A Doutrina Católica, a vida dos Santos, o Itinerário Espiritual do Cristão, me fascinam. Leio tudo incansavelmente e trago para o Blog. Que ele sirva de formação para perseverarmos na verdade da fé, defendendo-nos contra as astúcias do inimigo, para a Glória de Nosso Senhor.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Virtude Teologal da Esperança
Pelo Batismo, morremos com Cristo para com Ele renascer para uma vida nova - Vida de filhos de Deus. Além da Graça exuberante que ganhamos para nos transformar neste filho com direito ao Céu, nosso Pai nos dá neste momento, as virtudes teologais, que nos acompanharão nesta vida até um dia quando O veremos - se Deus quiser - face a face.
Este estudo é retirado do livro: As Maravilhas da Graça Divina de M. J. Scheeben - Editora Quadrante
1. A segunda das virtudes teologais, derramada em nosso coração pela graça, é a virtude da esperança cristã, nem menor nem menos formosa que a primeira. Como o amor, relaciona-se a esperança, não com a razão, mas com a Vontade.
Possui esta dois atos diferentes:
Pode em primeiro lugar amar o bem ou nele encontrar sua complacência; e em segundo lugar, tende efetiva e confiantemente para este bem. Assim como a fé comunica a nossa razão um conhecimento sobrenatural e divino, também a esperança comunica à vontade uma força divina e uma confiança sobrenatural, de modo a poder ela tender eficazmente para o bem supremo e infinito, chegar até ele com toda segurança, o que é interdito a toda a força criada. Do mesmo modo eleva-nos esta virtude sobre toda criatura, até Deus, para fazer-nos descansar em seu seio, fortificar-nos com seu poder, e estabelecer-nos irrevogavelmente sobre este poder como sobre inabalavel rocha.
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A grandeza e a formosura da esperança dependem, pois, de dois elementos:
Dá-nos a confiança de que podemos possuir perfeitamente e por toda a eternidade, o bem sobrenatural e supremo, que é o próprio Deus; e baseia esta confiança no poder infinito e na força do mesmo Deus, único que se possui a si mesmo por sua natureza, e igualmente único que pode introduzir a criatura na posse de si mesmo.
"A esperança ou confiança, diz S. Tomás, é um levantamento e uma elevação da alma, pela qual tende seguramente a um bem elevado e difícil de conseguir-se, e despreza e vence todas as dificuldades que se Ihe opõem. É um sentimento de coragem que comunica a alma a consciência de uma grande força e a enche de alegre intrepidez, anima-a com um particularíssimo contentamento, e a arrebata melhor que qualquer outro bem. Quanto mais elevado for o bem a que nos dirigimos, e maior a força em que nos apoiamos, tanto maior e mais forte será também o sentimento de nobreza comunicado pela esperança" - Sum Theol I-II,q.25,a.3
2. Forte e amável deve ser a esperança cristã que Jesus infunde em nossos corações pela graça. Por ela temos a consciência, cheia de consolo e conforto, de sermos chamados por Deus a inefável dignidade da filiação divina, bem como sermos seus herdeiros e co-herdeiros de seu Filho, e haveremos de nos sentar com Ele em seu trono, para com Ele reinarmos enquanto se nos submeterá o mundo e nos pertencerá o proprio Deus com toda a sua gloria, suas riquezas, seus tesouros e sua felicidade.
Por ela apoiam-nos não já sobre o débil caniço de um poder criado, mas sobre a grandeza incomparável do próprio Deus, que, segundo o Apóstolo, nos enche da plenitude de sua divindade e opera infinitamente mais, em nós do que o seriamos capazes de pedir e de compreender. Ef 3,19-20
Podemos considerar como nossa a onipotência de Deus, e nela nos apoiar como se nos pertencesse. Com efeito, ao fazer-nos filhos seus, Deus nos pertence, quando com seu inefavel amor paterno nos abraça e nos adota em seu seio, cobre-nos com sua onipotencia e faz-nos fortes com toda a plenitude de sua força divina, de modo que podemos exclamar com o Apóstolo:" Se Deus esto conosco, quem estara contra nós? Se não poupou seu Filho Unigênito e o entregou por nós, será possível não nos tenha dado, com ele, todas as coisas? Rom 8,31-32
Graças a esta consciência. a esperança dos filhos de Deus converte-se em confiança triunfal, que não teme nem perigos nem obstáculos, nem se intimida por nenhum poder criado e nem pode ela provir de nenhum poder criado. Nela encontramos uma segurança estável e infalível, que não conhece vacilações nem temores, desconhece a decepção e nos garante a consecução de nosso sim como se ja o possuíramos.
Por isto fala o Apóstolo: "Quem nos separará da caridade de Cristo? A tribulação, a angustia, a fome, a nudez? Por ocaso os perigos, a perseguição, a espada? Em semelhantes circunstancias, aquele que nos amou nos fará vencedores. Estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem um anjo, nem as potestades, nem as dominações, nem as coisas presentes nem as futuras, nem criatura alguma é capaz de separar-nos da caridade de Deus, que esta em Cristo, Nosso Senhor Rom 8,35-39
Senhor! Como pode nosso tão pobre e débil coração conter e suportar uma confiança tao firme que sobrepuja o céu e a terra, triunfa de todo, até mesmo de nós? Embora seja certo que nao podemos excita-la por nossas próprias forças, nao é menos verdade que no-la pode conceder tua poderosa graça. Nosso coração, por si, nem sequer poderá aguenta-la, se não viera em seu auxilio a graça, para fortalece-lo. Aos primeiros passos na vertiginosa estrada que conduz ao ceu, cairia sem vida, se tua graça nao Ihe desse asas para voar sobre os abismos, para elevar-se da terra ate além das montanhas que roçam as nuvens, para continuar subindo sempre para repousar em teu seio. Sim! estamos seguros com infalível certeza de gue nenhum poder inimigo, quer celeste, quer terreno, nem mesmo nossa grande fraqueza, poderao impedir-nos de alcancar nossa meta, a nao ser que expulsemos de nos a graça de Deus e sacrifiquemos a esperanca, ou se por nossa deliberada vontade, com toda malicia e nao apenas por nossa fraqueza nos subtrairmos a forca incomparavel de Deus. Nao é mister temer nos abandone ela, se antes não a abandonarmos; permanece junto de nós e em nós, enquanto junto dela permanecermos; aperfeiçoa e firma sobre a base frágil de nossa alma a construçao celeste, que ninguem pode destruir, a nao ser que o façamos nós próprios, abandonando esta mesma base.
Queira Deus como pede o Apóstolo, esclarecer os olhos de nosso coração para reconhecermos qual é a esperança de sua vocação e as riquezas da glória de sua herança nos santos. Possamos todos, pela força do Espírito Santo que recebemos como penhor de nossa glória, como consolador de nossa miséria e auxílio de nossa fraqueza, suspirar por esta perfeita adoção dos filhos de Deus, na qual até mesmo nosso corpo se verá livre da escravidão da corrupção
Possamos todos ter com o Apóstolo acesso à graça na qual nos achamos e gloriar-nos na esperança da glória dos filhos de Deus . Sim, como diz o Apóstolo, devemos alegrar-nos nas tribulações, pois sabemos que a tribulação gera a paciência, a paciência a provação e a provação produz a esperança que não engana
Quanto não desonramos esta inefável virtude da esperança divina, com nossa covardia e preguiça! Estremecemo-nos diante do menor perigo, sucumbimos em face da mais insignificante tentação, apegamo-nos à terra, sem aventurarmos um só passo no caminho escarpado que sobe ao céu. Se considerarmos tão somente nossa forças naturais, é certo que temos razões para perder a coragem. Mas como justificar semelhante falta de coragem quando Deus nos cumula com sua poderosa graça e nos coloca a tal altura que estamos em condições de enfrentar o inferno inteiro?
Por que não estendermos a mão a esta graça, por que não nos apoiarmos nela para livrar nosso coração de todo temor, de toda ansiedade? Inclinemo-nos a confiar excessivamente em nossas próprias forças, a vangloriar-nos ainda quando deficientes ou relacionadas com insignificantes assuntos. Por que cometeremos para conosco este imenso erro, e faremos a Deus tal injúria, desconfiando de sua graça, e não desprezando, como seu auxílio, todos os perigos, todos os inimigos?
Esforcemo-nos por honrar a graça desta celeste esperança; prefiramos, com santo orgulho, a esperança da glória destinada aos filhos de Deus, a qualquer outro poder e a todas as riquezas da terra. Com inquebrantável segurança, ergamos os olhos para a posse do Bem supremo, que coroa nossa esperança mediante a persuasão inefávelmente doce de que nunca poderemos perde-lo, nem por nossa culpa.
terça-feira, 7 de junho de 2011
Sobre o sentido do Sofrimento
Somente na ótica do Calvário podemos entender o sofrimento. Sem esta visão corremos o risco de culpar a Deus por ele. Para muitos, contemplar a beleza, a criação, a ordem, é sinal da presença de Deus, mas quando se deparam com as dificuldades, a imagem dEle se distorce, afinal, como um Deus tão bom, tão perfeito, tão poderoso, pode deixar que isto aconteça? Por que não fez ou faz algo para mudar esta situação?
A questão é que Ele já fez tudo que pode para muda-la, mandou o Filho, revestido na humanidade, para passar por todos os sofrimentos e através dele, remir a todos e chama-los para a verdadeira salvação e ausencia de males que é viver eternamente com Ele.
O maior mal, o grande sofrimento que pode passar o ser humano é a condenação, por isso Cristo disse a Nicodemos: "De tal modo Deus amou o mundo que lhe deu seu Filho unico para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna" Perecer para Deus é perder a vida eterna e a morte do Filho, na Cruz, é o remédio e a cura para o homem caído pelo pecado.
Objetivamente falando, o mal e o sofrimento tem origem no pecado e toda nossa vida será permeada pela luta e pelo sofrimento, a questão é que podemos nos usufruir dele para obtermos nosso fim e como nos ensinou muitos santos, até nos alegrar com ele. Quando entendemos que podemos unir nossas dores e nossas dificuldades à Cruz de Cristo, podemos tirar por causa disso, grandes bens, para nós e para o corpo místico de Cristo, da qual fazemos parte.
Deus não quer o sofrimento, mas o permite para dele tirar um bem maior. Seja ele fruto de um pecado pessoal - e para este precisamos de perdão - seja ele fruto do pecado do mundo; que ele seja para nós caminho de santificação e crescimento nas virtudes, para crescermos tbem como filhos que somos nos tornando verdadeiros filhos de Deus, na paciência, esperança - afinal, Jesus sofreu, morreu, mas ressuscitou - e na perseverança final
Sobre o sentido do sofrimento, vejam esta Carta Apostólica do Beato João Paulo II :
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http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_letters/documents/hf_jp-ii_apl_11021984_salvifici-doloris_po.html
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segunda-feira, 6 de junho de 2011
Cristo e a Riqueza

Por Tihamer Toth – Prelado Húngaro (1889 - 1931)
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Extratos da Obra: Quem é Cristo?
Os habitantes da pequena aldeia bávara de Oberammergau fizeram no século XVII, durante a epidemia da peste, a promessa de representar a Paixão de Cristo de dez em dez anos se o flagelo desaparece. Em 1930 milhares de espectadores de todas as partes do mundo foram assistir com alma comovida às piedosas representações da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. A cena que sempre causa profunda impressão no espectador, preocupado com os problemas sociais atuais, não é o caminho da cruz nem a crucifixão ou a morte de Cristo; sem dúvida, essas cenas são comovedoras; é o lava-pés durante a Ceia a parte mais apreciada pelo público.
Quando o Salvador se levanta da mesa e calmamente lava os pés dos apóstolos, empreende uma revolução, subverte todos os conceitos que até então a humanidade possuía sobre poder e grandeza. O Salvador não proclama que os ricos irão para o inferno, que os capitalistas devem desaparecer, que não deve haver senhores. O Filho de Deus, Criador do mundo, levanta-se silenciosamente e ajoelha-se diante de simples pescadores para lavar-lhes os pés. Essa comovedora lição deve iluminar como um clarão o céu escuro do mundo atual. Cristo indica que é impossível suprimir as diferenças de classes entre os homens. Sempre haverá na terra: sábios e ignorantes, fortes e fracos, sadios e enfermos, ricos e pobres, patrões e operários. Não é correto incitar as classes umas contra as outras, semeando ódio e destruindo autoridade; cabe incutir nos superiores e mais fortes, nos mais instruídos e ricos, a idéia de que devem trabalhar praticando o amor caritativo, somente assim as lutas entre as classes sociais desaparecerão.
O Filho de Deus lavando os pés dos homens!
Não é o progresso que resolverá a questão social, a solução definitiva pode ser encontrada quando o patrão lavar os pés do empregado, isto é, quando o exemplo de Cristo elevar a vida cotidiana, enobrecendo o procedimento de agir e falar. A distância entre o trabalho e o capital, a riqueza e a miséria, preocupa o mundo atual. Chamei a atenção sobre o fato: todas as instituíções procuram reinvicar Jesus Cristo para si. A Sua personalidade é de tal grandeza que cada tendência deseja que Jesus pertença ao seu quadro. Houve quem achasse que Cristo foi o primeiro comunista, porque pronunciou esta ameaça: Ai de vós, ricos! Alguns viram como redentor social, o primeiro socialista. Consideremos o que Cristo ensinou sobre a propriedade privada, a riqueza e os bens do mundo. A atitude do Salvador perante a riqueza é especialmente posta em relevo nos episódios do jovem rico e no Sermão da Montanha.
Certo dia, um jovem rico encontrou-se com Cristo e cheio de entusiasmo disse: Bom Mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna? Jesus respondeu-lhe: Se queres entrar na vida eterna , observa os mandamentos. O jovem falou: Tenho observado tudo isso desde a minha infância. Que me falta ainda? Nosso Senhor olha profundamente. Percebe que este jovem rico tem sede de um grau mais alto de perfeição, então lhe responde: Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me. Esse sacrifício era demasiado para aquele jovem, que então prefere deixar o divino Mestre. Cristo lamenta: É difícil para um rico entrar no Reino do céus!
Os discípulos ficarm surpresos, não esperavam isso (na mentalidade judaica daquele tempo, acreditava-se que quem era rico e tinha saúde, estava na graça de Deus; pelo contrário quem era pobre ou possuía enfermidades era considerado pecador, por isso Deus o estava castigando. Jesus demonstrou como essa mentalidade era deturpada).Então os ricos não são felizes? Não são filhos queridos de Deus os que acumulam bens terrenos? Jesus acrescenta: É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos céus.. A estas palavras seus discípulos, pasmados, perguntaram: Quem poderá então se salvar? Jesus olhou para eles e disse: Aos homens é impossível, mas a Deus tudo é possível (Mt 19,24-26).
Para melhor compreender o pensamento do Salvador sobre a riqueza, analisemos o Sermão da Montanha. Este sermão proclama com clareza indiscutível a idéia de Cristo sobre a excelência da pobreza e da renúncia voluntária. Bem-aventurados vós que sois pobres, porque vosso é o Reino de Deus! Bem-aventurados vós que agora tendes fome, porque sereis fartos! Bem-aventurados vós que agora chorais, porque vos alegrareis! Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos expulsarem, vos ultrajarem, e quando e repelirem o vosso nome com infame por causa do Filho do homem! Alegrai-vos naquele dia e exultai, porque grande é o vosso galardão no céu(Lc 6, 20-23).Quem ler superficialmente essas importantes declarações de Jesus Cristo, talvez se escandalize. Mas quem reflete a fundo sobre o sentido dessas palavras e acrescenta as declarações feitas noutras partes pelo divino Mestre, nota que não condenou a civilização; apenas mostrou onde reside a riqueza verdadeiramente civilizadora e digna do homem.
Com efeito, as palavras do Salvador servem de equilíbrio à natureza humana, exageradamente inclinada para a matéria; para que possa se elevar do círculo egoísta dos instintos terrenos para o círculo dos interesses celestes.
Qual é a fonte mais terrível de qualquer maldade e insensiblidade humana no mundo? Que separa os amigos, os parentes, os irmãos e transforma em inferno a vida? O egoísmo. É nisso precisamente que as palavras de Cristo dão o golpe mortal, porque essas importantes palavras significam uma afirmação corajosa: o culto do Mammon (palavra hebraica que significa a personificação do mal; deus do dinheiro)não poderá ser banido, os excesos do capitalismo não poderão ser suprimidos, senão quando a tirania da cobiça for refreada. Também um milionário pode ser cristão e não se sujeitar ao domínio do dinheiro e um proletário, o mais pobre, pode ser escravo da riqueza. As palavras de Cristo mostram claramente que ninguém está obrigado a distribuir os bens; indica o perigo de o homem por facilmente nas riquezas toda a esperança, toda a confiança, todos os desejos, esquecendo-se de Deus. Para quem o dinheiro é deus, o Deus verdadeiro não pode entrar. Ai de vós, ó ricos!
Cristo teve discípulos com boas condições financeiras: Marta e Maria, Salomé, Nicodemos, José de Arimatéia, Mateus. Um dos amigos mais queridos, Lázaro, possuía uma residência grande, onde Jesus frequentemente descansava. Hospedou-se de boa vontade na casa do rico Zaqueu. Jesus não condena o rico que sabe colocar a salvação acima da riqueza, que usa o dinheiro para o bem, socorrendo os necessitados.Esse ensinamento traz sérias consequências. O amor de Cristo nos constrange(2Cor5,14). Nisso consiste a ação social; é unicamente na concepção religiosa que descobrimos o pobre, o abandonado, a alma imortal.
Tolstoi conta num romance, o pensamento de uma condessa sobre as criadas: “É verdadeiramente espantoso que estas serviçais façam nossas camas, enquanto tocamos Chopin! É verdadeiramente espantoso que a caridade de Cristo, com o exemplo do Lava-pés fique apenas como algo sentimental, porém não será espantoso quando o comunismo chegar, destruindo o piano e as partituras de Chopin”.
Ser cristão significa olhar ciosamente o céu? Esperar com suspiros o reino dos céus? Ficar de braços cruzados esperando as coisas acontecerem? De jeito nenhum, se assim fosse, o cristianismo seria o inimigo do progresso e do trabalho.
O bom cristão reza, confessa-se, comunga, jejua, assiste à Missa, pratica tudo isso; domina também os instintos, a dureza de coração, a preguiça, a impaciência e o egoísmo; é amável e indulgente com o próximo e severo consigo mesmo, acima de tudo cumpre os deveres com dedicação. Mesmo que uma pessoa reze muito e comungue todos os dias, se é indisciplinada, manhosa, insuportável, egoísta, nada esquece e perdoa, é negligente com os deveres, certamente não é cristã.
Para que um dia seja possível resolver a questão social, a humanidade deve estar impregnada do espírito cristão, viver como cristão é a única solução.
A associação russa dos sem-Deus publicou em Moscou um jornal em que aparecia uma gravura com o título: O guarda-vento. Via-se Cristo triste, estendendo as mãos para um grupo de infelizes: mulheres esqueléticas, crianças famintas, operários curvados e sujos pelo trabalho. Cristo parece dizer: Louve o trabalho, não se revoltem contra os exploradoress, não busquem uma vida melhor e mais humana para os filhos, tenham paciência. Atrás da imagem de Jesus está um gordo burguês – que a multidão não vê por causa de Cristo – com os dedos cheios de anéis de diamante, segurando uma corda que enforca o proletário indefeso. Diante desta imagem revoltante, não basta a indignação e o protesto, precisamos refletir com humildade e fazer um exame de consciência.
Há alguma verdade nessa cena blasfema? Esses revolucionários vermelhos estarão certos? É possível falar de cristianismo enquanto milhões trabalham como escravos para o capitalismo? Quem está com a razão: o comunismo ou o capitalismo? Onde encontramos Cristo, do lado daqueles que com avidez querem monopolizar tudo, ou daqueles que através de revoluções sangrentas querem tirar tudo?
Vejamos o que Cristo pensa da riqueza, antes vamos entender claramente o que é riqueza.
O que é necessário para viver não é riqueza, é meio indispensável de existência. O salário ganho honestamente, não é riqueza. O sustento não pode ser entendido apenas como alimentação, moradia e vestuário. Não sou homem pelo fato de me alimentar e sim pelo fato de possuir uma vida intelectual e igualmente necessidades intelectuais. Riqueza é tudo aquilo que está acima das necessidades.
Na parábola do rico e do pobre Lázaro (Lc 16,19-31) Jesus não condena o rico porque possuía riquezas, condena porque não tinha compaixão do pobre. Em nenhuma parte, o Senhor condena aqueles que possuem riquezas e propriedades; como já demosntramos, possuía entre os discípulos, pessoas de posses, apenas insistiu no perigo da riqueza.
Jesus, certa vez, disse: ”Ai de vós, ó ricos! Em outra ocasião: “Bem-aventurados os pobres!” Parece que amaldiçoa os ricos e abençõa os pobres. Isso seria por um lado uma severidade incompreensível e de outro lado não poderia haver progresso humano e social. Quem trabalharia, se não pudesse guardar as economias para no futuro pudesse comprar uma morada? O Senhor condena apenas os “ricos”, que veem na fortuna o bem único; em contrapartida, os “pobres” bem-aventurados são aqueles, que perante os gozos da vida, consideram preciosa a liberdade, aspiram e trabalham para introduzir na vida um valor verdadeiro. O conceito de Cristo, não é o mesmo do mundo. A sociedade se inclina diante dos ricos e este é o seu pensamento: tens muitos bens em depósito para muitíssimos anos; descansa, come, bebe e regala-te(Lc 12,19). É para estes que se aplicam as maldições do Senhor; dificilmente conseguirão entrar no reino dos céus.
Em compensação, os pobres entrarão facilmente no reino dos céus? Certamente os pobres de espírito, que não são apegados aos bens terrenos, sejam ricos ou pobres, e que colocaram os olhos no fim eterno. Diante de Deus o rico e o pobre possuem o mesmo valor; a única vantagem do pobre é não estar exposto ao perigo das grandes riquezas, embora possa estar extremamente apegado ao pouco que possui. Peçamos a Deus a graça de saber usar os bens com sobriedade, em favor da família, da Igreja, da Sociedade e dos mais necessitados.
O homem é por natureza egoísta e cobiçoso. O cristianismo, há vinte séculos, combate a falta de compaixão dos ricos, que estão muito longe do ideal cristão.Cristo ensinou que todos devem socorrer o próximo na parábola do bom samaritano, no entanto, a esmola não é a essência do cristianismo, apenas meio auxiliar. O fundamento é o trabalho digno, tanto que quem não trabalha não deve comer; é necessário acrescentar que não podemos falar de reino de Cristo, enquanto um homem que deseje trabalhar honestamente, não encontre emprego e morra de fome.
Exorta os ricos deste mundo a que não sejam orgulhosos nem ponham sua esperança nas riquesas volúveis [/i] (1Tm 6,17). Muitos que tinham posses, depois de uma queda do câmbio, de uma falência, acordaram pobres no dia seguinte. Vários milionários viajavam num transatlântico luxuoso, divertindo-se com danças e jogos. O rádio de repente deu a seguinte notícia: “Quebra na bolsa de Nova Iorque”. Estes magnatas que estavam tão alegres, ficaram empalidecidos, quando embarcaram eram milionários, agora apenas homens falidos no meio do mar. Já aconselhava São Paulo: Exorta os ricos deste mundo a que não sejam orgulhosos nem ponham sua esperança nas riquezas volúveis. O que torna o homem rico é a imitação da generosidade de Deus.
Recordemos as palavras dirigidas por São João Crisóstomo aos ricos sem coração, feitas há quinze séculos, e que servem perfeitamente para o homem de hoje : Vocês se banqueteiam e Cristo nem sequer tinha o necessário para comer; vocês comem iguarias deliciosas e Jesus não tinha sequer pão seco; vocês bebem vinho de Tharos e sequer dão um copo de água para Jesus; vocês descansam em leitos aconchegantes enquanto Cristo morre no frio; e não falo daqueles que convidam para suas casas mulheres de má vida, não me dirijo a estes, pois não tenho costume de falar com os cães; não falo daqueles que enriquecem injustamente, que enchem o estômago dos aduladores, porque não tenho nada a fazer com eles, como não tenho nada com os suínos; falo àqueles que gozam de suas riquezas, mas não tornam os outros participantes, consumindo somente para eles a herança. Estes cometeram pecados. Estão com medo por causa destas palavras? Pois bem! Tremam por causa de suas ações. (Sermão sobre o Evangelho de São Mateus 48 - homilias 78-79).
A Igreja fiel à doutrina de Cristo sempre exortou os fiéis como podemos ver nesta circular dos Bispos húngaros : Deus deu os bens deste mundo a todos, para serem bem usados e não adorados.
Deus distribuiu os bens entre todos indistintamente, não criou pobres e ricos, simplesmente homens; Deus os abençoou: Frutificai, disse ele e multiplica-vos, enchei a terra e submetei-a (Gen 1,28). Em conformidade com a lei divina, todos possuem direitos aos bens da terra, utilizando-os para a existência; aquele que exclui o próximo está contra essa lei.
Quem não quiser trabalhar, não tem o direito de comer(1 Ts 3,10). Aqueles que desejam trabalhar, obedecendo à ordem imposta por Deus, não podem ser excluídos por causa se um sistema econômico egoista. Hoje vemos milhões de homens estendendo as mãos em busca do pão de cada dia, a esses se aplicam as palavras da Escritura: Não rejeteis o pedido do aflito, não desveis o rosto do pobre ( Eclo 4,4). Então é preciso recordar aos ricos, que a obrigação de fornecer trabalho honesto e alimentação é uma lei divina; o Estado tem obrigação de tornar medidas e promulgar leis que fornecam trabalho aos que querem trabalhar e pão para os que têm fome.
O rico chega facilmente a pensar que não precisa de nada, mesmo de Deus. Por isso, Jesus disse na parábola do semeador que os ricos são sufocados pelos cuidados, riquezas e prazeres da vida e assim seus frutos não amadurecem (Lc 8,14)
Também a miséria é perigosa para a salvação. A pobreza material é companheira do pecado. O homem torturado pela fome, facilmente se revolta e deixa de rezar.
Com o capitalismo selvagem e o proletariado anfrajoso não são os ideias do cristianismo, então qual será esse ideal?
A Sagrada Escritura fornece este ideal: Não me dês nem pobreza nem riqueza, concede-me o pão que me é necessário(Pr 30,8), porque nada trouxemos ao mundo, como tampouco nada poderemos levar. Tendo alimento e vestuário, contentamo-nos com isto. Aqueles que ambicionam tornar-se ricos caem nas armadilhas do demônio e em muitos desejos insensatos e nocivos da ruína e da perdição, porque a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro. (1Tm 6, 7-10)
O mundo luta entre o capitalismo e o comunismo, porém o remédio é o cristianismo. A ordem social e econômica não pode ser baseada no vértice das pirâmides do Egito, onde milhões trabalhavam como escravos; a justiça e a propriedade particular são reconhecidas pelo ideal cristão, cuidado, pois ninguém pode servir a dois senhores…Não podeis servir a Deus e à riqueza(Mt 6,24-25) No cemitério de cães em Paris, há monumentos cujo valor bastaria para sustentar dezenas de famílias pobres; enquanto a ossada de uma cadela jaz abrigada do inverno, centenas de pessoas morrem de frio nos arredores de Paris. O cristão não pode aceitar semelhente coisa. Diante do esbanjamento insensato dos ricos, o mundo está repleto de crianças subnutridas e desabrigadas.
Recentemente um hotel americano organizou um jantar de mil dólares por pessoa. Enquanto no mundo milhões de operários sem trabalho passam fome, existem pessoas cuja consciência permite comer de entrada um prato que representa um castelo construído por fatias de caviar e pastéis de fígado de ganso, regado por champagne. Eis a solução social sem Cristo!
Santa Isabel da Hungria era bastante rica, possuía um castelo e poderia tomar parte em um banquete de mil dólares; ao contrário distinguiu-se destes milionários americanos, aceitando a doutrina de Cristo, não fez uma refeição de mil dólares, preferiu alimentar os pobres; descia voluntariamente do castelo para o profundo vale do sofrimento, da mortificação e da humilhação, para se elevar depois às alturas do amor de Deus e do próximo, com isso resolveu a questão social do povo de sua época.
Toth Tihamer - Bispo -Extratos da Obra: Quem é Cristo? Editora Formatto - Texto: Cristo e a Riqueza.
sábado, 4 de junho de 2011
Chesterton
"Imagine o homem moderno que tivesse levado um volume de teologia medieval para a cama. Ele esperaria encontrar ali um pessimismo que não há, um fatalismo que não há, uma amor à barbárie que não há, um desprezo pela razão que não há. Aliás, seria na verdade muito bom que fizesse a experiência. Far-lhe-á bem de uma forma ou de outra: ou o fará dormir - ou o fará acordar"
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sexta-feira, 3 de junho de 2011
O Sacerdócio Comum e o Sacerdócio Ministerial
Cristo Jesus, Sumo e Eterno Sacerdote, quis que a Sua Igreja fosse partícipe do seu único e indivisível sacerdócio. Ela é o povo da Nova Aliança, no qual « pela regeneração e unção do Espírito Santo, os batizados são consagrados para formar um templo espiritual e um sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais, mediante todas as suas atividades, e dar a conhecer os prodígios dAquele que das trevas os chamou à Sua luz admirável (cfr. 1 Pd 2, 4-10) ».(19) « Um é, pois, o Povo eleito de Deus: "um só Senhor, uma só fé, um só batismo" (Ef 4, 5). Comum a dignidade dos membros pela regeneração em Cristo. Comum a graça de filhos. Comum a vocação à perfeição ».(20) Existindo entre todos « verdadeira igualdade quanto à dignidade e ação comum a todos os fiéis na edificação do Corpo de Cristo », alguns são constituídos, por vontade de Cristo, « mestres, dispensadores dos mistérios e pastores em benefício dos demais ».(21) Tanto o sacerdócio comum dos fiéis como o sacerdócio ministerial ou hierárquico « ordenam-se um ao outro, embora se diferenciem na essência e não apenas em grau, pois ambos participam, cada qual a seu modo, do único sacerdócio de Cristo ».(22) Entre eles dá-se uma eficaz unidade, porque o Espírito Santo unifica a Igreja na comunhão e no serviço e a provê de diversos dons hierárquicos e carismáticos.(23)
A diferença essencial entre o sacerdócio comum e o sacerdócio ministerial não está, portanto, no sacerdócio de Cristo — que sempre permanece uno e indivisível — nem tampouco na santidade à qual todos os fiéis são chamados: « O sacerdócio ministerial, com efeito, não significa, de per si, um maior grau de santidade em relação ao sacerdócio comum dos fiéis; mas através dele é outorgado aos presbíteros, por Cristo no Espírito, um dom particular para que possam ajudar o Povo de Deus a exercer com fidelidade e plenitude o sacerdócio comum que lhe é conferido ».(24) Na edificação da Igreja, Corpo de Cristo, vige a diversidade de membros e de funções, mas um só é o Espírito, que para a utilidade da Igreja distribui os seus vários dons com magnificência proporcional à sua riqueza e à necessidade dos serviços (1 Cor 12, 1-11).(25)
A diferença está no modo de participação no sacerdócio de Cristo e é essencial no sentido de que « enquanto o sacerdócio comum dos fiéis se realiza no desenvolvimento da graça batismal — vida de fé, de esperança e de caridade, vida segundo o Espírito — o sacerdócio ministerial está a serviço do sacerdócio comum, refere-se ao desenvolvimento da graça batismal de todos os cristãos ».(26) Por conseguinte, o sacerdócio ministerial « difere essencialmente do sacerdócio comum dos fiéis porque confere um poder sagrado para o serviço dos fiéis ».(27) Para este fim, o sacerdote é exortado a « crescer na consciência da profunda comunhão que o liga ao Povo de Deus », para « suscitar e desenvolver a co-responsabilidade na comum e única missão de salvação, com a pronta e cordial valorização de todos os carismas e tarefas que o Espírito oferece aos crentes para a edificação da Igreja ».(28)
As características que diferenciam o sacerdócio ministerial dos Bispos e dos presbíteros do sacerdócio comum dos fiéis e que conseqüentemente delineiam os limites da colaboração destes no sagrado ministério, podem ser assim sintetizados:
a) o sacerdócio ministerial tem a sua raiz na sucessão apostólica e é dotado de um poder sagrado(29) que consiste na faculdade e na responsabilidade de agir na pessoa de Cristo Cabeça e Pastor;(30)
b) esse sacerdócio torna os ministros sagrados servidores de Cristo e da Igreja, mediante a proclamação autorizada da palavra de Deus, a celebração dos sacramentos e o governo pastoral dos fiéis.(31)
Colocar os fundamentos do ministério ordenado na sucessão apostólica, já que esse ministério continua a missão que os Apóstolos receberam de Cristo, é ponto essencial da doutrina eclesiológica católica.(32)
Portanto o ministério ordenado é constituído sobre o fundamento dos Apóstolos para a edificação da Igreja:(33) « ele existe totalmente em função do serviço da mesma Igreja ».(34) « Intrinsecamente ligado à natureza sacramental do ministério eclesial está o seu caráter de serviço. Com efeito, inteiramente dependentes de Cristo que confere missão e autoridade, os ministros são verdadeiramente "servos de Cristo" (Rm 1, 1), à imagem de Cristo que assumiu livremente por nós "a condição de servo" (Fil 2, 7). E porque a palavra e a graça de que são ministros não são deles, mas de Cristo que lhas confiou em favor dos outros, eles se farão livremente servos de todos ».(35)
[....]O sacerdócio ministerial é, portanto, necessário à própria existência da comunidade como Igreja: « Não se deve, pois, pensar no sacerdócio ordenado [...] como posterior à comunidade eclesial, de modo que esta pudesse ser concebida como já constituída independentemente de tal sacerdócio ».(42) Com efeito, se na comunidade vem a faltar o sacerdote, ela fica privada do exercício e da função sacramental de Cristo Cabeça e Pastor, essencial para a própria vida da comunidade eclesial.
O sacerdócio ministerial é, portanto, absolutamente insubstituível.[....]
Fonte: Instrução acerca de algumas questões sobre a colaboração dos fieis leigos no Sagrado Ministério dos Sacerdotes:
http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cclergy/documents/rc_con_interdic_doc_15081997_po.html
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quinta-feira, 2 de junho de 2011
Música Sacra deve Levar à Nostalgia do Transcendente
Entrevista ao cardeal Zenon Grocholewski
ROMA, quarta-feira, 1º de junho de 2011 (ZENIT.org) - A música sacra tem de levar a viver algo de transcendente, diferente da completa banalidade dos cantos que não se adaptam à oração e que são apenas barulho.É o que afirma o cardeal Zenon Grocholewski, prefeito da Congregação para a Educação Católica e grão-chanceler do Pontifício Instituto de Música Sacra, nesta entrevista a ZENIT, durante um congresso em Roma.
http://www.zenit.org/article-28105?l=portuguese
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Fé Divina Sobrenatural
Pelo Batismo, morremos com Cristo para com Ele renascer para uma vida nova - Vida de filhos de Deus. Além da Graça exuberante que ganhamos para nos transformar neste filho com direito ao Céu, nosso Pai nos dá neste momento, as virtudes teologais, que nos acompanharão nesta vida até um dia quando O veremos - se Deus quiser - face a face.
Este estudo é retirado do livro: As Maravilhas da Graça Divina de M. J. Scheeben - Editora Quadrante
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A fé é a primeira das tres virtudes teologais. Refere-se à nossa inteligência, que ilumina e fortifica de um modo sobrenatural, habilitando-a a participar do conhecimento de Deus, porquanto nos inteiramos, por ela, de mistérios ocultos a toda inteligência criada, acessíveis somente a Deus. Nossa alma recebe, com ela, o olho do proprio Deus, entrando assim na participaçao do conhecimento de Deus.
Com efeito, quando, pela graça, nos tornamos partipantes da natureza divina, devemos igualmente participar do conhecimento próprio a esta natureza. Devemos, na frase do Apostolo, 'conhecer a Deus, como somos conhecidos por Ele.' Isto se dará de modo completo, quando houver a graça atingido em nos seu estado perfeito, na luz da glória; entao no seio do Pai, junto de seu Primogênito, ve-Lo-emos na sua luz, tal qual é, face a face. Entretanto, ainda neste desterro se preocupa Deus com seus filhos. Devem desde agora conhece-Lo assim como a própria dignidade e herança.
E como ninguém conhece o Pai, senão Ele próprio e Seu Filho com o Espirito Santo, importa se nos manifeste Deus por sua própria Palavra; não nos permitindo, porém, nossa natureza apreender e compreender esta palavra de um modo digno dela, deve Deus habilitar-nos para isto, comunicando-nos uma força e uma luz sobrenaturais.
Realmente grande e maravilhosa é a fé divina; e se o mundo não lhe dá importancia é porque, como diz S. Ambrosio," o coração pequenino dos ímpios não pode conter a grandeza da fé". Crê o mundo ser a fé boa apenas para as crianças e os simples e assim considera como sinal de pequenez e fraqueza mental, quando, ao contrário -, nos assegura S. Leão "ser a fé força vital das grandes almas". Somente a credulidade humana, que nos leva a dar crédito, sem motivo razoável nem prova seria, a homens capazes de enganar e de se enganar, é um sinal de pequenez e imbecilidade. A fé divina, ao contrario, é o ato mais belo e mais digno do homem racional e sensato, visto ela unir e submeter sua inteligencia a infalivel e suprema inteligencia, manifestada mediante sinais claros e seguros.
Aqui se evidenciam a pequenez e estreiteza humanas, ja que toda a força e sabedoria do homem, e mesrno do anjo; são incapazes, por si, de realizar um ato de fé, tal qual Deus no-lo exige. Não pode o espírito criado fazer coisa melhor, em sua mais alta perfeição humana, do que submeter-se com profundo respeito a palavra de Deus a ele revelada. Este respeito deve superar em profundidade ao do servo, que escuta com obediência, sem reservas, a paIavra do Senhor e a ela conforma seu juizo
É o homem incapaz de elevar-se, em atrevido voo, até Deus, para unir, mediante a fé, seu juizo ao de Deus, de modo que seu conhecimento adote as propriedades do conhecimento divino e participe de sua grandeza e infalibilidade. Só o habilita para semelhante empresa a força da graça divina. Sómente ela pode proporcionar-lhe o impulso que lhe permita elevar-se acima de sua condicao natural e subir ate Deus, para escutar, em si proprio, sua palavra, beber imediatamente do sol divino a luz da verdade, apoiar-se sobre Deus como um solido rochedo e nele encontrar a certeza e a seguranca imutavel e infalivel.
Diz o Salvador " que ninguem pode vir a Ele, se não for trazldo por seu Pai" o que se da por esta atraçao sobrenatural que nos transporta para alem dos limites da natureza, até ao seio do Pai, junto de seu Unigenito Filho.
O ato de fé excede, pois, infinitamente a todo o poder natural: é um ato absolutamente sobrenatural,(S. Th. II-II,q.6,a.1) por isto mesmo, o dom da fé, que nos torna possivel este ato, é algo grande e maravilhoso. Quem o possui nao sabe mais o que é ser fraco, pois se robustece sumamente e, deixando de lado a estreiteza de seu espirito, se sente dotado de um poder de compreensão, por assim dizer, infinito.
Só os crentes constituem os espiritos verdadeiramente fortes e grandes, infinitamente superiores e mais fortes que todos os sábios deste mundo. Os que se apoiam unicamente na razao natural, deficiente catavento agitado em todas as direções pelo sopro do mau humor e das paixoes, assemelham-se a criancas arrastadas no furor da tempestade, enganadas pela maldade dos homens e os ardis do demônio. Tal não acontece com as almas fiéis. Estas, segundo o Apostolo, sao verdadeiramente estaveis e fortes; ancoradas na verdade divina, resistem com segurança sobrenatural a todas as tempestades, e se apegam com inominavel convicçao aos principios da suprema verdade.
A graça, alem de ser um impulso sobrenatural, necessário para a fé teologal, é tambem uma luz sobrenatural que nos ilumina na fé e nos conduz até ela. Para crer importa conhecer que Deus nos fala; A este conhecimento podemos chegar mediante nossa inteligencia natural, sempre que esta considere atentamente os sinais exteriores que acompanham a revelacao. Se porem, Deus nao nos ilumina interiormente e de um modo misterioso, se nao se aproxima de nós sobrenaturalmente e nao da ao nosso coração um novo ouvido interior, seremos incapazes de reconhecer e receber sua palavra, como o exige esta elevação sobrenatural da fe .
A força sobrenatural da fé não é um impulso cego e obscuro; nao! é claro e luminoso, pois o fim que poe diante de nossos olhos é nada menos que sua gloria divina, e desta forma nos atrai. A graca é como um novo eter sobrenatural, por cujas ondas percebemos a voz de Deus, de modo diverso daquele pelo qual o percebemos atraves da atmosfera de nossos sentidos e nossa razão. Por ela ouvimos imediatamente a palavra de Deus, tal com o sai de seu seus labios , experimentamos toda a sua força e poder divinos, e isto mesmo nos incita a aceita-la em toda a sua grandeza e plenitude. Ensina o Apostolo que, pela graca, Deus ilumina os olhos de nosso coracao, abre nossos ouvidos, para que nos certifiquemos, de um modo sobrenatural, daquilo que devemos crer.
Se pela luz e a força da graça apreendemos e fizemos nossa a palavra de Deus, a mesma luz sobrenatural deve também ensinar-nos a apreender e compreender as verdades reveladas por Deus. Sao tao grandes e tao elevadas estas verdades, que a luz da nossa razao se declara tao impotente para compreende-las como para no-las revelar. Descrevam-se a um cego de nascenca todas as coisas percebidas pela vista; ser-lhe-ao sempre estranhas e incompreensiveis. Estariamos no mesmo caso, se Deus, ao no-las manifestar por sua palavra, nao nos infundira, ao mesmo tempo, a luz sobrenatural da graca, que nos permite entende-las.
Pela luz da graça, extraída de seu próprio seio, mostra-nos Deus as coisas que ele mesmo vira nesta luz. Eleva-nos pela graça a uma condicao sobrenatural e coloca-nos, assim, em relacao misteriosa, e de certo modo, em contacto com os misterios sobrenaturais, de modo a não nos serem mais inteiramente estranhos e incompreensiveis. Neste mundo, é certo, jamais alcançaremos uma contemplaçao imediata que suprima a fé; nao obstante, se nos tornam estes misterios tão claros, tão límpidos e compreensíveis quanto o permite a virtude da fé.
Pecam por insensatez aqueles homens que só veem na fé, trevas e aviltamento do espírito. Muito ao contrário, todo conhecimento natural é, em face da fé, como a luz de uma lâmpada à noite, junto ao astro resplandecente no dia. Nossa razão nao passa de uma luz criada, terrestre, que projeta um palido reflexo sobre os objetos desta terra, iluminando apenas as coisas criadas e mostrando-nos o Criador unicamente a uma obscura distancia.
É' uma luz, pela qual conhecemos pouco e imperfeitamente, uma lâmpada que so ilumina os arredores imediatos, sem conseguir sequer mostra-los em todo o seu brilho natural. Ao contrário, a fé eleva-nos acima das criaturas, ate ao própno Deus; por ela, voa a nossa alma ate ele como a aguia para o sol, ele fixa seu livre e atrevido olhar, e penetra o mistério de sua intimidade. Tendo aplicado nosso olhar em Deus, causa suprema e fonte primeira de todas as coisas, faz-nos a fé percorrer daquele alto o mundo visivel e invisivel, tudo mostrando-nos em seu verdadeiro aspecto.
Patenteia-nos as profundezas da divindade, revela-nos como, desde toda a eternidade, o Filho procede do Pai, e de ambos, o Espirlto Santo, como laco de seu mutuo amor; como o Fllho, abandonando o selo do Pai, e enviado no tempo para derramar sobre as criaturas a plenitude de sua gloria e de sua sabedoria dlvinas, e reuni-las todas consigo mesmo, com seu Pai e com o Espirito Santo na mais intima comunhao. Mostra-nos o terrno ultimo e sobrenatural, o fim de todas as coisas, o ponto em que o tempo se entronca com a eternidade, o instante em que o mortal passa a imortalidade e se une tao estreitamente a Deus, que Deus esta todo em todos. E semelhante luz parecervos-ia treva e obscuridade?! Dir-se-ia que temos pavor em submeter nossa razao a obediencla da fe! Deveriamos, ao contrario, orgulhar-nos grandemente e, com S. Pedro, agradecer infinitamente- a " Deus por nos ter chamado a sua admiravel luz.''
Concedo reinar semelhante luz em uma santa obscuridade; e, porem, a obscuridade da aurora, a anunciar o dia e a gloria do sol. Como nos deveria ser. portanto, incomparavelmente mais preciosa que todas as luzes, brilhando na noite! Precisamente a escuridao de uma noite estrelada revela-nos os mais estupendos misterios, faz alcançar nossa vista infinitamente mais alem que em pleno dia. Faz-nos a luz do dia ver apenas uma reduzidissima parte da terra, um so ponto do universo. A noite, ao contrario, introduz nossos olhos nas mais gigantescas e longinquas constelacoes, nas incomensuraveis esferas, ocultas pela luz do sol.
Existe obscuridade na fé, mas uma obscuridade tal que chegamos a tocar o invisivel e te-lo entre as mãos. A fé, fala o Apostolo, é a substancia das coisas que esperamos, e uma prova das coisas que nao vemos.
Dizia S. Bernardo a um herege para quem a fé não passava de uma mera opinião: "Entendes tu? Vê que o Apóstolo fala da substância. Nao se trata, pois, de uma leviana opiniao, de uma vã imaginação. Tudo é aqui segurança, certeza que não suporta nem vacilaçao nem pusilanimidade''.' A fé, com efeito, fixa-nos na verdade divina e fixa a verdade divina em nós, de modo tão sólido e inamovível, que reconhecemos com uma segurança tao infalível e imutável como a mesma verdade divina, nao poderem falhar nossa convicçao e nosso juizo, do mesmo modo que nao podem falhar a convic~ao e o juizo de Deus sobre o qual nos apoiamos. E' a fé obscuridade porque nela nao vemos com os próprios olhos, e, sim, através do supremo - olhar de Deus para quem não existem trevas.
A fé é uma noite, mas noite que nos inunda de luz celestial. E' noite em comparação do dia da gloria eterna, mas dia em comparaçao com toda a luz da razao e do sol. A graça da fé supera tanto a qualquer outro conhecimento natural, como o olho normal supera ao olho do cego, como a alma racional do homem supera a do animal bruto.
Longe, pois, de contemplar a fé como uma noite para a inteligência, honrem-na e amemo-la como fazemos com a inteligencia. Temos motivos de considerar esta ultima como um grande dom de Deus; por ela a luz da face divina imprime-se como um selo em nosso coracao; gracas a ela colocamo-nos muito acima-dos animais. Com razao, pois, julgamos o pior dos males perde-la por uma enfermidade ou um defeito; e mil vezes pior que a privacao da vista. Dai podemos calcular a estima que nos deve merecer a luz da fé, pois, mediante ela, não só nos elevamos acima dos animais, mas ainda acima de todas as criaturas racionais. Como se ainda fora pouco, mostra-nos Deus, de face descoberta, e acrescentemos que nao podemos ser dela privados, a não ser que por nossa culpa a expulsemos de nossa alma.
Seria coisa assustadora que um homem, em seu furor se arrancasse ambos os olhos, ou consciente e voluntariamente, se privassse do uso da razão. Entretanto mais terrível ainda, supondo mesmo mais criminosa impiedade, é repudiares, como desgraçadamente o fazem tantos homens, a luz celeste da fé, que te foi presenteada por Deus, ou então, depois de honrado com ela,extingui-la em um instante, na tua alma, por uma duvida insensata ou um obstinado orgulho, precipitando-te assim em espantosas trevas.
Como são poucos os que, preocupados em não perderem a graça da fé, a honram devidamente, considerando-a como fonte da vida celeste e esforçando-se diariamente por aumenta-la e dela conseguir novas luzes!
Quantos homens, ao contrário, se atormentam a vida inteira, com incansável empenho, sacrificando saúde e dinheiro para adquirir a ciência humana, para poder conhecer os objetos mais miseráveis e insignificantes, sem pensar que um raio, uma centelha dessa divina luz contem mais claridade e verdade que toda a ciencia dos anjos e dos homens.
Os conhecimentos humanos, segundo S. Agostinho, são os reflexos do crepúsculo mergulhando-se cada vez mais no horizonte, tornando-se, a medida que se escondem, mais palidos e débeis; quanto mais requer a razão penetrar a essência das coisas, e galgar as alturas, tanto mais se vê obrigada a reconhecer sua fraqueza; la onde somente começa a verdade, outra coisa não vê diante de si, senão a noite escura. Nesta noite levanta-se, precisamente, a luz da fé, a semelhança de uma aurora que se amplia em momentos, revelando-nos um mundo novo, sobrenatural, formosíssimo; e ao mesmo tempo, deposita em nossa alma os germes de um conhecimento celeste e imperecivel, germes que não podem perecer sem culpa de nossa parte, e que um dia se abrirão com esplendor inalteravel, sob a luz da gloria.
Oxalá dedicassemos a metade do esforço e dos sacrifícios, consagrada pelos sábios a aquisição da ciencia humana, a aumentarmos a graça da fé, a aderirmos mais firmemente à palavra de Deus, a recebermos cada dia maior quantidade de sua luz! Então, sim, como nos alegrarmos neste esplendor celeste e beberíamos com prazer seus maravilhosos raios! Ostentaríamos com orgulho nossa fé, gloriando-nos, com o Apóstolo, de não conhecermos senão a Jesus e a Jesus Crucificado. Por certo, toda ciencia deste mundo nos parecia loucura e transbordaria nosso coração de um santo reconhecimento para com Deus, que nos livrou do poder das trevas e nos chamou a sua luz admiravel.
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