segunda-feira, 1 de junho de 2009

Régulo em Cartago – Um jovem de Caráter!


Cartago devia enviar uma embaixada a Roma a pedir paz. Um prisioneiro de guerra romano, de nome Régulo, foi encarregado de a conduzir, mas teve de jurar, antes de partir, que, se a sua missão viesse a falhar, ele voltaria ao cativeiro...

Imaginai a sua comoção ao encontrar-se de novo em Roma, a sua amada cidade! Ele poderia ficar lá, se negociassem a paz.

Mas quereis saber o que fez?

Com toda sua eloquência convenceu o senado a continuar com a guerra, e, quando quiseram persuadi-lo a ficar em Roma dizendo-lhe que um juramento feito sob coação não podia obrigar, ele respondeu:

Quereis então a todo o custo que manche a minha honra, faltando à palavra dada? Eu sei bem que as torturas e a morte me esperam quando voltar a Cartago. Mas tudo isso é nada, comparado a vergonha resultante de uma ação desonesta e com as feridas que a alma recebe desse pecado. É verdade que serei prisioneiro de Cartaginenses, mas, pelo menos, conservarei o meu caráter de Romano em toda sua pureza. Jurei voltar para Cartago; cumprirei o meu dever até ao fim. O resto confiai-o aos deuses”

Quem dera os jovens desta época buscassem ter caráter, mais que qualquer coisa.Tomara Deus que tivessem sua vontade orientada sempre para o bem, que tivessem antes de tudo, princípios nobres, não se afastando deles, em nenhuma hipótese.

Fonte: O Jovem de Carater - Tihamer Totth - Quadrante

domingo, 31 de maio de 2009

O Espírito Santo e meu Pentecostes individual




Estou no meio do mundo para me fazer santa; e para isso O Espírito Santo tem como missão me assistir exteriormente, mas pelo Batismo, veio também habitar “em mim”. Minha vocação é portanto, uma vocação para a intimidade. Não só não posso trai-LO, mas sou chamada a viver das minhas riquezas divinas. Sim, minhas, porque me foram dadas pelo Pai das luzes, que me chama a ser santa e a viver como filha amada que sou, me tornando tal como Ele é, perfeita para toda boa obra e para a adoração incondicional a Ele.

Portanto, minha vida de batizada consiste em: Assegurar o estado de graça e explora-la ao máximo.

1 – Assegurar o estado de graça em si mesmo - fugir de pecado e toda ocasião de o encontra-lo. Sei que todos os dias travarei uma guerra entre a “carne”e o “espírito”, para fazer vencer o homem novo renascido em Cristo. O que o Espírito Santo realiza, a partir do momento que veio habitar em mim, é predominar as potências espirituais, a vontade racional esclarecida e ajudada pela fé. Se permaneço fiel, na terra, esta vida florescerá no Céu – “Se o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus dos mortos, habita em vós, Ele, que ressuscitou à Jesus, também fará reviver os nossos corpos mortais graças ao seu Espirito que habita em vós”.

Ele me dá a cada dia, forças para lutar e me conduz à libertação quando me ajuda a sacudir o que me arrastaria ao mal. Para tanto, é preciso que eu viva com prudência para prevenir qualquer ataque, seja do mundo, da carne ou do demônio, que me quer aliciar e matar para Deus. O divino Espirito me adestra para a guerra a fim de poder repeli-los.

Nesta luta caminharei e a vida em estado de graça deve ser minha meta, para que eu não seja surpreendida pela morte em estado de pecado, com todas as suas consequências. Esta vida em estado de graça é que me fará “merecer”estar diante de Deus. Com ela, meu labor, minhas dores, minhas renúncias, minhas provações, terão repercussão no céu e me fará ajuntar um tijolinho para ele.

2 – Explora-la ao máximo, com os auxílios de Deus e minha vontade racional bem formada pela doutrina e pela graça. Para explora-la, devo entender que não se trata só de uma parte negativa: não ter pecados mortais na consciência, mas também de alguma coisa muitíssimo positiva: a presença de uma Hóspede ilustre e santo em mim – doce hóspode da alma. Se Ele é aquele que guia, santifica e que habita no Batizado, deve ser então “nosso” Mestre e nosso guia. – “É pela “intimidade”da Sua união com Ele que medem os seus progressos de santidade” - (La Divinisation du Chrétien – Pe. P. Ramiére, pag. 218)
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Devemos observar, como nos explica São Leão XIII na sua Encíclica sobre o Espírito Santo – Divinum illud munus -, que dizer que o Espírito habita em nós em estado de graca, não significa que venha só, mas é toda santíssima Trindade que vem agir em nós.
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O que temos que entender é que a vida da graça deve ser contínua, já que se trata de intimidade e este hóspede habita e convive conosco. Jesus nos alertava sobre esta presença santa que deve ser cultivada com toda solicitude e amor, se alguém vive em estado de graça, “meu Pai o amará, e nós viremos a ele, e faremos nele a nossa morada”(São João, XIV, 23).
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Ora, não haveremos nós de deixarmos limpo este aposento para tão ilustre hóspede, não preparemos nós a morada de nosso coração para Deus, tirando dele toda imundície das más obras?
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Devemos procurar o Senhor não somente no tempo da compunção, mas também no tempo da tentação e muito mais neste, já que é exatamente nele que poderemos perder o santo dentro de nós. Para isso, é exigido decisão de mudança e de perseverança. Temos que estar dispostos a evitar e rejeitar “tudo”, para não perder o estado de graça. Mas será que eu humana e fraca, tenho forças suficientes, já que se trata de uma luta extremamente necessária e vital?
Não. Devo esperar no meu Batismo a minha intimidade com Deus. Se amamos a Deus e se na docilidade O procuramos, Ele jamais nos abandonará, Ele jamais nos deixará sem os auxílios necessários. Se permanecermos fieis, podemos e devemos procurar n'Ele o nosso descanso, que é a doce alegria de não estar só, mas que temos alguém que nos auxilia na luta, pois o combate só acaba quando chega nosso fim que pode e deve ser maravilhoso, pois estaremos na posse do Amado. Muito nos ajuda também, todos os dias, sermos dóceis como Maria Santíssima e dizer: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim, segundo a Tua palavra.”


Oração:

Senhor, se algum dia eu tiver a desgraça de destruir com uma falta grave, a graça na minha alma – as surpresas são sempre possíveis, não obstante dever contar com grande confiança no auxílio de Deus para ser constantemente fiel – recorrerei logo ao Sacramento do perdão. A confissão, que costuma certamente agir em mim como sacramento de vivos, se tenho a felicidade de viver habitualmente em estado de graça, atuaria então segundo a sua força constitutiva original e como sacramento que tem por fim primordial fazer passar a alma da morte à vida. Não me preserveis somente das quedas graves; fazei que não haja nada em mim que Vos desgoste e siga à risca o conselho de São Paulo: “Não contristeis o Espírito Santo”. Fazeis mais ainda! Fazei que, segundo outra palavra de São Paulo, eu viva “conforme o Espirito” que, penetrado cada vez mais da Vossa presença em mim, eu cresça todos os dias em intimidade convosco” (Pe. Raul Plus – Em União com o Espirito Santo – Quadrante)
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Vem Espírito Santo, toma-me!

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Emitte Spiritum tuum et creabuntur, «Enviai o vosso Espírito e tudo será criado"




Quando, no reinado de Sixto III (432-440), quiseram embelezar o batistério de latrão, mandado construir por Constantino para o seu batismo, colocaram sobre a cimalha octogonal das colunas, uma inscrição latina, cujas estrofes podem prestar-se para uma meditação fecunda. Trancrevo alguns:

"Aqui nascem de uma sublime aliança aqueles que estão destinados a possuir o Céu. Nascem do seio das águas fecundadas pelo Espírito Santo de Deus. Ó pecador, tu que queres purificar-te do teu pecado, mergulha-te nestas águas sagradas. Entrarás nelas com as enfermidades do velho homem e delas sairás renovado. A Igreja faz nascer do meio das ondas os que aqui vêm e que ela, sua Mãe, concebeu sob a ação do Espírito divino. Ó nascimento virginal! Vós todos que renasceis destas águas, tendes direito ao Reino dos Céus ... Não há divisão entre os que renascem aqui; todos fazem um só, porque têm uma só e mesma fonte, um só Espírito, uma só fé ».

Fonte: Em União com o Espírito Santo - Pe. Raul Plus - Quadrante - pag.19.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Filhos são Bençãos



Filhos. Que eles são bençãos eu sei, as Sagradas Escrituras nos mostram como tal, e vivo esta benção em meu lar, já que o Senhor me deu dois filhos maravilhosos e que só fazem minha vida e a do meu esposo ter sentido. Somos uma família que se ama, que se ajuda e que quer caminhar neste mundo buscando corretamente o caminho santo de estar e viver em Deus e para Deus.

Muitos casais não se realizam dentro do matrimônio, por buscar a felicidade – porque no fundo é isso que todos buscamos – onde ela não está, e quando dão demasiada importância a coisas que não são prioridades, e por isso muitas vezes se frustram na caminhada. Infelizmente, quantos de nós pouca ou nenhuma formação tivemos antes de nosso matrimônio, este que constitui uma linda vocação e que precisa de preparo para vive-lo bem diante de Deus. Para formar um padre leva-se anos, para formar um casal, leva-se dois, três encontros? Muitos casais erram, deixam de ter a plenitude da felicidade, por simples desconhecimento do que Deus propôs a eles.

É possível excluir de nossas vidas algo que é natural, que é um grande bem, que traz felicidade, porque fomos ensinados, que é mal, aquilo que na realidade é um bem? Sim, digo que sim. Tudo porque temos tido professores ruins: o mundo, a Tv, as revistas, os maus livros e ainda as pessoas mal formadas. São tantas fontes falsas, com tamanho poder de persuasão, que soa aos nossos ouvidos, como se falassem a verdade. O que acontece é que aquele velho ditado: água mole em pedra dura, tanto bate até que fura - continua valendo, sobretudo em relação ao matrimônio.

Toda pessoa que se casa, deve pelo menos ter ouvido que a fidelidade, a indissolubilidade e os filhos fazem parte, ou, são os bens que envolvem este sacramento. Sim, são bens e eles devem ser aceitos pelos cônjuges para que seja lícito este casamento. Portanto, diante de Deus, prometeram ser fieis em todas as circunstâncias, que seriam fieis até o fim - (e não eterno enquanto dure - frase infeliz esta...) -, e que precisam aceitar os filhos que o Senhor mandar. Perfeito! Acontece que muitos ou se esquecem deste juramento ou acham que a responsabilidade é grande demais. Mas pergunto eu: que bem neste mundo não envolve responsabilidade e obrigações? Você já viu alguém rejeitar uma casa, pelo fato de que tem que pagar o IPTU, agua, luz, mante-la limpa e conservada? Pois então, é um bem que todos queremos e lutamos para ter, mesmo com as obrigações.

Então porque se foge dos três bens do matrimônio quando se pensa nas obrigações que eles implicam, se são exatamente eles que trarão a felicidade e a boa convivência, que tanto desejamos enquanto namorávamos e noivávamos?

Nascemos para a amar e ser correspondidos no amor. Temos esta vida para aprendermos a amar a Deus e aos homens. Somente seremos plenamente felizes se tudo fizermos para termos estes bens e se preciso for sofrermos para consegui-los. Se fizermos uma analise dentro de nós, descobriremos que é isto que buscamos, uma família unida, amorosa, fiel, com esposos que crescem a cada dia no respeito, na confiança, na entrega de si mesmo, no caráter e na dignidade. Sermos capazes de amar e servir é tudo que nos fará felizes, e sendo felizes, faremos os outros felizes, e como famílias felizes e ajustadas no amor, teremos filhos felizes e uma sociedade feliz. Utopia? Não! desejo de Deus para nós, quando nos derrama as graças sacramentais, pois são elas que nos dão forças e sabedoria para buscar este amor e esta família tal a família de Nazaré. ”A graça deste sacramento destina-se a aperfeiçoar o amor dos conjuges e a fortalecer a sua unidade indissolúvel ”(Lg 11).

O que os casais devem reaprender hoje é que precisam desejar a fidelidade, tanto entre eles como para com os filhos. E os pais precisam viver assim e ensinar aos filhos para que uma nova geração possa nascer.

Muitos não querem mais filhos para não privarem o que já tem de coisas consideradas boas para ele, sendo que uma família com mais filhos, se for regida no amor, na partilha, no respeito, só tende a ser uma familia maravilhosa, onde ninguém é peso para ninguém, muito pelo contrário, a união gerada entre os membros, diminui a carga de todos.

O Papa João Paulo em sua homilia de II de 7 de outubro de 1979 disse: “É sem dúvida menos grave negar aos filhos determinadas vantagens materias e comodidades do que priva-los da presença dos irmãos, que poderiam ajuda-los a crescer em humanidade e a compreender a beleza da vida em todas as suas idades e em toda a sua variedade"

Vocês já ouviram dizer que quando Deus manda um bebê, manda um cheque junto com ele? Pois é fato que sempre conseguiremos cuidar de nossos filhos dignamente, se de fato, acreditamos que Deus cuida de nós e não nos desampara nunca. E Ele não desampara!

O padre Cormac Burke, em seu livro” Amor e casamento”, nos conta que em suas viagens sempre ouve coisas interessantes , um dia ouviu de um queniano, quando este soube que no ocidente a porcentagem de filhos é de 1,2 por família: - “Os casais do ocidente devem ser muito pobres, se não tem condições de criar mais de 2 filhos…”, o Padre diz que conhece uma família Africana com 18 filhos e nenhum carro e uma americana com 18 carros e nenhum filho, ele diz não ter dúvida que a família africana é somente 18 vezes mais feliz que a americana.

Infelizmente estamos sendo enganados pela mentalidade do ter, do prazer egoísta, da vaidade, e em consequência está se criando uma geração de pessoas solitárias, vazias, que não veem sentido na vida, simplesmente pelo fato de que não aprenderam a dividir, a se relacionar, e em ultimo caso, a amar.

Nasceu em nossa sociedade uma"mentalidade contraceptiva", onde passamos a acreditar que temos que ter poucos filhos, que a vida está dificil, que não temos temos para a família. Participamos de uma concorrência cruel, competição em todos os campos. Somos muitos individualistas e se formos honestos suficientes, muitos não querer doar-se, gastar a vida para gerar outros. Esta ideologia social de pseudoliberdade leva o indivíduo a agir sobretudo segundo os seus próprios prazeres, os seus interesses e a sua utilidade. O compromisso assumido em relação ao cônjuge adquire uma conotação de simples contrato que pode ser revisto de modo indefinido; a palavra dada só tem um valor limitado no tempo; não se responde pelos atos pessoais,

O que não se percebeu ainda é que estão se privando de um bem magnífico quando fala em limitar o número de filhos. É certo que existe casais que por razões de saúde, econômicas, precisam recorrer a um planejamento natural e muitas vezes o fazem com pesar. O que acontece, é que muitos se privam deste bem, achando que estão fazendo bem a si mesmos.

Desde quando bens materiais trazem felicidade? eles definitivamente não mantem um casal unido, os filhos sim, se forem gerados no amor e para o amor. Quando os temos, nos unimos por eles, trabalhamos para eles, queremos que façam parte das conversas e resoluções conosco. Ao envelhecermos não estaremos sós, pois nossos filhos nos ajudarão, serão nossas alegrias e nos darão, com certeza, o maravilhoso sentimento do dever cumprido.

Não precisamos de auto-afirmação, precisamos de auto perpetuação, para isso Deus nos criou. Queiramos os filhos que Ele quer que tenhamos, para sermos de fato, felizes nesta vida e na outra. Existe um único mandamento de Deus que vem acompanhado de uma promessa de benção, para aqueles que o cumprem, - este foi feito aos filhos. Honrar os pais significa, portanto ama-los e obedecer-lhes como é devido, provendo ao seu cuidado todo tipo de ajudas espirituais e materiais, quando a idade e situação assim o requeiram.

«Visto que os pais deram a vida aos filhos, têm a gravÍssima obrigação de educar a prole, e, portanto, há que reconhecê~los como os primeiros e principais educadores dos seus filhos. Este dever da educação familiar é de tanta transcendência, que, quando falta, dificilmente pode suprido. É, pois, dever dos pais criar um ambiente de família animado pelo amor, pela piedade para com Deus e para com os homens, que favoreça a educação Íntegra, pessoal e social dos filhos ( .. ). Na família cristã, enriquecida com a graça e os deveres do sacramento do matrimónio, importa que os filhos aprendam desde os primeiros anos a conhecer e adorar a Deus e a amar ao próximo segundo a fé recebida no Baptismo ( .. ). Por meio da família, enfIm, introduzem-se (os filhos) na sociedade civil e no Povo de Deus. Considerem, pois, os pais a importância que tem a família verdadeiramente cristã para a vida e o progresso do mesmo Povo de Deus» (Gravissimum educationis, n. 3).

A família recebe, portanto, imediatamente do Criador a missão e, por isto mesmo, o direito de educar a prole; direito ao qual não pode renunciar por estar inseparavelmente unido a uma gravíssima obrigação; direito que é anterior a qualquer outro direito da sociedade e do Estado e que, por isso mesmo, não pode ser violado por nenhum poder terreno.

"O Doutor Angélico expressa assim a inviolabilidade deste direito: 'O filho é naturalmente algo do pai (. .. ); por isso, é de direiro natural que o filho, antes do uso da razão, esteja sob o cuidado do pai. Seria portanto contrário à justiça natural que a criança, antes do uso da razão, fosse subtraída ao cuidado dos pais, ou se dispusesse dela, de qualquer maneira, contra a vontade dos pais' (Suma Teológica, lI-lI, q.lO, a.12).

E como a obrigação dos pais continua até que a prole esteja em condições de se prover a si mesma, perdura também o mesmo inviolável direito educativo. 'Porque a natureza - ensina o Angélico -, não pretende somente a geração da prole, mas também o seu desenvolvimento e progresso até ao perfeito estado do homem enquanto homem, isto é, o estado de virtude'
(Suma Teológica, UI, Suplemento, q.41, a.1)>> (Divini illius Magistri, nn. 16-17).

"Os pais não devem mandar despoticamente, nem os filhos obedecer quando o mandato seja contrário à lei moral. Os pais, portanto, não podem exigir mais do que o razoável. Assim o adverte o Apóstolo: "Nao exaspereis os vossos filhos» (v. 4). A educação cristã há-de basear-se, pois, na caridade, no carinho e no respeito delicado dos pais pela liberdade dos filhos. "OS pais são os pnncipais educadores dos seus filhos, tanto no aspecto humano como no sobrenatural, e hão-de sentir a responsabilidade dessa missão, que exige deles compreensão, prudência, saber ensinar e, sobretudo, saber amar; e que se preocupem por dar bom exemplo. A imposição autoritária e violenta não é caminho acertado para a educação. O ideal dos pais concretiza-se antes em tornarem-se amigos dos filhos: amigos a quem se confiam as inquietações, a quem se consulta nos problemas, de quem se espera uma ajuda eficaz e amável» (Cristo que passa, n. 27)

Senhor, fazei-nos bons pais e bons filhos, para tua glória e para nosso bem! Amém.

terça-feira, 26 de maio de 2009

A dignidade do Padre - Parte III


Por Santo Afonso de Ligório

V. O alto posto ocupado pelo padre

A excelência da dignidade sacerdotal mede-se também pelo alto posto que o padre ocupa. No sínodo de Chartres, celebrado em 1550, é chamado “a morada dos santos”. Dá-se aos padres o título de vigários de Jesus Cristo, e assim os chama Sto. Agostinho, porque fazem as suas vezes na terra.

Tal é também a linguagem empregada por S. Carlos Borromeu no sínodo de Milão: Somos nós os embaixadores de Jesus Cristo; é Deus quem pela nossa boca vos exorta. Foi o que o próprio Apóstolo declarou. Subindo ao Céu, o divino Redentor deixou os sacerdotes para serem na terra os mediadores entre Deus e os homens, particularmente ao altar, como diz S. Lourenço Justiniano: "Deve o padre aproximar-se do altar como o próprio Jesus Cristo”.

S. Cipriano diz: “O padre ocupa verdadeiramente o lugar e desempenha o ofício do Salvador; e S. Crisóstomo: Quando virdes o sacerdote a oferecer o sacrifício, vêde a mão de Jesus Cristo estendida dum modo invisível”.

Ocupa também o padre o lugar do Salvador, quando remite os pecados, dizendo: Ego te absolvo. O grande poder que o Padre eterno deu ao seu divino Filho, comunica-o Jesus Cristo aos padres, De suo vestiens sacerdotes, segundo a expressão de Tertualiano.

Para perdoar um pecado, é necessário o poder do Altíssimo, como a Igreja o faz ouvir nas suas orações.

Tinham, pois, razão os judeus, quando, ao verem que Jesus Cristo perdoava os pecados ao paralítico, disseram: “Quem senão Deus pode perdoar os pecados?” Mas esta graça que só Deus pode fazer pela sua onipotência, o padre a pode também dispensar por estas palavras: Ego te absolvo a peccatis tuis; porque a forma, ou, se o quiserem, as palavras da forma, pronunciadas pelo padre nos sacramentos, operam imediatamente o que significam.

Qual seria o nosso espanto, se víssemos um homem que, mediante algumas palavras, tivesse a virtude de tornar branca a pele dum negro! O padre faz mais, quando diz: Eu te absolvo, — porque no mesmo instante demuda em amigo um inimigo de Deus, e um escravo do inferno num herdeiro do Céu.

O cardeal Hugues põe na boca do Senhor estas palavras, que representa dirigidas a um sacerdote ao absolver um pecador: Eu fiz o céu e a terra, mas dou-te o poder para fazeres uma criação mais nobre e melhor: duma alma manchada pelo pecado, faze uma alma nova (Faze uma alma nova, quer dizer, faze que uma alma pecadora e escrava de Lúcifer se torne minha filha). Mandei à terra que produza os seus frutos; dou-te um poder melhor, o de produzires frutos nas almas.Privada da graça é a alma como uma árvore seca, que não pode produzir nenhum fruto; mas, recobrando a graça pelo ministério do padre, produz frutos de vida eterna.

Santo Agostinho ajunta que a justificação dum pecador é uma obra maior que a de criar o céu e a terra. O Senhor diz a Jó: Tendes vós um braço como o de Deus, e uma voz trovejante como a sua? Ora, quem é que tem um braço semelhante ao de Deus e como Deus faz trovejar a sua voz? É o padre que, dando a absolvição, se serve do braço e da voz do próprio Deus, para livrar do inferno as almas.

Lemos em Sto. Ambrósio que o padre, quando absolve, opera o mesmo que faz o Espírito Santo, quando justifica as almas. Eis por que o divino Redentor, ao conferir aos padres o poder de absolver, lhes deu o seu Espírito: Soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo: aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, e a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos. Deu-lhes o seu Espírito que santifica as almas, e estabeleceu-os cooperadores seus, conforme a expressão do Apóstolo.

E S. Gregório ajunta: “Receberam o poder judicial supremo, para em nome de Deus, remirem ou reterem os pecados aos outros”. Razão tem pois S. Clemente de chamar ao padre um Deus na terra. Davi disse: Veio Deus à assembléia dos deuses.Segundo a explicação de Sto. Agostinho, os deuses de que fala são os sacerdotes. E eis o que diz Inocêncio III: “Os padres se chamam deuses, por causa da dignidade do seu ofício”.

VI. Conclusão

Mas, que horror ver, numa mesma pessoa, uma dignidade sublime e uma vida vergonhosa, uma profissão divina e obras de iniqüidade! Para longe de nós esta desordem, exclama Sto. Ambrósio; que as nossas obras estejam de acordo com o nosso nome! O que é uma alta dignidade num indigno, senão uma pérola caída na lama, pergunta Salviano?

O Apóstolo nos adverte que ninguém deve ser tão audacioso que se eleve ao sacerdócio, sem a vocação divina de Aarão, pois que nem Jesus Cristo se quis arrogar a honra do sacerdócio, mas esperou que seu Pai o chamasse a essa dignidade.

sábado, 23 de maio de 2009

Eu Sou o Senhor Teu Deus




"Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da mansão do cativeiro".(Ex 20,20)

Deus Criou todas as coisas e o fez de uma forma perfeita; em virtude de Sua onipotência, amor expontâneo e infinita sabedoria, criou do nada o próprio céu, a terra, e tudo que nela contém; «Vós amais tudo quanto existe e não tendes aversão a coisa alguma que fizestes: se tivésseis detestado alguma criatura, não a teríeis formado. Como poderia manter-se qualquer coisa, se Vós não quisésseis? Como é que ela poderia durar, se não a tivésseis chamado à existência? Poupais tudo, porque tudo é vosso, ó Senhor, que amais a vida» (Sb 11, 24-26).

Deus sustenta e governa todas as coisas criadas; dentre elas, nos criou e nos fez à Sua imagem e semelhança; nos deu a vida e a conserva, portanto, tem todo direito também de ser nosso Legislador. O primeiro mandamento nos leva a reconhecer esta primazia de Deus sobre todas as coisas e sobre nós, suas criaturas, e entender isso só nos chama a ama-Lo, a sermos dóceis, - para respeitar suas leis que nos governam e que nos levam à felicidade, - e sermos fiéis e fortes, para rejeitar o pecado que pode nos condenar.

O Senhor quando no Exodo fala do cativeiro, - se aplicarmos ao sentido amplo de salvação, - compreenderemos que fala também a nós, que fomos arrancados das trevas e trazidos para Sua luz admirável, para o Reino de Seu amado Filho. Por Sua mediação, o Pai por misericórdia, uniu todos os homens dispersos para que não fossem mais escravos do pecado, mas que O servissem em santidade e justiça todos os dias de suas vidas.

Assim, temos que lutar para viver a vida da graça, que o Senhor nos oferece e que de hora em diante, não pertecemos mais a nós mesmos, mas Àquele que por nós morreu e ressuscitou. É a Cristo que pertencemos, pois Ele nos resgatou a preço de Seu sangue, quando morreu na Cruz. Hoje somos livres para vive-la, em Cristo e por Cristo e já não somos mais devedores da carne, mas devemos viver agora a serviço da justiça para nossa santificação.


“Não terás deuses estranhos diante de Mim”


Quando analisamos o decálogo, vemos claramente que os deveres para com Deus tem a primazia, e depois vemos os deveres para com o próximo, exatamente porque só amamos ao próximo na medida que amamos a Deus. Quando o Senhor dá este preceito de não termos outros deuses diante dEle, nos chama também a só a Ele adorar, pois somente Ele é o Deus verdadeiro e supremo. Único, imortal e Santo. Portanto, só a Ele devemos prestar culto de adoração.

Se Deus é imutável, eterno, único, soberano e poderoso, devemos acreditar também que é e sempre será fiel, sem a menor sombra de injustiça. Portanto acreditar nEle, em Sua palavra e na Sua autoridade, é consequência lógica desta premissa. Ora, a prova de Seu amor incondicional, de sua liberalidade, de Seu poder e Sua clemência, está no fato de ter enviado Seu filho quando O haviamos desobedecido frontalmente e de uma forma brutal, desobedecido a Ele que só demonstrou amor ao nos criar à Sua imagem e semelhança, quando deixou o mundo a nosso dispor e Seus bens magnificos. Porque tem todo poder, nas Sagradas Escrituras, quando Deus intima Suas ordens e prescrições, costuma dizer, para que se tenha certeza de que foi Ele quem o disse: “Eu Sou o Senhor, teu Deus”

Este Preceito é o primeiro e o maior de todos, não só pela ordem cronológica, mas também por sua natureza, dignidade e excelência. De nossa parte merece Deus amor e vassalagem num grau infinitamente maior, do que mereceria qualquer senhor ou rei. Foi Ele quem nos criou, Ele é quem nos governa, quem nos nutre desde as entranhas de nossa mãe, e quem dali nos tirou à luz do mundo. Ele que nos dá tudo quanto precisamos para a nossa vida e subsistência.

Nós que por amor e fé em Cristo levamos o nome de cristãos, não podemos ignorar os imensos benefícios de que Ele nos cumulou devido à Sua máxima bondade com que, pela luz da fé, nos fez conhecer todos estes mistérios. Sim, o Senhor não nos deixou na ignorância, além de nos ter cumulado de muitos bens. De criaturas, passamos a filhos, em Cristo Jesus. Convém, pois, e força é repeti-lo, que nós - com maior obrigação que os outros mortais - para sempre façamos entrega e consagração de nós mesmos a Nosso Senhor e Redentor, na qualidade de escravos totalmente Seus. À Santíssima Trindade, portanrto, toda nossa entrega e adoração.


O que Deus nos proíbe?


A idolatria: Se Deus é único, porque teve Ele que nos ditar esta regra? Porque os homens, alguns deles, ao mesmo tempo que faziam procissões para O adora-lo, também veneravam uma multidão de deuses (que lógicamente foram inventados, já que não existe outros deuses, pois há um só, o nosso Senhor, onipotente e santo). Muitos homens de Seu povo se contaminaram com os deuses dos pagãos, quando se deparavam em sua terras. Ao invés de lhes ensinar que havia um único e verdadeiro Deus, pela sua cegueira e desobediência, aderiam às suas práticas abomináveis, numa clara afronta a autoridade de Deus. Cegos e sem memória eram eles. Se esqueciam rapidamente da libertação que o Senhor havia operado em suas vidas – não muito diferente de hoje .



Todos aqueles que não têm fé, nem esperança, nem caridade, pecam contra este Preceito. A essa classe de homens pertencem os que caem em heresia, não crendo nas verdades que a Santa Mãe Igreja propõe a crer; os que acreditam em sonhos, agouros, e coisas sumamente supersticiosas; os que desesperam de sua própria salvação, e não confiam na bondade divina; os que se apóiam somente em riquezas, saúde, vigor corporal. (Catecismo Romano, II, b -7)

Este mandamento, apesar de falar do lugar merecido por Deus, nos permite o culto dos Anjos e Santos. Sim, podemos e devemos venerá-los e até invoca-los que em nada contraria ou diminui nossa adoração Àquele que é e sempre será.

É fora de toda a dúvida que não há mais que um só Deus e um Mediador necessário, Jesus Cristo: «Unus enim Deus, unus, et Mediator cominum, homo Christus Iesus» Mas aprove à Sabedoria e Bondade divina dar-nos protetores, intercessores e modelos, que estejam, ou ao menos pareçam estar mais perto de nós: são os Santos que, tendo reproduzido em si mesmos as perfeições divinas e as virtudes de Nosso Senhor, fazem parte do Seu corpo místico e se interessam por nós, que somos seus irmãos. Os Santos rezam, assiduamente, pela salvação dos homens (Ap 5,8), e que Deus nos outorga muitos benefícios, em consideração ao seu mérito e caridade. Se "no céu reina alegria, quando um só pecador faz penitência" , será possível que os moradores do céu não socorram os penitentes na terra? Se os invocarmos, não nos alcançarão o perdão dos pecados, e não nos garantirão a graça de Deus? Ao honrá-los. honramos o próprio Deus neles, que são reflexo das suas perfeições, invocá-los é, em última análise, dirigir a Deus as nossas invocações, pois que pedimos aos Santos sejam nossos intercessores perante o Altíssimo; imitar as suas virtudes, é imitar a Jesus Cristo, já que eles mesmos não foram santos senão na medida em que produziram as virtudes do divino Modelo. Esta devoção aos Santos, longe de prejudicar o culto de Deus e do Verbo Encarnado, não faz, pois, senão confirmá-lo e completá-lo.”(TANQUEREY, Adolph: A Vida Espiritual Explicada e Comentada. Anápolis: Aliança Missionária Eucarística Mariana, 2007.)

Daqui também se pode tirar outra conclusão. O culto e a invocação dos Santos que adormeceram na paz do Senhor, a veneração de suas relíquias e cinzas, longe de diminuírem a glória de Deus, dão-lhe o maior vulto possível, na proporção que animam e reforçam a esperança dos homens, e os induzem a imitarem os Santos. Que podemos venerá-los é doutrina definida, pelo Segundo Concílio de Nicéia,(ano 787), pelos Concílios de Gangres (ano 330) e de Trento, e pela autoridade dos Santos Padres.


E quem poderia exigir prova mais cabal e evidente, do que o testemunho das Sagradas Escrituras, quando celebram de maneira admirável os louvores dos Santos? Ora, se as Sagradas Escrituras apregoam os seus louvores, por que não deveriam os homens render-lhes, de sua parte, uma honra toda particular?


Não é raro ouvirmos que Deus não precisa de mediadores e que Cristo é o único mediador entre Deus e os homens. De fato Ele é O mediador de religião, quando efetuou a redenção dos homens decaídos pelo pecado. Só Ele nos reconciliou com o Pai celestial, por meio do Seu Sangue. Ele entrou uma só vez no Santo dos santos, consumou uma Redenção eterna, e não cessa de interceder por nós. É fato que ninguém vai ao Pai, senão por Cristo. Mas para não haver confusão, é preciso entendermos esta mediação dos santos, para acatarmos o que nos ensina nossa mãe Igreja e para recebermos benefícios maravilhosos, que poderiam serem inutilizados pela ignorância em relação ao assunto e também pelo fruto das distorções que se ouvem por aí.

Como disse, temos pelas Sagradas Escrituras, muitos testemunhos de louvores aos santos - Sagrada Escritura esta, que muitas vezes nos é pedida como única fonte da verdade, como se ela por si, fosse a fonte de todas as respostas, quando na realidade, a sagrada Tradição a completa e nos ensina de fato toda a plenitude da Revelação de Deus aos homens, Revelação esta que deve ser interpretada por quem recebeu de Cristo a autoridade para faze-lo, pois é guiada pelo próprio Espirito Santo, que a torna infalível, - a Igreja Católica, fundada por Cristo, nosso Senhor - e estes testemunhos não podemos desprezar.

Santo Agostinho nos diz que Jeus não concede muitas coisas, se não houver a intervenção de um mediador e advogado (Aug. Quaest. 140 super ex). Isto se prova pelos claros exemplos de Abimelec e dos amigos de Jó. Deus perdoou-lhes, só depois que Abraão e Jó intercederam por eles. (Gen 20,17; Jó 42,8)

Lembremo-nos do exemplo do Centurião, Cristo nosso Senhor enalteceu a sua fé com os maiores elogios, apesar de ter o homem enviado ao Salvador os anciãos dos Judeus, para que lhe impetrassem a cura do servo doente. E Jesus “curou”o seu servo, a pedido seu. (Mt 8,10). Outro caso foi o do oficial real que pede pelo filho doente, e que Jesus, para fortalecer sua fé instável e imperfeita, o cura à distância, mas por sua intercessão (Jo 4,43-54)

São Paulo desejou com muita instância, que seus irmãos vivos o secundassem com orações diante de Deus. (Rom 15,30 - 2Cor.1,11) Pois, nesse caso, as orações dos vivos não fariam menos quebra à honra e glória de Cristo que a intercessão dos Santos no céu. - A Igreja condenou a proposição: "Nenhuma criatura, nem a Virgem bem-aventurada, nem os santos devem ocupar lugar em nosso coração; pois Deus quer ocupa-lo sózinho" - (Papa Inocêncio XI em 1687; cfr DU 12,56). Amar é tudo que nos pede o Pai e quanto mais amamos, mais cabe amor em nossos corações. Portanto, quando amamos aqueles que foram por Deus criados, amamos a Deus acima de tudo.

Engana-se quem acha que pede aos mortos, quando se pede aos santos. Não, eles estão vivos diante de Deus, pois mereceram pelas suas vidas santas, estar diante do Pai, na bem aventurança anunciada e merecida por eles. Deus é Deus dos vivos e eles por fazerem parte da Igreja triunfante, rezam sem cessar por nós que ainda buscamos o céu, numa luta árdua, nós que fazemos ainda parte da Igreja militante.

Quanto ao culto das relíquias, é totalmente lícita e aprovada pela Igreja, devido aos milagres que acontecem junto às sepulturas dos santos. Homens que estavam privados da vista, das mãos, de todos os seus membros, recuperam sua integridade primitiva; os mortos são restituídos à vida; os demônios são expulsos dos corpos humanos.

E são fatos que Santo Ambrósio e Santo Agostinho abonam, em suas obras, como testemunhas de absoluta confiança; não por terem ouvido, à maneira de muitos; nem por terem lido, como fazem pessoas de reconhecida autoridade; mas, por terem presenciado pessoalmente (Ambros. epist.85; Aug de civit Dei XXII 8; epist. 137 et 147).

Mas voltemos às Sagradas Escrituras. O que dizer das roupas, os lenços a sombra dos santos apóstolos, que já antes de suas morte, curavam e fortaleciam tantas pessoas? Ora, se Deus realizava milagres através deles quando ainda estavam na terra e passíveis de pecar, quanto mais agora, bem aventurados, já estão na face do Pai? E Se seus objetos serviam aqui, porque não suas sagradas cinzas, os ossos e outras relíquias?

Bem o demonstrou aquele cadáver, lançado por acaso na sepultura de Eliseu. Apenas lhe tocou no corpo, reanimou-se no mesmo instante. (2 Reis 13,31)

O mesmo Espírito Santo que disse: “Só a Deus honra e glória" (I Tim 1,17), também ordenou honrássemos os pais e as pessoas mais velhas. Além disso, como narram as Escrituras, santos varões que adoravam um só Deus, "adoravam os reis", quer dizer, prostravam-se suplicantes diante de sua presença (I Sam 24,9). Se os reis podem ser reverenciados, quanto mais os anjos, que o Senhor os fez servidores e bem acima dos homens, porque são puro espírito e se decidiram por Deus na Batalha onde ocorreu a divisão. Ora, estes espíritos angélicos superam e muito qualquer dignidade real. E Deus serve-Se de Seu ministério, para o governo, não só de Sua Igreja, mas também de todas as outras coisas criadas. Pela assistência dos anjos, embora invisível aos nossos olhos, somos cotidianamente preservados dos maiores perigos, tanto da alma como do corpo. Eles oferecem a Deus, nossas orações e até nossas lágrimas. Por tal motivo, Nosso Senhor ensinou, no Evangelho, que se não se devia dar escândalo aos pequeninos, "porque os seus Anjos no céu estão contemplando, continuamente, a face do Pai que está no céu". Eles devem, portanto, ser invocados, já porque contemplam a Deus sem cessar, já porque com a maior boa vontade patrocinam a nossa salvação, conforme lhes foi encomendado.



"Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma daquilo que há em cima do céu, nem do que existe embaixo na terra, nem das coisas que existem nas águas, abaixo do nível da terra. Não as adorarás, nem lhes terás veneração".


O que temos de entender neste preceito, que não há uma proibição à arte de pintar, esculpir, pois se assim fosse, contrariaria as Sagradas Escrituras onde o próprio Deus ordena que se faça imagens de querubins e a serpente de Bronze, esta que prefigurava Cristo. Podemos então compreender que esta proibição se dá quando as adoravam quase como deuses, e prejudicava o verdadeiro culto que se deve somente à Ele.

Quando se acredita que existe nas imagens uma divindade ou uma força extraordinária, é porque não compreendeu realmente quem é Deus e por ignorância as tornem dignas de adoração e até de súplicas a elas, isto faziam os pagãos que punham nos ídolos sua esperança. Estas sim são práticas censuradas. O que não quer dizer não se pode ter imagens, mas que se dê os ensinamentos corretos a respeito delas. Quem coloca nelas suas esperanças, deve urgentemente conhecer a Deus, único e soberano.


Sobre a representação de Deus, nos diz: "Quem poderá fazer uma representação de Deus, "pois se Ele não está ao alcance de nossa vista, se não tem corpo, se não cabe nos limites do espaço, se não pode ser representado por nenhuma figura?" Esta doutrina foi amplamente desenvolvida pelo Segundo Concílio de Nicéia.

Assim declarou São Paulo: "Eles [os pagãos] trocaram a glória de Deus imperecível por imagens ... de voláteis, de quadrúpedes, e de animais répteis". Pois, fazendo deles figuras, veneravam todos esses animais, como se fossem o próprio Deus. Por isso, são chamados idólatras os israelitas que gritavam diante da imagem do bezerro: "Eis aí, Israel, os teus deuses que te salvaram da terra do Egito". Pois "trocaram a sua glória pela imagem de um bezerro que come feno".

Porque os Israelitas se contaminaram a ponto de confundir a divindade, a proibição foi feita. Era preciso alerta-los para que não fabricassem imagens da divindade e rendessem a uma criatura a honra que só a Deus é devida. Vejam que o preceito é para os que erram. Logicamente quando uma pessoa representa uma das Pessoas da santíssima Trindade, por meio de certos emblemas, que ocorrem tanto no NT quanto o Antigo, ninguém será tão obtuso a ponto de imaginar que tal imagem exprima de fato a natureza da divindade. O que elas simbolizam são propriedades e operações que a Deus são atribuidas.


Quando por exemplo, Daniel descreve o "ancião cheio, de dias" (Dan 4,9-10) sentado no trono, em cuja presença foram abertos os Livros , quer ele assinalar, com tal expressão, a eternidade de Deus e Sua infinita sabedoria, pelas quais perscruta todas as idéias e ações dos homens, para sobre elas lavrar sentença. Os anjos também são representados com feições humanas e com asas, para que os fiéis compreendam quanto eles são obsequiosos para com o ser humano, e como estão sempre alerta para cumprir as ordens de Nosso Senhor. Todos eles são espíritos servidores, em benefício daqueles que devem herdar a salvação".

A forma de pomba e as línguas semelhantes a fogo, de que falam os Evangelhos e os Atos dos Apóstolos, são por demais conhecidas, que não se faz mister usar muitas palavras, para dizermos quais atributos assinalam a essência ao Espírito Santo.

O que não acontece com Cristo Nosso Senhor, Sua santíssima e puríssima Mãe, e todos os outros Santos, que tinham uma fisionomia humana, revestidos que eram da natureza humana: a representação e a veneração de suas imagens, além de não serem proibidas por este Preceito, foram sempre tidas como um indício sagrado e seguro de um coração reconhecido.

Portanto é lícito ter imagens dentro da igreja, e prestar-lhe culto e veneração, pois as honras a elas feitas se reportam aos seus protótipos. Mais ainda, até agora, sempre redundou nas maiores bênçãos para os fiéis cristãos. Disso nos convence o que diz São João Damasceno em seu livro sobre as imagens, e também o que estabelece o Sétimo Concílio Ecumênico, que é o Segundo de Nicéia.

Aos ignorantes, que ainda não conhecem a finalidade das imagens, mostra-se que são feitas para ilustrar a história de ambos os Testamentos, para renovar continuamente a sua lembrança, a fim de que a consideração dos mistérios divinos nos incuta maior fervor em adorar e amar o próprio Deus.

Afinal, dirá também que a exposição das imagens de Santos, em nossas igrejas, tem por fim incitar-nos à veneração dos próprios Santos, e, pela força do exemplo, levar-nos à perfeita imitação de sua vida e costumes

Vale sabermos o que o II Concílio de Nicéia (Sétimo ecumenico – 24 set. – 23 de out. De 787) - definiu sobre as imagens sagradas:

“Como que andando pela via régia e seguindo a doutrina teológica de nossos amados Padres e a Tradição católica – pois reconhecemos que ela é do Espírito Santo que a habita -, definimos com todo o rigor e cuidado que, à semelhança da figura da cruz preciosa e vivificante, assim os venerandos e santos ícones, quer pintados, quer em mosaico ou em qualquer outro material adequado, devem ser expostos nas santas igrejas de Deus, sobre os sagrados utensílios e paramentos, sobre as paredes e painéis, nas casas e nas ruas; tanto o ícone do Senhor Deus e salvador Nosso Senhor Jesus Cristo como da Senhora Imaculada nossa, a santa Deípara, dos venerandos anjos e de todos os varões santos e justos.

De fato, quanto mais os santos são contempladosno ícone que o reproduz, tanto mais os que contemplam são levados à recordacão e ao desejo dos modelos originais e a tributar-lhes, beijando-os, respeito e veneração; não, é claro, a verdadeira adoração própria de nossa fé, reservada só a natureza divina, mas como se faz para a representação da cruz preciosa e vivificante, para os santos evangelhos e os outros objetos sagrados, honrando-os com a oferta de incenso e de luzes segundo o piedoso uso dos antigos. Pois “a honra prestada ao ícone passa para o modelo original”(São Basílio Magno, De Spiritu Sancto 18,n.45), e quem venera o ícone venera a pessoa de quem ele é reproduzido.

Assim se reforça o ensinamento dos nossos santos padres, ou seja, a Tradição da Igreja universal, que de um extremo ao outro da Terra acolheu o Evangelho. Assim nos tornamos seguidores do paulo que falou em Cristo (cf. 2Cor 2,17), do divino colégio apostóico e dos santos Padres, mantendo a tradição que recebemos (cf. 2Ts 2,15). Assim podemos cantar para a Igreja os hinos triunfais à maneira do profeta: “Alegra-te, filha de Sião, exulta filha de Jerusalém; goza e regozija-te com todo o coração; o Senhor tirou de teu meio as iniquidades dos teus adversários, foste libertada das mãos dos teus inimigos. Deus é rei no teu meio, não mais verás o mal”(Sf. 3,14s septg.) e paz contigo para sempre!

Aqueles, pois, que ousam pensar ou ensinar diversamente, ou, seguindo os ímpios hereges, violar as tradições da Igreja, ou inventar novidades, ou repelir alguma coisa que foi confiado à Igreja, como o livro do Evangelho, a imagem da cruz, um ícone pintado ou uma santa relíquia de um mártir; ou que ousam transtornar com astúcia e engodo algo das legítimas tradições da Igreja universal ou usar para fins profanos os vasos sagrados ou os mosteiros santificados, nós decretamos que, os bispos ou clérigos, sejam depostos, se momges ou leigos, sejam excluídos da comunhão”(Denzinger – Hunermann – Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral – pag. 218 – 219)


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Fonte: Catecismo Romano - pags 388 – 398, Tanquerey, Denzinger
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sexta-feira, 22 de maio de 2009

A tua Maneira de Viver



Por Padre Leo Trese

Desprendimento


"É fácil acabarmos por ser escravos das coisas. O instinto de posse no homem é um instinto bom, é uma parte da natureza humana criada por Deus. O direito do homem à propriedade privada, o seu direito de possuir o que possa ser necessário ao seu bem-estar espiritual e temporal, é algo que a Igreja tem defendido através dos séculos. Se o direito à propriedade não fosse um impulso bom, renunciar livremente a ele pelo voto de pobreza deixaria de ter o mérito que na realidade tem. No entanto, a paralisia espiritual derivada do pecado original torna-nos difícil o controle dos nossos desejos e instintos, que são bons em si mesmos. Quem é vítima de paralisia verificará alguma vez que, ao tentar alcançar um objeto, pela sua falta de coordenação motora, estende o braço longe demais ou perto demais. De maneira parecida, é-nos freqüentemente difícil manter dentro dos objetivos queridos por Deus os impulsos naturais com que Ele nos enriqueceu. É-nos muito fácil perder o autodomínio e cair num extremo ou noutro.

Esta a razão pela qual o nosso instinto de posse por vezes toma o freio entre os dentes e se transforma no vício da ambição, que é o de obter bens à custa dos outros - essa ambição que leva ao desfalque, à fraude e a todo o tipo de injustiças. No entanto, existe um outro gênero de cobiça que é mais insidioso, apesar de ser menos deplorável: é o de afanar-se desmedidamente numa busca desordenada e excessiva de bens materiais. Quase todos nós estamos expostos a esta espécie de cobiça, e contra ela devemos prevenir-nos.

Semelhante apetência desordenada talvez não desemboque numa conduta criminosa, mas costuma ser causa de graves injustiças contra os outros. Tomemos como exemplo o pai de família tão ansioso de ganhar dinheiro que raramente a sua esposa e filhos têm ocasião de ver-lhe a cara. Dir-vos-á que se esgota tanto apenas em benefício da família, quando na realidade o que ama de verdade é o dinheiro ou tudo o que o dinheiro pode comprar. Se interrogasse os seus, perceberia que preferem tê-lo mais tempo a seu lado e arranjar-se com menos dinheiro.

A situação agrava-se de modo considerável quando a dona-de-casa também trabalha fora do lar. Argumentará assim: “Com meu ordenado extra posso fazer muito aos meus filhos"; mas o certo é que adora o sentimento de independência que esse ordenado proporciona. E ainda que traga para casa alguns milhões todos os meses, jamais recuperará para os seus filhos a felicidade e a segurança que estes perdem em conseqüência das suas ausências desnecessárias do lar.

O demônio não precisa trabalhar muito para atrair-nos com o chamariz da ambição. E não se mexerá enquanto uma grande parte da publicidade trabalhar em seu proveito. Vistosos anúncios a cores em todas as páginas das revistas semanais nos tentam com as mil e uma utilidades novo produto, e os anúncios em preto e branco dos jornais dirão em complemento que teremos vantagens enormes se o adquirirmos sem perda de tempo.

Um fato da vida real pode convencer-nos das incongruências a que leva a cobiça. Dois vizinhos tem cada um, o seu carro. Um possui um modelo simples, de dois anos atrás, mas que desempenha perfeitamente o seu papel na cidade e nas eventuais viagens que tenha de fazer. O outro dispõe do “carro do ano" em versão luxo - muito mais caro, obviamente, do que o primeiro -, e que além de cumprir exatamente as mesmas funções que o anterior, lhe toma aproximadamente o triplo do tempo com polimentos, lavagens e manutenção. Apesar disso, o primeiro faz planos para comprar um modelo luxo, considerando os reajustes do ordenado que estão por vir, enquanto o segundo pensa em desfazer-se do seu para adquirir o próximo modelo, um três volumes superluxo, muito mais caro, e que lhe reclamará ainda mais tempo e dinheiro por ser muito mais sofisticado.

Consigamos o que conseguirmos, a ambição nunca nos deixará satisfeitos se lhe permitirmos tomar conta de nós. A cobiça alimenta-se da vaidade, e sempre haverá alguém que possua o que nós ainda não chegamos a alcançar, ou será lançado um modelo novíssimo que nos faça detestar o antigo. Basta folhear uma revista: "Invista em qualidade", "Esteja à frente do seu tempo", "Por que não pensei nisso antes?", "Brilhe como nunca!”, "Áudio e vídeo em toda a sua expressão", "Estéreo espacial: ligou, viajou", e assim todos os demais cantos de sereias. Para que haveria o demônio de incomodar-se em trabalhar? Uma vez que a ambição se apodera de nós, passa a dominar-nos uma sede insaciável, semelhante à sede do náufrago que, quanto mais água salgada bebe, mais sede experimenta. Quanto mais coisas a pessoa ambiciosa adquire, mais vontade tem de possuir.

O antídoto da ambição é o espírito de desprendimento que, basicamente, significa possuir um sentido verdadeiro da proporção, um verdadeiro sentido dos valores, tanto dos espirituais como dos humanos e materiais. O homem desprendido nunca é escravo das coisas. Contenta-se em ter aquilo de que necessita, sem se deixar afetar por essa massacrante propaganda comercial. Pode até chegar a desfazer-se, em qualquer momento, daquilo que já possui, se os seus deveres para com Deus ou para com o próximo assim o exigem. É o caso da família cujos membros se sentem felizes vendo os outros felizes, e preferem de verdade a integridade do seu lar ao dinheiro extra no mês e à abundância de meios materiais. O Verdadeiro desprendimento é mais difícil do à primeira vista parece. Mas podemos chegar a possuí-lo pela oração e pela retidão de pensamento.

A Mentalidade Prática: O Secularismo

Um dos obstáculos mais ocultos, e no entanto mais perigosos, para a plenitude da vida cristã é a atmosfera semipagã em que vivemos. Aqui, na América, tratamos a Deus do mesmo modo como tratamos um ex-presidente: com a deferência devida a quem foi uma figura poderosa, mas que na realidade, hoje conta pouco. Escutamos suas palavras com interesse, mas sem esse sentimento que nos move a agir de acordo com tudo que nos diz. Raras vezes se nega Deus abertamente; antes o ignoramos. E ignoramo-lo na vida política, econômica e social da nossa nação. Deus conta tanto como se fosse um outro cidadão qualquer.

Esta atitude para com Deus é o que chamamos espírito de secularismo. A religião é boa, diz o secularismo. É bom ir à igreja aos domingos; é bom rezar. Mas quando a religião se relaciona com a nossa luta diária pela vida, devemos ser práticos. Quando se trata de fazer projetos, quando se trata de levar à prática as decisões, a única coisa que importa é isso: Como tirar o máximo de proveito? O secularismo acharia uma piada a idéia de olhar as coisas do dia a dia do ponto de vista divino. Esse tipo de pensamento fica para os visionários. Deixemos a religião na igreja; esse é o seu lugar. Dia após dia vivemos e respiramos nesta atmosfera de utilitarismo. Não é de estranhar, pois, que os nossos espíritos se infectem. Também não é de estranhar que encontremos indivíduos que continuam a considerar-se "católicos praticantes", ainda que o seu catolicismo se tenha reduzido há muito tempo à Missa dominical.

Temos o exemplo da mulher que recebe com freqüência a Sagrada Comunhão. " É claro - confidencia a uma amiga - que eu não me confesso de usar a pílula. Acho que isso é um problema meu e não da Igreja". A pobre mulher não chega a perceber que a sua fé está mais do que morta, e que as suas práticas religiosas estão reduzidas a uma casca de ovo vazia. Porque, se não acaba de compreender que a Igreja fala em nome de Deus ao interpretar a sua Lei, demonstra que não crê realmente na Igreja. E é absolutamente ilógica quando afirma que crê na Confissão e na Sagrada Comunhão, já que é a própria Igreja, em nome de Cristo, quem garante a realidade desses sacramentos. O secularismo - "deixem a religião no seu lugar" - já fez mais uma vítima.

São inúmeros os exemplos que se podem dar desta contaminação secularista, desta espécie de pensamento torcido. Temos os pais católicos que se esquecem dos ensinamentos da Igreja sobre as relações pré-matrimoniais: "Não vejo nisso nada mau. Os jovens de hoje são diferentes dos da nossa época. Aliás, todos os colegas da escola se portam assim". Vemos católicos que se dedicam aos negócios, ou à política, ou às mais diversas profissões, e que encolhem os ombros diante de umas "fraudezinhas": "Eu sei que a Igreja diz isso é errado, mas é preciso enfrentar os fatos se quero sobreviver. Todos fazem o mesmo, e se eu não o fizer, vou acabar dando-me mal".

E os católicos jovens que dizem: "A Igreja é muito reacionária, não entendo que uma ‘amizade colorida’ seja assim tão perigosa”. Temos também o caso do católico segregacionista que comenta :”É ótimo falar de justiça social, mas o Papa não convive com essa gente como eu”. Ouçamos a sogra católica: “Sim, eu sei que não está certo que um divorciado se case de novo, afinal de contas as crianças precisam de uma mãe". Também não falta o católico auto-suficiente que sentencia: "Embora este filme tenha sido desaconselhado, não me fará mal nenhum; tenho idade suficiente para julgar por mim mesmo”.

Nenhum dos que assim se manifestam teria valentia suficiente para dizer simples e diretamente: "Gosto de fazer as coisas quando me são fáceis, mas não quando supõem sacrifício". A todos esses, fá-los-iam baixar os olhos de vergonha os mártires de épocas passadas, e particularmente os mártires de hoje do outro lado da cortina de ferro. Nenhum deles se atreveria a confessar: "O que me acontece, simplesmente, é que não concordo com Deus".

Sempre tratarão de estabelecer uma distinção imaginária entre Cristo e a sua Igreja, e cegar-se-ão eles próprios na sua própria inconsistência. Se a Igreja não é o arauto de Cristo, para que crer em alguma coisa? Cristo não nos permitirá interpor obstáculos entre Ele e a sua Esposa. Não podemos passar pelo lado de fora da Igreja, confiando em encontrar Cristo do outro lado. É evidente que os exemplos que expusemos são as conseqüências extremas a que nos pode levar o poluído ar secularista que nos envolve. Talvez não tenhamos ido tão longe, mas não há dúvida de que necessitamos vez por outra de tomar a nossa temperatura espiritual e diagnosticar o grau de infecção.

Verdadeiramente,seremos bem-aventurados se tivermos aprendido a pensar com Cristo e com a sua Igreja, se nos tivermos treinado em viver por princípios, tanto nas coisas pequenas como nas de maior envergadura. Isto significará que vivemos na presença de Deus em cada momento da nossa existência, e não somente aos domingos na igreja. Quererá significar que o ingrediente básico de todas as nossas decisões é "aquilo que Deus desejaria que eu fizesse". Quererá significar que Cristo e o seu Corpo Místico são indivisíveis e que é a Sua voz que fala através da Igreja. Com a graça de Deus, podemos viver num mundo secularizado sem que a infecção nos atinja. Mas isso é uma graça que temos de pedir".

Fonte: Não Vos Preocupeis – TRESE, Leo – Editora Quadrante - São Paulo 1991 - 3@ Edição - Tradução: Emérico da Gama .

sábado, 16 de maio de 2009

Credo - Quarto Artigo


Padeceu sob o Poder de Pôncio Pilatos, foi Crucificado, Morto e Sepultado

Por São Tomás de Aquino

Como é necessário ao cristão acreditar na Encarnação do Filho de Deus, é também necessário acreditar na sua Paixão e Morte, porque, como disse S. Gregório, em nada nos teria sido útil o seu nascimento, se não favorecesse à Redenção.Essa verdade, isto é, que Cristo morreu por nós, é de tal modo difícil, que a nossa inteligência pode apenas apreendê-Ia, mas de modo algum, por si mesma descobri-la.

Isso é confirmado pelas palavras do Apóstolo, Farei uma obra em vossos dias, que nela não podereis acreditar se alguém antes não a tiver revelado (At 13,41). Confirma-o também, o que falou o Profeta Habacuc: Será feita uma obra em vossos dias que ninguém acreditará quando for narrada (Hab 1,5).

A graça e o amor de Deus para conosco são tão grandes, que Ele fez por nós mais do que podemos compreender. Não se deve, porém, crer que, quando Cristo morreu por nós, a Divindade também morreu. NEle morreu a natureza humana; não morreu enquanto Deus, mas enquanto homem.

Três exemplos esclarecerão essa verdade.

Um deles, encontramos em nós mesmos. Sabe-se que quando um homem morre, na separação que há entre a alma e o corpo, a alma não morre, mas o corpo, a carne.
Assim também na morte de Cristo não morreu a divindade, mas a natureza humana.

Pode-se aqui fazer a seguinte objeção: - Se os judeus não mataram a divindade, evidentemente o pecado deles, matando Cristo, não foi maior do que se tivessem morto um outro homem.

Respondamos a essa objeção:

Se alguém sujasse as vestes com as quais o rei estava vestido, cometeria falta tão grande como se tivesse sujado o próprio rei. Assim também os judeus. Como não puderam matar Deus, matando a natureza humana assumida por Cristo, eles mereceram severa punição, como se tivessem assassinado a própria divindade.

Como dissemos acima, o Filho de Deus é o Verbo de Deus, e o Verbo de Deus Encarnado é como a palavra de Deus escrita em uma carta. Se alguém rasgasse a carta do rei, cometeria a mesma falta daquele que tivesse rasgado a palavra do rei.

Por isso os judeus pecaram tão gravemente como se tivessem morto o Verbo de Deus.

Podes ainda perguntar:

- Que necessidade havia de o Verbo de Deus padecer por nós?

- Grande necessidade, e por duas razões. Uma, porque foi remédio para os nossos pecados; outra, porque foi um exemplo para as nossas ações. Foi, sim, um remédio, porque contra todos os males que contraímos pelo pecado, encontramos o remédio na Paixão de Cristo.

Contraímos pelo pecado cinco males:

O primeiro, é a própria mancha do pecado.
Quando um homem peca, conspurca a sua alma, porque, como a virtude a embeleza, o pecado a enfeia. Lê-se em Baruc: Por que estás, ó Israel, na terra dos inimigos, e te contaminaste com os mortos? (3,10). Mas a Paixão de Cristo lavou esta mancha. Cristo, na sua Paixão, fez do seu sangue um banho para nele lavar os pecadores: Lavou-os do pecado no sangue (Ap 1,5).

- No Batismo a alma é lavada no Sangue de Cristo, por que este sacramento recebe do Sangue de Cristo a força regeneradora. Por isso, quando alguém batizado se macula pelo pecado, faz uma injúria a Cristo e o seu pecado é maior que o cometido antes do batismo. Lê-se na Carta aos Hebreus: O que desprezou a lei de Moisés, após ouvido o testemunho de dois ou três, deve morrer. Como não deve merecer maiores suplícios, aquele que pisou no Sangue do Filho de Deus e considerou impuro o Sangue da Aliança? (10,28-29).

O segundo mal que contraímos pelo pecado é nos tornarmos objeto da aversão de Deus.

Assim como quem é carnal ama a beleza da carne, Deus de modo semelhante ama a beleza espiritual, que é a beleza da alma. Quando, por conseguinte, a alma se deixa contaminar pelo mal do pecado, Deus fica ofendido e odeia o pecador. Lê-se no Livro da Sabedoria: Deus odeia o ímpio e a sua impiedade (14,9).

- Mas a Paixão de Cristo remove essas coisas, por que ela satisfez ao Pai ofendido pelo pecado, cuja satisfação não poderia vir do homem. A caridade e a obediência de Cristo foram maiores que o pecado e a desobediêneia do primeiro homem. Lê-se em S. Paulo: Sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte do seu Filho (Rom 5,10). (26)

O terceiro mal é a fraqueza.

O homem, pecando pela primeira vez, pensa que depois pode abster-se do pecado. Acontece, porém, o contrário: debilita-se pelo primeiro pecado e fica propenso para pecar mais. O pecado vai dominando cada vez mais o homem, e este, por si mesmo, coloca-se em tal estado que não pode mais se levantar. É como alguém que se lançou num poço. Só pode sair dele pela força divina. Depois que o homem pecou, a nossa natureza ficou debilitada, corrompida, e, por isso mesmo, ficou ele mais propenso para o pecado.

- Mas Cristo diminuiu essa fraqueza e corrupção, bem que não as tenha totalmente apagado. O homem foi fortalecido pela Paixão de Cristo e o pecado, enfraquecido, de sorte que este não mais o dominará. Pode, por este motivo, auxiliado pela graça divina, que é conferida pelos sacramentos, cuja eficácia deriva da Paixão de Cristo, esforçar-se para sair do pecado. Lê-se em S. Paulo: O nosso velho homem foi crucificado juntamente com Ele, para que fosse destruído o corpo do pecado (Rom 6,6). Antes da Paixão de Cristo, poucos havia sem pecado mortal. Mas, depois dela, muitos viveram e vivem sem pecado mortal.

O quarto mal é a obrigação que temos de cumprir a pena do pecado.

A justiça de Deus exige que o pecado seja punido, e a pena é medida pela culpa. Como a culpa do pecado é infinita, porque ele vai contra o bem infinito, Deus, cujo mandamento o pecador desprezou, também a pena devida ao pecado mortal é infinita.

- Mas Cristo pela sua Paixão livrou-nos dessa pena, assumindo-a Ele próprio. Confirma-o S. Pedro: Os nossos pecados (Lê, a pena do pecado) Ele carregou no seu corpo (1Ped2,24). Foi de tal modo exuberante a virtude da Paixão de Cristo, que, ela só, foi suficiente para expiar todos os pecados de todos os homens, mesmo que fossem em número de milhões. Eis o motivo pelo qual aquele que foi batizado, foi também purificado de todos os pecados. É também por esse motivo que os sacerdotes perdoam os pecados. Do mesmo modo, aquele cujo sofrimento mais se assemelha ao da Paixão de Cristo, consegue um maior perdão e merece maiores graças.

O quinto mal contraído pelo pecado foi nos exilarmos do reino do céu.

É natural que aqueles que ofendem o rei sejam obrigados a sair da pátria. O homem foi afastado do paraíso por causa do pecado: Adão imediatamente após o pecado foi expulso do paraíso, e sua porta lhe foi trancada.

- Mas Cristo, pela sua Paixão, abriu aquela porta e novamente chamou os exilados para o reino. Quando foi aberto o lado de Cristo, foi também a porta do paraíso aberta; quando o seu Sangue foi derramado, a mancha foi apagada, Deus foi aplacado, a fraqueza foi afastada, a pena foi expiada, e os exilados foram convocados para o reino. Por isso é que foi logo dito ao ladrão: Estarás hoje comigo no Paraíso (Lc 23,43). Observe-se que nesse momento não foi dito – outrora; que, também, não foi dito a outrem - nem a Adão, nem a Abraão, nem a Davi; foi dito, hoje, isto é, logo que a porta foi aberta, e o ladrão pediu e recebeu perdão. Lê-se na carta aos Hebreus: Confiantes na entrada no santuário pelo Sangue de Cristo (10,19).

Fica assim esclarecido como a Paixão de Cristo foi útil, enquanto remédio contra o pecado. Mas a sua utilidade não nos foi menor, enquanto ela nos serviu de exemplo. Como disse S. Agostinho: ”A Paixão de Cristo é suficiente para ser o modelo de toda a nossa Vida. Quem quer que queira ser perfeito na vida, nada mais é necessário fazer senão
desprezar o que Cristo desprezou na cruz, e desejar o que nela Ele desejou. Nenhum exemplo de virtude deixa de estar presente na cruz. Se nela buscas um exemplo de caridade, - ninguém tem maior caridade do que aquele que dá sua vida pelos amigos (Jo 15,13).

Ora, foi o que Cristo fez na cruz, Por isso, já que Cristo entregou a sua vida por nós, não
nos deve ser pesado suportar toda espécie de males por amor a Ele. O que retribuirei ao Senhor, por todas as coisas que Ele me deu? (SI 115,12). Se procuras na cruz um exemplo de paciência, nela encontrarás uma imensa paciência.

A paciência manifesta-se extraordinária de dois modos: ou quando alguém suporta grandes males pacientemente, ou quando suporta aquilo que poderia ser evitado e não quis evitar.

Cristo na cruz suportou grandes sofrimentos:

O vós todos que passais pelo caminho, parai e vede se há dor igual à minha! (Je 1,17); Como a ovelha levada para o matadouro, e como o cordeiro silencioso na tosquia (1 Ped 2,23).

Cristo na Cruz suportou também os males que poderia ter evitado, mas não os evitou: julgais que não posso rogar a meu Pai e que Ele logo não me envie mais que doze legiões de Anjos? (Mt 26,53). Realmente, a paciência de Cristo na cruz foi imensa!

Corramos com paciência para o combate que nos espera " com os olhos fitos em Jesus, o autor da nossa fé, que a levará ao termo: Ele que, lhe tendo sido oferecida a alegria, suportou a cruz sem levar em consideração a sua humilhação" (Heb 36,17).

Se desejares ver na cruz um exemplo de humildade, basta-te olhar para o crucifixo. Deus quis ser julgado sob Pôncio Pilatos e morrer: A vossa causa, Senhor, foi julgada como a de um ímpio (Jo 36,17). Sim, de um ímpio, porque disseram: Condenêmo-lo a uma morte muito vergonhosa (Sab 2,20). O Senhor quis morrer pelo seu servo, e Aquele que dá a vida aos Anjos, pelo homem: Fez-se obediente até à morte (Fil 2,8).

Se queres na cruz um exemplo de obediência, segue Aquele que se fez obediente ao Pai, até à morte: Assim como pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecados; também pela obediência de um só homem, muitos se tornaram justos (Rom 5,19).

Se na cruz estás procurando um exemplo de desprezo das coisas terrenas, segue Aquele que é o Rei e o Senhor dos Senhores, no qual estão os tesouros da sabedoria, mas que na cruz aparece nu, ridicularizado, escarrado, flagelado, coroado de espinhos, na sede saciado com fel e vinagre, e morto. Não te deves apegar às vestes e às riquezas, porque dividiram entre si as minhas vestes (SI 29,19); nem às honras, porque Eu suportei as zombarias e os açoites; nem às dignidades, porque puseram em minha cabeça uma coroa de espinhos que trançaram; nem às delícias, porque na minha sede deram-me vinagre para beber (SI 68,22).

Comentando este texto da Carta aos Hebreus - Que, apesar de lhe oferecerem alegria, suportou a cruz, desprezando a humilhação dela (12,2) -, Agostinho nos diz: O homem, Cristo lesus, desprezou todos os bens terrenos, para mostrar que devem ser desprezados.