sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Cristo desceu à mansão dos mortos


"Um grande silêncio reina hoje sobre a terra; um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei dorme. A terra estremeceu e ficou silenciosa, porque Deus adormeceu segundo a carne e despertou os que dormiam há séculos [...]. Vai à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Quer visitar os que jazem nas trevas e nas sombras da morte. Vai libertar Adão do cativeiro da morte. Ele que é ao mesmo tempo seu Deus e seu filho [...] "Eu sou o teu Deus, que por ti me fiz teu filho [...] Desperta tu que dormes, porque Eu não te criei para que permaneças cativo no reino dos mortos: levanta-te de entre os mortos; Eu sou a vida dos mortos"(.Antiga homilia para Sábado Santo: PG 43. 440.452.461 [ Sábado Santo, 2ª Leitura do Ofício de Leituras: Liturgia das Horas, s. 2 (Gráfica de Coimbra 1983) p. 454-455


Nosso Senhor Jesus Cristo para nos remir, padeceu no corpo e na alma os maiores suplícios. Podemos pelos Evangelhos, percorrer sua dolorosa Paixão e constatar que grande amor nos tinha Ele, para sofrer assim. Para satisfazer a grande ofensa feita à Deus, veio ao mundo para morrer como vítima eficaz e agradável, nos merecendo o perdão dos pecados. Para tanto desceu do céu, se encarnou no seio da Virgem Maria pelo poder do Espírito Santo, e não se prevalecendo de Sua igualdade com Deus, “se fez” homem, constituído de alma e corpo, - por conseguinte, possuiu tudo o que o homem pode possuir, exceto o pecado -, se fez escravo, obedecendo à santa vontade do Pai que era salvar os homens. Era homem perfeito sem pecado e Deus perfeitíssimo, por ser a segunda pessoa da Santíssima Trindade criadora, salvadora e santificadora. Uma pessoa com duas naturezas, uma divina e uma humana. Verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.


Foi no IV Concílio Ecumênico, conhecido como Concílio de Calcedônia (celebrado no ano 451), que a Igreja formalizou dogmaticamente esta verdade. Eis como os Padres Conciliares definiram as duas naturezas em Cristo (Sessão VI – 22/10/451):

Seguindo, pois, os Santos Padres, unanimemente ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito na Sua divindade e perfeito na Sua humanidade, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, [composto] de alma racional e de corpo; consubstancial ao Pai quanto à divindade, consubstancial a nós quanto à humanidade, “em tudo semelhante a nós, menos no pecado” (Heb 4,15); gerado do Pai antes dos séculos, segundo a divindade; e, nos últimos tempos, por nós e para a nossa salvação, [gerado] de Maria Virgem, Mãe de Deus, segundo a humanidade; que se deve reconhecer um só e mesmo Cristo Senhor, Filho Unigênito, em duas naturezas, sem confusão, imutáveis, indivisíveis, inseparáveis, de nenhum modo suprimida a diferença das naturezas por causa de sua união, mas salvaguardada a propriedade de cada natureza e confluindo numa só Pessoa e hipóstase, não separado ou dividido em duas pessoas, mas um só e mesmo Filho Unigênito, Deus-Verbo, Senhor Jesus Cristo, como outrora nos ensinaram sobre Ele os profetas e depois o próprio Jesus Cristo, e como nos transmitiu o símbolo dos Padres.”

Pela sua Paixão, Jesus livrou-nos do pecado, livrou-nos do demônio, reconciliou-nos com o Pai e abriu-nos o Céu. Por Ele, pelo seu sangue temos hoje confiança de entrarmos no Santo dos Santos (Hb 10,19)

Para nos remir, Jesus pela graça de Deus, experimentou a morte, conheceu portanto, o estado de separação entre a alma e o corpo, - nos diz a carta aos Hebreus, que no momento de sua morte, foi feito, um pouco inferior aos anjos, por ter-se humilhado e se rebaixado à dor do castigo e à morte, penas que não estão submetidos os anjos. Esta separação entre sua alma e seu corpo se deu durante o tempo compreendido entre o momento em que expirou na Cruz e o momento em que ressuscitou.

Neste período, seu corpo foi ao sepulcro, aquele em que José de Arimatéia e Nicodemos prepararam para sua dignidade (Jo19,38-42). Durante sua permanência no túmulo, a sua natureza divina continuou a assumir tanto a alma como o corpo, apesar de separados entre si pela morte. Por isso, o corpo de Cristo morto «não sofreu a corrupção» (At 13,37). Eis porque no sepulcro estava presente o Filho de Deus, o qual desceu também com a alma aos infernos.

«Embora Cristo, enquanto homem tenha sofrido a morte e a sua santa alma tenha sido separada do seu corpo imaculado, nem por isso a divindade se separou, de nenhum modo, nem da alma nem do corpo; e nem por isso a Pessoa única foi dividida em duas. Tanto o corpo como a alma tiveram existência simultânea, desde o início, na Pessoa do Verbo; e, apesar de na morte terem sido separados, nenhum dos dois deixou de subsistir na Pessoa única do Verbo» (São João Damasceno, Expositio fidei, 71 [De Fide orthodoxa 3, 27]. PTS 12, 170 (PG 94, 1098


O Catecismo Romano VI,b, nos diz claramente que Cristo foi sepultado, realçando o sepultamento de seu corpo. “Não cremos simplesmente que o Corpo de Cristo teve sepultura; mas confessamos antes de tudo que o próprio Deus foi sepultado. De maneira análoga dizemos em toda a verdade, e conforme a regra de fé católica, que foi Deus quem morreu, e quem nascera de uma Virgem. De fato assim como a Divindade nunca se apartou do corpo, quando encerrado no sepulcro, assim temos também toda a razão de confessar que Deus foi sepultado”

Todos os mortos antes da morte de Cristo, desciam aos infernos: os justos para o círculo exterior, chamado Limbo dos Patriarcas ou Sheol, em que sofriam a pena de dano (ausência de Deus), mas não a de sentido (o fogo corpóreo) – não sentiam dores propriamente dita, mas sentiam uma enorme angústia pela privação de Deus, que tanto anelaram em vida -; e os incrédulos ou réprobos, para o inferno propriamente dito, sofrendo ambas as penas e por isso estavam terrivelmente atormentados pelo rigor destas penas que sofriam.

Enquanto seu corpo jazia no sepulcro, sua alma foi a esta morada dos mortos para pregar a todos os que ali jaziam. Livremente Ele vai buscar os que eram seus e que por ora, estavam cativos. Para entender porque estavam ambos justos e injustos nos infernos, precisamos saber que nosso pecado acarreta culpa e penas. A culpa foi paga por Cristo, mas as penas consistem além da morte do corpo, na punição da alma que estaria fadada a viver eternamente longe de Deus, ela que tem sede do Deus vivo. ( "...A pena do pecado original é a carência da visão de Deus; a pena do pecado atual é o tormento do inferno eterno..." - Papa Inocêncio III, na carta encíclica "Maiores ecclesias causas", a Imberto, arcebispo de Arles )

Enquanto Cristo não fosse ali para liberta-los, ficariam privados da glória de Deus. Quis Cristo morrer e descer aos infernos para carregar sobre si toda punição, mas o foi como livre que era. Os outros estavam como cativos do demônio, que tinha contra eles o documento que os condenava.

Entre a Morte e a Ressurreição desceu a alma de Jesus Cristo aos Infernos. Não se trata aqui do Inferno onde estão os réprobos, nem do Purgatório, onde passam as almas que o sofrimento deve limpar das menores nódoas antes de entrarem no Céu. Os Infernos lembrados no 5º artigo do Símbolo é o lugar onde repousavam as almas dos justos falecidos na amizade de Deus: o Limbo, ou, na linguagem da Escritura, o “Seio de Abraão”. Ali nada tinham que padecer as almas. Fruíam, pelo contrário, uma espécie de ventura natural, mas não podiam ingressar no Céu antes que Jesus lhes abrisse a porta inexoravelmente trancada pelo pecado de Adão. A alma do Salvador permaneceu, pois, na companhia desses espíritos durante as horas que correram desde a sua Morte até a Ressurreição. Qual era o fim desta passagem de Cristo pelo Limbo? Certamente foi para anunciar aos justos que estava consumada a obra da Redenção e que breve, graças a ela, dariam entrada no Céu. Portanto mal transpõe a alma de Jesus Cristo os umbrais desses recessos, eis que o Limbo já está feito Paraíso, para todos os justos que a ovacionam e contemplam. Não prometera Cristo na Cruz ao bom Ladrão: ‘Hoje estarás comigo no Paraíso’? (Lucas, XXIII, 43). Quando saiu do Limbo a alma vitoriosa do Salvador, formaram-lhe uma comitiva real todos esses espíritos bem-aventurados, acompanhando-a na terra até a hora de Jesus subir triunfante aos Céus, onde introduziria todos os presos que tinha libertado. Para Jesus Cristo, era uma humilhação esta descida ao Limbo. Ia, Ele também, encarcerar-se no ergástulo dos patriarcas e dos justos. Mas, seria também o primeiro passo na estrada da glória com a libertação e a coroação dos primeiros eleitos.”(Boulanger – Doutrina Católica – O Dogma, 1923)

Jesus não desceu à mansão dos mortos para de lá libertar os condenados [1], nem para abolir o inferno da condenação [2], - (Deus não predestina ninguém para o Inferno. Para ter semelhante destino, é preciso haver uma aversão voluntária a Deus (pecado mortal) e persistir nela até ao fim. Na liturgia eucarística e nas orações quotidianas dos seus fiéis, a Igreja implora a misericórdia de Deus, «que não quer que ninguém pereça, mas que todos se convertam» (2 Pe 3, 9).(Catecismo da Igreja Católica n.1037) - ; mas o fez unicamente - não para sofrer penas, pois nunca houve n’ Ele pecado algum -, com todo poder e magnitude, somente para libertar os seus amados, para libertar os justos que O tinham precedido [3].

Os justos apesar de sua justiça e santidade, não podiam transpor o limiar da Pátria Celestial, antes da morte de Jesus Cristo, o Sumo e Eterno Sacerdote (Hb 9,11). Logo que Cristo a sofreu, as portas de pronto se abriram a todos os que purificados pelos sacramentos, possuídos de fé e caridade, se tornaram participantes da sua paixão". (Catecismo Romano 4º artigo – frutos – n.5)

Se Cristo tudo havia feito para os seus em vida, terminaria sua missão para com eles depois de mortos, para mostrar perfeitamente seu amor e seu poder. E o fez de forma explêndida, invadindo a casa do inimigo de Deus – do Seu inimigo -, e dos homens, o subjugando, e triunfando sobre ele. Despojando os principados e as potestades, exibiu-os publicamente, triunfando deles na cruz (Col 2,15). Jesus que era o Senhor do Céu e da Terra, é Senhor também dos infernos que diante de Seu nome se dobra em reconhecimento e temor.

Jesus venceu a morte, ela foi tragada por sua vitória e nos libertou das garras do demônio, autor da própria morte. Jesus morreu pra libertar os vivos da morte e desceu aos infernos para libertar os que ai estavam. Vós também (Senhor), pelo Sangue do vosso testamento, tírastes os Seus que estavam presos na fossa, onde não havia água .. (Zac 9,11). – O morte, serei a tua morte, ó inferno, serei para ti como uma mordida. (Os 13,14).

A descida à mansão dos mortos é o cumprimento, até à plenitude do anúncio evangélico da salvação. É a última fase da missão messiânica de Jesus, fase condensada no tempo, mas imensamente vasta no seu significado real de extensão da obra redentora a todos os homens de todos os tempos e de todos os lugares, porque todos aqueles que se salvaram se tornaram participantes da redenção.

Após o terceiro dia, sua alma se uniu ao corpo e subiu aos Céu, onde está sentado a direita do Pai. Abriu os céus para o gênero humano, já que lá entrou na Sua humanidade. Desde agora, Cristo ressuscitado «detém as chaves da morte e do Hades» (Ap 1, 18) e «ao nome de Jesus todos se ajoelhem, no céu, na terra e nos infernos» (Fl 2, 10).

Queridos, alegremos no Senhor porque não nos deixa na ignorância quanto aos bens que Ele nos outorga. Este capítulo do Credo nos faz tremer e esperar n’ Ele. Tremer por saber que o inferno existe e é real e que muitas almas podem se perder caso estejam em pecado mortal. Esperar n’Ele, porque seu conhecimento nos enche de esperanças e só nos estimula a lutar na busca da santidade, sem o qual ninguém O verá -, para um dia ao estarmos face a face com Ele, podermos louva-LO juntamente com nossos irmãos que estiveram na mansão dos mortos, mas que agora reinam com Ele eternamente.

Jesus desceu do céu para ensinar as coisas do céu, também ressurgiu dos infernos para esclarecer-nos sobre as coisas do inferno, portanto nada de desfalecer, antes usemos desta vida, porque só a temos para viver de fé, para conhece - Lo, ama- Lo e obedece- Lo com seus auxílios, e que ninguém seja seduzido a ponto de rejeita- Lo livremente, pois a pena é terrível, onde este haverá de viver eternamente longe d’Ele em grande suplícios, pelo mesmo tempo que viverão no céu, os que o amaram e esperaram n’Ele.

Como Cristo desceu aos infernos para libertar os seus, devemos também nós descer pela oração, para auxiliar os nossos. Eles, por si mesmos, nada podem conseguir.Nós é que devemos ir em socorro dos que estão no purgatório. São auxiliados, conforme disse Santo Agostinho, os que estão no purgatório, principalmente por três atos: pelas Missas, pelas orações e pelas esmolas. São Gregório acrescenta um quarto: o jejum. Como cristãos devemos rezar para que todos possam um dia estar com Ele na glória eterna. Unano-nos a Cristo por eles e que o Senhor nos ajude a sermos féis, tal como Ele é.

"A mim, e desejo que o mesmo aconteça a todos vós, a certeza de me sentir - de me saber - filho de Deus cumula-me de verdadeira esperança, uma esperança que, por ser virtude sobrenatural, ao ser infundida nas criaturas, se amolda à nossa natureza e é também virtude muito humana.?? Vivo feliz com a certeza do Céu que havemos de alcançar, se permanecermos fiéis até o fim; com a ventura que nos chegará quoniam bonus, porque o meu Deus é bom e é infinita a sua misericórdia. Esta convicção incita-me a compreender que só as coisas marcadas com o timbre de Deus revelam o sinal indelével da eternidade; e o seu valor é imperecível. Por isso, a esperança não me separa das coisas desta terra, antes me aproxima dessas realidades de um modo novo, cristão, que se esforça por descobrir em tudo a relação da natureza, decaída, com Deus Criador e com Deus Redentor."( ESCRIVÄ, São Josemaria, amigos de Deus – A esperança Cristã – ponto 208)

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[1] (Cf. Concílio de Roma (ano 745), De descensu Christi ad inferos: DS 587.)

[2] (Cf. Bento XII, Libellus, Cum dudum (1341). 18: DS 1011; Clemente VI, Ep. Super quibusdam (ano 1351), c. 15, 13: DS 1077)

[3] (Cf. IV Concílio de Toledo (ano 633). Capitulum, 1: DS 485; Mt 27, 52-53.).

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Credo - Oitavo Artigo


Creio no Espírito Santo

Por São Tomás de Aquino

Como foi dito, o Verbo de Deus é o Filho de Deus, como o verbo (mental) do homem é concebido pela inteligência. Mas algumas vezes o verbo (mental) do homem fica como morto, quando alguém pensa em realizar alguma coisa, mas a vontade de executá-la não se manifesta. Assim também quando alguém crê e não faz as obras, a sua fé pode ser chamada de morta, conforme se lê na Carta de S. Tiago: Como o corpo sem alma é morto, a fé sem as obras é morta (2,26).

A carta aos Hebreus afirma que o Verbo de Deus é vivo, lendo-se nela: é viva a palavra de Deus (4,12). Por essa razão é necessário que haja em Deus vontade e amor . Escreve Santo Agostinho no seu livro DE TRINITADE: O verbo sobre o qual pretendemos dar uma noção é um conhecimento com amor.
Como o Verbo de Deus é o Filho de Deus, assim também o amor de Deus é o Espírito Santo. Por isso; quando o homem ama a Deus, possui o Espírito Santo. S. Paulo escreve: A caridade de Deus foi difundida em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado (Rom 5,5).

Houve pessoas, que mal compreendendo a doutrina sobre o Espírito Santo, afirmaram ser Ele criatura, que era menor que o Pai e que o Filho, que era, ainda, servo e ministro de Deus. Por isso os Santos Padres, para que tais erros fossem rejeitados, acrescentaram cinco palavras qualificativas do Espírito Santo, no Símbolo.

Analisemos esses cinco termos e vejamos porque o Espírito Santo não é uma criatura, mas Deus.

Primeiro: Apesar de existirem outros espíritos - os Anjos, são contudo, todos eles, ministros de Deus, conforme a palavra do Apóstolo: Todos são (os Anjos) ministros que servem (Heb 1,14). Mas o Espírito Santo é Senhor, conforme se lê em S. João: O Espírito é Deus (Jo 4,24), o que é confirmado por S. Paulo: O Senhor é Espírito (2 Cor 3,17), que acrescenta logo em conclusão: Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade. Eis porque o Espírito nos faz amar a Deus e liberta-nos do amor ao mundo.
Acrescentou-se por essas razões ao Símbolo: No Espírito Santo Senhor.

Segundo: No Espírito está a vida da alma que se une a Deus. Deus é então a vida da alma, como a alma é, a vida do corpo. O Espírito Santo nos une a Deus por amor, porque Ele é o amor de Deus, e, conseqüentemente, nos vivifica. Lê-se em 5. João: O Espírito é que vivifica (Jo 6,64). Foi por isso acrescentado ao Símbolo: e vivificante.

Terceiro: Devemos considerar que o Espírito Santo é da mesma natureza que o Pai e o Filho: como o Filho é o Verbo de Pai, assim também o Espírito Santo é o Amor do Pai e do Filho. Por essa razão; procede de ambos; e como o Verbo de Deus é da mesma natureza do Pai, assim também, o Amor do Pai e do Filho. Por isso diz-se: Que procede do Pai e do Filho. Vê-se daí claramente que o Espírito Santo não é criatura.

Quarto. O Espírito Santo é igual ao Pai e ao Filho quanto ao culto que recebe. Lê-se nos Evangelhos: Os verdadeiros adoradores adorarão ao Pai em Espírito e verdade (Jo 4,23); Ensinai a todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 19). Foi por esse motivo acrescentado ao Símbolo: Que com o Pai e o Filho é juntamente adorado.

Quinto. O Espírito Santo é igual a Deus, porque os santos profetas falaram por Deus. Ora, é evidente. que se o Espírito Santo não fosse Deus, não se teria dito que os profetas falaram por Ele. Mas S. Pedro o disse: Inspirados pelo Espírito Santo, falaram os santos homens de Deus (2 Ped 1,21). Isaías, que foi profeta, assim fala: O Senhor meu Deus e o seu Espírito me enviaram (48,16). Por isso o Credo traz: Que falou pelos Profetas.


Por esta última afirmação, dois erros são destruídos:

O erro dos Maniqueus, que afirmavam não ter vindo de Deus o Velho Testamento, o que é falso, pois o Espírito Santo falou pelos Profetas; e o erro de Priscila e Montano , que afirmavam que os Profetas não falavam por inspiração do Espírito Santo, mas como se fossem homens alucinados

Muitos frutos provêm para nós do Espírito Santo.

Primeiro, porque Ele nos purifica do pecado. Ora, compete a quem criou uma coisa, refazê-la. A nossa alma foi criada pelo Espírito Santo, porque Deus fez todas as coisas por meio dEle, pois é amando a sua própria bondade que Deus faz tudo. Lê-se: Amais todas as coisas que existem e nada odiastes do que fizestes (Sab 11,25). Lê-se também no livro "Sobre os Nomes divinos", do Pseudo Dionísio: O divino amor não se podia permitir ficar sem geração (Cap. IV). Convém, pois, que os corações dos homens destruídos pelo pecado fossem refeitos pelo Espírito Santo. Lê-se: Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da terra (SI 103,30). Nem é motivo de admiração que o Espírito Santo purifique, porque todos os pecados são perdoados pelo amor, conforme se lê nas Escrituras: Foram-lhe perdoados muitos pecados, porque muito amou (Is 7.47);
A caridade cobre todos os delitos (Prov 10.12); A caridade cobre uma multidão de pecados (1 Ped 4,8).

Segundo, porque ilumina a inteligência, já que tudo que sabemos, o sabemos pelo Espírito Santo. Confirmam-no os seguintes textos da Escritura: O Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas e sugerir-vos-á tudo o que vos disse (Jó 2,26); A sua unção ensinar-vos-á tudo (1 J o 2,27).

Terceiro, porque o Espírito Santo nos ensina a observar os mandamentos, e, até de certo modo, no-lo obriga. Ninguém pode seguir os mandamentos de Deus, se não amar a Deus, pois: Se alguém me amar, observará os meus mandamentos (Jo 24,23). Ora, o Espírito Santo nos faz amar a Deus, e nos auxilia nesse sentido. Lê-se no Profeta Ezequiel: Dar-vos-ei um novo coração, e colocarei no meio de vós um novo espírito; tirarei o coração de pedra da vossa carne; dar-vos-ei um coração de carne, e colocarei o meu espírito no meio de vós; e farei que guardeis os meus mandamentos e os pratiqueis (36,26)

Quarto, por que Ele confirmará em nós a esperança da vida eterna, Já que o Espírito Santo é o penhor da herança, conforme estas palavras do Apóstolo aós Efésios: Fostes assinalados com o Espírito da promessa, que é o penhor da nossa herança (1,14). Ele é, com efeito, a garantia da vida eterna. A razão disto está em que a vida eterna é devida ao homem, enquanto este é filho de Deus, e o é feito, enquanto se assemelha a Cristo. Assemelha-se alguém a Cristo pelo fato de possuir o Espírito de Cristo, que é o Espírito Santo. Lê-se na Carta aos Romanos: Não recebestes o espírito de servidão para recairdes no temor, mas recebestes o espírito de adoção dos filhos, no qual chamamos Abba, Pai. O próprio Espírito certifica ao nosso espírito que somos filhos de Deus (8,15-16). Lê-se também em outra Carta do Apóstolo: Porque são filhos de Deus, enviou Deus o espírito do seu Filho nos nossos corações, chamando - Abba, Pai (Gál 4,6).

Quinto, porque o Espírito Santo nos aconselha em nossas dúvidas e nos ensina qual seja a vontade de Deus. Lê-se: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça o que o Espírito diz às Igrejas (Ap 2,7); Escutá-lo-ei como um Mestre (Is 50,4).

Fonte: Exposição sobre o Credo por São Tomás de Aquino

quarta-feira, 12 de agosto de 2009


Há 79 anos Thiamer Toth escreve em seu livro: Jovem de Caráter o seguinte:

"Este livro quereria dar aos rapazes um caracter de aço, neste tempo em que o Mundo inteiro esta voltado do avesso e parcce andar com a cabeça pelo chao; nesta epoca em que a maior e talvez a única doença da humanidade (que é responsavel por todos os erros e vicios) é o enfraquecimento espantoso da vontade: nestes dias de "nao te rales" quase geral em que muitos se comprazem em dizer que é sabedoria a adaptaçao as circunstancias, e em ver a saIvacao pública na negaçao dos principios da politica realista e na procura dos interesses pessoais; hoje, em que a sensibilidade, sempre à espreita de uma ofensa, se chama dignidade e em que a inveja pretende ser sentimento de justiça; hoje, em que se evita o trabalho difícil sob pretexto de que é impossível, e em que cada um procura a vida facil com os seus prazeres... Sim, este livro quereria formar jovens de caracter inatacavel, dc principios justos e sólidos,— jovens cuja vontade nunca recua perante as dificuldades, que sao cavaleiros fanaticos do dever, qualquer que ele seja,—jovens rijos como aço, rectos como a verdade, luminosos como um raio de sol, limpidos como o regalo das montanhas,. . . jovens puros de corpo e de alma"

79 anos depois, o mundo "evoluiu" mas as pessoas continuam as mesmas..É preciso urgentemente encontrar a Deus, para que se possa buscar sempre ter a vontade firmemente orientada para o bem, com princípios nobres enfrentando sacrifícios, mesmo que as circunstâncias não sejam favoráveis.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A Razão precisa da fé?


O combate que o homem trava contra o mal excede infinitamente os meios da razão e da ciencia. É o que demonstram fatos tao atuais como o racismo, a droga ou o alcool. Ou como todos esses terriveis crimes cometidos por totalitarismos ateus sistematicos e pretensamente cientificos ao longo do seculo XX: desde o genocidio nazista de Hitler ate o de Pol Pot no Camboja, passando pelos do leninismo, do staliniismo ou do maoismo.

O pior é que a maior parte desses crimes em massa foram cometidos em nome de teorias que, na sua epoca, receberam o aplauso de milhoes de pessoas. Foram autenticos infernos fabricados por homens que procuravam um mundo perfeito que se bastasse a si mesmo e ja não tivesse necessidade de Deus.

E assim como, lendo Lenin, se podia notar que os direitos do indivíduo nao iam ser respeitados num sistema comunista, do mesmo modo, estudando as premissas da Ilustracao, viu-se claramente que a Modernidade nao atenderia as necessidades globais do ser hurnano. Nao basta a razao para que a sociedade seja justa, solidaria e equilibrada.

Para que haja equilíbrio na pessoa e na sociedade, e preciso atender, juntamente com a razao, a vontade e a sensibilidade. A pessoa e a sociedade, devem ter por objetivo procurar o bem, a verdade e a beleza e isso significa falar de vontade, inteligencia e sentimentos e, por sua vez, de etica, de ciencia e de arte.

Quando se idolatra um metodo da inteligencia, como é a razao, sem elevar a sua altura a etica e a estetica, desequilibram-se o indivíduo e a sociedade. Esse foi o fracasso da Ilustracao..

Fracassou por ter pensado que da razao deriva automaticamente a etica, coisa que se demonstrou falsa ao ser confrontada com a realidade. A razao nao pode ser salva pela razão. Isso seria ilusorio. Esses crimes demonstraram o que o homem pode chegar a fazer. E vimos como a razao nao os impediu.

Os ilustrados pensavam que, mostrando ao homem o que é racional, este o adotaria, e a razao seria suficiente para organizar a sociedade. Mas nao foi assim. Nao basta proclamar o que e racional para que os homens o pratiquem.

O comportamento humano esta cheio de sombras e de matizes alheios a razao, que desembestam cada qual por sua conta, movendo as molas da vontade e do coracao. Reconhecer os perigos que a razao encerra - afirma Jean-Marie Lustiger -, é salvar a sua honra. Conceber a razao como a grande soberana, independente do bem que o homem deve procucar, é mais ou menos como por-se nas maos de um computador: é um instrumento muito capaz, processa grande quantidades de dados que toma do exterior, todo o seu desenvolvimento é perfeitamente logico, mas alguem tem de garantir que está bem programado.

A verdadeira fé é um guia insubstituível, pois a razao pode extraviar-se.

Nao quero, com isto, menosprezar a razao, antes contrario. A razao é uma das mais nobres capacidades que distinguem a especie humana, e alegra-nos ver os seus triunfos, bem como as conquistas da ciencia e a sua luta por construir um mundo melhor.

Mas convem nunca esquecer a limitaçao humana, e igualmente a ordem natural imposta por Deus, que permite ao homem preservar a sua dignidade e evitar muitos erros.

A historia esta cheia de cadaveres ideologicos, e niguém acha estranho encontra-los perfeitamente alinhados quando olha para tras com a disposicao de aprender. E, entre eles, espalhados ao longo dos seculos, pode-se ver toda uma legião de profetas que foram anunciando - sobretudo nos ultimos duzentos anos - o proximo e definitivo desaparecimento da religiao e da Igreja.

No entanto, a historia mostra que sao precisamente aqueles que, com tanta paixao, lancam essas condenação e essas profecias os que desaparecem uns apos outros, enquanto a Igreja continua adiante depois de dois mil anos, e a religiosidade continua a ser uma constante em todas as civilizacoes de todos os tempos.

A Igreja, que presenciou catastrofes que varreram impérios inteiros, testemunha pela sua mera subsistencia a força que palpita nela. "Os povos passam - observava Napoleao -, os tronos e as dinastias desmoronam-se, mas a Igreja permanece".

É uma realidade que leva a pensar que o fato religioso faz parte da natureza do homem, e que a Igreja esta animada de um espírito que nao é de origem humana.

Fonte: É Razoável Crer? - Alfonso Aguiló - Quadrante

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Credo - Setimo Artigo


Donde há de vir julgar os vivos e os mortos

Por São Tomás de Aquino

Julgar é função do rei: O rei, que está sentado no trono da justiça, pelo seu olhar dissipa todo o mal (Prov 20,8). Porque Cristo subiu ao céu e sentou-se à direita de Deus como Senhor de todos, evidentemente compete-lhe o juízo. Por isso, pela Regra da Fé Católica, confessamos que virá julgar os vivos e os mortos. Isto também, foi dito pelo Anjo: Este Jesus, que do meio de vós foi elevado aos céus, virá também assim como o vistes subir para os céus (Mt 1,11).

Devemos considerar nesse juízo três coisas:

Primeiro, a sua forma; segundo, que ele deve ser temido, e, terceiro, como para ele devemos nos preparar.

No juízo devemos ainda distinguir três elementos componentes: quem é o juiz, quem deve ser julgado e qual a matéria do julgamento.

Cristo é o juiz, conforme se lê no Livro dos Atos: Ele que foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos (10,42). Pode este texto ser interpretado, ou chamando de mortos os pecadores e, de vivos, os que vivem retamente; ou designando vivos, por interpretação literal, os que agora vivem, e, mortos, todos os que morreram.

Ele é juiz não só enquanto Deus, mas também como homem, por três motivos:

Primeiro, porque é necessário, aos que vão ser julgados, verem o juiz. Como a Divindade é de tal modo deleitável que ninguém a pode ver sem se deleitar, e nenhum condenado poderia vê-la sem que não sentisse logo alegria, foi necessário que Cristo
aparecesse em forma só de homem, para que fosse visto por todos. Lê-se em S. João: Deu-lhe o poder de julgar, porque é o Filho do Homem (5,27).

Segundo, porque Ele mereceu este ofício como homem. Ele, enquanto homem, foi injustamente julgado e, por isso, Deus O fez juiz de todos Lê--se: A tua causa foi julgada como a de um ímpio; receberás o julgamento das causas (Jo 36,17).

Terceiro, para que os homens não mais desesperem, vendo-se julgados por um homem. Se somente Deus julgasse, os homens ficariam desesperados. devido ao temor. (Mas todos verão um homem julgar), pois se lê em São Lucas: Verão o Filho do Homem vindo na nuvem (21.27). Serão julgados os que existiram, os que existem e existirão, conforme ensina São Paulo: Convém que todos nós sejamos apresentados diante do tribunal de Cristo, para que cada um manifeste o que fez de bom e de mal enquanto estava neste corpo (2 Cor 5,10).

Há quatro diferenças, segundo São Gregório, entre os que devem ser julgados.

Estes, ou são bons, ou são maus.

Entre os maus, alguns serão condenados, mas não julgados, como os infiéis, cujas ações não serão discutidas, porque, como está escrito, o que não crer já está julgado (10 3,18).

Outros, porém, serão condenados e julgados, como os fiéis que morreram em estado de pecado mortal. Disse o Apóstolo: o salário do pecado é a morte (Rom 6,23). Estes não serão excluídos do julgamento por causa da fé que tiveram.

Entre os bons também haverá os que serão salvos sem o julgamento, os pobres de espírito por amor de Deus. Lê-se em São Mateus: vós que me seguistes, na regeneração, quando o Filho do Homem estiver sentado em seu trono majestoso, sentar-vos-eis também sobre doze tronos, julgando as doze tribos de Israel (19,28).

Estas palavras não se dirigem só aos discípulos, mas a todos os pobres de espírito. Caso assim não fosse, São Paulo que trabalhou mais que todos, não estaria nesse número. Este texto deve, portanto, ser aplicado a todos os que seguiram os Apóstolos, e aos varões apostólicos. Eis porque São Paulo escreve: Não sabeis que julgamos os Anjos? (1 Cor 6,3). Lê-se ainda em Isaías: O Senhor virá com seniores e com os príncipes do seu povo (Is 3,14).

Outros serão salvos e julgados, isto é, aqueles que morreram em estado de justificação. Bem que tivessem morrido neste estado, erraram, todavia, em alguma coisa durante a vida terrestre. Serão, por isso, julgados, mas receberão a salvação.

Todos serão julgados pelos atos bons e maus que praticaram. Lê-se na Escritura: Segue os caminhos do teu coração. .. mas fica certo de que Deus te levará ao julgamento por causa deles (Ecle 11,9); Deus citará no julgamento todas as tuas ações, até as ocultas, quer sejam boas, quer sejam más (EcIe 13,14). Serão julgados também pelas palavras inúteis: Toda palavra inútil pronunciada por alguém, este dará conta dela no dia do juízo (Mt 12,36).

Serão julgados, por fim, pelos pensamentos que tiveram. Lê-se no livro da Sabedoria: Os ímpios serão argüidos a respeito dos seus pensamentos (1,9).

Fica assim esclarecida qual a matéria do julgamento.

Por quatro motivos deve ser temido aquele juízo:

Primeiro, devido à sabedoria do juiz, porque ele conhece todas as coisas, os pensamentos. as palavras e as ações, já que, como se lê na Carta aos Hebreus, todas as coisas estão nuas e abertas aos seus olhos (4,13). Lê-se ainda na Escritura: Todos os caminhos dos homens estão diante dos seus olhos (Prov 16,1). - Conhece Ele as nossas palavras: Os seus ouvidos atentos ouvem tudo (Sab 1,10). Conhece os nossos pensamentos: O coração do homem é depravado e impenetrável. Quem o pode conhecer? Eu, o Senhor, penetro rios corações e sondo os rins, retribuo a cada um conforme o seu caminho e conforme os frutos dos seus pensamentos (Jer 17,9).

Haverá neste juízo também testemunhas infalíveis, isto é, as próprias 'consciências dos homens, segundo se lê em São Paulo: A consciência deles servirá de testemunho no dia em que o Senhor julgar as coisas ocultas dos homens, enquanto pelos pensamentos se acusam ou se defendem (Rom 2,15,16).

Segundo, devido ao poder do juiz, porque Ele é em si mesmo todo-poderoso. Lê-se: Eis que o Senhor virá com fortaleza (Is 11,10). É poderoso também sobre os outros, porque toda criatura estava com Ele: Lê-se: O universo inteiro combaterá com ele contra os insensatos (Sab 5,2); Ninguém há que possa livrar-se da vossa mão (Jo 10,7); e ainda: Se subo aos céus, vós ali estais; se desço aos infernos, estais lá também(SI 138,8).

Terceiro, devido à justiça inflexível do juiz. Agora é o tempo da misericórdia. Mas o tempo futuro é tempo só de justiça. Por isso, o tempo de agora é nosso; mas o tempo futuro será só de Deus. Lê-se: No tempo que eu determinar, farei justiça (SI 134,3). O varão furioso de ciúmes não lhe perdoará no dia da vingança, não atenderá às suas súplicas, nem receberá como satisfação presentes, por maiores que. sejam (Prov 6,34).

Quarto, devido à ira do juiz. Aparecerá aos jústos doce e deleitável, porque, conforme diz Isaías: Verão o rei na sua beleza (Is 33,17). Aos maus, porém, aparecerá tão irado e cruel, que eles dirão aos montes: Caí sobre nós, e escondei-nos da ira do cordeiro (Ap 6,16).

Esta ira em Deus não significa uma comoção de espírito, mas signnica o efeito da ira, a pena infligida aos pecados, isto é, a pena eterna. A propósito disso escreveu Orígenes: Como serão estreitos os caminhos no juízo! No fim estará o juiz irado.

Contra este temor devemos aplicar quatro remédios.
O primeiro remédio é a boa ação. Lê-se em São Paulo: Queres não temer a autoridade? Faze o bem e receberás dela o louvor (Rom 13,3).

O segundo, é a confissão dos pecados cometidos e a penitência feita por eles. Na confissão deve haver três coisas: a dor interior, a vergonha da confissão dos pecados e o rigor da satisfação por eles. São essas três coisas que redimem a pena eterna.

O terceiro remédio é a esmola que toma tudo puro, segundo as palavras do Senhor: Conquistai amigos com o dinheiro da iniqüidade, para que, quando cairdes, eles vos recebam nas lendas eternas (Lc 26,9). (41)

O quarto remédio é a caridade, quer dizer, o amor de Deus e do próximo, pois conforme a Escritura: A caridade cobre uma multidão de pecados (lPed 4,8; cir. Prov 10,12).

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Música na Missa



Palavras do então Cardeal Ratzinger extraídas do livro "A Fé em crise? O Cardeal Ratzinger se interroga", no qual este foi entrevistado pelo jornalista italiano Vittorio Messori. São palavras do capítulo IX ("Liturgia, entre o antigo e o novo"), pp. 95-97:

Sons e arte para o Eterno

- Encontra aqui seu ponto de referência uma conversa sobre a música sacra, aquela música tradicional do Ocidente católico, para a qual o Vaticano II não mediu palavras de louvor, exortando não somente a salvar, mas a incrementar "com a máxima diligência" o que ele chama "o tesouro da Igreja" e, portanto, da humanidade inteira. E, apesar disso?

"E, apesar disso, muitos liturgistas puseram de lado esse tesouro, declarando-o 'esotérico', 'acessível a poucos', abandonaram-no em nome da compreensão por todos e em todos os momentos da liturgia pós-conciliar. Portanto, não mais 'música sacra', relegada quando muito a ocasiões especiais, às catedrais, mas somente 'música utilitária', canções, melodias fáceis, coisas corriqueiras".

- Também aqui o Cardeal consegue mostrar com facilidade o afastamento teórico e prático do Concílio, "segundo o qual, além do mais, a música sacra é, ela mesma, liturgia, e não um simples embelezamento acessório".

- E, segundo ele, seria fácil também demonstrar, na prova dos fatos, como "o abandono da beleza mostrou-se uma causa de "derrota pastoral". "Torna-se cada vez mais perceptível o pavoroso empobrecimento que se manifesta onde se expulsou a beleza, sujeitando-se apenas ao útil. A experiência tem demonstrado que a limitação apenas à categoria do "compreensível para todos' não tornou as liturgias realmente mais compreensíveis, mais abertas, somente as fez mais pobres. Liturgia 'simples' não significa mísera ou reles: existe a simplicidade que provém do banal e uma outra que deriva da riqueza espiritual, cultural e histórica".

"Também nisso", continua ele, "deixou-se de lado a grande música da Igreja em nome da 'participação ativa', mas essa 'participação' não pode, talvez, significar também o perceber com o espírito, com os sentidos? Não existe nada de 'ativo' no intuir, no perceber, no comover-se? Não há, aqui, um diminuir o homem, reduzindo-o apenas à expressão oral, exatamente quando sabemos que aquilo que existe em nós de racionalmente consciente e que emerge à superfície é apenas a ponta de um iceberg, com relação ao que é a nossa totalidade? Questionar tudo isso não significa, evidentemente, opor-se ao esforço para fazer cantar todo o povo, opor-se à 'música utilitária'. Significa opor-se a um exclusivismo (somente tal música), não justificado nem pelo Concílio nem pelas necessidades pastorais".
- Este assunto da música sacra, percebida também como símbolo da presença da beleza "gratuita" na Igreja, é particularmente importante para Joseph Ratzinger, que lhe dedicou páginas vibrantes:

"Uma Igreja que se limite apenas a fazer música 'corrente' cai na incapacidade e torna-se, ela mesma, incapaz. A Igreja tem o dever de ser também 'cidade da glória', lugar em que se reúnem e se elevam aos ouvidos de Deus as vozes mais profundas da humanidade. A Igreja não pode se satisfazer apenas com o ordinário, com o usual, deve reavivar a voz do cosmos, glorificando o Criador e revelando ao próprio cosmos a sua magnificência, tornando-o belo, habitável e humano. Também aqui, porém, como para o latim, fala-me de uma "mutação cultural", ou, mais ainda, de uma como que "mutação antropológica", sobretudo entre os jovens, "cujo sentido acústico foi corrompido e degenerado, a partir dos anos 60, pela música rock e por outros produtos semelhantes" Tanto que, e alude aqui também a suas experiências pastorais na Alemanha, hoje seria "difícil fazer ouvir ou, pior ainda, fazer cantar a muitos jovens até mesmo os antigos corais da tradição alemã".
- O reconhecimento das dificuldades objetivas não lhe impede defender apaixonadamente não apenas a música, mas a arte cristã em geral e sua função de reveladora da verdade:

"A única, a verdadeira apologia do cristianismo pode se reduzir a dois argumentos: os santos que a Igreja produziu e a arte que germinou em seu seio. O Senhor torna-se crível pela magnificência da santidade e da arte, que explodem dentro da comunidade crente, mais do que pelas astutas escapatórias que a apologética elaborou para justificar os lados obscuros de que abundam, infelizmente, os acontecimentos humanos da Igreja.Se a Igreja, portanto, deve continuar a converter, a humanizar o mundo, como pode, na sua liturgia, renunciar à beleza, que é unida de modo inseparável ao amor e, ao mesmo tempo, ao esplendor da Ressurreição?Não, os cristãos não devem se contentar facilmente, devem continuar fazendo de sua Igreja o lar do belo, portanto do verdadeiro, sem o que o mundo se torna o primeiro círculo do inferno".

sábado, 11 de julho de 2009

Santo Agostinho nos fala...


Queremos Ver a Deus? - Ou seja, chegar ao fim desse caminho... Confessemo-nos primeiramente, e desse modo se abre em nós um lugar para Deus, porque no seu lugar, está a paz. Quem não se arrepende verdadeiramentedos seus pecados, de certa forma permanece em luta contra Deus; não prepara um lugar para o verdadeiro Deus no seu coração, porque o lugar de Deus é a paz. E de que modo começamos a estar em paz com Deus? Confessando-nos a Ele.

A seguir, que faremos para unir-nos a Ele? Experimentaremos desgosto pelo que também desgosta a Deus, A Ele, desagrada-lhe a nossa vida má e, se ela continuar a agradar-nos secretamente, cedo ou tarde nos afastaremos dEle; mas se de verdade a nossa má vida nos desagrada, não hesitamos em unir-nos uma e outra vez a Ele pela confissão. E então já começamos a tornar-nos semelhantes a Ele, porque ao menos nos desagrada o mesmo que desagrada a Deus. Comecemos a bendizer o Senhor por meio da confissão; e acabaremos por unir-nos a Ele por meio da paz.

Mas ainda temos diante de nós uma longa luta, não apenas contra as tentações do demônio, e sim tudo contra nós mesmos: contra os nossos maus hábitos, contra a nossa decrépita vida má que nos arrasta para as velhas rotinas de pecado e nos afasta da vida de Cristo. É-nos anunciada uma vida nova, nós somos velhos: e se a alegria da nova vida nos arrebata, o peso da velha nos curva para o chão. Assim começa a travar-se a guerra dentro de nós.

Ouçamos o que diz o Apóstolo Paulo: Com o espírito sirvo a lei de Deus, mas com a carne a lei do pecado.

Como, com o espírito? Porque nos desagrada o que há de mau na nossa vida.

Como, com a carne? Porque não faltam em nós as incitações e inclinações perversas. Mas na medida em que, no nosso espírito nos vamos unindo a Deus, vencemos em nós o que não queremos cometer.

Assim é sempre: em parte avançamos, em parte ficamos para trás. Recorramos mais vezes a Deus, levemo-nos a nós mesmos Àquele que nos eleva. Sentimo-nos abatidos pelo peso da nossa antiga atitude? Clamemos: Infeliz de mim! Quem me livrará do corpo desta morte? Quem me livrará daquilo que me causa angústia? Este meu corpo, que se corrompe ameaça arrastar consigo a alma: quem me libertará? E a resposta é sempre a mesma: A graça de Jesus Cristo nosso Senhor.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

As Aparências e a Verdade




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Por Dom Eugenio Sales - Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro

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A sobrevivência de um povo como nação pressupõe o respeito à autoridade civil e a contribuição leal ao bem comum. Em outras palavras, faz-se mister: o cumprimento de deveres, e não apenas a exigência de direitos. O poder que vem de Deus para serviço aos irmãos e às atividades dos cidadãos, conforme a ética, estabelecem os alicerces desse edifício. Entretanto, algo mais se requer: um espírito que anime essa estrutura e a preserve da decomposição. Refiro-me a um caráter íntegro das pessoas no meio civil e também eclesial.

A atual aceleração do ritmo nas transformações sociais, políticas, econômicas e culturais gerou súbitas e profundas alterações no sistema de vida comunitária. Em consequência, há uma defasagem entre os valores de ontem e hoje, acobertando-se muitos num clima de ambiguidade. A fuga a uma definição clara de posições, por trazer problemas e dificuldades no relacionamento humano, leva a uma nefasta opção pela penumbra, o lusco-fusco. A luz cede lugar à sombra ou, o que é mais grave, às meias verdades. Estas multiplicam monstros, germes fatídicos que mutilam reputações e destroem criaturas, mais facilmente que a própria mentira ou calúnia. Matam, sem derramamento de sangue, num homicídio mais doloroso que o cometido por facínoras, no sentido habitual da expressão. Na origem dessa degenerescência há o medo, ele constitui o grande mal de nossos dias, que nos leva a alterar atitudes corretas diante da pressão da opinião pública. Sem discernir, aceita-se o que se propala, sem distinguir o falso do verdadeiro. A abdicação da autonomia pessoal possibilita a volta da tolerância, habitualmente manejada por uma minoria que a catalisa para seus fins escusos.

Recordemos o Evangelho: "Seja o vosso 'sim', sim e o vosso 'não', não" (Mt 5,37). A objetividade dos julgamentos não pode ser relegada a um ponto inferior e os abusos e erros assumem posições incompatíveis com a autenticidade na esfera civil e também eclesiástica. O posto do árbitro se converte em arbítrio.

As consequências são funestas. A insinceridade no trato corrompe o sadio relacionamento social. Por exemplo: o natural desejo de saber as últimas notícias pode se transformar em ânsia doentia, levando os fracos de caráter a revelar episódios sem um prévio exame de sua autenticidade. Gera um clima funesto que propicia dolorosas injustiças quanto ao direito sagrado que é a boa fama. Uma vez lançada à mentira, mais grave ainda se possui parcela de veracidade, deforma-se a reputação do próximo e rouba-se um tesouro a respeitabilidade alheia. Por vezes, o dano é irreparável.

Ao ladrão impõe-se uma penalidade; a esses larápios da fama alheia, mais prejudiciais que os primeiros, pouco se lhes dá como castigo de um verdadeiro crime. A opinião pública, formada sutilmente pela propagação de versões falsas, exerce, em nossos dias e através da fácil comunicação das ideias, uma real e insuportável tirania. A imagem do outro fica à mercê de indivíduos que destroem alguém enlameando-lhe a honra. Uma mente doentia tenta saciar-se na procura de escândalos, na inútil tentativa de justificar as próprias mazelas. A busca de cargos ou o empenho em fazer vencer opiniões, facções ou correntes de pensamento tecem genuínas teias que envolvem incautos. Estes se tornam, inconscientemente, fautores de males inumeráveis, incomensuráveis.

Essa situação indigna de um cristão ou simples homem de bem pode penetrar no santuário.

Por isso, o Concílio Vaticano II, no documento sobre o ministério e a vida dos sacerdotes, ao tratar da eficácia de sua missão no mundo, declara: "Para cumprirem tal meta, muito contribuem as qualidades que gozam de merecida estima na convivência humana, como sejam: bondade de coração, sinceridade, coragem e constância, o culto vigilante da justiça, a delicadeza e outras que o apóstolo Paulo recomenda (Fl 4,8)". E inclui um trecho de São Policarpo (Comentário da epístola aos Filipenses, VI, 1): "E os presbíteros sejam inclinados à compaixão, misericordiosos para com todos, reconduzindo os extraviados, visitando todos os doentes, não esquecendo as viúvas, os órfãos e os pobres; mas solícitos sempre do bem junto de Deus e dos homens, abstendo-se de toda a ira, acepção de pessoas, juízos injustos, afastando para longe toda avareza,não acreditando facilmente contra alguém, não demasiados severos nos juízos, conscientes de que todos somos devedores do pecado".

A honradez e demais virtudes que caracterizam um homem de bem constituem o esteio das instituições. O apreço que se lhes deve é sinal da dignidade humana. Ao contrário, se inexistem ou são desprezadas, enfraquecidas, inúmeros danos eclodem na comunidade, inclusive religiosa.

Jamais se constrói uma pátria digna desse nome ou se preserva a Igreja de muitas deficiências sem as virtudes humanas devidamente apreciadas. Esses hábitos são essenciais à harmonia e ao respeito mútuo, bem como ao relacionamento entre pessoas probas. Sobre esse patamar e somente nele se edifica uma vida cristã autêntica. Antes de alguém ingressar pelo batismo na instituição fundada pelo Senhor, o candidato é admitido no convívio temporal, isto é, nasce.

A formação correta de um redimido pelo sangue do Redentor inclui a dignidade pessoal.

Católicos ou não, tenhamos consciência de uma condição para vencer a decomposição social: ter um caráter bem formado.

Ser um homem honesto, não importa as consequências. A verdade independentemente do número dos que a aceitam. Somente ela nos libertará: "A verdade vos libertará" (Jo 8,32).

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Maravilhoso!! DEus seja louvado pela vida de Dom Eugenio.

Fonte: http://www.pastoralis.com.br/pastoralis/html/modules/smartsection/item.php?itemid=371