sábado, 30 de julho de 2011

Que é o homem? Criação ou Evolução?



Por Padre Leo Trese

Imaginemos dois homens, cada um dos quais pretende fazer um relógio. Um deles extrai da rocha uma certa quantidade de minério de ferro, purifica-o laboriosamente no crisol e transforma-o em aço; forja, molda e desbasta as peças. até obter toda uma série de minúsculas molas, engrenagens e eixos; e por fim monta essas peças todas, até obter um relógio que marca corretamente as horas. Com toda a certeza, diríamos que esse homem é um mecânico excepcionalmente capacitado, um relojoeiro incomparável.

O outro, porém, limita-se a colocar o minério de ferro sobre a palma da mão e a dizer: " Quero que isto se converta num relógio". E imediatamente a ganga começa a separar-se do ferro, este se tempera a si próprio até converter-se em aço, o aço divide-se em molas, engrenagens e eixos, e essas partes todas juntam-se umas às outras até formarem um relógio -e tudo isso, por um simples ato de vontade do "relojoeiro". A nossa admiração, diante de tal processo, certamente seria muito maior do que a que sentimos pelo primeiro.

Da mesma forma, se Deus tivesse criado o Universo parte por parte, formando separadamente cada estrela e cada planeta, cada espécie de planta e de animal, sentir-nos-íamos muito razoavelmente tentados a exclamar: " Glória a Deus nas alturas!" Mas se, ao invés de formar cada componente do universo por um ato criador distinto, tivesse começado por criar uma massa de matéria informe e, mediante um ato da sua divina vontade, lhe tivesse ordenado que se convertesse pouco a pouco no tipo de Universo - com os reinos mineral, vegetal, animal e humano - projetado por Ele na sua Mente divina..., com certeza não é preciso ser teólogo para decidir qual dos tipos de Criação refletiria de maneira mais maravilhosa o poder criador de Deus.

Não, não há nada de oposto à fé cristã numa teoria da evolução científica, baseada em fatos sólidos e desprovida do viés anti-religioso. Quer Deus tenha formado o Universo mediante um ato criador direto, quer mediante um processo evolutivo, continua a ser o seu Criador. Não há inconveniente em supor que os corpos do primeiro homem e da primeira mulher tenham procedido de antropoides evoluídos, se a Deus lhe aprouve faze-lo assim. Continuaria a ser verdade que os nossos corpos foram formados do barro da terra (Gên 2,7)

Portanto, nenhuma das descobertas da Antropologia ou da Paleontologia, pôe em perigo a nossa fé, pela simples razão de que estas ciências não são capazes de explicar o abismo que separa o instinto animal da razão humana. A capacidade de pensar e de querer livremente exige a existência de uma alma espiritual, de uma alma que, pela sua própria natureza, não pode resultar de nenhum processo evolutivo, mas só pode provir diretamente do poder criador de Deus.

O que nós, como cristãos, temos de sustentar é o que a Sagrada Escritura nos ensina com toda a clareza no livro do Gênesis, valendo-se de uma linguagem que em parte é didática e em parte poética. E a substância desse ensinamento é esta: Em primeiro lugar, que Deus é o Criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis; um modo pelo qual as criou não vem ao caso. Em segundo lugar, que todo o gênero humano descende de um único casal original, de um homem e uma mulher. Em terceiro lugar, que a alma de cada ser humano - não somente as de Adão e Eva - é criada direta e imediatamente por Deus; pois a alma, sendo de natureza espiritual, não pode porvir da matéria por evolução, e da mesma forma não pode ser transmitida geneticamente pelos pais.

Estes são os pontos em que devemos crer. A pesquisa científica sobre a origem do Universo prossegue e prosseguirá. Neste trabalho, os cientistas católicos são e continuarão a ser tão objeticos e tão ávidos de novas descobertas como quaisquer outros. E levarão avante as suas pesquisas sem o menos temor de que a sua fé possa perigar, porque sabem perfeitamente que a verdade é uma só; toda verdade vem de Deus, e Deus não se contradiz.

Animal...Racional.

Muito bem, mas..afinal de contas, o que é que nos torna diferentes dos animais? Para começar, é preciso reconhecer que nós somos animais.Em filosofia, o homem define-se precisamente como animal racional. É esta última palavra, racional, que exprime aquilo que nos torna diferentes dos outros animais.

Há três tipos de seres vivos: plantas, animais e homens. Classicamente, fala-se por isso de três tipos de "almas", tomando-se esta palavra no sentido de princípio vital. A "alma" vegetativa é o princípio interno à planta que a faz viver, crescer e reproduzir-se; está intimamente ligada à matéria e não possui existência independente; por isso, deixa de existir a partir do momento em que a planta morre.

Nos animais, temos a "alma sensitiva", que é o princípio que lhes permite não somente viver, crescer e reproduzir-se, mas também ver, ouvir e cheirar, sentir dor e experimentar prazer, e deslocar-se de um lugar para outro. Apesar deste princípio vital ser superior ao das plantas, continua a ser inteiramente dependente da matéria, a não ter uma existência autônoma, e por isso também deixa de existir quando o animal morre.

Finalmente, temos alma propriamente dita, a alma espiritual, também chamada as vezes alma racional ou intelectual, que pressupõe e assume as outras duas. Através dela, o homem não se limita a viver, crescer e reproduzir-se, como faz a planta: nem se limita a ver, ouvir, cheirar, sentir dor ou prazer e mover-se, como faz um animal. Graças a ela, o homem atinge um novo nível de existência a que uma alma meramente material não poderia eleva-lo: torna-se capaz de pensar. Graças a ela, somos capazes de selecionar, comparar, escolher e examinar os inúmeros dados particulares que nos chegam através dos sentidos - as imagens que vemos, os sons, os odores, os gostos, as experiências táteis. E, a partir daí, de chegar a conhecimentos novos, elaborar conceitos abstratos e tirar conclusões. Um animal pode ver centenas de árvores, e no entanto é incapaz de concluir que todas elas tem um tronco feito de madeira, e muito menos de escrever um poema como Minha terra tem palmeiras, de Gonçalves Dias. Mesmo que veja mil triângulos, nenhum animal será capaz de descobrir que o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos.

É principalmente graças a esta capacidade de raciocínio que o homem é imagem e semelhança de Deus. Todas as coisas criadas são, de alguma forma, e cada qual num certo grau, uma imagem de Deus: "Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos", canta David no seu salmo 18,1. A rocha sólida e áspera, o floco de neve com a sua delicada simetria, a flor casta e fragrante, o inseto laborioso, o majestoso elefante - e, como coroa de tudo isso, o homem -, todas as coisas que existem fazem parte de um único e grandioso mosaico que nos fala da Grandeza e do Poder, da Beleza e da Bondade de Deus.

Mas quando dizemos que o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus, queremos exprimir co isso qualquer coisa de muito especial. Porque nós, os homens, não nos limitamos a refletir a Bondade,Beleza e Onipotência divinas, como o fazem toas as outras criaturas do Universo. Graças à nossa alma espiritual, somos como espelhos que refletem de maneira muito mais perfeita esse Espírito infinitamente perfeito que é Deus. Graças ao nosso intelecto, com a sua capacidade de compreender e raciocinar, refletimos a Sabedoria e o Conhecimento de Deus. Graças à nossa vontade livre, ao nosso poder de escolha responsável, somos capazes de refletir a infinita Liberdade de Deus.

Mas não somos espíritos puros,independentes da matéria, como o são os anjos. Não se pode dizer que um homem seja somente a sua alma, como também não podemos dizer que é somente o seu corpo. Somos criaturas compostas, feitas de alma e corpo. Este último não é mero instrumento da alma, como o é uma serra nas mãos de um carpinteiro; é muito mais do que isso. para poder desabrochar na plenitude do seu ser, para ser inteiramente aquilo que deve ser, a alma precisa do corpo, porque foi criada para estar unida a ela e seria incompleta sem ele.

Com perdão da comparação, um tanto rudimentar, estamos diante de algo semelhante ao motor de um automóvel, que está projetado para funcionar em conjunto com o "corpo" desse automóvel. É perfeitamente possível retirar o motor e pô-lo a funcionar sobre uma bancada, isolado do chassi; mas, para realizar aquilo que está feito para realizar, para ser plenamente eficaz, o motor precisa do chassi e está incompleto sem ele. Quando a alma abandona o corpo, no momento da morte, continua a viver e a funcionar sem ele - pelo menos até a ressurreição dos corpos -, como veremos. Mas, nesta vida, alma e corpo são duas partes interdependentes de uma única e singular pessoa humana completa, e a alma só pode agir através do corpo.

Toda a alma humana, tal como sai das mãos criadoras de Deus, é perfeita em si mesma, mas pode ver-se limitada por um corpo imperfeito. Essas imperfeições podem ser o resultado de algum acidente ou doença, ou ser hereditárias - pode tratar-se de lesões cerebrais, de deficiências glandulares ou de uma centena de outras coisas que dificultam a ação da alma. Com isto, pretendo somente indicar que os idiotas, imbecis e psicopatas, no sentido médico, não estão desprovidos de alma simplesmente por estarem desprovidos de parte de suas funções cerebrais. No seu íntimo, continuam a ter uma alma perfeita, que talvez tenha de esperar pela Eternidade para poder exercer plenamente as suas elevadas faculdades intelectuais e volitivas, tornadas incapazes nesta vida pelas deficiências do seu organismo.

Fonte: A Sabedoria do Cristão

Veja:

quinta-feira, 28 de julho de 2011

É recomendável comungar na boca e de joelhos


Em entrevista concedida à agência ACI Prensa, o Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos no Vaticano, Cardeal Antonio Cañizares Llovera, assinalou que é recomendável que os católicos comunguem na boca e de joelhos.

Assim indicou o Cardeal espanhol que serve na Santa Sé como máximo responsável, depois do Papa, pela liturgia e os Sacramentos na Igreja Católica, ao responder se considerava recomendável que os fiéis comunguem ou não na mão.

A resposta do Cardeal foi breve e singela: "é recomendável que os fiéis comunguem na boca e de joelhos".

Do mesmo modo, ao responder à pergunta da ACI Prensa sobre o costume promovido pelo Papa Bento XVI de fazer que os fiéis que recebam dele a Eucaristia o façam na boca e de joelhos, o Cardeal Cañizares disse que isso se deve "ao sentido que deve ter a comunhão, que é de adoração, de reconhecimento de Deus". "Trata-se simplesmente de saber que estamos diante de Deus mesmo e que Ele veio a nós e que nós não o merecemos", afirmou.

O Cardeal disse também que comungar desta forma "é o sinal de adoração que necessitamos recuperar. Eu acredito que seja necessário para toda a Igreja que a comunhão se faça de joelhos". "De fato –acrescentou– se se comunga de pé, é preciso fazer genuflexão, ou fazer uma inclinação profunda, coisa que não se faz".

O Prefeito vaticano disse ademais que "se trivializarmos a comunhão, trivializamos tudo, e não podemos perder um momento tão importante como é o de comungar, como é o de reconhecer a presença real de Cristo ali presente, do Deus que é amor dos amores como cantamos em uma canção espanhola".

Ao ser consultado pela ACI Prensa sobre os abusos litúrgicos em que incorrem alguns atualmente, o Cardeal disse que é necessário "corrigi-los, sobre tudo mediante uma boa formação: formação dos seminaristas, formação dos sacerdotes, formação dos catequistas, formação de todos os fiéis cristãos".

Esta formação, explicou, deve fazer que "celebre-se bem, para que se celebre conforme às exigências e dignidade da celebração, conforme às normas da Igreja, que é a única maneira que temos de celebrar autenticamente a Eucaristia".

Finalmente o Cardeal Cañizares disse à agência ACI Prensa que nesta tarefa de formação para celebrar bem a liturgia e corrigir os abusos, "os bispos têm uma responsabilidade muito particular, e não podemos deixar de cumpri-la, porque tudo o que façamos para que a Eucaristia se celebre bem será fazer que na Eucaristia se participe bem".


Fonte: Aci Digital (grifos nossos) - Retirei do site http://www.iesusdominus.com.br/

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Faça alguma coisa já!



Por Padre Léo Trese

Esquanto estou à porta da sala de aula da 8ª série, à espera de que toque a sineta para entrar e dar início à aula de religião, invade-me o mesmo sentimento de sempre: a minha incapacidade.

Através dos vidros da porta, vejo quarenta cabecinhas voltadas para a Irmã que explica a raiz quadrada no quadro negro. Quarenta cabecinha que deveriam conhecer melhor a Deus e quarenta corações que deveriam amá-Lo mais do que ninguém no mundo. Entrarei na sala para cumprir a minha tarefa semanal e quarenta vozes me cumprimentarão em coro: "Bom dia, padre", ao mesmo tempo que quarenta pares de olhos olharão para mim com ar de expectativa, felizes de mudar de assunto, mas sem se preocuparem muito com o que vou dizer.

Na semana passada, começaram a aprender o que é a Igreja e falei-lhe do Corpo Místico de Cristo. Estudaram a seguir a vida dos mártires, e hoje vou-lhes falar do poder do bom exemplo. Valendo-me de perguntas insinuantes, farei com que eles mesmos encontrem as respostas e experimentem a emoção de uma descoberta. Mas sairei da aula tal como entrei, com uma sensação de fracasso que só se salvará do desespero pela convicção de ter do meu lado o poder da graça divina.

Quarenta espíritos impressionáveis, quarenta personalidades em formação, cada uma delas santo ou pecador em potência. Dick poderia facilmente ir para o seminário e chegar a ser um sacerdote exemplar, mas também é possível que siga o exemplo de seu tio Jorge e se torne um bêbado contumaz. Quanto à Luiza, posso imaginá-la uma simpática mãe católica de meia dúzia de crianças, mas pode tambem vir a ser uma egoísta, casada com um divorciado.

O que é que determinará a diferença e que parte de responsabilidade me irá caber?

Talvez hoje me sinta exageradamente pessimista; a visita que me fez a sra. Borden está ainda demasiado viva no meu espírito. Veio ontem a minha casa para me falar da sua filha Helena, casada no dia anterior, por um pastor metodista, com um homem que não quer saber nada de padres. "E aqui está a medalha que ganhou nesta escola, padre; a madalha da Doutrina Cristã". A pobre senhora tinha-a na mão, como que para provar que tudo tinha sido uma ilusão, um pesadelo que precisava esquecer. Sim, lembro-me da Helena - podia-se contar sempre com a sua resposta certeira, quando todos os outros permaneciam calados.

E de quem é a responsabilidade por tantas Helenas, por tantos casos como o dela? Passam oito, dez e até mesmo dezesseis anos à sombra do altar e depois fogem para se tornarem espíritos errantes. Talvez a culpa seja, ao menos em parte, dos programas de estudo: tantos cursos magistralmente delineados, que ensinam todas as respostas, mas não ensinam a viver. As crianças dialogam a Missa com uma prefeição mecânica, mas não se olham a si mesmas como parte do Pão que está se oferecendo. Mas não me corresponde a mim elaborar os programas. Não tenho conhecimentos suficientes sobre educação para meter-me nisso. E muito menos para fazer das Irmãs o bode expiatório. Pobres almas, com cinco ou seis lições que preparar todos os dias!

Deixando de lado os textos e os professores, a verdade é que a responsabilidade é minha. Afinal de contas, eu sou o pároco e eles as minhas ovelhas. Devo enfrentar a questão: se um deles se extravia, cabe-me a mim uma boa parte do fracasso. Quando cedem a pressão do ambiente, não é por falta de conhecimentos, mas por falta de amor. E o amor não é uma coisa que se aprenda nos livros ou num quadro negro. Não se ensina, comunica-se. É um fogo que se acende por contato.

Nunca entraria numa sala de aula com toda esta relutância se o meu coração estivesse transbordando de amor por Cristo. Nunca teria de perguntar-me o que devo dizer aos pequenos, se os sentimentos do meu coração tivesse força para extravasar-se. Nessa altura, como a minha Missa sublimaria a quarta dimensão do Amor! Como o conceito de Corpo Místico sairia vivo e palpitante do limbo de uma imaginação estéril, que se esvai em figuras de retórica! Como os insípidos deveres da oração e do sacrifício se converteriam em desafios para participar das aventuras divinas!

Sim! Isso poderia acontecer aqui, pode acontecer agora. Basta que haja um sacerdote santo, um pároco piedoso. "Ouça, padre Trese - é o meu Anjo da Guarda que fala, e, muitas vezes, eu de bom grado o esganaria - ouça agora! Deixe de mudar de assunto. Deixe de falar à toa. Faça qualquer coisa e faça-o já!"

A sineta toca e quarenta pares de olhos se desviam da Irmã para a porta. Aí vem a mediocridade para falar da perfeição. Já tenho o quadro: um dedo trêmulo e hesitante apontando para alturas vertiginosas e indistintas.

Tenho de clarear a minha visão, mas esta tentativa de terapeutica ocular tem que começar de joelhos....

Fonte: Vaso de Argila


segunda-feira, 25 de julho de 2011

A Vida da Graça - Da Parte de Jesus na Vida Cristã



A Vida Espiritual - Explicada e Comentada - de Adolfh Tanquerey

É toda a Santíssima Trindade que nos confere esta participação da vida divina. Mas a Santíssima Trindade fá-lo por causa dos méritos e satisfações de Jesus Cristo que, por este motivo, desempenha um papel tão essencial em nossa vida sobrenatural que esta se chama com razão "vida cristã". Conforme a doutrina de São Paulo, Jesus Cristo é cabeça da humanidade regenerada, como Adão o tinha sido da raça humana em seu berço, mas de modo muito mais perfeito.

Pelos seus méritos, Jesus reconquistou os nossos direitos à graça e à glória; pelos seus exemplos, mostra-nos como devemos viver, para nos santificarmos e merecermos o céu; mas é, antes de tudo, a cabeça dum corpo místico de que nós somos os membros: é, pois, a causa meritória, exemplar e vital da nossa santificação.

1 - Jesus causa meritória da nossa vida espiritual

Quando dizemos que Jesus é causa meritória da nossa santificação, tomamos esta palavra no seu sentido mais lato, enquanto compreende a um tempo a satisfação e o mérito: «Propter nimiam caritatem qua diJexit nos, sua sanctissima passione in ligno crucis nobis iustificationem meruit et pro nobis satisfecit» Logicamente a satisfação precede o mérito, neste sentido que é mister reparar primeiro a ofensa feita a Deus, para obter o perdão dos nossos pecados e merecer a graça; mas em realidade todos os atos livres de Nosso Senhor eram ao mesmo tempo satisfatórios e meritórios; e todos tinham valor moral infinito. Não nos resta senão tirar desta verdade algumas conclusões.

A) Não há pecado irremessível, contanto que, contritos e humilhados, dele peçamos confiadamente perdão. É o que fazemos no santo tribunal da Penitência, onde a virtude do sangue de Jesus Cristo nos é aplicada por intermédio do ministro de Deus. É o que fazemos ainda no Santo Sacrifício da Missa, onde Jesus continua a oferecer-se, pelas mãos do sacerdote, como vítima de propiciação, excitando em nossa alma sentimentos profundos de contrição, tornando-nos a Deus propício, obtendo-nos perdão cada vez mais completo dos nossos pecados, e remissão mais abundante da pena que deveríamos sofrer para os expiar. Podemos acreditar que todos os nossos atos cristãos, unidos aos sofrimentos de Jesus, têm valor satisfatório para nós e para as almas por quem os oferecemos.

B) Jesus mereceu também para nós todas as graças de que necessitamos, para atingirmos o nosso fim sobrenatural e cultivarmos em nós a vida cristã: "Bendito seja Deus que nos abençoou-nos em Cristo com toda a sorte de bençãos espirituais»: graças de conversão, graças de perseverança, graça para resistir às tentações, graças para bem nos aproveitarmos das provações, graças de consolação no meio dos trabalhos, graças de renovação espiritual, graças de segunda conversão, graça de perseverança final; tudo isso nos mereceu Jesus Cristo; e afirma-nos que tudo quanto pedirmos a seu Pai em seu nome, isto é, apoiando-nos em seus merecimentos, nos será concedido. Para nos inspirar mais confiança, instituiu os Sacramentos, sinais visíveis que nos conferem a graça em todas as circunstâncias importantes da nossa vida - dão direito a graças atuais que obtemos em tempo oportuno.

C) Fez mais ainda: deu-nos o poder de satisfazer e merecer, querendo assim associar-nos a Si mesmo, como causas secundárias, e fazer-nos obreiros da nossa própria santificação. Dá-nos até sobre isso preceito, condição essencial da nossa vida espiritual. Se carregou sua Cruz, foi para que nós O seguíssemos, levando a nossa: «Si quis vult post me venire, abneget semetipsum, tollat cru cem suam, et sequatur me". Assim o compreenderam os Apóstolos: «Se queremos ter parte na sua glória, diz São Paulo, é mister que tenhamos parte nos seus sofrimentos, si tamen compatimur, ut et conglorificemur»;(Rm 8,13) e São Pedro acrescenta que, "se Cristo sofreu por nós, foi para que nós lhe seguíssemos as pisadas" (IPed2,21)

Há mais: as almas generosas sentem-se impelidas, como São Paulo a sofrer alegremente, em união com Cristo, pelo seu corpo místico que é a Igreja; e assim têm parte na eficácia redentora da sua Paixão e colaboram secundariamente na salvação de seus irmãos.

Como esta doutrina é mais verdadeira, mais nobre, mais consoladora do que a inacreditável afirmação de certos protestantes que têm a triste coragem de asseverar que, havendo Cristo padecido suficientemente por nós, não senão que gozar dos frutos da sua redenção, sem beber o seu cálice! Com isso pretendem render homenagem à plenitude dos merecimentos de Cristo, quando realmente esta faculdade de merecer não faz senão dar maior realce à plenitude da redenção. E na verdade, não será mais honroso para Cristo manifestar a fecundidade das suas satisfações, associando-nos à sua obra redentora e tornando-nos capazes de nela colaborar, posto que secundariamente, imitando os seus exemplos?

2 - Jesus causa exemplar da nossa vida

Jesus Cristo não se contentou de merecer por nós; quis ser causa exemplar, modelo vivo da nossa vida sobrenatural. Grande era a necessidade que tínhamos dum modelo deste gênero; porquanto, para cultivar uma vida, que é participação da própria vida de Deus, é mister aproximar-nos, o mais possível, da vida divina. Ora, como bem observa Santo Agostinho, "os homens que tínhamos diante dos olhos, eram demasiadamente imperfeitos para nos servirem de modelos, e Deus, que é a mesma santidade, parecia muito distante. Foi então que o Filho eterno de Deus, sua viva imagem, se fez homem, para nos mostrar, pelos seus exemplos, como é possível na terra aproximar-nos da perfeição divina. Filho de Deus e filho do homem, viveu uma vida verdadeiramente deiforrne, e pôde-nos dizer: «Qui videt me, videt et Patrem» I, quem me vê, vê o meu Pai. Tendo manifestado nas suas ações a santidade divina, pôde-nos propor como possível a imitação das divinas perfeições: «Estote ergo vos perfecti sicut et Pater vester caelestis perfectus est»

É por isso que o Pai no-lo propõe como modelo: no batismo e na transfiguração, aparece aos discípulos e diz-lhes, falando de seu Filho: «Hic est Filius meus dilectus in quo mihi bene complacui, eis aqui o meu Filho muito amado em quem tenho todas as minhas complacências». Se tem nele todas as suas complacências, é sinal que deseja que O imitemos. E assim, Nosso Senhor nos diz com toda a confiança; «Ego sum via ... nemo venit ad Patrem nisi per me ... Discite a me, quia mitis sum et humilis corde ... Exemplum enim dedi vobis, ut quemadmodum ego feci vobis, ita et vos faciatis» E que outra coisa é, em substância, o Evangelho senão a narração dos feitos e maravilhas de Nosso Senhor, enquanto são propostos à nossa intimidação «coepit facere et docere?"

Que é o Cristianismo senão a imitação de Jesus Cristo? Tanto assim que São Paulo resumirá todos os deveres cristãos no de imitar a Nosso Senhor: «Imitatores mei estote sicut et ego Christi»

a) Jesus é modelo perfeito Até mesmo por confissão daqueles que não crêem na sua divindade, Jesus é o protótipo mais acabado de virtude que jamais apareceu na terra. Praticou as virtudes em grau heróico, e com as disposições interiores mais perfeitas: religião para com Deus, amor do próximo, aniquilamento a respeito de si mesmo, horror ao pecado e do que a ele pode conduzir, e contudo é modelo imitável e universal, cheio de encanto, cujos exemplos são cheios de eficácia.

b) É modelo que todos podem imitar, pois se dignou desposar as misérias e fraquezas, passar até pela tentação, ser-nos semelhante em exceto o pecado. «Non enim habemus Pontificem qui non possit compati infirmitatibus nostris; tentatum autem per omnia pro similitudine absque peccato". Durante trinta anos, viveu a vida mais oculta, mais obscura, mais comum, obedecendo a Maria e a José, trabalhando como um aprendiz e operário, - "fabri fillius» ; e por esse modo veio a ser o modelo mais acabado da maior dos homens que não têm senão deveres obscuros que desempenhar, e se hão de santificar no meio das ocupações mais comuns.

Mas teve também a sua vida pública: praticou o apostolado, quer por meio dum escol, formando os Apóstolos, quer entre o povo, evangelizando as multidões. Então sofreu cansaço e fome; gozou da amizade de alguns e houve de suportar a ingratidão dos outros; teve os seus triunfos e os seus reveses; numa palavra, passou pelas vicissitudes de todo o homem que tem relações com amigos e com o público.

A Paixão deu-nos o exemplo da paciência mais heróica no meio das torturas e morais, que tolerou não somente sem se queixar, mas pedindo até por seus verdugos. E não se diga que, sendo Deus, sofreu menos. Era homem também: dotado de finíssima sensibilidade, sentiu mais vivamente que nós poderiamos sentir a ingratidão dos homens, o desamparo de seus amigos, a traição de Judas: experimentou tais sentimentos de tédio, de tristeza, de pavor que não deixar de orar para o cálix de amargura se afastasse dele, se era possível; e na Cruz, soltou este grito lancinante, que bem mostra a profundeza das suas agonias: «Deus meus, Deus meus, ut qui dereliquisti me?» Foi, pois, um modelo universal.

c) E mostra-se também cheio de encanto. - Havia anunciado que, tanto que fosse elevado da terra (fazendo alusão ao suplício da Cruz), atrairia tudo a Si. Esta profecia realizou-se ao verem o que Jesus fez e sofreu por eles, os corações generosos apaixonaram-se de amor para como divino Crucificado, e, conseqüentemente, para com a cruz; a despeito das repugnâncias da natureza, levam esforçadamente as suas cruzes interiores e exteriores, quer para mais se parecerem com o seu divino Mestre, quer para lhe testemunharem o seu amor, sofrendo com Ele e por Ele, quer para terem parte mais abundante nos frutos da redenção e colaborarem com Ele na santificação de seus irmãos. É o que aparece na vida dos Santos, que correm com mais sofreguidão atrás das cruzes que os mundanos atrás dos prazeres.

d) Este poder de atração é tanto mais forte quanto mais eficaz é a graça: como todas as ações de Jesus, antes de sua morte, eram meritórias, mereceu-nos a graça de as praticar semelhantes; quando consideramos a sua humildade, pobreza, mortificação e demais virtudes, sentimo-nos arrastados a imitá-lo não somente pela força persuasiva dos seus exemplos, mas ainda pela eficácia das graças que Ele nos mereceu, praticando as virtudes e nos concede nesta ocasião.

Há sobretudo certas ações de Nosso Senhor, às quais, por mais importantes, nos devemos unir de modo especial, visto conterem graças mais abundantes: são os seus mistérios. Assim, por exemplo, o mistério da Encarnação mereceu-nos uma graça de renúncia a nós mesmos e de união com Deus, visto que Nosso Senhor nos ofereceu consigo, para nos consagrar todos a seu Pai; o mistério da Crucifixão mereceu-nos a graça de crucificar a carne e as suas concuspicências; o mistério da Morte mereceu-nos o morrer ao pecado e as suas causas, etc.

Isto melhor o compreenderemos, vendo como Jesus é a cabeça do corpo místico de que somos membros

Jesus cabeça dum corpo místico ou fonte de vida

Esta doutrina encontra-se já substancialmente na palavra de Nosso Senhor: «Ego sum vi tis, vos palmites. Eu sou a videira, vós os sarmentos». Jesus afirma, efetivamente, que nós recebemos dele a nossa vida, como as varas a recebem da cepa a que estão unidas. Esta comparação faz, pois, sobressair a comunidade de vida que existe entre Nosso Senhor e nós; daqui é fácil passar à concepção do corpo místico em que Jesus, como cabeça, faz passar a vida aos seus membros. É São Paulo que insiste mais sobre esta doutrina tão fecunda em resultados

Num corpo requer-se uma cabeça, uma alma, e membros - São estes os elementos que vamos descrever, seguindo a doutrina do Apóstolo:

A cabeça desempenha no corpo humano uma tríplice função: função de preeminência, visto ser nele a parte principalíssima; função de centro de unidade, pois que liga harmonicamente e dirige todos os membros; função de influxo vital, já que é dela que parte o movimento e a vida. Ora, é precisamente esta tríplice função que Jesus exerce na Igreja e sobre as almas.

a) Tem, sem dúvida alguma, a preeminência sobre todos os homens. Ele que, como Homem-Deus, é o primogênito de toda a criatura, o objeto das complacências divinas, o modelo acabado de todas as virtudes, a causa meritória da nossa santificação, Ele que por causa dos seus méritos, foi exaltado acima de toda a criatura e diante do seu trono vê dobrar-se todos no céu, na terra e nos infernos.

b) Na Igreja, é Ele o centro de unidade. Duas coisas são essenciais no organismo perfeito: a variedade dos órgãos e das funções que desempenham, e a sua unidade num princípio comum: sem este duplo elemento não haveria senão uma massa inerte ou um agregado de seres vivos sem nexo orgânico. Ora, é ainda Jesus que, depois de ter estabelecido na Igreja a variedade dos órgâos pela instituição duma hierarquia, sendo o centro de unidade, pois que é Ele, o chefe invisível mas real, imprime aos chefes hierárquicos a direção e o movimento.

c) É Ele ainda o princípio do influxo vital que anima e vivifica todos os membros. Até mesmo como homem recebe a plenitude da graça, para no-lo comunicar: «Vidimus eum plenum gratiae et veritatis ... de cuius plenitudine nos omnes a ccepimus, et gratiam pro gratia». Pois não é causa meritória de todas as graças que recebemos, e que nos são distribuídas pelo Espírito Santo? É por isso que o Concílio de Trento afirma, sem hesitar, esta ação, este influxo vital de Jesus sobre os justos.

A qualquer corpo é indispensável não somente uma cabeça, também uma alma. Ora, é o Espírito Santo (isto é, a Santíssima Trindade designada por este nome) que é a alma do corpo místico de que Jesus é a cabeça; é Ele, efetivamente, que difunde nas almas a caridade e a graça merecidas por Nosso Senhor. Eis o motivo por que Ele é chamado Espírito que vivifica: «Credo in Spiritum ... VÍvificantem». Eis a razão por que Santo Agostinho nos diz que o Espírito Santo é para o corpo da Igreja o que a alma é para o corpo natural: «Quod est in corpore nostro anima, id est Spiritus Sanctus in corpore Christi quod est EccJesia» Esta expressão foi, aliás, consagrada por Leão XIII na sua Encíclica sobre o Espírito Santo . É ainda este divino Espírito que distribui os diversos carismas: a uns o discurso de sabedoria ou a graça da pregação, a outros o dom dos milagres, a estes o dom da profecia, àqueles o dom das línguas, etc.: «Haec autem omnia operatur unus atque idem Spiritus, dividens singulis prout vult»

Esta dupla ação de Cristo e do Espírito Santo, longe de se embaraçar mutuamente, completa-se. O Espírito Santo vem-nos por Jesus Cristo. Quando Jesus vivia na terra, possuía em sua alma santa a plenitude do Espírito; pelas suas ações e sobretudo pelos seus sofrimentos e pela sua morte mereceu que este Espírito nos fosse comunicado; é, pois, graças a Ele, que o Espírito Santo nos vem comunicar a vida e as virtudes de Cristo, e nos toma semelhantes a Ele.

Assim, tudo se explica: Jesus, sendo homem, é o único que pode ser a cabeça dum corpo místico composto de homens, já que a cabeça e os membros devem ser da mesma natureza; mas, como homem, não pode por si mesmo conferir a graça necessária à vida dos seus membros; o Espírito Santo supre-o, desempenhando essa função; mas, como o faz em virtude dos merecimentos do Salvador, pode-se dizer que o influxo vital parte verdadeiramente de Jesus para chegar aos seus membros.

Quais são os membros deste corpo místico? Todos os batizados.

É, efetivamente, pelo batismo que somos incorporados em Cristo, diz São Paulo: «Etenim in uno Spiritu omnes nos in unum corpus baptizati sumus». Eis o motivo por que ele ajunta que fomos batizados em Cristo, que pelo batismo nos revestimos de Cristo, isto é, participamos das disposições interiores de Cristo: o que o Decreto aos Armênios explica, dizendo que pelo batismo nos tornamos membros de Cristo e do corpo da Igreja: «per ipsum (baptismum) enim membra Christi ac de corpore efficimur EccJesiae» .

Daqui resulta que todos os batizados são membros de Cristo, mas em graus diversos: os justos estão-lhe unidos pela graça habitual e por todos os privilégios que a acompanham; os pecadores, pela fé e esperança; os bem-aventurados, pela visão beatífica. - Quanto aos infiéis, não são atualmente membros de seu Corpo místico; mas, enquanto estão na terra, são chamados a sê-lo; só os condenados estão para sempre excluídos deste privilégio.

Conseqüências deste dogma.

A) É sobre esta incorporação Cristo que se baseia a comunicação dos Santos: os justos da terra, as do Purgatório e os Santos do Céu fazem todos parte do corpo místico de Jesus, todos participam da sua vida, recebem a sua influência e devem amar-se e auxiliar-se mutuamente como membros dum mesmo corpo ; porquanto, diz-no-Io São Paulo, se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele, e se um membro é glorificado, todos se regozijam com ele: «Si quid patitur unum membrum, compatiuntur omnia membra; sive gloriatur unum membrum, congaudent omnia membra"

B) É por isso que todos os cristão são irmãos; doravante não há mais nem Judeu, nem Grego, nem homem livre nem escravo; somos todos em Cristo Jesus. Somos, pois, todos solidários, e o que é útil a um é aos outros, porquanto, seja qual for a diversidade dos dons e dos ofícios, o corpo todo aproveita do que há de bom em cada um dos membros, do mesmo modo que cada membro aproveita, por seu turno, dos bens do corpo. É ainda esta doutrina que explica o motivo por que Nosso Senhor dizer: o que fazeis ao menor dos meus, é a mim que o fazeis.

C) Daqui resulta que, segundo a doutrina de São Paulo, os cristãos são o complemento de Cristo: Deus, com efeito, deu-o por cabeça suprema à Igreja, que é seu corpo, a plenitude daquele que enche em todos. E na verdade, Jesus, perfeito em si mesmo, necessita dum complemento para formar o seu corpo místico: sob este aspecto não se basta a si mesmo, precisa de membros, para exercer todas as funções vitais.

E M. Oliver conclui «Emprestemos as nossas almas ao Espírito de Jesus Cristo, para que Ele cresça em nós. Se Ele encontra sujeitos dispostos, dilata-se, aumenta, difunde-se nos seus corações, e embalsama-os da unção espiritual de que Ele mesmo está embalsamado». - É assim que podemos e devemos completar a Paixão do Salvador Jesus, sofrendo como Ele sofreu, a fim de que esta Paixão, tão completa em si mesma, se complete ainda nos seus membros através do tempo e do espaço: Como se vê, pois, não há nada mais fecundo que esta doutrina sobre o Corpo místico de Jesus.

Conclusão: Devoção ao Verbo Encarnado

De tudo o que levamos dito sobre o papel de Jesus na vida espiritual, resulta que, para cultivar esta vida, devemos viver em união íntima, afetuosa, e habitual com Ele, por outros termos, praticar a devoção ao Verbo Encarnado: «Qui Manet in me et ego in eo, hic fert fructum multum; Aquele que permanece em mim e Eu nele, produz frutos abundantes»

É o que nos inculca a Santa Igreja, recordando-nos, ao fim do Cânone da Missa, que é por Ele que recebemos todos os bens espirituais, por Ele que somos vivificados e abençoados, por Ele, com Ele e n'Ele que devemos render toda a honra e glória a Deus Pai Todo-Poderoso, na unidade do Espírito Santo. É um programa completo de vida espiritual: tendo recebido tudo de Deus por Jesus Cristo, é por Ele que devemos glorificar a Deus, por Ele que devemos pedir novas graças, com Ele e n'Ele que devemos praticar todas as nossas ações.

Sendo Jesus o perfeito adorador de seu Pai, ou, como diz M. Olier, o religioso de Deus, o único que lhe pode oferecer homenagens infinitas, é evidente que, para tributarmos o devido culto à Santíssima Trindade, não podemos fazer nada melhor que unir-nos estreitamente a Ele, cada vez que queremos cumprir os nossos deveres de religião. O que é tanto mais fácil, quanto Jesus, sendo como é a cabeça dum corpo místico de que nós somos os membros, adora a seu Pai não somente em seu nome, mas em nome de todos aqueles que são incorporados nele, e põe à nossa disposição as homenagens que presta a Deus, permitindo-nos que nos apropriemos delas, para as oferecermos à Santíssima Trindade.

É igualmente com Ele e por Ele que mais eficazmente podemos pedir novas graças; porquanto Jesus, Sumo Sacerdote, não cessa de interceder por nós, «semper vivens ad interpellandum pro nobis» Até mesmo quando tivemos a infelicidade de ofender a Deus, Ele advoga nossa causa com tanto mais eloqüência quanto é certo que oferece ao mesmo tempo o seu sangue derramado por nós. Além disso, dá às nossas orações um valor tal que, se pedirmos em seu nome, isto é, apoiados nos seus merecimentos infinitos, temos a certeza de ser atendidos: «Amen, amen, dico bis, si quid petieritis Patrem in nomine meo, dabit vobis» O valor - seus méritos é, efetivamente, comunicado aos seus membros, e Deus pode recusar nada a seu Filho: «exauditus est pro sua reverentia"

Enfim, é em união com Ele que devemos praticar todas as nossas ações, tendo habitualmente, segundo uma bela expressão de M. Olie, Jesus diante dos olhos, no coração e nas mãos: - diante dos olhos, isto é, considerando-o como o modelo que devemos imitar, e perguntando-nos, como São Vicente de Paulo: Que faria Jesus, se estivesse em meu lugar? - no coração, atraindo a nós as suas disposições interiores, a sua pureza de intenção, o seu fervor, para praticarmos as nossas ações com seu espírito; - nas mãos, executando com generosidade, energia e constância as boas inspirações que Ele nos sugeriu.

Então será transformada a nossa vida, e viveremos da vida de Cristo:" Eu vivo, mas já não sou que e vivo, porque é Jesus que vive em mim» Glórias a Deus!!

(Depois veremos: Da Parte da Santissima Virgem na vida Cristã)

1 - A Vida da Graça - Um tesouro a adquirir
2 - Queda e Castigo
3 - Redenção
4 - Natureza da Graça
5 - Do Organismo da Vida Cristã
6 - União entre a alma e Deus
7 - Das Virtudes e dos Dons
8 - Da Graça Atual

sábado, 23 de julho de 2011

A Graça sobrepuja os Milagres



Por: M. J. Scheeben

"Não bastaria afirmar que a graça supera as coisas naturais, excede ela também aos milagres operados por Deus. Sabemos manifestar-se a graça divina de preferência nas obras de sua misericórdia. Onde mais se evidencia esta misericórdia é ao conferir Deus sua graça ao homem.

Vejamos como interpreta Santo Agostinho esta notável promessa do Salvador: "Os que nele creem farão coisas maiores do que aquelas que Ele próprio realizou na terra" Como exemplo disto — fala ele — poderia servir o caso de S. Pedro que, com sua sombra, curava os enfermos, coisa esta que não se lê de Nosso Senhor". Esta verdade brilha, porém, com maior clareza ainda, na obra da justificação, em que devem os fieis cooperar pessoalmente, tanto no que a eles se refere, como ao próximo, cada qual a seu modo. É certo não sermos nós que produzimos a graça, mas não é menos certo também que, com o auxílio de Deus, podemos nos preparar a recebe-la, fazendo-nos dignos dela, infundindo animo aos outros; podemos, numa palavra, operar coisas maiores que os milagres de Cristo.

Tanto para Deus como para os homens, a graça é mais gloriosa que os milagres. Pelo milagre, operado ordinariamente sobre a matéria, Deus restitui a saúde ou a vida. Pela graça, sua ação termina-se na alma, torna, por assim dizer, a cria-la, eleva-a sobre a própria natureza, deposita nela o germe da vida sobrenatural, reproduz-se nela, imprime-lhe a imagem de sua própria substância.

Não será porventura o mais estupendo milagre da Onipotência divina?

A graça supera a criação do céu e da terra; não se pode compara-la, senão com a eterna geração do próprio Filho de Deus. É ela, por isto, sobrenatural, grande, misteriosa, já que, segundo a frase de S. Leão, "nos faz participantes da geração de Cristo" (Sermo 21, 3. MPL 54,192)

Quando os santos operam milagres, deles se vale Deus como de intermediários, de modo algum intervindo o próprio poder deles. Quando, porém, nos dá a graca, exige Deus de nós uma cooperação mais íntima: quer que, com seu auxílio, nos preparemos a recebe-la; quer que a aceitemos, conservemos e aumentemos.

Dignidade maravilhosa que nos conferiu o Senhor! Uniu-se Ele à nossa alma como o esposo à esposa. Pode nossa alma, pela virtude que recebe, reproduzir em si a imagem divina, converter-se em filha de Deus! Admirável o poder concedido por Deus à sua Igreja, de comunicar, mediante seus ensinamentos e Sacramentos, a graça a seus filhos!

Poderás desejar coisa melhor e colaborar em obra mais bela? Queres realizar coisas grandiosas, que causem admiração, já não digo aos homens mergulhados em sua loucura, mas aos próprios anjos? Queres transformar-te em espetáculo para os anjos e o mundo? Trabalha por adquirir e aumentar a graça em ti e em teu próximo. Se conhecessem os homens a grandeza de sua atitude, quando, por um arrependimento sincero, rompem com o pecado e começam uma nova vida! Aí tendes obra mais grandiosa que ressuscitar um morto, ou tirar um homem do nada.

"Se Deus te fez homem, diz S. Agostinho, e tu,- bem entendido-, com a graça de Deus te fazes justo, realizas uma coisa melhor do que a produzida por Deus"

Se mediante um ato de arrependimento pudesses restituir a vida a teu irmão, serias tão cruel em não querer faze-lo? Por um ato de contrição podes ressuscitar, não já teu corpo, mas tua própria alma, e livra-la da morte eterna. E apesar disto vacilas, recusas o maravilhoso socorro oferecido por Deus!

Ensina-nos São João Crisóstomo que excede em muito ressuscitar uma alma ferida a ressuscitar um corpo morto. Com efeito, a não ser que esteja completamente cego, como pode preferir alguem levar uma vida dissipada, falgazã, a introduzir uma alma na vida eterna e na glória celeste? Se desejamos milagres para a conservação de nossa vida terrena, por que não colaboremos no milagre que restitui a vida da alma?

O arrependimento, embora de maravilhosa eficácia, não é o único meio de obter a graça; todas as boas obras sobrenaturais, realizadas em estado de graça, aumentam-na em nossas almas. Cada grau de graça adquirido coloca-nos muito acima de nossa natureza e nos une mais intimamente a Deus.

Se estivera em nossas mãos operar milagres materiais, ou realizar com toda a facilidade grandiosos trabalhos, por certo tudo faríamos para usar semelhante poder. Ser-nos-ia uma questão de honra não deixar improdutivo este capital. Imitaríamos aos poetas e artistas que se esforçam em produzir, constantemente, obras cada vez mais belas.

Consideremos a eficácia de toda ação para aumentar a graça e merecer a glória eterna; não deixemos passar um só instante sem amar a Deus, sem suplicar-lhe e adora-lo; envergonhemo-nos de dar um suspiro que não seja para Ele. Alegremo-nos com os Apóstolos por termos sofrido ao menos alguma coisa por Deus. Se compreendessemos quanto vale para aumentar nossa dignidade um só ato de virtude, buscaríamos todas as ocasiões propícias para realiza-lo. Ninguém seria tão cruel que recusasse curar um enfermo ou tornar rico um pobre se o pudesse, mediante uma modesta esmola. Não somos nós muito mais crueis para com nossa alma quando, a tão pequeno preço, lhe negamos um aumento da glória celeste?

Impregnemos todas as nossas ações do espírito de fé e de caridade, convencidos de que, com cada uma delas, adquirimos um grau superior de graça, coisa que excede em beleza a toda a natureza, e sobrepuja em grandeza aos próprios milagres.

Já a aquisição da graça é um dos maiores milagres.

Como não nos deixarmos, então, tomar de assombro por semelhante fenômeno? -Primeiramente, por ser ele invisível, e depois porque, diferentemente dos outros milagres que raras vezes e apenas excepcionalmente se dão, a graça se adquire segundo uma lei geral. Entretanto, seus caracteristicos acima lembrados deveriam torna-la-para nós mais preciosa. Não é visível, visto afetar a alma e não ao corpo; não podemos ve-la, como tão pouco vemos Deus, a quem ela nos une. Deixaria Deus de ser infinito, se, pela natureza chegassemos a ve-lo. Do mesmo modo a graça, caso se torne visível, deixaria de ser tao maravilhosa.

É -nos dada a graça segundo uma lei geral. Podemos adquiri-la mediante determinadas ações, manifestando-se melhor assim o amor e o poder de Deus; e esta portentosa obra da graça, não a realiza Deus, como nos milagres, parcamente em casos raros e excepcionais, em determinadas pessoas apenas, mas a faz acompanhar todos os nossos atos; desaparece ela, por assim dizer, na corrente de nossa atividade ordinária.

Senhor! Desprezaremos este dom, porque o ofereces a todos, continuamente e com tanta facilidade? Se a um só homem o concedesses e por uma única vez, como poderia sequer pensar em repeli-lo? Senhor, excite tua generosidade em nós a lembrança de tua bondade. Faze, Senhor que guardemos este dom com todas as nossas forças e honremos tua benevolência.

Fonte: As Maravilhas da Graça divina - Quadrante

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Chesterton


"Por último, e mais importante, é exatamente isto que explica o que é tão inexplicável para todos os críticos modernos da história do Cristianismo. Quero referir-me às monstruosas guerras em torno de pequenas questões de teologia, os arroubos de emoção acerca de um gesto ou de uma palavra. Era questão de apenas uma polegada, mas uma polegada é tudo quando se trata de estabelecer o equilíbrio. A Igreja não podia consentir um ínfimo desvio em algumas coisas, se quisesse continuar a sua grande e ousada experiência de equilíbrio irregular. Consentisse ela, uma vez, que uma idéia se tornasse menos poderosa, e logo outra idéia tornar-se-ia demasiadamente poderosa. Não era um rebanho de carneiros que o pastor cristão estava conduzindo, mas sim uma manada de touros e tigres, de idéias terríveis e doutrinas devastadoras, cada uma delas forte o bastante para retomar a falsa religião e devastar o Mundo.

Lembremo-nos que a Igreja foi, propositadamente, ao encontro de idéias perigosas: foi como um domador de leões. A idéia de um nascimento por obra e graça do Espírito Santo, a idéia da morte de um ser divino, do perdão dos pecados, da realização das profecias, tudo são idéias que – qualquer um pode ver -, não precisam mais do que um leve toque para tranformar em algo de blasfemo e feroz. Os artífices do Mediterrâneo deixaram um elo mais fraco, e logo o leão do pessimismo ancestral arrebentou as suas correntes nas esquecidas florestas do Norte. (Menção ao cisma protestante, iniciado na Alemanha, em face ao relaxamento moral e excessivo mundanismo da Corte Papal na Itália. Martinho Lutero não discerniu entre homens que erravam e a doutrina que era santa e a pregada por Cristo – Para reformar os costumes, funda sua doutrina na corrupção essencial da natureza humana, que retira do homem a liberdade, numa visão extremamente pessimista do homem – e deste cisma, veio a avalanche)

Podemos notar que, se um pequeno erro fosse cometido na doutrina, cometer-se-iam erros enormes e crassos no que diz respeito à felicidade humana. Uma frase mal expressa sobre a natureza do simbolismo teria despedaçado todas as melhores estátuas na Europa. Um deslize numa definição podia fazer parar todas as danças, fazer murchar todas as árvores de Natal ou quebrar todos os ovos de Páscoa. As doutrinas tinham de ser definidas dentro de rigorosos limites, de forma que o homem pudesse gozar as liberdades gerais que lhe eram concedidas.

Este é o impressionante romance da ortodoxia. Os homens habituaram-se, loucamente, a falar da ortodoxia como de alguma coisa pesada, estúpida e segura. Nunca houve coisa tão perigosa ou tão excitante como a ortodoxia. Era a sanidade: e ser são é mais dramático que ser louco. Era o equilíbrio de um homem atrás de cavalos lançados em louca correria, parecendo cair aqui e levanta-se acolá, mas conservando em todas as suas atitudes a graça da escultura e a precisão da aritmética.

A Igreja, nos seus remotos dias, avançou feroz e firme como um cavalo de guerra; no entanto, é absolutamente anti-histórico dizer-se que ela avançava como louca em direção a uma idéia, como acontece com o fanatismo vulgar. Ela sempre soube desviar-se para a direita ou para a esquerda, com o fim único de evitar enormes obstáculos. Por um lado, deixou a enorme massa do arianismo, escorada por todos os poderes do Mundo, para tornar o Cristianismo demasiadamente mundano. No instante seguinte, teve de se desviar novamente para fugir a um orientalismo que teria tornado o Cristianismo deveras dissociado deste mundo. A Igreja com sua ortodoxia nunca seguiu um caminho já aplanado, nem aceitou as convenções; A Igreja com sua ortodoxia nunca foi respeitável. Teria sido fácil, no calvinista do século XVII, ter caído no poço sem fundo da predestinação.

É fácil ser louco; é fácil ser herege. É sempre fácil deixar que cada época tenha a sua cabeça; o difícil é não perder a própria cabeça. É sempre fácil ser um modernista; assim como é fácil ser um snob. Cair em qualquer uma das ciladas explícitas de erro é exagero que um modismo depois de outro e uma seita depois de outra espalharam ao longo da trilha histórica do Cristianismo — isso teria sido de fato simples. É sempre simples cair; há um número infinito de ângulos para levar alguém à queda, e apenas um para mantê-lo de pé. Cair em qualquer um dos modismos, do agnosticismo à Ciência Cristã, teria de fato sido óbvio e sem graça. Mas evitá-los a todos tem sido uma estonteante aventura; e na minha visão a carruagem celestial voa esfuziante atravessando as épocas. Enquanto as monótonas heresias estão esparramadas e prostradas, a furiosa Verdade cambaleia, mas segue de pé"

quarta-feira, 20 de julho de 2011

1.2 A Igreja Católica: Construtora da Civilização - Introdução



***

Razão, Ordem e Evolução


Por Padre Léo Trese

Deus existe. Se não existisse, não haveria universo, não existiríamos nem você e nem eu. Se não existisse um Ser eterno e não-causado, que tivesse dado início a tudo, nada jamais teria acontecido.

Deus existe. Se não existisse, não poderíamos explicar nem sequer algo tão simples como o movimento. Nada se move se não for movido por outro. Quer se trate de um cortador de grama, que precisa de impulso dos meus braços; quer de trate dos meus braços, que precisam da ordem do meu cérebro para mover-se; quer se trate de minhas células cerebrais, que respondem a estímulos dados pelos sentidos...; ou ainda dos planetas a descreverem as suas órbitas, ou das estrelas em movimento a altíssimas velocidades pelo espaço: nada do que existe poderia mover-se se não existisse um Ser que, sem ter sido movido por ninguém, tenha dado (por assim dizer) o "pontapé inicial". Se esse Ser não existisse, não poderia sequer haver algo tão simples como o movimento.

Deus existe. Se não existisse, jamais poderíamos explicar o maravilhoso "projeto estrutural", a ordem que existe no Universo. O instinto da abelha, a delicadeza da rosa, a intrincada coordenação dos órgãos num organismo vivo: tudo isso seria inexplicável se não admitíssemos a existência de um Ser infinitamente sábio que o planejou - porque um plano sempre pressupôe um planejador. Quando o ateu, procurando escapar à evidência que o cerca por todos os lados, afirma que tudo, desde as asas da borboleta até a sucessão das estações, é fruto do acaso, tem de renunciar simultaneamente ao uso da razão para faze-lo.

Se puséssemos dez bolas de loteria numeradas de 1 a 10 naquela espécie de gaiola rotativa que usam, as fizéssemos girar e depois as tirássemos uma a uma, sem olhar, a probabilidade de que saíssem na ordem certa - 1,2,3, até 10 -, seria de uma em dez milhões. Pelo menos, é o que dizem os matemáticos, não eu. Ora bem, se partíssemos do princípio de que todo esse sistema tremendamente intricado de células, glândulas e órgãos que constitui um ser vivo é fruto do acaso, nem mesmo o mais sofisticado computador da última geração seria capaz de calcular as probabilidades de estar errada essa suposição....

Esta certo, mas...como fica a evolução? Quer dizer que toda essa impressionante teoria segundo a qual o Universo teria milhões e milhões de anos de idade e teria começado por ser uma enorme massa de gás incandescente (ou um minúsculo ponto de energia pura a temperaturas inimagináveis)? A terra não passaria de um ínfimo fragmento dessa enorme massa, que teria se esfriado ao longo de eras inteiras até se transformar em rocha sólida; na superfície desse planeta, umas reações químicas teriam dado origem à agua e à terra firme, e depois a moléculas orgânicas; na água, essas moléculas orgânicas ter-se-iam combinado, dando origem a uma forma de vida ainda muito simples, uma célula microscópica; dessa forma de vida primitiva, teriam derivado gradativamente todos os seres vivos, passando pelos invertebrados, pelos peixes, répteis, aves e mamíferos, até que a certa altura uma espécie de antropóide, hoje extinta, se teria transformado numa criatura pensante chamada Homo sapiens ou "ser humano"....que dizer de tudo isso?

Para já, comecemos por esclarecer o seguinte: boa parte da teoria da evolução continua ainda hoje a ser simplesmente uma “ teoria”, pois ainda não dispõe de evidências científicas suficientes; e boa parte parece merecer já a categoria de fato comprovado, estabelecido e aceito por inúmeros cientistas de boa reputação, muitos dos quais católicos. Afinal de contas, não há oposição alguma entre ser um bom católico e aceitar a teoria da evolução, desde que esta permaneça restrita aos limites da ciência, sem transbordar para o campo próprio da teologia. Deus é fonte de toda a verdade. E portanto, não pode haver contradição entre a verdade religiosa, retamente compreendida, e uma verdade científica solidamente estabelecida.

Mas um autêntico cientista não tenta responder à pergunta: “ Por que existiu a nuvem de gás primordial, a massa incandescente de átomos ou a energia inicial”? Poderá tentar explicar “como” era esse estado inicial, “como” surgiu a primeira célula viva, mas não pertence ao seu campo de atuação explicar o imenso abismo que separa a existência da não-existência, o animal do ser humano racional. A resposta para esse tipo de perguntas é de competência do filósofo e do teólogo. Quando um cientista procura explicações para esses fatos lançando mão de termos como “acaso”. “fortuita justaposição de átomos exatamente no momento apropriado e nas condições ideais”, está ultrapassando os limites da ciência, mas até do campo da razão...

Quanto a Deus, não há nenhuma razão para que não pudesse ter criado o Universo por meio de um processo evolutivo, se assim lhe pareceu melhor. Isso só nos permitiria admirar ainda mais a sua infinita grandeza. Se começou por criar uma massa informe de matéria, e imprimiu nessa matéria as leis ou potencialidades naturais (como se plantasse nessa massa as sementes das criaturas futuras) que a levariam a desenvolver-se, ao longo de bilhões de anos, de acordo com seu pleno criador, presente desde o início na sua mente divina – não seria por isso menos Criador, sê-lo-ia muito mais.

Fonte: A Sabedoria do Cristão

Veja:
1 - O Cristão e o descrente
2 - As Razões de nossa Esperança
3 - Deus existe? do nada, nada se cria

Depois veremos: Que é o Homem?