sexta-feira, 3 de junho de 2011

O Sacerdócio Comum e o Sacerdócio Ministerial



Cristo Jesus, Sumo e Eterno Sacerdote, quis que a Sua Igreja fosse partícipe do seu único e indivisível sacerdócio. Ela é o povo da Nova Aliança, no qual « pela regeneração e unção do Espírito Santo, os batizados são consagrados para formar um templo espiritual e um sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais, mediante todas as suas atividades, e dar a conhecer os prodígios dAquele que das trevas os chamou à Sua luz admirável (cfr. 1 Pd 2, 4-10) ».(19) « Um é, pois, o Povo eleito de Deus: "um só Senhor, uma só fé, um só batismo" (Ef 4, 5). Comum a dignidade dos membros pela regeneração em Cristo. Comum a graça de filhos. Comum a vocação à perfeição ».(20) Existindo entre todos « verdadeira igualdade quanto à dignidade e ação comum a todos os fiéis na edificação do Corpo de Cristo », alguns são constituídos, por vontade de Cristo, « mestres, dispensadores dos mistérios e pastores em benefício dos demais ».(21) Tanto o sacerdócio comum dos fiéis como o sacerdócio ministerial ou hierárquico « ordenam-se um ao outro, embora se diferenciem na essência e não apenas em grau, pois ambos participam, cada qual a seu modo, do único sacerdócio de Cristo ».(22) Entre eles dá-se uma eficaz unidade, porque o Espírito Santo unifica a Igreja na comunhão e no serviço e a provê de diversos dons hierárquicos e carismáticos.(23)

A diferença essencial entre o sacerdócio comum e o sacerdócio ministerial não está, portanto, no sacerdócio de Cristo — que sempre permanece uno e indivisível — nem tampouco na santidade à qual todos os fiéis são chamados: « O sacerdócio ministerial, com efeito, não significa, de per si, um maior grau de santidade em relação ao sacerdócio comum dos fiéis; mas através dele é outorgado aos presbíteros, por Cristo no Espírito, um dom particular para que possam ajudar o Povo de Deus a exercer com fidelidade e plenitude o sacerdócio comum que lhe é conferido ».(24) Na edificação da Igreja, Corpo de Cristo, vige a diversidade de membros e de funções, mas um só é o Espírito, que para a utilidade da Igreja distribui os seus vários dons com magnificência proporcional à sua riqueza e à necessidade dos serviços (1 Cor 12, 1-11).(25)

A diferença está no modo de participação no sacerdócio de Cristo e é essencial no sentido de que « enquanto o sacerdócio comum dos fiéis se realiza no desenvolvimento da graça batismal — vida de fé, de esperança e de caridade, vida segundo o Espírito — o sacerdócio ministerial está a serviço do sacerdócio comum, refere-se ao desenvolvimento da graça batismal de todos os cristãos ».(26) Por conseguinte, o sacerdócio ministerial « difere essencialmente do sacerdócio comum dos fiéis porque confere um poder sagrado para o serviço dos fiéis ».(27) Para este fim, o sacerdote é exortado a « crescer na consciência da profunda comunhão que o liga ao Povo de Deus », para « suscitar e desenvolver a co-responsabilidade na comum e única missão de salvação, com a pronta e cordial valorização de todos os carismas e tarefas que o Espírito oferece aos crentes para a edificação da Igreja ».(28)

As características que diferenciam o sacerdócio ministerial dos Bispos e dos presbíteros do sacerdócio comum dos fiéis e que conseqüentemente delineiam os limites da colaboração destes no sagrado ministério, podem ser assim sintetizados:

a) o sacerdócio ministerial tem a sua raiz na sucessão apostólica e é dotado de um poder sagrado(29) que consiste na faculdade e na responsabilidade de agir na pessoa de Cristo Cabeça e Pastor;(30)

b) esse sacerdócio torna os ministros sagrados servidores de Cristo e da Igreja, mediante a proclamação autorizada da palavra de Deus, a celebração dos sacramentos e o governo pastoral dos fiéis.(31)

Colocar os fundamentos do ministério ordenado na sucessão apostólica, já que esse ministério continua a missão que os Apóstolos receberam de Cristo, é ponto essencial da doutrina eclesiológica católica.(32)

Portanto o ministério ordenado é constituído sobre o fundamento dos Apóstolos para a edificação da Igreja:(33) « ele existe totalmente em função do serviço da mesma Igreja ».(34) « Intrinsecamente ligado à natureza sacramental do ministério eclesial está o seu caráter de serviço. Com efeito, inteiramente dependentes de Cristo que confere missão e autoridade, os ministros são verdadeiramente "servos de Cristo" (Rm 1, 1), à imagem de Cristo que assumiu livremente por nós "a condição de servo" (Fil 2, 7). E porque a palavra e a graça de que são ministros não são deles, mas de Cristo que lhas confiou em favor dos outros, eles se farão livremente servos de todos ».(35)

[....]O sacerdócio ministerial é, portanto, necessário à própria existência da comunidade como Igreja: « Não se deve, pois, pensar no sacerdócio ordenado [...] como posterior à comunidade eclesial, de modo que esta pudesse ser concebida como já constituída independentemente de tal sacerdócio ».(42) Com efeito, se na comunidade vem a faltar o sacerdote, ela fica privada do exercício e da função sacramental de Cristo Cabeça e Pastor, essencial para a própria vida da comunidade eclesial.

O sacerdócio ministerial é, portanto, absolutamente insubstituível.[....]

Fonte: Instrução acerca de algumas questões sobre a colaboração dos fieis leigos no Sagrado Ministério dos Sacerdotes:

http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cclergy/documents/rc_con_interdic_doc_15081997_po.html
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quinta-feira, 2 de junho de 2011

Música Sacra deve Levar à Nostalgia do Transcendente


Entrevista ao cardeal Zenon Grocholewski

ROMA, quarta-feira, 1º de junho de 2011 (ZENIT.org) - A música sacra tem de levar a viver algo de transcendente, diferente da completa banalidade dos cantos que não se adaptam à oração e que são apenas barulho.É o que afirma o cardeal Zenon Grocholewski, prefeito da Congregação para a Educação Católica e grão-chanceler do Pontifício Instituto de Música Sacra, nesta entrevista a ZENIT, durante um congresso em Roma.


http://www.zenit.org/article-28105?l=portuguese

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Fé Divina Sobrenatural


Pelo Batismo, morremos com Cristo para com Ele renascer para uma vida nova - Vida de filhos de Deus. Além da Graça exuberante que ganhamos para nos transformar neste filho com direito ao Céu, nosso Pai nos dá neste momento, as virtudes teologais, que nos acompanharão nesta vida até um dia quando O veremos - se Deus quiser - face a face.

Este estudo é retirado do livro: As Maravilhas da Graça Divina de M. J. Scheeben - Editora Quadrante
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A fé é a primeira das tres virtudes teologais. Refere-se à nossa inteligência, que ilumina e fortifica de um modo sobrenatural, habilitando-a a participar do conhecimento de Deus, porquanto nos inteiramos, por ela, de mistérios ocultos a toda inteligência criada, acessíveis somente a Deus. Nossa alma recebe, com ela, o olho do proprio Deus, entrando assim na participaçao do conhecimento de Deus.

Com efeito, quando, pela graça, nos tornamos partipantes da natureza divina, devemos igualmente participar do conhecimento próprio a esta natureza. Devemos, na frase do Apostolo, 'conhecer a Deus, como somos conhecidos por Ele.' Isto se dará de modo completo, quando houver a graça atingido em nos seu estado perfeito, na luz da glória; entao no seio do Pai, junto de seu Primogênito, ve-Lo-emos na sua luz, tal qual é, face a face. Entretanto, ainda neste desterro se preocupa Deus com seus filhos. Devem desde agora conhece-Lo assim como a própria dignidade e herança.

E como ninguém conhece o Pai, senão Ele próprio e Seu Filho com o Espirito Santo, importa se nos manifeste Deus por sua própria Palavra; não nos permitindo, porém, nossa natureza apreender e compreender esta palavra de um modo digno dela, deve Deus habilitar-nos para isto, comunicando-nos uma força e uma luz sobrenaturais.

Realmente grande e maravilhosa é a fé divina; e se o mundo não lhe dá importancia é porque, como diz S. Ambrosio," o coração pequenino dos ímpios não pode conter a grandeza da fé". Crê o mundo ser a fé boa apenas para as crianças e os simples e assim considera como sinal de pequenez e fraqueza mental, quando, ao contrário -, nos assegura S. Leão "ser a fé força vital das grandes almas". Somente a credulidade humana, que nos leva a dar crédito, sem motivo razoável nem prova seria, a homens capazes de enganar e de se enganar, é um sinal de pequenez e imbecilidade. A fé divina, ao contrario, é o ato mais belo e mais digno do homem racional e sensato, visto ela unir e submeter sua inteligencia a infalivel e suprema inteligencia, manifestada mediante sinais claros e seguros.

Aqui se evidenciam a pequenez e estreiteza humanas, ja que toda a força e sabedoria do homem, e mesrno do anjo; são incapazes, por si, de realizar um ato de fé, tal qual Deus no-lo exige. Não pode o espírito criado fazer coisa melhor, em sua mais alta perfeição humana, do que submeter-se com profundo respeito a palavra de Deus a ele revelada. Este respeito deve superar em profundidade ao do servo, que escuta com obediência, sem reservas, a paIavra do Senhor e a ela conforma seu juizo

É o homem incapaz de elevar-se, em atrevido voo, até Deus, para unir, mediante a fé, seu juizo ao de Deus, de modo que seu conhecimento adote as propriedades do conhecimento divino e participe de sua grandeza e infalibilidade. Só o habilita para semelhante empresa a força da graça divina. Sómente ela pode proporcionar-lhe o impulso que lhe permita elevar-se acima de sua condicao natural e subir ate Deus, para escutar, em si proprio, sua palavra, beber imediatamente do sol divino a luz da verdade, apoiar-se sobre Deus como um solido rochedo e nele encontrar a certeza e a seguranca imutavel e infalivel.

Diz o Salvador " que ninguem pode vir a Ele, se não for trazldo por seu Pai" o que se da por esta atraçao sobrenatural que nos transporta para alem dos limites da natureza, até ao seio do Pai, junto de seu Unigenito Filho.

O ato de fé excede, pois, infinitamente a todo o poder natural: é um ato absolutamente sobrenatural,(S. Th. II-II,q.6,a.1) por isto mesmo, o dom da fé, que nos torna possivel este ato, é algo grande e maravilhoso. Quem o possui nao sabe mais o que é ser fraco, pois se robustece sumamente e, deixando de lado a estreiteza de seu espirito, se sente dotado de um poder de compreensão, por assim dizer, infinito.

Só os crentes constituem os espiritos verdadeiramente fortes e grandes, infinitamente superiores e mais fortes que todos os sábios deste mundo. Os que se apoiam unicamente na razao natural, deficiente catavento agitado em todas as direções pelo sopro do mau humor e das paixoes, assemelham-se a criancas arrastadas no furor da tempestade, enganadas pela maldade dos homens e os ardis do demônio. Tal não acontece com as almas fiéis. Estas, segundo o Apostolo, sao verdadeiramente estaveis e fortes; ancoradas na verdade divina, resistem com segurança sobrenatural a todas as tempestades, e se apegam com inominavel convicçao aos principios da suprema verdade.

A graça, alem de ser um impulso sobrenatural, necessário para a fé teologal, é tambem uma luz sobrenatural que nos ilumina na fé e nos conduz até ela. Para crer importa conhecer que Deus nos fala; A este conhecimento podemos chegar mediante nossa inteligencia natural, sempre que esta considere atentamente os sinais exteriores que acompanham a revelacao. Se porem, Deus nao nos ilumina interiormente e de um modo misterioso, se nao se aproxima de nós sobrenaturalmente e nao da ao nosso coração um novo ouvido interior, seremos incapazes de reconhecer e receber sua palavra, como o exige esta elevação sobrenatural da fe .

A força sobrenatural da fé não é um impulso cego e obscuro; nao! é claro e luminoso, pois o fim que poe diante de nossos olhos é nada menos que sua gloria divina, e desta forma nos atrai. A graca é como um novo eter sobrenatural, por cujas ondas percebemos a voz de Deus, de modo diverso daquele pelo qual o percebemos atraves da atmosfera de nossos sentidos e nossa razão. Por ela ouvimos imediatamente a palavra de Deus, tal com o sai de seu seus labios , experimentamos toda a sua força e poder divinos, e isto mesmo nos incita a aceita-la em toda a sua grandeza e plenitude. Ensina o Apostolo que, pela graca, Deus ilumina os olhos de nosso coracao, abre nossos ouvidos, para que nos certifiquemos, de um modo sobrenatural, daquilo que devemos crer.

Se pela luz e a força da graça apreendemos e fizemos nossa a palavra de Deus, a mesma luz sobrenatural deve também ensinar-nos a apreender e compreender as verdades reveladas por Deus. Sao tao grandes e tao elevadas estas verdades, que a luz da nossa razao se declara tao impotente para compreende-las como para no-las revelar. Descrevam-se a um cego de nascenca todas as coisas percebidas pela vista; ser-lhe-ao sempre estranhas e incompreensiveis. Estariamos no mesmo caso, se Deus, ao no-las manifestar por sua palavra, nao nos infundira, ao mesmo tempo, a luz sobrenatural da graca, que nos permite entende-las.

Pela luz da graça, extraída de seu próprio seio, mostra-nos Deus as coisas que ele mesmo vira nesta luz. Eleva-nos pela graça a uma condicao sobrenatural e coloca-nos, assim, em relacao misteriosa, e de certo modo, em contacto com os misterios sobrenaturais, de modo a não nos serem mais inteiramente estranhos e incompreensiveis. Neste mundo, é certo, jamais alcançaremos uma contemplaçao imediata que suprima a fé; nao obstante, se nos tornam estes misterios tão claros, tão límpidos e compreensíveis quanto o permite a virtude da fé.

Pecam por insensatez aqueles homens que só veem na fé, trevas e aviltamento do espírito. Muito ao contrário, todo conhecimento natural é, em face da fé, como a luz de uma lâmpada à noite, junto ao astro resplandecente no dia. Nossa razão nao passa de uma luz criada, terrestre, que projeta um palido reflexo sobre os objetos desta terra, iluminando apenas as coisas criadas e mostrando-nos o Criador unicamente a uma obscura distancia.

É' uma luz, pela qual conhecemos pouco e imperfeitamente, uma lâmpada que so ilumina os arredores imediatos, sem conseguir sequer mostra-los em todo o seu brilho natural. Ao contrário, a fé eleva-nos acima das criaturas, ate ao própno Deus; por ela, voa a nossa alma ate ele como a aguia para o sol, ele fixa seu livre e atrevido olhar, e penetra o mistério de sua intimidade. Tendo aplicado nosso olhar em Deus, causa suprema e fonte primeira de todas as coisas, faz-nos a fé percorrer daquele alto o mundo visivel e invisivel, tudo mostrando-nos em seu verdadeiro aspecto.

Patenteia-nos as profundezas da divindade, revela-nos como, desde toda a eternidade, o Filho procede do Pai, e de ambos, o Espirlto Santo, como laco de seu mutuo amor; como o Fllho, abandonando o selo do Pai, e enviado no tempo para derramar sobre as criaturas a plenitude de sua gloria e de sua sabedoria dlvinas, e reuni-las todas consigo mesmo, com seu Pai e com o Espirito Santo na mais intima comunhao. Mostra-nos o terrno ultimo e sobrenatural, o fim de todas as coisas, o ponto em que o tempo se entronca com a eternidade, o instante em que o mortal passa a imortalidade e se une tao estreitamente a Deus, que Deus esta todo em todos. E semelhante luz parecervos-ia treva e obscuridade?! Dir-se-ia que temos pavor em submeter nossa razao a obediencla da fe! Deveriamos, ao contrario, orgulhar-nos grandemente e, com S. Pedro, agradecer infinitamente- a " Deus por nos ter chamado a sua admiravel luz.''

Concedo reinar semelhante luz em uma santa obscuridade; e, porem, a obscuridade da aurora, a anunciar o dia e a gloria do sol. Como nos deveria ser. portanto, incomparavelmente mais preciosa que todas as luzes, brilhando na noite! Precisamente a escuridao de uma noite estrelada revela-nos os mais estupendos misterios, faz alcançar nossa vista infinitamente mais alem que em pleno dia. Faz-nos a luz do dia ver apenas uma reduzidissima parte da terra, um so ponto do universo. A noite, ao contrario, introduz nossos olhos nas mais gigantescas e longinquas constelacoes, nas incomensuraveis esferas, ocultas pela luz do sol.

Existe obscuridade na fé, mas uma obscuridade tal que chegamos a tocar o invisivel e te-lo entre as mãos. A fé, fala o Apostolo, é a substancia das coisas que esperamos, e uma prova das coisas que nao vemos.

Dizia S. Bernardo a um herege para quem a fé não passava de uma mera opinião: "Entendes tu? Vê que o Apóstolo fala da substância. Nao se trata, pois, de uma leviana opiniao, de uma vã imaginação. Tudo é aqui segurança, certeza que não suporta nem vacilaçao nem pusilanimidade''.' A fé, com efeito, fixa-nos na verdade divina e fixa a verdade divina em nós, de modo tão sólido e inamovível, que reconhecemos com uma segurança tao infalível e imutável como a mesma verdade divina, nao poderem falhar nossa convicçao e nosso juizo, do mesmo modo que nao podem falhar a convic~ao e o juizo de Deus sobre o qual nos apoiamos. E' a fé obscuridade porque nela nao vemos com os próprios olhos, e, sim, através do supremo - olhar de Deus para quem não existem trevas.

A fé é uma noite, mas noite que nos inunda de luz celestial. E' noite em comparação do dia da gloria eterna, mas dia em comparaçao com toda a luz da razao e do sol. A graça da fé supera tanto a qualquer outro conhecimento natural, como o olho normal supera ao olho do cego, como a alma racional do homem supera a do animal bruto.

Longe, pois, de contemplar a fé como uma noite para a inteligência, honrem-na e amemo-la como fazemos com a inteligencia. Temos motivos de considerar esta ultima como um grande dom de Deus; por ela a luz da face divina imprime-se como um selo em nosso coracao; gracas a ela colocamo-nos muito acima-dos animais. Com razao, pois, julgamos o pior dos males perde-la por uma enfermidade ou um defeito; e mil vezes pior que a privacao da vista. Dai podemos calcular a estima que nos deve merecer a luz da fé, pois, mediante ela, não só nos elevamos acima dos animais, mas ainda acima de todas as criaturas racionais. Como se ainda fora pouco, mostra-nos Deus, de face descoberta, e acrescentemos que nao podemos ser dela privados, a não ser que por nossa culpa a expulsemos de nossa alma.

Seria coisa assustadora que um homem, em seu furor se arrancasse ambos os olhos, ou consciente e voluntariamente, se privassse do uso da razão. Entretanto mais terrível ainda, supondo mesmo mais criminosa impiedade, é repudiares, como desgraçadamente o fazem tantos homens, a luz celeste da fé, que te foi presenteada por Deus, ou então, depois de honrado com ela,extingui-la em um instante, na tua alma, por uma duvida insensata ou um obstinado orgulho, precipitando-te assim em espantosas trevas.

Como são poucos os que, preocupados em não perderem a graça da fé, a honram devidamente, considerando-a como fonte da vida celeste e esforçando-se diariamente por aumenta-la e dela conseguir novas luzes!

Quantos homens, ao contrário, se atormentam a vida inteira, com incansável empenho, sacrificando saúde e dinheiro para adquirir a ciência humana, para poder conhecer os objetos mais miseráveis e insignificantes, sem pensar que um raio, uma centelha dessa divina luz contem mais claridade e verdade que toda a ciencia dos anjos e dos homens.

Os conhecimentos humanos, segundo S. Agostinho, são os reflexos do crepúsculo mergulhando-se cada vez mais no horizonte, tornando-se, a medida que se escondem, mais palidos e débeis; quanto mais requer a razão penetrar a essência das coisas, e galgar as alturas, tanto mais se vê obrigada a reconhecer sua fraqueza; la onde somente começa a verdade, outra coisa não vê diante de si, senão a noite escura. Nesta noite levanta-se, precisamente, a luz da fé, a semelhança de uma aurora que se amplia em momentos, revelando-nos um mundo novo, sobrenatural, formosíssimo; e ao mesmo tempo, deposita em nossa alma os germes de um conhecimento celeste e imperecivel, germes que não podem perecer sem culpa de nossa parte, e que um dia se abrirão com esplendor inalteravel, sob a luz da gloria.

Oxalá dedicassemos a metade do esforço e dos sacrifícios, consagrada pelos sábios a aquisição da ciencia humana, a aumentarmos a graça da fé, a aderirmos mais firmemente à palavra de Deus, a recebermos cada dia maior quantidade de sua luz! Então, sim, como nos alegrarmos neste esplendor celeste e beberíamos com prazer seus maravilhosos raios! Ostentaríamos com orgulho nossa fé, gloriando-nos, com o Apóstolo, de não conhecermos senão a Jesus e a Jesus Crucificado. Por certo, toda ciencia deste mundo nos parecia loucura e transbordaria nosso coração de um santo reconhecimento para com Deus, que nos livrou do poder das trevas e nos chamou a sua luz admiravel.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

A Caminho de Pentecostes: Hospedar o Espírito





Convite do arcebispo Orani João Tempesta

RIO DE JANEIRO, segunda-feira, 30 de maio de 2011 (ZENIT.org) -

Dentro do “belo e entusiasmante” tempo da Páscoa, a liturgia da Igreja “tem nos feito vislumbrar os umbrais de Pentecostes. Preparamo-nos para a bonita e profunda celebração da vinda do Espírito Santo”. Esse é o convite que arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta, faz aos católicos, em artigo difundido nesse domingo pela imprensa.

Nas tradições católicas, está para iniciar a novena em preparação à Solenidade de Pentecostes, que atualiza “em nossas vidas e atitudes esse grande Dom de Deus que é o Espírito Santo, derramado em nossos corações”.“Nós não estamos sozinhos, o Senhor repete isso de várias maneiras. A memória de suas palavras nos conforta, como também a experiência viva da fé que não abandona aqueles que examinam cuidadosamente as Escrituras, nem aqueles que vivem suas vidas diárias com coração generoso e acolhedor.”

“Se medirmos as nossas forças, percebemos que somos fracos e necessitados, mas se nós reconhecemos do que fomos feitos, aquela Palavra entra em nós como Espírito vivificante, prometido para preencher nossas lacunas, para ampliar nossos horizontes e fortalecer os muros dos nossos corações estremecidos pelo medo”, afirma o arcebispo. Segundo Dom Orani, “se hospedarmos o Espírito, nós cultivaremos com ele a esperança da qual podemos ter razão com a alegria e a segurança dos filhos de Deus”.

“Acolhendo a presença do Espírito Santo prometido, e aprofundando a nossa vida de fé para dar as razões de nossa esperança, poderemos, como os apóstolos, ver as maravilhas da evangelização e dos sinais pela pregação proclamada.”“Não é à toa que Pedro nos diz, antes de tudo: Adorai a Cristo em vossos corações. A fé está em ti. A fé é uma Pessoa. É preciso que façamos o encontro pessoal com Ele, caminho, verdade e vida, Espírito que nos convida a contemplar a Verdade da fé”, afirma o arcebispo.

sábado, 28 de maio de 2011

Gaudium et Spes - a Igreja no Mundo


Os homens de hoje apreciam grandemente e procuram com ardor a liberdade; infelizmente a procuram longe do Bem Supremo e por isso se perdem. A liberdade do homem, ferida pelo pecado, só com a ajuda da graça divina pode tornar efetiva a orientação para Deus - mas o mundo não O quer. Cada um deve dar conta da própria vida perante o tribunal de Deus, segundo o bem ou o mal que tiver praticado - resultado das escolhas feitas durante esta vida terrena.
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Vale a pena Ler: Gaudium et Spes - a Igreja no Mundo.

http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html


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sexta-feira, 27 de maio de 2011

São Tomás More - Rogai pelo Brasil


São Tomás More é o Padroeiro dos Governantes e dos Políticos, porque testemunhou até ao martírio a dignidade inalienável da consciência.

Por Cardeal Ratzinger:

NOTA DOUTRINAL sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política


http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20021124_politica_po.html


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A Missa é Como um poema - Adélia Prado



Padre Demétrio diz: "Recebi por e-mail um antigo artigo do Zenit com citações de Adélia Prado sobre a Santa Missa. É interessantíssimo ver como a alma poética consegue superar os limites estreitos do racionalismo e perceber a profundidade teológica que muitos teólogos sem fé jamais ousariam afirmar. Ao defender o esmero com as celebrações litúrgicas e a beleza como uma «necessidade vital» que deve permeá-las, a escritora brasileira Adélia Prado afirma que «a missa é como um poema, não suporta enfeite nenhum».


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«A missa é a coisa mais absurdamente poética que existe. É o absolutamente novo sempre. É Cristo se encarnando, tendo a sua Paixão, morrendo e ressuscitando. Nós não temos de botar mais nada em cima disso, é só isso», enfatiza.

Poeta e prosadora, uma das mais renomadas escritoras brasileiras da atualidade, Adélia Prado, 71 anos, falou sobre o tema da linguagem poética e linguagem religiosa essa quinta-feira, em Aparecida (São Paulo), no contexto do evento «Vozes da Igreja», um festival musical e cultural.

Ao propor a discussão do resgate da beleza nas celebrações litúrgicas, Adélia Prado reconheceu que essa é uma preocupação que a tem ocupado «há muitos anos». «Como cristã de confissão católica, eu acredito que tenho o dever de não ignorar a questão», disse.

«Olha, gente – comentou com um tom de humor e lamento –, têm algumas celebrações que a gente sai da igreja com vontade de procurar um lugar para rezar.»

Como um primeiro ponto a ser debatido, Adélia colocou a questão do canto usado na liturgia. Especialmente o canto «que tem um novo significado quanto à participação popular», ele «muitas vezes não ajuda a rezar».

«O canto não é ungido, ele é feito, fazido, fabricado. É indispensável redescobrir o canto oração», disse, citando o padre católico Max Thurian, que, observador no Concílio Vaticano II ainda como calvinista, posteriormente converteu-se ao catolicismo e ordenou-se sacerdote.

Adélia Prado reforçou as observações, enfatizando que «o canto barulhento, com instrumentos ruidosos, os microfones altíssimos, não facilita a oração, mas impede o espaço de silêncio, de serenidade contemplativa».

Segundo a poeta, «a palavra foi inventada para ser calada. É só depois que se cala que a gente ouve. A beleza de uma celebração e de qualquer coisa, a beleza da arte, é puro silêncio e pura audição».

«Nós não encontramos mais em nossas igrejas o espaço do silêncio. Eu estou falando da minha experiência, queira Deus que não seja essa a experiência aqui», comentou.

«Parece que há um horror ao vazio. Não se pode parar um minuto». «Não há silêncio. Não havendo silêncio, não há audição. Eu não ouço a palavra, porque eu não ouço o mistério, e eu estou celebrando o mistério», disse.

De acordo com a escritora mineira (natural de Divinópolis), «muitos procedimentos nossos são uma tentativa de domesticar aquilo que é inefável, que não pode ser domesticado, que é o absolutamente outro».

«Porque a coisa é tão indizível, a magnitude é tal, que eu não tenho palavras. E não ter palavras significa o quê? Que existe algo inefável e que eu devo tratar com toda reverência.»

Adélia Prado fez então críticas a interpretações equivocadas que se fizeram do Concílio Vaticano II na questão da reforma litúrgica.

«Não é o fato de ter passado do latim para a língua vernácula, no nosso caso o português, não é isso. Mas é que nessa passagem houve um barateamento. Nós barateamos a linguagem e o culto ficou empobrecido daquilo que é a sua própria natureza, que é a beleza.»

«A liturgia celebra o quê?» – questionou –. «O mistério. E que mistério é esse? É o mistério de uma criatura que reverencia e se prostra diante do Criador. É o humano diante do divino. Não há como colocar esse procedimento num nível de coisas banais ou comuns.»

Segundo Adélia, o erro está na suposição de que, para aproximar o povo de Deus, deve-se falar a linguagem do povo.


«Mas o que é a linguagem do povo? É aí que mora o equívoco», – disse –. «Não há ninguém que se acerca com maior reverência do mistério de Deus do que o próprio povo».

«O próprio povo é aquele que mais tem reverência pelo sagrado e pelo mistério», enfatizou.

«Como é que eu posso oferecer a esse povo uma música sem unção, orações fabricadas, que a gente vê tão multiplicadas e colocadas nos bancos das igrejas, e que nada têm a ver com essa magnitude que é o homem, humano, pecador, aproximar-se do mistério.»

Segundo a escritora brasileira, barateou-se o espaço do sagrado e da liturgia «com letras feias, com músicas feias, comportamentos vulgares na igreja».


«E está tão banalizado isso tudo nas nossas igrejas que até o modo de falar de Deus a gente mudou. Fala-se o “Chefão”, “Aquele lá de cima”, o “Paizão”, o “Companheirão”.»

«Deus não é um “Companheirão”, ele não é um “Paizão”, ele não é um “Chefão”. Eu estou falando de outra coisa. Então há a necessidade de uma linguagem diferente, para que o povo de Deus possa realmente experimentar ou buscar aquilo que a Palavra está anunciando», afirmou.

Para Adélia Prado, «linguagem religiosa é linguagem da criatura reconhecendo que é criatura, que Deus não é manipulável, e que eu dependo dele para mover a minha mão».

Com esse espírito, enfatizou, «nossa Igreja pode criar naturalmente ritos e comportamentos, cantos absolutamente maravilhosos, porque verdadeiros».

Ao destacar que a missa é como um poema e que não suporta enfeites, Adélia Prado afirmou que a celebração da Eucaristia «é perfeita» na sua simplicidade.

«Nós colocamos enfeites, cartazes para todo lado, procissão disso, procissão daquilo, procissão do ofertório, procissão da Bíblia, palmas para Jesus. São coisas que vão quebrando o ritmo. E a missa tem um ritmo, é a liturgia da Palavra, as ofertas, a consagração… então ela é inteirinha.»

«A arte a gente não entende. Fé a gente não entende. É algo dirigido à terceira margem da alma, ao sentimento, à sensibilidade. Não precisa inventar nada, nada, nada», disse Adélia.


E encerrou declamando um poema seu, cujo um fragmento diz:

Ninguém vê o cordeiro degolado na mesa,
o sangue sobre as toalhas,
seu lancinante grito,
ninguém”.

Fonte: http://www.padredemetrio.com.br/2011/05/a-missa-e-como-um-poema-nao-suporta-enfeite-nenhum/

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A Lição de São Lourenço.


Por Padre Léo Trese.

A padagogia avançou muito desde os tempos da minha infância. Hoje os alunos da 8ª série treinam uma apresentação em público. Joey está de pé e conta a vida de São Lourenço, enquanto os outros esperam a sua vez para poderem completar certos pormenores que Joey esquecerá. Mas há uma coisa que ele não esquece: "Virem-me para o outro lado- Joey cita São Lourenço - virem-me para o outro lado porque acho que deste já estou bem assado".

Os pequenos sabem apreciar o humor do santo na grelha, e há um riso geral meio reprimido, enquanto olham para mim para ver se eu também acho graça. Sorrio de volta, enquanto desejaria ter, como São Lourenço, o dom de não me dar importância a mim mesmo. Aqui está - digo de mim para mim - um bom padroeiro para os momentos de desalento. Desalento significa que me estou tomando muito a sério, sempre com a idéia de que devo ser eu sozinho a salvar o mundo...

Um paroquiano veio dizer-me que um casal de vizinhos recentes não está casado na Igreja. Não poderia eu ir visitá-los? Escrevo o nome e endereço num bloco de notas onde já estão apontados outros seis casos semelhantes de que cuidarei discretamente. Suspiro e volto ao trabalho, que naquele momento consiste em esboçar um talão de rifa para a nossa próxima excursão. "Foi para isto que me ordenei?", pergunto-me a mim mesmo.

Passo cinquenta por cento das minhas horas de trabalho no meu escritório, tratando de conseguir dinheiro, pagando duplicatas, atendendo vendedores, escrevendo cartas, acompanhando uma ou outra obra, fazendo cópias de circulares ou preenchendo impressos. Nove décimos deste trabalho podia ser feito por um leigo, ao passo que eu estou rodeado por todos os lados de almas que salvar. Ernie Stein, por exemplo. Li no jornal da tarde de ontem que ele se casou no domingo na Igreja batista. Faz precisamente ano e meio que o batizei; era um convertido que prometia muito. Pouco depois deixou a noiva católica. Se eu o tivesse acompanhado um pouco, se tivesse mantido algum contato com ele, talvez...

É justamente neste momento que São Lourenço intervém: "Ouça, meu agitado amigo", diz-me ele, "eu sou apenas um diácono, mas deixe-me dizer-lhe algumas coisas. Tudo o que você faz tem que ser feito. Talvez um leigo também o pudesse fazer, mas, neste momento, se você não o fizesse, ninguém o faria. Esses trabalhos burocráticos de que você se lamenta fazem parte de sua tarefa , se forem sublimados e fecundados na sua oração da manhã por um oferecimento espiritual. Reconheça em Deus um pouco de senso comum . Ele sabe o tempo de que você dispõe e traçou os seus planos tendo isso em conta. Em última análise, dois grãozinhos da sua graça valem mais do que nove litros do seu amor. Você acredita nisso não acredita?"

"Lembre-se - diz-me de que Deus está metido nesse assunto da salvação das almas há muito mais tempo do que você. Ele não cochila nem mesmo quando você acha que está perdendo o tempo projetando um filme para a Confraria do Santo Nome. O seu mal, padre - São Lourenço aponta o dedo para mim - o seu mal é que você não está interessado na salvação das almas como em ve-las salvar-se; o que você quer é conseguir inscreve-las uma após outra na coluna das pessoas definitivamente salvas. Eu não posso revelar nenhum segredo, mas algum dia você se surpreenderá ao saber quantos protestantes meteu no céu com as suas orações, ainda que não tenha conseguido incluí-los no seu relatório anual. Não pense que se pode encerrar a Deus nas estatísticas do Anuário Católico".

O meu visitante cala-se, mas por pouco tempo: "veja o caso do padre Harrumph: achava que eram demasiadas as suas responsabilidades e entregou-se a bebida. E que bem é o que faz agora, encerrado numa casa de saúde? Repare no padre Hustle, um cardíaco crônico e no padre Hurry * ( que significa pressa), que arranjou uma fiada de úlceras, achavam que o mundo se afundaria se eles não o carregasse pessoalmente as costas".

"Um momento por favor - Lourenço levanta a mão para que não o interrrompa com alguma objeção - não me fale de santos que se mataram de trabalhar pelo bem das almas. Quando você for santo, não terei inconveniente em vir cá em baixo discutir isso contigo. Logo que você comece a passar uma noite inteira em oração diante do Sacrário...A propósito - São Lourenço interrompe-se a si mesmo - já alguma vez pensou como o seu tempo seria frutífero se o empregasse mais em orar e menos em andar ronroneando em torno de si próprio?
Experimente. Seria caso para você se preocupar se um jogo de golfe chegasse a significar mais para você do que a instrução de um converso, ou uma noite de "poker" mais do que a sua saúde".

" Bem - São Lourenço retira o pé da cadeira enquanto sorri com ar brincalhão - fui demasiado sério para quem tem fama de humorista. Mas não se esqueça de que o marechal Foch disse um dia aos seus aduladores; " Senhores, o mesmo que eu fiz podia ter sido feito por Deus com o cabo partido de uma vassoura ". Há muito mais sacerdotes atormentados do que preguiçosos, e eu não sei se os atormentados não desonrarão mais a Deus do que os preguiçosos..."

Um ansioso estalar de dedos devolve-me à realidade. Joey terminou a sua exposição.

Enquanto clareio a voz e saio do meu sonho, tomo uma rápida decisão: da próxima vez em que a minha agenda estiver repleta de compromissos e o dia me parecer muito curto, em lugar de tomar bicarbonato de sódio, direi apenas:

"São Lourenço, Rogai por mim".

Fonte: Livro Vaso de Argila