domingo, 12 de junho de 2011

Homilia de Bento XVI - Solenidade de Pentecostes - 2011


Queridos irmãos e irmãs!

Celebramos hoje a grande Solenidade de Pentecostes. Se, em certo sentido, todas as solenidades litúrgicas da Igreja são grandes, esta de Pentecostes o é de maneira singular, porque assinala, chegado o quinquagésimo dia, o cumprimento do evento da Páscoa, da morte e ressurreição do Senhor Jesus, através do dom do Espírito do Ressuscitado. Para Pentecostes, a Igreja preparou-nos nos dias passados com a sua oração, com a invocação repetida e intensa a Deus para obter uma renovada efusão do Espírito Santo sobre nós. A Igreja reviveu, assim, aquilo que aconteceu nas suas origens, quando os Apóstolos, reunidos no Cenáculo de Jerusalém, "eram perseverantes e unânimes na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos dele" (At 1,14). Estavam reunidos em humilde e confiante espera de que se cumprisse a promessa do Pai comunicada a eles por Jesus: "Vós sereis batizados no Espírito Santo daqui há poucos dias... descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força" (At 1,5.8).

Na liturgia de Pentecostes, à narração dos Atos dos Apóstolos sobre o nascimento da Igreja (cf. At 2,1-11), corresponde o salmo 103, que escutamos: um louvor a toda a criação, que exalta o Espírito Criador, o qual fez tudo com sabedoria: "Ó Senhor, quão variadas são as vossas obras! Feitas, todas, com sabedoria, a terra está cheia das coisas que criastes... Ao Senhor, glória eterna; alegre-se o Senhor em suas obras!" (Sal 103,24.31). Aquilo que deseja dizer-vos a Igreja é isto: o Espírito Criador de todas as coisas e o Espírito Santo que Cristo fez descer do Pai sobre a comunidade dos discípulos são um e o mesmo: criação e redenção se pertencem reciprocamente e constituem, em profundidade, um único mistério de amor e de salvação. O Espírito Santo é, antes de tudo, o Espírito Criador e, portanto, Pentecostes é a festa da criação. Para nós, cristãos, o mundo é fruto de um ato de amor de Deus, que fez todas as coisas e das quais Ele se alegra porque é "coisa boa", "coisa muito boa", como recorda-nos a narração da criação (cf. Gen 1,1-31). Deus, por isso, não é o totalmente Outro, inominável e obscuro. Deus revela-se, tem um rosto, Deus é razão, Deus é vontade, Deus é amor, Deus é beleza. A fé no Espírito Criador e a fé no Espírito que o Cristo Ressuscitado dá aos Apóstolos e dá a cada um de nós estão, portanto, inseparavelmente unidas.

A segunda Leitura e o Evangelho de hoje mostram-nos essa conexão. O Espírito é Aquele que nos faz reconhecer em Cristo o Senhor, e faz-nos pronunciar a profissão de fé da Igreja: "Jesus é o Senhor" (cf. 1 Cor 12,3b). Senhor é o título atribuído a Deus no Antigo testamento, título que na leitura da Bíblia ocupava o lugar do seu impronunciável nome. O Credo da Igreja é nada mais que desenvolvimento disto que se diz com esta simples afirmação: "Jesus é o Senhor". Dessa profissão de fé, São Paulo diz-nos que se trata da palavra e da obra do Espírito Santo. Se desejamos estar no Espírito, devemos aderir a esse Credo. Fazendo-o nosso, aceitando-o como nossa palavra, adentramos na obra do Espírito Santo. A expressão "Jesus é o Senhor" pode-se ler nos dois sentidos. Significa: Jesus é Deus, e contemporaneamente: Deus é Jesus. O Espírito Santo ilumina esta reciprocidade: Jesus tem dignidade divina, e Deus tem o rosto humano de Jesus. Deus se mostra em Jesus e, com isso, dá-nos a verdade sobre nós mesmos. Deixar-nos iluminar no profundo por essa palavra é o evento de Pentecostes. Recitando oCredo, nós entramos no mistério do primeiro Pentecostes: da desordem de Babel, daquelas vozes que se chocam uma contra a outra, acontece uma radical transformação: a multiplicidade se faz multiforme unidade, do poder unificador da Verdade cresce a compreensão. No Credo, que nos une de todos os ângulos da Terra, que, mediante o Espírito Santo, permite que nos compreendamos, ainda que na diversidade das línguas, por meio da fé, a esperança e o amor, forma-se a nova comunidade da Igreja de Deus.

O trecho evangélico oferece-nos depois uma maravilhosa imagem para clarear a conexão entre Jesus, o Espírito Santo e o Pai: o Espírito Santo é representado como o sopro de Jesus ressuscitado (cf. Jo 20,22). O evangelista João retoma aqui uma imagem da narração da criação, lá onde se diz que Deus soprou nas narinas do homem um sopro de vida (cf. Gen 2,7). O sopro de Deus é vida. Ora, o Senhor sopra na nossa alma um novo sopro de vida, o Espírito Santo, a sua mais íntima essência, e, desse modo, acolhe-nos na família de Deus. Com o Batismo e a Crisma, nos é dado este dom de modo específico, e com os sacramentos da Eucaristia e da Penitência, isso se repete continuamente: o Senhor sopra na nossa alma um sopro de vida. Todos os Sacramentos, cada um de maneira própria, comunicam ao homem a vida divina, graças ao Espírito Santo que opera neles.

Na liturgia de hoje, colhemos ainda uma ulterior conexão. O Espírito Santo é Criador, é ao mesmo tempo Espírito de Jesus Cristo, ainda que o Pai, o Filho e o Espírito Santo sejam um só e único Deus. E à luz da primeira Leitura podemos complementar: o Espírito Santo anima a Igreja. Ela não deriva da vontade humana, da reflexão, da habilidade do homem e da sua capacidade organizativa, posto que se assim fosse já há tempos estaria extinta, assim como passa cada coisa humana. Ela é, ao contrário, o Corpo de Cristo, animado pelo Espírito Santo. As imagens do vento e do fogo, usadas por São Lucas para representar a vinda do Espírito Santo, (cf. At 2,2-3), recordam o Sinai, onde Deus revelou-se ao povo de Israel e lhe havia concedido a sua aliança: "Todo o monte Sinai fumegava – lê-se no Livro do Êxodo –, porque o Senhor tinha descido sobre ele no meio de chamas" (19,18). De fato, Israel festejava o quinquagésimo dia após a Páscoa, depois da comemoração da fuga do Egito, como a festa do Sinai, a festa do Pacto. Quando São Lucas fala de línguas de fogo para representar o Espírito Santo, relembra aquele antigo Pacto, estabelecido com base na Lei recebida por Israel sobre o Sinai. Assim, o evento de Pentecostes é representado como um novo Sinai, como o dom de um novo Pacto em que a aliança com Israel é estendida a todos os povos da Terra, em que caem todos os obstáculos da velha Lei e aparece o seu coração mais santo e imutável, isto é, o amor que exatamente o Espírito Santo comunica e difunde, o amor que abraça todas as coisas. Ao mesmo tempo, a Lei dilata-se, abre-se, também se tornando mais simples: é o Novo Pacto, que o espírito "escreve" nos corações de quanto creem em Cristo. A extensão do Pacto a todos os povos da Terra é representada por São Lucas através de um elenco de populações consideráveis por aquela época (cf. At 2,9-11). Com isso, nos é dita uma coisa muito importante: que a Igreja é católica desde o primeiro momento, que a sua universalidade não é o fruto da inclusão sucessiva de diversas comunidades. Desde o primeiro instante, de fato, o Espírito Santo a criou como a Igreja de todos os povos; essa abraça o mundo inteiro, supera todas as fronteiras de raça, classe, nação; abate todas as barreiras e une os homens na profissão do Deus uno e trino. Desde o início a Igreja é una, católica e apostólica: essa é a sua verdadeira natureza e como tal deve ser reconhecida. Ela é santa, não graças à capacidade dos seus membros, mas porque Deus mesmo, com o seu Espírito, cria-a, purifica-a e santifica-a sempre.

Enfim, o Evangelho de hoje disponibiliza-nos esta belíssima expressão: "Os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor" (Jo 20,20). Essas palavras são profundamente humanas, O Amigo perdido está de novo presente, e quem antes estava chateado se alegra. Mas isso diz muito mais. Porque o Amigo perdido não vem de um lugar qualquer, mas da noite da morte; e Ele a superou! Ele não é um qualquer, mas sim é o Amigo e conjuntamente Aquele que é a Verdade que faz os homens viverem; e aquilo que dá não é uma alegria qualquer, mas a alegria mesma, dom do Espírito Santo. Sim, é belo viver porque sou amado, e é a Verdade que me ama. Alegraram-se os discípulos, vendo o Senhor. Hoje, em Pentecostes, essa expressão é destinada também a nós, porque na fé podemos vê-Lo; na fé Ele vem entre nós e também a nós mostra as mãos e o lado, e nós nos alegramos. Por isso queremos rezar: Senhor, mostra-te! Dá-nos o dom da tua presença, e teremos o dom mais belo: a tua alegria. Amém!



Fonte: http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=282122

***

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Dominum et vivificantem


Sobre o Espírito Santo na Vida da Igreja e do Mundo


Por João Paulo II

1. A Igreja professa a sua fé no Espírito Santo, como n'Aquele «que é Senhor e dá a vida». É o que ela proclama no Símbolo da Fé, chamado Niceno-Constantinopolitano, do nome dos dois Concílios - de Niceia (a. 325) e de Constantinopla (a. 381) - nos quais foi formulado ou promulgado. Nele se acrescenta também que o Espírito Santo «falou pelos Profetas».

São palavras que a Igreja recebe da própria fonte da sua fé, Jesus Cristo. Com efeito, segundo o Evangelho de São João, o Espírito Santo é-nos dado com a vida nova, como Jesus anuncia e promete no dia solene da festa dos Tabernáculos: «Quem tem sede, venha a mim; e beba quem crê em mim. Como diz a Escritura, do seu seio fluirão rios de água viva»1. E o Evangelista explica: «Jesus dizia isso referindo-se ao Espírito, que haveriam de receber os que n'Ele acreditassem»2. É a mesma analogia da água usada por Jesus no diálogo com a Samaritana, quando fala de «uma nascente de água a jorrar para a vida eterna»3, e no colóquio com Nicodemos, quando anuncia a necessidade de um novo nascimento «pela água e pelo Espírito» para «entrar no Reino de Deus»4.

A Igreja, portanto, instruída pelas palavras de Cristo, indo beber à experiência do Pentecostes e da própria «história apostólica», proclama desde o início a sua fé no Espírito Santo, como n'Aquele que dá a vída, Aquele no qual o imperscrutável Deus uno e trino se comunica aos homens, constituindo neles a nascente da vida eterna.

Continue lendo -




*******

Festa de Pentecostes


Pelo Santo Padre, o Papa, Bento XVI


Prezados irmãos e irmãs!

"Na solene celebração do Pentecostes, somos enviados a professar a nossa fé na presença e na acção do Espírito Santo e a invocar a sua efusão sobre nós, sobre a Igreja e sobre o mundo inteiro. Portanto, façamos nossa, e com intensidade particular, a invocação da própria Igreja: Veni, Sancte Spiritus! Uma invocação tão simples e imediata, mas ao mesmo tempo extraordinariamente profunda, que brota em primeiro lugar do Coração de Cristo. Com efeito, o Espírito é o dom que Jesus pediu e pede continuamente ao Pai pelos seus amigos; o primeiro e principal dom que nos obteve com a sua Ressurreição e Ascensão ao Céu.

Desta oração de Cristo fala-nos o trecho evangélico hodierno, que tem como contexto a Última Ceia. O Senhor Jesus disse aos seus discípulos: "Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos. E Eu suplicarei ao Pai e Ele dar-vos-á outro Consolador, a fim de permanecer convosco para sempre" (Jo 14, 15-16). Aqui revela-se-nos o Coração orante de Jesus, o seu Coração filial e fraterno. Esta oração alcança o seu ápice e o seu cumprimento na cruz, onde a invocação de Cristo se identifica com o dom total que Ele faz de si mesmo, e deste modo o seu rezar torna-se por assim dizer o próprio selo do seu doar-se em plenitude por amor ao Pai e à humanidade: invocação e doação do Espírito Santo encontram-se, compenetram-se e tornam-se uma única realidade. "E Eu suplicarei ao Pai e Ele dar-vos-á outro Consolador, a fim de permanecer convosco para sempre". Na realidade, a oração de Jesus – a da Última Ceia e a da cruz – é uma oração que permanece também no Céu, onde Cristo está sentado à direita do Pai. Com efeito, Jesus vive sempre o seu sacerdócio de intercessão a favor do povo de Deus e da humanidade, e portanto reza por todos pedindo ao Pai o dom do Espírito Santo.

A narração do Pentecostes no livro dos Actos dos Apóstolos – ouvimo-lo na primeira leitura – (cf. Act 2, 1-11) apresenta o "novo curso" da obra de Deus, encetado com a ressurreição de Cristo, obra que envolve o homem, a história e o cosmos. Do Filho de Deus morto e ressuscitado, que voltou para o Pai, emana agora sobre a humanidade com energia inédita o sopro divino, o Espírito Santo. E o que produz esta nova e poderosa autocomunicação de Deus? Onde existem lacerações e estraneidades, ela cria unidade e compreensão. Tem início um processo de reunificação entre as partes da família humana, divididas e dispersas; as pessoas, muitas vezes reduzidas a indivíduos em competição ou em conflito entre si, alcançadas pelo Espírito de Cristo, abrem-se à experiência da comunhão, que pode empenhá-las a ponto de fazer delas um novo organismo, um novo sujeito: a Igreja.

Este é o efeito da obra de Deus: a unidade; por isso, a unidade é o sinal de reconhecimento, o "cartão de visita" da Igreja no curso da sua história universal. Desde o início, do dia do Pentecostes, ela fala todas as línguas. A Igreja universal precede as Igrejas particulares, as quais devem conformar-se sempre com ela, segundo um critério de unidade e universalidade. A Igreja nunca permanece prisioneira de confins políticos, raciais ou culturais; não se pode confundir com os Estados e nem sequer com as Federações de Estados, porque a sua unidade é de outro tipo e aspira a atravessar todas as fronteiras humanas.

Amados irmãos, disto deriva um critério prático de discernimento para a vida cristã: quando uma pessoa, ou uma comunidade, se fecha no seu próprio modo de pensar e de agir, é sinal que se afastou do Espírito Santo.

O caminho dos cristãos e das Igrejas particulares deve confrontar-se sempre com o da Igreja, una e católica, e harmonizar-se com ele. Isto não significa que a unidade criada pelo Espírito Santo é uma espécie de igualitarismo. Pelo contrário, ela é sobretudo o modelo de Babel, ou seja, a imposição de uma cultura da unidade que poderíamos definir "técnica". Com efeito, a Bíblia diz-nos (cf. Gn 11, 1-9) que em Babel todos falavam uma só língua. Pelo contrário, no Pentecostes os Apóstolos falam línguas diferentes, de modo que cada um compreenda a mensagem no seu próprio idioma. A unidade do Espírito manifesta-se na pluralidade da compreensão. A Igreja é por sua natureza una e múltipla, destinada como está a viver em todas as nações, em todos os povos e nos mais diversificados contextos sociais. Ela responde à sua vocação, de ser sinal e instrumento de unidade de todo o género humano (cf. Lumen gentium, 1), apenas se permanece autónoma de qualquer Estado e de toda a cultura particular. Sempre e em cada lugar, a Igreja deve ser verdadeiramente católica e universal, a casa de todos, onde cada um se pode encontrar.

A narração dos Actos dos Apóstolos oferece-nos também outra sugestão muito concreta. A universalidade da Igreja é expressa pelo elenco dos povos, segundo a antiga tradição: "Somos Partas, Médios, Elamitas...", etc. Pode-se observar aqui que São Lucas vai além do número 12, que já expressa sempre uma universalidade. Ele olha além dos horizontes da Ásia e do noroeste da África, e acrescenta outros três elementos: os "Romanos", ou seja, o mundo ocidental; os "judeus e prosélitos", incluindo de modo novo a unidade entre Israel e o mundo; e enfim "Cretenses e Árabes", que representam Ocidente e Oriente, ilhas e terra firme. Esta abertura de horizontes confirma ulteriormente a novidade de Cristo na dimensão do espaço humano, da história das gentes: o Espírito Santo envolve homens e povos e, através deles, supera muros e barreiras.

No Pentecostes, o Espírito Santo manifesta-se como fogo. A sua chama desceu sobre os discípulos reunidos, acendeu-se neles e infundiu-lhes o novo ardor de Deus. Realiza-se assim aquilo que o Senhor Jesus tinha predito: "Vim lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que ele já tivesse sido ateado!" (Lc 12, 49). Juntamente com os fiéis das diversas comunidades, os Apóstolos levaram esta chama divina até aos extremos confins da Terra; abriram assim um caminho para a humanidade, uma senda luminosa, e colaboraram com Deus que com o seu fogo quer renovar a face da terra. Como é diferente este fogo, daquele das guerras e das bombas! Como é diverso o incêndio de Cristo, propagado pela Igreja, em relação aos que são acendidos pelos ditadores de todas as épocas, também do século passado, que atrás de si deixam terra queimada. O fogo de Deus, o fogo do Espírito Santo, é aquele da sarça que ardia sem se consumir (cf. Êx 3, 2). É uma chama que arde, mas não destrói; aliás, ardendo faz emergir a parte melhor e mais verdadeira do homem, como numa fusão faz sobressair a sua forma interior, a sua vocação à verdade e ao amor.

Um Padre da Igreja, Orígenes, numa das suas Homilias sobre Jeremias, cita um dito atribuído a Jesus, não contido nas Sagradas Escrituras mas talvez autêntico, que reza assim: "Quem está comigo está junto do fogo" (Homilia sobre Jeremias l. I [III]). Com efeito, em Cristo habita a plenitude de Deus, que na Bíblia é comparado com o fogo. Há pouco pudemos observar que a chama do Espírito Santo arde mas não queima. E todavia, ela realiza uma transformação, e por isso deve consumir algo no homem, as escórias que o corrompem e o impedem nas suas relações com Deus e com o próximo. Porém, este efeito do fogo divino assusta-nos, temos medo de nos "queimar", preferiríamos permanecer assim como somos. Isto depende do facto que muitas vezes a nossa vida é delineada segundo a lógica do ter, do possuir, e não do doar-se. Muitas pessoas crêem em Deus e admiram a figura de Jesus Cristo, mas quando se lhes pede que abandonem algo de si mesmas, então elas recuam, têm medo das exigências da fé. Existe o temor de ter que renunciar a algo de bonito, ao que estamos apegados; o temor de que seguir Cristo nos prive da liberdade, de certas experiências, de uma parte de nós mesmos. Por um lado, queremos permanecer com Jesus, segui-lo de perto, e por outro temos medo das consequências que isto comporta.

Caros irmãos e irmãs, temos sempre necessidade de ouvir o Senhor Jesus dizer-nos aquilo que Ele repetia aos seus amigos: "Não tenhais medo!". Como Simão Pedro e os outros, temos que deixar que a sua presença e a sua graça transformem o nosso coração, sempre sujeito às debilidades humanas. Temos que saber reconhecer que perder algo, aliás, perder-se a si mesmo pelo Deus verdadeiro, o Deus do amor e da vida, é na realidade ganhar, encontrar-se mais plenamente a si próprio. Quem se confia a Jesus experimenta já nesta vida a paz e a alegria do coração, que o mundo não pode dar, e nem sequer pode tirar, uma vez que foi Deus quem no-las concedeu. Portanto, vale a pena deixar-se tocar pelo fogo do Espírito Santo! A dor que nos causa é necessária para a nossa transformação. É a realidade da cruz: não é por acaso que, na linguagem de Jesus, o "fogo" é sobretudo uma representação do mistério da cruz, sem o qual o cristianismo não existe. Por isso, iluminados e confortados por estas palavras de vida, elevemos a nossa invocação: Vinde, Espírito Santo! Ateai em nós o fogo do vosso amor! Sabemos que esta é uma oração audaz, com a qual pedimos para ser tocados pela chama de Deus; mas sabemos sobretudo que esta chama – e só ela – tem o poder de nos salvar. Para defender a nossa vida, não queremos perder a vida eterna que Deus nos quer conceder. Temos necessidade do fogo do Espírito Santo, porque só o Amor redime. Amém!(grifos meus)

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A Cruz de ferro


"Durante a guerra de 1914, uma patrulha de soldados alemães foi, um dia, cercada por um exército russo. Não podia duvidar-se do desfecho da luta....Os alemães tinham-se refugiado numa barraca. O oficial inimigo convidou-os a render-se; respondeu-lhe desesperado tiroteio. Os russos retorquiram-lhes com uma tempestade de metralha que se prolongou até que as armas alemãs emudeceram....até que a pequena patrulha atirou a última bala.

Ao forçarem, depois, a porta da barraca, ficaram profundamente emocionados perante o espetáculo que se oferecia a seus olhos: No meio dos seus soldados mortos, jazia o tenente Griesheim, seu comandante, todo coberto de sangue, mas ainda vivo... Ele não era já o inimigo mas o camarada que sofria. O oficial russo inclinou-se sobre ele e perguntou-lhe comovidamente: "O Senhor sabia que éramos cem contra um. Porque não se rendeu?"

Com um supremo esforço, o tenente ergueu-se, e, mostrando a Cruz de ferro pregada no peito, disse: "Entre nós, aquele que traz esta distinção não se rende"

Meu filho: se tiveres combates difíceis a travar no caminho do teu caráter, lembra-te também da Cruz que o Senhor pôs sobre teu coração no dia do teu Batismo, e dize-lhe bem alto nesses momentos:

"Que importa o mundo e suas fantasias,
seus cantos e ditos de adulação?
Eu trago a Cruz em rosto de alegria,
e o seu amor me enche o coração!
" (Elchert)

Fonte: Tihamer Toth......Jovens de Carater - este é um dos autores que mais amo, por suas palavras simples, poeticas e que me faz pensar e querer crescer em santidade sempre, para honrar a Deus, nosso Pai amantíssimo!!

.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Por que sou Católico?

Virtude Teologal da Esperança


Pelo Batismo, morremos com Cristo para com Ele renascer para uma vida nova - Vida de filhos de Deus. Além da Graça exuberante que ganhamos para nos transformar neste filho com direito ao Céu, nosso Pai nos dá neste momento, as virtudes teologais, que nos acompanharão nesta vida até um dia quando O veremos - se Deus quiser - face a face.

Este estudo é retirado do livro: As Maravilhas da Graça Divina de M. J. Scheeben - Editora Quadrante

1. A segunda das virtudes teologais, derramada em nosso coração pela graça, é a virtude da esperança cristã, nem menor nem menos formosa que a primeira. Como o amor, relaciona-se a esperança, não com a razão, mas com a Vontade.

Possui esta dois atos diferentes:

Pode em primeiro lugar amar o bem ou nele encontrar sua complacência; e em segundo lugar, tende efetiva e confiantemente para este bem. Assim como a fé comunica a nossa razão um conhecimento sobrenatural e divino, também a esperança comunica à vontade uma força divina e uma confiança sobrenatural, de modo a poder ela tender eficazmente para o bem supremo e infinito, chegar até ele com toda segurança, o que é interdito a toda a força criada. Do mesmo modo eleva-nos esta virtude sobre toda criatura, até Deus, para fazer-nos descansar em seu seio, fortificar-nos com seu poder, e estabelecer-nos irrevogavelmente sobre este poder como sobre inabalavel rocha.
.
A grandeza e a formosura da esperança dependem, pois, de dois elementos:

Dá-nos a confiança de que podemos possuir perfeitamente e por toda a eternidade, o bem sobrenatural e supremo, que é o próprio Deus; e baseia esta confiança no poder infinito e na força do mesmo Deus, único que se possui a si mesmo por sua natureza, e igualmente único que pode introduzir a criatura na posse de si mesmo.

"A esperança ou confiança, diz S. Tomás, é um levantamento e uma elevação da alma, pela qual tende seguramente a um bem elevado e difícil de conseguir-se, e despreza e vence todas as dificuldades que se Ihe opõem. É um sentimento de coragem que comunica a alma a consciência de uma grande força e a enche de alegre intrepidez, anima-a com um particularíssimo contentamento, e a arrebata melhor que qualquer outro bem. Quanto mais elevado for o bem a que nos dirigimos, e maior a força em que nos apoiamos, tanto maior e mais forte será também o sentimento de nobreza comunicado pela esperança" - Sum Theol I-II,q.25,a.3

2. Forte e amável deve ser a esperança cristã que Jesus infunde em nossos corações pela graça. Por ela temos a consciência, cheia de consolo e conforto, de sermos chamados por Deus a inefável dignidade da filiação divina, bem como sermos seus herdeiros e co-herdeiros de seu Filho, e haveremos de nos sentar com Ele em seu trono, para com Ele reinarmos enquanto se nos submeterá o mundo e nos pertencerá o proprio Deus com toda a sua gloria, suas riquezas, seus tesouros e sua felicidade.

Por ela apoiam-nos não já sobre o débil caniço de um poder criado, mas sobre a grandeza incomparável do próprio Deus, que, segundo o Apóstolo, nos enche da plenitude de sua divindade e opera infinitamente mais, em nós do que o seriamos capazes de pedir e de compreender. Ef 3,19-20

Podemos considerar como nossa a onipotência de Deus, e nela nos apoiar como se nos pertencesse. Com efeito, ao fazer-nos filhos seus, Deus nos pertence, quando com seu inefavel amor paterno nos abraça e nos adota em seu seio, cobre-nos com sua onipotencia e faz-nos fortes com toda a plenitude de sua força divina, de modo que podemos exclamar com o Apóstolo:" Se Deus esto conosco, quem estara contra nós? Se não poupou seu Filho Unigênito e o entregou por nós, será possível não nos tenha dado, com ele, todas as coisas? Rom 8,31-32

Graças a esta consciência. a esperança dos filhos de Deus converte-se em confiança triunfal, que não teme nem perigos nem obstáculos, nem se intimida por nenhum poder criado e nem pode ela provir de nenhum poder criado. Nela encontramos uma segurança estável e infalível, que não conhece vacilações nem temores, desconhece a decepção e nos garante a consecução de nosso sim como se ja o possuíramos.

Por isto fala o Apóstolo: "Quem nos separará da caridade de Cristo? A tribulação, a angustia, a fome, a nudez? Por ocaso os perigos, a perseguição, a espada? Em semelhantes circunstancias, aquele que nos amou nos fará vencedores. Estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem um anjo, nem as potestades, nem as dominações, nem as coisas presentes nem as futuras, nem criatura alguma é capaz de separar-nos da caridade de Deus, que esta em Cristo, Nosso Senhor Rom 8,35-39

Senhor! Como pode nosso tão pobre e débil coração conter e suportar uma confiança tao firme que sobrepuja o céu e a terra, triunfa de todo, até mesmo de nós? Embora seja certo que nao podemos excita-la por nossas próprias forças, nao é menos verdade que no-la pode conceder tua poderosa graça. Nosso coração, por si, nem sequer poderá aguenta-la, se não viera em seu auxilio a graça, para fortalece-lo. Aos primeiros passos na vertiginosa estrada que conduz ao ceu, cairia sem vida, se tua graça nao Ihe desse asas para voar sobre os abismos, para elevar-se da terra ate além das montanhas que roçam as nuvens, para continuar subindo sempre para repousar em teu seio. Sim! estamos seguros com infalível certeza de gue nenhum poder inimigo, quer celeste, quer terreno, nem mesmo nossa grande fraqueza, poderao impedir-nos de alcancar nossa meta, a nao ser que expulsemos de nos a graça de Deus e sacrifiquemos a esperanca, ou se por nossa deliberada vontade, com toda malicia e nao apenas por nossa fraqueza nos subtrairmos a forca incomparavel de Deus. Nao é mister temer nos abandone ela, se antes não a abandonarmos; permanece junto de nós e em nós, enquanto junto dela permanecermos; aperfeiçoa e firma sobre a base frágil de nossa alma a construçao celeste, que ninguem pode destruir, a nao ser que o façamos nós próprios, abandonando esta mesma base.

Queira Deus como pede o Apóstolo, esclarecer os olhos de nosso coração para reconhecermos qual é a esperança de sua vocação e as riquezas da glória de sua herança nos santos. Possamos todos, pela força do Espírito Santo que recebemos como penhor de nossa glória, como consolador de nossa miséria e auxílio de nossa fraqueza, suspirar por esta perfeita adoção dos filhos de Deus, na qual até mesmo nosso corpo se verá livre da escravidão da corrupção

Possamos todos ter com o Apóstolo acesso à graça na qual nos achamos e gloriar-nos na esperança da glória dos filhos de Deus . Sim, como diz o Apóstolo, devemos alegrar-nos nas tribulações, pois sabemos que a tribulação gera a paciência, a paciência a provação e a provação produz a esperança que não engana

Quanto não desonramos esta inefável virtude da esperança divina, com nossa covardia e preguiça! Estremecemo-nos diante do menor perigo, sucumbimos em face da mais insignificante tentação, apegamo-nos à terra, sem aventurarmos um só passo no caminho escarpado que sobe ao céu. Se considerarmos tão somente nossa forças naturais, é certo que temos razões para perder a coragem. Mas como justificar semelhante falta de coragem quando Deus nos cumula com sua poderosa graça e nos coloca a tal altura que estamos em condições de enfrentar o inferno inteiro?

Por que não estendermos a mão a esta graça, por que não nos apoiarmos nela para livrar nosso coração de todo temor, de toda ansiedade? Inclinemo-nos a confiar excessivamente em nossas próprias forças, a vangloriar-nos ainda quando deficientes ou relacionadas com insignificantes assuntos. Por que cometeremos para conosco este imenso erro, e faremos a Deus tal injúria, desconfiando de sua graça, e não desprezando, como seu auxílio, todos os perigos, todos os inimigos?

Esforcemo-nos por honrar a graça desta celeste esperança; prefiramos, com santo orgulho, a esperança da glória destinada aos filhos de Deus, a qualquer outro poder e a todas as riquezas da terra. Com inquebrantável segurança, ergamos os olhos para a posse do Bem supremo, que coroa nossa esperança mediante a persuasão inefávelmente doce de que nunca poderemos perde-lo, nem por nossa culpa.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Sobre o sentido do Sofrimento


Somente na ótica do Calvário podemos entender o sofrimento. Sem esta visão corremos o risco de culpar a Deus por ele. Para muitos, contemplar a beleza, a criação, a ordem, é sinal da presença de Deus, mas quando se deparam com as dificuldades, a imagem dEle se distorce, afinal, como um Deus tão bom, tão perfeito, tão poderoso, pode deixar que isto aconteça? Por que não fez ou faz algo para mudar esta situação?

A questão é que Ele já fez tudo que pode para muda-la, mandou o Filho, revestido na humanidade, para passar por todos os sofrimentos e através dele, remir a todos e chama-los para a verdadeira salvação e ausencia de males que é viver eternamente com Ele.

O maior mal, o grande sofrimento que pode passar o ser humano é a condenação, por isso Cristo disse a Nicodemos: "De tal modo Deus amou o mundo que lhe deu seu Filho unico para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna" Perecer para Deus é perder a vida eterna e a morte do Filho, na Cruz, é o remédio e a cura para o homem caído pelo pecado.

Objetivamente falando, o mal e o sofrimento tem origem no pecado e toda nossa vida será permeada pela luta e pelo sofrimento, a questão é que podemos nos usufruir dele para obtermos nosso fim e como nos ensinou muitos santos, até nos alegrar com ele. Quando entendemos que podemos unir nossas dores e nossas dificuldades à Cruz de Cristo, podemos tirar por causa disso, grandes bens, para nós e para o corpo místico de Cristo, da qual fazemos parte.

Deus não quer o sofrimento, mas o permite para dele tirar um bem maior. Seja ele fruto de um pecado pessoal - e para este precisamos de perdão - seja ele fruto do pecado do mundo; que ele seja para nós caminho de santificação e crescimento nas virtudes, para crescermos tbem como filhos que somos nos tornando verdadeiros filhos de Deus, na paciência, esperança - afinal, Jesus sofreu, morreu, mas ressuscitou - e na perseverança final

Sobre o sentido do sofrimento, vejam esta Carta Apostólica do Beato João Paulo II :
.
http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_letters/documents/hf_jp-ii_apl_11021984_salvifici-doloris_po.html


***********