombardeios da população civil, o extermínio sistemático e profundamente cruel de toda uma raça e um saldo de cinquenta milhões de mortos puseram tragicamente de manifesto que o saber teórico pode traduzir-se num saber técnico, e este, por sua vez, num amplo poder sobre a realidade, mas, por desgraça, todo esse domínio não leva automaticamente a uma maior felicidade dos homens se aqueles que detem esse poder não possuem uma consciência ética proporcional a sua responsabilidade.

Após séculos de febril incremento do saber científico, a idéia de que o progresso humano é sempre contínuo e não pode haver retrocesso revelou-se uma farsa irritante. O ideal do domínio científico e a consequente forma de humanismo desfizeram-se em pedaços ao entrarem em colisão com a obstinada realidade da história. Era patente que o futuro não devia caracterizar-se por essa ingênua crença no progresso como princípio motor de uma civilização, mas que era preciso alicerçá-lo em valores mais altos e seguros.

História de uma Desilusão.

O psiquiatra austríaco Viktor Frankl, depois da sua experiência pessoal em diversos campos de concentração, chegou à conclusão de que não foram os ministérios nazistas de Berlim os verdadeiros responsáveis por aquelas atrocidades, mas a filosofia niilista do século XIX. Se o homem é um simples produto de uma natureza mutável, um simples macaco evoluído, então, da mesma forma que o macaco pode ser enjaulado num zoológico, o homem pode ser encarcerado num campo de extermínio. Se o homem é um simples animal, ainda que extraordinariamente adestrado, e fazemos sabonetes com gordura animal, por que não fazê-lo com gordura humana?

O filósofo Edmund Husserl, esclarecido pela falência do mito do eterno progresso por ocasião da Segunda Guerra mundial - na qual viu, entre outras ocasiões, aquela racionalização perfeita da matança em massa de milhões de inocentes - percebeu claramente que a ciência, por força do seu método, não pode ser um princípio motor da vida humana. "O mundo da objetividade científica - escreveu - é um mundo fechado e inóspito. A forma pela qual o homem moderno, na segunda metade do séc. XIX, se deixou determinar totalmente pelas ciências positivas e cegar pela prosperidade a elas devida, significou pôr de lado as questões decisivas para uma humanidade autêntica. As ciências que só comtemplam meros fatos fazem com que os homens só enxergassem meros fatos".

Procurar o conhecimento científico objetivo das coisas é lícito e fecundo. Mas considerar esse modo de conhecer como modelo, como a única forma rigorosa de conhecimento, é uma parcialidade inaceitável, já que empobrece enormemente o homem. A Ilustração - o Iluminismo - pretendia alcançar o ideal renascentista que sonhava entregar o homem a si mesmo, torná-lo livre, permitindo-lhe viver sob o império exclusivo da razão. A esperança de que o homem atingiria a felicidade para sempre num mundo já dominado e sem segredos, por meio de uma ciência que tudo conheceria e tudo poderia, veio a ser um sonho que nunca se alcançaria e que o horror gigantesco das duas Guerras Mundiais converteu em algo pior que um pesadelo. O domínio da realidade escapava ao molde estreito do pensamento racionalista. E o perigo não derivava da ciência em si, mas dessa mentalidade que levava a considerar que só se pode conhecer aquilo que é mensurável, controlável, verificável, e a desprezar os aspectos da realidade que resistem a esse tipo de controle e cálculo.

Essa pretensão de domínio sem limites deixava o homem numa situação de desamparo. Logo se viu que a ciência, que tinha dominado com o seu prestígio o Século das Luzes, não podia, por si só, plenificar a vida do homem. Não era sua missão. A ciência não fala de valores, de sentido, de metas nem de fins, e o ser humano precisa de tudo isso para preservar a sua dignidade e ser feliz.

O otimismo ilustrado previra horizontes paradisíacos, mas a utopia científica mostrou como nunca a sua impotência. Não há dúvida de que o progresso científico foi grande e que esse desenvolvimento é uma coisa boa, ou pelo menos, não tem porque ser má. Mas, hoje em dia, muito poucos acreditam que tudo isso seja a panacéia, que possa fazer algo mais do que transferir a inquietação de uns temas para outros. O domínio das coisas é muito elevado, mas necessita de um humanismo válido que lhe dê sentido. Porque, do contrário, pode embriagar-se com os seus próprios êxitos e crescer em direções aberrantes para a dignidade do homem.

A técnica permite desenvolver meios de comunicação extremamente poderosos, rápidos, atraentes, sugestivos, mas esses meios podem ser uma arma de primeira grandeza para manipular as consciências, moldar as vontades e os sentimentos dos homens. A ciência precisa de alguns limites para a sua pretensão de soberania. Toda a grande conquista traz consigo uma inevitável ambivalência: um avanço num aspecto e um retrocesso em outro, talvez não menos valioso. O aumento de poder não corre sempre paralelamente ao aumento do domínio do homem sobre esse poder. A ciência não pode abandonar-se a sua própria dinâmica, mas deve ser regulada por uma instância externa que a oriente e lhe dê sentido.

O Processo Científico Implica um Declive Religioso?

A Idade Moderna começou por cultivar insistentemente as questões de método. Bacon, Descartes e Spinoza, por exemplo, concentraram a sua filosofia em torno da busca de um método rigoroso que lhes permitisse chegar à certeza e assentar a vida sobre convicções sólidas, inquebrantáveis, inexpugnáveis. Como as ciências avançam sobre dados seguros e conferidos, verificados pela experiência, foram surgindo pensadores convencidos de que, sempre que a ciência descobria um segredo, a religião dava um passo atrás. Parecia-lhes que o progresso da ciência reduzia inexoravelmente o domínio do religioso, cada dia mais confinado. Em contraposição ao que consideravam o crédulo espírito medieval, o homem moderno haveria de encontrar, apenas com a força da sua razão, um método sem fendas. E o grande modelo do pensamento autêntico era, para eles, o saber matemático.

Se se trabalha com a devida lógica, articulando bem os diversos passos do raciocínio – afirmavam -, chega-se em matemática a conclusões apodícticas, inquestionáveis. A ordem no raciocínio torna-se a chave do pensamento e do conhecimento retos. E essa ordem é estabelecida pela razão, pois a razão é o grande privilégio do homem. Por esse caminho – acabavam por concluir -, o homem basta-se a si mesmo, já que a razão lhe oferece recursos de sobra para descobrir as leis da realidade e conseguir um rápido domínio sobre ela. Mas de novo a passagem do tempo veio mostrar como esse domínio só é possível em termos quantitativos, naquilo que pode submeter-se a cálculo e medida. Mas o espírito escapa ao método matemático e à lógica cartesiana. Ao possibilitar a opção livre, o espírito torna possíveis muitas coisas que denunciam a insuficiência do modelo racionalista. Poderiam citar-se muitos exemplos.

Um dos mais característicos é a tentativa racionalista de explicar a inteligência humana. É difícil saber exatamente o que é o pensamento, mas, se eu reduzo o problema a uma questão de neurônios, posso conseguir uma tranqüilizadora impressão de exatidão: 1.350 gramas de cérebro humano, constituído por 100.000 milhões de neurônios, cada um dos quais forma entre 1.000 e 10.000 sinapses e recebe a informação que lhe chega dos olhos através de 1.000.000 de axônios acumulados no nervo ótico. Por sua vez, cada célula viva pode ser explicada pela química orgânica....Deste modo, posso pretender explicar a inteligência num plano biológico, a biologia em termos de processos químicos e a química em forma de matemática. Pois bem, qualquer leitor medianamente crítico perguntar-se-á o que têm a ver as porcentagens de carbono e hidrogênio, os neurônios e toda a matemática associada a esses processos, com algo tão humano e tão pouco matemático como conversar, entender uma piada, captar um olhar de carinho ou compreender o sentido da justiça.

A ciência moderna, com as suas descobertas maravilhosas, com as suas leis de uma exatidão assombrosa, oferece a tentação – um empenho que se deu em Descartes com uma força irresistível – de querer conhecer toda a realidade com uma exatidão matemática. Mas costuma-se esquecer algo essencial: que a matemática é exata à custa de considerar unicamente os aspectos quantificáveis da realidade. E reduzir toda a realidade ao quantificável é uma notável simplificação, é um reducionismo. Poderíamos replicar como aquele velho professor universitário, quando um aluno fazia alguma afirmação reducionista: “Isso é como se eu lhe perguntasse o que é esta mesa, e você me respondesse: cento e cinqüenta quilos”.

As grandezas matemáticas prestaram e prestarão um grande serviço à ciência, e à humanidade no seu conjunto, mas sempre prestaram um péssimo serviço quando se quis empregá-las de um modo exclusivista. A totalidade do real nunca poderá ser expressa só em cifras, porque as cifras expressam unicamente grandezas e a grandeza é apenas uma parte da realidade. E não é questão de dar mais números ou com mais decimais. Por muitos ou muito exatos que sejam, oferecem sempre um conhecimento notoriamente insuficiente. Você pesa 70 quilos, mas não é 70 quilos. E mede 1,83 metros, mas não é 1,83 metros. As duas medidas são exatas, mas você é muito mais que uma soma exata de centímetros e quilos. As suas dimensões mais genuínas não são quantificáveis: não podem ser determinadas numericamente as suas responsabilidades, a sua liberdade real, a sua capacidade de amar, a sua simpatia por tal pessoa ou a sua vontade de ser feliz.

Não querer reconhecer uma realidade alegando que não pode ser medida experimentalmente, seria proceder mais ou menos como um químico que se negasse a admitir as propriedades especiais dos corpos radioativos, sob o pretexto de que não obedecem às mesmas leis que explicam o que acontece com os outros corpos já conhecidos. Acima da ciência há outra face da realidade: a mais importante, e também a mais interessante do ser humano, aquela em que aparecem aspectos tão pouco quantificáveis como, por exemplo, os sentimentos – não é possível pesá-los, mas nada pesa mais do que eles na vida. Um pensamento ou um sentimento não podem honestamente ser qualificados como materiais. Não têm cor, sabor ou extensão, e escapam a qualquer instrumento que sirva para medir propriedades físicas. “Os fenômenos mentais – afirma John Eccles, Prêmio Nobel de Neurocirurgia – transcendem claramente os fenômenos da fisiologia e da bioquímica”.

“A ciência, apesar dos seus progressos incríveis – escreve o médico e pensador Gregório Maranón -, não pode nem poderá nunca explicar tudo. Cada vez ganhará mais terreno no campo daquilo que hoje parece inexplicável. Mas os limites fronteiriços do saber, por muito longe que cheguem, terão sempre pela frente um infinito mundo de mistério”.

A Fé Desaparecerá Quando a Sociedade Amadurecer?

Em um dos seus livros, López Quintás conta que um dia, ao entardecer, depois de visitar a catedral de Notre-Dame, enquanto vagueava pela velha Paris, deparou, sem querer, com um pequeno edifício abandonado, com as suas sórdidas janelas cruzadas por sarrafos de madeira. Aquela construção quase em ruínas era o famoso “Templo da Nova Religião da Ciência” que o filósofo francês Augusto Comte tinha erigido fazia século e meio. O contraste foi tão brusco como expressivo. O templo com o qual se pretendera dar culto ao progresso científico estava em ruínas. A velha catedral, pelo contrário, irradiava as suas melhores galas, como na sua brilhante época medieval. A música combinava nela com a harmonia das linhas arquitetônicas, com as belas palavras dos oradores, com o magnífico esplendor litúrgico que num dia de Natal, anos atrás, emocionara o grande poeta Claudel, até levá-lo à conversão.

A história daquele templo esquecido está aparentada com a da Ilustração, que no seu tempo se ergueu com o sonho de “despojar o homem dos grilhões irracionais das crenças e conhecimentos supersticiosos baseados na autoridade e nos costumes”. O pensamento ilustrado da Enciclopédia considerava os conhecimentos religiosos como “simples e ingênuas explicações sobre a vida dadas pelo homem não científico”. Na sua aversão à fé, uma multidão de pensadores deleitava-se em atribuir a origem mais baixa possível ao sentimento religioso. Concebiam os nossos antepassados como “seres perpetuamente atemorizados, empenhados em conjurar as forças hostis do céu e da terra mediante práticas irracionais”. Viam a Deus como um simples “produto do medo das civilizações primitivas, num tempo em que esses espíritos atrasados ainda acreditavam em fábulas”. A teoria de Comte sobre a evolução humana através dos três estados – religiosidade, pensamento filosófico e conhecimento científico – gozou na sua época de grande aceitação e em sua honra foi erigido aquele templo dedicado à “Nova Religião da Ciência”.

Não é curioso que a ciência adquirisse essa faceta religiosa? Foi efetivamente um curioso fenômeno de substituição. Fascinado pela ciência, o homem elevou-a até ocupar o lugar do sagrado. Mas não era um simples conflito entre a ciência e a fé. Com efeito, entronizar uma bonita mocinha parisiense na catedral de Notre–Dame – como fizeram durante a Revolução Francesa - , dando–lhe o título de “Deusa Razão”, não parece que fizesse parte das ciências experimentais. Por trás de tudo aquilo latejava o empenho ateu de proclamar a salvação da humanidade por si mesma, e o advento de uma sociedade iluminada unicamente pela razão humana.

Passaram-se menos de dois séculos, e o estado de abandono em que se encontra hoje aquele templo laico é talvez um fiel reflexo do abandono da concepção do homem que tanta força teve na sua época. Aquela ilusão segundo a qual o advento da era científica permitiria eliminar o mal do mundo acabou por ser um doloroso engano. As suas hipóteses acabaram por estar mais impregnadas de ingenuidade do que a que eles atribuíam às épocas históricas anteriores.

A Ciência Pode Explicar Tudo?

Um olhar sobre o progresso científico com um pouco de perspectiva histórica deixa-nos espantados com a rapidez com que as máquinas são ultrapassadas e vão parar nos museus. Muitas afirmações das revistas científicas atuais provavelmente serão motivos de riso ou de assombro para as gerações futuras, talvez em menos tempo ainda. A história da ciência adverte-nos, com teimosa insistência, sobre um fato irrefutável: poucas teorias científicas conseguem manter-se em pé, mesmo que por poucos séculos; muitas vezes, só por alguns anos; e em alguns casos, menos ainda. A maioria das afirmações da ciência vai sendo substituída, uma atrás da outra, pouco a pouco, por outras explicações mais complexas e mais fundamentadas dessa mesma realidade. Eram hipóteses tidas como certas durante uma série de anos, ou de séculos, e que um dia se descobre que estão superadas. Umas vezes, são englobadas dentro de teorias mais completas, das quais a antiga hipótese é um corolário ou um simples caso particular. Outras ficaram obsoletas e desapareceram por completo do âmbito científico. A postura própria da ciência experimental deve ser, portanto, extremamente cautelosa nas suas afirmações.

“Uma cilada perniciosa” – escrevia John Eccles pouco depois de ter recebido o Prêmio Nobel pelas suas pesquisas em neurocirurgia – surge da pretensão de alguns cientistas, mesmo eminentes, de que a ciência não demorará a proporcionar uma explicação completa de todas as nossas experiências subjetivas. É uma pretensão extravagante e falsa, que foi qualificada ironicamente por Popper como “materialismo promissório”. É importante reconhecer que, mesmo que um cientista possa manifestar essa pretensão, não se comportaria como cientista, mas como um profeta mascarado de cientista. Isso seria cientificismo, não ciência, embora impressione fortemente os profanos que pensam que a ciência produz de forma incontroversa a verdade. O cientista não deve pensar que possui um conhecimento certo de toda a verdade. O máximo que nós, os cientistas, podemos fazer é chegar mais perto de um entendimento verdadeiro dos fenômenos naturais mediante a eliminação de erros em nossas hipóteses. É da maior importância para os cientistas que apareçam perante o público como o que realmente são: humildes buscadores da verdade”.

Em contrapartida, a imodéstia costuma caminhar a par da ignorância. A auto-suficiência com que alguns falam reflete uma atitude muito pouco científica, pois os cientistas sensatos nunca conferem a categoria de dogma às suas hipóteses. O cientificismo orgulhoso prestou sempre um péssimo serviço ao rigor da verdadeira ciência.

A Razão Precisa da Fé?

O combate que o homem trava contra o mal excede infinitamente os meios da razão e da ciência. É o que demonstram fatos tão atuais como o racismo, a droga ou o alcool. Ou como todos esses terríveis crimes cometidos por totalitarismos ateus sistemáticos e pretensamente científicos ao longo do século XX: desde o genocídio nazista de Hitler até o de Pol Pot no Camboja, passando pelos do lenismo, do stalinismo ou do maoísmo.

O pior é que a maior parte desses crimes em massa foram cometidos em nome de teorias que, na sua época, receberam o aplauso de milhões de pessoas. Foram autênticos infernos fabricados por homens que procuravam um mundo perfeito que se bastasse a si mesmo e já não tivesse necessidade de Deus.

E assim como, lendo Lênin, se podia notar que os direitos do indivíduo não iam ser respeitos num sistema comunista, do mesmo modo, estudando as premissas da Ilustração, viu-se claramente que a Modernidade não atenderia às necessidades globais do ser humano. Não basta a razão para que uma sociedade seja justa, solidária e equilibrada. Para que haja equilíbrio na pessoa e na sociedade, é preciso atender, juntamente com a razão, à vontade e à sensibilidade. A pessoa e a sociedade, devem ter por objetivo procurar o bem, a verdade e a beleza; e isso significa falar de vontade, inteligência e sentimentos; e, por sua vez, de ética, de ciência e de arte. Quando se idolatra um método da inteligência, como é a razão, sem elevar à sua altura a ética e a estética, desenquilibram-se o indivíduo e a sociedade. Esse foi o fracasso da Ilustração.

Fracassou por ter pensado que da razão deriva automaticamente a ética, coisa que se demonstrou falsa ao ser confrontada com a realidade. A razão não pode ser salva pela razão. Isso seria ilusório. Esses crimes demonstram o que o homem pode chegar a fazer. E vimos como a razão não os impediu.

Os ilustrados pensavam que, mostrando ao homem o que é racional, este o adotaria, e a razão seria suficiente para organizar a sociedade. Mas não foi assim. Não basta proclamar o que é racional para que os homens o pratiquem.

O comportamento humano está cheio de sombras e de matizes alheias à razão, que desembestam cada qual por sua conta movendo as molas da vontade e do coração. Reconhecer os perigos que a razão encerra – afirma Jean–Marie Lustiger – é salvar a sua honra. Conceber a razão como a grande soberana, independente do bem que o homem deve procurar, é mais ou menos como pôr-se nas mãos de um computador: é um instrumento muito capaz, processa grande quantidade de dados que toma do exterior, todo o seu desenvolvimento é perfeitamente lógico, mas alguém tem de garantir que está bem programado. A verdadeira fé é um guia insubstituível, pois a razão pode extraviar-se.

Não quero, com isto, menosprezar a razão, antes pelo contrário. A razão é uma das mais nobres capacidades que distinguem a espécie humana, e alegra-nos ver os seus triunfos, bem como conquistas da ciência e a sua luta por construir um mundo melhor. Mas convém nunca esquecer a limitação humana, e igualmente a ordem natural imposta por Deus, que permite ao homem preservar a sua dignidade e evitar erros.

A história está cheia de cadáveres ideológicos, e ninguém acha estranho encontrá-los perfeitamente alinhados quando olha pra trás com a disposiçào de aprender. E, entre eles, espalhados ao longo dos séculos, pode-se ver toda uma legião de profetas que foram anunciando – sobretudo nos últimos duzentos anos – o próximo e definitivo desaparecimento da religião e da Igreja.

No entanto, a história mostra que são precisamente aqueles que, com tanta paixão, lançam essas condenações e essas profecias os que desaparecem uns após outros, enquando a Igreja continua adiante depois de dois mil anos, e a religiosidade continua a ser uma constante em todas as civilizações de todos os tempos.

A Igreja, que presenciou catástrofes que varreram impérios inteiros, testemunha pela sua mera subsistência e força que palpita nela. “Os povos passam – observa Napoleão -, os tronos e as dinastias desmoronam-se, mas a Igreja permanece”. É uma realidade que leva a pensar que o fato religioso faz parte da natureza do homem, e que a Igreja está animada de um espírito que não é de origem humana.


Fonte: É Razoável Crer? Questões Atuais sobre a Fé – AGUILÓ Alfonso – Tradução: Roberto da Silva Martins - Editora Quadrante - São Paulo 2006 - Coleção Vértice; 60.