terça-feira, 21 de junho de 2011

Temos um bom Sacerdote?


Por Padre Léo Trese

"Os coroinhas saem batendo a porta e a igreja fica repentinamente em silêncio. Enquanto apoio os cotovelos no genuflexório para iniciar a minha ação de graças, noto que, de uma das velas, ainda sai um tênue espiral de fumo."O último suspiro após a sua imolação", diz a minha fantasia brincalhona. A sua própria imolação... Aqui está de novo esta palavra horrível. Horrível como todas as que se relacionam com ela: penitência, abnegação, mortificação...Há muito tempo que vêm seguindo os meus passos, através de cada página da leitura espiritual e de cada ponto da minha meditação.Tenho recorrido a tantos estratagemas para escapar da sua inexorável perseguição! Até um avestruz poderia aprender comigo.

"Temos um bom padre", dizem os meus paroquianos - e eu fico vexado. Vexado quando, junto de Katie Conelly, à cabeceira do seu filho que acaba de expirar, a ouço dizer enquanto agarra a minha mão: "É a vontade de Deus, não é, padre?"

Vexado quando, junto de Ed Fetter, diante do caixão de sua mulher, o ouço dizer enquanto três criancinhas se agarram às suas calças: "Se é isto o que Deus quer de nós, aceitaremos, padre".

Sou um bom padre? Como não havia de sê-lo, Meu Deus?

Com uma casa confortável, livre de prestações e hipotecas, sem crianças doentes que me preocupem...Com uma pensão de velhice que nehum instituto de previdência poderia superar...Sem andar apertado de tempo nem deixar de ganhar quando acontece de ir para a cama com um resfriado...Renunciei, a muitas coisas - penso continuamente. No entanto, por vezes, nem sequer sei onde está a cruz que devo levar diariamente, se quero seguir a Cristo.Por muito acostumado que esteja à evasão e aos subterfúgios, há ocasiões em que todas as minhas defesas se desmoronam. Desviando-me da porta de uma ovelha tresmalhada e endurecida na apostasia, consegui fazer ouvidos surdos a tênue voz que me murmurava: "Esta espécie de demonios só se pode vencer com a oração e jejum."

Mas já não fui tão bem sucedido quando a voz sussurrou bem dentro de mim:"Se alguém quizer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me".É uma seta contra qual ainda estou procurando um escudo eficaz.Deus permita que eu venha perder a batalha, e depressa. Aliás, sei perfeitamente que nunca a poderei ganhar.

Na verdade, acho que já comecei a perde-la. Gosto muito de romances policiais e agora limito-me a ler um por mês. Já não assino revistas profanas. Raríssimas vezes ligo a televisão. Prometi solenemente obedecer a todas as normas litúrgicas. Há algum tempo não vou a um jogo de futebol do Notre Dame ou a uma corrida de cavalos. Mas basta lembrar-me de São João da Cruz para logo me sentir terrivelmente ridículo, especialmente quando reparo que não posso passar sem um cigarro depois do café da manhã, sem a habitual costeleta ou um aperitivo com um amigo.

O que é que me levou a pensar em tudo isto?

Ah sim, as velas! bem, as velas já deixaram de fumegar; e como não quero que o café esfrie, é bom começar a rezar já o Trium puerorum*.*É o "cântico dos três jovens" que, como narra o profeta Daniel(Dn3, 57 ss), foram milagrosamente preservados das chamas da fornalha ardente onde foram lançados por ordem do rei da Babilonia, Nabucodonosor. Este belo cantico é tradicionalmente recomendado pela Igreja como oração de ação de graças após a Missa.

Na verdade, não foram só as velas. A bem dizer, foi o padre Lallemant no texto da meditação da semana passada. Havia nesse livro um parágrafo que parece ter ficado desagradavelmente gravado no meu espírito: - "Perdemos muitos anos e até a maior parte da vida discutindo conosco próprios se nos entregaremos ou não por inteiro ao Senhor. Não nos decidimos a aceitar um sacrifício tão completo, reservamos´para nós mesmos muitos afetos, desejos, projetos, esperanças, pretensões, de que não queremos desfazer-nos para chegar a essa perfeita nudez de alma que nos franqueia a plena posse de Deus".

Essa, sim, foi uma estocada muito forte, que me apanhou de guarda baixa. Uma estocada que me fará pensar por muito tempo. Um espelho não daria de mim uma imagem tão exata. Percebo que a minha paróquia podia transformar-se se eu já tivesse começado a dar os primeiros passos para a santidade. Percebo-o claramente,e, no entanto, contento-me com uns esforços insignificantes e com umas tentativas que pouco mais são do que subterfúgios.

Ultimamente, essas pancadas vêm sendo cada vez mais fortes e seguidas. Talvez uma delas deixe fora de combate a minha apatia e a minha sensualidade.Assim o espero.

Francamente, Senhor, assim o espero. Será um milagre conseguirdes que eu seja aquilo que quereis, mas Vós, Senhor, já tendes feito tantos milagres! Por favor, por favor, não me deixes entrar na Eternidade ainda olhando para trás.

Trium puerorum...Mas esses meninos é que eram homens"

Fonte: Vaso de Argila - Quadrante

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A Mulher que Aborta....



Por Cormac Burke

"Como sacerdote, aprendi a distinguir entre o pecado e o pecador. Aprendi também que, embora possamos e às vezes devamos julgar as ações e os acontecimentos, é difícil e arriscado julgar as pessoas. Só Deus pode faze-lo. Num momento de tentação, uma mulher grávida - que não quer ter o seu filho e decide abortar -, pode ter sido influenciada por incontáveis fatores:De formação pessoal, de pressões provenientes do ambiente, dos parentes ou amigos, fatores de solidão, de medo, de tensão nervosa...Não podemos julgar o grau de culpa que uma mulher pode ter em tal situação. Somente Deus, repito, que leva todas essas coisas em conta, pode julgar. Podemos, contudo, julgar outra coisa, ou pelo menos formar uma opinião segura a esse respeito: o que acontecerá com essa mulher, em termos humanos, conforme se arrependa ou não do que fez.

Não nos enganemos. A mulher que praticou um aborto sabe que procurou a morte, o assassinato, de seu próprio filho, fruto do seu ventre. E passa a ter uma profunda ferida na sua conciência. Uma sociedade permissiva pode não encontrar dificuldade em perdoa-la, mas o problema é que ela não será capaz de perdoar-se ou de esquecer o que fez. E a experiência é que, nos casos excepcionais em que uma mulher conseguiu silenciar a sua consciência, fê-lo à custa de um suicídio moral, destruindo a sua própria consciência, o sentido dos valores, desfeminizando-se a si mesma. O seu instinto maternal em particular, e em geral toda a sua capacidade de amar, sofreram uma lesão enorme e irreparável.

A Igreja nunca condena as pessoas. Se condena o pecado, se condena as ações erradas, é para ajuda-las a ter idéias claras, para ajuda-las a olhar para a própria consiência(que também as acusará se cometerem algum erro), e para que então, pelo arrependimento, possam encontrar o perdão e a paz. Os que negam a culpa das ações imorais são os que podem estar condenando as pessoas a uma vida terrível de angustia moral.

Personalização e Despersonalização

Isto leva-nos a tocar um outro pseudo-argumento dos abortistas, segundo o qual o caráter da pessoa da criança não-nascida deveria depender não de fenômenos biológicos, nem de fatores vinculados ao tempo (como a viabilidade ou o nascimento), mas de um fator psicológico. Baralhando conceitos pedidos de empréstimo à psicologia moderna - conceitos que sublinham a importância dos relacionamentos intersubjetivos no processo de "personalização"- , alguns abortistas vêm sugerindo que a criança não-nascida não pode propriamente ser olhada como uma pessoa antes de ser aceita pelos pais; se falta essa aceitação - continua o argumento -, não poderá ser considerada pessoa nem possuir direitos humanos.

Este argumento incorre no mesmo tipo de problema que o argumento da "viabilidade": "prova"demasiado. Sobre essa base, uma criança de um ou de cinco anos não seria uma pessoa, caso seus pais não a "aceitassem". Obviamente, é antes e não depois de gerar uma criança que os pais tem que decidir se a querem ou não. Antes, era uma possibilidade; precisamente, uma simples "potencialidade". Depois, é uma realidade e essa realidade é uma pessoa, quer tenha um dia de idade ou um ano. É uma pessoa que, por isso mesmo, possui personalidade no sentido humano mais pleno, uma personalidade que a torna sujeito de direitos* (*) - Extraio aqui um argumento da ciência jurídica - todas as jurisprudências atribuem a criança não nascida plena personalidade jurídica, expressa por exemplo na sua capacidade de herdar

Existe, naturalmente, uma certa ambiguidade no argumento da personalização. Mas é uma ambiguidade que, quando vem à tona, se volta contra os próprios defensores desse argumento. Como é óbvio, se alguém perguntar se a criança não-nascida tem a sua própria "personalidade"no sentido popular do termo - no sentido de possuir uma forma de ser totalmente pessoal de pensar, de falar e de agir -, a resposta será não. Neste sentido, a criança não-nascida não é uma criança "personalizada", quer tenha um dia ou um mês de idade, mas também está muito pouco personalizada a criança de três ou de cinco anos.

Na medida em que a "personalização"significa realmente o processo de desenvolvimento de uma personalidade individual, designa um processo que leva anos a completar-se; na verdade, todos os anos da vida. Somente com os anos - com tudo o que os anos trazem de experiência humana: de generosidade ou de egoísmo, de virtudes e de pecados, de respeito e de amor aos outros ou ausência destes, de capacidade de assumir responsabilidades ou de rejeita-las - é que uma pessoa desenvolve a sua personalidade própria.

Auto-Realização para Mulheres "Liberadas"?

O argumento da personalização - que não se aplica ao caso da criança não-nascida (que personalidade pode ser desenvolvida a uma pessoa que se mata?) - aplica-se, pelo contrário, muito clara e precisamente ao caso da mãe que aborta. Pois aqui, podemos perguntar e prever em ampla medida: "que tipo de personalidade uma pessoa que mata irá desenvolver?"

A psicologia moderna insiste em que os homens e as mulheres se "realizam"ou se "completam"sobretudo no seu relacionamento com outras pessoas, e que uma das provas mais evidentes da presença ou da ausência de personalidade é a capacidade ou incapacidade de estabelecer relacionamentos interpessoais. Que personalidade será desenvolvida por uma mulher que, diante do mais íntimo relacionamento interpessoal imaginável - o relacionamento entre a sua pessoa e a pessoa do filho que ela concebeu, o relacionamento verdadeiramente único entre o seu corpo e o corpo do filho no seu ventre -, rejeita e destrói esse relacionamento, matando o seu filho e entregando o corpo desse filho a um incinerador de hospital? Que outros relacionamentos poderão permitir que essa mulher "se realize", se a sua reação ao sagrado relacionamento mãe-filho foi extirpar do coração os seus mais íntimos instintos de maternidade e de compaixão, extirpando do seu corpo o filho?

É triste ver a propaganda "pró-escolha"apresentar o aborto como um "direito"de toda mulher, reivindicando esse direito precisamente em nome da "liberação"das mulheres. É uma triste propaganda, essa que só pode tornar amarguradas e tristes as mulheres, que lançam mão desse "direito". Quem irá "liberá-las"depois de ganharem consciência do que fizeram, violando os seus instintos humanos mais íntimos?

Há alguns anos, quando se debatia na Inglaterra a proposta de "liberalização" da lei do aborto, lembro-me de ter visto um programa de TV em que se entrevistava uma série de mulheres, cada uma das quais tinha cometido vários abortos. As perguntas do entrevistador visavam evidentemente "provar"um ponto: que nem física nem psicologicamente elas tinham sofrido qualquer efeito adverso proveniente desses abortos. As respostas das mulheres corroboravam totalmente essa tese. Contudo, ainda guardo viva a lembrança das suas faces rígidas, do seu modo de responder, da sua evidente preocupação por justificar-se, da sua insistência em que nunca tinham sido incomodadas pelo menos sentimento de repugnância ou de remorso, do seu ar de orgulho e de triste solidão; numa palavra, a impressão do que mencionei acima: de uma brutal desfeminização e desumanizacão.

Gostaria de examinar dois pontos: duas novas "recomendações"ou argumentos que tendem a aparecer cada vez com mais frequência nas campanhas pró-aborto. - O argumento Eugenésico e o argumento demográfico - (veremos depois)

Fonte: Amor e Casamento - Quadrante

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Poderíamos aproveitar para assinar e difundir o Abaixo-assinado pela aprovação do Estatuto do Nascituro –

http://brasilsemaborto.wordpress.com/
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quinta-feira, 16 de junho de 2011

26 - Parresía: "O poder paralelo dentro da Igreja"




Vale a pena ouvir este vídeo - Recomendo!

Chesterton


" Idolatria é cometida, não somente pela instituição de falsos deuses, mas também, pela instituição de falsos demônios; fazendo os homens temerem a guerra e o alcool, ou a lei econômica, quando eles devem temer a corrupção espiritual e a covardia"

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quarta-feira, 15 de junho de 2011

Transformar o Feto numa "Coisa"



Por Cormac Burke

Matar uma criança para salvar a vida da mãe não repugnava ao sentido humanitário de alguns liberais de trinta anos atrás. Mas matar uma criança para salvar uma conveniência da mãe (a relutância em arcar com a gravidez) - ou para salvar o bem-estar dos outros filhos ou a posição financeira da família da família -, querer que se aceite isso é pedir demasiado ao sentido humanitário seja de quem for, por mais liberal que se possa ser.

A solução encontrada foi muito simples. É demais sacrificar a vida de uma criança por um capricho da mãe, ou por causa do padrão de vida da família, ou pelo bem-estar da sociedade?...Então não se sacrifique a vida da criança, mas tão somente a vida de um "feto". Conclua-se, além disso (segundo a feliz teoria de alguns), que o feto não é humano (conclua-se, digo, porque na verdade não se pode prova-lo), e que portanto, não se está cometendo nem um homicído nem um infanticídio, mas única e exclusivamente um "feticídio" - que não é mais significativo na ordem moral do que matar alguns micróbios (igualmente corpos estranhos e indesejáveis) por meio de uma injeção de penicilina.

Aqui está a nova visão moral da questão do aborto. Teremos de enfrentar a objeção (parecem dizer os novos moralistas) de que o aborto é um homicídio? Realmente, pelo menos nos casos que nos interessam, seria difícil justificar um homicídio...Mas então não percamos tempo tentando justifica-lo. Digamos com toda simplicidade que não é um homicídio, pois aquilo que se aborta não tem natureza humana, e portanto não é um membro da nossa raça humana, é uma coisa
E já que as coisas não possuem direitos, o problema desaparece totalmente

Aborto em dois Estágios

O que esta visão nos oferece é, digamos assim, um aborto em dois estágios: é uma operação física precedida de uma operação metafísica, um aborto físico com um pré-requisito metafísico -, a supressão da identidade do ser vivo que está no útero. Uma vez realizada essa operação metafísica (verdadeiramente indolor, contanto que se aplique um pouco de anestesia à consciência da pessoa....), a operação farmacológica ou cirúrgica necessária para suprimir o que "resta"no útero não oferece especial dificuldade, já que esse "resto" - devidamente expurgado da raça dos homens e privado do seu status humano e dos seus direitos - já não é um ser humano, não é senão uma coisa não-humana.

Compreendamos o raciocínio claramente. O argumento essencial dos abortistas modernos não é (exceto nos dois casos que examinaremos adiante) que tenham sido descobertas novas indicações ou razões para o aborto, novas razões de peso que até hoje eram desconhecidas. O seu argumento é diferente, e é importante, repito, compreende-lo bem. Eles não dizem que existam mais razões do que conhecidas até agora para matar o que está no ventre materno. O que dizem é que o que está no útero tem menos importância do que antes se pensava: tem menos valor. Não tem valor humano e não possui direito humano.

O Argumento Católico

O argumento católico como um todo - e afirmo que, seja qual for o angulo pelo qual considere o assunto, é o único argumento verdadeiramente racional, verdadeiramente científico e verdadeiramente humanitário - sustenta que a criança não-nascida já é um ser humano e goza de todos os direitos próprios de qualquer ser humano, dos quais o principal é o direito à vida; além disso, sustenta que sua situação particular como ser humano indefeso lhe confere o direito a uma proteção especial por parte da lei civil.

É interessante recordar que as Nações Unidas, em sessão plenária de novembro de 1959, aprovaram unanimemente a declaração dos direitos da criança nos seguintes termos: "A criança, em virtude da sua falta de maturidade física e intelectual, necessita de especial proteção e cuidados, incluindo a adequada proteção legal, tanto antes como depois do seu nascimento"- Esta declaração foi renovada depois da Conferência Internacional dos Direitos Humanos, em Teerã, em mais de 1968

A Evidência da Embriologia

Do ponto de vista teológico, a vida especificamente humana começa mediante a infusão da alma no novo organismo embrionário por ação de Deus. Embora não aja nenhuma declaração dogmática sobre este ponto, o Magistério da Igreja cristalizou no ensinamento claro de que o início da vida humana pessoal deve ser computado a partir do momento da concepção, do momento em que o óvulo é fecundado. Este ensinamento reflete-se na relação entre certas festas litúrgicas - por exemplo, entre a Anunciação (25 de março) e o Natal, entre a Imaculada Conceição (8 de dezembro)e a festa da Natividade de Nossa Senhora (8 de setembro) -, e é apoiado pelas disposições do Código de Direito Canônico(cf cânon 871)

Muito mais significativo e interessante é que este ensinamento universal da Igreja é apoiado e totalmente confirmado por todos os avanços científicos da moderna embriologia. Tanto isto é assim que podemos afirmar que, do ponto de vista científico, a verdade do ensinamento católico sobre este tema está acima de qualquer dúvida. A pesquisa embriológica moderna demonstrou que o ser humano, em termos orgânicos, está totalmente constituído a partir do momento da fecundação do óvulo, e que tudo o que se segue é simplesmente um processo de desenvolvimento de um organismo já existente, sem que seja possível indicar qualquer dado ou acontecimento subsequente sobre o qual basear o suposto início de uma vida pessoal.

Fonte: Amor e Casamento - Quadrante
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Os Quatro Nâo


O saudoso D. Estevão Bettencourt, se referia muitas vezes ao que chamava de “Os Quatro Nãos da história”, que segundo ele foram responsáveis pela situação de descrença, materialismo, ateísmo, relativismo moral e religioso que vivemos hoje.

Segundo o mestre de muitos anos, o primeiro golpe foi o “Não à lgreja Católica”, dito pela Reforma protestante (séc. XVI).

Muitos homens continuaram a crer no Evangelho e em Jesus Cristo; não, porém, na Igreja fundada por Cristo. Os princípios subjetivos do “livre exame”, “sola Scriptura”, não à Igreja e ao Papa, não à Tradição Apostólica, estabelecidos por Lutero e seus seguidores, promoveu um esfacelamento crescente da Cristandade pela multiplicação de novas “igrejas”. Cristo foi mutilado. Segundo Teilhard de Chardin, “sem a Igreja Cristo se esfacela”. A túnica inconsútil do Mestre foi estraçalhada.

Até esta época da História, o mundo Ocidental girava em torno do ensinamento da Igreja, assistida e guiada pelo Espírito Santo. A Reforma “quebrou o gelo”, e inaugurou a contestação à doutrina ensinada pela Igreja, depois de quinze séculos. A partir daí muitas outras contestações foram inevitáveis. É preciso lembrar que após o início da Reforma, a Igreja realizou o mais longo Concílio Universal, o de Trento (1545-1563), por dezoito anos, e nada mudou da doutrina que recebeu de Cristo e dos Apóstolos.

O segundo golpe foi dado no século XVIII: foi dito um “Não a Cristo”. Não à religião Revelada por Cristo. Surgiu por parte do Racionalismo, que teve a sua expressão mais forte na Revolução Francesa (1789). Os iluministas, positivistas, introduziram a deusa da razão na Catedral de Notre Dame de Paris. Muitos pensadores passaram a professar o deísmo (crença em Deus como ser reconhecido pela razão natural apenas), em lugar do teísmo (crença em Deus que se revelou pelos profetas bíblicos e por Jesus Cristo).

Depois do Não à Igreja, veio o Não a Cristo.

O terceiro golpe foi dado no século XIX: o “Não ao próprio Deus” oriundo do ateísmo em suas diversas modalidades ateístas. A tomada de consciência da história e da sua influência, tal como Darwin e os evolucionistas a propuseram, contribuiu para disseminar o historicismo que coloca a história acima de Deus. Daí surgiu o relativismo e o ceticismo, que impregnaram muitas correntes de pensamento de então até os nossos dias. Hoje o Papa Bento XVI fala de uma “ditadura do relativismo”; que tenta negar a verdade objetiva.

Infelizmente assistimos hoje o triste espetáculo de pesquisadores que escrevem livros ensinando o ateísmo; difundindo isso nas universidades e afastando os jovens de Deus, como se crer fosse um subdesenvolvimento cultural ou mental.A mudança de mentalidade foi se realizando em velocidade crescente, principalmente a partir de meados do século passado (1850): o desenvolvimento das ciências e da técnica deixou os homens mais ou menos atordoados diante de perspectivas inéditas, sem que soubessem, de imediato, fazer a síntese dos novos valores com os clássicos.

O quarto Não é dito ao homem. Depois do Não à Igreja, à Cristo, à Deus, agora, como consequência, assistimos ao triste Não dito ao homem

São Tomás de Aquino dizia que “quanto mais o homem se afasta de Deus, mais se aproxima do seu nada”. É o que acontece hoje. Sem Deus o homem é um nada. O Papa João Paulo II disse na primeira encíclica que escreveu – “Jesus Cristo Redentor do Homem” – afirmou que “o homem sem Jesus Cristo permanece para si mesmo um desconhecido, um enigma indecifrável, um mistério insondável”.Quer dizer, sem Deus, sem Jesus Cristo, o homem é um desorientado; não sabe de onde veio, não sabe quem é, não sabe o que faz nesta vida, não sabe o sentido da vida, da morte, do sofrimento. E na agonia desse mistério insondável vive muitas vezes no desespero, como muitos filósofos ateus que desorientaram a muitos.

Esse Não dito ao homem, conseqüência dos Não anteriores, se manifesta hoje na perda dos valores transcendentes da pessoa humana, o desprezo pela sua dignidade humana, o desaparecimento do seu valor intrínseco. Isto se manifesta nas aprovações aberrantes de tudo que há 20 séculos ninguém tinha dúvida em condenar: aborto, eutanásia, manipulação e destruição de embriões, “camisinhas”, sexo livre, “família alternativa”, “casamentos alternativos”, e tudo o mais que a Igreja continua a condenar como práticas ofensivas a Deus e ao homem.

Mas em nossos dias nota-se um retorno aos valores eternos, que a Igreja guardou fielmente através das tempestades. Muitos se dão por desiludidos do cientificismo e do tecnicismo, e procuram de novo no transcendental os grandes referenciais do seu pensar e viver. A busca do ateísmo cede lugar de novo à consciência de Deus e dos valores místicos, sem os quais a vida humana se auto-destrói. O homem moderno percebe que os frutos da tecnologia por si só não lhe satisfazem; a prova disso é que crescem as mazelas humanas: depressão, guerras, injustiças, imoralidade…

A sociedade moderna decaiu. O Modernismo, o Relativismo e o Indiferentismo Religioso dominaram o mundo. Os dogmas foram desprezados; a fé e a moral calcados aos pés. Em lugar de Deus o homem idolatra-se a si mesmo, o dinheiro, a Ciência, o prazer da carne, … o pecado. O mundo moderno não deu atenção ao Papa Pio IX quando este apontou os erros que lhe levariam ao caos em seu Syllabus; não quis ouvir a voz da Igreja no Concílio Vaticano I, quando este mostrou a harmonia entre fé e razão e a suprema autoridade do Papa. Não ouviu também o apelo dos Papa Leão XIII, Pio X, Pio XI, Bento XV, Pio XII… quando eles apontaram os males do mundo moderno em suas encíclicas de fundo moral e social.

O resultado de tudo isso é a decadência moral, ética e sobretudo religiosa que assistimos hoje, razão de tantas desordens, crises e sofrimentos. Tudo nos faz lembrar a máxima de São Paulo: “O salário do pecado é a morte” (Rm 6,23). Por tapar os ouvidos à voz de Deus anunciada ao mundo pelos últimos Papas, o mundo experimentou duas terríveis guerras mundiais com mais de 60 milhões de mortos, e depois a tragédia do nazismo e comunismo com mais de 100 milhões de vítimas,

A sociedade moderna, enfim, rejeitou a voz da Igreja e dos Papas e preferiu dar ouvidos aos hereges. Hoje querem destruir a Igreja com um programa laicista em escala mundial. Por isso tudo, o homem moderno mergulha no caos do pecado e nas sombras da desesperança e da morte. Eis que surge mais uma vez o Vigário de Cristo a falar da Esperança que nasce em Deus (Salvi Spes). Será que será ouvido?

Somente abandonando os “valores” modernistas e deixando-se guiar pela Igreja é que a nossa Civilização poderá superar suas crises e dores. Está na hora da Civilização Ocidental voltar-se novamente a Jesus Cristo, que a espera de braços abertos.

A Igreja terá novamente de salvar a nossa Civilização, que começa a desabar, como há 13 séculos quando ela desabou com o Império Romano. Estejamos preparados.

Queridos, este texto é ótimo e infelizmente não sei o seu autor. Rezemos por ele.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Ni aplausos, ni banderas, ni carteles en Misa

Aborto


A partir de hoje, trarei uma série de escritos de Comarc Burke - sacerdote holandês que fala sobre família de uma forma esplêndida.


Fonte: Amor e Casamento - Quadrante

O que é o Aborto?

A resposta a esta pergunta, até vinte e cinco anos atrás, era muito simples. Cometer aborto significava matar uma criança não-nascida, matar um ser humano cuja fraqueza peculiar consistia na sua incapacidade de sobreviver fora do seio materno. E havia duas avaliações morais para este ato:

1 - que era um homicídio justificável - em certos casos. Essa era a posição de muitos não-católicos, embora não fosse de forma alguma a de todos.

2 - que era um homicídio injustificável - isto é, que sempre constituía assassinato, e portanto nunca seria lícito. Essa era a posição católica, compartilhada pela Igreja Ortodoxa grega e por muitas outras pessoas religiosas e não religiosas

As razões que apoiavam a primeira afirmação - o justificável -, eram simples: no caso extremo (o único contemplado)de conflito entre e vida da mãe e a vida do filho, a vida da mãe tinha mais valor, e a vida do filho deveria ser sacrificada para que a mãe pudesse sobreviver. O caso extremo seria a gravidez que, chegasse ao fim, acabaria por causar a morte da mãe e talvez do filho também.

Que pensar nesta situação? Duas coisas:

A - pode-se aceitar com certa facilidade que era inspirada por um sincero sentimento humanistarista.
B - que os princípios nos quais se baseava - o de que uma vida humana vale mais do que a outra, e o de que se pode matar uma pessoa inocente a fim de salvar outra - tinham inevitavelmente de abrir as portas à atitude que se vem generalizando nos nossos dias em relação ao aborto: a atitude daqueles que advogam o aborto on demand,, sem outra justificativa além do fato de que a mãe - ou talvez o Estado -, o pede.

Quanto à posição católica, basta dizer por ora que se baseia no princípio claro de que todo ser humano recebe vida diretamente de Deus, e que somente Deus a pode tirar, a menos que a pessoa abra mão do seu direito à vida por uma agressão criminosa voluntária. Não é possível imaginar ninguém mais inocente do que uma criança não-nascida; não se pode, portanto, mata-la diretamente por causa alguma.

Era esta a situação quanto ao aborto há não muitos anos, uma situação global em que era fácil indicar e circunscrever os pontos de concordância e os pontos de discordância. Havia concordância entre os dois lados sobre a natureza do aborto:Significava matar uma criança, era um homicídio, porque o ser no seio materno é um ser humano. E havia discordância quanto à licitude desse homicídio: para alguns, era sempre ilícito; para outros era justificável e lícito em certos casos graves. Vale a pena acrescentar que, mesmo nos países em que prevalecia este último ponto de vista e a legislação civil reconhecia a legalidade do aborto nesses casos extremos, essa mesma legislação proibia e punia abortos realizados sem que se verificassem essas circusntâncias.

A Posição Atual

Se examinarmos a situação atual, veremos que se dão, não duas, mas três respostas à pergunta sobre o que é o aborto:

1 - que é um homicídio injustificável; ou seja; é a posição católica, reafirmada por certo pelo COncílio Vaticano II - em termos mais fortes -, que diz (na Constituição sobre a Igreja no Mundo moderno n. 51) que o aborto é um "crime abominável"

2 - que é um homicídio justificável em algumas circuntâncias, ou seja, a posição - já comentada -, de certos não-católicos

3 - que não é um homicídio de forma alguma! Esta é a posição de que desejo ocupar-me especialmente, pois via de regra é a posição dos pró-abortistas modernos e é a posição ideológica - a nova base "moral" -, com que procuram justificar o que não pode ser justificado.

A Reformulação do Problema

O aborto, dizem os novos reformistas liberais, não é de modo nenhum um homicídio, por uma razão muito simples: o que se mata não é um ser humano, o que está no útero não é um ser humano. É evidente que esta posição significa reformular por inteiro o problema do aborto. E a reformulação é tão radical que, se aceitássemos a base de que parte, o aspecto problemático da questão praticamente desapareceria para muitas pessoas, e o aborto tornar-se-ia um assunto - segundo pensam - quase que inteiramente destituído de dificuldades de natureza moral.

Por que a Reformulação?

Talvez a primeira coisa a fazer com relação a esta nova posição seja perguntarmo-nos por que e como surgiu em tão poucos anos. Não é difícil encontrarmos a resposta. Não há quem não goste de sentir-se humanitário. Os "liberais" da atual escola moral positivista não só gostam de sentir-se humanitários, mas também de poder proclamar-se como tais.

O sentido humanitário liberal dos não-católicos de trinta anos atrás aceitava sem demasiada dificuldade que a vida de uma criança não-nascida fosse sacrificada para salvar a vida da mãe. Os anos passaram e, com os anos, intervieram dois fatores essenciais. Um é que os avanços da medicina praticamente eliminaram o caso extremo que obrigava a escolher a vida da mãe ou a do filho. Apesar disso - e aqui está o segundo fator -, a procura pelo aborto aumentou. Houve muitos motivos para esse aumento, entre os quais algumas "recomendações" de natureza mais ou menos médica: a fraca saúde da mãe, a tensão que uma gravidez representa para os seus nervos, etc. Mas o motivo principal relaciona-se simplesmente com o crescimento da mentalidade favorável ao controle da natalidade.

Apesar de virem envolvidas em referências aparentemente desinteressadas aos problemas populacionais do mundo, as justificativas para o aborto em todos os casos individuais - pelo menos nos países mais desenvolvidos - quase sempre se reduzem à Incapacidade de ver a criança com amor
. Afinal de contas, é a incapacidade de amar que faz um casal pensar na criança não-nascida como um peso - o peso da gravidez e dos cuidados que exigirá mais tarde - e que leva os pais a temer que, se a criança nascer, terão de renunciar a algum conforto material; é a incapacidade de amar que faz com que a mãe não queira carregar a dar à luz a criança que concebeu.

(Depois veremos: Transformar o Feto numa "coisa")