quinta-feira, 26 de maio de 2011

A Lição de São Lourenço.


Por Padre Léo Trese.

A padagogia avançou muito desde os tempos da minha infância. Hoje os alunos da 8ª série treinam uma apresentação em público. Joey está de pé e conta a vida de São Lourenço, enquanto os outros esperam a sua vez para poderem completar certos pormenores que Joey esquecerá. Mas há uma coisa que ele não esquece: "Virem-me para o outro lado- Joey cita São Lourenço - virem-me para o outro lado porque acho que deste já estou bem assado".

Os pequenos sabem apreciar o humor do santo na grelha, e há um riso geral meio reprimido, enquanto olham para mim para ver se eu também acho graça. Sorrio de volta, enquanto desejaria ter, como São Lourenço, o dom de não me dar importância a mim mesmo. Aqui está - digo de mim para mim - um bom padroeiro para os momentos de desalento. Desalento significa que me estou tomando muito a sério, sempre com a idéia de que devo ser eu sozinho a salvar o mundo...

Um paroquiano veio dizer-me que um casal de vizinhos recentes não está casado na Igreja. Não poderia eu ir visitá-los? Escrevo o nome e endereço num bloco de notas onde já estão apontados outros seis casos semelhantes de que cuidarei discretamente. Suspiro e volto ao trabalho, que naquele momento consiste em esboçar um talão de rifa para a nossa próxima excursão. "Foi para isto que me ordenei?", pergunto-me a mim mesmo.

Passo cinquenta por cento das minhas horas de trabalho no meu escritório, tratando de conseguir dinheiro, pagando duplicatas, atendendo vendedores, escrevendo cartas, acompanhando uma ou outra obra, fazendo cópias de circulares ou preenchendo impressos. Nove décimos deste trabalho podia ser feito por um leigo, ao passo que eu estou rodeado por todos os lados de almas que salvar. Ernie Stein, por exemplo. Li no jornal da tarde de ontem que ele se casou no domingo na Igreja batista. Faz precisamente ano e meio que o batizei; era um convertido que prometia muito. Pouco depois deixou a noiva católica. Se eu o tivesse acompanhado um pouco, se tivesse mantido algum contato com ele, talvez...

É justamente neste momento que São Lourenço intervém: "Ouça, meu agitado amigo", diz-me ele, "eu sou apenas um diácono, mas deixe-me dizer-lhe algumas coisas. Tudo o que você faz tem que ser feito. Talvez um leigo também o pudesse fazer, mas, neste momento, se você não o fizesse, ninguém o faria. Esses trabalhos burocráticos de que você se lamenta fazem parte de sua tarefa , se forem sublimados e fecundados na sua oração da manhã por um oferecimento espiritual. Reconheça em Deus um pouco de senso comum . Ele sabe o tempo de que você dispõe e traçou os seus planos tendo isso em conta. Em última análise, dois grãozinhos da sua graça valem mais do que nove litros do seu amor. Você acredita nisso não acredita?"

"Lembre-se - diz-me de que Deus está metido nesse assunto da salvação das almas há muito mais tempo do que você. Ele não cochila nem mesmo quando você acha que está perdendo o tempo projetando um filme para a Confraria do Santo Nome. O seu mal, padre - São Lourenço aponta o dedo para mim - o seu mal é que você não está interessado na salvação das almas como em ve-las salvar-se; o que você quer é conseguir inscreve-las uma após outra na coluna das pessoas definitivamente salvas. Eu não posso revelar nenhum segredo, mas algum dia você se surpreenderá ao saber quantos protestantes meteu no céu com as suas orações, ainda que não tenha conseguido incluí-los no seu relatório anual. Não pense que se pode encerrar a Deus nas estatísticas do Anuário Católico".

O meu visitante cala-se, mas por pouco tempo: "veja o caso do padre Harrumph: achava que eram demasiadas as suas responsabilidades e entregou-se a bebida. E que bem é o que faz agora, encerrado numa casa de saúde? Repare no padre Hustle, um cardíaco crônico e no padre Hurry * ( que significa pressa), que arranjou uma fiada de úlceras, achavam que o mundo se afundaria se eles não o carregasse pessoalmente as costas".

"Um momento por favor - Lourenço levanta a mão para que não o interrrompa com alguma objeção - não me fale de santos que se mataram de trabalhar pelo bem das almas. Quando você for santo, não terei inconveniente em vir cá em baixo discutir isso contigo. Logo que você comece a passar uma noite inteira em oração diante do Sacrário...A propósito - São Lourenço interrompe-se a si mesmo - já alguma vez pensou como o seu tempo seria frutífero se o empregasse mais em orar e menos em andar ronroneando em torno de si próprio?
Experimente. Seria caso para você se preocupar se um jogo de golfe chegasse a significar mais para você do que a instrução de um converso, ou uma noite de "poker" mais do que a sua saúde".

" Bem - São Lourenço retira o pé da cadeira enquanto sorri com ar brincalhão - fui demasiado sério para quem tem fama de humorista. Mas não se esqueça de que o marechal Foch disse um dia aos seus aduladores; " Senhores, o mesmo que eu fiz podia ter sido feito por Deus com o cabo partido de uma vassoura ". Há muito mais sacerdotes atormentados do que preguiçosos, e eu não sei se os atormentados não desonrarão mais a Deus do que os preguiçosos..."

Um ansioso estalar de dedos devolve-me à realidade. Joey terminou a sua exposição.

Enquanto clareio a voz e saio do meu sonho, tomo uma rápida decisão: da próxima vez em que a minha agenda estiver repleta de compromissos e o dia me parecer muito curto, em lugar de tomar bicarbonato de sódio, direi apenas:

"São Lourenço, Rogai por mim".

Fonte: Livro Vaso de Argila

domingo, 9 de janeiro de 2011

Para o tempo presente




“Nós – que por graça de Deus, somos católicos não devemos gastar os anos mais belos da nossa vida
como desgraçadamente fazem tantos jovens infelizes que se preocupam com gozar os bens terrenos e não produzem nada de bom, mas que apenas fazem frutificar a imoralidade da nossa sociedade moderna. Devemos treinar-nos, a fim de estarmos prontos para travar as lutas que, seguramente,
teremos de combater pela realização do nosso programa e para, assim darmos à nossa pátria, num futuro não muito longínquo, dias mais alegres e uma sociedade moralmente sã. Mas para tudo isto, é preciso: oração contínua para obter de Deus a graça sem a qual as nossas forças são vãs; organização e disciplina para estarmos prontos para a ação no momento oportuno e, finalmente, o sacríficio das nossas
paixões e de nós mesmos, porque sem isso não se pode atingir o objetivo!”

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Cartas do Beato Pier Giorgio Frassati

Retirado de: "http://verbumabbreviatum.wordpress.com/"

domingo, 29 de novembro de 2009

Símbolo de Fé - Primeiro Artigo


Creio em Deu Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra

1. Sinopse do Artigo

Estas palavras querem dizer: Creio com toda a certeza, e sem nenhuma hesitação confesso a Deus Pai, a primeira Pessoa da Santíssima Trindade, que pela virtude de Sua onipotência criou do nada o próprio céu, a terra, e tudo que se contém em suas dimensões; que sustenta e governa todas as coisas criadas. E não só de coração o creio, e de boca o confesso, mas com o maior afeto e filial piedade a Ele me entrego, por ser o bem sumo e perfeito.

2. Finalidade de seu estudo

Quanto o permitir a graça de Deus, aprendamos a contemplar, com temor e tremor, a glória de majestade Divina.

Crer significa:

1. uma íntima convicção ...

Neste lugar, a palavra "Creio" não tem a significação de "pensar", "julgar", "dar opinião". Conforme a doutrina da Sagrada Escritura, significa uma adesão absolutamente certa, pela qual a inteligência aceita, com firmeza e constância, os mistérios que Deus lhe manifesta. Para se compreender melhor este ponto, [basta dizer] que só crê propriamente quem está certo de alguma verdade, sem a menor hesitação.

que exclui toda dúvida...

Ninguém deve, todavia, julgar menos seguro o conhecimento que nos vem da fé, pelo fato de não compreendermos as verdades que ela nos propõe a crer. É certo, a luz divina que no-las faz conhecer, não nos dando a evidência das coisas, nem por isso abre margem para se duvidar de sua realidade. "Pois Deus ordenou que das trevas rompesse a luz; Ele mesmo resplandece em nossos corações"(2Co 4,6), para que "o Evangelho não seja encoberto, como acontece aos que se perdem"(2Cor 4,3)

... por causa da autoridade de Deus...
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A concluirmos pelo que ficou dito, quem recebeu O celestial conhecimento da fé, já não sente o prurido de investigar só por mera curiosidade. Quando nos deu o preceito de crer, Deus não nos incumbiu de sondar os juízos divinos, nem de lhes aferir as causas e razões. Prescreveu-nos, ao contrário, uma fé inalterável, cuja ação faz a alma repousar no conhecimento da verdade.
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a quem não podemos pedir razões
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De fato, como diz o Apóstolo, "Deus é verdadeiro, e todo homem é mentiroso". Ora, quando um homem grave e sensato nos assegura a verdade, seria orgulho e insolência não lhe dar crédito, e pedir-lhe ainda por cima provas e testemunhos de sua palavra. Qual não seria então a temeridade, ou antes, a loucura daquele que, ouvindo as palavras de Deus, quisesse ainda devassar as razões da celestial doutrina da salvação?
Devemos, portanto, abraçar a fé não só com exclusão de toda dúvida, mas também sem o desejo de vê-la demonstrada.

Uma confissão exterior, em palavras e obras

Quem diz "Creio" exprime a íntima aquiescência da alma, que é o ato interior da fé. Deve, porém, externar em pública profissão a fé que lhe vai na alma, e manifestá-la com a maior expansão de alegria. Devem os fiéis estar possuídos daquele espírito que levou o Profeta a dizer: "Eu tinha fé, por isso é que falei" (Sl 115,10). Força lhes é imitar os Apóstolos que aos príncipes do povo responderam: "Não podemos silenciar o que vimos e ouvimos". (At 4,20) Devem entusiasmar-se com grandiosa declaração de São Paulo: "Não me envergonho do Evangelho, pois é uma virtude de Deus para salvar todo homem crente"(Rm 1,16) ; - ou também, com esta outra palavra: "Com o coração se crê para ser justificado; com a boca se faz confissão, para que haja salvação". (Rm 10,10)

Depois veremos: Creio em Deus

Fonte: Catecismo Romano

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Cristo desceu à mansão dos mortos


"Um grande silêncio reina hoje sobre a terra; um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei dorme. A terra estremeceu e ficou silenciosa, porque Deus adormeceu segundo a carne e despertou os que dormiam há séculos [...]. Vai à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Quer visitar os que jazem nas trevas e nas sombras da morte. Vai libertar Adão do cativeiro da morte. Ele que é ao mesmo tempo seu Deus e seu filho [...] "Eu sou o teu Deus, que por ti me fiz teu filho [...] Desperta tu que dormes, porque Eu não te criei para que permaneças cativo no reino dos mortos: levanta-te de entre os mortos; Eu sou a vida dos mortos"(.Antiga homilia para Sábado Santo: PG 43. 440.452.461 [ Sábado Santo, 2ª Leitura do Ofício de Leituras: Liturgia das Horas, s. 2 (Gráfica de Coimbra 1983) p. 454-455


Nosso Senhor Jesus Cristo para nos remir, padeceu no corpo e na alma os maiores suplícios. Podemos pelos Evangelhos, percorrer sua dolorosa Paixão e constatar que grande amor nos tinha Ele, para sofrer assim. Para satisfazer a grande ofensa feita à Deus, veio ao mundo para morrer como vítima eficaz e agradável, nos merecendo o perdão dos pecados. Para tanto desceu do céu, se encarnou no seio da Virgem Maria pelo poder do Espírito Santo, e não se prevalecendo de Sua igualdade com Deus, “se fez” homem, constituído de alma e corpo, - por conseguinte, possuiu tudo o que o homem pode possuir, exceto o pecado -, se fez escravo, obedecendo à santa vontade do Pai que era salvar os homens. Era homem perfeito sem pecado e Deus perfeitíssimo, por ser a segunda pessoa da Santíssima Trindade criadora, salvadora e santificadora. Uma pessoa com duas naturezas, uma divina e uma humana. Verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.


Foi no IV Concílio Ecumênico, conhecido como Concílio de Calcedônia (celebrado no ano 451), que a Igreja formalizou dogmaticamente esta verdade. Eis como os Padres Conciliares definiram as duas naturezas em Cristo (Sessão VI – 22/10/451):

Seguindo, pois, os Santos Padres, unanimemente ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito na Sua divindade e perfeito na Sua humanidade, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, [composto] de alma racional e de corpo; consubstancial ao Pai quanto à divindade, consubstancial a nós quanto à humanidade, “em tudo semelhante a nós, menos no pecado” (Heb 4,15); gerado do Pai antes dos séculos, segundo a divindade; e, nos últimos tempos, por nós e para a nossa salvação, [gerado] de Maria Virgem, Mãe de Deus, segundo a humanidade; que se deve reconhecer um só e mesmo Cristo Senhor, Filho Unigênito, em duas naturezas, sem confusão, imutáveis, indivisíveis, inseparáveis, de nenhum modo suprimida a diferença das naturezas por causa de sua união, mas salvaguardada a propriedade de cada natureza e confluindo numa só Pessoa e hipóstase, não separado ou dividido em duas pessoas, mas um só e mesmo Filho Unigênito, Deus-Verbo, Senhor Jesus Cristo, como outrora nos ensinaram sobre Ele os profetas e depois o próprio Jesus Cristo, e como nos transmitiu o símbolo dos Padres.”

Pela sua Paixão, Jesus livrou-nos do pecado, livrou-nos do demônio, reconciliou-nos com o Pai e abriu-nos o Céu. Por Ele, pelo seu sangue temos hoje confiança de entrarmos no Santo dos Santos (Hb 10,19)

Para nos remir, Jesus pela graça de Deus, experimentou a morte, conheceu portanto, o estado de separação entre a alma e o corpo, - nos diz a carta aos Hebreus, que no momento de sua morte, foi feito, um pouco inferior aos anjos, por ter-se humilhado e se rebaixado à dor do castigo e à morte, penas que não estão submetidos os anjos. Esta separação entre sua alma e seu corpo se deu durante o tempo compreendido entre o momento em que expirou na Cruz e o momento em que ressuscitou.

Neste período, seu corpo foi ao sepulcro, aquele em que José de Arimatéia e Nicodemos prepararam para sua dignidade (Jo19,38-42). Durante sua permanência no túmulo, a sua natureza divina continuou a assumir tanto a alma como o corpo, apesar de separados entre si pela morte. Por isso, o corpo de Cristo morto «não sofreu a corrupção» (At 13,37). Eis porque no sepulcro estava presente o Filho de Deus, o qual desceu também com a alma aos infernos.

«Embora Cristo, enquanto homem tenha sofrido a morte e a sua santa alma tenha sido separada do seu corpo imaculado, nem por isso a divindade se separou, de nenhum modo, nem da alma nem do corpo; e nem por isso a Pessoa única foi dividida em duas. Tanto o corpo como a alma tiveram existência simultânea, desde o início, na Pessoa do Verbo; e, apesar de na morte terem sido separados, nenhum dos dois deixou de subsistir na Pessoa única do Verbo» (São João Damasceno, Expositio fidei, 71 [De Fide orthodoxa 3, 27]. PTS 12, 170 (PG 94, 1098


O Catecismo Romano VI,b, nos diz claramente que Cristo foi sepultado, realçando o sepultamento de seu corpo. “Não cremos simplesmente que o Corpo de Cristo teve sepultura; mas confessamos antes de tudo que o próprio Deus foi sepultado. De maneira análoga dizemos em toda a verdade, e conforme a regra de fé católica, que foi Deus quem morreu, e quem nascera de uma Virgem. De fato assim como a Divindade nunca se apartou do corpo, quando encerrado no sepulcro, assim temos também toda a razão de confessar que Deus foi sepultado”

Todos os mortos antes da morte de Cristo, desciam aos infernos: os justos para o círculo exterior, chamado Limbo dos Patriarcas ou Sheol, em que sofriam a pena de dano (ausência de Deus), mas não a de sentido (o fogo corpóreo) – não sentiam dores propriamente dita, mas sentiam uma enorme angústia pela privação de Deus, que tanto anelaram em vida -; e os incrédulos ou réprobos, para o inferno propriamente dito, sofrendo ambas as penas e por isso estavam terrivelmente atormentados pelo rigor destas penas que sofriam.

Enquanto seu corpo jazia no sepulcro, sua alma foi a esta morada dos mortos para pregar a todos os que ali jaziam. Livremente Ele vai buscar os que eram seus e que por ora, estavam cativos. Para entender porque estavam ambos justos e injustos nos infernos, precisamos saber que nosso pecado acarreta culpa e penas. A culpa foi paga por Cristo, mas as penas consistem além da morte do corpo, na punição da alma que estaria fadada a viver eternamente longe de Deus, ela que tem sede do Deus vivo. ( "...A pena do pecado original é a carência da visão de Deus; a pena do pecado atual é o tormento do inferno eterno..." - Papa Inocêncio III, na carta encíclica "Maiores ecclesias causas", a Imberto, arcebispo de Arles )

Enquanto Cristo não fosse ali para liberta-los, ficariam privados da glória de Deus. Quis Cristo morrer e descer aos infernos para carregar sobre si toda punição, mas o foi como livre que era. Os outros estavam como cativos do demônio, que tinha contra eles o documento que os condenava.

Entre a Morte e a Ressurreição desceu a alma de Jesus Cristo aos Infernos. Não se trata aqui do Inferno onde estão os réprobos, nem do Purgatório, onde passam as almas que o sofrimento deve limpar das menores nódoas antes de entrarem no Céu. Os Infernos lembrados no 5º artigo do Símbolo é o lugar onde repousavam as almas dos justos falecidos na amizade de Deus: o Limbo, ou, na linguagem da Escritura, o “Seio de Abraão”. Ali nada tinham que padecer as almas. Fruíam, pelo contrário, uma espécie de ventura natural, mas não podiam ingressar no Céu antes que Jesus lhes abrisse a porta inexoravelmente trancada pelo pecado de Adão. A alma do Salvador permaneceu, pois, na companhia desses espíritos durante as horas que correram desde a sua Morte até a Ressurreição. Qual era o fim desta passagem de Cristo pelo Limbo? Certamente foi para anunciar aos justos que estava consumada a obra da Redenção e que breve, graças a ela, dariam entrada no Céu. Portanto mal transpõe a alma de Jesus Cristo os umbrais desses recessos, eis que o Limbo já está feito Paraíso, para todos os justos que a ovacionam e contemplam. Não prometera Cristo na Cruz ao bom Ladrão: ‘Hoje estarás comigo no Paraíso’? (Lucas, XXIII, 43). Quando saiu do Limbo a alma vitoriosa do Salvador, formaram-lhe uma comitiva real todos esses espíritos bem-aventurados, acompanhando-a na terra até a hora de Jesus subir triunfante aos Céus, onde introduziria todos os presos que tinha libertado. Para Jesus Cristo, era uma humilhação esta descida ao Limbo. Ia, Ele também, encarcerar-se no ergástulo dos patriarcas e dos justos. Mas, seria também o primeiro passo na estrada da glória com a libertação e a coroação dos primeiros eleitos.”(Boulanger – Doutrina Católica – O Dogma, 1923)

Jesus não desceu à mansão dos mortos para de lá libertar os condenados [1], nem para abolir o inferno da condenação [2], - (Deus não predestina ninguém para o Inferno. Para ter semelhante destino, é preciso haver uma aversão voluntária a Deus (pecado mortal) e persistir nela até ao fim. Na liturgia eucarística e nas orações quotidianas dos seus fiéis, a Igreja implora a misericórdia de Deus, «que não quer que ninguém pereça, mas que todos se convertam» (2 Pe 3, 9).(Catecismo da Igreja Católica n.1037) - ; mas o fez unicamente - não para sofrer penas, pois nunca houve n’ Ele pecado algum -, com todo poder e magnitude, somente para libertar os seus amados, para libertar os justos que O tinham precedido [3].

Os justos apesar de sua justiça e santidade, não podiam transpor o limiar da Pátria Celestial, antes da morte de Jesus Cristo, o Sumo e Eterno Sacerdote (Hb 9,11). Logo que Cristo a sofreu, as portas de pronto se abriram a todos os que purificados pelos sacramentos, possuídos de fé e caridade, se tornaram participantes da sua paixão". (Catecismo Romano 4º artigo – frutos – n.5)

Se Cristo tudo havia feito para os seus em vida, terminaria sua missão para com eles depois de mortos, para mostrar perfeitamente seu amor e seu poder. E o fez de forma explêndida, invadindo a casa do inimigo de Deus – do Seu inimigo -, e dos homens, o subjugando, e triunfando sobre ele. Despojando os principados e as potestades, exibiu-os publicamente, triunfando deles na cruz (Col 2,15). Jesus que era o Senhor do Céu e da Terra, é Senhor também dos infernos que diante de Seu nome se dobra em reconhecimento e temor.

Jesus venceu a morte, ela foi tragada por sua vitória e nos libertou das garras do demônio, autor da própria morte. Jesus morreu pra libertar os vivos da morte e desceu aos infernos para libertar os que ai estavam. Vós também (Senhor), pelo Sangue do vosso testamento, tírastes os Seus que estavam presos na fossa, onde não havia água .. (Zac 9,11). – O morte, serei a tua morte, ó inferno, serei para ti como uma mordida. (Os 13,14).

A descida à mansão dos mortos é o cumprimento, até à plenitude do anúncio evangélico da salvação. É a última fase da missão messiânica de Jesus, fase condensada no tempo, mas imensamente vasta no seu significado real de extensão da obra redentora a todos os homens de todos os tempos e de todos os lugares, porque todos aqueles que se salvaram se tornaram participantes da redenção.

Após o terceiro dia, sua alma se uniu ao corpo e subiu aos Céu, onde está sentado a direita do Pai. Abriu os céus para o gênero humano, já que lá entrou na Sua humanidade. Desde agora, Cristo ressuscitado «detém as chaves da morte e do Hades» (Ap 1, 18) e «ao nome de Jesus todos se ajoelhem, no céu, na terra e nos infernos» (Fl 2, 10).

Queridos, alegremos no Senhor porque não nos deixa na ignorância quanto aos bens que Ele nos outorga. Este capítulo do Credo nos faz tremer e esperar n’ Ele. Tremer por saber que o inferno existe e é real e que muitas almas podem se perder caso estejam em pecado mortal. Esperar n’Ele, porque seu conhecimento nos enche de esperanças e só nos estimula a lutar na busca da santidade, sem o qual ninguém O verá -, para um dia ao estarmos face a face com Ele, podermos louva-LO juntamente com nossos irmãos que estiveram na mansão dos mortos, mas que agora reinam com Ele eternamente.

Jesus desceu do céu para ensinar as coisas do céu, também ressurgiu dos infernos para esclarecer-nos sobre as coisas do inferno, portanto nada de desfalecer, antes usemos desta vida, porque só a temos para viver de fé, para conhece - Lo, ama- Lo e obedece- Lo com seus auxílios, e que ninguém seja seduzido a ponto de rejeita- Lo livremente, pois a pena é terrível, onde este haverá de viver eternamente longe d’Ele em grande suplícios, pelo mesmo tempo que viverão no céu, os que o amaram e esperaram n’Ele.

Como Cristo desceu aos infernos para libertar os seus, devemos também nós descer pela oração, para auxiliar os nossos. Eles, por si mesmos, nada podem conseguir.Nós é que devemos ir em socorro dos que estão no purgatório. São auxiliados, conforme disse Santo Agostinho, os que estão no purgatório, principalmente por três atos: pelas Missas, pelas orações e pelas esmolas. São Gregório acrescenta um quarto: o jejum. Como cristãos devemos rezar para que todos possam um dia estar com Ele na glória eterna. Unano-nos a Cristo por eles e que o Senhor nos ajude a sermos féis, tal como Ele é.

"A mim, e desejo que o mesmo aconteça a todos vós, a certeza de me sentir - de me saber - filho de Deus cumula-me de verdadeira esperança, uma esperança que, por ser virtude sobrenatural, ao ser infundida nas criaturas, se amolda à nossa natureza e é também virtude muito humana.?? Vivo feliz com a certeza do Céu que havemos de alcançar, se permanecermos fiéis até o fim; com a ventura que nos chegará quoniam bonus, porque o meu Deus é bom e é infinita a sua misericórdia. Esta convicção incita-me a compreender que só as coisas marcadas com o timbre de Deus revelam o sinal indelével da eternidade; e o seu valor é imperecível. Por isso, a esperança não me separa das coisas desta terra, antes me aproxima dessas realidades de um modo novo, cristão, que se esforça por descobrir em tudo a relação da natureza, decaída, com Deus Criador e com Deus Redentor."( ESCRIVÄ, São Josemaria, amigos de Deus – A esperança Cristã – ponto 208)

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[1] (Cf. Concílio de Roma (ano 745), De descensu Christi ad inferos: DS 587.)

[2] (Cf. Bento XII, Libellus, Cum dudum (1341). 18: DS 1011; Clemente VI, Ep. Super quibusdam (ano 1351), c. 15, 13: DS 1077)

[3] (Cf. IV Concílio de Toledo (ano 633). Capitulum, 1: DS 485; Mt 27, 52-53.).

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Credo - Oitavo Artigo


Creio no Espírito Santo

Por São Tomás de Aquino

Como foi dito, o Verbo de Deus é o Filho de Deus, como o verbo (mental) do homem é concebido pela inteligência. Mas algumas vezes o verbo (mental) do homem fica como morto, quando alguém pensa em realizar alguma coisa, mas a vontade de executá-la não se manifesta. Assim também quando alguém crê e não faz as obras, a sua fé pode ser chamada de morta, conforme se lê na Carta de S. Tiago: Como o corpo sem alma é morto, a fé sem as obras é morta (2,26).

A carta aos Hebreus afirma que o Verbo de Deus é vivo, lendo-se nela: é viva a palavra de Deus (4,12). Por essa razão é necessário que haja em Deus vontade e amor . Escreve Santo Agostinho no seu livro DE TRINITADE: O verbo sobre o qual pretendemos dar uma noção é um conhecimento com amor.
Como o Verbo de Deus é o Filho de Deus, assim também o amor de Deus é o Espírito Santo. Por isso; quando o homem ama a Deus, possui o Espírito Santo. S. Paulo escreve: A caridade de Deus foi difundida em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado (Rom 5,5).

Houve pessoas, que mal compreendendo a doutrina sobre o Espírito Santo, afirmaram ser Ele criatura, que era menor que o Pai e que o Filho, que era, ainda, servo e ministro de Deus. Por isso os Santos Padres, para que tais erros fossem rejeitados, acrescentaram cinco palavras qualificativas do Espírito Santo, no Símbolo.

Analisemos esses cinco termos e vejamos porque o Espírito Santo não é uma criatura, mas Deus.

Primeiro: Apesar de existirem outros espíritos - os Anjos, são contudo, todos eles, ministros de Deus, conforme a palavra do Apóstolo: Todos são (os Anjos) ministros que servem (Heb 1,14). Mas o Espírito Santo é Senhor, conforme se lê em S. João: O Espírito é Deus (Jo 4,24), o que é confirmado por S. Paulo: O Senhor é Espírito (2 Cor 3,17), que acrescenta logo em conclusão: Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade. Eis porque o Espírito nos faz amar a Deus e liberta-nos do amor ao mundo.
Acrescentou-se por essas razões ao Símbolo: No Espírito Santo Senhor.

Segundo: No Espírito está a vida da alma que se une a Deus. Deus é então a vida da alma, como a alma é, a vida do corpo. O Espírito Santo nos une a Deus por amor, porque Ele é o amor de Deus, e, conseqüentemente, nos vivifica. Lê-se em 5. João: O Espírito é que vivifica (Jo 6,64). Foi por isso acrescentado ao Símbolo: e vivificante.

Terceiro: Devemos considerar que o Espírito Santo é da mesma natureza que o Pai e o Filho: como o Filho é o Verbo de Pai, assim também o Espírito Santo é o Amor do Pai e do Filho. Por essa razão; procede de ambos; e como o Verbo de Deus é da mesma natureza do Pai, assim também, o Amor do Pai e do Filho. Por isso diz-se: Que procede do Pai e do Filho. Vê-se daí claramente que o Espírito Santo não é criatura.

Quarto. O Espírito Santo é igual ao Pai e ao Filho quanto ao culto que recebe. Lê-se nos Evangelhos: Os verdadeiros adoradores adorarão ao Pai em Espírito e verdade (Jo 4,23); Ensinai a todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 19). Foi por esse motivo acrescentado ao Símbolo: Que com o Pai e o Filho é juntamente adorado.

Quinto. O Espírito Santo é igual a Deus, porque os santos profetas falaram por Deus. Ora, é evidente. que se o Espírito Santo não fosse Deus, não se teria dito que os profetas falaram por Ele. Mas S. Pedro o disse: Inspirados pelo Espírito Santo, falaram os santos homens de Deus (2 Ped 1,21). Isaías, que foi profeta, assim fala: O Senhor meu Deus e o seu Espírito me enviaram (48,16). Por isso o Credo traz: Que falou pelos Profetas.


Por esta última afirmação, dois erros são destruídos:

O erro dos Maniqueus, que afirmavam não ter vindo de Deus o Velho Testamento, o que é falso, pois o Espírito Santo falou pelos Profetas; e o erro de Priscila e Montano , que afirmavam que os Profetas não falavam por inspiração do Espírito Santo, mas como se fossem homens alucinados

Muitos frutos provêm para nós do Espírito Santo.

Primeiro, porque Ele nos purifica do pecado. Ora, compete a quem criou uma coisa, refazê-la. A nossa alma foi criada pelo Espírito Santo, porque Deus fez todas as coisas por meio dEle, pois é amando a sua própria bondade que Deus faz tudo. Lê-se: Amais todas as coisas que existem e nada odiastes do que fizestes (Sab 11,25). Lê-se também no livro "Sobre os Nomes divinos", do Pseudo Dionísio: O divino amor não se podia permitir ficar sem geração (Cap. IV). Convém, pois, que os corações dos homens destruídos pelo pecado fossem refeitos pelo Espírito Santo. Lê-se: Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da terra (SI 103,30). Nem é motivo de admiração que o Espírito Santo purifique, porque todos os pecados são perdoados pelo amor, conforme se lê nas Escrituras: Foram-lhe perdoados muitos pecados, porque muito amou (Is 7.47);
A caridade cobre todos os delitos (Prov 10.12); A caridade cobre uma multidão de pecados (1 Ped 4,8).

Segundo, porque ilumina a inteligência, já que tudo que sabemos, o sabemos pelo Espírito Santo. Confirmam-no os seguintes textos da Escritura: O Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas e sugerir-vos-á tudo o que vos disse (Jó 2,26); A sua unção ensinar-vos-á tudo (1 J o 2,27).

Terceiro, porque o Espírito Santo nos ensina a observar os mandamentos, e, até de certo modo, no-lo obriga. Ninguém pode seguir os mandamentos de Deus, se não amar a Deus, pois: Se alguém me amar, observará os meus mandamentos (Jo 24,23). Ora, o Espírito Santo nos faz amar a Deus, e nos auxilia nesse sentido. Lê-se no Profeta Ezequiel: Dar-vos-ei um novo coração, e colocarei no meio de vós um novo espírito; tirarei o coração de pedra da vossa carne; dar-vos-ei um coração de carne, e colocarei o meu espírito no meio de vós; e farei que guardeis os meus mandamentos e os pratiqueis (36,26)

Quarto, por que Ele confirmará em nós a esperança da vida eterna, Já que o Espírito Santo é o penhor da herança, conforme estas palavras do Apóstolo aós Efésios: Fostes assinalados com o Espírito da promessa, que é o penhor da nossa herança (1,14). Ele é, com efeito, a garantia da vida eterna. A razão disto está em que a vida eterna é devida ao homem, enquanto este é filho de Deus, e o é feito, enquanto se assemelha a Cristo. Assemelha-se alguém a Cristo pelo fato de possuir o Espírito de Cristo, que é o Espírito Santo. Lê-se na Carta aos Romanos: Não recebestes o espírito de servidão para recairdes no temor, mas recebestes o espírito de adoção dos filhos, no qual chamamos Abba, Pai. O próprio Espírito certifica ao nosso espírito que somos filhos de Deus (8,15-16). Lê-se também em outra Carta do Apóstolo: Porque são filhos de Deus, enviou Deus o espírito do seu Filho nos nossos corações, chamando - Abba, Pai (Gál 4,6).

Quinto, porque o Espírito Santo nos aconselha em nossas dúvidas e nos ensina qual seja a vontade de Deus. Lê-se: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça o que o Espírito diz às Igrejas (Ap 2,7); Escutá-lo-ei como um Mestre (Is 50,4).

Fonte: Exposição sobre o Credo por São Tomás de Aquino

quarta-feira, 12 de agosto de 2009


Há 79 anos Thiamer Toth escreve em seu livro: Jovem de Caráter o seguinte:

"Este livro quereria dar aos rapazes um caracter de aço, neste tempo em que o Mundo inteiro esta voltado do avesso e parcce andar com a cabeça pelo chao; nesta epoca em que a maior e talvez a única doença da humanidade (que é responsavel por todos os erros e vicios) é o enfraquecimento espantoso da vontade: nestes dias de "nao te rales" quase geral em que muitos se comprazem em dizer que é sabedoria a adaptaçao as circunstancias, e em ver a saIvacao pública na negaçao dos principios da politica realista e na procura dos interesses pessoais; hoje, em que a sensibilidade, sempre à espreita de uma ofensa, se chama dignidade e em que a inveja pretende ser sentimento de justiça; hoje, em que se evita o trabalho difícil sob pretexto de que é impossível, e em que cada um procura a vida facil com os seus prazeres... Sim, este livro quereria formar jovens de caracter inatacavel, dc principios justos e sólidos,— jovens cuja vontade nunca recua perante as dificuldades, que sao cavaleiros fanaticos do dever, qualquer que ele seja,—jovens rijos como aço, rectos como a verdade, luminosos como um raio de sol, limpidos como o regalo das montanhas,. . . jovens puros de corpo e de alma"

79 anos depois, o mundo "evoluiu" mas as pessoas continuam as mesmas..É preciso urgentemente encontrar a Deus, para que se possa buscar sempre ter a vontade firmemente orientada para o bem, com princípios nobres enfrentando sacrifícios, mesmo que as circunstâncias não sejam favoráveis.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A Razão precisa da fé?


O combate que o homem trava contra o mal excede infinitamente os meios da razão e da ciencia. É o que demonstram fatos tao atuais como o racismo, a droga ou o alcool. Ou como todos esses terriveis crimes cometidos por totalitarismos ateus sistematicos e pretensamente cientificos ao longo do seculo XX: desde o genocidio nazista de Hitler ate o de Pol Pot no Camboja, passando pelos do leninismo, do staliniismo ou do maoismo.

O pior é que a maior parte desses crimes em massa foram cometidos em nome de teorias que, na sua epoca, receberam o aplauso de milhoes de pessoas. Foram autenticos infernos fabricados por homens que procuravam um mundo perfeito que se bastasse a si mesmo e ja não tivesse necessidade de Deus.

E assim como, lendo Lenin, se podia notar que os direitos do indivíduo nao iam ser respeitados num sistema comunista, do mesmo modo, estudando as premissas da Ilustracao, viu-se claramente que a Modernidade nao atenderia as necessidades globais do ser hurnano. Nao basta a razao para que a sociedade seja justa, solidaria e equilibrada.

Para que haja equilíbrio na pessoa e na sociedade, e preciso atender, juntamente com a razao, a vontade e a sensibilidade. A pessoa e a sociedade, devem ter por objetivo procurar o bem, a verdade e a beleza e isso significa falar de vontade, inteligencia e sentimentos e, por sua vez, de etica, de ciencia e de arte.

Quando se idolatra um metodo da inteligencia, como é a razao, sem elevar a sua altura a etica e a estetica, desequilibram-se o indivíduo e a sociedade. Esse foi o fracasso da Ilustracao..

Fracassou por ter pensado que da razao deriva automaticamente a etica, coisa que se demonstrou falsa ao ser confrontada com a realidade. A razao nao pode ser salva pela razão. Isso seria ilusorio. Esses crimes demonstraram o que o homem pode chegar a fazer. E vimos como a razao nao os impediu.

Os ilustrados pensavam que, mostrando ao homem o que é racional, este o adotaria, e a razao seria suficiente para organizar a sociedade. Mas nao foi assim. Nao basta proclamar o que e racional para que os homens o pratiquem.

O comportamento humano esta cheio de sombras e de matizes alheios a razao, que desembestam cada qual por sua conta, movendo as molas da vontade e do coracao. Reconhecer os perigos que a razao encerra - afirma Jean-Marie Lustiger -, é salvar a sua honra. Conceber a razao como a grande soberana, independente do bem que o homem deve procucar, é mais ou menos como por-se nas maos de um computador: é um instrumento muito capaz, processa grande quantidades de dados que toma do exterior, todo o seu desenvolvimento é perfeitamente logico, mas alguem tem de garantir que está bem programado.

A verdadeira fé é um guia insubstituível, pois a razao pode extraviar-se.

Nao quero, com isto, menosprezar a razao, antes contrario. A razao é uma das mais nobres capacidades que distinguem a especie humana, e alegra-nos ver os seus triunfos, bem como as conquistas da ciencia e a sua luta por construir um mundo melhor.

Mas convem nunca esquecer a limitaçao humana, e igualmente a ordem natural imposta por Deus, que permite ao homem preservar a sua dignidade e evitar muitos erros.

A historia esta cheia de cadaveres ideologicos, e niguém acha estranho encontra-los perfeitamente alinhados quando olha para tras com a disposicao de aprender. E, entre eles, espalhados ao longo dos seculos, pode-se ver toda uma legião de profetas que foram anunciando - sobretudo nos ultimos duzentos anos - o proximo e definitivo desaparecimento da religiao e da Igreja.

No entanto, a historia mostra que sao precisamente aqueles que, com tanta paixao, lancam essas condenação e essas profecias os que desaparecem uns apos outros, enquanto a Igreja continua adiante depois de dois mil anos, e a religiosidade continua a ser uma constante em todas as civilizacoes de todos os tempos.

A Igreja, que presenciou catastrofes que varreram impérios inteiros, testemunha pela sua mera subsistencia a força que palpita nela. "Os povos passam - observava Napoleao -, os tronos e as dinastias desmoronam-se, mas a Igreja permanece".

É uma realidade que leva a pensar que o fato religioso faz parte da natureza do homem, e que a Igreja esta animada de um espírito que nao é de origem humana.

Fonte: É Razoável Crer? - Alfonso Aguiló - Quadrante

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Credo - Setimo Artigo


Donde há de vir julgar os vivos e os mortos

Por São Tomás de Aquino

Julgar é função do rei: O rei, que está sentado no trono da justiça, pelo seu olhar dissipa todo o mal (Prov 20,8). Porque Cristo subiu ao céu e sentou-se à direita de Deus como Senhor de todos, evidentemente compete-lhe o juízo. Por isso, pela Regra da Fé Católica, confessamos que virá julgar os vivos e os mortos. Isto também, foi dito pelo Anjo: Este Jesus, que do meio de vós foi elevado aos céus, virá também assim como o vistes subir para os céus (Mt 1,11).

Devemos considerar nesse juízo três coisas:

Primeiro, a sua forma; segundo, que ele deve ser temido, e, terceiro, como para ele devemos nos preparar.

No juízo devemos ainda distinguir três elementos componentes: quem é o juiz, quem deve ser julgado e qual a matéria do julgamento.

Cristo é o juiz, conforme se lê no Livro dos Atos: Ele que foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos (10,42). Pode este texto ser interpretado, ou chamando de mortos os pecadores e, de vivos, os que vivem retamente; ou designando vivos, por interpretação literal, os que agora vivem, e, mortos, todos os que morreram.

Ele é juiz não só enquanto Deus, mas também como homem, por três motivos:

Primeiro, porque é necessário, aos que vão ser julgados, verem o juiz. Como a Divindade é de tal modo deleitável que ninguém a pode ver sem se deleitar, e nenhum condenado poderia vê-la sem que não sentisse logo alegria, foi necessário que Cristo
aparecesse em forma só de homem, para que fosse visto por todos. Lê-se em S. João: Deu-lhe o poder de julgar, porque é o Filho do Homem (5,27).

Segundo, porque Ele mereceu este ofício como homem. Ele, enquanto homem, foi injustamente julgado e, por isso, Deus O fez juiz de todos Lê--se: A tua causa foi julgada como a de um ímpio; receberás o julgamento das causas (Jo 36,17).

Terceiro, para que os homens não mais desesperem, vendo-se julgados por um homem. Se somente Deus julgasse, os homens ficariam desesperados. devido ao temor. (Mas todos verão um homem julgar), pois se lê em São Lucas: Verão o Filho do Homem vindo na nuvem (21.27). Serão julgados os que existiram, os que existem e existirão, conforme ensina São Paulo: Convém que todos nós sejamos apresentados diante do tribunal de Cristo, para que cada um manifeste o que fez de bom e de mal enquanto estava neste corpo (2 Cor 5,10).

Há quatro diferenças, segundo São Gregório, entre os que devem ser julgados.

Estes, ou são bons, ou são maus.

Entre os maus, alguns serão condenados, mas não julgados, como os infiéis, cujas ações não serão discutidas, porque, como está escrito, o que não crer já está julgado (10 3,18).

Outros, porém, serão condenados e julgados, como os fiéis que morreram em estado de pecado mortal. Disse o Apóstolo: o salário do pecado é a morte (Rom 6,23). Estes não serão excluídos do julgamento por causa da fé que tiveram.

Entre os bons também haverá os que serão salvos sem o julgamento, os pobres de espírito por amor de Deus. Lê-se em São Mateus: vós que me seguistes, na regeneração, quando o Filho do Homem estiver sentado em seu trono majestoso, sentar-vos-eis também sobre doze tronos, julgando as doze tribos de Israel (19,28).

Estas palavras não se dirigem só aos discípulos, mas a todos os pobres de espírito. Caso assim não fosse, São Paulo que trabalhou mais que todos, não estaria nesse número. Este texto deve, portanto, ser aplicado a todos os que seguiram os Apóstolos, e aos varões apostólicos. Eis porque São Paulo escreve: Não sabeis que julgamos os Anjos? (1 Cor 6,3). Lê-se ainda em Isaías: O Senhor virá com seniores e com os príncipes do seu povo (Is 3,14).

Outros serão salvos e julgados, isto é, aqueles que morreram em estado de justificação. Bem que tivessem morrido neste estado, erraram, todavia, em alguma coisa durante a vida terrestre. Serão, por isso, julgados, mas receberão a salvação.

Todos serão julgados pelos atos bons e maus que praticaram. Lê-se na Escritura: Segue os caminhos do teu coração. .. mas fica certo de que Deus te levará ao julgamento por causa deles (Ecle 11,9); Deus citará no julgamento todas as tuas ações, até as ocultas, quer sejam boas, quer sejam más (EcIe 13,14). Serão julgados também pelas palavras inúteis: Toda palavra inútil pronunciada por alguém, este dará conta dela no dia do juízo (Mt 12,36).

Serão julgados, por fim, pelos pensamentos que tiveram. Lê-se no livro da Sabedoria: Os ímpios serão argüidos a respeito dos seus pensamentos (1,9).

Fica assim esclarecida qual a matéria do julgamento.

Por quatro motivos deve ser temido aquele juízo:

Primeiro, devido à sabedoria do juiz, porque ele conhece todas as coisas, os pensamentos. as palavras e as ações, já que, como se lê na Carta aos Hebreus, todas as coisas estão nuas e abertas aos seus olhos (4,13). Lê-se ainda na Escritura: Todos os caminhos dos homens estão diante dos seus olhos (Prov 16,1). - Conhece Ele as nossas palavras: Os seus ouvidos atentos ouvem tudo (Sab 1,10). Conhece os nossos pensamentos: O coração do homem é depravado e impenetrável. Quem o pode conhecer? Eu, o Senhor, penetro rios corações e sondo os rins, retribuo a cada um conforme o seu caminho e conforme os frutos dos seus pensamentos (Jer 17,9).

Haverá neste juízo também testemunhas infalíveis, isto é, as próprias 'consciências dos homens, segundo se lê em São Paulo: A consciência deles servirá de testemunho no dia em que o Senhor julgar as coisas ocultas dos homens, enquanto pelos pensamentos se acusam ou se defendem (Rom 2,15,16).

Segundo, devido ao poder do juiz, porque Ele é em si mesmo todo-poderoso. Lê-se: Eis que o Senhor virá com fortaleza (Is 11,10). É poderoso também sobre os outros, porque toda criatura estava com Ele: Lê-se: O universo inteiro combaterá com ele contra os insensatos (Sab 5,2); Ninguém há que possa livrar-se da vossa mão (Jo 10,7); e ainda: Se subo aos céus, vós ali estais; se desço aos infernos, estais lá também(SI 138,8).

Terceiro, devido à justiça inflexível do juiz. Agora é o tempo da misericórdia. Mas o tempo futuro é tempo só de justiça. Por isso, o tempo de agora é nosso; mas o tempo futuro será só de Deus. Lê-se: No tempo que eu determinar, farei justiça (SI 134,3). O varão furioso de ciúmes não lhe perdoará no dia da vingança, não atenderá às suas súplicas, nem receberá como satisfação presentes, por maiores que. sejam (Prov 6,34).

Quarto, devido à ira do juiz. Aparecerá aos jústos doce e deleitável, porque, conforme diz Isaías: Verão o rei na sua beleza (Is 33,17). Aos maus, porém, aparecerá tão irado e cruel, que eles dirão aos montes: Caí sobre nós, e escondei-nos da ira do cordeiro (Ap 6,16).

Esta ira em Deus não significa uma comoção de espírito, mas signnica o efeito da ira, a pena infligida aos pecados, isto é, a pena eterna. A propósito disso escreveu Orígenes: Como serão estreitos os caminhos no juízo! No fim estará o juiz irado.

Contra este temor devemos aplicar quatro remédios.
O primeiro remédio é a boa ação. Lê-se em São Paulo: Queres não temer a autoridade? Faze o bem e receberás dela o louvor (Rom 13,3).

O segundo, é a confissão dos pecados cometidos e a penitência feita por eles. Na confissão deve haver três coisas: a dor interior, a vergonha da confissão dos pecados e o rigor da satisfação por eles. São essas três coisas que redimem a pena eterna.

O terceiro remédio é a esmola que toma tudo puro, segundo as palavras do Senhor: Conquistai amigos com o dinheiro da iniqüidade, para que, quando cairdes, eles vos recebam nas lendas eternas (Lc 26,9). (41)

O quarto remédio é a caridade, quer dizer, o amor de Deus e do próximo, pois conforme a Escritura: A caridade cobre uma multidão de pecados (lPed 4,8; cir. Prov 10,12).