segunda-feira, 11 de julho de 2011

A Vida da Graça - das virtudes e dos dons

A Vida Espiritual - Explicada e Comentada - de Adolfh Tanquerey

Existência e natureza

A vida sobrenatural, inserida em nossa alma pela graça habitual, exige, para operar e se desenvolver, faculdades de ordem sobrenatural que a liberdade divina nos outorga generosamente com o nome de virtudes infusas e dons do Espírito Santo: « O homem justo, diz Leão XIII, que vive da graça e opera por meio das virtudes que nele desempenham as faculdades, necessita igualmente dos sete dons do Espírito Santo: Homini iusto, vitam scilicet vivent divinae gratiae et per côngruas virtutes tanquan facultates agenti, opus plane est septenis, illis, quae proprie di_D.Spiritus Sancti donis»

Convém, na verdade, que as nossas faculdades naturais, que por si mesmas não podem produzir senão atos da mesma ordem, sejam aperfeiçoadas e divinizadas por hábitos infusos que as elevem e auxiliem a operar sobrenaturalmente. E, como a liberalidade de Deus é grande, dá-nos duas espécies de hábitos: as virtudes que, sob a direção da prudência, nos permitem operar sobrenaturalmente com o concurso da graça atual, e os dons, que nos tornam tão dóceis à ação do Espírito que, guiados por uma espécie de instinto divino, somos, por dizer, movidos e dirigidos por este divino Espírito.

A diferença essencial entre as virtudes e os dons vem, pois, pela maneira diferente de operar em nós: no exercício das virtudes, a graça deixa-nos ativos, sob o influxo da prudência; no uso dos dons, quanto estes atingiram pleno desenvolvimento, exige de nós mais maleabilidade do que atividade.

Entretanto uma comparação nos ajudará a compreender isto: quando a mãe ensina o filho a andar, umas vezes contenta-se de lhe guiar os passos, impedindo-o de cair, outras toma-o nos braços, para o ajudar a vencer um obstáculo ou lhe dar um pouco de descanso; no primeiro caso é a graça cooperante das virtudes; no segundo, é a graça operante dos dons.

Mas daqui resulta que, normalmente, os atos feitos sob o influxo dos dons são mais perfeitos que os praticados somente sob a influência das virtudes, precisamente porque a ação do Espírito Santo no primeiro caso é mais ativa e fecunda.É mister advertir, porém, que estes dons, que nos são conferidos com as virtudes e a graça habitual ,não se exercem de modo freqüente e intenso senão nas almas mortificadas, que, por longa prática das virtudes morais e teologais, adquirem essa maleabilidade sobrenatural que as toma completamente dóceis às inspirações do Espírito Santo.

Das Virtudes Infusas

É certo, conforme o Concílio de Trento, que no próprio momento da justificação recebemos as virtudes infusas da fé, esperança e caridade - teologais.E é doutrina comum, confirmada pelo Catecismo do Concílio de Trento, que as virtudes morais de prudência, justiça, fortaleza e temperança nos são comunicadas no mesmo instante.Não esqueçamos que estas virtudes nos dão, não a facilidade, senão o poder sobrenatural próximo de praticar atos sobrenaturais; serão necessários atos repetidos, para a esse poder acrescentar a facilidade que dá o hábito adquirido.

Vejamos como estas virtudes nos sobrenaturalizam as faculdades.

a) Umas são teologais, porque têm a Deus por objeto material, e algum atributo divino por objeto formal.
- A fé une-nos a Deus, suprema verdade, e ajuda-nos a ver e apreciar tudo à sua luz divina.
- A esperança une-nos Àquele que é a fonte da nossa felicidade, sempre disposto a derramar sobre nós os seus benefícios, para consumar a nossa transformação, e ajudar-nos com o seu poderoso auxílio a fazer atos de confiança absoluta e de filial entrega nas mãos de Deus sumamente bom em si mesmo; sob a sua influência, comprazemo-nos nas perfeições infinitas de Deus mais que fossem nossas, desejamos que sejam conhecidas e glorificadas, travamos com Ele uma santa amizade, uma doce familiaridade, e assim nos tomamos mais e mais semelhantes ao Altíssimo.

Estas três virtudes teologais unem-nos, pois, diretamente a Deus.

a) As virtudes morais, que têm por objeto um bem honesto distinto de Deus, e por motivo a própria honestidade desse objeto, favorecem e perpetuam essa união com Deus, regulando tão bem as nossas ações que, a despeito dos obstáculos que se encontram dentro e fora de nós, tendem sem cessar para Deus.

Assim é que a prudência nos leva a escolher os melhores meios para o nosso fim sobrenatural. A justiça, fazendo-nos dar ao próximo o que lhe é devido, santifica as nossas relações com nossoS irmãos de tal forma que nos aproxima de Deus. A fortaleza arma-nos a alma contra a provação e a luta, faz-nos levar com paciência os sofrimentos e empreender com santo arrojo os mais árduos trabalhos, para promover a gló' ria de Deus.E, como o prazer criminoso nos afastaria disse, a temperança modera em nós a ânsia do prazer, e subordina-o à lei do dever.

E assim todas estas virtudes desempenham importantíssimo papel em remover o obstáculo, e fornecer-nos até meios positivos que nos levem a Deus

Dos dons do Espírito Santo

Os dons, sem serem mais perfeitos que as virtudes teologais e sobretudo que a caridade, aperfeiçoam o exercício de todas elas.

Assim, o dom de entendimento faz-nos penetrar mais intimamente as verdades fé, para descobrirmos os seus tesouros escondidos, e harmonias misteriosas; o de ciência faz-nos considerar as coisas criadas nas suas relação com Deus. O dom do temor fortifica a esperança, desapegando-nos falsos bens da terra, que nos poderiam arrastar ao pecado, e por isso o aumenta em nós os desejos dos bens do céu. O dom de sapiência fazendo-nos gostar as coisas divinas, aumenta o nosso amor para com Deus. A prudência é sobremaneira aperfeiçoada pelo dom de conselho, que nos permite conhecer, nos casos particulares e dificultosos, o que é conveniente fazer ou omitir. O dom de piedade aperfeiçoa a virtude de religião, que se relaciona com a justiça, fazendo-nos ver em Deus pai que somos venturosos de glorificar por amor. O dom de fortalezacompleta a virtude do mesmo nome, excitando-nos a praticar o que de mais heróico na paciência e na ação. Enfim o dom de temor, além facilitar a esperança, aperfeiçoa em nós a temperança, fazendo temer castigos e os males que resultam do amor ilegítimo dos prazeres.

É assim que se desenvolvem harmonicamente em nossa alma as virtudes e os dons, sob a influência da graça atual.

Próximo assunto: a graça atual

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domingo, 10 de julho de 2011

São Bento - Rogai por nós!



A Igreja comemora no dia 11 de julho - este Santo Maravilhoso - São Bento, abade - Demos graças a Deus!

Do livro do Cardeal Ratzinger, hoje gloriosamente reinante com o nome de Bento XVI:

"(...)O Papa Gregório, o Grande, conta em seus seus "Diálogos" que nas últimas semanas de sua vida, São Bento havia se deitado no topo de uma enorme torre, para onde subia por meio de uma escada empinada.Tinha-se levantado antes da hora da oração noturna, para permanecer em vigília por toda aquela noite. "Estava de pé, à janela, e orava intensamente a Deus Pai Todo Poderoso. Enquanto olhava para a noite escura,viu subtamente uma luz que irrompeu do alto e afastou toda a escuridão. Algo maravilhoso aconteceu nessa visão, como mais tarde ele mesmo narrou:o mundo inteiro mostrou-se aos seus olhos como reunido num único raio de luz. O interlocutor de Gregório levanta uma objeção:

"O que tu disseste? Isso é algo que nunca experimentei e jamais poderia imaginar. Como poderia um homem ver o mundo todo?

A frase do papa Gregório foi: "Se ele viu o mundo todo como unidade, não foram céu e terra que se estreitaram, mas alma do observador que se dilatou" (Joseph Ratzinger in."Fé,Verdade e Tolerância".pp.149-148)

São Bento nasceu em Núrcia, próximo de Roma, em 480 numa nobre família que o enviou para estudar na Cidade Eterna, no período de decadência do Império. Diante da decadência – também moral e espiritual – o jovem Bento abandonou todos os projetos humanos para se retirar nas montanhas da Úmbria, onde dedicou-se à vida de oração, meditação e aos diversos exercícios para a santidade. Depois de três anos numa retirada gruta passou a atrair outros que se tornaram discípulos de Cristo pelos passos traçados por ele, que buscou nas Regras de São Pacômio e de São Basílio uma maneira ocidental e romana de vida monástica. Foi assim que nasceu o famoso mosteiro de Monte Cassino.

A Regra Beneditina, devido a sua eficácia de inspiração que formava cristãos santos por meio do seguimento dos ensinamentos de Jesus e prática dos Mandamentos e conselhos evangélicos, logo encantou e dominou a Europa, principalmente com a máxima "Ora et labora". Para São Bento a vida comunitária facilitaria a vivência da Regra, pois dela depende o total equilíbrio psicológico; desta maneira os inúmeros mosteiros, que enriqueceram o Cristianismo no Ocidente, tornaram-se faróis de evangelização, ciência, escolas de agricultura, entre outras, isso até mesmo depois de São Bento ter entrado no Céu com 67 anos. (By CN)

São Bento foi proclamado por Paulo VI(1963-1978), patrono da Europa, uma vez que os monges beneditinos foram responsáveis por difundir o Evangelho pelo continente através da direção espiritual nos mosteiros. Foi também em suas bibliotecas a que a filosofia e teologia cristãs além da greco romana, estiveram a salvo das ondas de violência decorrentes das hordas de bárbaros que atingiam a Cristandade. Foram esses mesmos monges que propagaram o cristianismo para esses povos e ergueram abadias que se constituíram em sinais visíveis e seguros da fé cristã nos mais distantes pontos da Europa prinicipalmente entre os séculos VII e X. O Ocidente deve aos monges beneditinos ao longo da Idade Média a cópia paciente-e geralmente acompanhada de detalhes artísticamente eleborados-dos textos clássicos antigos bem como daqueles referentes a nossa fé e tradição cristãs, e deste modo as bases culturais de nossa civilização não se perderam.

Os mosteiros beneditinos também impulsionarama agricultura, deram origem aos primeiros hospitais da Europa Medieval e ofereceram os primeiros professores das Universidades Européias que tiveram início no século XI. No Brasil, a ordem de São Bento teve sua primeira a ter uma abadia constrída em 1582 na cidade de Salvador e até hoje atuante.

A Cruz sagrada seja minha Luz
Não seja o Dragão meu guia
Retira-te Satanás
Nunca me aconselhes coisas vãs
É mal o que tu me ofereces
Bebe tu mesmo do teu vene
no

São Bento - Rogai por nós!

sábado, 9 de julho de 2011

O vendedor e o Sacerdote...


Por Padre Léo Trese

Mal acabo de tirar o sobretudo, ouço a campainha da porta tocar imperiosamente. Vejo o visitante através dos vidros: pelo aspecto, é um vendedor.Terei de adiar estes momentos de descanso em que costumo dar uma cachimbada na santa paz do Senhor. Sempre que a vontade de Deus se choca com a minha, sobrevém-me um gesto de impaciência.Por que há de haver vendedores? Por que não nos deixam fazer os pedidos por telefone ou por carta?

Isso era antes. Agora a minha impaciência se aplaca enquanto estendo a mão para o trinco da porta. Há muito tempo que aprendi ser cortês com as visitas, e o andar dos anos não conseguiu desvanecer em mim os efeitos da lição...Era um homem baixinho,de cara redonda, propenso a obesidade, que vendia extintores de incendio. Eu não precisava de nenhum extintor, e, por outro lado, tinha um compromisso muito importante - um encontro com outros três padres e uma bola de golfe.

Disse-lhe muito cavalheirescamente que não precisava de nada, mas ele era pior do que a peste e estava absolutamente convencido de que eu nunca tinha visto nada de semelhante ao seu produto... Não poderia entrar e fazer uma demonstração? O padre Vinicius tinha comprado três e dizia que eram uma maravilha. Era só um minuto.Derrubei-o no meio do combate. Se o homem tivesse um pouco de bom senso, teria percebido que eu me tinha posto ao ataque: "Não me ouviu dizer que não estou interessado? Não quero perder nem o seu tempo, nem o meu, compreendeu?"
Receio que as minhas palavras tenham sido muito mais duras que essas. Voltou-se, bateu com a porta e vi-o descer as escadas.

Foi então que lhe notei um remendo nas costas do paletó, os tacões dos sapatos nas últimas e o cabelo a precisar de um bom corte.

Impressionou-me o remendo - o remendo e a graça de Deus, já que sou pouco inclinado a impulsos generosos...Esqueci imediatamente o jogo de golfe (aliás, pareceu-me que estava começando a chover). Chamei-o e tentei mostrar-me gentil, pedindo-lhe desculpas. Sentamo-nos, mostrou-me o artefato, disse-lhe o que tínhamos e ele concordou em que estávamos bem servidos. Depois, enquanto eu puxava do meu cachimbo e ele de um cigarro, conversamos um pouco.

Disse-me que vivia num Estado vizinho com uma mulher e quatro filhos. A mulher era católica e ele tinha começado a aprender o Catecismo e estava quase preparado para receber o batismo.(Como a notícia me preturbou! Era um catecúmeno e eu, um padre, quase o tinha posto fora de minha casa!).Quando nos despedimos, já éramos amigos e ele tinha um terço que eu lhe fizera escorregar timidamente para as mãos. Senti-me feliz de ve-lo voltar-se no fundo das escadas e sorrir-me.

Começava mesmo a chover. Decidi ir até à escola; as crianças já não me viam há uma semana. A partir de então, foi-me muito mais fácil suportar a tortura do telefone e da porta. Sempre que era tentado a responder com um latido, bastava-me evocar a visão de uma mulher pondo um remendo num paletó. Vendedores de velas, representantes de vinhos, comerciantes de roupa e de sabão... quando lhes abro a porta, sorrio-lhes e convido-os a entrar antes de lhes perguntar o que vem vender.

O meu tempo é de Deus e o tempo de Deus é todo das almas.

Esse homem que traz um mostruário pode ser um bom paroquiano de qualquer outro padre e reservar parte das suas comissões ganhas com tanta dificuldade, para ajudar a Igreja e para enviar os filhos à escola paroquial; este outro com seu bloco de encomendas assomando pelo bolso, pode ser um convertido ou a parte não-católica de um casamento misto. E esse tão charlatão, que ostenta um emblema maçonico, faz parte do grande rebanho pelo qual Cristo morreu. Dentre eles alguns - ou todos - levarão para sempre a impressão que eu lhes tiver causado, eu, um homem de Deus.

Por isso lhes digo: "Entre. Lamento não precisar de nada, mas sente-se um pouco e descanse". A cortesia é tão barata e tão fácil!

Tão fácil?

Talvez tenha exagerado um pouco. Sinceramente, não posso dizer isso de mim com tanta certeza, quando se trata de um vendedor obstinado, de um pai enfadonho ou de uma criança que me aparece com um terço para benzer. Pelo menos duas ou três vezes por ano, tenho que pedir perdão a alguém. É nos momentos de maior tensão e esforço que a cortesia custa mais e os períodos mais perigosos são a abertura das aulas, a Semana Santa e a última semana do Advento. E como dói pedir desculpas, especialmente qdo sei que sou eu que tenho razão e não o outro! Mas o outro não é padre; não é dele que se espera que se pregue com o bom exemplo; não é ele que precisa da disciplina nem da penitência de pedir perdão como eu preciso.

É encatador observar como de um pedido de desculpas pode nascer uma íntima amizade. Os melhores presentes que recebi no último natal foram de duas pessoas a quem me obriguei a pedir desculpas. Não é que eu queira recomendar que se peçam desculpas como maneira de fazer bons negócios... Mas há muitas feridas no Corpo Místico de Cristo que se poderiam curar facilmente com uma palavrinha de sincero pesar. Ou melhor ainda, feridas que, se a paciência estivesse a postos, não seria necessário curar porque não se teriam produzido.

A minha mão ainda está agarrada ao trinco da porta. Demorei muito tempo em abri-la, e o meu amigo, do outro lado, faz um gesto suspeito de quem se prepara para chamar de novo. De modo que, toca a sorrir! Ele ganha o seu pão duramente e talvez também tenha um remendo nas costas do paletó.

Fonte: Vaso de Argila

(Depois continuaremos nosso estudo da Graça de Deus)

sexta-feira, 8 de julho de 2011

A Vida da Graça - União entre a nossa Alma e Deus.


A Vida Espiritual - Explicada e Comentada - de Adolfh Tanquerey

Do que dissemos acerca da habitação da SSma.Trindade em nossa alma, resulta que entre nós e o hóspede divino existe uma união moral muito íntima e santificante.

Mas não haverá alguma coisa mais, algo de físico nesta união?

1) Dir-se-ia que as comparações empregadas pelos Santos Padres parecem indicá-lo.

A) Um grande número dentre eles dizem-nos que a união de Deus com a alma é semelhante à da alma com o corpo: "Há duas vidas em nós, diz Santo Agostinho, a vida do corpo e a da alma; a vida do corpo é a alma, a vida da alma é Deus: «sicut vita Corporis anima, sic vita anima e Deus». Tudo isto evidentemente, não são mais que analogias; façamos por destrinchar a verdade que elas contêm:

A união entre o corpo e a alma é substancial, a tal ponto que não formam senão uma única e mesma natureza, uma única e mesma pessoa. O mesmo se não dá na união entre a nossa alma e Deus: nós conservamos sempre a nossa natureza e personalidade, e assim ficamos essencialmente distintos da divindade. Mas, assim como a alma dá ao corpo a vida de que este goza, assim Deus, sem ser a forma da alma, lhe dá a sua vida sobrenatural, vida não igual, mas verdadeira e formalmente semelhante à sua; e esta vida constitui uma união realíssima entre a nossa alma e Deus. Supõe uma realidade concreta que Deus nos comunica e serve de traço de união entre Ele e nós. É certo que esta nova relação nada acrescenta a Deus, mas aperfeiçoa a nossa alma e torna-a deiforme; o Espírito Santo é assim, não causa formal, senão causa eficiente e exemplar da nossa santificação.

B) Esta mesma verdade se deduz da comparação feita por alguns autores entre a união hipostática e a união da nossa alma com Deus. Não há dúvida que a diferença entre ambas é essencial: a união hipostática é substancial e pessoal, pois que a natureza divina e a natureza humana, se bem que perfeitamente distintas, não formam em Jesus Cristo mais que uma única e mesma Pessoa, enquanto a união da alma com Deus pela graça nos deixa a nossa personalidade própria, essencialmente distinta da personalidade divina, e não nos une a Deus senão dum modo acidental. Faze-se, efetivamente, essa união, por intermédio da graça santificante, «acidente» acrescentado à substância da alma; ora, na linguagem escolástica, a união num acidente e de uma substância chama-se união «acidental» .

Nem por isso é menos verdade que a união da alma com Deus se pode dizer uma união de substância a substância, que o homem e Deus estão em contato tão íntimo como o ferro e o fogo que o envolve e penetra, como o cristal e a luz. Para tudo resumir numa palavra, a união hipostática faz um Homem-Deus, a união da graça faz homens divinizados; e, assim como as ações de Cristo são divino-humanas ou teândricas, assim as do justo são deiformes, feitas em comum por Deus e por nós, e, por este título, meritórias da vida eterna, que não é outra coisa senão uma união imediata com a divindade.

A união da graça não é puramente moral, senão que encerra um elemento físico que nos permite chama- la físico-moral: «A natureza divina é verdadeiramente e no seu próprio ser unida à substância da alma por um laço especial, de maneira que a alma justa possui em si a natureza divina, como se lhe pertencesse, e, por conseguinte, possui um caráter divino, uma perfeição de ordem divina, uma beleza divina, infinitamente superior a tudo quanto pode haver de perfeição natural em qualquer criatura existente ou possível»(Pe de Smedt)

2)Se, postas de partes as comparações, estudamos o lado doutrinário do problema, chegamos à mesma conclusão:

A) No céu, os escolhidos vêem a Deus face a face, sem intermédio; a própria essência divina é que desempenha o papel de espécie impressa: «in visione, qua Deus per essentiam videbitur, ipsa divina essentia erit quase forma intellectus quo intelliget» Há, pois, entre eles e a Divindade uma união verdadeira, real, que se pode chamar física, pois que Deus não pode ser visto e possuído se não estiver presente ao espírito dos bem-aventurados pela sua essência, e não pode ser amado, se não estiver efetivamente unido à sua vontade como objeto de amor: Amor est magis unitivus quan cognitio.
Ora, a graça não é outra coisa senão um começo, um germe da glória. Portanto, a união começada na terra entre a nossa alma e Deus pela graça é, afinal, do mesmo gênero que a da glória, real, e em certo sentido física, como ela.

Assim conclui o Pe Froget no seu belo livro de L'Habitation du Saint-Espirit (p. 159), apoiando-se em numerosos textos de Santo Tomás: «Deus está, pois, real, física e substancialmente presente no cristão que possui a graça; e não é simples presença material, é verdadeira posse, acompanhada de um princípio de fruição».

B) Esta mesma conclusão deriva ainda da análise da graça em si mesma. Segundo a doutrina do Doutor Angélico, baseada nos próprios textos da Escritura que citamos, a graça habitual ou santificante é nos dada para gozarmos não somente dos dons divinos, mas também das mesmas Pessoas divinas: «Per donum gratiae gratum facientis perficitur creatura rationalis ad hoc quod libere non solum ipso dono creato utatur, sed ut ipsa divina persona fruatur».

"Ora, acrescenta um discípulo de são Boaventura, para se gozar duma coisa, requer-se a presença desse objeto, e, por conseguinte, para gozar do Espírito Santo é necessária a sua presença bem como o dom criado que a Ele nos une. E, como a presença do dom criado é real e física, não deverá ser também do mesmo gênero a do Espírito Santo"?

Assim pois, tanto as deduções da fé, como as comparações dos Santos Padres autorizam-nos a dizer que a união da nossa alma com Deus pela graça não é somente moral; tão pouco se pode qualificar de substancial em sentido próprio, mas a tal ponto é real que se pode chamar físico-moral. Como ela fica ao mesmo tempo velada e obscura, e como é progressiva (neste sentido que percebemos tanto melhor os seus efeitos quanto mais cultivamos a fé e os dons do Espírito Santo), as almas fervorosas, que aspiram à união divina, sentem-se vivamente estimuladas a avançar cada dia na prática das virtudes e dos dons.

Depois veremos: Das virtudes e dos dons ou das faculdades da ordem sobrenatural

Estudo:


quinta-feira, 7 de julho de 2011

Chesterton


"É fácil ser louco; é fácil ser herege. É sempre fácil deixar que cada época tenha a sua cabeça; o difícil é não perder a própria cabeça. É sempre fácil ser um modernista; assim como é fácil ser um snob. Cair em qualquer uma das ciladas explícitas de erro é exagero que um modismo depois de outro e uma seita depois de outra espalharam ao longo da trilha histórica do Cristianismo — isso teria sido de fato simples. É sempre simples cair; há um número infinito de ângulos para levar alguém à queda, e apenas um para mantê-lo de pé. Cair em qualquer um dos modismos, do agnosticismo à Ciência Cristã, teria de fato sido óbvio e sem graça. Mas evitá-los a todos tem sido uma estonteante aventura; e na minha visão a carruagem celestial voa esfuziante atravessando as épocas. Enquanto as monótonas heresias estão esparramadas e prostradas, a furiosa Verdade cambaleia, mas segue de pé.


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O Esplendor do Catolicismo


"A única, a verdadeira apologia do cristianismo pode se reduzir a dois argumentos: os santos que a Igreja produziu e a arte que germinou em seu seio. O Senhor torna-se crível pela magnificência da santidade e da arte, que explodem dentro da comunidade crente" - Papa Bento XVI

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quarta-feira, 6 de julho de 2011

A Vida da Graça - do organismo da vida cristã



A Vida Espiritual - Explicada e Comentada - de Adolfh Tanquerey

As três divinas Pessoas, que habitam o santuário da nossa alma comprazem-se a enriquecer de dons sobrenaturais, e comunicam-nos vida semelhante à sua, que se chama vida da graça ou vida deiforme.
Ora, em qualquer vida há um tríplice elemento: um princípio vital, que é, por assim dizer, a fonte da vida; faculdades, que permitem produzir atos vitais, enfim, que são os produtos dessas faculdades e contribuem para o seu desenvolvimento.

Na ordem sobrenatural, o Deus, que em nós vive, produz em nossas almas esses três elementos:

A- Comunica-nos, primeiro, a graça habitual ou santificante, que desempenha em papel de princípio vital sobrenatural: diviniza, por assim dizer, a própria substância da nossa alma, tornando-a apta, posto que remotamente, para a visão beatífica e para os atos que a preparam.

B- Desta graça derivam as virtudes infusas e os dons do Espírito Santo, que aperfeiçoam as nossas faculdades e nos dão o poder imediato de praticar atos deiformes, sobrenaturais e meritórios.

C- Para pôr em movimento estas faculdades, concede-nos graças atuais que nos iluminam a inteligência, fortificam a vontade e ajudam a praticar atos e a aumentar assim o capital de graça habitual que nos foi concedido.

Esta vida da graça, se bem que distinta da vida natural, não lhe é simplesmente sobreposta, senão que por completo a penetra, transforma e diviniza. Assimila tudo quanto há de bom em nossa natureza, educação, hábitos adquiridos, aperfeiçoa e sobrenaturaliza todos estes elementos, orientando-os para o último fim, isto é, para a posse de Deus, pela visão beatífica e amor que a acompanha. É esta a esta vida sobrenatural que compete dirigir a vida natural, em virtude do princípio geral, que os seres inferiores são subordinados aos superiores. É que, na verdade, não pode durar nem se desenvolver-se, se não domina e conserva sob a sua influência os atos da inteligência, da vontade e das outras faculdades; e com isso não destrói nem diminui a natureza, antes a exalta e aperfeiçoa

Da Graça Habitual ou Santificante

Deus Nosso Senhor, querendo, na sua infinita bondade, elevar-nos até Si, na medida em que o permite a nossa fraca natureza, dá- nos um princípio vital sobrenatural, deiforme: é a graça habitual, graça que se chama criada, por oposição à graça incriada, que consiste na habitação do Espírito Santo em nós. Esta graça torna-nos semelhantes a Deus e une-nos a Ele duma maneira estreitíssima: «Est autem haec c catio, deo quaedam, quoad fieri potest, assimila tio unioque» .

Definição.

Define-se ordinariamente a graça habitual: uma qualidade sobrenatural, inerente à nossa alma, que nos faz particípar, dum modo real, formal, mas acidental, da natureza e vida divinas.

a) É, pois, uma realidade da ordem sobrenatural, não porém Substância, pois que substância nenhuma criada pode ser sobrenatural; é uma maneira de ser, um estado da alma, uma qualidade inerente à substância da nossa alma, que a transforma e eleva acima de todos os seres naturais, ainda os mais perfeitos; qualidade permanente, de sua natureza, que fica em nós enquanto a não expelimos da alma cometendo voluntariamente algum pecado mortal.

«É, diz o Cardeal Mercier , apoiando-se em Bossuet, essa qualidade espiritual que Jesus difunde em nossas almas; que penetra o mais íntimo da nossa substância; que se imprime no mais secreto de nos almas e se derrama (pelas virtudes) em todas as potências e faculdades da alma; que, tomando posse dela interiormente, a torna pura e agradável aos olhos deste divino Salvador e a faz seu santuário, seu templo, seu tabernáculo, enfim seu lugar de delícias».

b) Esta qualidade torna-nos, segundo a enérgica expressão de São Pedro, participantes da natureza divina, divinae consortes naturae ; faz-nos entrar, diz São Paulo, em comunicação com o Espírito Santo, comunicatio Sancti Spiritus ; em sociedade com o Pai e o Filho, ajunta São João. É claro que não nos faz iguais a Deus, mas unicamente seres deiformes, semelhantes a Deus; dá-nos, não a vida divina em si mesma, que é essencialmente incomunicável, senão uma vida semelhante à de Deus.

1) A vida própria de Deus é ver-se a si mesmo diretamente e amar-se infinitamente. Criatura alguma, por mais perfeita que se suponha, pode por si mesma contemplar a essência divina «que habita uma luz inacessível, lucem inhabitat inacessibilem» . Mas Deus, por um privilégio inteiramente gratuito, chama o homem a contemplar esta divina essência no céu; e, como este por si mesmo é disso incapaz, Deus eleva, dilata, fortifica a inteligência pelo lume da glória.

Então, diz-no-lo São João, seremos Semelhantes a Deus, porque O veremos como Ele é em si mesmo: «Similes erimus, quoniam videbimus eum sicut esb". Veremos, acrescenta São Paulo, não já através do espelho das criaturas, senão face a face, sem intermédio, sem nuvem, com uma claridade luminosa: «Videmus nunc per speculum. in aenigmate, tunc autem facie ad faciem" . E assim participaremos, que de modo finito, da vida própria de Deus, pois que O conheceremos como Ele se conhece e o amaremos como Ele se ama a si mesmo. O que os teólogos explicam, dizendo que a essência divina virá unir-se ao mais íntimo da nossa alma, e nos servirá de espécie impressa, para nos permitir vê-la sem intermédio algum criado, sem imagem alguma.

2) Ora a graça habitual é já uma preparação para a visão beatífica e um como antegosto desse favor, praelibatio visionis beatificae; é o botão que já contém flor, se bem que esta não haja de desabrochar senão mais tarde; é, pois, do mesmo gênero que a própria visão beatífica e participa da sua natureza.

Tentemos uma comparação, por imperfeita que seja. Eu posso conhecer um artista de três maneiras: pelo estudo das suas obras, - pelo retrato que dele me traça um dos seus amigos íntimos, - enfim pelas relações diretas que tenho com ele. O primeiro destes conhecimentos é o que temos de Deus pela vista das suas obras, conhecimento indutivo, bem imperfeito, pois que as obras, apesar de manifestarem a sua sabedoria e poder nada me dizem da sua vida interior.

O segundo corresponde bastante bem ao conhecimento que nos dá a fé: fundado no testemunho dos escritores sagrados, é sobretudo no do Filho de Deus, creio o que a Deus apraz revelar-me, não já somente sobre as obras e atributos, mas sobre a sua vida íntima; creio que de toda a eternidade o Pai gera um Verbo que é seu Filho, que o Pai O ama e é dele amado, e que deste amor recíproco procede o Espírito Santo. Certo que eu não compreendo, não vejo sobretudo, mas creio com certeza inabalável, e esta fé faz-me participar por modo velado e obscuro, mas real, de conhecimento que Deus tem de si mesmo.

Só mais tarde, pela visão beatífca, é que se realizará o terceiro modo de conhecimento; vê-se, porém, sem dificuldade que o segundo é, em substância da mesma natureza que este último, e sem dúvida muito superior ao conhecimento racional

c) Esta participação da vida divina é, não simplesmente virtual senão formal. Uma participação virtual não nos faz possuir uma qualidade senão de maneira diversa daquela que se encontra na causa principal, assim, a razão é uma participação virtual da inteligência divina, porque nos faz conhecer a verdade, mas de modo bem diferente do conhecimento que dela tem Deus. Não assim a visão beatífica, e, guardada toda a proporção, a fé: estas fazem-nos conhecer a Deus como Ele se conhece a si mesmo, não sem dúvida no mesmo grau, mas da mesma maneira.

d) Esta participação não é substancial, senão acidental. Assim se distingue da geração do Verbo, que recebe toda a substância do Pai, bem como da união hipostática, que é uma união substancial da natureza humana e da natureza divina na única Pessoa do Verbo: nós, efetivamente, conservamos a nossa personalidade, e a nossa únião com Deus não é substancial.

É esta a doutrina de Santo Tomás : «Sendo a graça muito superior à natureza humana, não pode ser nem uma substância, nem a forma substancial da alma, não pode ser senão a sua forma acidental». E, para explicar o seu pensamento, acrescenta que o que está substancialmente em Deus nos é dado acidentalmente e nos faz participar da sua divina bondade: «Id eniIL quod substantialiter est in Deo, acidentaliter fit in anima participante divinam bonita tem, ut de scientia patet».

Com estas restrições, evita-se o cair no panteísmo, e forma-se, não obstante, uma idéia altíssima da graça que nos aparece com uma divina semelhança impressa por Deus em nossa alma: «faciamus hominem ac imaginem et similitudinem nostram»

Para nos fazerem compreender esta divina semelhança, empregam os santos Padres diversas comparações:

1 - A nossa alma, dizem, é uma imagem viva da Santíssima Trindade uma espécie de retrato em miniatura, pois que o próprio Espírito se vem imprimir em nós, como um sinete sobre cera branda, e a sua divina semelhança. Daqui concluem que a alma em estado de graça é duma beleza arrebatadora, pois que o artista, que nela pinta esta imagem, é infinitamente perfeito, visto ser o próprio Deus: "Pictus es ergo, o homo, et pictus es a Domino Deo tuo. Bonum habes artificem et pictorem» E daqui inferem com razão que, longe de destruirmos ou mancharmos esta imagem, a devemos tornar cada dia mais semelhante ao original. Ou então comparam ainda a nossa alma a esses corpos transparentes que, recebendo a luz do sol, são como penetrados por ele e adquir em um brilho incomparável que em seguida difundem a nossa alma, semelhante a um globo de cristal iluminado pelo sol, recebe a luz divina, resplandece com vivíssimo clarão e o reflete os objetos que a rodeiam.

Para mostrarem que esta semelhança não fica à superfície, se não que penetra até o mais íntimo da nossa alma, recorrem à comparação do fogo. Assim como, dizem eles, uma barra de ferro, metida em água ardente, adquire bem depressa o brilho, o calor e maleabilidade do fogo, assim a nossa alma, mergulhada na fornalha do amor divino, ali se desembaraça das escórias, tornando-se brilhante, ardente e dócil às divinas inspirações.

Um autor contemporâneo, querendo exprimir a idéia de que a graça é uma vida nova, compara-a a um enxerto divino, inserido na árvore silvestre da nossa natureza, o qual se combina com a nossa alma para nela constituir um princípio vital novo, e, por isso mesmo, uma vida muito superior. Mas, assim como o enxerto não confere à árvore selvagem toda a vida da espécie a quem o foram buscar, senão tão somente uma ou outra das suas propriedades vitais, assim a graça santificante não nos dá toda a natureza de Deus, alguma coisa da sua vida, que constitui para nós uma vida nova; participamos, pois, da vida divina, mas não a possuímos na sua plenitude. Esta divina semelhança prepara evidentemente a nossa alma para uma união íntima com a adorável Trindade que nela habita.

(Depois veremos: União entre a nossa alma e Deus)

Veja também: A vida da Graça um tesouro a adquirir:

Queda e Castigo - a Redenção e a Natureza da Graça -

segunda-feira, 4 de julho de 2011