terça-feira, 9 de junho de 2009

Credo - Quinto Artigo


Desceu aos Infernos ao Terceiro Dia Ressurgiu dos Mortos

Por São Tomás de Aquino

Como dissemos acima, a morte de Cristo consistiu na separação da alma e do corpo, como na morte dos outros homens. Mas a divindade estava de tal modo ligada ao homem Cristo, que, apesar de a alma e o corpo terem se separado entre si, a própria Deidade sempre esteve unida ao corpo e à alma de um modo perfeitíssimo. Eis por que no sepulcro estava presente o Filho de Deus, o qual desceu também com a alma aos infernos.

Por quatro razões Cristo desceu com a alma aos infernos:

A primeira, para que suportasse toda a pena do pecado, e, assim, expiasse toda a culpa. A pena do pecado do homem não foi somente a morte do corpo, mas também uma punição na alma. Por que o pecado era também da alma, esta deveria ser punida pela privação da visão divina. Ora, não se tinha ainda apresentado uma satisfação para que esta privação fosse afastada. Por isso, antes do advento de Cristo, todos desciam aos infernos, até os Santos Patriarcas. Para Cristo carregar sobre Si toda a punição devida aos pecadores, quis não somente morrer, mas também descer com a alma aos infernos. Lê-se nos Salmos: Fui considerado como um homem caído na fossa; fiquei como um homem sem auxílio, livre no meio dos mortos (87, 5-6). Os outros aí estavam como escravos. Cristo, como um homem livre.

A segunda razão da descida de Cristo aos infernos, foi ir em socorro de todos os Seus amigos. Tinha ele os Seus amigos não só no mundo, mas também nos infernos. Manifestam-se alguns como amigos de Cristo, nisto: têm caridade. Muitos estavam nos infernos que para lá desceram possuindo caridade e fé no Esperado, como Abraão, Isaac, Jacó, Davi e muitos outros homens justos e perfeitos.

Como Cristo visitara os seus amigos no mundo, e os socorrera pela própria morte, quis também visitar aqueles amigos que estavam no inferno, e socorrê-los, indo também a eles. Lê-se no Livro do Eclesiástico: Penetrarei em todas as partes interiores da terra, e verei todos os que aí dormem, e iluminarei todos os que esperam no Senhor (24,25).

A terceira razão, foi para que Cristo tivesse uma vitória perfeita contra o diabo.

Alguém só tem um perfeito triunfo sobre outrem, não apenas quando o vence no campo de batalha, mas até quando ainda lhe invade a própria casa, e se apodera da sede do reino e do palácio.

Cristo já havia triunfado do diabo e já o vencera da cruz, pois se lê em São João: Agora é o julgamento do mundo, agora o príncipe deste mundo (isto é, o diabo) será lançado fora (Jo 12,31). Para que Cristo triunfasse sobre o diabo de um modo completo, quis tirar-lhe a sede do reino e prendê-lo na sua própria casa, que é o inferno.

Por isso aí desceu, tirou-lhe todos os bens, aprisionou-o e apoderou-se da sua presa. Lê-se: Despojando os principados e as sociedades, exibiu-os publicamente, triunfando deles na cruz (Col 2,15). Devemos considerar que como Cristo recebera o poder e a posse do céu e da terra, deveria também ter a posse do inferno, como se lê na Carta aos Filipenses: Ao nome de Jesus dobre-se todo joelho, dos que estão nos céus, na terra e nos infernos (Fil. 2,10). O próprio Jesus dissera: Em meu nome expulsarão os demônios. (Ma 16,17).

A quarta e última razão, foi para libertar os santos que estavam nos infernos.

Assim como Cristo quis submeter-se à morte para libertar os vivos, da morte, quis também descer aos infernos, para libertar os que aí se encontravam: Lê-se: Vós também (Senhor), pelo Sangue do vosso testamento, tírastes os Seus que estavam presos na fossa, onde não havia água .. (Zac 9,11). – O morte, serei a tua morte, ó inferno, serei para ti como uma mordida. (Os 13,14).

Bem que Cristo tivesse totalmente destruido a morte, não destruiu completamente o inferno, mas como que o mordeu, por que não libertou todos os que nele estavam, mas somente os que não tinham pecado mortal, nem o pecado original.

Deste, foram libertados, enquanto pessoas indivíduas, pela circuncisão, e, antes da instituição da circuncisão, as crianças privadas do uso da razão, pela fé dos pais fiéis; os adultos, pelos sacrifícios e pela fé no Cristo que esperavam. Estavam no inferno devido ao pecado original causado por Adão, do qual não poderiam ser libertados, enquanto pecado que era da natureza humana, senão por Cristo.

Deixou então os que aí desceram com pecado mortal e as crianças incircuncisas . Por isso disse ao descer ao inferno: Serei para ti como uma mordida (Os 13,14) ..

Do exposto, podemos tirar quatro ensinamentos para nossa instrução:

Primeiro, uma firme esperança em Deus
, pois quando o homem está em aflição, deve sempre esperar do auxílio divino e Nele confiar. Nada há de mais sério do que cair no inferno. Se portanto, Cristo libertou os que estavam nos infernos, cada um, se é de fato amigo de Deus, deve muito confiar para que Ele o liberte de qualquer angústia. Lê-se: Esta (isto é, a sabedoria) não abandonou o justo que foi vencido (. . .), desceu com ele na fossa, e na prisão o não abandonou (Sab 10,13-14). Como Deus auxilia aos seus servos de um modo todo especial, aquele que O serve deve estar sempre muito seguro. Lê-se: O que teme ao Senhor por nada trepidará e nada temerá por que Ele é a sua esperança (Ecl 39,16).

Segundo, devemos despertar em nós o temor, e de nós afastar presunção. Pois, apesar de Cristo ter suportado a paixão pelos pecadores, e ter descido aos infernos, não libertou a todos mas somente àqueles que estavam sem pecado mortal, como acima foi dito. Aqueles que morreram em pecado mortal, deixou-os abandonados. Por isso ninguém que desça lá com pecado mortal espere perdão. Mas ficarão no inferno o tempo em que os Santos Patriarcas estiverem no Paraíso, isto é, para toda a eternidade. Lê-se em São Mateus: Irão os malditos para o suplício eterno, os justos, porém, para o Paraíso (25,46).

Terceiro, devemos viver atentos, porque se Cristo desceu aos infernos para a nossa salvação, também nós devemos, com solicitude lá descer em espírito, meditando sobre as penas nele existentes, imitando o Santo Ezequias, que dizia: Irão os mal; para o suplício eterno, os justos, porém, para o Paraíso (Is 38,10). Desse modo, aquele que em vida, vai lá pela meditação, não descerá facilmente para o inferno na morte, porque tal medi¬tação o afasta do pecado. Ao vermos como os homens deste mundo evitam as más ações por temor das penas temporais", como não deveriam eles muito mais se resguardarem do pecado por causa das penas do inferno, que são muito mais longas, mais cruéis e mais numerosas? Eis porque lê-se nas Escrituras: Lembra-te dos teus últimos dias, e não pecarás para sempre (Ecle 7,40).

O quarto ensinamento tirado da descida de Cristo aos infernos, é nos ter Ele oferecido um exemplo de amor. Cristo desceu aos infernos para libertar os seus. Devemos também nós descer pela meditação, para auxiliar os nossos. Eles, por si mesmos, nada podem conseguir. Nós é que devemos ir em socorro dos que estão no purgatório. Se alguém não quisesse socorrer um ente querido que estivesse na prisão, como isso nos pareceria cruel! No entanto, seria muito mais cruel aquele que não viesse em socorro do amigo que está no purgatório, pois não há comparação entre as penas deste mundo e aquelas. Lê-se a esse respeito: Tende piedade de mim, tende piedade de mim, pelo menos vós, Ó meus amigos, porque a mão de Deus me feriu (Jo 19,21); - É santo e salutar o pensamento de orar pelos defuntos para que sejam livres dos pecados (Mc 19,46).

São auxiliados, conforme disse Agostinho, os que estão no purgatório, principalmente por três atos: pelas Missas, pelas orações e pelas esmolas. Gregório acrescenta um quarto: o jejum. Não deve causar que assim seja, porque também neste mundo o amigo pode satisfazer pelo amigo. A mesma coisa acontece com os que estão no purgatório.

É necessário que o homem conheça duas coisas: a glória de Deus e a pena do inferno.

Elevados pela glória de Deus, e aterrorizados pela pena do inferno, os homens cuidam melhor das suas ações e afastam-se do pecado. Mas é muitíssimo difícil para o homem conhecer essas duas coisas. Com relação à glória, lê-se: Quem poderá conhecer as coisas do céu? (Sab 9,16). Isso é realmente muito difícil para os habitantes da terra, porque se lê em São João: O que é da terra, fala das coisas da terra (Jo 3,31). Para os espirituais; porém, não o é, porque o que veio do céu, está acima de todos, conforme continua aquele texto. Por conseguinte, Deus desceu do céu e se encarnou, para nos ensinar as coisas do céu.

Com relação à pena do inferno, era também muito difícil conhecê-la. Lê-se no Livro da Sabedoria: Não se conhece quem tenha voltado dos infernos (Sab 2,1). Essa passagem da Escritura refere-se às pessoas dos ímpios. Mas agora isso não mais pode ser dito, porque, como Ele desceu do céu para ensinar as coisas do céu, também ressurgiu dos infernos para esclarecer-nos sobre as coisas do inferno.

É necessário, pois, que creiamos não apenas que Ele se fez homem e que morreu, bem como ressurgiu dos mortos. Por que esse motivo é professado no Credo: Ao terceiro dia res¬surgiu dos mortos. Lemos nos Evangelhos que muitos ressuscitaram dos mortos, como Lázaro, o filho da viúva e a filha do chefe da Sinagoga.

Mas a Ressurreição de Cristo difere daquelas e de outras, em quatro aspectos.

Primeiro, devido à causa da ressurreição, porque os outros que ressuscitaram, não ressusitaram por próprio poder, mas pelo poder de Cristo ou das orações de algum santo. Cristo ressuscitou por próprio poder, porque não era apenas homem, mas também Deus, e a divindade do Verbo jamais se separou nem da sua alma, nem do seu corpo. Por isso, o corpo reassumia a alma e a alma o corpo, quando queria. Lê-se: Tenho poder para entregar a minha alma, bem como para a reassumir (Jo 10,18). Bem que tenha sido morto, não o foi por fraqueza ou por necessidade, mas, espontaneamente. Isto é verdade, porque quando Cristo entregou o seu espírito, deu um grito. Os outros, porém, que morrem, não O podem dar, porque morrem por fraqueza. O centurião exclamou no Calvário: Ele era verdadeiramente o Filho de Deus (Mt 87,54).

Como Cristo por sua própria força entregou a alma, reassu¬miu-a também por própria força. Por isso é dito no Credo ressuscitou e não - foi ressuscitado, como se o fosse por outro. Lê-se nos Salmos: Dormi, caí em profundo sono e ressurgiui (3,6). Não há, porém, contradição entre este texto e o dos Atos dos Apóstolos: Este Jesus, ressuscitou-O Deus (Act 2,32) porque o Pai O ressuscitou, e o Filho também O ressuscitou, já que a virtude do Pai e a do Filho são a mesma virtude.

Difere, em segundo lugar, devido à vida que fora ressuscitada. Cristo ressuscitou para a vida gloriosa e incorruptível, con¬forme se lê na Carta aos Romanos: Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai (Cor 6,4). Os outros, para a mesma vida que antes possuíam, como se verificou em Lázaro e nos outros ressuscitados.
Difere ainda a Ressurreição dc Cristo da dos outros quanto à sua eficácia e quanto ao seu futuro, porque foi cm virtude daquela que todos ressuscitaram. Lê-se: Muitos corpos dos Santos que dormiam ressuscitaram (Mt 2,7,52). Cristo ressurgiu dos mortos, primícia dos que dormem (Cor 15,20). Vede bem que Cristo pela Paixão chegou à glória, conforme está escrito em São Lucas: Não foi conveniente que Cristo assim padecesse, para poder entrar na sua glória? (Is 24,26), para nos ensinar como podemos chegar à glória: Por muitas tributações devemos passar para entrar no reino de Deus (Mt 14,21).


A quarta diferença é relativa ao tempo, porque a ressurreição dos outros foi retardada para o fim dos tempos, a não ser que tenha sido concedida por privilégio, como a da Virgem Santa, e, conforme se crê piedosamente, a de São João Evangelista. Cristo, porém, ressuscitou ao terceiro dia porque a sua Ressurreição e a sua Morte realizaram-se para a nossa salvação, e Ele, portanto, só quis ressurgir quando fosse isso vantajoso para a nossa salvação. Ora, se ressuscitasse imediatamente após a morte, não se acreditaria que Ele tivesse morrido. Se fosse demasiadamente protelada a ressurreição, os discípulos não perseverariam na fé, e nenhuma utilidade teria a sua Paixão. Lê-se nos Salmos: Que utilidade haveria em ter eu derramado o sangue, se desci ao lugar da corrupção? (29,10). Ressuscitou no terceiro dia para que se acreditasse na sua morte e para que os discípulos não perdessem a fé.

Sobre o que acabamos de expor, podemos fazer quatro considerações para nossa instrução.
Primeiro, que devemos nos esforçar para ressurgirmos espiritualmente da morte da alma, contraída pelo pecado, para a vida da justificação que se obtém pela penitência. Escreve o Apóstolo: Surge, tu que dormes, ressurge dos mortos, e Cristo te iluminará (Ef 5,14). Esta é a primeira ressurreição da qual nos fala o Apocalipse: Feliz o que teve parte na primeira ressurreição (Ap 20,6).

Segundo, que não devemos protelar esta nossa ressurreição da morte, mas realizá-la já, porque Cristo ressuscitou no terceiro dia. Lê-se: Não tardes na conversão para o Senhor, e não a delongues dia por dia (Ecle 5,8). Por que estás agravado pela fraqueza, não podes pensar nas coisas da salvação, e porque perdes parte de todos os bens que te são concedidos pela Igreja, incorres em muitos males, perseverando no pecado Como disse o Venerável Beda, o diabo, quanto mais tempo possui uma pessoa, tanto mais dificilmente a deixa

Terceiro, que devemos também ressurgir para a vida incorruptível, de modo que não mais morramos, isto é, que devemos perseverar no propósito de não mais pecar. Lê-se na Carta Romanos: Assim também vós vos considereis mortos para pecado: Vivendo para Deus em Cristo Jesus. Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo, obedecendo-lhes as concuspicências; não exibais os vossos membros como armas de maldade para o pecado, mas deveis vos exibir a vós mesmos para como vivos que saíram da morte (Rom 6,9; 11-13).

Quarto, que devemos ressurgir para uma vida nova e gloriosa evitando tudo o que antes nos foi ocasião e causa de morte e pecado. Lê-se na Carta aos Romanos: Como Cristo ressurge entre os mortos pela glória do Pai, também nós deve mos ¬andar na novidade de vida (Rom 5,4). Esta vida nova é da de justiça, que renova a alma e a conduz para a glória.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

São Francisco de Sales



Quando São Francisco de Sales soube que São Francisco Xavier acabava de ser canonizado, exclamou:

" É o terceiro Francisco que foi proclamado santo. Eu serei o quarto"!!


E manteve a palavra.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A Cruz de ferro


"Durante a guerra de 1914, uma patrulha de soldados alemães foi, um dia, cercada por um exército russo. Não podia duvidar-se do desfecho da luta....Os alemães tinham-se refugiado numa barraca. O oficial inimigo convidou-os a render-se; respondeu-lhe desesperado tiroteio.Os russos retorquiram-lhes com uma tempestade de metralha que se prolongou até que as armas alemãs emudeceram....até que a pequena patrulha atirou a última bala.

Ao forçarem, depois, a porta da barraca, ficaram profundamente emocionados perante o espetáculo que se oferecia a seus olhos: No meio dos seus soldados mortos, jazia o tenente Griesheim, seu comandante, todo coberto de sangue, mas ainda vivo... Ele não era já o inimigo mas o camarada que sofria. O oficial russo inclinou-se sobre ele e perguntou-lhe comovidamente: "O Senhor sabia que éramos cem contra um. Porque não se rendeu?"

Com um supremo esforço, o tenente ergueu-se, e, mostrando a cruz de ferro pregada no peito, disse: "Entre nós, aquele que traz esta distinção não se rende"

Meu filho: se tiveres combates difíceis a travar no caminho do teu caráter, lembra-te também da Cruz que o Senhor pôs sobre teu coração no dia do teu Batismo, e dize-lhe bem alto nesses momentos:

Que importa o mundo e suas fantasia,
seus cantos e ditos de adulação?
Eu trago a Cruz em rosto de alegria,
e o seu amor me enche o coração!"
(Elchert)

Fonte: ainda Tihamer Toth......Jovens de carater - este é um dos autores que mais amo, por suas palavras simples, poeticas e que me faz pensar e querer crescer em santidade sempre, para honrar a Deus, nosso Pai amantíssimo!!

Quem desejar compra_lo, ele se encontra na Quadrante, basta ligar ok? :)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Régulo em Cartago – Um jovem de Caráter!


Cartago devia enviar uma embaixada a Roma a pedir paz. Um prisioneiro de guerra romano, de nome Régulo, foi encarregado de a conduzir, mas teve de jurar, antes de partir, que, se a sua missão viesse a falhar, ele voltaria ao cativeiro...

Imaginai a sua comoção ao encontrar-se de novo em Roma, a sua amada cidade! Ele poderia ficar lá, se negociassem a paz.

Mas quereis saber o que fez?

Com toda sua eloquência convenceu o senado a continuar com a guerra, e, quando quiseram persuadi-lo a ficar em Roma dizendo-lhe que um juramento feito sob coação não podia obrigar, ele respondeu:

Quereis então a todo o custo que manche a minha honra, faltando à palavra dada? Eu sei bem que as torturas e a morte me esperam quando voltar a Cartago. Mas tudo isso é nada, comparado a vergonha resultante de uma ação desonesta e com as feridas que a alma recebe desse pecado. É verdade que serei prisioneiro de Cartaginenses, mas, pelo menos, conservarei o meu caráter de Romano em toda sua pureza. Jurei voltar para Cartago; cumprirei o meu dever até ao fim. O resto confiai-o aos deuses”

Quem dera os jovens desta época buscassem ter caráter, mais que qualquer coisa.Tomara Deus que tivessem sua vontade orientada sempre para o bem, que tivessem antes de tudo, princípios nobres, não se afastando deles, em nenhuma hipótese.

Fonte: O Jovem de Carater - Tihamer Totth - Quadrante

domingo, 31 de maio de 2009

O Espírito Santo e meu Pentecostes individual




Estou no meio do mundo para me fazer santa; e para isso O Espírito Santo tem como missão me assistir exteriormente, mas pelo Batismo, veio também habitar “em mim”. Minha vocação é portanto, uma vocação para a intimidade. Não só não posso trai-LO, mas sou chamada a viver das minhas riquezas divinas. Sim, minhas, porque me foram dadas pelo Pai das luzes, que me chama a ser santa e a viver como filha amada que sou, me tornando tal como Ele é, perfeita para toda boa obra e para a adoração incondicional a Ele.

Portanto, minha vida de batizada consiste em: Assegurar o estado de graça e explora-la ao máximo.

1 – Assegurar o estado de graça em si mesmo - fugir de pecado e toda ocasião de o encontra-lo. Sei que todos os dias travarei uma guerra entre a “carne”e o “espírito”, para fazer vencer o homem novo renascido em Cristo. O que o Espírito Santo realiza, a partir do momento que veio habitar em mim, é predominar as potências espirituais, a vontade racional esclarecida e ajudada pela fé. Se permaneço fiel, na terra, esta vida florescerá no Céu – “Se o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus dos mortos, habita em vós, Ele, que ressuscitou à Jesus, também fará reviver os nossos corpos mortais graças ao seu Espirito que habita em vós”.

Ele me dá a cada dia, forças para lutar e me conduz à libertação quando me ajuda a sacudir o que me arrastaria ao mal. Para tanto, é preciso que eu viva com prudência para prevenir qualquer ataque, seja do mundo, da carne ou do demônio, que me quer aliciar e matar para Deus. O divino Espirito me adestra para a guerra a fim de poder repeli-los.

Nesta luta caminharei e a vida em estado de graça deve ser minha meta, para que eu não seja surpreendida pela morte em estado de pecado, com todas as suas consequências. Esta vida em estado de graça é que me fará “merecer”estar diante de Deus. Com ela, meu labor, minhas dores, minhas renúncias, minhas provações, terão repercussão no céu e me fará ajuntar um tijolinho para ele.

2 – Explora-la ao máximo, com os auxílios de Deus e minha vontade racional bem formada pela doutrina e pela graça. Para explora-la, devo entender que não se trata só de uma parte negativa: não ter pecados mortais na consciência, mas também de alguma coisa muitíssimo positiva: a presença de uma Hóspede ilustre e santo em mim – doce hóspode da alma. Se Ele é aquele que guia, santifica e que habita no Batizado, deve ser então “nosso” Mestre e nosso guia. – “É pela “intimidade”da Sua união com Ele que medem os seus progressos de santidade” - (La Divinisation du Chrétien – Pe. P. Ramiére, pag. 218)
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Devemos observar, como nos explica São Leão XIII na sua Encíclica sobre o Espírito Santo – Divinum illud munus -, que dizer que o Espírito habita em nós em estado de graca, não significa que venha só, mas é toda santíssima Trindade que vem agir em nós.
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O que temos que entender é que a vida da graça deve ser contínua, já que se trata de intimidade e este hóspede habita e convive conosco. Jesus nos alertava sobre esta presença santa que deve ser cultivada com toda solicitude e amor, se alguém vive em estado de graça, “meu Pai o amará, e nós viremos a ele, e faremos nele a nossa morada”(São João, XIV, 23).
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Ora, não haveremos nós de deixarmos limpo este aposento para tão ilustre hóspede, não preparemos nós a morada de nosso coração para Deus, tirando dele toda imundície das más obras?
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Devemos procurar o Senhor não somente no tempo da compunção, mas também no tempo da tentação e muito mais neste, já que é exatamente nele que poderemos perder o santo dentro de nós. Para isso, é exigido decisão de mudança e de perseverança. Temos que estar dispostos a evitar e rejeitar “tudo”, para não perder o estado de graça. Mas será que eu humana e fraca, tenho forças suficientes, já que se trata de uma luta extremamente necessária e vital?
Não. Devo esperar no meu Batismo a minha intimidade com Deus. Se amamos a Deus e se na docilidade O procuramos, Ele jamais nos abandonará, Ele jamais nos deixará sem os auxílios necessários. Se permanecermos fieis, podemos e devemos procurar n'Ele o nosso descanso, que é a doce alegria de não estar só, mas que temos alguém que nos auxilia na luta, pois o combate só acaba quando chega nosso fim que pode e deve ser maravilhoso, pois estaremos na posse do Amado. Muito nos ajuda também, todos os dias, sermos dóceis como Maria Santíssima e dizer: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim, segundo a Tua palavra.”


Oração:

Senhor, se algum dia eu tiver a desgraça de destruir com uma falta grave, a graça na minha alma – as surpresas são sempre possíveis, não obstante dever contar com grande confiança no auxílio de Deus para ser constantemente fiel – recorrerei logo ao Sacramento do perdão. A confissão, que costuma certamente agir em mim como sacramento de vivos, se tenho a felicidade de viver habitualmente em estado de graça, atuaria então segundo a sua força constitutiva original e como sacramento que tem por fim primordial fazer passar a alma da morte à vida. Não me preserveis somente das quedas graves; fazei que não haja nada em mim que Vos desgoste e siga à risca o conselho de São Paulo: “Não contristeis o Espírito Santo”. Fazeis mais ainda! Fazei que, segundo outra palavra de São Paulo, eu viva “conforme o Espirito” que, penetrado cada vez mais da Vossa presença em mim, eu cresça todos os dias em intimidade convosco” (Pe. Raul Plus – Em União com o Espirito Santo – Quadrante)
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Vem Espírito Santo, toma-me!

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Emitte Spiritum tuum et creabuntur, «Enviai o vosso Espírito e tudo será criado"




Quando, no reinado de Sixto III (432-440), quiseram embelezar o batistério de latrão, mandado construir por Constantino para o seu batismo, colocaram sobre a cimalha octogonal das colunas, uma inscrição latina, cujas estrofes podem prestar-se para uma meditação fecunda. Trancrevo alguns:

"Aqui nascem de uma sublime aliança aqueles que estão destinados a possuir o Céu. Nascem do seio das águas fecundadas pelo Espírito Santo de Deus. Ó pecador, tu que queres purificar-te do teu pecado, mergulha-te nestas águas sagradas. Entrarás nelas com as enfermidades do velho homem e delas sairás renovado. A Igreja faz nascer do meio das ondas os que aqui vêm e que ela, sua Mãe, concebeu sob a ação do Espírito divino. Ó nascimento virginal! Vós todos que renasceis destas águas, tendes direito ao Reino dos Céus ... Não há divisão entre os que renascem aqui; todos fazem um só, porque têm uma só e mesma fonte, um só Espírito, uma só fé ».

Fonte: Em União com o Espírito Santo - Pe. Raul Plus - Quadrante - pag.19.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Filhos são Bençãos



Filhos. Que eles são bençãos eu sei, as Sagradas Escrituras nos mostram como tal, e vivo esta benção em meu lar, já que o Senhor me deu dois filhos maravilhosos e que só fazem minha vida e a do meu esposo ter sentido. Somos uma família que se ama, que se ajuda e que quer caminhar neste mundo buscando corretamente o caminho santo de estar e viver em Deus e para Deus.

Muitos casais não se realizam dentro do matrimônio, por buscar a felicidade – porque no fundo é isso que todos buscamos – onde ela não está, e quando dão demasiada importância a coisas que não são prioridades, e por isso muitas vezes se frustram na caminhada. Infelizmente, quantos de nós pouca ou nenhuma formação tivemos antes de nosso matrimônio, este que constitui uma linda vocação e que precisa de preparo para vive-lo bem diante de Deus. Para formar um padre leva-se anos, para formar um casal, leva-se dois, três encontros? Muitos casais erram, deixam de ter a plenitude da felicidade, por simples desconhecimento do que Deus propôs a eles.

É possível excluir de nossas vidas algo que é natural, que é um grande bem, que traz felicidade, porque fomos ensinados, que é mal, aquilo que na realidade é um bem? Sim, digo que sim. Tudo porque temos tido professores ruins: o mundo, a Tv, as revistas, os maus livros e ainda as pessoas mal formadas. São tantas fontes falsas, com tamanho poder de persuasão, que soa aos nossos ouvidos, como se falassem a verdade. O que acontece é que aquele velho ditado: água mole em pedra dura, tanto bate até que fura - continua valendo, sobretudo em relação ao matrimônio.

Toda pessoa que se casa, deve pelo menos ter ouvido que a fidelidade, a indissolubilidade e os filhos fazem parte, ou, são os bens que envolvem este sacramento. Sim, são bens e eles devem ser aceitos pelos cônjuges para que seja lícito este casamento. Portanto, diante de Deus, prometeram ser fieis em todas as circunstâncias, que seriam fieis até o fim - (e não eterno enquanto dure - frase infeliz esta...) -, e que precisam aceitar os filhos que o Senhor mandar. Perfeito! Acontece que muitos ou se esquecem deste juramento ou acham que a responsabilidade é grande demais. Mas pergunto eu: que bem neste mundo não envolve responsabilidade e obrigações? Você já viu alguém rejeitar uma casa, pelo fato de que tem que pagar o IPTU, agua, luz, mante-la limpa e conservada? Pois então, é um bem que todos queremos e lutamos para ter, mesmo com as obrigações.

Então porque se foge dos três bens do matrimônio quando se pensa nas obrigações que eles implicam, se são exatamente eles que trarão a felicidade e a boa convivência, que tanto desejamos enquanto namorávamos e noivávamos?

Nascemos para a amar e ser correspondidos no amor. Temos esta vida para aprendermos a amar a Deus e aos homens. Somente seremos plenamente felizes se tudo fizermos para termos estes bens e se preciso for sofrermos para consegui-los. Se fizermos uma analise dentro de nós, descobriremos que é isto que buscamos, uma família unida, amorosa, fiel, com esposos que crescem a cada dia no respeito, na confiança, na entrega de si mesmo, no caráter e na dignidade. Sermos capazes de amar e servir é tudo que nos fará felizes, e sendo felizes, faremos os outros felizes, e como famílias felizes e ajustadas no amor, teremos filhos felizes e uma sociedade feliz. Utopia? Não! desejo de Deus para nós, quando nos derrama as graças sacramentais, pois são elas que nos dão forças e sabedoria para buscar este amor e esta família tal a família de Nazaré. ”A graça deste sacramento destina-se a aperfeiçoar o amor dos conjuges e a fortalecer a sua unidade indissolúvel ”(Lg 11).

O que os casais devem reaprender hoje é que precisam desejar a fidelidade, tanto entre eles como para com os filhos. E os pais precisam viver assim e ensinar aos filhos para que uma nova geração possa nascer.

Muitos não querem mais filhos para não privarem o que já tem de coisas consideradas boas para ele, sendo que uma família com mais filhos, se for regida no amor, na partilha, no respeito, só tende a ser uma familia maravilhosa, onde ninguém é peso para ninguém, muito pelo contrário, a união gerada entre os membros, diminui a carga de todos.

O Papa João Paulo em sua homilia de II de 7 de outubro de 1979 disse: “É sem dúvida menos grave negar aos filhos determinadas vantagens materias e comodidades do que priva-los da presença dos irmãos, que poderiam ajuda-los a crescer em humanidade e a compreender a beleza da vida em todas as suas idades e em toda a sua variedade"

Vocês já ouviram dizer que quando Deus manda um bebê, manda um cheque junto com ele? Pois é fato que sempre conseguiremos cuidar de nossos filhos dignamente, se de fato, acreditamos que Deus cuida de nós e não nos desampara nunca. E Ele não desampara!

O padre Cormac Burke, em seu livro” Amor e casamento”, nos conta que em suas viagens sempre ouve coisas interessantes , um dia ouviu de um queniano, quando este soube que no ocidente a porcentagem de filhos é de 1,2 por família: - “Os casais do ocidente devem ser muito pobres, se não tem condições de criar mais de 2 filhos…”, o Padre diz que conhece uma família Africana com 18 filhos e nenhum carro e uma americana com 18 carros e nenhum filho, ele diz não ter dúvida que a família africana é somente 18 vezes mais feliz que a americana.

Infelizmente estamos sendo enganados pela mentalidade do ter, do prazer egoísta, da vaidade, e em consequência está se criando uma geração de pessoas solitárias, vazias, que não veem sentido na vida, simplesmente pelo fato de que não aprenderam a dividir, a se relacionar, e em ultimo caso, a amar.

Nasceu em nossa sociedade uma"mentalidade contraceptiva", onde passamos a acreditar que temos que ter poucos filhos, que a vida está dificil, que não temos temos para a família. Participamos de uma concorrência cruel, competição em todos os campos. Somos muitos individualistas e se formos honestos suficientes, muitos não querer doar-se, gastar a vida para gerar outros. Esta ideologia social de pseudoliberdade leva o indivíduo a agir sobretudo segundo os seus próprios prazeres, os seus interesses e a sua utilidade. O compromisso assumido em relação ao cônjuge adquire uma conotação de simples contrato que pode ser revisto de modo indefinido; a palavra dada só tem um valor limitado no tempo; não se responde pelos atos pessoais,

O que não se percebeu ainda é que estão se privando de um bem magnífico quando fala em limitar o número de filhos. É certo que existe casais que por razões de saúde, econômicas, precisam recorrer a um planejamento natural e muitas vezes o fazem com pesar. O que acontece, é que muitos se privam deste bem, achando que estão fazendo bem a si mesmos.

Desde quando bens materiais trazem felicidade? eles definitivamente não mantem um casal unido, os filhos sim, se forem gerados no amor e para o amor. Quando os temos, nos unimos por eles, trabalhamos para eles, queremos que façam parte das conversas e resoluções conosco. Ao envelhecermos não estaremos sós, pois nossos filhos nos ajudarão, serão nossas alegrias e nos darão, com certeza, o maravilhoso sentimento do dever cumprido.

Não precisamos de auto-afirmação, precisamos de auto perpetuação, para isso Deus nos criou. Queiramos os filhos que Ele quer que tenhamos, para sermos de fato, felizes nesta vida e na outra. Existe um único mandamento de Deus que vem acompanhado de uma promessa de benção, para aqueles que o cumprem, - este foi feito aos filhos. Honrar os pais significa, portanto ama-los e obedecer-lhes como é devido, provendo ao seu cuidado todo tipo de ajudas espirituais e materiais, quando a idade e situação assim o requeiram.

«Visto que os pais deram a vida aos filhos, têm a gravÍssima obrigação de educar a prole, e, portanto, há que reconhecê~los como os primeiros e principais educadores dos seus filhos. Este dever da educação familiar é de tanta transcendência, que, quando falta, dificilmente pode suprido. É, pois, dever dos pais criar um ambiente de família animado pelo amor, pela piedade para com Deus e para com os homens, que favoreça a educação Íntegra, pessoal e social dos filhos ( .. ). Na família cristã, enriquecida com a graça e os deveres do sacramento do matrimónio, importa que os filhos aprendam desde os primeiros anos a conhecer e adorar a Deus e a amar ao próximo segundo a fé recebida no Baptismo ( .. ). Por meio da família, enfIm, introduzem-se (os filhos) na sociedade civil e no Povo de Deus. Considerem, pois, os pais a importância que tem a família verdadeiramente cristã para a vida e o progresso do mesmo Povo de Deus» (Gravissimum educationis, n. 3).

A família recebe, portanto, imediatamente do Criador a missão e, por isto mesmo, o direito de educar a prole; direito ao qual não pode renunciar por estar inseparavelmente unido a uma gravíssima obrigação; direito que é anterior a qualquer outro direito da sociedade e do Estado e que, por isso mesmo, não pode ser violado por nenhum poder terreno.

"O Doutor Angélico expressa assim a inviolabilidade deste direito: 'O filho é naturalmente algo do pai (. .. ); por isso, é de direiro natural que o filho, antes do uso da razão, esteja sob o cuidado do pai. Seria portanto contrário à justiça natural que a criança, antes do uso da razão, fosse subtraída ao cuidado dos pais, ou se dispusesse dela, de qualquer maneira, contra a vontade dos pais' (Suma Teológica, lI-lI, q.lO, a.12).

E como a obrigação dos pais continua até que a prole esteja em condições de se prover a si mesma, perdura também o mesmo inviolável direito educativo. 'Porque a natureza - ensina o Angélico -, não pretende somente a geração da prole, mas também o seu desenvolvimento e progresso até ao perfeito estado do homem enquanto homem, isto é, o estado de virtude'
(Suma Teológica, UI, Suplemento, q.41, a.1)>> (Divini illius Magistri, nn. 16-17).

"Os pais não devem mandar despoticamente, nem os filhos obedecer quando o mandato seja contrário à lei moral. Os pais, portanto, não podem exigir mais do que o razoável. Assim o adverte o Apóstolo: "Nao exaspereis os vossos filhos» (v. 4). A educação cristã há-de basear-se, pois, na caridade, no carinho e no respeito delicado dos pais pela liberdade dos filhos. "OS pais são os pnncipais educadores dos seus filhos, tanto no aspecto humano como no sobrenatural, e hão-de sentir a responsabilidade dessa missão, que exige deles compreensão, prudência, saber ensinar e, sobretudo, saber amar; e que se preocupem por dar bom exemplo. A imposição autoritária e violenta não é caminho acertado para a educação. O ideal dos pais concretiza-se antes em tornarem-se amigos dos filhos: amigos a quem se confiam as inquietações, a quem se consulta nos problemas, de quem se espera uma ajuda eficaz e amável» (Cristo que passa, n. 27)

Senhor, fazei-nos bons pais e bons filhos, para tua glória e para nosso bem! Amém.

terça-feira, 26 de maio de 2009

A dignidade do Padre - Parte III


Por Santo Afonso de Ligório

V. O alto posto ocupado pelo padre

A excelência da dignidade sacerdotal mede-se também pelo alto posto que o padre ocupa. No sínodo de Chartres, celebrado em 1550, é chamado “a morada dos santos”. Dá-se aos padres o título de vigários de Jesus Cristo, e assim os chama Sto. Agostinho, porque fazem as suas vezes na terra.

Tal é também a linguagem empregada por S. Carlos Borromeu no sínodo de Milão: Somos nós os embaixadores de Jesus Cristo; é Deus quem pela nossa boca vos exorta. Foi o que o próprio Apóstolo declarou. Subindo ao Céu, o divino Redentor deixou os sacerdotes para serem na terra os mediadores entre Deus e os homens, particularmente ao altar, como diz S. Lourenço Justiniano: "Deve o padre aproximar-se do altar como o próprio Jesus Cristo”.

S. Cipriano diz: “O padre ocupa verdadeiramente o lugar e desempenha o ofício do Salvador; e S. Crisóstomo: Quando virdes o sacerdote a oferecer o sacrifício, vêde a mão de Jesus Cristo estendida dum modo invisível”.

Ocupa também o padre o lugar do Salvador, quando remite os pecados, dizendo: Ego te absolvo. O grande poder que o Padre eterno deu ao seu divino Filho, comunica-o Jesus Cristo aos padres, De suo vestiens sacerdotes, segundo a expressão de Tertualiano.

Para perdoar um pecado, é necessário o poder do Altíssimo, como a Igreja o faz ouvir nas suas orações.

Tinham, pois, razão os judeus, quando, ao verem que Jesus Cristo perdoava os pecados ao paralítico, disseram: “Quem senão Deus pode perdoar os pecados?” Mas esta graça que só Deus pode fazer pela sua onipotência, o padre a pode também dispensar por estas palavras: Ego te absolvo a peccatis tuis; porque a forma, ou, se o quiserem, as palavras da forma, pronunciadas pelo padre nos sacramentos, operam imediatamente o que significam.

Qual seria o nosso espanto, se víssemos um homem que, mediante algumas palavras, tivesse a virtude de tornar branca a pele dum negro! O padre faz mais, quando diz: Eu te absolvo, — porque no mesmo instante demuda em amigo um inimigo de Deus, e um escravo do inferno num herdeiro do Céu.

O cardeal Hugues põe na boca do Senhor estas palavras, que representa dirigidas a um sacerdote ao absolver um pecador: Eu fiz o céu e a terra, mas dou-te o poder para fazeres uma criação mais nobre e melhor: duma alma manchada pelo pecado, faze uma alma nova (Faze uma alma nova, quer dizer, faze que uma alma pecadora e escrava de Lúcifer se torne minha filha). Mandei à terra que produza os seus frutos; dou-te um poder melhor, o de produzires frutos nas almas.Privada da graça é a alma como uma árvore seca, que não pode produzir nenhum fruto; mas, recobrando a graça pelo ministério do padre, produz frutos de vida eterna.

Santo Agostinho ajunta que a justificação dum pecador é uma obra maior que a de criar o céu e a terra. O Senhor diz a Jó: Tendes vós um braço como o de Deus, e uma voz trovejante como a sua? Ora, quem é que tem um braço semelhante ao de Deus e como Deus faz trovejar a sua voz? É o padre que, dando a absolvição, se serve do braço e da voz do próprio Deus, para livrar do inferno as almas.

Lemos em Sto. Ambrósio que o padre, quando absolve, opera o mesmo que faz o Espírito Santo, quando justifica as almas. Eis por que o divino Redentor, ao conferir aos padres o poder de absolver, lhes deu o seu Espírito: Soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo: aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, e a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos. Deu-lhes o seu Espírito que santifica as almas, e estabeleceu-os cooperadores seus, conforme a expressão do Apóstolo.

E S. Gregório ajunta: “Receberam o poder judicial supremo, para em nome de Deus, remirem ou reterem os pecados aos outros”. Razão tem pois S. Clemente de chamar ao padre um Deus na terra. Davi disse: Veio Deus à assembléia dos deuses.Segundo a explicação de Sto. Agostinho, os deuses de que fala são os sacerdotes. E eis o que diz Inocêncio III: “Os padres se chamam deuses, por causa da dignidade do seu ofício”.

VI. Conclusão

Mas, que horror ver, numa mesma pessoa, uma dignidade sublime e uma vida vergonhosa, uma profissão divina e obras de iniqüidade! Para longe de nós esta desordem, exclama Sto. Ambrósio; que as nossas obras estejam de acordo com o nosso nome! O que é uma alta dignidade num indigno, senão uma pérola caída na lama, pergunta Salviano?

O Apóstolo nos adverte que ninguém deve ser tão audacioso que se eleve ao sacerdócio, sem a vocação divina de Aarão, pois que nem Jesus Cristo se quis arrogar a honra do sacerdócio, mas esperou que seu Pai o chamasse a essa dignidade.