segunda-feira, 25 de julho de 2011

A Vida da Graça - Da Parte de Jesus na Vida Cristã



A Vida Espiritual - Explicada e Comentada - de Adolfh Tanquerey

É toda a Santíssima Trindade que nos confere esta participação da vida divina. Mas a Santíssima Trindade fá-lo por causa dos méritos e satisfações de Jesus Cristo que, por este motivo, desempenha um papel tão essencial em nossa vida sobrenatural que esta se chama com razão "vida cristã". Conforme a doutrina de São Paulo, Jesus Cristo é cabeça da humanidade regenerada, como Adão o tinha sido da raça humana em seu berço, mas de modo muito mais perfeito.

Pelos seus méritos, Jesus reconquistou os nossos direitos à graça e à glória; pelos seus exemplos, mostra-nos como devemos viver, para nos santificarmos e merecermos o céu; mas é, antes de tudo, a cabeça dum corpo místico de que nós somos os membros: é, pois, a causa meritória, exemplar e vital da nossa santificação.

1 - Jesus causa meritória da nossa vida espiritual

Quando dizemos que Jesus é causa meritória da nossa santificação, tomamos esta palavra no seu sentido mais lato, enquanto compreende a um tempo a satisfação e o mérito: «Propter nimiam caritatem qua diJexit nos, sua sanctissima passione in ligno crucis nobis iustificationem meruit et pro nobis satisfecit» Logicamente a satisfação precede o mérito, neste sentido que é mister reparar primeiro a ofensa feita a Deus, para obter o perdão dos nossos pecados e merecer a graça; mas em realidade todos os atos livres de Nosso Senhor eram ao mesmo tempo satisfatórios e meritórios; e todos tinham valor moral infinito. Não nos resta senão tirar desta verdade algumas conclusões.

A) Não há pecado irremessível, contanto que, contritos e humilhados, dele peçamos confiadamente perdão. É o que fazemos no santo tribunal da Penitência, onde a virtude do sangue de Jesus Cristo nos é aplicada por intermédio do ministro de Deus. É o que fazemos ainda no Santo Sacrifício da Missa, onde Jesus continua a oferecer-se, pelas mãos do sacerdote, como vítima de propiciação, excitando em nossa alma sentimentos profundos de contrição, tornando-nos a Deus propício, obtendo-nos perdão cada vez mais completo dos nossos pecados, e remissão mais abundante da pena que deveríamos sofrer para os expiar. Podemos acreditar que todos os nossos atos cristãos, unidos aos sofrimentos de Jesus, têm valor satisfatório para nós e para as almas por quem os oferecemos.

B) Jesus mereceu também para nós todas as graças de que necessitamos, para atingirmos o nosso fim sobrenatural e cultivarmos em nós a vida cristã: "Bendito seja Deus que nos abençoou-nos em Cristo com toda a sorte de bençãos espirituais»: graças de conversão, graças de perseverança, graça para resistir às tentações, graças para bem nos aproveitarmos das provações, graças de consolação no meio dos trabalhos, graças de renovação espiritual, graças de segunda conversão, graça de perseverança final; tudo isso nos mereceu Jesus Cristo; e afirma-nos que tudo quanto pedirmos a seu Pai em seu nome, isto é, apoiando-nos em seus merecimentos, nos será concedido. Para nos inspirar mais confiança, instituiu os Sacramentos, sinais visíveis que nos conferem a graça em todas as circunstâncias importantes da nossa vida - dão direito a graças atuais que obtemos em tempo oportuno.

C) Fez mais ainda: deu-nos o poder de satisfazer e merecer, querendo assim associar-nos a Si mesmo, como causas secundárias, e fazer-nos obreiros da nossa própria santificação. Dá-nos até sobre isso preceito, condição essencial da nossa vida espiritual. Se carregou sua Cruz, foi para que nós O seguíssemos, levando a nossa: «Si quis vult post me venire, abneget semetipsum, tollat cru cem suam, et sequatur me". Assim o compreenderam os Apóstolos: «Se queremos ter parte na sua glória, diz São Paulo, é mister que tenhamos parte nos seus sofrimentos, si tamen compatimur, ut et conglorificemur»;(Rm 8,13) e São Pedro acrescenta que, "se Cristo sofreu por nós, foi para que nós lhe seguíssemos as pisadas" (IPed2,21)

Há mais: as almas generosas sentem-se impelidas, como São Paulo a sofrer alegremente, em união com Cristo, pelo seu corpo místico que é a Igreja; e assim têm parte na eficácia redentora da sua Paixão e colaboram secundariamente na salvação de seus irmãos.

Como esta doutrina é mais verdadeira, mais nobre, mais consoladora do que a inacreditável afirmação de certos protestantes que têm a triste coragem de asseverar que, havendo Cristo padecido suficientemente por nós, não senão que gozar dos frutos da sua redenção, sem beber o seu cálice! Com isso pretendem render homenagem à plenitude dos merecimentos de Cristo, quando realmente esta faculdade de merecer não faz senão dar maior realce à plenitude da redenção. E na verdade, não será mais honroso para Cristo manifestar a fecundidade das suas satisfações, associando-nos à sua obra redentora e tornando-nos capazes de nela colaborar, posto que secundariamente, imitando os seus exemplos?

2 - Jesus causa exemplar da nossa vida

Jesus Cristo não se contentou de merecer por nós; quis ser causa exemplar, modelo vivo da nossa vida sobrenatural. Grande era a necessidade que tínhamos dum modelo deste gênero; porquanto, para cultivar uma vida, que é participação da própria vida de Deus, é mister aproximar-nos, o mais possível, da vida divina. Ora, como bem observa Santo Agostinho, "os homens que tínhamos diante dos olhos, eram demasiadamente imperfeitos para nos servirem de modelos, e Deus, que é a mesma santidade, parecia muito distante. Foi então que o Filho eterno de Deus, sua viva imagem, se fez homem, para nos mostrar, pelos seus exemplos, como é possível na terra aproximar-nos da perfeição divina. Filho de Deus e filho do homem, viveu uma vida verdadeiramente deiforrne, e pôde-nos dizer: «Qui videt me, videt et Patrem» I, quem me vê, vê o meu Pai. Tendo manifestado nas suas ações a santidade divina, pôde-nos propor como possível a imitação das divinas perfeições: «Estote ergo vos perfecti sicut et Pater vester caelestis perfectus est»

É por isso que o Pai no-lo propõe como modelo: no batismo e na transfiguração, aparece aos discípulos e diz-lhes, falando de seu Filho: «Hic est Filius meus dilectus in quo mihi bene complacui, eis aqui o meu Filho muito amado em quem tenho todas as minhas complacências». Se tem nele todas as suas complacências, é sinal que deseja que O imitemos. E assim, Nosso Senhor nos diz com toda a confiança; «Ego sum via ... nemo venit ad Patrem nisi per me ... Discite a me, quia mitis sum et humilis corde ... Exemplum enim dedi vobis, ut quemadmodum ego feci vobis, ita et vos faciatis» E que outra coisa é, em substância, o Evangelho senão a narração dos feitos e maravilhas de Nosso Senhor, enquanto são propostos à nossa intimidação «coepit facere et docere?"

Que é o Cristianismo senão a imitação de Jesus Cristo? Tanto assim que São Paulo resumirá todos os deveres cristãos no de imitar a Nosso Senhor: «Imitatores mei estote sicut et ego Christi»

a) Jesus é modelo perfeito Até mesmo por confissão daqueles que não crêem na sua divindade, Jesus é o protótipo mais acabado de virtude que jamais apareceu na terra. Praticou as virtudes em grau heróico, e com as disposições interiores mais perfeitas: religião para com Deus, amor do próximo, aniquilamento a respeito de si mesmo, horror ao pecado e do que a ele pode conduzir, e contudo é modelo imitável e universal, cheio de encanto, cujos exemplos são cheios de eficácia.

b) É modelo que todos podem imitar, pois se dignou desposar as misérias e fraquezas, passar até pela tentação, ser-nos semelhante em exceto o pecado. «Non enim habemus Pontificem qui non possit compati infirmitatibus nostris; tentatum autem per omnia pro similitudine absque peccato". Durante trinta anos, viveu a vida mais oculta, mais obscura, mais comum, obedecendo a Maria e a José, trabalhando como um aprendiz e operário, - "fabri fillius» ; e por esse modo veio a ser o modelo mais acabado da maior dos homens que não têm senão deveres obscuros que desempenhar, e se hão de santificar no meio das ocupações mais comuns.

Mas teve também a sua vida pública: praticou o apostolado, quer por meio dum escol, formando os Apóstolos, quer entre o povo, evangelizando as multidões. Então sofreu cansaço e fome; gozou da amizade de alguns e houve de suportar a ingratidão dos outros; teve os seus triunfos e os seus reveses; numa palavra, passou pelas vicissitudes de todo o homem que tem relações com amigos e com o público.

A Paixão deu-nos o exemplo da paciência mais heróica no meio das torturas e morais, que tolerou não somente sem se queixar, mas pedindo até por seus verdugos. E não se diga que, sendo Deus, sofreu menos. Era homem também: dotado de finíssima sensibilidade, sentiu mais vivamente que nós poderiamos sentir a ingratidão dos homens, o desamparo de seus amigos, a traição de Judas: experimentou tais sentimentos de tédio, de tristeza, de pavor que não deixar de orar para o cálix de amargura se afastasse dele, se era possível; e na Cruz, soltou este grito lancinante, que bem mostra a profundeza das suas agonias: «Deus meus, Deus meus, ut qui dereliquisti me?» Foi, pois, um modelo universal.

c) E mostra-se também cheio de encanto. - Havia anunciado que, tanto que fosse elevado da terra (fazendo alusão ao suplício da Cruz), atrairia tudo a Si. Esta profecia realizou-se ao verem o que Jesus fez e sofreu por eles, os corações generosos apaixonaram-se de amor para como divino Crucificado, e, conseqüentemente, para com a cruz; a despeito das repugnâncias da natureza, levam esforçadamente as suas cruzes interiores e exteriores, quer para mais se parecerem com o seu divino Mestre, quer para lhe testemunharem o seu amor, sofrendo com Ele e por Ele, quer para terem parte mais abundante nos frutos da redenção e colaborarem com Ele na santificação de seus irmãos. É o que aparece na vida dos Santos, que correm com mais sofreguidão atrás das cruzes que os mundanos atrás dos prazeres.

d) Este poder de atração é tanto mais forte quanto mais eficaz é a graça: como todas as ações de Jesus, antes de sua morte, eram meritórias, mereceu-nos a graça de as praticar semelhantes; quando consideramos a sua humildade, pobreza, mortificação e demais virtudes, sentimo-nos arrastados a imitá-lo não somente pela força persuasiva dos seus exemplos, mas ainda pela eficácia das graças que Ele nos mereceu, praticando as virtudes e nos concede nesta ocasião.

Há sobretudo certas ações de Nosso Senhor, às quais, por mais importantes, nos devemos unir de modo especial, visto conterem graças mais abundantes: são os seus mistérios. Assim, por exemplo, o mistério da Encarnação mereceu-nos uma graça de renúncia a nós mesmos e de união com Deus, visto que Nosso Senhor nos ofereceu consigo, para nos consagrar todos a seu Pai; o mistério da Crucifixão mereceu-nos a graça de crucificar a carne e as suas concuspicências; o mistério da Morte mereceu-nos o morrer ao pecado e as suas causas, etc.

Isto melhor o compreenderemos, vendo como Jesus é a cabeça do corpo místico de que somos membros

Jesus cabeça dum corpo místico ou fonte de vida

Esta doutrina encontra-se já substancialmente na palavra de Nosso Senhor: «Ego sum vi tis, vos palmites. Eu sou a videira, vós os sarmentos». Jesus afirma, efetivamente, que nós recebemos dele a nossa vida, como as varas a recebem da cepa a que estão unidas. Esta comparação faz, pois, sobressair a comunidade de vida que existe entre Nosso Senhor e nós; daqui é fácil passar à concepção do corpo místico em que Jesus, como cabeça, faz passar a vida aos seus membros. É São Paulo que insiste mais sobre esta doutrina tão fecunda em resultados

Num corpo requer-se uma cabeça, uma alma, e membros - São estes os elementos que vamos descrever, seguindo a doutrina do Apóstolo:

A cabeça desempenha no corpo humano uma tríplice função: função de preeminência, visto ser nele a parte principalíssima; função de centro de unidade, pois que liga harmonicamente e dirige todos os membros; função de influxo vital, já que é dela que parte o movimento e a vida. Ora, é precisamente esta tríplice função que Jesus exerce na Igreja e sobre as almas.

a) Tem, sem dúvida alguma, a preeminência sobre todos os homens. Ele que, como Homem-Deus, é o primogênito de toda a criatura, o objeto das complacências divinas, o modelo acabado de todas as virtudes, a causa meritória da nossa santificação, Ele que por causa dos seus méritos, foi exaltado acima de toda a criatura e diante do seu trono vê dobrar-se todos no céu, na terra e nos infernos.

b) Na Igreja, é Ele o centro de unidade. Duas coisas são essenciais no organismo perfeito: a variedade dos órgãos e das funções que desempenham, e a sua unidade num princípio comum: sem este duplo elemento não haveria senão uma massa inerte ou um agregado de seres vivos sem nexo orgânico. Ora, é ainda Jesus que, depois de ter estabelecido na Igreja a variedade dos órgâos pela instituição duma hierarquia, sendo o centro de unidade, pois que é Ele, o chefe invisível mas real, imprime aos chefes hierárquicos a direção e o movimento.

c) É Ele ainda o princípio do influxo vital que anima e vivifica todos os membros. Até mesmo como homem recebe a plenitude da graça, para no-lo comunicar: «Vidimus eum plenum gratiae et veritatis ... de cuius plenitudine nos omnes a ccepimus, et gratiam pro gratia». Pois não é causa meritória de todas as graças que recebemos, e que nos são distribuídas pelo Espírito Santo? É por isso que o Concílio de Trento afirma, sem hesitar, esta ação, este influxo vital de Jesus sobre os justos.

A qualquer corpo é indispensável não somente uma cabeça, também uma alma. Ora, é o Espírito Santo (isto é, a Santíssima Trindade designada por este nome) que é a alma do corpo místico de que Jesus é a cabeça; é Ele, efetivamente, que difunde nas almas a caridade e a graça merecidas por Nosso Senhor. Eis o motivo por que Ele é chamado Espírito que vivifica: «Credo in Spiritum ... VÍvificantem». Eis a razão por que Santo Agostinho nos diz que o Espírito Santo é para o corpo da Igreja o que a alma é para o corpo natural: «Quod est in corpore nostro anima, id est Spiritus Sanctus in corpore Christi quod est EccJesia» Esta expressão foi, aliás, consagrada por Leão XIII na sua Encíclica sobre o Espírito Santo . É ainda este divino Espírito que distribui os diversos carismas: a uns o discurso de sabedoria ou a graça da pregação, a outros o dom dos milagres, a estes o dom da profecia, àqueles o dom das línguas, etc.: «Haec autem omnia operatur unus atque idem Spiritus, dividens singulis prout vult»

Esta dupla ação de Cristo e do Espírito Santo, longe de se embaraçar mutuamente, completa-se. O Espírito Santo vem-nos por Jesus Cristo. Quando Jesus vivia na terra, possuía em sua alma santa a plenitude do Espírito; pelas suas ações e sobretudo pelos seus sofrimentos e pela sua morte mereceu que este Espírito nos fosse comunicado; é, pois, graças a Ele, que o Espírito Santo nos vem comunicar a vida e as virtudes de Cristo, e nos toma semelhantes a Ele.

Assim, tudo se explica: Jesus, sendo homem, é o único que pode ser a cabeça dum corpo místico composto de homens, já que a cabeça e os membros devem ser da mesma natureza; mas, como homem, não pode por si mesmo conferir a graça necessária à vida dos seus membros; o Espírito Santo supre-o, desempenhando essa função; mas, como o faz em virtude dos merecimentos do Salvador, pode-se dizer que o influxo vital parte verdadeiramente de Jesus para chegar aos seus membros.

Quais são os membros deste corpo místico? Todos os batizados.

É, efetivamente, pelo batismo que somos incorporados em Cristo, diz São Paulo: «Etenim in uno Spiritu omnes nos in unum corpus baptizati sumus». Eis o motivo por que ele ajunta que fomos batizados em Cristo, que pelo batismo nos revestimos de Cristo, isto é, participamos das disposições interiores de Cristo: o que o Decreto aos Armênios explica, dizendo que pelo batismo nos tornamos membros de Cristo e do corpo da Igreja: «per ipsum (baptismum) enim membra Christi ac de corpore efficimur EccJesiae» .

Daqui resulta que todos os batizados são membros de Cristo, mas em graus diversos: os justos estão-lhe unidos pela graça habitual e por todos os privilégios que a acompanham; os pecadores, pela fé e esperança; os bem-aventurados, pela visão beatífica. - Quanto aos infiéis, não são atualmente membros de seu Corpo místico; mas, enquanto estão na terra, são chamados a sê-lo; só os condenados estão para sempre excluídos deste privilégio.

Conseqüências deste dogma.

A) É sobre esta incorporação Cristo que se baseia a comunicação dos Santos: os justos da terra, as do Purgatório e os Santos do Céu fazem todos parte do corpo místico de Jesus, todos participam da sua vida, recebem a sua influência e devem amar-se e auxiliar-se mutuamente como membros dum mesmo corpo ; porquanto, diz-no-Io São Paulo, se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele, e se um membro é glorificado, todos se regozijam com ele: «Si quid patitur unum membrum, compatiuntur omnia membra; sive gloriatur unum membrum, congaudent omnia membra"

B) É por isso que todos os cristão são irmãos; doravante não há mais nem Judeu, nem Grego, nem homem livre nem escravo; somos todos em Cristo Jesus. Somos, pois, todos solidários, e o que é útil a um é aos outros, porquanto, seja qual for a diversidade dos dons e dos ofícios, o corpo todo aproveita do que há de bom em cada um dos membros, do mesmo modo que cada membro aproveita, por seu turno, dos bens do corpo. É ainda esta doutrina que explica o motivo por que Nosso Senhor dizer: o que fazeis ao menor dos meus, é a mim que o fazeis.

C) Daqui resulta que, segundo a doutrina de São Paulo, os cristãos são o complemento de Cristo: Deus, com efeito, deu-o por cabeça suprema à Igreja, que é seu corpo, a plenitude daquele que enche em todos. E na verdade, Jesus, perfeito em si mesmo, necessita dum complemento para formar o seu corpo místico: sob este aspecto não se basta a si mesmo, precisa de membros, para exercer todas as funções vitais.

E M. Oliver conclui «Emprestemos as nossas almas ao Espírito de Jesus Cristo, para que Ele cresça em nós. Se Ele encontra sujeitos dispostos, dilata-se, aumenta, difunde-se nos seus corações, e embalsama-os da unção espiritual de que Ele mesmo está embalsamado». - É assim que podemos e devemos completar a Paixão do Salvador Jesus, sofrendo como Ele sofreu, a fim de que esta Paixão, tão completa em si mesma, se complete ainda nos seus membros através do tempo e do espaço: Como se vê, pois, não há nada mais fecundo que esta doutrina sobre o Corpo místico de Jesus.

Conclusão: Devoção ao Verbo Encarnado

De tudo o que levamos dito sobre o papel de Jesus na vida espiritual, resulta que, para cultivar esta vida, devemos viver em união íntima, afetuosa, e habitual com Ele, por outros termos, praticar a devoção ao Verbo Encarnado: «Qui Manet in me et ego in eo, hic fert fructum multum; Aquele que permanece em mim e Eu nele, produz frutos abundantes»

É o que nos inculca a Santa Igreja, recordando-nos, ao fim do Cânone da Missa, que é por Ele que recebemos todos os bens espirituais, por Ele que somos vivificados e abençoados, por Ele, com Ele e n'Ele que devemos render toda a honra e glória a Deus Pai Todo-Poderoso, na unidade do Espírito Santo. É um programa completo de vida espiritual: tendo recebido tudo de Deus por Jesus Cristo, é por Ele que devemos glorificar a Deus, por Ele que devemos pedir novas graças, com Ele e n'Ele que devemos praticar todas as nossas ações.

Sendo Jesus o perfeito adorador de seu Pai, ou, como diz M. Olier, o religioso de Deus, o único que lhe pode oferecer homenagens infinitas, é evidente que, para tributarmos o devido culto à Santíssima Trindade, não podemos fazer nada melhor que unir-nos estreitamente a Ele, cada vez que queremos cumprir os nossos deveres de religião. O que é tanto mais fácil, quanto Jesus, sendo como é a cabeça dum corpo místico de que nós somos os membros, adora a seu Pai não somente em seu nome, mas em nome de todos aqueles que são incorporados nele, e põe à nossa disposição as homenagens que presta a Deus, permitindo-nos que nos apropriemos delas, para as oferecermos à Santíssima Trindade.

É igualmente com Ele e por Ele que mais eficazmente podemos pedir novas graças; porquanto Jesus, Sumo Sacerdote, não cessa de interceder por nós, «semper vivens ad interpellandum pro nobis» Até mesmo quando tivemos a infelicidade de ofender a Deus, Ele advoga nossa causa com tanto mais eloqüência quanto é certo que oferece ao mesmo tempo o seu sangue derramado por nós. Além disso, dá às nossas orações um valor tal que, se pedirmos em seu nome, isto é, apoiados nos seus merecimentos infinitos, temos a certeza de ser atendidos: «Amen, amen, dico bis, si quid petieritis Patrem in nomine meo, dabit vobis» O valor - seus méritos é, efetivamente, comunicado aos seus membros, e Deus pode recusar nada a seu Filho: «exauditus est pro sua reverentia"

Enfim, é em união com Ele que devemos praticar todas as nossas ações, tendo habitualmente, segundo uma bela expressão de M. Olie, Jesus diante dos olhos, no coração e nas mãos: - diante dos olhos, isto é, considerando-o como o modelo que devemos imitar, e perguntando-nos, como São Vicente de Paulo: Que faria Jesus, se estivesse em meu lugar? - no coração, atraindo a nós as suas disposições interiores, a sua pureza de intenção, o seu fervor, para praticarmos as nossas ações com seu espírito; - nas mãos, executando com generosidade, energia e constância as boas inspirações que Ele nos sugeriu.

Então será transformada a nossa vida, e viveremos da vida de Cristo:" Eu vivo, mas já não sou que e vivo, porque é Jesus que vive em mim» Glórias a Deus!!

(Depois veremos: Da Parte da Santissima Virgem na vida Cristã)

1 - A Vida da Graça - Um tesouro a adquirir
2 - Queda e Castigo
3 - Redenção
4 - Natureza da Graça
5 - Do Organismo da Vida Cristã
6 - União entre a alma e Deus
7 - Das Virtudes e dos Dons
8 - Da Graça Atual

sábado, 23 de julho de 2011

A Graça sobrepuja os Milagres



Por: M. J. Scheeben

"Não bastaria afirmar que a graça supera as coisas naturais, excede ela também aos milagres operados por Deus. Sabemos manifestar-se a graça divina de preferência nas obras de sua misericórdia. Onde mais se evidencia esta misericórdia é ao conferir Deus sua graça ao homem.

Vejamos como interpreta Santo Agostinho esta notável promessa do Salvador: "Os que nele creem farão coisas maiores do que aquelas que Ele próprio realizou na terra" Como exemplo disto — fala ele — poderia servir o caso de S. Pedro que, com sua sombra, curava os enfermos, coisa esta que não se lê de Nosso Senhor". Esta verdade brilha, porém, com maior clareza ainda, na obra da justificação, em que devem os fieis cooperar pessoalmente, tanto no que a eles se refere, como ao próximo, cada qual a seu modo. É certo não sermos nós que produzimos a graça, mas não é menos certo também que, com o auxílio de Deus, podemos nos preparar a recebe-la, fazendo-nos dignos dela, infundindo animo aos outros; podemos, numa palavra, operar coisas maiores que os milagres de Cristo.

Tanto para Deus como para os homens, a graça é mais gloriosa que os milagres. Pelo milagre, operado ordinariamente sobre a matéria, Deus restitui a saúde ou a vida. Pela graça, sua ação termina-se na alma, torna, por assim dizer, a cria-la, eleva-a sobre a própria natureza, deposita nela o germe da vida sobrenatural, reproduz-se nela, imprime-lhe a imagem de sua própria substância.

Não será porventura o mais estupendo milagre da Onipotência divina?

A graça supera a criação do céu e da terra; não se pode compara-la, senão com a eterna geração do próprio Filho de Deus. É ela, por isto, sobrenatural, grande, misteriosa, já que, segundo a frase de S. Leão, "nos faz participantes da geração de Cristo" (Sermo 21, 3. MPL 54,192)

Quando os santos operam milagres, deles se vale Deus como de intermediários, de modo algum intervindo o próprio poder deles. Quando, porém, nos dá a graca, exige Deus de nós uma cooperação mais íntima: quer que, com seu auxílio, nos preparemos a recebe-la; quer que a aceitemos, conservemos e aumentemos.

Dignidade maravilhosa que nos conferiu o Senhor! Uniu-se Ele à nossa alma como o esposo à esposa. Pode nossa alma, pela virtude que recebe, reproduzir em si a imagem divina, converter-se em filha de Deus! Admirável o poder concedido por Deus à sua Igreja, de comunicar, mediante seus ensinamentos e Sacramentos, a graça a seus filhos!

Poderás desejar coisa melhor e colaborar em obra mais bela? Queres realizar coisas grandiosas, que causem admiração, já não digo aos homens mergulhados em sua loucura, mas aos próprios anjos? Queres transformar-te em espetáculo para os anjos e o mundo? Trabalha por adquirir e aumentar a graça em ti e em teu próximo. Se conhecessem os homens a grandeza de sua atitude, quando, por um arrependimento sincero, rompem com o pecado e começam uma nova vida! Aí tendes obra mais grandiosa que ressuscitar um morto, ou tirar um homem do nada.

"Se Deus te fez homem, diz S. Agostinho, e tu,- bem entendido-, com a graça de Deus te fazes justo, realizas uma coisa melhor do que a produzida por Deus"

Se mediante um ato de arrependimento pudesses restituir a vida a teu irmão, serias tão cruel em não querer faze-lo? Por um ato de contrição podes ressuscitar, não já teu corpo, mas tua própria alma, e livra-la da morte eterna. E apesar disto vacilas, recusas o maravilhoso socorro oferecido por Deus!

Ensina-nos São João Crisóstomo que excede em muito ressuscitar uma alma ferida a ressuscitar um corpo morto. Com efeito, a não ser que esteja completamente cego, como pode preferir alguem levar uma vida dissipada, falgazã, a introduzir uma alma na vida eterna e na glória celeste? Se desejamos milagres para a conservação de nossa vida terrena, por que não colaboremos no milagre que restitui a vida da alma?

O arrependimento, embora de maravilhosa eficácia, não é o único meio de obter a graça; todas as boas obras sobrenaturais, realizadas em estado de graça, aumentam-na em nossas almas. Cada grau de graça adquirido coloca-nos muito acima de nossa natureza e nos une mais intimamente a Deus.

Se estivera em nossas mãos operar milagres materiais, ou realizar com toda a facilidade grandiosos trabalhos, por certo tudo faríamos para usar semelhante poder. Ser-nos-ia uma questão de honra não deixar improdutivo este capital. Imitaríamos aos poetas e artistas que se esforçam em produzir, constantemente, obras cada vez mais belas.

Consideremos a eficácia de toda ação para aumentar a graça e merecer a glória eterna; não deixemos passar um só instante sem amar a Deus, sem suplicar-lhe e adora-lo; envergonhemo-nos de dar um suspiro que não seja para Ele. Alegremo-nos com os Apóstolos por termos sofrido ao menos alguma coisa por Deus. Se compreendessemos quanto vale para aumentar nossa dignidade um só ato de virtude, buscaríamos todas as ocasiões propícias para realiza-lo. Ninguém seria tão cruel que recusasse curar um enfermo ou tornar rico um pobre se o pudesse, mediante uma modesta esmola. Não somos nós muito mais crueis para com nossa alma quando, a tão pequeno preço, lhe negamos um aumento da glória celeste?

Impregnemos todas as nossas ações do espírito de fé e de caridade, convencidos de que, com cada uma delas, adquirimos um grau superior de graça, coisa que excede em beleza a toda a natureza, e sobrepuja em grandeza aos próprios milagres.

Já a aquisição da graça é um dos maiores milagres.

Como não nos deixarmos, então, tomar de assombro por semelhante fenômeno? -Primeiramente, por ser ele invisível, e depois porque, diferentemente dos outros milagres que raras vezes e apenas excepcionalmente se dão, a graça se adquire segundo uma lei geral. Entretanto, seus caracteristicos acima lembrados deveriam torna-la-para nós mais preciosa. Não é visível, visto afetar a alma e não ao corpo; não podemos ve-la, como tão pouco vemos Deus, a quem ela nos une. Deixaria Deus de ser infinito, se, pela natureza chegassemos a ve-lo. Do mesmo modo a graça, caso se torne visível, deixaria de ser tao maravilhosa.

É -nos dada a graça segundo uma lei geral. Podemos adquiri-la mediante determinadas ações, manifestando-se melhor assim o amor e o poder de Deus; e esta portentosa obra da graça, não a realiza Deus, como nos milagres, parcamente em casos raros e excepcionais, em determinadas pessoas apenas, mas a faz acompanhar todos os nossos atos; desaparece ela, por assim dizer, na corrente de nossa atividade ordinária.

Senhor! Desprezaremos este dom, porque o ofereces a todos, continuamente e com tanta facilidade? Se a um só homem o concedesses e por uma única vez, como poderia sequer pensar em repeli-lo? Senhor, excite tua generosidade em nós a lembrança de tua bondade. Faze, Senhor que guardemos este dom com todas as nossas forças e honremos tua benevolência.

Fonte: As Maravilhas da Graça divina - Quadrante

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Chesterton


"Por último, e mais importante, é exatamente isto que explica o que é tão inexplicável para todos os críticos modernos da história do Cristianismo. Quero referir-me às monstruosas guerras em torno de pequenas questões de teologia, os arroubos de emoção acerca de um gesto ou de uma palavra. Era questão de apenas uma polegada, mas uma polegada é tudo quando se trata de estabelecer o equilíbrio. A Igreja não podia consentir um ínfimo desvio em algumas coisas, se quisesse continuar a sua grande e ousada experiência de equilíbrio irregular. Consentisse ela, uma vez, que uma idéia se tornasse menos poderosa, e logo outra idéia tornar-se-ia demasiadamente poderosa. Não era um rebanho de carneiros que o pastor cristão estava conduzindo, mas sim uma manada de touros e tigres, de idéias terríveis e doutrinas devastadoras, cada uma delas forte o bastante para retomar a falsa religião e devastar o Mundo.

Lembremo-nos que a Igreja foi, propositadamente, ao encontro de idéias perigosas: foi como um domador de leões. A idéia de um nascimento por obra e graça do Espírito Santo, a idéia da morte de um ser divino, do perdão dos pecados, da realização das profecias, tudo são idéias que – qualquer um pode ver -, não precisam mais do que um leve toque para tranformar em algo de blasfemo e feroz. Os artífices do Mediterrâneo deixaram um elo mais fraco, e logo o leão do pessimismo ancestral arrebentou as suas correntes nas esquecidas florestas do Norte. (Menção ao cisma protestante, iniciado na Alemanha, em face ao relaxamento moral e excessivo mundanismo da Corte Papal na Itália. Martinho Lutero não discerniu entre homens que erravam e a doutrina que era santa e a pregada por Cristo – Para reformar os costumes, funda sua doutrina na corrupção essencial da natureza humana, que retira do homem a liberdade, numa visão extremamente pessimista do homem – e deste cisma, veio a avalanche)

Podemos notar que, se um pequeno erro fosse cometido na doutrina, cometer-se-iam erros enormes e crassos no que diz respeito à felicidade humana. Uma frase mal expressa sobre a natureza do simbolismo teria despedaçado todas as melhores estátuas na Europa. Um deslize numa definição podia fazer parar todas as danças, fazer murchar todas as árvores de Natal ou quebrar todos os ovos de Páscoa. As doutrinas tinham de ser definidas dentro de rigorosos limites, de forma que o homem pudesse gozar as liberdades gerais que lhe eram concedidas.

Este é o impressionante romance da ortodoxia. Os homens habituaram-se, loucamente, a falar da ortodoxia como de alguma coisa pesada, estúpida e segura. Nunca houve coisa tão perigosa ou tão excitante como a ortodoxia. Era a sanidade: e ser são é mais dramático que ser louco. Era o equilíbrio de um homem atrás de cavalos lançados em louca correria, parecendo cair aqui e levanta-se acolá, mas conservando em todas as suas atitudes a graça da escultura e a precisão da aritmética.

A Igreja, nos seus remotos dias, avançou feroz e firme como um cavalo de guerra; no entanto, é absolutamente anti-histórico dizer-se que ela avançava como louca em direção a uma idéia, como acontece com o fanatismo vulgar. Ela sempre soube desviar-se para a direita ou para a esquerda, com o fim único de evitar enormes obstáculos. Por um lado, deixou a enorme massa do arianismo, escorada por todos os poderes do Mundo, para tornar o Cristianismo demasiadamente mundano. No instante seguinte, teve de se desviar novamente para fugir a um orientalismo que teria tornado o Cristianismo deveras dissociado deste mundo. A Igreja com sua ortodoxia nunca seguiu um caminho já aplanado, nem aceitou as convenções; A Igreja com sua ortodoxia nunca foi respeitável. Teria sido fácil, no calvinista do século XVII, ter caído no poço sem fundo da predestinação.

É fácil ser louco; é fácil ser herege. É sempre fácil deixar que cada época tenha a sua cabeça; o difícil é não perder a própria cabeça. É sempre fácil ser um modernista; assim como é fácil ser um snob. Cair em qualquer uma das ciladas explícitas de erro é exagero que um modismo depois de outro e uma seita depois de outra espalharam ao longo da trilha histórica do Cristianismo — isso teria sido de fato simples. É sempre simples cair; há um número infinito de ângulos para levar alguém à queda, e apenas um para mantê-lo de pé. Cair em qualquer um dos modismos, do agnosticismo à Ciência Cristã, teria de fato sido óbvio e sem graça. Mas evitá-los a todos tem sido uma estonteante aventura; e na minha visão a carruagem celestial voa esfuziante atravessando as épocas. Enquanto as monótonas heresias estão esparramadas e prostradas, a furiosa Verdade cambaleia, mas segue de pé"

quarta-feira, 20 de julho de 2011

1.2 A Igreja Católica: Construtora da Civilização - Introdução



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Razão, Ordem e Evolução


Por Padre Léo Trese

Deus existe. Se não existisse, não haveria universo, não existiríamos nem você e nem eu. Se não existisse um Ser eterno e não-causado, que tivesse dado início a tudo, nada jamais teria acontecido.

Deus existe. Se não existisse, não poderíamos explicar nem sequer algo tão simples como o movimento. Nada se move se não for movido por outro. Quer se trate de um cortador de grama, que precisa de impulso dos meus braços; quer de trate dos meus braços, que precisam da ordem do meu cérebro para mover-se; quer se trate de minhas células cerebrais, que respondem a estímulos dados pelos sentidos...; ou ainda dos planetas a descreverem as suas órbitas, ou das estrelas em movimento a altíssimas velocidades pelo espaço: nada do que existe poderia mover-se se não existisse um Ser que, sem ter sido movido por ninguém, tenha dado (por assim dizer) o "pontapé inicial". Se esse Ser não existisse, não poderia sequer haver algo tão simples como o movimento.

Deus existe. Se não existisse, jamais poderíamos explicar o maravilhoso "projeto estrutural", a ordem que existe no Universo. O instinto da abelha, a delicadeza da rosa, a intrincada coordenação dos órgãos num organismo vivo: tudo isso seria inexplicável se não admitíssemos a existência de um Ser infinitamente sábio que o planejou - porque um plano sempre pressupôe um planejador. Quando o ateu, procurando escapar à evidência que o cerca por todos os lados, afirma que tudo, desde as asas da borboleta até a sucessão das estações, é fruto do acaso, tem de renunciar simultaneamente ao uso da razão para faze-lo.

Se puséssemos dez bolas de loteria numeradas de 1 a 10 naquela espécie de gaiola rotativa que usam, as fizéssemos girar e depois as tirássemos uma a uma, sem olhar, a probabilidade de que saíssem na ordem certa - 1,2,3, até 10 -, seria de uma em dez milhões. Pelo menos, é o que dizem os matemáticos, não eu. Ora bem, se partíssemos do princípio de que todo esse sistema tremendamente intricado de células, glândulas e órgãos que constitui um ser vivo é fruto do acaso, nem mesmo o mais sofisticado computador da última geração seria capaz de calcular as probabilidades de estar errada essa suposição....

Esta certo, mas...como fica a evolução? Quer dizer que toda essa impressionante teoria segundo a qual o Universo teria milhões e milhões de anos de idade e teria começado por ser uma enorme massa de gás incandescente (ou um minúsculo ponto de energia pura a temperaturas inimagináveis)? A terra não passaria de um ínfimo fragmento dessa enorme massa, que teria se esfriado ao longo de eras inteiras até se transformar em rocha sólida; na superfície desse planeta, umas reações químicas teriam dado origem à agua e à terra firme, e depois a moléculas orgânicas; na água, essas moléculas orgânicas ter-se-iam combinado, dando origem a uma forma de vida ainda muito simples, uma célula microscópica; dessa forma de vida primitiva, teriam derivado gradativamente todos os seres vivos, passando pelos invertebrados, pelos peixes, répteis, aves e mamíferos, até que a certa altura uma espécie de antropóide, hoje extinta, se teria transformado numa criatura pensante chamada Homo sapiens ou "ser humano"....que dizer de tudo isso?

Para já, comecemos por esclarecer o seguinte: boa parte da teoria da evolução continua ainda hoje a ser simplesmente uma “ teoria”, pois ainda não dispõe de evidências científicas suficientes; e boa parte parece merecer já a categoria de fato comprovado, estabelecido e aceito por inúmeros cientistas de boa reputação, muitos dos quais católicos. Afinal de contas, não há oposição alguma entre ser um bom católico e aceitar a teoria da evolução, desde que esta permaneça restrita aos limites da ciência, sem transbordar para o campo próprio da teologia. Deus é fonte de toda a verdade. E portanto, não pode haver contradição entre a verdade religiosa, retamente compreendida, e uma verdade científica solidamente estabelecida.

Mas um autêntico cientista não tenta responder à pergunta: “ Por que existiu a nuvem de gás primordial, a massa incandescente de átomos ou a energia inicial”? Poderá tentar explicar “como” era esse estado inicial, “como” surgiu a primeira célula viva, mas não pertence ao seu campo de atuação explicar o imenso abismo que separa a existência da não-existência, o animal do ser humano racional. A resposta para esse tipo de perguntas é de competência do filósofo e do teólogo. Quando um cientista procura explicações para esses fatos lançando mão de termos como “acaso”. “fortuita justaposição de átomos exatamente no momento apropriado e nas condições ideais”, está ultrapassando os limites da ciência, mas até do campo da razão...

Quanto a Deus, não há nenhuma razão para que não pudesse ter criado o Universo por meio de um processo evolutivo, se assim lhe pareceu melhor. Isso só nos permitiria admirar ainda mais a sua infinita grandeza. Se começou por criar uma massa informe de matéria, e imprimiu nessa matéria as leis ou potencialidades naturais (como se plantasse nessa massa as sementes das criaturas futuras) que a levariam a desenvolver-se, ao longo de bilhões de anos, de acordo com seu pleno criador, presente desde o início na sua mente divina – não seria por isso menos Criador, sê-lo-ia muito mais.

Fonte: A Sabedoria do Cristão

Veja:
1 - O Cristão e o descrente
2 - As Razões de nossa Esperança
3 - Deus existe? do nada, nada se cria

Depois veremos: Que é o Homem?

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O pão



Este texto é uma adaptação do capítulo sobre as Tentações de Jesus, retirado do Livro: Jesus de Nazaré - Papa Bento XVI

O adaptei porque tenho visto uma minoria de católicos que se enganam profundamente a respeito da verdadeira missão de Jesus, querendo dizer que este não veio para todos, mas sómente para os pobres. Mas quem são os pobres? Eu não tenho medo de dizer que todos nós somos pobres de Deus, carentes de sua misericórdia e de seu perdão que nos livra da morte.

Nos diz Bento XVI, enquanto Cardeal:

"São Mateus e São Lucas narram três tentações de Jesus, nas quais espelham a luta por causa da sua missão. O núcleo de toda tentação é colocar Deus de lado, o qual, junto as questões sobre o sentido da vida, aparece como algo secundário, se não mesmo de supérfluo e incômodo. Ordenar; construir o mundo de um modo autônomo, sem Deus; reconhecer como realidade apenas as realidades políticas e materiais e deixar de lado Deus, tendo-o como uma ilusão: aqui está a tentação que de muitas formas hoje nos ameaça.

Pertence à essência da tentação o seu aspecto moral: ela não nos convida diretamente para o mal, isso seria grosseiro. Ela pretende mostrar o que é melhor para nós: por finalmente de lado as ilusões e dedicar-se de todas as formas à melhoria do mundo. Além disso, ela se apresenta com a pretensão do verdadeiro realismo: o real é o que aparece (poder e pão); as coisas de Deus, ao contrário, aparecem como um mundo irreal, secundário, do qual não se tem nenhuma necessidade.

Trata-se portanto de Deus.

É Ele o real, a realidade mesma, ou não é nada? É o bem, ou devemos nós mesmos inventa-lo? A questão acerca de Deus é a questão fundamental que se levanta na encruzilhada da existência humana. O que é que o Redentor do mundo deve ou não fazer: é disto que se trata nas tentações de Jesus.

O tentador diz a Ele: “Se és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se transformem em pão” ( Mt 4,3)....estas palavras serão ditas, pouco depois, pelos escarnecedores junto a cruz: “ Se és o Filho de Deus, então desce da cruz...” (Mt 27,40) . Escárnio e tentação andam aqui perfeitamente juntos: Para se tornar digno de fé, Jesus deve apresentar a prova para a sua pretensão. Esta exigência de prova percorre toda a história da vida de Jesus, visto que constantemente o acusam de não ter provado suficientemente pois não realizou o grande milagre que retirasse toda a ambigüidade e toda a contradição e que a todos clara e indiscutivelmente mostrasse que Ele era ou não.

E esta exigência a respeito de Deus, de Cristo e da Igreja tem sido constantemente mantida ao longo de toda a história: "Se tu existe, ó Deus, então tu mesmo te deves mostrar. Então deves retirar as nuvens do teu escondimento e dar-nos a clareza que pretendemos. Se Tu, Cristo, és realmente o Filho e não um dos iluminados, como sempre aparecem na história, então Tu deves mostrar isso de um modo muito mais claro do que fazes. E então Tu deves dar à Tua Igreja, se ela deve ser verdadeiramente deve ser Tua, uma outra medida de clareza, diferente daquela que na realidade tem"

O que o tentador propões na primeira tentação? Que Deus prove sua existência, transformando em pão as pedras do deserto. Trata-se, em primeiro lugar da fome de Jesus no sentido literal e São Mateus a vê de forma mais abrangente, como já durante a vida do Jesus terreno e como durante toda a história lhe fora e lhe será apresentada. O que há de mais trágico, o que mais contradiz a fé num Deus bom e a fé redentora do homem do que a fome da humanidade? A primeira prova de identidade do Redentor perante o mundo e para o mundo não deverá ser que Ele lhe dê pão e que acabe com toda a espécie de fome?

Durante o tempo da peregrinação pelo deserto, Deus tinha alimentado o povo de Israel com o pão descido do céu, como o maná. Pensava-se então poder reconhecer nisto uma imagem do tempo messiânico: não devia, e não deve o Redentor do mundo provar a sua identidade dando a todos de comer? Não é o problema da alimentação do mundo, e em geral, o problema social, o primeiro e autêntico critério pelo qual a redenção deve ser medida? Pode alguém com direito dizer-se Redentor se não satisfizer este critério? Do modo conceitual mais elevado, o marxismo fez disto o cerne da sua promessa de salvação: ele cuidaria para que acabasse toda a fome e que “o deserto se tornasse pão...”.

“Se és Filho de Deus...” – que desafio. E não se deve dizer o mesmo à Igreja: "se queres ser a Igreja de Deus, então te preocupa em primeiro lugar com o pão para o mundo, o resto virá a seguir." É difícil responder a este desafio, precisamente porque insistentemente nos chega e nos deve chegar aos ouvidos e à alma o grito dos famintos. O tema do pão está presente em todo o Evangelho e deve ser considerado em toda a sua amplitude.

Há ainda outras duas grandes histórias na vida de Jesus envolvendo o pão. A primeira é a multiplicação dos pães para as milhares de pessoas que seguiram Jesus até o deserto. Mas por que agora é feito o que antes tinha sido repelido como tentação? Os homens tinham vindo para escutar a palavra de Deus e tinham por isso abandonado todo o resto. E assim, como homens que tinham aberto o seu coração para Deus e para os outros, aqueles podem receber o pão com merecimento.

Este milagre do pão envolve três coisas:

A primeira é a procura de Deus, da sua palavra, da reta instrução para toda a vida ; depois o pão é pedido a Deus; finalmente a disposição recíproca para a partilha é um elemento essencial do milagre. Escutar Deus torna-se vida com Deus e isso conduz da fé ao amor, à descoberta do outro. Jesus não é indiferente à fome dos homens, às suas necessidades corporais, mas situa tudo isso no contexto correto e confere-lhe a devida ordem.

A segunda história do pão aponta para a terceira e é preparação para ela: a Última Ceia, que se torna Eucaristia da Igreja e o permanente milagre do pão de Jesus. Ele mesmo se tornou o grão de trigo que deve morrer, para que dê muito fruto ( Jo,12,24) Ele mesmo se tornou pão para nós, e essa multiplicação dos pães dura inesgotavelmente até o fim dos tempos. Assim compreendemos agora a palavra de Jesus, que Ele retira do AT ( Dt 8,3), para com ela repelir o tentador: “O homem não vive só de pão, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” (Mt, 4,4).

A este respeito há uma expressão do jesuíta alemão Alfed Delp, condenado à morte pelos nazistas: “ O pão é importante, a liberdade mais importante, mas o mais importante de tudo é a adoração”.

Onde esta ordem dos bens não for respeitada, mas invertida, não haverá nenhuma justiça, não haverá mais cuidado com os homens que sofrem; mas precisamente aí o domínio dos bens materiais será desorganizado e destruído. Onde Deus é considerado uma grandeza secundária, onde pode ser deixado de lado por algum tempo ou por todo o tempo por causa de coisas mais importantes, aí precisamente fracassam essas coisas pretensamente mais importantes. Não é só o desfecho negativo da experiência marxista que o demonstra.

A ajuda do Ocidente para o desenvolvimento com base em princípios puramente técnicos e materiais – que não só deixa Deus de fora, mas também força o homem a d’Ele se afastar com o orgulho do seu saber fazer melhor – foi precisamente o tipo de ajuda que criou o Terceiro Mundo no sentido que hoje se entende. Esta “ajuda “ empurrou para o lado as estruturas religiosas, morais e sociais e instaurou no vazio a sua mentalidade tecnológica. Ela julgava poder transformar pedras em pão, mas gerou pedras em vez de pão.

Trata-se do primado de Deus.

Trata-se de O reconhecer como realidade, como a realidade sem a qual nada mais pode ser bom.

A história não pode ser regulada longe de Deus por estruturas simplesmente materiais.

Se o coração do homem não for bom, então nada pode tornar-se bom. E a bondade do coração só pode, em última instancia, vir D' aquele que é bom , que é bom em si mesmo. Pode naturalmente perguntar-se por que Deus não fez um mundo no qual a sua presença fosse mais evidente; por que Cristo não deixou atrás de si um outro esplendor da sua presença, mais adequado e irresistível.

Este é o mistério de Deus e do homem no qual não podemos penetrar.

Vivemos num mundo no qual tudo deve ser palpável, e Deus não apresenta nenhuma evidencia do que é palpável; Deus só pode ser procurado e encontrado se abrirmos o coração, se nos remetermos ao “êxodo” do “Egito”. Neste mundo temos de nos opor aos enganos das falsas filosofias e reconhecer que não podemos viver só de pão, mas, antes de mais nada, da obediência à palavra de Deus. E sómente onde esta obediência for vivida é que cresce a atitude que permite criar pão para todos".

sábado, 16 de julho de 2011

A Vida da Graça - da Graça Atual


A Vida Espiritual - Explicada e Comentada - de Adolfh Tanquerey

Assim como na ordem da natureza necessitamos do concurso de Deus para passarmos da potência ao ato, assim na ordem sobrenatural não podemos pôr em ação as nossas faculdades sem o auxílio da graça atual

1 - Noção: A graça atual é um auxílio sobrenatural e transitório que Deus nos dá para nos iluminar a inteligência e fortalecer a vontade na produção dos atos sobrenaturais.

a) Opera, diretamente sobre as nossas faculdades espirituais, a inteligência e a vontade,não já unicamente para elevar essas faculdades à ordem sobrenatural, senão para as pôr em movimento, e lhes fazer produzir atos sobrenaturais.

Demos um exemplo: antes da justificação, ou infusão da graça habitual, a graça atual ilumina-nos acerca da malícia e dos temerosos efeitos do pecado, para nos levar a detestá-lo.

Depois da justificação, mostra-nos, à luz da fé, a infinita beleza de Deus e a sua misericordiosa bondade, a fim de no-lo fazer amar de todo o coração.

b) Mas, a par destas graças interiores, há outras que se chamam exteriores, e que, atuando diretamente sobre os sentidos e faculdades sensitivas, atingem indiretamente as nossas faculdades espirituais, tanto mais que muitas vezes são acompanhadas de verdadeiros auxílios interiores. Assim, a leitura dos Livros Santos ou duma obra cristã, a assistência a um sermão, a audição dum trecho de música religiosa, uma conversa boa são graças exteriores; é certo que, por si mesmas, não fortificam a vontade; mas produzem em nós impressões favoráveis, que movem a inteligência e a vontade e as inclinam para o bem sobrenaturaL

E por outro lado Deus acrescentar-Ihes-á muitas vezes moções interiores, que, iluminando a inteligência e fortificando a vontade, nos ajudarão poderosamente a nos convertermos ou tornarmos melhores. É o que podemos concluir daquela palavra do livro dos Atos dos Apóstolos, que nos mostra o Espírito Santo abrindo o coração duma mulher chamada Lídia, para que ela preste atenção à pregação de São Paulo. Enfim, Deus, que sabe que nós nos elevamos do sensível ao espiritual, adapta-se à nossa fraqueza, e serve-se das coisas visíveis, para nos levar à virtude.

2 - Seu modo de ação.

a) A graça atual influi sobre nós, de modo juntamente moral e físico: moralmente, pela persuasão e pelos atrativos, à maneira da mãe que, para ajudar o filho a andar, suavemente o chama e atrai, prometendo-lhe uma recompensa; fisicamente, acrescentando forças novas às nossas faculdades demasiado fracas para operar por si mesmas; tal a mãe que toma o filho nos braços e o ajuda não somente com a voz, senão também como gesto, a dar alguns passos para a frente.

b) Sob outro aspecto, a graça previne o nosso livre consentimento ou acompanha-o na realização do ato. Assim, por exemplo, vem-me o pensamento de fazer um ato de amor de Deus, sem que eu tenha feito alguma para o suscitar: é uma graça preveniente, um bom pensamento que Deus me dá; se a recebo bem e me esforço por produzir esse amor, faço-o com o auxílio da graça adjuvante ou concomitante. Análoga a esta distinção é a graça operante, pela qual Deus atua em nós sem nós, e a da graça cooperante, pela qual Deus atua em nós e conosco, com a nossa livre cooperação.

3 - Sua necessidade

O princípio geral é que a graça atual é necessária para todo o ato sobrenatural, pois que deve haver proporção entre o efeito e o seu princípio. Assim, quando se trata da conversão, isto é, da passagem do pecado mortal ao estado de graça, temos necessidade duma graça sobrenatural, para fazer os atos preparatórios de fé, esperança, penitência e amor, e até mesmo para o começo da fé, para aquele pio desejo de crer que é o seu primeiro passo. É também pela graça atual que perseveramos no bem no decurso vida e até à hora da morte.

É que, na verdade, para isso:

I) é mister resistir às tentações que acometem até as almas justas e que são tão violentas e pertinazes que as não podemos vencer sem o auxílio de Deus. E assim Nosso Senhor recomenda a seus Apóstolos, até mesmo depois da última Ceia, que vigiem e orem, isto é, que se apoiem não somente nos seus próprios esforços, mas sobretudo na graça para não sucumbirem à tentação

Além disso, porém, é necessário cumprir todos os deveres; e o esforço enérgico, constante, que este cumprimento requer, não se pode sem o auxílio da graça: Aquele que em nós começou a obra da perfeição, é o único que a pode levar a bom termo «o Deus de toda a graça, que nos chamou em Jesus Cristo à sua eterna glória, depois de haverdes padecido um pouco, Ele mesmo nos aperfeiçoará, fortificará e consolidará»( IPe 5,10)

Isto é sobretudo verdade, tratando-se da perseverança final que é um dom especial e um grande dom: morrer em estado de graça, a despeito de todas as tentações que nos vêm assaltar no último momento ou escapar a essas lutas por meio de morte súbita ou suave, em que a alma adormece no Senhor, é, na expressão dos Concílios, a graça das graças, que não se poderá nunca pedir demasiadamente, que não se pode merecer estritamente, mas que se pode obter pela oração e fiel cooperação com a graça, suppliciter emereri potest.

E quem deseja não somente perseverar, senão crescer cada dia em santidade, evitar os pecados veniais de propósito deliberado e diminuir o número de faltas de fragilidade, não tem ainda que implorar instantemente os favores divinos? Pretender que podemos viver muito tempo sem cometer qualquer falta que retarde o nosso adiantamento espiritual, é ir contra a experiência das melhores almas que exprobram tão amargamente as próprias culpas, é contradizer a São João, que nos declara que se iludem grandemente aqueles que se imaginam sem pecado. « S: dixerimus quoniam peccatum non habemus, ipsi nos seducimus, et verj tas non est in nobis" ; é contradizer o Concílio de Trento, que condena aqueles que afirmam que o homem justificado pode, durante toda a sua vida, evitar as faltas veniais sem um privilégio especial de Deus .

A graça atual é-nos, pois necessária, ainda mesmo depois da justificação, e eis o motivo por que os nossos Livros Santos insistem tanto sobre a necessidade da oração, pela qual se obtém essa graça da misericórdia divina. Também a podemos obter pelos nossos atos meritórios, ou, por outros termos, pela nossa livre cooperação com a graça; é que, na verdade, quanto mais fiéis nos mostrarmos em aproveitar as graças atuais que nos são distribuídas tanto mais inclinado se sente Deus a nos conceder novas mercês.

Conclusões

Devemos, pois, ter a maior estima da vida da graça; é uma nova vida que nos une e assemelha a Deus, com todo o organismo necessário à sua atividade. E é uma vida muito mais perfeita que a natural. Se a vida intelectual está muito acima da vida vegetativa e sensitiva, a vida cristã transcende infinitamente a vida simplesmente natural. E na verdade, esta é devida ao homem, desde que Deus se resolve a cria-lo, ao passo que a vida da graça supera todas as atividades e merecimentos das mais perfeitas criaturas. Pois, quem poderia reclamar o direito de ser constituído filho adotivo de Deus, e templo do Espírito Santo, ou o privilégio de ver a Deus face a face, como Ele se vê a Si mesmo?

Devemos, pois, estimar esta vida mais que todos os bens criados e considerá-la como o tesouro escondido, para cuja aquisição ninguém deve hesitar em vender tudo o que possui. Uma vez que se entrou na posse deste tesouro, é mister sacrificar tudo, antes que expor-se a perdê-lo. É a conclusão que tira o Papa São Leão: «Agnosce, o christiane, dignitatem tuam, et, divinae connatura e, noli in veterem vilitatem degeneri conversatione redire"

Ninguém mais que o cristão se deve respeitar a si mesmo, não certamente por causa dos próprios méritos, senão por causa desta vida divina de que participa, e por ser templo do Espírito Santo, templo sagrado cuja beleza não é licito contaminar: «Domum tuam decet sanctitudo in longitudinem dierum»

Mais ainda: devemos evidentemente utilizar, cultivar este organismo sobrenatural de que somos dotados. Se aprouve à divina Bondade nos elevar-nos a um estado superior, conceder-nos profusamente virtudes e dons que aperfeiçoam as nossas faculdades naturais, se nos oferece a cada instante a sua colaboração, para as fazermos render, seria mostrar-nos bem pouco reconhecidos à sua liberalidade rejeitar esses dons, não praticando senão atos naturalmente bons, ou não fazendo produzir mais que frutos imperfeitos à vinha da nossa alma. Quanto mais generoso se mostrou o doador, tanto mais ativa e fecunda deve ser a a colaboração que de nós espera. Isto nos aparecerá mais claramente ainda, depois de estudarmos a parte de Jesus na vida cristã.(Portanto, este será nosso próximo assunto)

Uma vida é pouco para louvarmos a Deus!

1 - A Vida da Graça - Um tesouro a adquirir
2 - Queda e Castigo
3 - Redenção
4 - Natureza da Graça
5 - Do Organismo da Vida Cristã
6 - União entre a alma e Deus
7 - Das Virtudes e dos Dons