quinta-feira, 16 de abril de 2009

Doce Hóspede da Alma – Santifica-nos!




Caríssimos, como são maravilhosos, como são preciosos os dons de Deus! Vida imortal, esplêndida justiça, verdade liberta, fé intrépida, temperança santa: tudo isto nossa inteligência concebe. O que será então que se prepara para aqueles que O aguardam? O Santíssimo Artífice e Pai dos séculos é o único a conhecer a sua santidade e beleza. Portanto, a fim de participarmos dos dons prometidos, empreguemos todo empenho em sermos contados no número dos que esperam”
(São Clemente I – Papa e Mártir da Igreja – séc. I - AQUINO, Felipe – Alimento Sólido – Editora Canção Nova - Cachoeira Paulista - S. P – p. 23).

“Sede perfeitos como o Vosso Pai é perfeito” (Mt 5,48)

Conta-se que um cônego de Limoges, o Abade Guimabaud, falecido em 1944, tomara parte numa peregrinção a Roma quando ainda jovem sacerdote, tendo sido apresentado ao Papa Leão XIII pelo Vigário Geral, da forma seguinte: “Santitíssimo Padre, aqui está um sacerdote que leu todas as suas Encíclicas” – Qual prefere? Perguntou o Papa ao Abade – “A que trata do Espírito Santo”- Ah! continou Leão XIII, o Espírito Santo….o divino desconhecido!...”(PLUS, Raul – Em União com o Espírito Santo – Quadrante – Introdução)

Graças a Deus pode-se dizer que hoje o Espírito Santo não é mais o divino desconhecido, mas infelizmente podemos dizer, que muitos de nós desconhecemos toda riqueza de suas ações nas almas, que consiste em educa-las para a santidade. Saibamos bem que Deus nosso Pai, reservou para Si a santificação das almas que Ele tanto ama, já que as criou para Ele. E o faz de uma forma ordenada, silenciosa e eficaz, para levar a termo Seu desejo de elevar o homem à condição a que foi criado primeiramente, com toda riqueza de dons e dotes sobrenaturais. Deus quer que sejamos perfeitos, assim como Ele é perfeito, nada mais que isso.

Deus é quem faz os santos. A santificação é obra do amor e este amor é o próprio Deus que nos convida e age em nós para nos convertermos e nos santificarmos, portanto a alma resoluta que busca na docilidade deixar-se conduzir pelo Espírito, terá como recompensa o encontro com Deus.

Deus quis que o homem fizesse parte de Sua família, tornando-o um filho com direito à Sua herança. E para que isso não fosse apenas uma formalidade, deu-nos a participação de Sua vida divina, com uma qualidade criada e real, que nos faz participar já aqui na terra das luzes da fé, para um dia possui-Lo no céu pela visão beatífica de Si mesmo, amando-O como Ele é.
Para tanto, no dia do nosso Batismo, firmou-se entre Deus e nós um verdadeiro contrato. Neste Sacramento da Igreja, pelas suas águas regeneradoras e pelo Seu poder, efetivamente a Santíssima Trindade se derramou sobre nós : O amor do Pai e do Filho foi derramado em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado. (Rm 5,5). Esse Amor é um amor substancial, imutável e eterno.

No Batismo recebemos os frutos da redenção operada por Cristo na Cruz. Ali somos purificados da mácula original, da falta da graça e dos bens perdidos por Adão, nosso pai terrestre, além de recebermos nossa adoação filial.

E tudo isso acontece pela ação da pessoa do Espírito Santo. Aquele que o Santo Padre chamou de divino desconhecido, e tanto quanto Jesus, tem seu calvário na medida em que não é conhecido, amado e sobretudo querido pelos homens, que Deus escolheu para serem seus filhos adotivos. Por Ele nos tornamos livres e por Ele decidimos por Deus. Ele nos vivifica, por isso é o autor da vida nova que o Senhor nos oferece. Jesus disse: Eis que faço novas todas as coisas. Queridos, pelo Espírito fazemos parte desta maravilha de Deus.

Sua obra magnífica consiste em nos fazer amar a Deus, nos liberta do amor do mundo e nos leva a nos conformarmos com Sua santa vontade.

É a Ele que devemos buscar para podermos cumprir nosso fim, vivendo na luta contra o pecado, perseverando até o dia final. Logicamente é a Santíssima Trindade que buscamos para sermos santos, mas esta obra é dada ao Divino Espírito por atribuição, já que nas obras do amor, Ele se faz presente e atua eficazmente. Mas é Deus todo, que opera em nós o Seu querer e executar.

O Espírito Santo, portanto, é o educador de nossas almas, de incomparável sabedoria e amor. Mestre na arte de conduzi-las e plasma-las de acordo com Sua vontade, Ele faz o que quer e quando quer, pois é o educador gratuito e liberal, e age porque é bom, não dependendo do mérito de ninguém. Só pede que esta alma se deixe conduzir por Ele, em função de sua natureza e segundo suas disposições, para leva-la ao acabamento total na graça e à qualidade de adultos na fé.

Ele é o princípio da santidade e nos faz voltar para Deus e quer nos unir a Ele de forma habitual e permanente . Ele nos purifica e nos da firmeza, fazendo com que desejemos sempre mais a ascenção ininterrupta para Deus, para fazer de nós, imagens perfeitas de nosso Pai.

Saibamos bem que é apenas no Espírito Santo que devemos esperar a santidade, que não nos será negada se a buscarmos diligentemente a cada dia, lutando tenazmente contra o pecado que nos afasta de Deus, pois nos diz as Escrituras que a alma que põe a confiança no Senhor, nunca será confundida (Sl 30,2). Como disse, Deus é quem faz os santos, portanto é Ele quem conduz ao que Ele mesmo nos propõe. É preciso que cada um conheça quando, de que maneira Ele age, para com o coração disponível viver esta vida de forma a subir sempre à presença do Senhor.

Nossa vida é uma caminhada para o alto e Deus mais do que ninguém nos quer ajudar nesta subida. Nosso fim consiste em ve-Lo, viver nEle e para Ele, mas podemos experimentar já aqui, esta vida de filhos, com toda a fecundidade que ela nos oferece. Já digo de antemão, que não depende dos sentimentos, mas do se deixar conduzir pelo Espírito Santo que nos foi dado. Saber, pela razão, de que maneira Ele nos conduz, para aceitarmos agradecidos Seu amor e Sua transformação.

Ora, se o Espirito nos foi dado, nos pertence e se nos pertence pode fazer com que nos tornemos santos, porque Ele é santo! Nossa limitação nunca alcançará esta misericórdia inefável e infinita!! Quanta vantagem tivemos quando o Senhor disse que era preciso que Ele fosse. Ficaríamos sem Ele, é certo, mas receberíamos o grande presente que nos seria concedido. O Espírito Santo é nosso amigo, nosso Consolador e nossa força nas provações da vida presente e quer levar a cabo na vida de cada um de nós, esta transformação maravilhosa que a cada dia nos transforma tal qual Ele é, e para qual fomos criados.

Mas quantos tem desperdiçado por desconhecimento esta graça bendita? Quantos tem se cansado na caminhada buscando se santificar com suas próprias forças, que são nada diante da força de Deus, desprezando Aquele que realmente santifica? Quantos tem sentindo sua vida vazia, crendo que tem desagradado a Deus, crendo que tem perdido tempo em orações infrutuosas, se sentindo como que inúteis diante de todo bem que sabem que Deus os convida a viver?

Assim já dizia Pierre Charles : Senhor, por que, para subir até Vós, não temos a mesma coragem com que galgamos montanhas? Por que havemos de temer a escalada do Vosso Sinai, para ir falar-Vos e contemplar- Vos face a face? Quando penso na imensidade do esforço sinto-me esmagado. Como farei para atingir o inacessível? Ah… Depois que descestes até à humanidade, há um caminho aberto para subir até Vós (Generosidades – Quadrante – São Paulo – 1991 - pag. 52)

Mas como de fato o Espírito Santo age em nós?

Segundo Tanquerey, “ao comunicar-nos uma participação da Sua vida, nos deu o Senhor todas as graças necessárias para a conservar e acrescentar. Ele por amor, ainda nos deu nessa Sua participação, a graça santificante onde somos modificados por Ele, de uma forma acidental, na nossa natureza e capacidade de ação, não nos torna Deus, mas deiformes, semelhantes a Ele, capaz de atingi-Lo pela visão beatífica, quando esta graça for transformada em glória e de O ver face a face, como Ele se vê a Si mesmo.

Participamos da natureza de Deus, Ele vem a nós com sua graça maravilhosa! Jesus não contente em reparar, pela Sua satisfação, a ofensa feita a Deus e de nos reconciliar com Ele, mereceu-nos todas as graças que havíamos perdido pelo pecado e outras ainda.

A Graça Santificante, que por si já diviniza e nos aperfeiçoa, vem com seu cortejo de virtudes infusas e dons do Espírito Santo, que colaboram mais ainda com este novo homem, o que se move e cresce com a ajuda de graças atuais,

Atuais e abundantes e que podemos crer até mais abundantes do que no estado se inocência, em virtude da palavra de São Paulo: ”ubi abundavit delictum, superabundavit gratia” - onde abundou o pecado, superabundou a graça - para que produza atos sobrenaturais, deiformes e meritórios de vida eterna, já que este, como dissemos, é o fim a que o homem foi criado e elevado como filho de Deus. (A Vida Espiritual - Explicada e Comentada - de Adolfh Tanquerey - Editora Permanência - Quinta Edição - Anápolis - 2007)).

Entendamos pois, que o homem em estado de graça, todos os seus atos, são realizados com ajuda de Deus. É Ele que opera em nós e por nós. Por isso, qualquer ação que fazemos, tem méritos de vida eterna. São Paulo, na carta aos Colossenses no cap. 3, vers 17 – nos diz que “tudo quanto fizermos, por palavras ou por obras, que façamos em Nome de Jesus Cristo dando por Ele, graças a Deus Pai.” Nossa caridade, nosso amor, nossos atos, nenhum deles são desperdiçados, pois o fazemos em Deus e para Deus. Ao abrirmos nossos olhos, saibamos que a menor de nossas ações devem ser oferecidas a Deus e devemos pedir que tudo naquele dia seja feito com Sua ajuda santíssima. Assim, nosso coração se torna um coração descansado, já que nos unimos a Deus que tudo realiza.

Santa Tereza disse uma vez, que se tivermos o desejo de fazer algo para Deus, Ele nos ajudará a faze-lo. O Senhor se compraz nisso. Nossa vida há de ser uma eterna oração se feita nesta união, por isso, temos paz em Deus.

É certo que, mesmo depois de nosso Batismo, estamos ainda de posse da concuspicência e das misérias da vida, mas temos agora a força necessária para combater e vencer as tentações, ficamos robustecidos nas virtudes e podendo, portanto, alcançar muitos merecimentos.

O Senhor põe diante de nossos olhos os exemplos de Jesus, com sua Cruz e estimula-nos a lutar. Já as graças atuais, que Ele nos mereceu, facilitam nossos esforços e vitórias. A medida que lutamos as concuspicências vão diminuindo, a nossa força de resistência vai aumentando e por fim chega a hora que muitas almas privilegiadas, são de tal modo confirmadas nas virtudes que, embora tenham liberdade para pecar, não cometem falta alguma de propósito deliberado.

Ah! Maravilhosa graça que nos enche de dons e virtudes, que nos permitirão levar a cabo atos sobrenaturais, para atingir a santidade que nos pede o Senhor. Deus nos faz a cada dia chegarmos mais perto de Sua beleza e pureza.

As virtudes infusas nos capacitam a agir de maneira sobrenatural, de julgar as coisas à luz da revelação divina e agir de acordo com que a fé nos mostra. Dispõe a nossa inteligencia e a nossa vontade para a união com Deus, mas não nos confere por si mesmas a facilidade de pensar e agir segundo as luzes da fé. Por isso é necessário que elas sejam reforçadas por hábitos moralmente bons, que se adquirem por atos correspondentes, realizados com intensidade e de maneira repetida. A ajuda das graças atuais que o Senhor não nega às almas que as pedem com o coração desejoso de ama-Lo e de servi-Lo, entra em ação, nos capacitando a chegarmos ao termo final.

E para receber estas graças atuais, são imprescindíveis os dons do Espírito Santo, que são disposições ou hábitos sobrenaturais que faz com que a alma elevada já à vida sobrenatuaral pela graça santificante, se torne capaz de receber estas inspirações divinas. Os dons portanto, intervem necessariamente em todo ato sobrenatural.

O Espírito que agora habita em nós, nos ajuda primeiramente a rejeitarmos de todas as formas o pecado, depois ilumina nossa mente para querermos e buscarmos as coisas do alto (A sua unção ensinar-vos-á tudo - 1 Jo 2,27). Nos ajuda a obedecermos os mandamentos e põe em nós o desejo da vida eterna, fazendo-nos assemelhar a Cristo. Aos Efésios Ele disse pela boca de São Paulo: “Fostes assinalados com o Espírito da promessa, que é o penhor da nossa herança (1,14). Ele é, com efeito, a garantia da vida eterna.

A alma cheia de Deus, conduzida pelo divino Espírito, eficazmente, pensa, julga e age em todas as circustâncias como fariam Cristo nosso Senhor ou sua santíssima mãe e aquela que assim se conduz, já se conduz santamente. Ela age como por instinto e com toda naturalidade, preocupada unicamente em amar a Deus, que é a caridade perfeita.

Diz o Catecismo n. 2005: Sendo, como é, de ordem sobrenatural, a graça escapa nossa experiência e só pode ser conhecida pela fé. Não podemos, pois, basear-nos nos nossos sentimentos nem nas nossas obras, para daí concluirmos que estamos justificados e salvos . No entanto, segundo a palavra do Senhor, que diz: “Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7, 20), a consideração dos benefícios de Deus na nossa vida e na vida dos santos oferece-nos uma garantia de que a graça de Deus opera em nós e nos incita a uma fé cada vez maior e a uma atitude de pobreza confiante.

Encontramos uma das mais belas ilustrações desta atitude na resposta de Santa Joana d'Arc a uma pergunta capciosa dos seus juízes eclesiásticos: “Interrogada sobre se sabe se está na graça de Deus, responde; "Se não estou, Deus nela me ponha: se estou, Deus nela me guarde" (Santa Joana D'Arc: Dito: Procès de condannation, ed. P. Tisset (Paris, 1969) p. 62.)

Tanquerey nos diz que não é qualquer impulso interior vago e difuso para agir de determinada forma que provém do Espírito Santo. É preciso antes que este seja nitidamente para realizar um ato bom, que a nossa consciência bem formada e informada aprove como estando perfeitamente de acordo com a lei de Deus naquelas circunstancias concretas. Para discernir se a moções provem dos dons, devemos aplicar o que nos ensinou o Senhor: “Pelos frutos os conhecereis”(Mt 7,20). São necessárias, via de regra, anos de oração regular e de exames de consciência para atingir um certo grau de conhecimento próprio e o que seria muito salutar é se encontrássemos um bom diretor espiritual.( A Vida Espiritual - Explicada e Comentada - de Adolfh Tanquerey - Editora Permanência - Quinta Edição - Anápolis - 2007)

É evidente que, se Deus operou tantas maravilhas, para nos comunicar uma participação da sua vida, devemos, da nossa parte, corresponder às suas amorosas antecipações, aceitar com reconhecimento essa vida, cultivá-la e preparar-nos assim para essa bem-aventurança eterna que coroa nossos esforços na terra.

É indubitável que Deus, que nos criou livres, respeita a nossa liberdade, e não nos santificará contra a nossa vontade; mas não cessa de nos exortar a que nos aproveitemos das graças que nos outorga tão liberalmente ”diuvantes autem exhortamur ne in vacuum gratiam Dei recipiatis: Exortamo-vos a que não recebais a graça de Deus em vão”

A vida que o Senhor nos dá é maravilhosa e conhece-la nos faz quere-la, deseja-la, não importando quanto esforço temos que empreender. Nossa alma sedenta suspira pela fonte das águas e se refresca nesta fonte. Podemos já viver aqui o céu de forma antecipada, se de fato, nos unirmos a Deus em oração, nos Sacramentos da Igreja, na participação da Santa Missa, nos nossos menores trabalhos e até na solidão.

Seremos como nos pediu o Senhor, luz e sal neste mundo e através de nossa conduta santa, o mundo poderá ver a presença de Deus e poderão reconhece-Lo para prestar-lhe tambem o louvor que Ele merece. Aliás, o mundo espera a manifestação dos filhos de Deus. O mundo espera nossas orações, nossos atos e nossas palavras, e será através de nós que poderão chegar à verdade que salva a todos – isto só é possível pela ação do Espírito Santo em nós.

Quando uma alma se enamora de Deus tem sempre o desejo de estar cheia de suas graças, as buscando diligentemente nos sacramentos da penitencia e eucaristia, e esta alma descansada rejubila-se e poderá cantar quando chegar a hora derradeira: “Que alegria quando me vieram dizer - Vamos subir à casa do Senhor”

Ali haverá festa e nós seremos os felizes convidados do Banquete do Cordeiro. Coragem, só temos uma vida pra viver de fé (Santa Terezinha) e ela valerá a pena quando o Vermos tal qual Ele É.( Sl 122)

Coloquemos nisso nossa esperança, e ela não engana!

terça-feira, 14 de abril de 2009

O Cristão e o Descrente


Por Padre Leo Trese

Para os que não creem em Deus, a vida deve ser uma experiência insuportável. Suponho que nós, os que bebemos a nossa fé juntamente com o leite das nossas mães, jamais conseguiremos compreender a fundo o que se passa na mente de um ateu. Procurei às vezes imaginar o que seria não acreditar em Deus. Vi-me contemplando o rosto de uma pessoa falecida a quem tivesse amado profundamente e dizendo de mim para mim: "Bem, agora você não passa de um montão de carne e ossos. Tudo acabou. PT Saudações".

Também procurei imaginar o que seria ver-me pouco a pouco reduzido a escombros pelas dores insuportáveis de um câncer, mergulhado em dias e noites sem fim repletos de sofrimentos intoleráveis, sofrimentos desprovidos de qualquer sentido ou valor, simples brincadeira de mau gosto perpetrada por uma natureza cega e cruel.

Tentei adivinhar o que significaria não haver Lei Divina para indicar-me os caminhos seguros pelos quais a minha vontade poderia transitar livremente; o que significaria ter a liberdade de "fazer tudo o que bem entendesse", sem nenhum limite a não ser a preocupação de permanecer do lado de fora da penitenciária. Tentei imaginar os esforços febriciantes que faria para arrancar à vida todas as satisfações que ela pudesse dar-me, a fim de agradar ao meu ego e à minha carne; as noites insones que passaria a suar, pensando em que o nada eterno poderia abater-se sobre mim antes de eu ter desfrutado até o fim de todos os prazeres da vida.

É evidente que um ateu não pensa nestes termos. Se chegasse a raciocinar de maneira tão consequente, em pouco tempo deixaria de ser ateu...

Assim, quando a morte lhe arranca algum dos seus seres queridos, transfere para o agente funerário a tarefa de levar o corpo ao crematório e de espalhar as cinzas nalgum canteiro onde possam fertilizar as flores; ou então colocá-las, guardadas numa urna, sobre um aparador, como as vezes se guarda pétalas desfolhadas de uma rosa. E quando se apresenta a doença, aceita-a rangendo os dentes, porque, lamentavelmente faz parte "das regras do jogo"; aliás, se a situação for desesperadora, sempre pode recorrer a um atalho: uma pequena dose de veneno fulminante, ou mesmo um revólver ou uma corda, poderão constituir a solução definitiva.

Quanto à "lei moral objetiva", só os "fracos" precisam desta muleta; para ele , a simples decencia é o que basta para manter um homem livre de remorsos, principalmente se estiver reforçada pelo "amor à humanidade". Amor pela" humanidade" em abstrato, é claro, não por esses idiotas ignorantes da favela próxima, que não são capazes de lavar as mãos!

Na verdade, parece-me que nunca encontrei nenhum ateu autêntico; encontrei pessoas que diziam não aceditar em Deus ou no outro mundo. Via de regra, porém, essas pessoas afirmavam a sua descrença de maneira tão agressiva, e pareciam tão ansiosas por argumentar acerca dela, que se tinha a impressão de estarem continuamente lutando com sua própria consciência. Uma pessoa na qual a fé religiosa estivesse completa e autenticamente morta não daria um tostão furado pelos que os outros cressem ou deixassem de crer. Sempre penso que ainda há uma esperança para esses pretensos ateus que procuram a todo custo converter os outros a sua falta de fé; isto significa que se encontram divididos por dentro, pois onde há fumaça, há fogo; e mesmo que haja apenas um pouco de fumaça, quem sabe se algum dia esse braseiro quase extinto não receberá o sopro que faça brotarem novamente as chamas da fé?

Isto não significa que valha a pena discutir com um ateu.

Se este fosse capaz de argumentar lógicamente, não teria outro remédio senão admitir a validade das provas da existência de Deus. E essas provas existem - provas sólidas e convincentes para qualquer pessoa disposta a admitir as leis da evidência e a confiar na sua própria capacidade de raciocínio. Infelizmnte, porém, "não há pior cego do aquele que não quer ver". Com toda certeza, o ateu interromperá a nossa paciente explicação com um gesto de desprezo e um sorriso condescendente , enquanto fala da nossa "credulidade" e da nossa espantosa capacidade de auto-ilusão.

"Que é a verdade?", perguntará com ar de superioridade (como Pilatos...), e a seguir: "Para começar, como e´que você sabe que tem uma inteligência capaz de captar a realidade"? A seguir tentará esmagar-nos com uma rápida sequencia de golpes baixos, dirigidos contra pretensas dificuldades bíblicas"- "Como poderia uma baleia ter engolido Jonas? Todo o mundo sabe que a garganta de uma baleia é estreita demais para deixar passar um homem" - ou contra dogmas mal interpretados - "Como pode haver fogo no inferno? Afinal de contas, o fogo não é capaz de queimar um espírito" - ou qualquer coisa desse estilo. Argumentará contra tudo e contra todos, exceto contra a única questão realmente pertinente: Existe ou não um Deus diante do qual somos responsáveis? Ah, e o argumento que considero definitivo, com o qual pretende fazer-nos bater precipitadamente em retirada, não poderia ser senão este: "Mas, meu caro, você é tão medieval!!Parece ter nascido na Idade da Trevas!"...

Não, é inútil discutir com um ateu.

Muitos fariseus viram com os seus próprios olhos Cristo realizar milagres impressionantes, que demonstravam sua divindade para além de qualquer dúvida, e no entanto afastaram-se dizendo: Ele tem um demônio(cf. Lc 11, 14-20) Por isso se um ateu se empenha em "picar-nos" e em provocar-nos para um debate, a melhor resposta que poderemos dar-lhe será dizer: "Meu amigo, não discutirei com você, mas, isso sim, rezarei pela sua conversão".

Afinal de contas já está passando maus bocados com o esforço que tem de fazer para estrangular a sua consciência, para justificar a sua conduta diante de si próprio, a fim de que a sua vaidade tenha campo livre para inchar, Inchar e INCHAR. "Pois fique então com suas rezas", responder-nos-á abespinhado o nosso interlecutor, "e acenda essas sua velas idiotas a quem quizer, já que você continua querendo fazer o papel de tolo"; e assim só conseguirá demonstrar até que ponto ficou irritado por não lhe termos dado oportunidade de mostrar a sua esperteza.

Mas se nós efetivamente rezarmos por ele, e se fizermos penitência por ele, e lhe dermos provas de uma caridade semelhante a de Cristo, não tardará a chegar o dia em que o amor realizará aquilo que a discussão jamais teria podido conseguir.

Fonte: A sabedoria do Cristão - Quadrante

domingo, 12 de abril de 2009

O Homem é capaz de Deus - parte IV



Como falar de Deus?

39. Ao defender a capacidade da razão humana para conhecer Deus, a Igreja exprime a sua confiança na possibilidade de falar de Deus a todos os homens e com todos os homens. Esta convicção está na base do seu diálogo com as outras religiões, com a filosofia e as ciências, e também com os descrentes e os ateus.

40. Mas dado que o nosso conhecimento de Deus é limitado, a nossa linguagem, ao falar de Deus, também o é. Não podemos falar de Deus senão a partir das criaturas e segundo o nosso modo humano limitado de conhecer e de pensar.

41. Todas as criaturas são portadoras duma certa semelhança de Deus, muito especialmente o homem, criado à imagem e semelhança de Deus. As múltiplas perfeições das criaturas (a sua verdade, a sua bondade, a sua beleza) reflectem, pois, a perfeição infinita de Deus. Daí que possamos falar de Deus a partir das perfeições das suas criaturas: «porque a grandeza e a beleza das criaturas conduzem, por analogia, à contemplação do seu Autor» (Sb 13, 5).

42. Deus transcende toda a criatura. Devemos, portanto, purificar incessantemente a nossa linguagem no que ela tem de limitado, de ilusório, de imperfeito, para não confundir o Deus «inefável, incompreensível, invisível, impalpável» (15) com as nossas representações humanas. As nossas palavras humanas ficam sempre aquém do mistério de Deus.

43. Ao falar assim de Deus, a nossa linguagem exprime-se, evidentemente, de modo humano. Mas atinge realmente o próprio Deus, sem todavia poder exprimi-Lo na sua infinita simplicidade. Devemos lembrar-nos de que, «entre o Criador e a criatura, não é possível notar uma semelhança sem que a dissemelhança seja ainda maior» (16), e de que «não nos é possível apreender de Deus o que Ele é, senão apenas o que Ele não é, e como se situam os outros seres em relação a Ele»(17).

Cristo Ressuscitou! Aleluia!!



Regina Coeli

Rainha do céu, alegrai-Vos, aleluia.
Porque quem merecestes trazer em vosso seio, aleluia,
Ressuscitou como disse, aleluia.
Rogai a Deus por nós, aleluia.
Exultai e alegrai-Vos, ó Virgem Maria, aleluia.
Porque o Senhor ressuscitou verdadeiramente, aleluia.

Oremos.

Ó Deus, que Vos dignastes alegrar o mundo com a Ressurreição do Vosso Filho Jesus Cristo, Senhor Nosso, concedei-nos, Vos suplicamos, que por sua Mãe, a Virgem Maria, alcancemos as alegrias da vida eterna. Por Cristo Senhor Nosso. Amém.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

O Homem é capaz de Deus - parte III


O conhecimento de Deus segundo a Igreja

36. «A Santa Igreja, nossa Mãe, atesta e ensina que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido, com certeza, pela luz natural da razão humana, a partir das coisas criadas» (12). Sem esta capacidade, o homem não poderia acolher a revelação de Deus. O homem tem esta capacidade porque foi criado «à imagem de Deus» (Gn 1, 27).

37. Nas condições históricas em que se encontra, o homem experimenta, no entanto, muitas dificuldades para chegar ao conhecimento de Deus só com as luzes da razão:

«Com efeito, para falar com simplicidade, apesar de a razão humana poder verdadeiramente, pelas suas forças e luz naturais, chegar a um conhecimento verdadeiro e certo de um Deus pessoal, que protege e governa o mundo pela sua providência, bem como de uma lei natural inscrita pelo Criador nas nossas almas, há, contudo, bastantes obstáculos que impedem esta mesma razão de usar eficazmente e com fruto o seu poder natural, porque as verdades que dizem respeito a Deus e aos homens ultrapassam absolutamente a ordem das coisas sensíveis; e quando devem traduzir-se em actos e informar a vida, exigem que nos dêmos e renunciemos a nós próprios. O espírito humano, para adquirir semelhantes verdades, sofre dificuldade da parte dos sentidos e da imaginação, bem como dos maus desejos nascidos do pecado original. Daí deriva que, em tais matérias, os homens se persuadem facilmente da falsidade ou, pelo menos, da incerteza das coisas que não desejariam fossem verdadeiras» (Pio XII. Enc. Humani Generis: DS 387).

38. É por isso que o homem tem necessidade de ser esclarecido pela Revelação de Deus, não somente no que diz respeito ao que excede o seu entendimento, mas também sobre «as verdades religiosas e morais que, de si, não são inacessíveis à razão, para que possam ser, no estado actual do género humano, conhecidas por todos sem dificuldade, com uma certeza firme e sem mistura de erro» (14).

Resposta ao Bruno

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Bruno, a paz!

Você pergunta aqui no meu blog, se fui quem respondeu a pergunta do leitor no VS sobre meu artigo: Cruz e Eucaristia, amor ao extremo.

Sim, Fábio, fui eu quem respondi. Utilizei como fonte: o Catecismo Romano, a Bíblia de Navarra e sobre o Padre Emanuel, utilizei uma parte de um texto de um irmão em Cristo, além de um pequeno texto de santo Agostinho.

A resposta está aqui:

http://www.veritatis.com.br/article/5674/leitor-fabio-faz-pergunta-sobre-artigo-da-ana-maria-bueno

Fique com Deus

Ana

Meditação sobre Cristo Crucificado por nós





Nesta Sexta-Feira Santa contemplamos Jesus Crucificado. Diversas perguntas poderiam aflorar em nossa mente num dia tão significativo como hoje.

Eu me perguntava: porque será que, eu e muitos outros, não nos comovemos profundamente diante de Jesus Crucificado?

Porque será que tantos cristãos e católicos buscam tantas outras diversões neste dia? Porque será que nunca fomos capazes

de derramar uma lágrima sequer diante de Cristo morto?

Confesso mais uma vez que esta interrogação me perseguiu durante estes últimos dias da Quaresma, e é a resposta para mim
mesmo que compartilho com vocês: nós não sabemos aquilatar o mistério da nossa salvação,não sabemos aquilatar neste mundo o que o pecado realiza em cada um de nós,não sabemos aquilatar a tragédia de um descompasso ou de um afastamento de Deus.

Nós não sabemos a gravidade do mal, também, posso continuar a dizer, que nós desconhecemos aquilo que perdemos, como também desconhecemos aquilo para o qual Jesus nos salvou exatamente com Sua Paixão, Morte e Ressurreição - em outras palavras, queremos confessar diante do Crucificado, nesta Sexta_Feira Santa, a nossa superficialidade, nossa incapacidade de adentrar no mistério de nossa própria Redenção. Não sabemos o que é um pecado, um afastamento de Deus, um inferno, não sabemos também o que é uma Vida Eterna para a qual fomos comprados e resgatados graças a Seu Sangue hoje derramado.

Porém conscientes de nossa fragilidade, superficialidade, nós poderíamos, ao menos hoje, deixar de lado tudo o mais, todas as outras preocupações, e quem sab ,hoje apenas, passar um bom tempo silenciosamente diante do Crucificado, tentando repetir,cada um para si o que S. Paulo escrevia na carta aos Gálatas : "Ele me amou e se entregou por mim"

Quem sabe, a custa de tanto repetir esta jaculatória diante de Cristo Crucificado, Deus nos concederá a graça de aquilatarmos o valor da Redenção de Jesus, a graça de aquilatarmos o estrago que fez em nós o pecado, e a Vida Eterna para a qual fomos salvos.

Pe. Fernando Cardoso

quarta-feira, 8 de abril de 2009

O Homem é capaz de Deus - parte II


Os caminhos de acesso ao conhecimento de Deus

31. Criado à imagem de Deus, chamado a conhecer e a amar a Deus, o homem que procura Deus descobre certos «caminhos» de acesso ao conhecimento de Deus. Também se lhes chama «provas da existência de Deus» – não no sentido das provas que as ciências naturais indagam mas no de «argumentos convergentes e convincentes» que permitem chegar a verdadeiras certezas.

Estes «caminhos» para atingir Deus têm como ponto de partida criação: o mundo material e a pessoa humana.

32. O mundo: A partir do movimento e do devir, da contingência, da ordem e da beleza do mundo, pode chegar-se ao conhecimento de Deu: como origem e fim do universo.

São Paulo afirma a respeito dos pagãos: «O que se pode conhecer de Deus manifesto para eles, porque Deus lho manifestou. Desde a criação do mundo, a perfeições invisíveis de Deus, o seu poder eterno e a sua divindade tornam-se pelas suas obras, visíveis à inteligência» (Rm 1, 19-20) (8).

E Santo Agostinho: «Interroga a beleza da terra, interroga a beleza do mar interroga a beleza do ar que se dilata e difunde, interroga a beleza do céu [...] interroga todas estas realidades. Todas te respondem: Estás a ver como somo belas. A beleza delas é o seu testemunho de louvor [«confessio»]. Essas belezas sujeitas à mudança, quem as fez senão o Belo [«Ptdcher»], que não está sujeite à mudança?» ( Santo Agostinho, Sermão 241. 2: PL 38, 1134.).

33. O homem: Com a sua abertura à verdade e à beleza, com o seu sentido do bem moral, com a sua liberdade e a voz da sua consciência, com a sua ânsia de infinito e de felicidade, o homem interroga-se sobre a existência de Deus. Nestas aberturas, ele detecta sinais da sua alma espiritual. «Gérmen de eternidade que traz em si mesmo, irredutível à simples matéria» (10), a sua alma só em Deus pode ter origem.

34. O mundo e o homem atestam que não têm em si mesmos, nem o seu primeiro princípio, nem o seu fim último, mas que participam do Ser-em-si, sem princípio nem fim. Assim, por estes diversos «caminhos», o homem pode ter acesso ao conhecimento da existência duma realidade que é a causa primeira e o fim último de tudo, «e a que todos chamam Deus» (São Tomás de Aquino, Summa theologiae I. q. 2, a. 3, e: Ed. Leon. 4, 31.).

35. As faculdades do homem tornam-no capaz de conhecer a existência de um Deus pessoal. Mas, para que o homem possa entrar na sua intimidade, Deus quis revelar-Se ao homem e dar-lhe a graça de poder receber com fé esta revelação. Todavia, as provas da existência de Deus podem dispor para a fé e ajudar a perceber que a fé não se opõe à razão humana.