quarta-feira, 20 de julho de 2011

Razão, Ordem e Evolução


Por Padre Léo Trese

Deus existe. Se não existisse, não haveria universo, não existiríamos nem você e nem eu. Se não existisse um Ser eterno e não-causado, que tivesse dado início a tudo, nada jamais teria acontecido.

Deus existe. Se não existisse, não poderíamos explicar nem sequer algo tão simples como o movimento. Nada se move se não for movido por outro. Quer se trate de um cortador de grama, que precisa de impulso dos meus braços; quer de trate dos meus braços, que precisam da ordem do meu cérebro para mover-se; quer se trate de minhas células cerebrais, que respondem a estímulos dados pelos sentidos...; ou ainda dos planetas a descreverem as suas órbitas, ou das estrelas em movimento a altíssimas velocidades pelo espaço: nada do que existe poderia mover-se se não existisse um Ser que, sem ter sido movido por ninguém, tenha dado (por assim dizer) o "pontapé inicial". Se esse Ser não existisse, não poderia sequer haver algo tão simples como o movimento.

Deus existe. Se não existisse, jamais poderíamos explicar o maravilhoso "projeto estrutural", a ordem que existe no Universo. O instinto da abelha, a delicadeza da rosa, a intrincada coordenação dos órgãos num organismo vivo: tudo isso seria inexplicável se não admitíssemos a existência de um Ser infinitamente sábio que o planejou - porque um plano sempre pressupôe um planejador. Quando o ateu, procurando escapar à evidência que o cerca por todos os lados, afirma que tudo, desde as asas da borboleta até a sucessão das estações, é fruto do acaso, tem de renunciar simultaneamente ao uso da razão para faze-lo.

Se puséssemos dez bolas de loteria numeradas de 1 a 10 naquela espécie de gaiola rotativa que usam, as fizéssemos girar e depois as tirássemos uma a uma, sem olhar, a probabilidade de que saíssem na ordem certa - 1,2,3, até 10 -, seria de uma em dez milhões. Pelo menos, é o que dizem os matemáticos, não eu. Ora bem, se partíssemos do princípio de que todo esse sistema tremendamente intricado de células, glândulas e órgãos que constitui um ser vivo é fruto do acaso, nem mesmo o mais sofisticado computador da última geração seria capaz de calcular as probabilidades de estar errada essa suposição....

Esta certo, mas...como fica a evolução? Quer dizer que toda essa impressionante teoria segundo a qual o Universo teria milhões e milhões de anos de idade e teria começado por ser uma enorme massa de gás incandescente (ou um minúsculo ponto de energia pura a temperaturas inimagináveis)? A terra não passaria de um ínfimo fragmento dessa enorme massa, que teria se esfriado ao longo de eras inteiras até se transformar em rocha sólida; na superfície desse planeta, umas reações químicas teriam dado origem à agua e à terra firme, e depois a moléculas orgânicas; na água, essas moléculas orgânicas ter-se-iam combinado, dando origem a uma forma de vida ainda muito simples, uma célula microscópica; dessa forma de vida primitiva, teriam derivado gradativamente todos os seres vivos, passando pelos invertebrados, pelos peixes, répteis, aves e mamíferos, até que a certa altura uma espécie de antropóide, hoje extinta, se teria transformado numa criatura pensante chamada Homo sapiens ou "ser humano"....que dizer de tudo isso?

Para já, comecemos por esclarecer o seguinte: boa parte da teoria da evolução continua ainda hoje a ser simplesmente uma “ teoria”, pois ainda não dispõe de evidências científicas suficientes; e boa parte parece merecer já a categoria de fato comprovado, estabelecido e aceito por inúmeros cientistas de boa reputação, muitos dos quais católicos. Afinal de contas, não há oposição alguma entre ser um bom católico e aceitar a teoria da evolução, desde que esta permaneça restrita aos limites da ciência, sem transbordar para o campo próprio da teologia. Deus é fonte de toda a verdade. E portanto, não pode haver contradição entre a verdade religiosa, retamente compreendida, e uma verdade científica solidamente estabelecida.

Mas um autêntico cientista não tenta responder à pergunta: “ Por que existiu a nuvem de gás primordial, a massa incandescente de átomos ou a energia inicial”? Poderá tentar explicar “como” era esse estado inicial, “como” surgiu a primeira célula viva, mas não pertence ao seu campo de atuação explicar o imenso abismo que separa a existência da não-existência, o animal do ser humano racional. A resposta para esse tipo de perguntas é de competência do filósofo e do teólogo. Quando um cientista procura explicações para esses fatos lançando mão de termos como “acaso”. “fortuita justaposição de átomos exatamente no momento apropriado e nas condições ideais”, está ultrapassando os limites da ciência, mas até do campo da razão...

Quanto a Deus, não há nenhuma razão para que não pudesse ter criado o Universo por meio de um processo evolutivo, se assim lhe pareceu melhor. Isso só nos permitiria admirar ainda mais a sua infinita grandeza. Se começou por criar uma massa informe de matéria, e imprimiu nessa matéria as leis ou potencialidades naturais (como se plantasse nessa massa as sementes das criaturas futuras) que a levariam a desenvolver-se, ao longo de bilhões de anos, de acordo com seu pleno criador, presente desde o início na sua mente divina – não seria por isso menos Criador, sê-lo-ia muito mais.

Fonte: A Sabedoria do Cristão

Veja:
1 - O Cristão e o descrente
2 - As Razões de nossa Esperança
3 - Deus existe? do nada, nada se cria

Depois veremos: Que é o Homem?

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O pão



Este texto é uma adaptação do capítulo sobre as Tentações de Jesus, retirado do Livro: Jesus de Nazaré - Papa Bento XVI

O adaptei porque tenho visto uma minoria de católicos que se enganam profundamente a respeito da verdadeira missão de Jesus, querendo dizer que este não veio para todos, mas sómente para os pobres. Mas quem são os pobres? Eu não tenho medo de dizer que todos nós somos pobres de Deus, carentes de sua misericórdia e de seu perdão que nos livra da morte.

Nos diz Bento XVI, enquanto Cardeal:

"São Mateus e São Lucas narram três tentações de Jesus, nas quais espelham a luta por causa da sua missão. O núcleo de toda tentação é colocar Deus de lado, o qual, junto as questões sobre o sentido da vida, aparece como algo secundário, se não mesmo de supérfluo e incômodo. Ordenar; construir o mundo de um modo autônomo, sem Deus; reconhecer como realidade apenas as realidades políticas e materiais e deixar de lado Deus, tendo-o como uma ilusão: aqui está a tentação que de muitas formas hoje nos ameaça.

Pertence à essência da tentação o seu aspecto moral: ela não nos convida diretamente para o mal, isso seria grosseiro. Ela pretende mostrar o que é melhor para nós: por finalmente de lado as ilusões e dedicar-se de todas as formas à melhoria do mundo. Além disso, ela se apresenta com a pretensão do verdadeiro realismo: o real é o que aparece (poder e pão); as coisas de Deus, ao contrário, aparecem como um mundo irreal, secundário, do qual não se tem nenhuma necessidade.

Trata-se portanto de Deus.

É Ele o real, a realidade mesma, ou não é nada? É o bem, ou devemos nós mesmos inventa-lo? A questão acerca de Deus é a questão fundamental que se levanta na encruzilhada da existência humana. O que é que o Redentor do mundo deve ou não fazer: é disto que se trata nas tentações de Jesus.

O tentador diz a Ele: “Se és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se transformem em pão” ( Mt 4,3)....estas palavras serão ditas, pouco depois, pelos escarnecedores junto a cruz: “ Se és o Filho de Deus, então desce da cruz...” (Mt 27,40) . Escárnio e tentação andam aqui perfeitamente juntos: Para se tornar digno de fé, Jesus deve apresentar a prova para a sua pretensão. Esta exigência de prova percorre toda a história da vida de Jesus, visto que constantemente o acusam de não ter provado suficientemente pois não realizou o grande milagre que retirasse toda a ambigüidade e toda a contradição e que a todos clara e indiscutivelmente mostrasse que Ele era ou não.

E esta exigência a respeito de Deus, de Cristo e da Igreja tem sido constantemente mantida ao longo de toda a história: "Se tu existe, ó Deus, então tu mesmo te deves mostrar. Então deves retirar as nuvens do teu escondimento e dar-nos a clareza que pretendemos. Se Tu, Cristo, és realmente o Filho e não um dos iluminados, como sempre aparecem na história, então Tu deves mostrar isso de um modo muito mais claro do que fazes. E então Tu deves dar à Tua Igreja, se ela deve ser verdadeiramente deve ser Tua, uma outra medida de clareza, diferente daquela que na realidade tem"

O que o tentador propões na primeira tentação? Que Deus prove sua existência, transformando em pão as pedras do deserto. Trata-se, em primeiro lugar da fome de Jesus no sentido literal e São Mateus a vê de forma mais abrangente, como já durante a vida do Jesus terreno e como durante toda a história lhe fora e lhe será apresentada. O que há de mais trágico, o que mais contradiz a fé num Deus bom e a fé redentora do homem do que a fome da humanidade? A primeira prova de identidade do Redentor perante o mundo e para o mundo não deverá ser que Ele lhe dê pão e que acabe com toda a espécie de fome?

Durante o tempo da peregrinação pelo deserto, Deus tinha alimentado o povo de Israel com o pão descido do céu, como o maná. Pensava-se então poder reconhecer nisto uma imagem do tempo messiânico: não devia, e não deve o Redentor do mundo provar a sua identidade dando a todos de comer? Não é o problema da alimentação do mundo, e em geral, o problema social, o primeiro e autêntico critério pelo qual a redenção deve ser medida? Pode alguém com direito dizer-se Redentor se não satisfizer este critério? Do modo conceitual mais elevado, o marxismo fez disto o cerne da sua promessa de salvação: ele cuidaria para que acabasse toda a fome e que “o deserto se tornasse pão...”.

“Se és Filho de Deus...” – que desafio. E não se deve dizer o mesmo à Igreja: "se queres ser a Igreja de Deus, então te preocupa em primeiro lugar com o pão para o mundo, o resto virá a seguir." É difícil responder a este desafio, precisamente porque insistentemente nos chega e nos deve chegar aos ouvidos e à alma o grito dos famintos. O tema do pão está presente em todo o Evangelho e deve ser considerado em toda a sua amplitude.

Há ainda outras duas grandes histórias na vida de Jesus envolvendo o pão. A primeira é a multiplicação dos pães para as milhares de pessoas que seguiram Jesus até o deserto. Mas por que agora é feito o que antes tinha sido repelido como tentação? Os homens tinham vindo para escutar a palavra de Deus e tinham por isso abandonado todo o resto. E assim, como homens que tinham aberto o seu coração para Deus e para os outros, aqueles podem receber o pão com merecimento.

Este milagre do pão envolve três coisas:

A primeira é a procura de Deus, da sua palavra, da reta instrução para toda a vida ; depois o pão é pedido a Deus; finalmente a disposição recíproca para a partilha é um elemento essencial do milagre. Escutar Deus torna-se vida com Deus e isso conduz da fé ao amor, à descoberta do outro. Jesus não é indiferente à fome dos homens, às suas necessidades corporais, mas situa tudo isso no contexto correto e confere-lhe a devida ordem.

A segunda história do pão aponta para a terceira e é preparação para ela: a Última Ceia, que se torna Eucaristia da Igreja e o permanente milagre do pão de Jesus. Ele mesmo se tornou o grão de trigo que deve morrer, para que dê muito fruto ( Jo,12,24) Ele mesmo se tornou pão para nós, e essa multiplicação dos pães dura inesgotavelmente até o fim dos tempos. Assim compreendemos agora a palavra de Jesus, que Ele retira do AT ( Dt 8,3), para com ela repelir o tentador: “O homem não vive só de pão, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” (Mt, 4,4).

A este respeito há uma expressão do jesuíta alemão Alfed Delp, condenado à morte pelos nazistas: “ O pão é importante, a liberdade mais importante, mas o mais importante de tudo é a adoração”.

Onde esta ordem dos bens não for respeitada, mas invertida, não haverá nenhuma justiça, não haverá mais cuidado com os homens que sofrem; mas precisamente aí o domínio dos bens materiais será desorganizado e destruído. Onde Deus é considerado uma grandeza secundária, onde pode ser deixado de lado por algum tempo ou por todo o tempo por causa de coisas mais importantes, aí precisamente fracassam essas coisas pretensamente mais importantes. Não é só o desfecho negativo da experiência marxista que o demonstra.

A ajuda do Ocidente para o desenvolvimento com base em princípios puramente técnicos e materiais – que não só deixa Deus de fora, mas também força o homem a d’Ele se afastar com o orgulho do seu saber fazer melhor – foi precisamente o tipo de ajuda que criou o Terceiro Mundo no sentido que hoje se entende. Esta “ajuda “ empurrou para o lado as estruturas religiosas, morais e sociais e instaurou no vazio a sua mentalidade tecnológica. Ela julgava poder transformar pedras em pão, mas gerou pedras em vez de pão.

Trata-se do primado de Deus.

Trata-se de O reconhecer como realidade, como a realidade sem a qual nada mais pode ser bom.

A história não pode ser regulada longe de Deus por estruturas simplesmente materiais.

Se o coração do homem não for bom, então nada pode tornar-se bom. E a bondade do coração só pode, em última instancia, vir D' aquele que é bom , que é bom em si mesmo. Pode naturalmente perguntar-se por que Deus não fez um mundo no qual a sua presença fosse mais evidente; por que Cristo não deixou atrás de si um outro esplendor da sua presença, mais adequado e irresistível.

Este é o mistério de Deus e do homem no qual não podemos penetrar.

Vivemos num mundo no qual tudo deve ser palpável, e Deus não apresenta nenhuma evidencia do que é palpável; Deus só pode ser procurado e encontrado se abrirmos o coração, se nos remetermos ao “êxodo” do “Egito”. Neste mundo temos de nos opor aos enganos das falsas filosofias e reconhecer que não podemos viver só de pão, mas, antes de mais nada, da obediência à palavra de Deus. E sómente onde esta obediência for vivida é que cresce a atitude que permite criar pão para todos".

sábado, 16 de julho de 2011

A Vida da Graça - da Graça Atual


A Vida Espiritual - Explicada e Comentada - de Adolfh Tanquerey

Assim como na ordem da natureza necessitamos do concurso de Deus para passarmos da potência ao ato, assim na ordem sobrenatural não podemos pôr em ação as nossas faculdades sem o auxílio da graça atual

1 - Noção: A graça atual é um auxílio sobrenatural e transitório que Deus nos dá para nos iluminar a inteligência e fortalecer a vontade na produção dos atos sobrenaturais.

a) Opera, diretamente sobre as nossas faculdades espirituais, a inteligência e a vontade,não já unicamente para elevar essas faculdades à ordem sobrenatural, senão para as pôr em movimento, e lhes fazer produzir atos sobrenaturais.

Demos um exemplo: antes da justificação, ou infusão da graça habitual, a graça atual ilumina-nos acerca da malícia e dos temerosos efeitos do pecado, para nos levar a detestá-lo.

Depois da justificação, mostra-nos, à luz da fé, a infinita beleza de Deus e a sua misericordiosa bondade, a fim de no-lo fazer amar de todo o coração.

b) Mas, a par destas graças interiores, há outras que se chamam exteriores, e que, atuando diretamente sobre os sentidos e faculdades sensitivas, atingem indiretamente as nossas faculdades espirituais, tanto mais que muitas vezes são acompanhadas de verdadeiros auxílios interiores. Assim, a leitura dos Livros Santos ou duma obra cristã, a assistência a um sermão, a audição dum trecho de música religiosa, uma conversa boa são graças exteriores; é certo que, por si mesmas, não fortificam a vontade; mas produzem em nós impressões favoráveis, que movem a inteligência e a vontade e as inclinam para o bem sobrenaturaL

E por outro lado Deus acrescentar-Ihes-á muitas vezes moções interiores, que, iluminando a inteligência e fortificando a vontade, nos ajudarão poderosamente a nos convertermos ou tornarmos melhores. É o que podemos concluir daquela palavra do livro dos Atos dos Apóstolos, que nos mostra o Espírito Santo abrindo o coração duma mulher chamada Lídia, para que ela preste atenção à pregação de São Paulo. Enfim, Deus, que sabe que nós nos elevamos do sensível ao espiritual, adapta-se à nossa fraqueza, e serve-se das coisas visíveis, para nos levar à virtude.

2 - Seu modo de ação.

a) A graça atual influi sobre nós, de modo juntamente moral e físico: moralmente, pela persuasão e pelos atrativos, à maneira da mãe que, para ajudar o filho a andar, suavemente o chama e atrai, prometendo-lhe uma recompensa; fisicamente, acrescentando forças novas às nossas faculdades demasiado fracas para operar por si mesmas; tal a mãe que toma o filho nos braços e o ajuda não somente com a voz, senão também como gesto, a dar alguns passos para a frente.

b) Sob outro aspecto, a graça previne o nosso livre consentimento ou acompanha-o na realização do ato. Assim, por exemplo, vem-me o pensamento de fazer um ato de amor de Deus, sem que eu tenha feito alguma para o suscitar: é uma graça preveniente, um bom pensamento que Deus me dá; se a recebo bem e me esforço por produzir esse amor, faço-o com o auxílio da graça adjuvante ou concomitante. Análoga a esta distinção é a graça operante, pela qual Deus atua em nós sem nós, e a da graça cooperante, pela qual Deus atua em nós e conosco, com a nossa livre cooperação.

3 - Sua necessidade

O princípio geral é que a graça atual é necessária para todo o ato sobrenatural, pois que deve haver proporção entre o efeito e o seu princípio. Assim, quando se trata da conversão, isto é, da passagem do pecado mortal ao estado de graça, temos necessidade duma graça sobrenatural, para fazer os atos preparatórios de fé, esperança, penitência e amor, e até mesmo para o começo da fé, para aquele pio desejo de crer que é o seu primeiro passo. É também pela graça atual que perseveramos no bem no decurso vida e até à hora da morte.

É que, na verdade, para isso:

I) é mister resistir às tentações que acometem até as almas justas e que são tão violentas e pertinazes que as não podemos vencer sem o auxílio de Deus. E assim Nosso Senhor recomenda a seus Apóstolos, até mesmo depois da última Ceia, que vigiem e orem, isto é, que se apoiem não somente nos seus próprios esforços, mas sobretudo na graça para não sucumbirem à tentação

Além disso, porém, é necessário cumprir todos os deveres; e o esforço enérgico, constante, que este cumprimento requer, não se pode sem o auxílio da graça: Aquele que em nós começou a obra da perfeição, é o único que a pode levar a bom termo «o Deus de toda a graça, que nos chamou em Jesus Cristo à sua eterna glória, depois de haverdes padecido um pouco, Ele mesmo nos aperfeiçoará, fortificará e consolidará»( IPe 5,10)

Isto é sobretudo verdade, tratando-se da perseverança final que é um dom especial e um grande dom: morrer em estado de graça, a despeito de todas as tentações que nos vêm assaltar no último momento ou escapar a essas lutas por meio de morte súbita ou suave, em que a alma adormece no Senhor, é, na expressão dos Concílios, a graça das graças, que não se poderá nunca pedir demasiadamente, que não se pode merecer estritamente, mas que se pode obter pela oração e fiel cooperação com a graça, suppliciter emereri potest.

E quem deseja não somente perseverar, senão crescer cada dia em santidade, evitar os pecados veniais de propósito deliberado e diminuir o número de faltas de fragilidade, não tem ainda que implorar instantemente os favores divinos? Pretender que podemos viver muito tempo sem cometer qualquer falta que retarde o nosso adiantamento espiritual, é ir contra a experiência das melhores almas que exprobram tão amargamente as próprias culpas, é contradizer a São João, que nos declara que se iludem grandemente aqueles que se imaginam sem pecado. « S: dixerimus quoniam peccatum non habemus, ipsi nos seducimus, et verj tas non est in nobis" ; é contradizer o Concílio de Trento, que condena aqueles que afirmam que o homem justificado pode, durante toda a sua vida, evitar as faltas veniais sem um privilégio especial de Deus .

A graça atual é-nos, pois necessária, ainda mesmo depois da justificação, e eis o motivo por que os nossos Livros Santos insistem tanto sobre a necessidade da oração, pela qual se obtém essa graça da misericórdia divina. Também a podemos obter pelos nossos atos meritórios, ou, por outros termos, pela nossa livre cooperação com a graça; é que, na verdade, quanto mais fiéis nos mostrarmos em aproveitar as graças atuais que nos são distribuídas tanto mais inclinado se sente Deus a nos conceder novas mercês.

Conclusões

Devemos, pois, ter a maior estima da vida da graça; é uma nova vida que nos une e assemelha a Deus, com todo o organismo necessário à sua atividade. E é uma vida muito mais perfeita que a natural. Se a vida intelectual está muito acima da vida vegetativa e sensitiva, a vida cristã transcende infinitamente a vida simplesmente natural. E na verdade, esta é devida ao homem, desde que Deus se resolve a cria-lo, ao passo que a vida da graça supera todas as atividades e merecimentos das mais perfeitas criaturas. Pois, quem poderia reclamar o direito de ser constituído filho adotivo de Deus, e templo do Espírito Santo, ou o privilégio de ver a Deus face a face, como Ele se vê a Si mesmo?

Devemos, pois, estimar esta vida mais que todos os bens criados e considerá-la como o tesouro escondido, para cuja aquisição ninguém deve hesitar em vender tudo o que possui. Uma vez que se entrou na posse deste tesouro, é mister sacrificar tudo, antes que expor-se a perdê-lo. É a conclusão que tira o Papa São Leão: «Agnosce, o christiane, dignitatem tuam, et, divinae connatura e, noli in veterem vilitatem degeneri conversatione redire"

Ninguém mais que o cristão se deve respeitar a si mesmo, não certamente por causa dos próprios méritos, senão por causa desta vida divina de que participa, e por ser templo do Espírito Santo, templo sagrado cuja beleza não é licito contaminar: «Domum tuam decet sanctitudo in longitudinem dierum»

Mais ainda: devemos evidentemente utilizar, cultivar este organismo sobrenatural de que somos dotados. Se aprouve à divina Bondade nos elevar-nos a um estado superior, conceder-nos profusamente virtudes e dons que aperfeiçoam as nossas faculdades naturais, se nos oferece a cada instante a sua colaboração, para as fazermos render, seria mostrar-nos bem pouco reconhecidos à sua liberalidade rejeitar esses dons, não praticando senão atos naturalmente bons, ou não fazendo produzir mais que frutos imperfeitos à vinha da nossa alma. Quanto mais generoso se mostrou o doador, tanto mais ativa e fecunda deve ser a a colaboração que de nós espera. Isto nos aparecerá mais claramente ainda, depois de estudarmos a parte de Jesus na vida cristã.(Portanto, este será nosso próximo assunto)

Uma vida é pouco para louvarmos a Deus!

1 - A Vida da Graça - Um tesouro a adquirir
2 - Queda e Castigo
3 - Redenção
4 - Natureza da Graça
5 - Do Organismo da Vida Cristã
6 - União entre a alma e Deus
7 - Das Virtudes e dos Dons

sexta-feira, 15 de julho de 2011

São Boaventura - Bispo e doutor da Igreja



São Boaventura foi bispo e reconhecido doutor da Igreja do Cristo que chamou pescadores, camponeses para segui-lo no carisma de Francisco de Assis, mas também homens cultos e de ciência. São Boaventura era um destes homens de muita ciência, porém de maior humildade e conhecimento de Deus, por isto registrou o que vivia.

Oração escrita por São Boaventura:

"Trespassai, dulcíssimo Senhor Jesus, a medula de minha alma com o suave e salutar dardo do vosso amor, com a verdadeira, pura e santíssima caridade apostólica, a fim de que minha alma desfaleça e se desfaça sempre só com o amor e o desejo de vos possuir; que por Vós suspire, e desfaleça por achar-se nos átrios da vossa casa; deseje separar-se do corpo para unir-se a Vós.
Fazei que minha alma tenha fome de Vós, Pão dos anjos, Alimento das almas santas, Pão nosso de cada dia, cheio de força, de toda doçura e sabor, e de todo suava deleite.
Ó Jesus, a quem os anjos desejam contemplar, tenha sempre o meu coração fome de Vós, e o interior de minha alma transborde com a doçura do Vosso sabor, tenha sempre sede de Vós, fonte de vida, manancial de sabedoria e de ciência, rio de luz eterna, torrente de delícias, abundância da casa de Deus.
Que Vos deseje, Vos procure, e Vos encontre; que para Vós caminhe e a Vós chegue;
que em Vós pense, de Vós fale, e todas as minhas ações encaminhe para honra e glória do Vosso nome, com humildade e discrição, com amor e deleite, com facilidade e afeto, com perseverança até o fim; para que só Vós sejais sempre minha esperança, meu gozo, meu descanso e minha tranquilidade, minha paz, minha suavidade, meu perfume, minha doçura, minha comida, meu alimento, meu refúgio, meu auxílio, minha sabedoria, minha herança, minha posse, meu tesouro, no qual estejam sempre fixos e firme e inabalavelmente arraigados a minha alma e meu coração."
Amém.

São Boaventura - Rogai por Nós!

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Chesterton



"Assim, as acusações seculares, embora, lancem somente a confusão e a escuridão sobre si próprios, lançam uma verdadeira luz sobre a Fé.

É verdade que a Igreja histórica defendeu simultaneamente o celibato e a família; defendeu, ao mesmo tempo e violentamente, ter filhos e não te-los. E conservou ambas as coisas lado a lado, como duas cores fortes - vermelho e branco -, como o vermelho e o branco sobre o escudo de São Jorge. A Igreja sempre sentiu uma sã antipatia pela cor rosa. Ela odeia essa combinação de duas cores, que não passa de um débil expediente dos filósofos; odeia a evolução do preto para o branco, evolução essa que não é senão um cinzento sujo. De fato, toda a teoria da Igreja a respeito da virgindade podia ser simbolizada pela afirmação de que o branco é uma cor e não simplesmente uma ausência de cor.

O mesmo ocorre, sem dúvida alguma, com as contraditórias acusações dos anticristãos sobre a submissão e a carnificina. É verdade que a Igreja disse a uns homens que lutassem e disse a outros que não lutassem; é verdade que aqueles que lutavam eram como raios e os que não lutavam eram como estátuas. Tudo isso significa, simplesmente, que a Igreja preferia usar seus super-homens a usar os seus tolstoianos. Devia existir algum bem na vida das batalhas, pois tantos homens-bons sentiram prazer em ser soldados; assim como devia haver algum bem na ideia da não-resistência, pois tantos homens bons pareciam sentir prazer em ser Quackers. Tudo o que a Igreja fez a este respeito foi evitar que uma dessas coisas boas tomasse o lugar da outra, pois elas existiam lado a lado. Os tosltoianos, sentido todos os escrúpulos de monges, tornaram-se simplesmente monges. Os Quackers tornaram-se um clube, em vez de se tornarem uma seita. Os monges disseram tudo o que Tolstoi diz; exteriorizaram lúcidas lamentações acerca da crueldade das batalhas e da vaidade da vingança. Mas os tolstoianos não são suficientemente justos para percorrerem o Mundo, e nos tempos de fé não lhes foi permitido percorre-lo.

O mundo não perdeu a última carga de Sir James Douglas (general inglês que combateu toda a vida na França) ou a bandeira de Joana D'Arc. Algumas vezes esta pura mansidão e esta pura violência encontraram-se, e justificaram a sua união; o paradoxo de todos os profetas foi cumprido e, na alma de São Luis (Luis XV, rei da França que combateu nas 7ª e 8ª Cruzadas) - o leão está deitado ao lado do cordeiro. Lembremo-nos, porém, de que este texto é, por vezes, interpretado muito superficialmente. Afirma-se, constantemente, em especial devido nossas tendências tolstoianas, que, quando o leão jaz ao lado de cordeiro, o leão acaba por se tornar como o cordeiro. Isso, porém, é uma brutal anexação e imperialismo por parte do cordeiro. Significa, simplesmente, que o cordeiro absorveu o leão, em vez de o leão comer o cordeiro.

O problema real é este: pode o leão jazer ao lado do cordeiro e, no entanto, conservar a sua ferocidade real? Esse foi o problema que a Igreja procurou resolver e tal foi o milagre que ela realizou."

Fonte: Ortodoxia - pags 130-131 -LTR

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Sâo Camilo de Lellis - Patrono dos Enfermos


Dia 14 de julho - dia de São Camilo de Lellis. Homem que não poupou a vida pelos irmãos que sofrem, por amor à Jesus Cristo, seu Senhor e Deus - Por isso é santo e pode interceder por nós.

Oração a São Camilo de Léllis:

Onipotente e bondoso Deus, que sois a salvação eterna de todos os que creem em Vós, escutai as orações que Vos dirigimos por (nome), Vosso servo. Afastai dele(a) tudo quanto o(a) aflige e fazei, em Vossa misericórdia, que todos os remédios aplicados ao seu mal lhe sejam salutares. Em Vós, colocamos toda a nossa confiança e de Vós tudo esperamos. Ouvi, Senhor, nossas preces e as de (nome), para que alegres possamos com ele(a) prestar-Vos a homenagem do nosso reconhecimento. Amém.

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