quinta-feira, 23 de julho de 2009

Credo - Setimo Artigo


Donde há de vir julgar os vivos e os mortos

Por São Tomás de Aquino

Julgar é função do rei: O rei, que está sentado no trono da justiça, pelo seu olhar dissipa todo o mal (Prov 20,8). Porque Cristo subiu ao céu e sentou-se à direita de Deus como Senhor de todos, evidentemente compete-lhe o juízo. Por isso, pela Regra da Fé Católica, confessamos que virá julgar os vivos e os mortos. Isto também, foi dito pelo Anjo: Este Jesus, que do meio de vós foi elevado aos céus, virá também assim como o vistes subir para os céus (Mt 1,11).

Devemos considerar nesse juízo três coisas:

Primeiro, a sua forma; segundo, que ele deve ser temido, e, terceiro, como para ele devemos nos preparar.

No juízo devemos ainda distinguir três elementos componentes: quem é o juiz, quem deve ser julgado e qual a matéria do julgamento.

Cristo é o juiz, conforme se lê no Livro dos Atos: Ele que foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos (10,42). Pode este texto ser interpretado, ou chamando de mortos os pecadores e, de vivos, os que vivem retamente; ou designando vivos, por interpretação literal, os que agora vivem, e, mortos, todos os que morreram.

Ele é juiz não só enquanto Deus, mas também como homem, por três motivos:

Primeiro, porque é necessário, aos que vão ser julgados, verem o juiz. Como a Divindade é de tal modo deleitável que ninguém a pode ver sem se deleitar, e nenhum condenado poderia vê-la sem que não sentisse logo alegria, foi necessário que Cristo
aparecesse em forma só de homem, para que fosse visto por todos. Lê-se em S. João: Deu-lhe o poder de julgar, porque é o Filho do Homem (5,27).

Segundo, porque Ele mereceu este ofício como homem. Ele, enquanto homem, foi injustamente julgado e, por isso, Deus O fez juiz de todos Lê--se: A tua causa foi julgada como a de um ímpio; receberás o julgamento das causas (Jo 36,17).

Terceiro, para que os homens não mais desesperem, vendo-se julgados por um homem. Se somente Deus julgasse, os homens ficariam desesperados. devido ao temor. (Mas todos verão um homem julgar), pois se lê em São Lucas: Verão o Filho do Homem vindo na nuvem (21.27). Serão julgados os que existiram, os que existem e existirão, conforme ensina São Paulo: Convém que todos nós sejamos apresentados diante do tribunal de Cristo, para que cada um manifeste o que fez de bom e de mal enquanto estava neste corpo (2 Cor 5,10).

Há quatro diferenças, segundo São Gregório, entre os que devem ser julgados.

Estes, ou são bons, ou são maus.

Entre os maus, alguns serão condenados, mas não julgados, como os infiéis, cujas ações não serão discutidas, porque, como está escrito, o que não crer já está julgado (10 3,18).

Outros, porém, serão condenados e julgados, como os fiéis que morreram em estado de pecado mortal. Disse o Apóstolo: o salário do pecado é a morte (Rom 6,23). Estes não serão excluídos do julgamento por causa da fé que tiveram.

Entre os bons também haverá os que serão salvos sem o julgamento, os pobres de espírito por amor de Deus. Lê-se em São Mateus: vós que me seguistes, na regeneração, quando o Filho do Homem estiver sentado em seu trono majestoso, sentar-vos-eis também sobre doze tronos, julgando as doze tribos de Israel (19,28).

Estas palavras não se dirigem só aos discípulos, mas a todos os pobres de espírito. Caso assim não fosse, São Paulo que trabalhou mais que todos, não estaria nesse número. Este texto deve, portanto, ser aplicado a todos os que seguiram os Apóstolos, e aos varões apostólicos. Eis porque São Paulo escreve: Não sabeis que julgamos os Anjos? (1 Cor 6,3). Lê-se ainda em Isaías: O Senhor virá com seniores e com os príncipes do seu povo (Is 3,14).

Outros serão salvos e julgados, isto é, aqueles que morreram em estado de justificação. Bem que tivessem morrido neste estado, erraram, todavia, em alguma coisa durante a vida terrestre. Serão, por isso, julgados, mas receberão a salvação.

Todos serão julgados pelos atos bons e maus que praticaram. Lê-se na Escritura: Segue os caminhos do teu coração. .. mas fica certo de que Deus te levará ao julgamento por causa deles (Ecle 11,9); Deus citará no julgamento todas as tuas ações, até as ocultas, quer sejam boas, quer sejam más (EcIe 13,14). Serão julgados também pelas palavras inúteis: Toda palavra inútil pronunciada por alguém, este dará conta dela no dia do juízo (Mt 12,36).

Serão julgados, por fim, pelos pensamentos que tiveram. Lê-se no livro da Sabedoria: Os ímpios serão argüidos a respeito dos seus pensamentos (1,9).

Fica assim esclarecida qual a matéria do julgamento.

Por quatro motivos deve ser temido aquele juízo:

Primeiro, devido à sabedoria do juiz, porque ele conhece todas as coisas, os pensamentos. as palavras e as ações, já que, como se lê na Carta aos Hebreus, todas as coisas estão nuas e abertas aos seus olhos (4,13). Lê-se ainda na Escritura: Todos os caminhos dos homens estão diante dos seus olhos (Prov 16,1). - Conhece Ele as nossas palavras: Os seus ouvidos atentos ouvem tudo (Sab 1,10). Conhece os nossos pensamentos: O coração do homem é depravado e impenetrável. Quem o pode conhecer? Eu, o Senhor, penetro rios corações e sondo os rins, retribuo a cada um conforme o seu caminho e conforme os frutos dos seus pensamentos (Jer 17,9).

Haverá neste juízo também testemunhas infalíveis, isto é, as próprias 'consciências dos homens, segundo se lê em São Paulo: A consciência deles servirá de testemunho no dia em que o Senhor julgar as coisas ocultas dos homens, enquanto pelos pensamentos se acusam ou se defendem (Rom 2,15,16).

Segundo, devido ao poder do juiz, porque Ele é em si mesmo todo-poderoso. Lê-se: Eis que o Senhor virá com fortaleza (Is 11,10). É poderoso também sobre os outros, porque toda criatura estava com Ele: Lê-se: O universo inteiro combaterá com ele contra os insensatos (Sab 5,2); Ninguém há que possa livrar-se da vossa mão (Jo 10,7); e ainda: Se subo aos céus, vós ali estais; se desço aos infernos, estais lá também(SI 138,8).

Terceiro, devido à justiça inflexível do juiz. Agora é o tempo da misericórdia. Mas o tempo futuro é tempo só de justiça. Por isso, o tempo de agora é nosso; mas o tempo futuro será só de Deus. Lê-se: No tempo que eu determinar, farei justiça (SI 134,3). O varão furioso de ciúmes não lhe perdoará no dia da vingança, não atenderá às suas súplicas, nem receberá como satisfação presentes, por maiores que. sejam (Prov 6,34).

Quarto, devido à ira do juiz. Aparecerá aos jústos doce e deleitável, porque, conforme diz Isaías: Verão o rei na sua beleza (Is 33,17). Aos maus, porém, aparecerá tão irado e cruel, que eles dirão aos montes: Caí sobre nós, e escondei-nos da ira do cordeiro (Ap 6,16).

Esta ira em Deus não significa uma comoção de espírito, mas signnica o efeito da ira, a pena infligida aos pecados, isto é, a pena eterna. A propósito disso escreveu Orígenes: Como serão estreitos os caminhos no juízo! No fim estará o juiz irado.

Contra este temor devemos aplicar quatro remédios.
O primeiro remédio é a boa ação. Lê-se em São Paulo: Queres não temer a autoridade? Faze o bem e receberás dela o louvor (Rom 13,3).

O segundo, é a confissão dos pecados cometidos e a penitência feita por eles. Na confissão deve haver três coisas: a dor interior, a vergonha da confissão dos pecados e o rigor da satisfação por eles. São essas três coisas que redimem a pena eterna.

O terceiro remédio é a esmola que toma tudo puro, segundo as palavras do Senhor: Conquistai amigos com o dinheiro da iniqüidade, para que, quando cairdes, eles vos recebam nas lendas eternas (Lc 26,9). (41)

O quarto remédio é a caridade, quer dizer, o amor de Deus e do próximo, pois conforme a Escritura: A caridade cobre uma multidão de pecados (lPed 4,8; cir. Prov 10,12).

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Música na Missa



Palavras do então Cardeal Ratzinger extraídas do livro "A Fé em crise? O Cardeal Ratzinger se interroga", no qual este foi entrevistado pelo jornalista italiano Vittorio Messori. São palavras do capítulo IX ("Liturgia, entre o antigo e o novo"), pp. 95-97:

Sons e arte para o Eterno

- Encontra aqui seu ponto de referência uma conversa sobre a música sacra, aquela música tradicional do Ocidente católico, para a qual o Vaticano II não mediu palavras de louvor, exortando não somente a salvar, mas a incrementar "com a máxima diligência" o que ele chama "o tesouro da Igreja" e, portanto, da humanidade inteira. E, apesar disso?

"E, apesar disso, muitos liturgistas puseram de lado esse tesouro, declarando-o 'esotérico', 'acessível a poucos', abandonaram-no em nome da compreensão por todos e em todos os momentos da liturgia pós-conciliar. Portanto, não mais 'música sacra', relegada quando muito a ocasiões especiais, às catedrais, mas somente 'música utilitária', canções, melodias fáceis, coisas corriqueiras".

- Também aqui o Cardeal consegue mostrar com facilidade o afastamento teórico e prático do Concílio, "segundo o qual, além do mais, a música sacra é, ela mesma, liturgia, e não um simples embelezamento acessório".

- E, segundo ele, seria fácil também demonstrar, na prova dos fatos, como "o abandono da beleza mostrou-se uma causa de "derrota pastoral". "Torna-se cada vez mais perceptível o pavoroso empobrecimento que se manifesta onde se expulsou a beleza, sujeitando-se apenas ao útil. A experiência tem demonstrado que a limitação apenas à categoria do "compreensível para todos' não tornou as liturgias realmente mais compreensíveis, mais abertas, somente as fez mais pobres. Liturgia 'simples' não significa mísera ou reles: existe a simplicidade que provém do banal e uma outra que deriva da riqueza espiritual, cultural e histórica".

"Também nisso", continua ele, "deixou-se de lado a grande música da Igreja em nome da 'participação ativa', mas essa 'participação' não pode, talvez, significar também o perceber com o espírito, com os sentidos? Não existe nada de 'ativo' no intuir, no perceber, no comover-se? Não há, aqui, um diminuir o homem, reduzindo-o apenas à expressão oral, exatamente quando sabemos que aquilo que existe em nós de racionalmente consciente e que emerge à superfície é apenas a ponta de um iceberg, com relação ao que é a nossa totalidade? Questionar tudo isso não significa, evidentemente, opor-se ao esforço para fazer cantar todo o povo, opor-se à 'música utilitária'. Significa opor-se a um exclusivismo (somente tal música), não justificado nem pelo Concílio nem pelas necessidades pastorais".
- Este assunto da música sacra, percebida também como símbolo da presença da beleza "gratuita" na Igreja, é particularmente importante para Joseph Ratzinger, que lhe dedicou páginas vibrantes:

"Uma Igreja que se limite apenas a fazer música 'corrente' cai na incapacidade e torna-se, ela mesma, incapaz. A Igreja tem o dever de ser também 'cidade da glória', lugar em que se reúnem e se elevam aos ouvidos de Deus as vozes mais profundas da humanidade. A Igreja não pode se satisfazer apenas com o ordinário, com o usual, deve reavivar a voz do cosmos, glorificando o Criador e revelando ao próprio cosmos a sua magnificência, tornando-o belo, habitável e humano. Também aqui, porém, como para o latim, fala-me de uma "mutação cultural", ou, mais ainda, de uma como que "mutação antropológica", sobretudo entre os jovens, "cujo sentido acústico foi corrompido e degenerado, a partir dos anos 60, pela música rock e por outros produtos semelhantes" Tanto que, e alude aqui também a suas experiências pastorais na Alemanha, hoje seria "difícil fazer ouvir ou, pior ainda, fazer cantar a muitos jovens até mesmo os antigos corais da tradição alemã".
- O reconhecimento das dificuldades objetivas não lhe impede defender apaixonadamente não apenas a música, mas a arte cristã em geral e sua função de reveladora da verdade:

"A única, a verdadeira apologia do cristianismo pode se reduzir a dois argumentos: os santos que a Igreja produziu e a arte que germinou em seu seio. O Senhor torna-se crível pela magnificência da santidade e da arte, que explodem dentro da comunidade crente, mais do que pelas astutas escapatórias que a apologética elaborou para justificar os lados obscuros de que abundam, infelizmente, os acontecimentos humanos da Igreja.Se a Igreja, portanto, deve continuar a converter, a humanizar o mundo, como pode, na sua liturgia, renunciar à beleza, que é unida de modo inseparável ao amor e, ao mesmo tempo, ao esplendor da Ressurreição?Não, os cristãos não devem se contentar facilmente, devem continuar fazendo de sua Igreja o lar do belo, portanto do verdadeiro, sem o que o mundo se torna o primeiro círculo do inferno".

sábado, 11 de julho de 2009

Santo Agostinho nos fala...


Queremos Ver a Deus? - Ou seja, chegar ao fim desse caminho... Confessemo-nos primeiramente, e desse modo se abre em nós um lugar para Deus, porque no seu lugar, está a paz. Quem não se arrepende verdadeiramentedos seus pecados, de certa forma permanece em luta contra Deus; não prepara um lugar para o verdadeiro Deus no seu coração, porque o lugar de Deus é a paz. E de que modo começamos a estar em paz com Deus? Confessando-nos a Ele.

A seguir, que faremos para unir-nos a Ele? Experimentaremos desgosto pelo que também desgosta a Deus, A Ele, desagrada-lhe a nossa vida má e, se ela continuar a agradar-nos secretamente, cedo ou tarde nos afastaremos dEle; mas se de verdade a nossa má vida nos desagrada, não hesitamos em unir-nos uma e outra vez a Ele pela confissão. E então já começamos a tornar-nos semelhantes a Ele, porque ao menos nos desagrada o mesmo que desagrada a Deus. Comecemos a bendizer o Senhor por meio da confissão; e acabaremos por unir-nos a Ele por meio da paz.

Mas ainda temos diante de nós uma longa luta, não apenas contra as tentações do demônio, e sim tudo contra nós mesmos: contra os nossos maus hábitos, contra a nossa decrépita vida má que nos arrasta para as velhas rotinas de pecado e nos afasta da vida de Cristo. É-nos anunciada uma vida nova, nós somos velhos: e se a alegria da nova vida nos arrebata, o peso da velha nos curva para o chão. Assim começa a travar-se a guerra dentro de nós.

Ouçamos o que diz o Apóstolo Paulo: Com o espírito sirvo a lei de Deus, mas com a carne a lei do pecado.

Como, com o espírito? Porque nos desagrada o que há de mau na nossa vida.

Como, com a carne? Porque não faltam em nós as incitações e inclinações perversas. Mas na medida em que, no nosso espírito nos vamos unindo a Deus, vencemos em nós o que não queremos cometer.

Assim é sempre: em parte avançamos, em parte ficamos para trás. Recorramos mais vezes a Deus, levemo-nos a nós mesmos Àquele que nos eleva. Sentimo-nos abatidos pelo peso da nossa antiga atitude? Clamemos: Infeliz de mim! Quem me livrará do corpo desta morte? Quem me livrará daquilo que me causa angústia? Este meu corpo, que se corrompe ameaça arrastar consigo a alma: quem me libertará? E a resposta é sempre a mesma: A graça de Jesus Cristo nosso Senhor.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

As Aparências e a Verdade




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Por Dom Eugenio Sales - Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro

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A sobrevivência de um povo como nação pressupõe o respeito à autoridade civil e a contribuição leal ao bem comum. Em outras palavras, faz-se mister: o cumprimento de deveres, e não apenas a exigência de direitos. O poder que vem de Deus para serviço aos irmãos e às atividades dos cidadãos, conforme a ética, estabelecem os alicerces desse edifício. Entretanto, algo mais se requer: um espírito que anime essa estrutura e a preserve da decomposição. Refiro-me a um caráter íntegro das pessoas no meio civil e também eclesial.

A atual aceleração do ritmo nas transformações sociais, políticas, econômicas e culturais gerou súbitas e profundas alterações no sistema de vida comunitária. Em consequência, há uma defasagem entre os valores de ontem e hoje, acobertando-se muitos num clima de ambiguidade. A fuga a uma definição clara de posições, por trazer problemas e dificuldades no relacionamento humano, leva a uma nefasta opção pela penumbra, o lusco-fusco. A luz cede lugar à sombra ou, o que é mais grave, às meias verdades. Estas multiplicam monstros, germes fatídicos que mutilam reputações e destroem criaturas, mais facilmente que a própria mentira ou calúnia. Matam, sem derramamento de sangue, num homicídio mais doloroso que o cometido por facínoras, no sentido habitual da expressão. Na origem dessa degenerescência há o medo, ele constitui o grande mal de nossos dias, que nos leva a alterar atitudes corretas diante da pressão da opinião pública. Sem discernir, aceita-se o que se propala, sem distinguir o falso do verdadeiro. A abdicação da autonomia pessoal possibilita a volta da tolerância, habitualmente manejada por uma minoria que a catalisa para seus fins escusos.

Recordemos o Evangelho: "Seja o vosso 'sim', sim e o vosso 'não', não" (Mt 5,37). A objetividade dos julgamentos não pode ser relegada a um ponto inferior e os abusos e erros assumem posições incompatíveis com a autenticidade na esfera civil e também eclesiástica. O posto do árbitro se converte em arbítrio.

As consequências são funestas. A insinceridade no trato corrompe o sadio relacionamento social. Por exemplo: o natural desejo de saber as últimas notícias pode se transformar em ânsia doentia, levando os fracos de caráter a revelar episódios sem um prévio exame de sua autenticidade. Gera um clima funesto que propicia dolorosas injustiças quanto ao direito sagrado que é a boa fama. Uma vez lançada à mentira, mais grave ainda se possui parcela de veracidade, deforma-se a reputação do próximo e rouba-se um tesouro a respeitabilidade alheia. Por vezes, o dano é irreparável.

Ao ladrão impõe-se uma penalidade; a esses larápios da fama alheia, mais prejudiciais que os primeiros, pouco se lhes dá como castigo de um verdadeiro crime. A opinião pública, formada sutilmente pela propagação de versões falsas, exerce, em nossos dias e através da fácil comunicação das ideias, uma real e insuportável tirania. A imagem do outro fica à mercê de indivíduos que destroem alguém enlameando-lhe a honra. Uma mente doentia tenta saciar-se na procura de escândalos, na inútil tentativa de justificar as próprias mazelas. A busca de cargos ou o empenho em fazer vencer opiniões, facções ou correntes de pensamento tecem genuínas teias que envolvem incautos. Estes se tornam, inconscientemente, fautores de males inumeráveis, incomensuráveis.

Essa situação indigna de um cristão ou simples homem de bem pode penetrar no santuário.

Por isso, o Concílio Vaticano II, no documento sobre o ministério e a vida dos sacerdotes, ao tratar da eficácia de sua missão no mundo, declara: "Para cumprirem tal meta, muito contribuem as qualidades que gozam de merecida estima na convivência humana, como sejam: bondade de coração, sinceridade, coragem e constância, o culto vigilante da justiça, a delicadeza e outras que o apóstolo Paulo recomenda (Fl 4,8)". E inclui um trecho de São Policarpo (Comentário da epístola aos Filipenses, VI, 1): "E os presbíteros sejam inclinados à compaixão, misericordiosos para com todos, reconduzindo os extraviados, visitando todos os doentes, não esquecendo as viúvas, os órfãos e os pobres; mas solícitos sempre do bem junto de Deus e dos homens, abstendo-se de toda a ira, acepção de pessoas, juízos injustos, afastando para longe toda avareza,não acreditando facilmente contra alguém, não demasiados severos nos juízos, conscientes de que todos somos devedores do pecado".

A honradez e demais virtudes que caracterizam um homem de bem constituem o esteio das instituições. O apreço que se lhes deve é sinal da dignidade humana. Ao contrário, se inexistem ou são desprezadas, enfraquecidas, inúmeros danos eclodem na comunidade, inclusive religiosa.

Jamais se constrói uma pátria digna desse nome ou se preserva a Igreja de muitas deficiências sem as virtudes humanas devidamente apreciadas. Esses hábitos são essenciais à harmonia e ao respeito mútuo, bem como ao relacionamento entre pessoas probas. Sobre esse patamar e somente nele se edifica uma vida cristã autêntica. Antes de alguém ingressar pelo batismo na instituição fundada pelo Senhor, o candidato é admitido no convívio temporal, isto é, nasce.

A formação correta de um redimido pelo sangue do Redentor inclui a dignidade pessoal.

Católicos ou não, tenhamos consciência de uma condição para vencer a decomposição social: ter um caráter bem formado.

Ser um homem honesto, não importa as consequências. A verdade independentemente do número dos que a aceitam. Somente ela nos libertará: "A verdade vos libertará" (Jo 8,32).

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Maravilhoso!! DEus seja louvado pela vida de Dom Eugenio.

Fonte: http://www.pastoralis.com.br/pastoralis/html/modules/smartsection/item.php?itemid=371

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Toda é formosa, amada minha, e mácula alguma há em ti (Cant IV, 7)


Maria esteve sempre imune de todo pecado.

1º) No instante de sua conceição.

Pois se cre razoavelmente que gerou ao Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade, receberia maiores privilégios de graça que todos os outros. Pelo qual, como se lê em São Lucas (I, 28): "O anjo lhe disse: Deus te salve, cheia de graça". Sabemos, não obstante, que alguns outros foi concedido o privilégio de ser santificados no seio materno, como a Jeremias, al qual se diz (I, 5): "Ante que saístes do ventre materno, te santifiquei"; também a João Batista, do qual se há dito: "E será cheio do Espírito Santo, mesmo desde o ventre da sua mãe (Luc I, 15)".
Logo, para que recebesse mais, Maria devia não só ser santificada no seio materno, senão também preservada da culpa original.

Esta infusão da graça santificante não se verificou antes da animação, senão no primeiro instante da animação.

Os fatos que tiveram lugar no Antigo Testamento são figura do Novo, conforme àquilo: "Todas estas coisas aconteciam a eles em figuras (I Cor X, 11)". Mas pela santificação do tabernáculo, do qual se diz: "Santificou seu tabernáculo o Altíssimo (Sal XLV, 5)", parece significar a santificação da Mãe de Deus, chamada tabernáculo de Deus conforme aquilo do Salmo (XVIII, 6): "Armou para o Sol um tabernáculo". Do tabernáculo se diz no Êxodo: "Depois que foram cumpridas todas estas coisas, cubriu uma nuvem o tabernáculo do testemunho, e encheu a glória do Senhor (Ex XL, 31-32)".

Logo assim mesmo a Bem-Aventurada Virgem não recebeu a graça senão quando foram cumpridas todas suas coisas, a saber: Corpo e alma (quer dizer, no mesmo instante).

2º) Durante toda sua vida.

Deus prepara e dispõe a quem elege para algo, de modo que se fazem idôneos para os que são elegidos: "Nos hão feitos ministros idôneos do Novo Testamento (II Cor III, 6)". Se pois, a Bem-Aventurada Virgem foi eleita por Deus para que fosse Mãe de Deus, não deve duvidar-se que Deus a fez idônea para isto por sua graça, segundo o que o anjo disse: "Há achado graça diante de Deus; eis que conceberás... (Lc I, 30)".

Não havia sido, se alguma vez houvesse pecado; já porque a honra dos pais redunda nos filhos, segundo aquilo: "Glória dos filhos são seus pais (Prov. XVII, 6)", e pelo contrário a ignomínia da mãe redundaria no filho; já também porque teve singular afinidade com Cristo , que recebeu dela sua carne. Se diz na 2ª carta aos Coríntios (VI, 15): "Que concórdia entre Cristo e Belial? O que tem em parte o fiel com o infiel?"

Já também, porque o Filho de Deus, que é a Sabedoria de Deus, habitou nela de modo singular, não somente em sua alma, senão também em seu seio. Mas se diz no Livro da Sabedoria (I, 4): "Por quanto na alma maligna não entrará a sabedoria, nem morará no corpo submetido a pecados"; por conseguinte, é preciso reconhecer que a Bem-Aventurada Virgem não cometeu pecado algum atual, nem mortal nem venial; para que assim se cumprisse nela o que se diz: "Toda é formosa, amada minha, e mácula alguma há em ti (Cant IV, 7)".



(Sum. Theol. 3ª, q. XXVII, a. IV)
Pe. Mézard O. P. - Meditationes ex operibus S. Thomae derromptae (trad. en castelhano por Luiz M. de Cádiz. Ed. Emecé, Buenos Aires, 1948)

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sexta-feira, 26 de junho de 2009

Lançar -se aos Pés de Jesus!!! Eis a Sabedoria



Odes de Salomão (texto cristão hebraico do início do século II)


"Lançou-se aos pés de Jesus, com a face em terra, e agradeceu-lhe"

Cristo está perto de mim: adiro a ele e ele abraça-me. Eu não teria sabido amar o Senhor se ele mesmo não me tivesse amado primeiro. Quem pode compreender o amor, senão aquele que ama? Eu abraço o amado e a minha alma acolhe-o e, lá onde ele repousa, aí eu me quedo. Não serei mais um estrangeiro para ele porque não há ódio no Senhor. Estou ligado a ele como a amante que encontrou o amado.

Porque amo o Filho, tornar-me-ei filho. Sim, eu adiro àquele que não morre, que não morrerá. Aquele que se compraz na Vida, permanecerá também ele vivo. É assim que, sem falsidade, o Espírito do Senhor ensina os homens a conhecerem os seus caminhos.

domingo, 21 de junho de 2009

Credo - Sexto Artigo



Subiu aos céus e está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso.

Por São Tomás de Aquino

Depois de se afirmar a Ressurreição de Cristo, convém crer na Sua Ascensão, pois Ele subiu para o céu após quarenta dias de ressuscitado. Eis porque se diz no Credo: "Subiu aos céus.". Devemos considerar as três características principais deste acontecimento, isto é, que ele foi sublime, racional e útil.

Foi sublime, porque Ele subiu para os céus.

Explica-se isto de três maneiras:

Primeiro porque Ele subiu acima de todos os céus corpóreos, conforme se lê em São Paulo: Subiu acima de todos os céus (Ef 4,10). Tal ascenção foi realizada pela primeira vez por Cristo, porque até então o corpo terreno estivera somente na terra, sendo o paraíso onde esteve Adão, situado também na terra.

Segundo porque subiu sobre todos os céus espirituais, isto é, acima das naturezas espirituais, como se lê também em São Paulo: Colocando (o Pai) Jesus à sua direita nos céus, sobre todo principado, Potestade, Virtude, Dominação e acima de todo nome que se pronuncia não só neste século, mas também nos futuros e tudo colocou sob os seus pés (Ef 1,20) .

A Ascensão de Cristo foi racional por três motivos.

Primeiro, porque o céu era devido a Cristo por exigência da sua natureza. É, com efeito, natural que cada coisa retome à sua origem. Cristo tem sua origem em Deus, que está acima de todas as coisas, conforme Ele mesmo disse: Saí do Pai, e vim ao mundo; deixo agora o mundo e volta para o Pai (J o 16,18). Disse também: ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do Homem que está no céu (Jo 3,13), Apesar de os Santos irem para o céu, todavia não o fazem como Cristo: porque Cristo o fez por seu próprio poder; os santos, porém, levados por Cristo. Lê-se no Livro dos Cânticos: Leva-me na Vossa seqüência (Cant 1,3). Pode-se explicar de outra maneira porque se diz que ninguém subiu ao céu a não ser Cristo: os Santos não sobem senão enquanto membros de Cristo; que é a cabeça da Igreja, conforme está escrito em São Mateus: Onde estiver o corpo, aí as águias se congregarão (24,28).


Em segundo lugar, a Ascensão de Cristo foi racional devido à sua vitória. Sabemos que Cristo veio ao mundo para lutar contra o diabo, e o venceu. Por isso mereceu ser exaltado sobre todas as coisas. Confirma-o o Apóstolo: Eu venci, e sentei-me com o Pai no seu trono (Ap 3,21).

A Ascensão de Cristo foi racional, em terceiro lugar, por causa da humildade de Cristo, que, sendo Deus, quis fazer-se homem; sendo Senhor, quis suportar a condição de escravo, fazendo-se obediente até à morte, segundo se lê na Carta aos Filipenses (2,1), descendo ainda até ao inferno. Por isso mereceu ser exaltado até ao céu e sentar-se à direita de Deus. A humildade é, com efeito, o caminho da exaltação, como se lê em São Lucas: Quem se humilha, será exaltado (14,11). Escreveu também São Paulo: O que desceu do céu, este é o que subiu acima de todos os céus (Ef 4,10).

A Ascensão de Cristo foi além de sublime e racional, também útil.

Essa afirmação pode ser esclarecida em três dos seus aspectos.

O primeiro, refere-se ao fim da Ascensão, pois Cristo foi para o céu para nos conduzir até lá. Desconhecíamos o caminho, mas Ele no-lo ensinou, Lê-se: Subiu abrindo o caminho na frente deles (Mt 2,13). Subiu ao céu também para nos fazer seguros da posse do reino celeste, conforme se lê em São João:Vou preparar-vos o lugar (Jo 14,2).

O segundo, refere-se à segurança que a Ascensão nos trouxe, pois subiu aos céus ;para interceder por nós. Lê-se: Subiu por si mesmo aa Deus sempre vivo para interceder por nós (Heb 7,25). Lê-se também: Temos um advogado junto do Pai, Jesus Cristo (1 Jo 21),

O terceiro, para atrair a si os nossos corações, segundo está escrito em São Mateus: Onde está o teu coração está o teu tesouro (6,21), e para que desprezemos as coisas temporais, como nos exorta o Apóstolo S. Paulo: Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus; saboreai as coisas do alto e não as da terra (Col 3,1).

Terceiro porque subiu até ao trono do Pai. Lê-se nas Escrituras: Eis que vinha sobre as nuvens do céu como um Filho de Homem; Ele dirigiu-se para o Ancião, e foi conduzido à sua presença (Dan 7,13). Lê-se também em São Marcos: E o Senhar Jesus, depois de lhes ter falado subiu ao céu, e sentou-se à direita de Deus (16,19).

A expressão direita de Deus não deve ser entendida em sentido corporal, mas em sentido metafórico. Enquanto Deus, diz-se que Cristo está sentado à direita de Deus, porque é igual ao Pai; enquanto homem, diz-se que Cristo está sentado à direita do Pai, porque goza dos melhores bens. O diabo aspirou também semelhante elevação, como se lê em Isaías: Subirei ao céu, acima dos astros de Deus colocarei o meu trono; sentar-me-ei no Monte da Promessa, que está do lado do Aquilão; subirei acima da elevação das nuvens, serei semelhante ao Altíssimo (14,13). Mas a tal altura não se elevou senão Cristo, razão pela qual se diz no Credo: Subiu aos céus e está sentado à direita do Pai, o que é confirmado no Livro dos Salmos: Disse o Senhar ao meu Senhor, senta-te a minha direita (SI 109,1).

terça-feira, 16 de junho de 2009

O Caminho do Dever



A criança que, desde os mais tenros anos, for educada na honestidade e rectidão, cumprirá nobremente o seu destino quando se tornar homem, e atravessará a vida sem perigo de naufragar. (PLATÃO)


Conheces a história de Hércules, o herói maior das lendas gregas? Foi um modelo de força e de bravura. Criancita ainda, sufocou duas serpentes que um inimigo, no malvado intuito de o fazer perecer, lhe tinha colocado no berço. Mais tarde, matou a hidra de Lerna e o touro de Creta; venceu as amazonas; limpou as cavalariças de Ogias; apoderou-se dos pomos de ouro das Hespéridas ...

Ora um dia aconteceu encontrar· se na bifurcação de dois caminhos. Qual deles seguiria?

Escola do caminho a seguir

Era chegado a época da adolescência. Duas mulheres se lhe apresentaram, e uma delas, tomando a palavra, dirigiu-se-Ihe nestes termos:

_ «Vejo, Hércules, o teu embaraço por não saberes como conduzir-te na vida. Não te preocupes mais. Ségue-me e eu te levarei por um caminho agradável onde só conhecerás prazeres. As dificuldades desaparecerão por si mesmas. O teu único cuidado será comer e beber. Vem. conheço o caminho do prazer fácil."

_ «Como te chamas ?»-perguntou Hércules.
_ «Os amigos chamam-me Felicidade; os inimigos, Vício.»

Voltou-se por sua vez para ele a segunda mulher e disse-lhe:

_ «Não quero de modo nenhum fascinar-te com falsas miragens. Prefiro dizer-te a verdade em toda a sua rudeza simples. Os deuses, Hércules, não concedem a felicidade, sem luta. Por isso, se me seguires, o teu trabalho será penoso. Se quiseres que a Grécia te honre por uma vida virtuosa, esforça-te por colaborar com ela no bem geral. Se desejares que a terra te prodigalize riquezas, toma a charrua e trabalha. Se aspirares a que a vitória te sorria no campo da batalha, vai a casa dos heróis e exercita-te no manejo das armas. Se, finalmente, quiseres que os teus músculos sejam rijos como o aço, sujeita o corpo ao espírito, suporta o pesado fardo da existência e sofre.»

- «Repara, Hércules,-interrompeu o Vício - como é duro o caminho por onde esta mulher deseja levar-te, enquanto eu te conduzirei tão fàcilmente à felicidade!....

- «Miserável- gritou a virtude - que felicidade podes tu dar? como te atreves a pronunciar sequer o nome de felicidade, se nada fazes para adquiri-Ia? Tu comes antes de ter fome e bebes antes de ter sede. No calor do estio reclamas neve. Queres descansar sem ter feito nada. Levas os teus sequazes ao amor ântes da idade prefixa pela natureza. Tu desonras a terra com a impudicícia do homem e da mulher. Habituas os teus partidários a praticar o mal durante a noite e a dormir durante o dia. Embora sejas imortal, os deuses evitam-te e os homens de bem desprezam-te. Teus jovens amigos arruínam o corpo e os mais velhos, a alma. Na juventude sacía-Ios de prazeres até os cansares de tédio para depois, quando atingirem a idade madura, os transformares em pobres vencidos da vida.

Quanto a mim, convivo com os deuses e com o melhor dos homens. Nenhuma acção digna se faz sem mim; por isso os deuses e os homens honram-me. Os artistas veneram-me como seu amparo e os pais de família constituem-me guarda dos seus lares. O pão e o vinho têm um sabor agradável na boca dos que me seguem, porque só comem quando têm fome e só bebem quando têm sede. O sono é-lhes mais suave do que ao preguiçoso, porque não lhe sacrificam nenhum dos seus deveres. Os amigos estimam-nos.; a Pátria honra-os. E, quando chega o momento derradeiro, não são lançados no esquecimento; a sua memória continua a viver. Hércules, descendente de uma raça ilustre, se agires assim, adquirirás uma glória imortal.»


Isto li eu na história de Hércules, no terceiro livro dos Memoráveis de Xenofonte. Contei-to, - meu filho, porque também tu te encontrarás em face de dois caminhos, segundo as palavras da Escritura: «Os desejos da carne são contrários aos do espírito» (Gal. V; 17). Também tu serás obrigado a optar por um deles

Fonte: Tihamar Toth - Juventude Radiosa - Quadrante