sábado, 6 de agosto de 2011

2.1 A Igreja Católica: Construtora da Civilização - Igreja e Ciência


Quem é Cristo?


Por Tihamer Toth

Cristo e o Homem

O escritor polonês Ferdynand Ossendowski, em suas viagens, observava de preferência a espiritualidade dos orientais. No livro: A Alma do Saara - descreve as impressões experimentadas durante uma excursão pela Argélia e Tunísia. Entre os episódios relatados, há um verdadeiramente desolador. Narra um encontro em terras africanas, de um francês com uma sacerdotisa pagã, que já tinha ouvido falar de Cristo e que incrivelmente acreditava n'Ele. Na sua lingua materna costumava chamar Cristo: Aissa.

Dizia a sacerdotisa: "Aissa não foi apenas profeta, foi também Deus. Quem é apenas um homem, não pode se esquecer completamente de si mesmo por amar aos outros. Só Deus é capaz, Aissa fez isso, portanto é Deus."

Neste momento, o europeu cético interrompeu: "Também existiram outros homens que sacrificaram a vida ou os bens pela felicidades dos irmãos." Respondeu a sacerdotisa:"Existiram, é verdade, mas estes tinham na vida: alegrias, felicidades, moradia, família, honras e fama; Aissa estava sozinho, portanto, tinha que ser Deus". Então a sacerdotisa pede ao cristão francês que lhe conte mais detalhes sobre Cristo: "Ensina-me como posso invocá-lo?" O europeu é obrigado a confessar: "Não posso satisfazer suas aspirações, porque eu também não sei rezar"

Como é triste e desolador esse episódio! Uma pagã pede informações sobre Jesus e um cristão não pode fornecer. Isto não seria tão triste, caso fosse uma exceção. Infelizmente, verificamos como cresce o número de cristãos - pertencentes a Cristo -, que pouco sabem a respeito; não o conhecem, não o amam e pior ainda, não vivem segundo sua santa vontade.

Crer que Jesus é Deus é o pilar que sustenta o edifício da fé, por isso as convicções religiosas devem ser inabaláveis. Com efeito, todas s manifestações religiosas: oração, assistência à Missa, frequência nos Sacramentos, observância dos Mandamentos, vida regrada e caritativa; tudo assenta sobre a fé em Deus e no Seu Filho.

Essa verdade: Cristo é Filho de Deus, é a essência do Cristianismo. Nela se funda toda a fé sobre: a Santíssima Trindade, a Virgem Imaculada, a Igreja, os Novíssimos, os Sete Sacramentos. No centro de todos os dogmas está Cristo, por isso temos o conceito cristão do mundo: cristocêntrico; quem não acredita na divindade de Jesus, não pode ser cristão.

Atualmente, vivemos em um mundo onde as bactérias se multiplicam, não somente nas ruas poluídas, mas também na atmosfera da vida espiritual. O ar das grandes cidades está contaminado, lixo pelas ruas, detritos espalhados pelo vento, cheiro de gasolina. Também a atmosfera da vida intelectual está infectada pelos sofismas filosóficos disseminados pelo mundo, pela lama das orientações anticristãs e pelo gás asfixiante que combate Cristo. Toda a vida atual: as relações sociais, as leituras, os divertimentos, tudo está contaminado. Os vírus que atacam a dignidade humana, a moral e a doutrina de Cristo, estão disseminados por toda a parte. Nenhum cristão está livre deste ar infectado, e é nossa obrigação combate-los.

Por isso, desejo falar sobre Cristo, a fim de que possam vencer as tentações contra a fé e os costumes. Alguns podem pensar: Eu já li o suficiente sobre Jesus! Não é verdade, dentro em breve perceberá como tão pouco os homens sabem acerca de Jesus, inclusive entre cristãos. Evidentemente muitos sabem que nasceu em Belém e morreu no Calvário; mas poucos penetram na riqueza dos ensinamentos divinos.

Conhecer mais Cristo significa ama-lo mais. Desejo que no final desta obra, o leitor exclame: Agora sei o que é ser cristão! Não somente um rótulo que herdei da família por tradição e sim a força que me faz abraçar Cristo.

Também conhecendo melhor Jesus, apreciaremos melhor o Pai, Cristo é o resplendor se sua glória e a expressão de sua substância (Hb 1,3). Ele mesmo disse: "Aquele que me viu, viu também o Pai"(Jo 14,9), embora ninguém possa perfeitamente nesta vida penetrar completamente neste mistério.

No Evangelho, lemos que, quando Jesus foi celebrar a Páscoa em Jerusalém, havia entre os peregrinos, alguns pagãos que buscavam Deus, e dirigindo-se a Filipe disseram: "Senhor, queremos ver Jesus!"(Jo 12,21). Filipe foi ter com André e ambos apresentaram o pedido ao Senhor. Desejamos ver Jesus! Ainda hoje o coração da humanidade formula o mesmo desejo. Quantas tentativas e caminhos inúteis não fizeram para encontrar uma vida tranquila, feliz e digna?

Neste livro vou tentar mostrar Jesus de uma maneira, que você jamais deseje se afastar dele, pois muitos O viram enquanto esteve na terra, porém não O encontraram. Judas conviveu durante três anos com Jesus, mesmo assim o traiu. Os sumos sacerdotes e os escribas viram Jesus, mas ficaram cegados pelo ódio. Pilatos viu e ouviu, depois o entregou aos carrascos. O povo aclamou-o com ramos e na sexta-feira pediu sua morte.

Nós também vemos Jesus, mas O encontramos? Na catequese ensinaram sobre Jesus. Quem é Jesus? O que sabemos sobre Ele? Temos amor por sua pessoa? Talvez descubramos um profundo abismo entre o modo de viver e a doutrina de Cristo.

Cristo! Consolo para quem sofre! Existe alguém que não tenha ainda passado por sofrimentos na vida? Cristo! Reconforto para os pecadores! Há quem nunca tenha cedido às inclinações perversas da natureza corrompida? Cristo! Alívio para o moribundo! Quem de nós poderá fugir da hora suprema? Senhor, tende piedade de mim, pois sou um pecador!

Nos sinos antigos era costume gravar a seguinte inscrição: Chamo os vivos, choro os mortos, sou para-raios. Isto se aplica perfeitamente ao nome Santíssimo de Jesus. Chama todos os vivos para a vida eterna: pequenos e grandes, sábios e ignorantes, pobres e ricos; chora os mortos: resgata a vítima do pecado mortal e conduz para a ressurreição; é para-raios, pois não há tentação infernal que o santo nome de Jesus não possa vencer. Agora, entende a razão da necessidade de conhecer Jesus.

O homem moderno pode viver de acordo com os princípios de Deus?

É indígno pensar que "antes tudo era mais fácil, pois eram outros tempos, com costumes diferentes". Não condiz com a mensagem cristã: deixar-se levar por fantasias, cabe com firmeza sustentar a roda do tempo, fornecendo soluções aos graves problemas do mundo atual, onde a divina Providência nos colocou. Quem deseja se doar inteiramente a Jesus, não resmunga de braços cruzados, mas à luz dos divinos ensinamentos busca a solução dos desafios de um mundo mergulhado em trevas. Não precisamos temer nosso século, afinal, as turbulências também fazem parte da Providência. O homem atual, filho de sua época, pode ser igualmente bom cristão. Moderno não significa seguir modismos, ser arrastado por pensamentos em voga, cabe analisar tudo pelo prisma do Evangelho, recolhendo somente o que é lícito.

É verdade que encontramos poucos valores verdadeiros e muito lixo. Não devemos desanimar, mas procurar o remédio, combatendo o mal com caridade e firmeza. Quem acolhe Cristo é otimista no meio do pessimismo. Entende que o vale de lágrimas nunca se converterá em paraíso; que a tecnologia jamais subsistirá a lei de Deus; que a ciência nunca será perfeita; que as doenças e a morte sempre estarão presentes; que a paz duradoura nunca existirá na terra; que a natureza humana decaída, sempre cometerá os mesmos pecados; que sempre haverá crises políticas e econômicas. Contudo acredita na humanidade, no progresso e no desenvolvimento; trabalha com força total para que o mundo esteja repleto da doutrina de Cristo, e o reino de Deus se estabeleça.

Eis a primeira condição do progresso. Não sabemos como o mundo se apresentará daqui a cem anos, porém trabalharemos sem desânimo. Ao homem pertence trabalhar; a Deus recompensar os nossos esforços. Essa é a posição que o cristão deve adotar neste mundo.

Nunca na história se reuniu tamanha multidão perante o rádio. No dia 12 de fevereiro de 1931, às cinco horas da tarde, o Papa Pio XI falou pela primeira vez diante do microfone da emissora do Vaticano, para transmitir os ensinamentos de Jesus ao mundo inteiro, no sentido literal da palavra." Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo"! Foi essa a primeira frase que se ouviu. No mesmo instante uma emissora misteriosa e inimiga transmitia sinais tentando impedir que o Vigário de Cristo se pronunciasse. Todos sabemos quem desejava confundir as palavras do Papa.(o autor alude aos comunistas)

No jornal de Viena, apareceu a charge que representava o globo terrestre com duas estações de rádio, a do Vaticano e a de Moscou. Embaixo estava escrito: Qual é a mais forte?

Esse é um tema vital da época atual: Quem é mais forte: Cristo ou os inimigos da Igreja? Onde vamos nos alistar: No Catolicismo ou no relativismo?

É questão de honra desfraldar a bandeira, todos devem saber a que partido pertencemos. Conde Estevão Széchenyi escreve: " Ser cristão é inegavelmente grande felicidade e dom magnífico do céu"

Estamos navegando no mar da vida, tremulando o estandarte da fé?

Fonte: Obra de Tihamer Toth - Bispo e escritor húngaro - que dedicou a vida entre os jovens e escreveu dezenas de obras. - Editora Formatto

Depois veremos: Como devemos olhar para Cristo

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Começa um novo dia

6,30

Por padre Leo Trese

Uma mão tateia em busca do despertador e dois pés saltam para o chão. Mais uma vitória: começa um novo dia. Tenho pensado algumas vezes que a salvação de um padre depende desses primeiros dez segundos que se seguem ao toque do despertador. É tão fácil dizermos para conosco: "Só mais cinco minutos"! Os cinco passam a quinze ou trinta, vem depois uma lavadela à gato e lá vai um doido a toda a pressa para o altar. E assim começa o trabalho do dia, apenas com as orações rituais murmuradas ao vestir os paramentos. No entanto, sei muito bem que somente a oração pode dar rítmo e sentido ao novo dia.

É realmente estranho como caímos no mesmo erro, manhã após manhã, sem nos apercebermos da sua infantilidade. Acertamos o despertador para uma hora antes da Missa, a fim de tranquilizarmos a nossa consciência, mas sabemos muito bem que não temos a menor intenção de levantar-nos pontualmente. Claro que isto não acontece a toda a gente, mas foi o que se passou comigo durante muito tempo, depois de ter saído do seminário. Enquanto ponho lâmina nova no barbeador (uma cara bem barbeada tem muito mais dignidade do que dez minutos mais de sono), recordo os primeiros anos de sacerdócio.

Não compreendo como podia dormir tanto, ao ponto de obrigar os fiéis a esperarem por mim para a Missa. Não consigo compreender como não percebia que a falta de oração me estava arrastando para a tibieza e a moleza espiritual. Fico estupefado só de pensar que me contentava com uma breve intenção formulada às pressas, ao sair da casa paroquial rumo à sacristia.

Era como um tolo que se julga dotado de grandes virtudes. De modo algum quero insinuar que agora sou um bom sacerdote, mas apenas que já fui pior. E provavelmente te-lo-ia sido muito mais se Deus e o meu bispo não se tivessem posto de acordo para nomear-me pastor de uma paróquia minúscula, onde tinha que dar a Comunhão às religiosas uma hora antes da missa. De estomago vazio, nem o rádio nem o jornal da manhã oferecem aliciante algum. Tendo assim uma hora pela frente sem nada que fazer, instalava-me no genuflexório do presbitério, e por isso a minha vida de sacerdote começou verdadeiramente aos trinta e um anos.

(Enquanto enxugo o rosto e fricciono levemente a cabeça, penso que nunca chegarei a ser canonizado: encontrarão um tônico capilar em meu quarto de asseio).

Por que tiveram que passar nove anos para aprender o que devia saber ao sair do seminário? Tinham-me insistindo na necessidade da oração, mas aparentemente não me convenci disso. Talvez os muros do seminário nos dessem uma falsa sensação de segurança. Deixamos aquelas paredes animados por um ímpito inicial que procedia do ambiente e julgávamos que essa energia espiritual procedia de dentro de nós. O pior já tinha passado e agora tudo correria facilmente. É verdade que tínhamos ouvido falar de sacerdotes que se tinham extraviados, mas pareciam-nos tão lendários como Lutero. Não podíamos imaginar que fossem sacerdotes jovens como nós, com a mesma confiança em si próprios, presunçosos - esta é a palavra.

Como é que se explica que homens já feitos, de vinte e quatro anos ou mais, deixássemos o seminário ainda em vias de formar-nos? Somos tentados a perguntar-nos (evidentemente só rumino estes pensamentos enquanto abotoo a batina) se os seminários não fariam melhor se nos deixassem amadurecer um pouco mais antes da ordenação. Não quero dizer que o ordenando não deva ser como uma criança na simplicidade da sua clara consciência. O que quero dizer é que não deva ser acriançado quanto aos seus deveres e responsabilidades.

Ao abrir a janela, saúda-me uma lufada de ar fresco da manhã. Os lilases que guarnecem a sacada estão quase em flor. Os toques da sineta, vigentes em muitas casas paroquiais, parecem-me a admissão tácita de possíveis falhas na pontualidade do padre. Sem pretender que essa regra seja supérflua, estarei errado em pensar que não devia ser necessária?
(A porta do convento está entreaberta. São sete horas e as Irmãs esperam-me).

Alegro-me de não ser bispo ou reitor de um seminário. Seja como for, gostaria de que houvesse um meio de podermos entrar na vida com uma piedade mais sólida e um sentido de responsabilidade mais desenvolvido. Gostaria de que não tivéssemos de aprender tanto por experiência....

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A Vida da Graça - da parte da Virgem Santíssima na vida cristã


É fora de toda a dúvida que não há mais que um só Deus e um Mediador necessário, Jesus Cristo: «Unus enim Deus, unus, et Mediator cominum, homo Christus Iesus». Mas aprouve à Sabedoria e Bondade divina dar-nos protetores, intercessores e modelos que estejam, ou ao menos pareçam estar mais perto de nós: são os Santos que, tendo reproduzido em si mesmos as perfeições divinas e as virtudes de Nosso Senhor, fazem parte do Seu corpo místico e se interessam por nós, que somos seus irmãos.

Honrá-los é honrar o próprio Deus neles, que são reflexo das suas perfeições: invocá-los é, em última análise, dirigir a Deus as nossas invocações, pois que pedimos aos Santos sejam nossos intercessores perante o Altíssimo; imitar as suas virtudes, é imitar a Jesus Cristo, já que eles mesmos não foram santos senão na medida em que produziram as virtudes do divino Modelo.

Esta devoção aos Santos, longe de prejudicar o culto de Deus e do Verbo Encarnado, não faz, pois, senão confirmá-lo e completá-lo. Como, porém, entre os Santos, a Mãe de Jesus ocupa um lugar à parte, exporemos qual seja o seu papel .

I. Da parte de Maria na vida cristã

1 - Fundamento da sua Missão. O papel de Maria depende da sua estreita união com Jesus, ou, por outros termos, do dogma da maternidade divina, que tem por corolário a sua dignidade e a sua missão de mãe dos homens.

A- É no dia da Encarnação que Maria é constituída Mãe de Jesus, Mãe dum Filho-Deus, Mãe de Deus. Ora, se bem repararmos no diálogo entre o Anjo e a Virgem, Maria é Mãe de Jesus, não somente enquanto este é pessoa privada, senão enquanto é Salvador e Redentor.« O Anjo não fala somente das grandezas pessoais de Jesus; é o Salvador, é o Messias esperado, é o Rei eterno da humanidade regenerada, cuja maternidade se propõe a Maria ... Toda a obra redentora está suspensa do Fiat de Maria. E disto tem a Virgem plena consciência. Sabe o que Deus lhe propõe. Consente no que Deus lhe pede, sem restrição nem condição; o seu Fiat responde à ampliação das proposições divinas, estende-se a toda a obra redentora». Maria é pois, a Mãe do Redentor, e, como tal, associada à sua obra redentora; e assim, tem na ordem da reparação o lugar que Eva teve na ordem da nossa ruína espiritual, como os Santos Padres o farão notar com Santo Ireneu.

Mãe de Jesus, Maria terá com as três divinas Pessoas as relações mais íntimas:

Será a Filha muito amada do Pai, e sua associada na obra da Encarnação; a Mãe do Filho, com direito ao seu respeito, ao seu amor, e até mesmo, na terra, à sua obediência; pela parte que terá nos seus mistérios, parte secundária, mas real, será a sua colaboradora na obra da salvação e santificação dos homens; será enfim o templo vivo, o santuário privilegiado do Espírito Santo, e, numa acepção analógica, a sua Esposa, neste sentido que, com Ele e em dependência dele, trabalhará em regenerar almas para Deus.

B -É igualmente no dia da Encarnação que Maria é constituída Mãe dos homens. Jesus, é o chefe da humanidade regenerada, a cabeça dum corpo místico, de que nós somos os membros. Ora Maria, Mãe do Salvador, gera-o todo inteiramente e, por conseguinte, como chefe da humanidade, como cabeça do corpo místico. Gera, pois, também todos os seus membros, todos aqueles que nele estão incorporados, todos os regenerados ou aqueles que são chamados a sê-lo. E assim, ao ser constituída Mãe de Jesus segundo a carne, é constituída ao mesmo tempo Mãe dos seus membros segundo o espírito. A cena do Calvário não fará senão confirmar esta verdade; no próprio momento em que a nossa redenção vai ser consumada pela morte do Salvador, diz este a Maria, mostrando-Ihe São João, e nele todos os seus discípulos presentes ou futuros: Eis aí teu filho e ao próprio São João: Eis aí a tua Mãe. Era declarar, segundo uma tradição que remonta até Orígenes, que todos os regenerados eram filhos espirituais de Maria. É este duplo título de Mãe de Deus e Mãe dos homens que deriva o papel que Maria desempenha em nossa vida espiritual.

2 – Maria Causa Meritória da Graça. Sabemos que Jesus é a causa meritória principal e em sentido próprio de todas as graças que recebemos. Maria, sua associada na obra da nossa santificação, mereceu secundariamente e somente de congruo (Esta expressão foi ratificada por São Pio X na Encíclica de 1904, em que declara que Maria nos mereceu de congruo todas as graças que Jesus nos mereceu de condigno), com mérito de conveniência, todas essas mesmas graças. Não as mereceu senão secundariamente, isto é, em dependência de seu Filho, e porque lhe conferiu o poder de merecer por nós. Mereceu-as, primeiro, no dia da Encarnação, no momento em que pronunciou o seu fiat. É que realmente a Encarnação é a Redenção começada, cooperar, pois, na Encarnação é cooperar na Redenção, nas graças que delas serão frutos, e por conseguinte, em nossa salvação e santificação.

E depois, no decurso de toda a sua vida, Maria, cuja vontade é em tudo conforme à de Deus, como à de seu Filho, associa-se à obra reparadora: É ela que educa a Jesus, que sustenta e prepara para imolação a vítima do Calvário; associada às suas alegrias como às suas provações, aos seus humildes trabalhos na casa de Nazaré, às suas virtudes, ela se unirá, por uma compaixão generosíssima, à Paixão e morte de seu Filho, repetindo o seu fiat ao pé da Cruz e consentindo na imolação daquele que ama indizivelmente mais que a si mesma, e o seu coração amante será trespassado espada de dor: «tuam ipsius animam pertransibit gladius» Que de merecimentos não adquiriu ela por esta imolação perfeita!

E continua a aumentá-los por esse longo martírio que padece depois da Ascensão de seu Filho ao céu: privada da presença daquele que fazia a sua felicidade, suspirando ardentemente pelo momento em que lhe poderá ser unida para sempre, e aceitando amorosamente essa provação, para fazer a vontade de Deus e contribuir para edificar a Igreja nascente, Maria acumula para nós inumeráveis merecimentos.

Os seus atos são tanto mais meritórios quanto mais perfeita é a pureza de intenção com que são praticados, «Magnificat anima mea Dominum», mais intenso o fervor com que cumpre em sua integridade a vontade de Deus «Ecce ancilla Domini, fiat mihi secundum verbum tu um», mais estreita a união com Jesus, fonte de todo o mérito. É certo que estes merecimentos eram antes de tudo para ela mesma e aumentavam o seu capital de graça e os seus direitos à glória; mas, em virtude da parte que tomava na obra redentora, Maria merecia também de congruo para todos, e, se é cheia de graça para si mesma, deixa transbordar essa graça sobre nós, segundo a expressão de São Bernardo:"Plena sibi, nobis superplena et supereffluens."

3 - Maria Causa Exemplar. Depois de Jesus, Maria é o mais belo modelo que é possível imitar: o Espírito Santo que, em virtude dos merecimentos de seu Filho, nela vivia, fez dela uma cópia viva das virtudes desse Filho: «Haec est imago Christi perfectissima, quam ad vivum depinxit Spiritus Sanctus». Jamais cometeu a mínima falta, a mínima resistência à graça, executando à letra o fiat mihi secundum verbum tuum. E, assim, os Santos Padres, em particular Santo Ambrósio e o Papa São Libério, representam-na como o modelo acabado de todas as virtudes, «caritativa e atenciosa para com todas as suas companheiras, sempre pronta a lhes prestar serviço, não dizendo nem fazendo nada que lhes pudesse causar o mínimo desgosto, amando-as a todas e de todas amada»

Baste-nos apontar as virtudes assinaladas no próprio Evangelho:

1) a sua fé profunda, que a levou a crer sem hesitação as coisas que o Anjo lhe anuncia da parte de Deus, fé de que a felicita Isabel, inspirada pelo Espírito Santo: «Feliz de ti que creste: Beata quae credidisti, quonicuam perficientur ea quae dicta sunt tibi a Domino»

2) a sua virgindade, que aparece na resposta ao Anjo; «Quomod: fiet istud, quoniam virtum non cognosco?» que mostra a sua firme vontade de permanecer virgem, ainda que fosse necessário para isso sacrifcar a dignidade de mãe do Messias;

3) a sua humildade, que resplandece na perturbação em que a lançam. Os elogios do Anjo, na declaração de ser sempre a escrava do Senhor no próprio momento em que é proclamada, Mãe de Deus, naquele Magnificat anima mea Dominum, que foi chamado o êxtase da sua humildade, no amor que mostra para com a vida oculta, quando, pela qualidade de Mãe de Deus, tinha direito a todas as honras;

4) o seu recolhimento interior que a leva a fixar no espírito e meditar silenciosamente tudo o que se refere a seu divino Filho. «Conservabat omnia verba haec, conferens in corde suo»

5) o seu amor para com Deus e para com os homens, que lhe faz aceitar generosamente todas as provações duma longa vida e sobretudo a imolação de seu Filho no Calvário e a longa separação desse Filho tão amado desde a Ascensão até o momento da sua morte.

Este modelo tão perfeito é, ao mesmo tempo, cheio de encanto: Maria é uma simples criatura como nós, é uma irmã, uma Mãe que nos sentimos estimulados a imitar, quando mais não fosse, para lhe testemunharmos o nosso reconhecimento, a nossa veneração, o nosso amor. E, depois, é modelo fácil de imitar, neste sentido, ao menos que Maria se santificou na vida comum, no cumprimento dos seus deveres de donzela, na vida oculta, nas alegrias como nas tristezas, na exaltação como nas humilhações mais profundas. Temos, pois, a certeza de estar em caminho perfeitamente seguro, quando imitamos a Santíssima Virgem: é o melhor meio de imitar a Jesus e obter a sua poderosa mediação.

4 –Maria Mediadora Universal da Graça. Há muito que São Bernardo formulou esta doutrina no texto tão conhecido: «Sic est voluntas eius qui totum nos habere voluit per Mariam». Importa determinar-lhe com precisão o sentido. É certo que Maria nos deu, duma maneira mediata, todas as graças, dando-nos Jesus, autor e causa meritória da graça. Mas, além disso, conforme o ensino, de dia para dia, mais comum , não há uma só graça, concedida aos homens, que não venha imediatamente de Maria, isto é, sem a sua intercessão. Trata-se, pois, aqui duma mediação imediata, universal, mas subordinada à de Jesus.

Para determinarmos com mais precisão esta doutrina, digamos com o Pe. de la Broise que «a ordem presente dos decretos divinos quer que todo o benefício sobrenatural concedido ao mundo seja outorgado com o concurso de três vontades, e que nenhum o seja de outra forma. É, em primeiro lugar, a vontade de Deus, que confere todas graças: depois, a vontade de Nosso Senhor Jesus Cristo, mediador, que as merece e obtém com todo o rigor de justiça, por Si mesmo; enfim, a vontade de Maria, mediadora secundária, que as merece e obtém com toda a conveniência, por Nosso Senhor Jesus Cristo». Esta mediação é imediata, neste sentido que, para cada graça concedida por Deus, Maria intervém pelos seus méritos passados ou pelas suas orações atuais; isto porém, não implica necessariamente que a pessoa que recebe estas graças deva implorar o socorro de Maria, a qual bem pode intervir, sem que ninguém lho peça.

É mediação universal, estendendo-se a todas as graças concedidas aos homens desde a queda de Adão; fica, porém, subordinada à mediação de Jesus, neste sentido que Maria não pode merecer ou obter graças senão pelo seu divino Filho; e assim, a mediação de Maria não faz mais que realçar o valor, e fecundidade da mediação de Jesus.

Esta doutrina acaba de ser confirmada pelo Ofício e Missa próprios em honra de Maria Mediadora, concedidos pelo Papa Bento XV às igrejas da Bélgica e a todas as da Cristandade que os pedirem. É, pois, doutrina segura, que podemos utilizar na prática e que não pode deixar de nos inspirar grande confiança em Maria.

Conclusão: Devoção à Santíssima Virgem

Desempenhando Maria papel tão importante em nossa vida espiritual, devemos ter para com Ela grandíssima devoção. Esta palavra quer dizer dedicação, e dedicação quer dizer dom de si mesmo. Seremos, pois, devotos de Maria, se nos dermos completamente a Ela, e, por Ela, a Deus. Nisto não faremos senão imitar o próprio Deus que se nos dá a nós e nos dá o Seu Filho por intermédio de Maria. Daremos a nossa inteligência pela veneração mais profunda, a nossa pela confiança mais absoluta, e nosso coração pelo amor mais filial, inteiramente todo o nosso ser pela imitação mais perfeita, que for possível, da suas virtudes.

A) Veneração Profunda. Esta veneração baseia-se na dignidade de Mãe de Deus e nas conseqüências que daí dimanam. E, com efeito, jamais nos será possível estimar demasiadamente Aquela que o Verbo Encarnado, venera como sua Mãe, que o Pai contempla com amor como sua Filha muito amada e que o Espírito Santo considera como seu templo de predileção.

O Pai trata-a com o maior respeito, enviando-lhe um Anjo que a saúda cheia de graça, e pede-lhe o seu consentimento na obra da Encarnação, à qual tão intimamente a quer associar; o Filho respeita-a, ama-a como Mãe e obedece-lhe; o Espírito Santo vem a Ela e nela tem as suas complacências. Venerando a Maria, não fazemos, pois, senão associar-nos às três divinas Pessoas e estimar o que Elas estimam. Há sem dúvida excessos que é mister evitar, particularmente tudo aquilo que porventura tendesse a colocá-la a par de Deus, ou a fazer dela a fonte da graça. Mas, enquanto a consideramos como criatura, que não tem grandeza, nem santidade, nem poder, senão na medida em que Deus lho confere, não há excesso que recear: é Deus que veneramos nela.

Esta veneração deve ser maior que a que temos para com os Anjos e santos, precisamos porque ela, pela sua dignidade de Mãe de Deus, pelo seu múnus de Mediadora, pela sua santidade, sobrepuja todas as criaturas. E, assim, o seu culto não obstante ser culto de dulia e não de latria é chamado com razão culto de hiperdulia, pois é superior ao que se tributa aos Anjos e Santos.

B)Confiança absoluta, fundada no poder e bondade de Maria.

- Este poder vem, não dela mesma, mas do seu poder de intercessão, já que Deus não quer recusar nada de legitimo àquela que venera e ama acima de todas as criaturas. Nada mais eqüitativo: tendo Maria subministrado a Jesus aquela humanidade que lhe permitiu merecer, tendo colaborado com Ele pelas suas ações e sofrimentos na obra redentora, é conveniente que tenha parte na distribuição dos frutos da Redenção; Jesus não recusará, pois, nada que ela pedir de legítimo, e assim se poderá dizer que ela é onipotente pelas suas súplicas omnipotentia supplex.
- Quanto à sua bondade, essa é a de Mãe que transfere para nós, membros de Jesus Cristo, a afeição que tem para com seu Filho; de Mãe que, tendo-nos dado à luz na dor, entre as angústias do Calvário, nos terá tanto mais amor quanto mais lhe custamos. Por conseguinte a nossa confiança para com Ela será inabalável e universal.

Inabalável, a despeito das nossas misérias e faltas. É que, na verdade, Maria é Mãe de misericórdia, mater misericordiae, que não tem que se ocupar de justiça, mas foi escolhida para exercer antes de tudo a compaixão, a bondade, a condescendência: sabendo que nos achamos expostos aos ataques da concupiscência, do mundo e do demônio, tem compaixão de nós, que não cessamos de ser seus filhos, ainda quando caímos em pecado. E assim, tanto que manifestamos o mínimo sinal de boa vontade, o desejo de voltar a Deus, ela nos acolhe com bondade; muitas vezes, até, é ela que, antecipando-se a esses bons movimentos, nos alcançará as graças que os excitarão em nossa alma. A Igreja compreendeu-o tão bem que instituiu, para certas dioceses, uma festa sob esta invocação que, à primeira vista, parece estranha, mas, na realidade é perfeitamente justificada, do Coração Imaculado de Maria, refúgio dos pecadores; precisamente porque é Imaculada e jamais cometeu a menor falta, é que Maria tem mais compaixão dos seus pobres filhos que não gozam, como Ela, do privilégio da isenção da concupiscência.

Universal, isto é, deve estender-se a todas as graças de que precisamos, graças de conversão, de progresso espiritual, de perseverança final, graças de preservação no meio dos perigos, das angústias, das dificuldades mais graves que se possam apresentar.

É esta confiança que recomenda tão instantemente São Bernardo «Se se levantam as tempestades das tentações, se vos encontrais no meio dos escolhos das tribulações, erguei os olhos para a estrela do mar, chamai a Maria em vosso auxílio; se sois sacudidos à mercê das vagas da soberba, da ambição, da maledicência, da inveja, olhai para a estrela, invocai a Maria. Se, perturbados pela grandeza dos vossos crimes, confusos pelo estado miserável da vossa consciência, transidos de horror com o pensamento do juízo, começais a soçobrar no abismo da tristeza e do desespero, pensai em Maria. No meio dos perigos, das angústias, das incertezas, pensai em Maria, invocai a Maria. A sua invocação, o pensamento dela não se afastem nem do vosso coração, nem dos vossos lábios; e, para obterdes mais seguramente o auxílio das suas preces, não vos descuideis de imitar os seus exemplos. Seguindo-A, não vos extraviais; suplicando-A, não desesperais; pensando nela, não vos perdeis. Enquanto Ela vos tem de sua mão, não podeis cair; sob a sua proteção, não tendes nada que temer; sob a sua guia, não há cansaço; com o seu favor, chega-se seguramente ao termo». E, como temos constantemente necessidade de graça, para vencer os nossos inimigos e progredir na virtude, devemos dirigir-nos muito amiúde àquela que tão justamente é chamada Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

C) À confiança juntaremos o amor, amor filial, cheio de candura, simplicidade, ternura e generosidade. Mas é seguramente a mais amável das mães, pois tendo-A Deus destinado para ser Mãe de seu Filho, lhe deu todas as qualidades que tornam uma pessoa amável: a delicadeza, a prudência, a bondade, a dedicação da mãe. É a mais amante, visto que o seu coração foi criado expressamente para amar um Filho-Deus e amá-lo com a possível perfeição. Ora esse amor que Ela tinha para com seu Filho, transpassa para nós que somos membros vivos desse divino Filho, sua extensão e complemento. E assim, esse amor resplandece no mistério da Visitação, em que Ela se apressa a levar a sua prima Isabel aquele Jesus que em seu seio e que, só pela sua presença, santifica toda a casa; nas Bodas de Caná, onde, atenta a tudo o que se passa, intervém junto de seu Filho, para evitar aos jovens esposos uma dolorosa humilhação; no Calvário, onde consente em sacrificar o que tem de mais caro, para nos salvar; no Cenáculo, onde exercita o seu poder de intercessão, para obter aos Apóstolos maior abundância dos dons do Espírito Santo.

Se Maria é a mais amável e a mais amante das mães, deve ser a mais amada. E, na verdade, é este um dos seus privilégios mais gloriosos; em toda a parte, onde Jesus é conhecido e amado, é o também Maria. Não se separa a Mãe do Filho; e, sem jamais se esquecer a diferença um e outro, envolvem-se na mesma afeição, posto que em grau diferente: ao Filho tributa-se o amor que é devido a Deus, a Maria, o que se deve à Mãe dum Deus :amor terno, generoso, dedicado, mas subordinado ao amor de Deus. É amor de complacência,que se goza das grandezas, virtudes e prerrogativos de Maria, repassando-as amiúde pela memória, admirando-as, comprazendo-se nelas e dando-lhe o parabém de a vermos tão perfeita. Mas é também amor de benevolência,que deseja sinceramente que o nome de Maria seja mais conhecido e amado, que ora para que se estenda a sua influência sobre as almas, e à oração ajunta a palavra e ação. É amorfilial, cheio de ilimitada confiança e simplicidade, de ternura e dedicação, chegando até àquela intimidade respeitosa que a mãe permite a seu filho. É e sobretudo amor de conformidade, que se esforça por conformar em todas as coisas a sua vontade com a de Maria e, por esse modo, com a de Deus, já que a união das vontades é o sinal mais autêntico da amizade. É o que nos leva à imitação da Santíssima Virgem.

D) A imitação é, com efeito, a homenagem mais delicada que se lhe pode tributar; é proclamar não somente com palavras, senão com atos, que Ela é um modelo perfeito, cuja imitação é para nós suprema ventura. Como, sendo Maria uma cópia viva de seu Filho, nos dá o exemplo de todas as virtudes. Aproximar-se dela é aproximar-se de Jesus; e por isso é que não podemos fazer nada mais excelente do que estudar as sua virtudes, meditá-las amiúde, esforçar-nos por as reproduzir.

Para melhor o alcançarmos, não podemos seguir método mais eficaz do que praticar todas e cada uma das nossas ações por Maria, com Maria e em Maria; per Ipsam etc cum Ipsa, et in Ipsa.

Por Maria, isto é, pedindo por meio dela as graças de que precisamos para a imitar, passando por Ela para ir a Jesus, ad Iesum per Mariam. Com Maria, isto é, considerando-A como modelo e colaboradora, perguntando-nos muitas vezes: Que faria a Mãe Santíssima, se estivesse em meu lugar? E pedindo-lhe humildemente que nos auxilie a conformar as nossas ações com os seus desejos. Em Maria na dependência desta boa Mãe, compenetrando-nos dos seus desígnios, das suas intenções, e fazendo as nossas ações, com Ela, para glorificar a Deus: Magnificat anima mea Dominum.

É com este espírito que havemos de recitar, em honra da Senhora, a Ave-Maria e o Angelus que lhe relembram a cena da Anunciação e o seu título de Mãe de Deus; o Sub tuum praesidium, que é o ato de confiança naquela que nos protege no meio de todos os nossos perigos; o Domina mea, que é o ato de entrega completa nas suas mãos, pelo qual lhe confiamos a nossa pessoa, as nossas ações e os nossos méritos; e sobretudo o Terço ou o Rosário, que unido-nos aos seus mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos, nos permite santificar em união com Ela e com Jesus, as nossas tristezas e as nossas glórias. O Officium da Santíssima Virgem é, para as pessoas que o podem recitar, o equivalente do Breviário, e relembrar-lhes muitas vezes ao dia as grandezas, a santidade e a missão santificadora desta Boa Mãe.

Ato de Consagração total a Maria

Natureza e extensão deste ato. É um ato de devoção que contém todos os demais. Tal qual o expõe São Luís Grignion de Montfort, consiste em se dar inteiramente a Jesus por Maria, e compreende dois elementos: um ato de consagração, que se renova de tempos a tempos, e um estado habitual que nos faz viver e operar sob a dependência de Maria. O ato de consagração, diz São Luís Grignion, «consiste em se dar um todo inteiramente, em qualidade de escravo, a Maria e a Jesus por Ela». Ninguém se escandalize do termo escravo, ao qual se deve tirar todo o sentido pejorativo, isto é, toda a idéia de coração; este ato, longe de implicar violência, é a expressão do amor mais puro. Não se conserve, pois, senão o elemento positivo, tal qual o explica o Bem-aventurado: Um simples servo ou criado recebe salário, fica livre de deixar o patrão e não dá mais que o seu trabalho, não dá a sua pessoa, os seus direitos pessoais, os seus bens; um escravo consente livremente em trabalhar sem salário; confiando no senhor, que assegura sustento e abrigo, dá-se para sempre, com todos os seus recursos, a sua pessoa e os seus direitos, para viver em completa dependência dele.

Para fazer aplicação às coisas espirituais, o perfeito servo de Maria, dá-lhe, e por Ela, a Jesus:

a) O corpo, com todos os seus sentidos, não conservando senão o uso, e obrigando-se a não se servir deles senão conforme o beneplácito da Santíssima Virgem ou de seu Filho: aceita de antemão todas as disposições providenciais relativas à sua saúde, enfermidade, vida e morte.

b) Todos os bens de fortuna, não usando deles senão sob a dependência de Maria, para sua glória e honra de Deus.

c) A alma com todas as suas formalidades, consagrando-as ao serviço de Deus e do próximo, sob a direção de Maria, e renunciando a tudo que pode pôr em risco a nossa salvação e santificação.

d) Todos os bens interiores e espirituais, merecimentos, satisfações e o valor impetratório das boas obras, na medida em que estes bens são alienáveis.

Expliquemos este último ponto:

1) Os nossos méritos propriamente ditos (de condigno), pelos quais merecemos para nós mesmos aumento de graça e de glória, são inalienávis; se, pois, os damos a Maria, é para que Ela os conserve e aumente, não para que Ela os aplique a outros. Mas os méritos de simples conveniência (de congruo), como podem ser oferecidos por outrem, deixamos que Maria disponha deles livremente.

2) O valor satisfatório dos nossos atos, incluindo as indulgências, é alienável, e deixamos a aplicação deles à Santíssima Virgem. (S. Thom., Supplement, q.XIII, a.2).

3) O valor impetratório, isto é, as nossas orações e as boas obras enquanto gozam deste mesmo valor, podem ser-lhe entregues e de fato o são por este ato de consagração.

Uma vez feito este ato, não podemos dispor mais destes bens sem a permissão da Santíssima Virgem; mas podemos e por vezes devem rogar-lhe se digne, conforme o seu beneplácito, dispor deles em favor das pessoas a que nos ligam obrigações particulares. O meio de tudo conciliar é oferecer-lhe, ao mesmo tempo, não somente a nossa pessoa e os nossos bens, mas todas as pessoas que nos são caras: «Tuus totus sum, omnia mea tua sunt, et omnes mei tui sunt»; deste modo a Santíssima Virgem servirse-á dos nossos bens e sobretudo dos seus tesouros e dos de seu Filho, para socorrer essas pessoas que, assim, longe de perderem, só ganharão com a nossa consagração à Santíssima Virgem.

A excelência deste ato. É um ato de confiança absoluta, já excelente como tal, mas que ademais contém os atos das mais belas virtudes.

1) Um ato de religião profunda para com Deus, Jesus e Maria: com ele, efetivamente reconhecemos o supremo domínio de Deus, o nosso próprio nada, e proclamamos de todo o coração os direitos que Deus deu a Maria sobre nós.

2) Um ato de humildade, pelo qual, reconhecendo o nosso nada e a nossa impotência, nos desapossamos de tudo quanto Deus Nosso Senhor nos deu, restituindo-lhe pelas mãos de Maria, de quem, depois dele e por Ele, tudo recebemos.

3) Um ato de amor cheio de confiança, pois que o amor é o dom de si mesmo, e, para se dar, é necessária confiança perfeita e fé viva.

Pode-se, pois, dizer que este ato de consagração se é bem feito, freqüentemente renovado de coração, e posto em prática, é mais excelente ainda que o ato heróico, pelo qual não se abandona mais que o valor satisfatório dos próprios atos e as indulgências que se ganham.

Os frutos desta devoção. Derivam da sua natureza.

1) Por este meio glorificamos a Deus e a Maria do modo mais perfeito, pois lhe damos tudo o que somos e tudo o que temos, sem reserva e para sempre; e isto fazemo-lo da maneira que lhe é mais agradável, seguindo a ordem estabelecida pela sua sabedoria, voltando a Ele pelo caminho que Ele seguiu para vir a nós.

2) Por este meio asseguramos outrossim a nossa santificação pessoal. É que, na verdade, Maria, vendo que nós lhe entregamos a nossa pessoa e bens, sente-se vivamente estimulada a ajudar a santificar aqueles que são, por assim dizer, propriedade Sua. Obter-nos-á, pois, graças abundantíssimas, para nos permitir aumentar os nossos pequenos tesouros espirituais que são seus, e para os conservar e fazer frutificar até o momento da morte. Para isso usará tanto da autoridade do seu crédito sobre o coração de Deus, como da superabundância dos seus méritos e satisfações.

3) Enfim a santificação do próximo, e sobretudo as almas que nos estão confiadas, não pode deixar de lucrar com isto; confiando a Maria a distribuição dos nossos méritos e satisfações segundo o seu beneplácito, sabemos que tudo será empregado da maneira mais acertada; Ela é mais prudente, previdente e dedicada que nós; por conseguinte, os nossos parentes e amigos só podem lucrar com isso.

Objeta-se que por este ato alienamos todo o nosso haver espiritual, sobretudo as nossas satisfações, as indulgências e sufrágios que poderiam oferecer por nós, e que assim poderíamos ficar longos anos no purgatório. Em si, é verdade; mais é uma questão de confiança: temos nós, sim ou não, mais confiança em Maria que em nós mesmos e em nossos amigos? Se sim, não receemos nada: Ela terá cuidado da nossa alma e dos nossos interesses, melhor do que nós o poderíamos fazer; se não, não façamos este ato de consagração total, de que poderíamos a vir mais tarde a arrepender-nos. Em todo o caso, não se deve fazer este ato senão depois de madura reflexão, e de acordo com o próprio diretor.

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Segundo, TANQUEREY, Adolph: A Vida Espiritual Explicada e Comentada. Anápolis: Aliança Missionária Eucarística Mariana, 2007. pgs. 123 -135).

Depois veremos: Da parte do Homem na vida cristã

1 - A Vida da Graça - Um tesouro a adquirir
2 - Queda e Castigo
3 - Redenção
4 - Natureza da Graça
5 - Do Organismo da Vida Cristã
6 - União entre a alma e Deus
7 - Das Virtudes e dos Dons
8 - Da Graça Atual
9 - Da parte de Jesus Cristo na vida cristã
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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Chesterton



"Na vida é preciso alguma fé, até mesmo para que possamos aprimorá-la e para alcançarmos a satisfação, é preciso sentirmo-nos de alguma forma insatisfeitos com a maneira como as coisas são; e para possuirmos o contentamento e o descontentamento necessários, não nos bastará o equilíbrio óbvio dos estóicos. A mera resignação não possui a gigantesca leveza do prazer, nem a soberba intolerância da dor. Há uma objeção vital a ser feita àquele corriqueiro conselho se suportar a dor e os desapontamentos com um sorriso no rosto. Quem se limita a suportar a dor não se mostra sorridente. Os heróis gregos não são sorridentes, as gárgulas, sim – porque são cristãs*. (*Condutos por onde escorria a água dos telhados nas igrejas góticas, esculpidas em forma de demônios e seres fantásticos)

E quando um cristão está satisfeito, está (em sentido mais exato) extremamente satisfeito; o seu prazer é extremo. Cristo profetizou toda a arquitetura gótica na hora em que algumas pessoas nervosas e respeitáveis (como aquelas que agora protestam contra as pianolas) protestavam contra a gritaria dos desordeiros de Jerusalém. Jesus disse: “Se estivésseis calados, as próprias pedras haveriam de gritar”. Sob o impulso do Seu espírito, levantaram-se, como um coro clamoroso, as fachadas das catedrais medievais, cheias de gárgulas a gritar, de bocas abertas; A profecia se cumpriu: "as próprias pedras gritaram”

Revista In Guardia -




Nasceu hoje, para a glória de Deus - a Revista In Guardia. Nova revista católica para baixar ou ler on line

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Neste dia de Santo Afonso de Ligório, o grande pregador e defensor das coisas do alto, só podemos glorificar a Deus, por mais este instrumento de evangelização.


Santo Afonso Maria de Ligório

Hoje - dia 1 de Agosto, a Igreja comemora este santo maravilhoso, que soube de maneira clara e objetiva, falar do amor de Deus e de como nós, seus filhos, podemos neste mundo chegar à perfeição, conformando nossa vontade à Sua vontade, que é sempre soberana e amorosa.

Ele nos diz: "A criação é obra do amor. Certamente, antes da Encarnação do Verbo, o homem podia duvidar que Deus o amava com ternura; porque, a rigor, a verdade desse fato, surpreendente e incrível, não era coisa que podíamos compreender na ordem natural. Mas depois que Ele nos revelou o seu segredo, numa epifania de sangue, depois da morte de Jesus Cristo, quem poderia duvidar disso? Agora que a luz iluminou o nosso caminho compreendemos que, em todas as partes, Ele nos envolve com o Seu amor irresistível"

Santo Afonso de Ligório - Rogai por nós!