quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Mitos Litúrgicos



Autor: Francisco Dockhorn

Revisão teológica: Dom Antonio Carlos Rossi Keller, Bispo da Diocese de Frederico Westphalen-RS

Retirado do site: Reino da Virgem

Publicação original: 11 de Fevereiro de 2009, 151º aniversário das aparições da Santíssima Virgem em Lourdes


Mito 5: "A noção da Missa como Sacrifício é ultrapassada"

Não é.

O Sagrado Magistério da Igreja, por graça do Espírito Santo, é infalível em matéria de fé e moral (Cat., n.2035). Por isso, a fé católica não muda.

A Santa Missa é a Renovação do Único e Eterno Sacrifício de Nosso Senhor, oferecido pelas mãos do sacerdote. Diz o Catecismo da Igreja Católica (n. 1367): "O sacrifício de Cristo e o sacrifício da Eucaristia são um único sacrifício."

O Catecismo anterior, publicado pelo Papa São Pio X em 1905, afirma (n. 652-654): "A santa Missa é o sacrifício do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo, oferecido sobre os nossos altares, debaixo das espécies de pão e de vinho, em memória do sacrifício da Cruz. (...) O Sacrifício da Missa é substancialmente o mesmo que o da Cruz, porque o mesmo Jesus Cristo, que se ofereceu sobre a Cruz, é que se oferece pelas mãos dos sacerdotes seus ministros, sobre os nossos altares, mas quanto ao modo por que é oferecido, o sacrifício da Missa difere do sacrifício da Cruz, conservando todavia a relação mais íntima e essencial com ele. (...) Que diferença, pois, e que relação há entre o Sacrifício da Missa e o da Cruz? Entre o Sacrifício da Missa e o sacrifício da Cruz há esta diferença e esta relação: que Jesus Cristo sobre a cruz se ofereceu derramando o seu sangue e merecendo para nós; ao passo que sobre os altares Ele se sacrifica sem derramamento de sangue, e nos aplica os frutos da sua Paixão e Morte."

Curiosidade: o Papa Bento XVI afirmou, no dia 09 de Outubro de 2006, que o homem contemporâneo "perdeu o sentido do pecado". Ora, se não há pecado, qual a necessidade de um Sacrifício Propiciatório? Creio que isso explica muitas coisas...

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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O Exame Particular



Por Padre Leo Trese

11,45

Neste interlúdio tão agradável de quinze minutos livres, lamentando pela milésima vez ter sido tão materialista em assuntos espirituais, entro na sacristia.

Sempre me tocou aprender do modo mais difícil, à força de pancadas.

Apesar dos diretores do seminário e dos teólogos de ascética, tive que descobrir por mim mesmo que ou meditamos ou perecemos. Mais tempo ainda levarei a admitir a necessidade do exame de consciência. Considerava-o privativo das freiras e dos seminaristas, deslocado na vida de um sacerdote cheio de afazeres. Pouco a pouco, no entanto, fui percebendo que a meditação, só por si, não é suficiente. As boas resoluções esquecem-se depressa.

Às sete da manhã parecia-me estar flutuando em outro mundo, mas às sete da tarde sentia-me muito preso a este. Era evidente que meus esforços espirituais tinham o mesmo defeito do meu futebol: Falta de fôlego.

Enquanto os meus joelhos tratam de apoiar-se comodamente nos degraus do altar, penso maravilhado no poder da graça divina, que consegue abrandar uma cabeça tão dura como a minha. Por fim, resolvi fazer todos os dias o meu exame de consciencia. Foi um esforço que se salvou do fracasso e do desleixo por uma margem muito estreita, mas que talvez só fosse estreita na aparencia, já que essa margem era nem mais nem menos a graça de Deus.

A princípio, apresentaram-se duas dificuldades.

A primeira, que tardei em reconhecer, foi a minha própria presunção e ougulho. Esses poucos minutos pareciam-me ridiculamente longos. Coisa estranha! Era-me extremamente fácil passar uma hora refletindo sobre o lado bom dos meus supostos talentos e façanhas, e não era capaz de preencher cinco minutos pensando nos meus defeitos.

Ainda hoje coro de vergonha quando me lembro de que, as vezes, tinha que rezar uma ou outra dezena do terço durante o exame, porque não encontrava nada de especial em que pensar! Felizmente, persisti nessa prática o tempo suficiente para que o vapor se dissipasse do espelho e eu começasse a ver-me tal como era.

Compreendo agora porque passei tanto tempo procurando esquivar-me: o meu velho compadre, o eu, tinha o pressentimento e o pavor do escandalo que podia rebentar. Não é agradável ser-se apanhado em mentira, mesmo que seja uma só vez. Mas esse guia severo e impiedoso chamado exame surpreendia-me sempre quando mais me sentia enlevado nas minhas cômodas ilusões.

A segunda dificuldade consistiu no velho e capcioso pretexto que se pode resumir numa frase: "muito ocupado". Fosse o que fosse que estivesse fazendo antes do almoço, quer se tratasse de uma visita paroquial, de um trabalho na secretaria ou de uma simples conversa com uma visita, sempre me parecia impossível livrar-me antes da hora exata de sentar-me a mesa.

Soava o Angelus, e onde encontrar tempo para o exame? A dificuldade resolveu-se muito simplesmente quando me ocorreu a idéia (obrigado meu Deus) de atrasar quinze minutos a hora do almoço e passar esse tempo na igreja. Foi tão fácil!

Agora encerro os meus trabalhos da manhã, não ao meio-dia, mas às 11:45. É surpreendente verificar como a visita mais persistente se retira de boa vontade quando lhe digo: "Agora tenho que ir a igreja"; estou certo de que sai menos descontente do que se lhe dissesse: "São horas do meu almoço".

"Muito ocupado"! é um argumento que ainda não consegui abolir por completo. Vez por outra, tenho que fazer disso tema do meu exame. Muito ocupado para cumprir a minha única obrigação, que é santificar-me?

Será possível que a minha gente perca alguma coisa por eu reservar parte do meu tempo para tentar ser melhor sacerdote? Estou mergulhado em reuniões, planos e atividades. Todas as noites a luz fica acesa até altas horas no salão paroquial. Mobilizei todos os membros da paróquia, exceto os cães e os gatos. Não tenho tempo para mim. Todos podem ver como me dedico aos meus paroquianos!

Penso então no Cura d'Ars e... zás! lá se vai por água abaixo o parapeito que ergui com tanto esforço para livrar-me da tarefa da minha própria santificação.

Quantos escoteiros e escoteiras tinha o Cura d'Ars? Quantas equipes de futebol, quantos campeonatos e quantos clubes organizou? Se eu me decidisse a ser um verdadeiro sacerdote, um homem de oração, de caridade e de sacrificio (por essa ordem), talvez passasse a ter o confessionário e a mesa da Comunhão completamente cheios, e não tivesse que recorrer a tantos sermões e circulares.

Não é que as atividades da paróquia não tenham a sua importância, mas devo ve-las na sua perspectiva real e não permitir que a moldura seja maior que o quadro. Construirei, portanto, algumas barreiras: barreiras em torno do tempo da meditação, do meu exame de consciência e da minha leitura espiritual. E pregarei nelas um grande cartaz: "Proibida a entrada", exatamente como faço para as refeições e para o sono.

Antes de tentar seguir o exemplo de São Paulo e "fazer-me tudo para todos", lutarei em primeiro lugar para que "Cristo viva em mim e eu nEle".

Tenho a vaga suspeita de ter procedido até agora completamente ao contrário.

Oh!, faltam três minutos para o meio-dia e eu ainda não comecei o meu exame! Nem sequer invoquei as luzes do Espírito Santo.

Mas talvez não tenha perdido tempo.

Ainda que já tenha pensado muitas outras vezes nessa mesma coisa, o mundo não desabará se o faço mais uma.

Tenho uma cabeça tão dura, tão terrivelmente dura!

Fonte: Vaso de Argila

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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Chesterton


"Ocupar-me-ei agora do argumento: A idéia de que o Cristianismo pertence à idade das trevas.

Quanto a esse ponto, não me satisfaz ler as modernas generalizações: li um pouco de História. E, pela História, verifiquei que o Cristianismo, longe de pertencer à idade das trevas, era o único caminho, através da idade das trevas, que não era sombrio. Era uma ponte brilhante que ligava duas civilizações também brilhantes.

Se alguém disser que a Fé nasceu na ignorância e na selvageria, a resposta é simples: não nasceu. Nasceu na civilização do Mediterrâneo, em pleno verão do Império Romano. O Mundo estava repleto de céticos e o panteísmo era tão claro como o Sol, quando o Cristianismo pregou a Cruz ao mastro. É inteiramente verdade que, depois, o navio naufragou: mas é ainda mais extraordinário que o mesmo navio voltou a aparecer novamente, pintado de novo, reluzente e com a Cruz ainda no topo do mastro.

Esta é a admirável coisa que a religião realizou: converteu um navio naufragado em submarino. A arca viveu sob o peso das águas: depois de termos estado sepultados debaixo dos destroços de dinastias e clãs, levantamo-nos e lembramo-nos de Roma. Se a nossa fé tivesse sido um simples capricho de um império que se desmoronava, mas esse capricho teria tido, também, o seu crepúsculo e, se a civilização emergisse de novo à superfície (e muitas delas não emergiram mais!), teria sido sob algum novo pendão bárbaro. Mas a Igreja cristã foi a última vida de uma sociedade velha e foi também a primeira vida de uma sociedade nova.

Pegou um povo que estava se esquecendo de como se construía um arco e ensinou-o a inventar o arco gótico. Numa palavra: a coisa mais absurda que se pode dizer da Igreja é aquela que todos temos ouvido dizer a seu respeito. Como se pode afirmar que a Igreja pretende arrastar-nos para a idade das trevas? A Igreja foi a única coisa que sempre procurou libertar-nos dela".

Ortodoxia - pag 189

domingo, 15 de janeiro de 2012

A verdadeira riqueza da Igreja Católica


"A Igreja é de fato riquíssima e acumulou nos seus vinte séculos um tesouro incalculável!

Na verdade ela é rica desde a sua origem, porque o seu Criador e mentor é o próprio Deus; é D'Ele que vem toda a sua riqueza. Ela é o próprio Corpo de Cristo (1 Cor 12,27).

Mas ela é rica também, porque é a "Igreja dos Santos", como disse George Bernanos. Os Santos são a sua grande riqueza, como que reprodução do próprio Cristo.

Ela é a Igreja de Pedro de Cafarnaum, que deixou as redes para seguir o Senhor e morreu, por ama-la, de cabeça para baixo sob Nero; é a Igreja de Paulo de Tarso, que rodou o mundo até Roma, para ali ser martirizado por ela.

Ela é a Igreja dos Santos Apóstolos, revestidos do próprio Cristo, um a um martirizados pela sua fidelidade ao Senhor...

Ela é a Igreja dos Santos Inocentes que ainda na tenra idade, derramaram o seu sangue inocente pelo menino Deus ...

Ela é a rica Igreja dos Santos Padres: Agostinho de Hipona, que enfrentou o pelagianismo, o arianismo e o maniqueismo; Atanásio que enfrentou o arianismo; Irineu que enfrentou o gnosticismo; Inácio de Antioquia que enfrentou os leões, Policarpo que enfrentou a fogueira ... Tomás de Aquino que escreveu a Suma Teológica e transformou a Filosofia, Teresa D´Avila e João da Cruz que reformaram os Carmelos masculino e Feminino, Jerônimo que traduziu a Biblia para o latim; Basílio, Gregório de Nissa, Gregório de Nazianzo, Afonso de Ligório, Francisco de Assis, João Bosco e tantos outros que mudaram a face da terra...

Sim, é uma Igreja riquissima!

Ela é a Igreja daqueles que de tanto ama-la, derramaram o seu sangue nas arenas romanas, nas espadas dos imperadores, nos cárceres comunistas e nazistas ... Pedro, Tiago, Paulo ... Inácio de Antioquia, Policarpo, Sebatião, Perpétua, Felicidade, Cecília ... Maxiliano Kolbe ... e tantos outros gigantes que fizeram do seu sangue " a semente dos novos cristãos" (Tertualino †220).

Ela é a Igreja das belas ordens religiosas de Bento, Domingos, Agostinho, Benedito, Francisco, Inácio de Loyola, Camilo de Lélis ...

Ela é a igreja das Santas Virgens: Maria, Ana, Inez, Cecília, Luzia, Teresinha, Mazzarello, Clara de Assis ... que formam um verdadeiro exército de Esposas do Senhor.

Sim, é uma Igreja riquissima!

Além de ser a rica Igreja dos Santos, dos Profetas, dos Mártires, dos Apóstolos, das Vírgens, dos Confessores ... é também a Igreja dos Papas. É a Igreja de João Paulo I com o seu sorriso inesquecível, de João XXIII do Concílio Vaticano II, de Paulo VI com o seu apaixonado amor a Igreja, de Gregório, que a posteridade chamou de Magno e que criou o canto que recebeu o seu nome.

Ela é a grande e rica Igreja de Leão Magno deteve as grandes heresias às portas da Igreja, enfrentando os bárbaros Átila e Genserico às portas de Roma. É a casa de Pedro, que é o principio de tudo e a pedra sobre a qual os outros se sucederam. É a Igreja dessa cadeia viva e ininterrupta de 265 pontífices, o "doce Cristo na Terra", como dizia Santa Catarina de Sena.

Todos os santos se inclinaram diante do Papa e nenhum foi sem ele.

Paulo, o apostolo dos gentios, foi ao encontro de Pedro; Francisco o enamorado da pobreza, ajoelhou-se diante de Inocêncio III; Teresinha suplicou a Leão XIII que a deixasse entrar no Carmelo aos quinze anos ...

Que outra Igreja teve um Pio XI que proclamou Maria Imaculada; e José, Padroeiro Universal da Igreja?

Que outra Igreja tem um João Paulo II, filho de operário, ator de teatro, esquiador, sacerdote, poliglota, bispo, diplomata, cardeal - cardeal da Igreja do Silêncio e da Polonia Mártir?

A Igreja é riquíssima, de fato é a Igreja dos Santos e dos Papas.

É a Igreja dos Sacramentos que o Senhor derramou do seu Coração ferido pela lança do alto da Cruz. É a Igreja da salvação universal de todos os homens ... É a barca de Pedro que salva do dilúvio do pecado!

Esta é a verdadeira fortuna da Igreja, acumulada no sangue dos Mártires, na fidelidade dos Confessores, na riqueza dos Padres, no discernimento dos Doutores, na pureza das Vírgens, no sangue dos Inocentes, na palavra dos Apostolos e dos Profetas, no zelo dos Patriarcas, na lei dos Profetas e na infalibilidade dos Papas. Sim, é riquíssima!

E é a nossa Igreja. Demos graças a Deus por ela!!"

(Infelizmente não sei o autor deste texto, mas o trouxe, ele é otimo)

Eu concluo: É a Igreja de Bento XVI, que ama como ninguém a santa Liturgia, que tem resgatado o decoro e a reverencia para com Cristo, que tem trazido de volta à casa aqueles que haviam desviado, quase sempre no silêncio de um diálogo sincero e verdadeiro. Que nos faz amar a Igreja, ensinando que apesar das grandes heresias, dos erros enormes deste mundo, ela avança erguida, na sua Tradição e nos seus valores que não esmorecem. Sim , ela é a Igreja de Bento XVI e pela graça de Deus, pertenço a ela.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Papa Bento XVI às Catequistas

Sem dúvida nenhuma, do que já li de nosso Papa, este é um dos mais lindos ensinamentos. Claro, simples, mas sem deixar de ser profundo -, objetivo e no ponto. Louvado seja Deus!!

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"A vida humana não se realiza por si só. A nossa vida é uma questão aberta, um projecto incompleto que ainda deve ser terminado e realizado. A pergunta fundamental de cada homem é: como se realiza isto tornar-se homem? Como se aprende a arte de viver? Qual é o caminho da felicidade?

Evangelizar significa: mostrar este caminho.

Jesus diz no início da sua vida pública: Vim para evangelizar os pobres (cf. Lc 4, 18); isto significa: eu tenho a resposta para a vossa pergunta fundamental; eu indico-vos o caminho da vida, o caminho da felicidade ou melhor: eu sou esse caminho.

A maior pobreza é a incapacidade de alegria, o tédio da vida considerada absurda e contraditória. Esta pobreza hoje está muito difundida, em formas muito diferentes, quer nas sociedades materialmente ricas quer também nos países pobres. A incapacidade de alegria supõe e causa a incapacidade de amar, inveja, avareza todos estes são vícios que devastam a vida dos indivíduos e o mundo. Eis por que precisamos de uma nova evangelização se a arte de viver permanece desconhecida, tudo o mais deixa de funcionar. Mas esta arte não é objecto da ciência, esta arte só pode ser comunicada por quem tem a vida, aquele que é o Evangelho em pessoa.

I. Estrutura e método na nova evangelização

1. A estrutura

Antes de falar dos conteúdos fundamentais da nova evangelização desejaria dizer uma palavra acerca da sua estrutura e método adequados. A Igreja evangeliza sempre e jamais interrompeu o caminho da evangelização. Celebra todos os dias o mistério eucarístico, administra os sacramentos, anuncia a palavra da vida, a palavra de Deus, empenha-se pela justiça e pela caridade. E esta evangelização dá frutos: produz luz e alegria, dá o caminho da vida a muitas pessoas; há quem viva, muitas vezes sem saber, da luz e do calor resplandecente desta evangelização permanente.

Contudo, observamos um processo progressivo e preocupante de descristianização e de perda dos valores humanos essenciais. Uma boa parte da humanidade de hoje não encontra na evangelização permanente da Igreja o Evangelho, ou seja, uma resposta convincente à pergunta: como viver?

Eis por que procuramos, além da evangelização permanente, jamais interrompida e que nunca se deve deter, uma nova evangelização, capaz de se fazer ouvir por aquele mundo que não encontra o acesso à evangelização "clássica".

Todos têm necessidade do Evangelho; o Evangelho destina-se a todos e não apenas a um círculo determinado, e portanto somos obrigados a procurar novos caminhos para levar o Evangelho a todos. Mas também se esconde nisto uma tentação da impaciência, a tentação de procurar imediatamente o grande sucesso, de procurar os grandes números. E este não é o método de Deus.

Para o reino de Deus e a evangelização, instrumento e veículo do reino de Deus, é sempre válida a parábola do grão de mostarda (cf. Mc 31-32). O reino de Deus recomeça sempre de novo sob este sinal. Nova evangelização não pode significar: atrair imediatamente com novos métodos mais requintados as grandes multidões que se afastaram da Igreja. Não não é esta a promessa da nova evangelização. Nova evangelização significa: não acontentar-se com o facto de que do grão de mostarda cresceu a grande árvore da Igreja universal, não pensar que é suficiente que nos seus ramos muito diferentes, as aves possam encontrar lugar mas ousar de novo com a humildade do pequeno grão, deixando para Deus quando e como crescerá (cf. Mc 4, 26-29). As grandes coisas começam sempre do pequeno grão e os movimentos em massa são sempre efémeros.

Na sua visão do processo da evolução, Teilhard de Chardin fala do "branco das origens" (le blanc des origines): o início das novas espécies é invisível e a investigação científica não o pode encontrar. As fontes são escondidas, muito pequenas. Por outras palavras: as grandes realidades iniciam-se em humildade. Deixemos de lado se e até que ponto Teilhard tem razão com as suas teorias evolucionistas; a lei das origens invisíveis diz uma verdade, uma verdade presente precisamente no agir de Deus na história: "Não te elegi porque és grande, ao contrário, és o mais pequeno de entre os povos; elegi-te porque te amo...", diz Deus ao povo de Israel no Antigo Testamento e exprime desta forma o paradoxo fundamental da história da salvação: sem dúvida, Deus não conta com os grandes números; o poder exterior não é o sinal da sua presença.

Grande parte das parábolas de Jesus indicam esta estrutura do agir divino e respondem desta forma às preocupações dos discípulos, os quais esperavam outro tipo de sucesso e de sinais do Messias, sucessos do género dos que Satanás ofereceu ao Senhor: dou-te todos os reinos do mundo, tudo isto... (cf. Mt 4, 9). Sem dúvida, Paulo, no final da sua vida, teve a impressão de ter levado o Evangelho aos confins da terra, mas os cristãos eram pequenas comunidades espalhadas no mundo, insignificantes segundo os critérios seculares.

Na realidade foram o germe que penetrou na massa a partir de dentro e levaram em si o futuro do mundo (cf. Mt 13, 33). Um antigo provérbio diz: "Sucesso não é um nome de Deus". A nova evangelização deve submeter-se ao mistério do grão de mostarda e não pretender produzir imediatamente a grande árvore. Nós ou vivemos demasiado na certeza da grande árvore que já existe ou na impaciência de possuir uma árvore maior, mais vital. Ao contrário, devemos aceitar o mistério que a Igreja é ao mesmo tempo grande árvore e pequeníssimo grão. Na história da salvação é sempre Sexta-Feira Santa e, contemporaneamente, Domingo de Páscoa...

2. O método

Desta estrutura da nova evangelização deriva também o método justo. Sem dúvida, devemos usar de modo razoável os métodos modernos para nos fazer ouvir, ou melhor: para tornar acessível e compreensível a voz do Senhor... Não procuramos escuta para nós, não queremos aumentar o poder e a extensão das nossas instituições, mas desejamos servir o bem das pessoas e da humanidade, dando espaço Àquele que é a Vida.

Esta expropriação do próprio eu oferecendo Cristo para salvação dos homens, é a condição fundamental do verdadeiro empenho pelo evangelho. "Vim em nome de Meu Pai e não Me recebestes, mas se vier outro, em seu próprio nome, recebê-lo-eis" (Jo 5, 43). O sinal distintivo do Anticristo é falar em seu nome. O sinal do Filho, é a sua comunhão com o Pai. O Filho introduz-nos na comunhão trinitária, no círculo do eterno amor, cujas pessoas são "relações puras", o acto puro do doar-se e receber-se.

O desígnio trinitário visível no Filho, que não fala em seu nome, mostra a forma de vida do verdadeiro evangelizador. Aliás, evangelizar não é simplesmente uma forma de falar, mas uma forma de viver: viver em escuta e fazer-se voz do Pai. "Não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido", diz o Senhor acerca do Espírito Santo (cf. Jo 16, 13). Esta forma cristológica e pneumatológica da evangelização é simultaneamente uma forma eclesiológica: o Senhor e o Espírito constroem a Igreja, comunicam-se na Igreja. O anúncio de Cristo, o anúncio do reino de Deus pressupõe escuta da sua voz, na voz da Igreja. "Não falará de Si mesmo" significa: falar na missão da Igreja...

Desta lei da expropriação derivam consequências muito práticas. Todos os métodos razoáveis e moralmente aceitáveis devem ser estudados - é um dever fazer uso destas possibilidades de comunicação. Mas as palavras e toda a arte da comunicação não podem conquistar a pessoa humana naquela profundidade, à qual deve chegar o Evangelho.

Há alguns anos li a biografia de um óptimo sacerdote do nosso século, Pe. Didimo, pároco de Bassano del Grappa (Itália, n.d.r.). Nas suas notas encontram-se palavras de ouro, fruto de uma vida de oração e de meditação. A respeito de nós diz Pe. Didimo: "Jesus pregava de dia, de noite rezava". Com esta breve notícia, ele queria dizer: Jesus devia obter de Deus os discípulos. Isto é válido sempre. Nós não podemos ganhar os homens. Devemos obtê-los de Deus para Deus. Todos os métodos são vazios sem o fundamento da oração. A palavra do anúncio deve estar sempre imersa numa intensa vida de oração.

Devemos dar um ulterior passo. Jesus pregava de dia, de noite rezava, o que não é tudo. A sua vida inteira foi como mostra de maneira admirável o evangelho de São Lucas um caminho rumo à cruz, ascensão rumo a Jerusalém. Jesus não redimiu o mundo com palavras bonitas, mas com o seu sofrimento e a sua morte. Esta sua paixão é a fonte inexaurível de vida para o mundo; a paixão dá força à sua palavra.

O próprio Senhor estendendo e ampliando a parábola do grão de mostarda, formulou esta lei de fecundidade na parábola do grão que, ao cair na terra, morre (cf. Jo 12, 24). Esta lei também é válida até ao fim do mundo e é juntamente com o mistério do grão de mostarda fundamental para a nova evangelização. Toda a história o demonstra. Seria fácil demonstrar isto na história do cristianismo.

Desejo recordar aqui apenas o início da evangelização na vida de São Paulo. O sucesso da sua missão não foi o resultado de uma grande arte retórica ou de prudência pastoral; a fecundidade estava relacionada com o sofrimento, com a comunhão na paixão de Cristo (cf. 1 Cor 2, 1-5; 2 Cor 5, 7; 11, 10 s; 11, 30; Gl 4, 12-14). "Nenhum sinal será dado a não ser o sinal do profeta Jonas", disse o Senhor. O sinal de Jonas é Cristo crucificado, são as testemunhas, que completam o "que falta aos sofrimentos de Cristo" (Cl 1, 24).

Em todos os períodos da história verificou-se sempre de novo as palavras de Tertuliano: o sangue dos mártires é semente. Santo Agostinho diz o mesmo de uma maneira muito bonita, ao interpretar Jo 21, onde a profecia do martírio de Pedro e o mandato de apascentar, ou seja, a instituição da sua primazia, estão intimamente relacionados. Santo Agostinho comenta o texto de Jo 21, 16 da seguinte forma: "Apascenta as minhas ovelhas", o que significa, sofre pelas minhas ovelhas (Sermo Guelf. 32; PLS 2, 640). Uma mãe não pode dar luz a uma criança sem sofrer. Qualquer parto requer sofrimento, é dor, e tornar-se cristão é um parto. Digamo-lo mais uma vez com palavras do Senhor: o reino de Deus exige violência (cf. Mt 11, 12; Lc 16, 16), mas a violência de Deus é o sofrimento, é a cruz. Não podemos dar a vida a outros, sem dar a nossa vida. O processo de expropriação acima mencionado é a forma concreta (expressa de muitas formas diferentes) de doar a própria vida. E pensamos na palavra do Salvador: "...quem perder a sua vida por Mim e pelo Evangelho, salvá-la-á..." (Mc 8, 36).

II. Os conteúdos essenciais da nova evangelização

1. Conversão

No que se refere aos conteúdos da nova evangelização deve-se ter presente em primeiro lugar a inseparabilidade do Antigo e do Novo Testamento. O conteúdo fundamental do Antigo Testamento está resumido na mensagem de João Baptista: Convertei-vos! Não se acede a Jesus sem o Baptista; não existe possibilidade de chegar a Jesus sem responder ao apelo do precursor; aliás: Jesus assumiu a mensagem de João na síntese da sua própria pregação: convertei-vos e acreditai no Evangelho (cf. Mc 1, 15).

A palavra grega converter-se significa: reconsiderar, pôr em questão o próprio modo de viver e o comum; deixar entrar Deus nos critérios da própria vida; não julgar simplesmente de acordo com as opiniões correntes. Converter-se significa por conseguinte: não viver como vivem todos, não fazer como fazem todos, não sentir-se justificados em acções duvidosas, ambíguas, perversas simplesmente porque há quem o faça; começar a ver a própria vida com os olhos de Deus, portanto procurar o bem, mesmo se não é agradável; não apostar no juízo da maioria, mas no juízo de Deus - por outras palavras: procurar um novo estilo de vida, uma vida nova. Tudo isto não implica um moralismo; a limitação do cristianismo à moralidade perde de vista a essência da mensagem de Cristo: o dom de uma nova amizade, o dom da comunhão com Jesus e por conseguinte com Deus.

Quem se converte a Cristo não pretende criar uma autonomia moral própria, não pretende construir com as próprias forças a sua bondade. "Conversão" (Metanoia) significa precisamente o contrário: abandonar a auto-suficiência, descobrir e aceitar a própria indigência, indigência dos outros e do Outro, do seu perdão, da sua amizade. A vida não convertida é autojustificação (não sou pior do que os outros); a conversão é a humildade de se confiar ao amor do Outro, amor que se torna medida e critério da minha própria vida.

Devemos ter também presente o aspecto social da conversão. Sem dúvida, a conversão é em primeiro lugar um acto pessoalíssimo, é personalização. Eu separo-me da fórmula "viver como todos" (já não me sinto justificado pelo facto de que todos fazem o que eu faço) e encontro perante Deus o meu próprio eu, a minha responsabilidade pessoal.

Mas a verdadeira personalidade também é sempre uma nova e mais profunda socialização. O eu abre-se de novo ao tu, em toda a sua profundidade, e desta forma nasce um novo Nós. Se o estilo de vida difundido no mundo implica o perigo da despersonalização, do viver não a minha vida mas a vida dos outros, na conversão deve realizar-se um novo Nós do caminho comum com Deus. Ao anunciar a conversão também devemos oferecer uma comunidade de vida, um espaço comum do novo estilo de vida. Não se pode evangelizar só com palavras; o evangelho cria vida, cria comunidade de caminho; uma conversão meramente individual não tem consistência...

2. O Reino de Deus

Na chamada à conversão está implícito como sua condição fundamental o anúncio do Deus vivo. O teocentrismo é fundamental na mensagem de Jesus e também deve ser o centro da nova evangelização. A palavra-chave do anúncio de Jesus é: Reino de Deus. Mas Reino de Deus não é uma coisa, uma estrutura social ou política, uma utopia. O Reino de Deus é Deus. Reino de Deus significa: Deus existe. Deus vive. Deus está presente e age no mundo, na nossa, na minha vida. Deus não é uma remota "causa última", Deus não é o "grande arquitecto" do deísmo, que construiu a máquina do mundo e agora se encontra fora. Ao contrário: Deus é a realidade mais presente e decisiva em qualquer acto da minha vida, em todos os momentos da história.

Na sua conferência de despedida da cátedra na universidade de Monastério, o teólogo J. B. Metz disse coisas que dele não se esperavam. No passado, Metz ensinou-nos o antropocentrismo, o verdadeiro acontecimento do cristianismo teria sido a viragem antropológica, a secularização, a descoberta do secularismo no mundo. Depois, ensinou-nos a teologia política, o carácter político da fé; depois a "memória perigosa"; finalmente a teologia narrativa. Depois deste caminho longo e difícil hoje dizemos: o verdadeiro problema do nosso tempo é a "crise de Deus", a ausência de Deus, camuflada por uma religiosidade vazia. A teologia deve voltar a ser realmente teo-logia, um falar de Deus e com Deus.

Metz tem razão: para o homem, o "unum necessarium" é Deus. Tudo muda se Deus está ou não está presente. Infelizmente também nós cristãos vivemos muitas vezes como se Deus não existisse ("si Deus non daretur"). Vivemos segundo o slogan: Deus não está presente, e se está, não tem incidência. Por isso a evangelização deve, antes de mais nada, falar de Deus, anunciar o único Deus verdadeiro: o Criador, o Santificador, o Juiz (cf. Catecismo da Igreja Católica).

Também neste ponto se deve ter presente o aspecto prático. Deus não se pode dar a conhecer unicamente com as palavras. Não se conhece uma pessoa, se não sabemos directamente nada dela. Anunciar Deus é introduzir na relação com Deus: ensinar a rezar. A oração é fé em acto. E só na experiência da vida com Deus se manifesta também a evidência da sua existência. Eis por que são tão importantes as escolas de oração, de comunidade de oração. Existe complementariedade entre oração pessoal ("no próprio quarto", sozinhos perante os olhos de Deus), oração comum "paralitúrgica" ("religiosidade popular") e oração litúrgica.

Sim, a liturgia é, em primeiro lugar, oração; a sua especificidade consiste no facto que o seu sujeito primário não somos nós (como na oração privada e na religiosidade popular), mas o próprio Deus. A liturgia é actio divina, Deus age e nós respondemos à acção divina.

Falar de Deus e falar com Deus são duas acções que devem andar sempre juntas. O anúncio de Deus orienta para a comunhão com Deus na comunhão fraterna, fundada e vivificada por Cristo. Portanto a liturgia (os sacramentos) não é um tema paralelo à pregação do Deus vivo, mas a concretização da nossa relação com Deus. Neste contexto, seja-me permitida uma observação geral sobre a questão litúrgica.

O nosso modo de celebrar a liturgia com frequência é demasiado racional. A liturgia torna-se ensinamento, cujo critério é: fazer-se compreender - a consequência é com frequência a banalização do mistério, o prevalecer das nossas palavras, a repetição das fraseologias que parecem mais acessíveis e mais agradáveis ao povo. Mas isto é um erro não só teológico, mas também psicológico e pastoral. A onda do exoterismo, a difusão de técnicas asiáticas de distensão e auto-esvaziamento mostram que nas nossas liturgias falta algo.

Precisamente no nosso mundo de hoje precisamos do silêncio, do mistério supra-individual, da beleza. A liturgia não é invenção do sacerdote celebrante ou de um grupo de especialistas; a liturgia (o "rito") cresceu num processo orgânico ao longo dos séculos, leva em si o fruto da experiência de fé de todas as gerações. Mesmo se os participantes talvez não entendam todas as palavras, compreendem o significado profundo, a presença do mistério, que transcende todas as palavras. O celebrante não é o centro da acção litúrgica; o celebrante não está em frente do povo em seu nome não fala se si nem para si, mas "in persona Christi". Não contam as capacidades pessoais do celebrante, mas unicamente a sua fé, na qual se Cristo se torna transparente. "Ele deve crescer e eu diminuir" (Jo 3, 30).

3. Jesus Cristo

Com esta reflexão, o tema Deus já se alargou e concretizou no tema Jesus Cristo: só em Cristo e através de Cristo o tema Deus se torna realmente concreto: Cristo é Emanuel, o Deus connosco, a concretização do "Eu sou", a resposta ao Deísmo.

Hoje é grande a tentação de reduzir Jesus Cristo, o único filho de Deus a um Jesus histórico, a um homem puro. Não se nega necessariamente a divindade de Jesus, mas com certos métodos destila-se da Bíblia um Jesus à nossa medida, um Jesus possível e compreensível dentro dos parâmetros da nossa historiografia. Mas este "Jesus histórico" é inatural, a imagem dos seus autores e não a imagem do Deus vivo (cf. 2 Cor 4, 4 s.; Cl 1, 15). O Cristo da fé não é um mito; o chamado Jesus histórico é uma figura mitológica, auto-inventada pelos diferentes intérpretes. Os duzentos anos de história de "Jesus histórico" reflectem fielmente a história das filosofias e das ideologias deste período.

No âmbito desta conferência, não posso tratar os conteúdos do anúncio do Salvador. Desejaria brevemente mencionar dois aspectos importantes. O primeiro é o seguimento de Cristo. Cristo oferece-se como caminho para a minha vida. Seguimento de Cristo não significa: imitar o homem Jesus. Uma tentativa como esta falha necessariamente seria um anacronismo.

O seguimento de Cristo tem uma meta mais alta: assimilar-se a Cristo, isto é, alcançar a união com Deus. Estas palavras talvez soem mal aos ouvidos do homem moderno. Mas na realidade todos temos sede do infinito: de uma liberdade infinita, de uma felicidade sem limites. Toda a história das revoluções dos últimos dois séculos só se explica desta forma. A droga explica-se assim. O homem não se contenta com soluções abaixo do nível da divinização. Mas todos os caminhos oferecidos pela "serpente" (Gn 3, 5), que significa pela sabedoria mundana, falham. O único caminho é a comunhão com Cristo, realizável na vida sacramental. Seguimento de Cristo não é um assunto de moral, mas um tema "místico" um conjunto de acção divina e de resposta da nossa parte.

Desta forma encontramos presente no tema seguimento o outro centro da cristologia, que desejaria mencionar: o Mistério Pascal: a Cruz e a Ressurreição. Nas reconstruções do "Jesus histórico" normalmente o tema da cruz não tem significado. Numa interpretação "burguesa" torna-se um acidente em si evitável, sem valor teológico; numa interpretação revolucionária torna-se a morte heróica de um rebelde. Mas a verdade é outra. A Cruz pertence ao mistério divino, é expressão do seu amor até ao fim (cf. Jo 13, 1). O seguimento de Cristo é participação da sua cruz, unir-se ao seu amor, à transformação da nossa vida, que se torna nascimento do homem novo, criado à imagem de Deus (cf. Ef 4, 24). Quem omite a cruz, omite a essência do cristianismo (cf. 1 Cor 2, 2).

4. A vida eterna

Um último elemento central de qualquer evangelização autêntica é a vida eterna. Hoje devemos anunciar a fé com renovado vigor na vida quotidiana. A este ponto, desejaria mencionar apenas um aspecto da pregação de Jesus que hoje, muitas vezes, é negligenciado: o anúncio do Reino de Deus é o anúncio do Deus presente, do Deus que nos conhece, nos ouve; do Deus que entra na história, para fazer justiça. Portanto, esta pregação é também anúncio do juízo, anúncio da nossa responsabilidade.

O homem não pode fazer ou deixar de fazer o que lhe apetece. Ele será julgado. Deve prestar contas. Esta certeza é válida tanto para os poderosos como para os simples. Onde ela é honrada, são delineados os limites de qualquer poder deste mundo. Deus faz justiça, e só ele o pode fazer por último.

Nós consegui-lo-emos tanto mais, quanto mais formos capazes de viver sob o olhar de Deus e de comunicar ao mundo a verdade do juízo. Desta forma, o artigo de fé do juízo, a sua força de formação das consciências, é um conteúdo central do Evangelho e é deveras uma Boa Nova. E também o é para todos os que sofrem sob a injustiça do mundo e procuram a justiça.

Compreende-se desta forma o nexo entre o Reino de Deus e os "pobres", os que sofrem e todos aqueles dos quais falam as bem-aventuranças do sermão da montanha. Eles são protegidos pela certeza do juízo, pela certeza que existe a justiça. Eis o verdadeiro conteúdo do artigo sobre o juízo, sobre Deus-juiz: há justiça. As injustiças do mundo não são a última palavra da história. Existe uma justiça. Só quem não quer que haja justiça, se pode opor a esta verdade.

Se tomarmos a sério o juízo e a seriedade da responsabilidade que disso nos advém, compreendemos bem o outro aspecto deste anúncio, isto é, a redenção, o facto de que na cruz Jesus assume os nossos pecados; que o próprio Deus na paixão do Filho se torna advogado de nós, pecadores, e desta forma torna possível a penitência, a esperança para o pecador arrependido, esperança expressa maravilhosamente nas palavras de São João: diante de Deus, tranquilizaremos o nosso coração, independentemente do que eles nos reprova. "Deus é maior que os nossos corações e conhece todas as coisas" (1 Jo 3, 20).

A bondade de Deus é infinita, mas não devemos reduzir esta bondade a uma pieguice afectada sem verdade. Só acreditando no justo juízo de Deus, só tendo fome e sede de justiça (cf. Mt 5, 6) é que abrimos o nosso coração, a nossa vida à misericórdia divina. Vê-se: não é verdade que a fé na vida eterna torna insignificante a vida terrena. Pelo contrário: só se a medida da nossa vida for a eternidade, também a vida na terra é grande e o seu valor é imenso.

Deus não é o concorrente da nossa vida, mas a garantia da nossa grandeza. Desta forma voltamos ao ponto de partida: Deus. Se considerarmos bem a mensagem cristã, não falamos de muitas coisas. Na realidade, a mensagem cristã é muito simples.

Falamos de Deus e do homem e, desta forma, dizemos tudo. (grifos meus)

Fonte Aqui

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Símbolo de Fé - Primeiro Artigo


Todo Poderoso

A Sagrada Escritura emprega muitas expressões para indicar o sumo poder e a imensa majestade de Deus. Mostra-nos assim com quanto respeito devemos venerar seu Nome Santíssimo.

Entretanto, devemos saber, em primeiro lugar, que a Deus se atribui com maior freqüência o nome de "Onipotente". Deus declara de Si mesmo: "Eu sou o Senhor Todo-Poderoso". Quando enviara os filhos a José, Jacó rezou por eles: "Meu Deus, o TodoPoderoso, vo-lo torne propício!" - No Apocalipse também está escrito: "O Senhor Deus, que é, e que era, e que há de vir: o Todo-Poderoso". outra passagem fala "do grande dia de Deus Todo-Poderoso".

Algumas vezes, enuncia-se o mesmo atributo por meio de paráfrases, como acontece nas seguintes passagens: ''A Deus, nada é impossível". Porventura, a mão do Senhor já não terá força? - "Em Vossa mão está usar de poder, quando quiserdes". - E outras mais, do mesmo sentido, que se resumem indubitavelmente nesta única palavra: o Todo-Poderoso.

O que Deus pode:

Este conceito nos dá a entender que nada existe, nada se pode pensar ou imaginar que Deus não tenha a virtude de realizar. Pode, portanto, não só operar prodígios que, por maiores que sejam, não excedem de maneira absoluta o âmbito de nossas idéias, como por exemplo fazer voltar ao nada todas as coisas, ou num ápice tirar do nada outros mundos; mas pode também fazer coisas muito maiores, que a inteligência humana não chega sequer a supeitar.

O que Deus não pode:

Apesar de poder tudo, Deus não pode todavia mentir, nem enganar, nem ser enganado, nem pecar, nem perecer, nem tampouco ignorar alguma coisa. São deficiências que só podem ocorrer numa natureza, cuja operação é imperfeita. Ora, operando sempre de maneira perfeitíssima, Deus não é capaz de tais coisas. O poder fazê-las é sinal de fraqueza, e não se coaduna com o domínio sumo e ilimitado que Deus exerce sobre todas as coisas. Cremos, portanto, que Deus é Todo-Poderoso, mas dessa crença arredamos para longe tudo o que se não refira, nem condiga com a perfeição da natureza divina.

Relação com os demais atributos

Devemos saber que houve sábias e acertadas razões para se omitir no Símbolo os
outros atributos divinos, enquanto se propõe à nossa crença este único de Sua onipotência.
Com efeito, desde que reconhecemos a Deus como sendo Todo-Poderoso, força nos é também professar que Ele sabe todas as coisas, e que todas as coisas estão igualmente sujeitas ao Seu poder e soberania. E se não duvidamos que tudo pode, é logicamente necessário termos por certas as outras perfeições de Deus, porque sem elas não poderíamos absolutamente compreender a Sua onipotência.

Frutos:

1 - confiança em Deus, pela fé:
.
Além disso, não há o que mais concorra para firmar a nossa fé e esperança do que a convicção, profundamente gravada em nossas almas, de que a Deus nada é impossível. Tudo o que nos for necessário crer, por grandes e admiráveis que sejam os mistérios, por mais que transcendam as leis ordinárias da natureza, a razão humana os aceitará sem nenhuma hesitação, uma vez que tenha uma idéia exata da onipotência de Deus. Quanto mais sublimes as verdades que vêm de Deus, tanto maior a presteza da razão em acredita -las .

pela esperança:

Quando tem de esperar algum benefício, o cristão nunca arrefece ante a grandeza do bem almejado. Sente, pelo contrário, sua coragem e esperança crescerem com a idéia de que a Deus Todo-Poderoso nada é impossível. Esta fé e confiança devem alentar-nos, principalmente nas obras extraordinárias que tivermos de empreender, para o bem e proveito do próximo; ou quando quisermos implorar alguma mercê de Deus. O próprio Nosso Senhor nos ensinou o primeiro destes deveres, ao censurar a incredulidade dos Apóstolos: "Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para lá, e ele passará. Nada vos será impossível". (Mt 17,20)

O segundo dever, o Apóstolo São Tiago no-lo inculca: "Peça com fé, sem nenhuma hesitação, pois quem hesita assemelha-se à onda do marque o vento chicoteia de um lado para outro. Não cuide, pois, tal homem que do Senhor receberá alguma coisa". (Tg 1, 6-7)

Humildade e verdadeiro amor

Sob outros pontos de vista, a fé na onipotência divina dá-nos ainda muitas vantagens. Ensina em primeiro lugar, uma perfeita modéstia e humildade de espírito, segundo a afirmação do Príncipe dos Apóstolos: "Humilhai-vos debaixo da mão de Deus".(I Pe 5,6)

Exorta-nos também a não temer onde não há motivo, mas a temer só a Deus em cujo poder estamos postos, nós e todas as coisas. Nosso Senhor disse cabalmente: "Mostrar-vos-ei a quem deveis temer. Temei aquele que depois de matar, pode ainda lançar no inferno". (Lc 12,15)

Gratidão

Esta fé leva-nos afinal a reconhecer e proclamar os imensos benefícios de Deus para conosco. Quem pensa em Deus Onipotente, não poderá ser tão desagradecido que não diga muitas vezes: "Grandes coisas operou em mim Aquele que é poderoso".

Atribuição ao Pai

Se neste Artigo dizemos que o Pai é Todo-poderoso, ninguém caia no erro de pensar que só a Ele atribuímos esse predicado, de sorte que não seja também comum ao Filho e ao Espírito Santo. Como afirmamos que o Pai é Deus, que o Filho é Deus, e que o Espírito é Deus, sem por isso reconhecer três deuses, mas a um só Deus; assim também dizemos que o Pai é Todo-Poderoso, que Filho é Todo-Poderoso, que o Espírito Santo é Todo-Poderoso, sem, contudo asseverarmos que haja três onipotentes, mas um só Onipotente.

Por ser fonte e origem de todas as coisas

Isto não obstante, damos ao Pai esse atributo, pela especial razão de ser Ele a fonte de tudo quanto existe. Da mesma maneira, atribuímos a sabedoria ao Filho, que é o Verbo eterno do Pai; e a bondade ao Espírito Santo, que é o amor de ambos. No entanto, pela regra católica de fé, estes e outros atributos devem ser enunciados em comum, com relação às três Pessoas divinas.

Veja: Sinopse


Fonte: Catecismo Romano

Depois veremos: Criador do Céu e da Terra.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Encíclica Acerbo Nimis -Sobre o Ensino do Catecismo.


Papa Pio X

Veneráveis Irmãos: Saúde e Bênção Apostólica.

1. Pelos inescrutáveis desígnios de Deus fomos elevados de nossa pequenez ao cargo de Supremo Pastor do Rebanho de Cristo, em dias bem críticos e amargos, pois o antigo inimigo anda em redor
deste Rebanho e lhe arma laços em tão pérfida astúcia, que hoje, principalmente, parece haver-se cumprido aquela profecia do Apóstolo aos anciãos da Igreja de Éfeso:Sei que… vos hão de
assaltar lobos vorazes, que não pouparão o Rebanho
” (At 20,29).

Dos males que afligem a Religião não há quem, animado de zelo pela Glória divina, deixe de investigar as causas e razões, acontecendo que, como as encontra cada qual diversas, proponha diferentes meios, de acordo com a sua opinião pessoal, para defender e restaurar o Reino de Deus na Terra. Não proscrevemos, Veneráveis Irmãos, os pareceres alheios, mas estamos com os que pensam que esta depressão e debilidade das almas, de que derivam os maiores males, provêm, principalmente: da ignorância das Coisas Divinas.

Esta opinião concorda inteiramente com o que o Deus mesmo declarou pelo Profeta
Oséias: “Não há conhecimento de Deus na Terra. A maldição e a mentira, e o homicídio e o roubo e o adultério tudo inundaram; o sangue junta-se ao sangue e por causa disto a Terra se cobrirá de luto e todos os seus moradores desfalecerão” (Os 4,1-3).

Necessidade da Instrução

2. Quão fundadas são, desgraçadamente, estas lamentações, hoje, que existe tão crescido número de pessoas, entre o Povo Cristão, que ignoram totalmente as coisas que é mister conhecer para conseguir a Salvação Eterna! Ao dizer – Povo Cristão – não nos referimos somente à plebe, ou às classes inferiores – às quais servem de escusa o acharem-se com freqüência submetidas a homens tão duros que lhes não deixam tempo nem para cuidar de si mesmas, nem das coisas que se referem à sua alma – mas e principalmente falamos daqueles aos quais não falta entendimento nem cultura e até se mostram dotados de profana erudição, apesar de que em coisas de Religião vivem da maneira mais temerária e imprudente que imaginar se possa.

Dificílimo seria ponderar a espessura das trevas que os envolvem e – o que mais triste é – a tranqüilidade com que nelas permanecem! De Deus, Soberano Autor e Moderador de todas as coisas, e da Sabedoria da Fé Cristã não se preocupam, de forma que verdadeiramente nada sabem da Encarnação do Verbo de Deus, nem da Perfeita Restauração do Gênero Humano, por Ele consumada; nada sabem acerca da Graça, principal auxílio para alcançar os Bens Eternos; nada, acerca do Augusto Sacrifício nem dos Sacramentos, mediante os quais conseguimos e conservamos a Graça.

Quanto ao pecado, não conhecem sua malícia nem o opróbrio que consigo traz, de sorte que não põem o menor cuidado em evitá-lo ou expiá-lo, e chegam ao Dia Extremo em disposição tal que, para não os deixar sem qualquer Esperança de Salvação, o Sacerdote se vê constrangido a aproveitar os derradeiros instantes de vida para sumariamente lhes ensinar Religião, ao invés de empregá-los principalmente, conforme conviria, em movê-los a afetos de Caridade; isto quando não sucede que o moribundo sofra de tão culpável ignorância que tenha por inútil o auxílio do Sacerdote e resolva tranqüilamente franquear os Umbrais da Eternidade sem haver prestado a Deus conta dos seus pecados.

Por isso, o Nosso Predecessor Bento XIV justamente escreveu: “Afirmamos que a maior parte dos condenados às penas eternas padece sua perpétua desgraça por ignorar os Mistérios da Fé, que necessariamente se devem conhecer e crer, para ser contado no número dos eleitos (Instit. XXVII, 18).

3. Sendo assim, Veneráveis Irmãos, que há de surpreendente, pergunto, em que a corrupção dos
costumes e sua depravação sejam tão grandes e cresçam diariamente, não digo nas nações bárbaras, mas até nos próprios Povos que ostentam o nome de Cristãos? Com razão dizia o Apóstolo São Paulo, escrevendo aos Efésios: “A fornicação e toda espécie de impureza ou avareza nem sequer se nomeie entre vós, como convém a Santos; nem palavras torpes, nem chocarrices” (Ef 5,3-4). Como fundamento deste Pudor e Santidade, com os quais se moderam as paixões, determinou a Ciência das Coisas Divinas: “E assim, cuidai, irmãos, em andar com Prudência; não como insensatos, mas como circunspectos… Portanto, não sejais imprudentes, mas considerai qual é a Vontade de Deus” (Ef 5, 15.17).

Sentença justa; porque a vontade humana apenas conserva algum resto daquele amor à honestidade e à retidão, inspirados ao homem por Deus, seu Criador, amor que o impelia para um bem, não velado por sombras, mas claramente visto. Mas, depravada pela corrupção do pecado original e esquecida de Deus, seu Gerador, a vontade humana inclina-se a amar a vaidade e a procurar a mentira. Extraviada e cega pelas más paixões, necessita de um guia que lhe mostre o caminho para que retome as Veredas da Justiça, que desgraçadamente abandonou. Este guia, que não é preciso buscar fora do homem, e de que a natureza o proveu, é a própria razão; mas se à razão falta aquela luz, irmã sua, que é a Ciência das Coisas Divinas, sucederá que um cego guiará outro cego e ambos cairão no abismo. O Santo Rei Davi, glorificando a Deus por esta Luz da Verdade que havia infundido na razão humana, dizia: “A luz do Vosso rosto, Senhor, está impressa em nós”. E indicava o efeito desta comunicação da Luz, acrescentando: “Infundistes a alegria em meu coração” (Sl 4, 6-7).

Efeitos das Doutrina Cristã

4. Descobre-se facilmente que assim é, porque, de fato, a Doutrina Cristã nos faz conhecer a Deus e o que chamamos suas Infinitas Perfeições, quiçá mais fundamente que as forças naturais. E de que forma? Mandando-nos ao mesmo tempo reverenciar a Deus por obrigação de “Fé”, que se refere à razão; por dever de “Esperança”, que se refere à vontade, e por dever de “Caridade”, que se refere ao coração, com o qual torna o homem inteiramente submetido a Deus, seu Criador e Moderador. De igual forma só a Doutrina Cristã estabelece o homem na posse de sua eminente dignidade natural como filho do Pai Celestial, que está nos Céus, e que o fez à Sua imagem e semelhança para viver eternamente feliz com Ele.

Mas desta mesma dignidade e do conhecimento que dela se deve ter, deduz Cristo que os homens devem amar-se como irmãos e viver na Terra como convém aos Filhos da Luz, “não em glutonerias e embriaguez, não em desonestidades e dissoluções, não em contendas e emulações” (Rm 13,13). Manda-nos, outrossim, que nos entreguemos às Mãos de Deus, que é quem cuida de nós; que socorramos os pobres, façamos o bem a nossos inimigos e prefiramos os Bens Eternos da alma aos perecedores bens temporais. E, mesmo sem esmiuçar tudo, não é, porventura, a Doutrina de Cristo que recomenda e prescreve ao homem soberbo aquela humildade que é o verdadeiro manancial de Sua Glória? "Todo aquele, pois, que se humilhar, esse será o maior no Reino dos Céus” (Mt 18,4).

Nesta Celestial Doutrina nos é ensinada igualmente a Prudência de Espírito, que serve para nos proteger da prudência da carne; a Justiça, por meio da qual damos a cada um o que lhe pertence; a Fortaleza, que nos torna capaz de sofrer e padecer tudo generosamente por Deus e pela Bem-aventurança Eterna; enfim, a Temperança, que nos torna amável a Pobreza por Amor de Deus, e que em meio de nossas humilhações faz com que nos gloriemos na Cruz. De maneira que pela Sabedoria Cristã não somente recebe nossa inteligência a Luz que nos permite alcançar a Verdade, mas até a vontade fica empolgada daquele Amor que nos conduz a Deus e a Ele nos une mediante o exercício da Virtude.

5. Longe estamos de afirmar que a malícia da alma e a corrupção dos costumes não possam co-
existir com a consciência da Religião. Prouvera a Deus que os fatos demonstrassem o contrário. Mas compreendemos que quando e espírito está envolto pelas espessas trevas da ignorância, não se pode capacitar nem da retidão da vontade nem dos bons costumes, porque se, caminhando com olhos abertos, pode o homem apartar-se do bom caminho, o que sofre de cegueira está em perigo iminente de desviar-se. Acrescente-se que em quem não está de todo apagado o archote da Fé, resta ainda uma Esperança de que se emende e se cure da corrupção dos costumes; mas quando a ignorância se junta à depravação, já não resta possibilidade de remédio, mas está aberto o caminho da ruína.

O Primeiro Ministério.

6. Posto que da ignorância da Religião procedem tão graves danos, e, de outro lado, são tão grandes a necessidade e a utilidade da Doutrina Religiosa, desde que, desconhecendo-a, em vão se esperaria que alguém cumprisse as obrigações de Cristão, convém saber agora a quem compete preservar as almas desta perniciosa ignorância e instruí-las em tão indispensável Ciência. O que, Veneráveis Irmãos, não oferece dificuldade alguma, porque essa transcendente missão recai sobre os Pastores de Almas. Estes, efetivamente, acham-se obrigados por preceito do próprio Cristo a conhecer e apascentar as ovelhas que lhes foram confiadas. Apascentar é, antes do mais, doutrinar. “Eu vos darei Pastores segundo o Meu Coração, que vos apascentarão com a Ciência e com a Doutrina” (Jr 3,15). Assim falava Jeremias, inspirado por Deus; pelo que dizia o Apóstolo São Paulo: “Cristo não me enviou para Batizar, mas para pregar” (1Cor 1,17). Advertindo assim que o principal Ministério de quantos exercem, em certo sentido, o governo da Igreja, consiste em ensinar aos fiéis a Doutrina Sagrada.

7. Inútil se nos afigura aduzir novas provas da excelência deste Ministério e da estima que merece de Deus. Certo é que Deus exalta grandemente a Piedade que nos move a procurar o alívio das humanas misérias; mas, quem negará que muito acima dela devem ser colocados o zelo e o trabalho mediante os quais o entendimento recebe o ensino e os conselhos referentes, não às necessidades terrenas, mas aos Bens Celestiais? Nada pode ser mais grato a Jesus Cristo, Salvador das almas, que pelo Profeta Isaías disse de Si Mesmo: “Fui enviado para Evangelizar os pobres” (Lc 4,18).

Importa muito, Veneráveis Irmãos, insistir para que todos os Sacerdotes compreendam bem que ninguém tem maior obrigação e dever mais imperioso. Porque, quem negará que no Sacerdote hão de unir-se a Ciência e a Santidade de Vida? “Nos lábios do Sacerdote deve estar o depósito da Ciência” (Ml 2,7). E, com efeito, a Igreja o exige rigorosamente de quantos aspiram a ingressar no Sacerdócio.

E por que isto? Porque o Povo Cristão espera receber do sacerdote o ensinamento da Divina Lei e porque Deus o destina para propagá-la. “De sua boca se há de aprender a Lei, pois que ele é o Anjo do Senhor dos Exércitos” (Ml 2,7). Por isso, nas Ordens Sacras, o Bispo diz, dirigindo-se aos que vão ser elevados ao Sacerdócio: “Que vossa Doutrina seja remédio espiritual para o Povo de Deus, e os cooperadores de nossa Ordem sejam prudentes, para que, meditando dia e noite acerca da Lei, creiam no que leram e ensinem aquilo em que acreditam (Pontif.Romano).

Se não há Sacerdote algum a quem não correspondam estas obrigações, quais não serão as daqueles que pelo nome e autoridade que ostentam e por sua mesma dignidade têm a seu cargo e como que por compromisso a Cura das Almas? Estes devem ser colocados de algum modo nas fileiras dos Pastores e Doutores que Jesus Cristo deu aos fiéis “para que não sejam como meninos flutuantes, e levados, ao sabor de todo vento de doutrina, pela malignidade dos homens, pela astúcia dos que induzem ao erro, mas, praticando a Verdade na Caridade, cresçamos em todas as coisas naquele que é a Cabeça, o Cristo” (Ef 4, 14-15).

Disposições da Igreja.

8. Por isso, o Sacrossanto Concílio de Trento, falando dos Pastores de Almas, julgou que a primeira e a maior de suas obrigações era a de ensinar o Povo Cristão (Sess.V, c. 2 de Refor.; XXII, c. 8; sess. XXIV. c. 4 e 7 de Refor.). Dispôs, em conseqüência, que ao menos nos Domingos e Festas Solenes dessem ao Povo Instrução Religiosa, e durante os Santos Tempos de Avento e Quaresma diariamente ou ao menos três vezes por semana. Mas não só isto, porque acrescenta o Concílio que os Párocos estão obrigados, ao menos nos Domingos e Dias de Festa, a ensinar, por si ou por outros, aos meninos as Verdades da Fé e a Obediência que devem a Deus e a seus pais; e lhes manda, outrossim, que, quando tenham de administrar algum Sacramento, instruam em sua virtude os que o vão receber, explicando-o por meio de Pregações em língua vulgar.

9. Em sua Constituição “Etsi Minime”, Nosso Predecessor Bento XIV resumiu estas prescrições e as determinou claramente, dizendo: “Duas obrigações impõe principalmente o Concílio de Trento aos Pastores de almas: uma, que todos os Dias de Festa falem ao Povo acerca das Coisas Divinas; outra, que ensinem aos meninos e aos ignorantes os Elementos da Lei Divina e da Fé”. Este Sapientíssimo Pontífice distingue justamente o duplo Ministério, a saber, a Pregação, que habitualmente se chama Explicação do Evangelho, e o Ensino da Doutrina Cristã. Não faltarão, porventura, Sacerdotes que, movidos do desejo de poupar-se trabalho, crêem que com as Homilias satisfazem a obrigação de ensinar o Catecismo. Quem quer que reflita descobrirá a erronia desta opinião; porque a Pregação do Evangelho está destinada aos que já possuem os Elementos da Fé e vem a ser como o pão que se deve dar aos adultos; mas, pelo contrário, o Ensino do Catecismo é aquele alimento de que São Pedro queria que todos o desejassem avidamente com simplicidade, como meninos recém-nascidos.

Este Ofício de Catequista consiste em[1] escolher algumas Verdades relativas à Fé e aos Bons Costumes Cristãos e expô-las e explicá-las em todos os seus aspectos. E como o fim do ensino é a Perfeição da Vida, o Catequista há de comparar o que Deus manda obrar e o que os homens realmente fazem, depois do que, e havendo extraído oportunamente algum exemplo
da Sagrada Escritura, da História da Igreja ou das Vidas dos Santos, há de aconselhar o seu auditório e como que indicar-lhe a dedo a norma a que se deve ajustar a vida, e terminará exortando os presentes a fugir dos vícios e a praticar a Virtude.

Instrução Popular.

10. Não ignoramos, em verdade, que o Ofício de Ensinar a Doutrina Cristã não é grato a muitos, que o estimam em pouco e acaso impróprio para conseguir o elogio popular; isto posto, entendemos que semelhante juízo pertence aos que se deixam levar pela leviandade mais do que pela Verdade. Não negamos certamente a aprovação devida aos Oradores Sacros que, movidos do sincero desejo da Glória Divina, se empregam na defesa e reivindicação da Fé ou em fazer o Panegírico dos Santos; mas seu labor requer outra preliminar, a dos Catequistas, pois, faltando esta, não há fundamento e em vão se fadigam os que edificam a casa. Assaz freqüente é que floridos discursos, recebidos com aplauso por nutridas assembléias, somente sirvam para agradar ao ouvido e não comovam as almas.

Em troca, o Ensino Catequético, ainda que simples e humilde, merecem que se lhe apliquem estas palavras que Deus inspirou a Isaías: “Do mesmo modo que a chuva e a neve descem do Céu e a ele não retornam, mas empapam a terra e a penetram e fecundam, a fim de que produzam semente para semear e pão para comer, assim será a Palavra que sai da minha boca: não tornará a mim vazia, mas obrará tudo aquilo que Eu quero e executará felizmente aquelas coisas para que Eu a enviei” (Is 55,10-11).

O mesmo juízo se há de formular daqueles Sacerdotes que, para melhor exporem as
Verdades da Religião, publicam eruditos volumes, motivo pelo qual são dignos, certamente, de
copiosos elogios; mas, sem embargo, quão reduzido é o número dos que consultam as obras deste gênero e destas tiram os frutos que corresponderiam aos desejos do autor! Mas o Ensino da Doutrina Cristã, se feito como se deve fazê-lo, nunca é inútil para os que o escutam.

11. Convém repeti-lo, para inflamar o zelo dos Ministros do Senhor; já é crescidíssimo, e aumenta cada dia mais, o número dos que tudo ignoram em matéria de Religião, ou têm de Deus e da Fé Cristã conceito tal, que, em plena Luz da Verdade Católica, lhes permite viver como pagãos. Ai! Quão grande é o número, não diremos de meninos, mas de adultos e até de anciãos, encurvados pela idade, que ignoram absolutamente os principais Mistérios da Fé, e, ouvindo falar de Cristo, respondem: “Quem é Ele… para que eu creia n’Ele?” (Jo 9,36). Daí o terem por lícito forjar e manter ódio contra o próximo, fazer contratos iníquos, explorar negócios infames, fazer empréstimos usurários e constituir-se réus de outras prevaricações semelhantes.

Daí que, ignorantes da Lei de Cristo – que não somente proíbe toda ação torpe, mas também todo pensamento voluntário e o desejo de cometê-la – muitos que, seja lá pelo que for, quase se abstêm dos prazeres vergonhosos, alimentam em suas almas, que carecem de Princípios Religiosos, os pensamentos mais perversos, e tornam o número de suas iniqüidades maior que o dos cabelos de sua cabeça. E deve-se repetir que estes vícios não se encontram somente entre a gente do Campo e o Povo Baixo das Cidades, mas também, e acaso com maior freqüência, entre homens de outra categoria, inclusive entre os que se envaidecem de seu saber e, apoiados em uma vã erudição, pretendem ridicularizar a Religião e “blasfemar de tudo quanto não conhecem” (Jd 10).

12. Se é coisa vã esperar colheita de terra que não foi semeada, como se pode esperar gerações
adornadas de boas obras, se oportunamente não foram instruídas na Doutrina Cristã? Donde
justamente inferimos que, se a Fé enlanguesce em nossos dias a ponto de que em muitos sujeitos parece morta, é que se tem cumprido descuidadamente, ou se omitiu de todo, a obrigação de ensinar as Verdades contidas no Catecismo. Inútil será dizer, para encontrar escusa, que a Fé nos foi dada gratuitamente e conferida a cada um no Batismo.

Porque, certamente, quando fomos batizados em Jesus Cristo , fomos enriquecidos com a posse da Fé; mas esta divina semente não chega a “crescer… e lançar grandes ramos” (Mc 4,32) se fica abandonada a si mesma e à sua nativa Virtude. Tem o homem, desde que vem a este mundo, a faculdade de entender; mas esta faculdade necessita da excitação da palavra materna para converter-se em ato, como se costuma dizer nas escolas. Isto, precisamente, acontece ao homem Cristão, que, ao renascer pela água e pelo Espírito Santo, traz como que em germe a Fé; necessita, porém, do ensinamento da Igreja para que esta Fé possa nutrir-se, desenvolver-se e dar fruto.

Pelo que escrevia o Apóstolo: “A Fé provém do ouvir e o ouvir depende da Pregação da Palavra de Cristo” (Rm 10,17). E, para mostrar a necessidade do ensino, acrescentou: “Como ouvirão falar, se não há quem lhes pregue?” (Rm 10,14).

Normas.

13. Se, pelo que até aqui foi exposto, já se pode ver qual a importância da Instrução Religiosa do Povo, devemos fazer quanto nos seja possível a fim de que o Ensino da Sagrada Doutrina, que, servindo-nos das palavras do Nosso Predecessor Bento XIV, é a instituição mais útil para a Glória de Deus e a Salvação das Almas (Const. Etsi Minime, 13), se mantenha sempre florescente ou, onde tenha sido descuidada, se restaure. Assim, pois, Veneráveis Irmãos, querendo cumprir esta grave obrigação do Apostolado Supremo e fazer que em toda parte se observem em matéria tão importante as mesmas práticas, em virtude de Nossa Suprema Autoridade, estabelecemos para todas as Dioceses as seguintes disposições, que deverão ser rigorosamente observadas e cumpridas:

14. I. Todos os Párocos, e em geral quantos Sacerdotes exercem a Cura de Almas, hão de instruir com respeito ao Catecismo, durante uma hora inteira, todos os Domingos e Dias de Festa do ano, sem exceptuar nenhum, a todos os meninos e meninas naquilo que devem crer e praticar para alcançar a Salvação Eterna.

15. II. Os mesmos hão de preparar as meninas e meninos, em época fixa do ano, e mediante
Instrução que há de durar vários dias, a receber dignamente os Sacramentos da Penitência e
Confirmação.

16. III. Além disso, hão de preparar com especial cuidado aos jovenzinhos e jovenzinhas, para que, santamente, se aproximem pela primeira vez da Sagrada Mesa, valendo-se para este fim de oportunas Instruções e Exortações, durante todos os dias da Quaresma, e, se for necessário, durante vários outros depois da Páscoa.

17. IV. Em todas as Paróquias se erigirá canonicamente a Associação que vulgarmente se denomina Congregação da Doutrina Cristã [Cf. CD, 30], com a qual, principalmente onde aconteça ser escasso o número de Sacerdotes, terão os Párocos auxiliares do Estado Secular para o Ensino do Catecismo, os quais se ocuparão neste Ministério, tanto por zelo da Glória de Deus, como para lucrar as Santas Indulgências que os romanos Pontífices têm enriquecido essa Associação.

18. V. Nas grandes cidades, principalmente onde haja Faculdades maiores, Liceus e Colégios,
fundem-se Escolas de Religião, para instruir nas Verdades da Fé e nas práticas da Vida Cristã a
Juventude que freqüenta as Escolas Públicas em que se não menciona as Coisas de Religião.

19. VI. Porque nestes tempos de desordem a Idade Madura não está menos que a Infância
necessitada de Instrução Religiosa, os Párocos e quantos Sacerdotes tenham Cura de Almas, além da costumada Homilia sobre o Santo Evangelho, que hão de fazer todos os Dias de Festa, na Missa Paroquial, escolham a hora mais oportuna para o comparecimento dos fiéis – exceptuando a destinada à Doutrina dos meninos – e façam Instruções Catequísticas aos adultos, em forma simples e acomodadas às suas inteligências, devendo para isso acomodar-se ao Catecismo do Concílio de Trento; de tal modo que no espaço de quatro ou cinco anos expliquem quanto se refere ao Símbolo, aos Sacramentos, ao Decálogo, à Oração e aos Mandamentos da Igreja.

20. VII. Todas as coisas, Veneráveis Irmãos, mandamos e estabelecemos em virtude de Nossa
Autoridade Apostólica. Agora, obrigação vossa é procurar, cada qual em sua própria Diocese, que estas prescrições se cumpram inteiramente e sem tardança. Velai, pois, e, com a autoridade que vos é peculiar, procurai que nossos mandamentos não caiam em olvido ou – o que seria igual – se cumpram com negligência e frouxidão.

Para evitar esta falta, haveis de empregar as recomendações mais assíduas e imperativas aos Párocos, a fim de que não expliquem o Catecismo sem preparação, mas preparando-se antes com esmero, de modo que não falem a linguagem da sabedoria humana, senão que “com simplicidade de coração e sinceridade diante de Deus” (2Cor 1,12) sigam o exemplo de Cristo, que, embora expusesse “coisas que estavam ocultas desde a criação do mundo” (Mt 12,34), sem embargo “as dizia todas ao povo por meio de Parábolas” ou exemplos, “e sem Parábolas não lhes pregava” (Mt 12,34). Sabemos também que o mesmo fizeram os Apóstolos,
ensinados por Jesus Cristo, e deles dizia São Gregório Magno: “Puseram todo cuidado em pregar aos povos ignorantes coisas simples e acessíveis, e não coisas altas e árduas” (Moral. lib. 17, c. 26). E, em Coisas de Religião, uma grande parte de homens de nosso tempo deve ser considerada ignorante.

O Trabalho do Ensino.

21. Não quiséramos que alguém, em razão desta mesma simplicidade que convém observar,
imaginasse que o Ensino Catequístico não requeira trabalho nem meditação; pelo contrário, são de maior necessidade que em qualquer outra. É mais fácil achar um Orador que fale com abundância e brilho, que um Catequista cujas explicações mereçam elogios em tudo. Todos , portanto, hão de ter em conta que, por grande que seja a facilidade de conceitos e de expressão de que sejam naturalmente dotados, nenhum falará da Doutrina Cristã com proveito espiritual dos adultos e dos meninos, se antes não se preparou com estudos e séria meditação. Enganam-se os que, fiando-se na inexperiência e aviltamento intelectual do Povo, julgam-se poderem proceder negligentemente nesta matéria

O contrário é que é a verdade; quanto mais seja a incultura do auditório, maior zelo e
cuidado se requerem para lograr que as Verdades mais sublimes, tão elevadas sobre o entendimento da generalidade dos homens, penetrem na inteligência dos ignorantes, os quais, não menos que os sábios, necessitam conhecê-las para alcançar a Eterna Bem-Aventurança.

22. Seja-nos permitido, Veneráveis Irmãos, dizer-vos ao terminar esta Carta, o que disse Moisés: “Aquele que seja do Senhor, reúna-se comigo” (Ex 32,26). Rogamo-vos e suplicamos que observeis quão grandes são os estragos que produz nas almas a só ignorância das Coisas Divinas. Talvez muitas outras obras úteis e dignas de elogio se encontrem estabelecidas por vós nas vossas Dioceses, para bem de vossos respectivos rebanhos; mas, com preferência a todas elas, e com todo o empenho, todo o zelo e toda a constância que vos sejam possíveis, haveis de cuidar esmeradamente de que o conhecimento da Doutrina Cristã chegue a penetrar na mente e no coração de todos. “Comunique cada qual ao próximo – repetimos com o Apóstolo São Pedro – (1Pe 4,10).

Que, mediante a intercessão da Imaculada e Bem-Aventurada Virgem, vosso zelo e piedosa indústria se excitem com a Bênção Apostólica, que amorosamente vos concedemos, a vós, a vosso Clero e ao Povo que vos está confiado, e seja testemunha de Nosso afeto e primícias dos Divinos Dons.

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 15 de Abril do ano de 1905, segundo de Nosso Pontificado. PIO, PAPA X

É Razoável Crer?



Por Alfonso Aguiló

"Passei a minha vida inteira tenso como um arco, mas nunca soube para onde apontar e lançar a flecha"- Jean Serment.

Crer em Deus?

- Será que Deus Realmente Existe?

Uma constante na história dos Povos.

A noção da existência de Deus povoa a mente humana desde os tempos mais imemoriais. Aparece com insistencia em todos os lugares e em todas as épocas, mesmo nas civilizações mais arcaicas e isoladas que se tem notícia. Não existe nem um povo nem período algum da história sem religião.

A existencia de Deus foi sempre uma das grandes questões humanas, pois apresenta-se perante o homem com um caráter radicalmente comprometedor. O homem procura uma resposta para os grandes enígmas da condição humana, que não importa a época, surge no mais fundo do coração: O sentido e o fim da nossa vida, o bem e o mal, a origem e a razão de ser da dor, o caminho pra alcançar a verdadeira felicidade, a morte, o juízo, a retribuição depois da morte.

Tudo aponta para o mistério que envolve nossa existencia - as perguntas " de onde vim?" e "para onde vou", rumo àquela força misteriosa que está sempre presente no curso de todos os acontecimentos humanos e que impregna a vida de um íntimo sentido religioso.

Mas, para muitas pessoas, não interessa o que todos os povos fizeram ao longo da história. Não querem fazer a mesma coisa que os outros fizeram no passado.

Não quiz dizer que devamos fazer exatamente as mesmas coisas que os nossos antepassados. As pessoas fazem muito bem em procurar o seu próprio caminho e em ser diferentes dos que as antecederam. O que eu queria dizer é que nunca é supérfluo lançar um olhar sobre a história, ao menos porque isso pode fornecer uma certa perspectiva que sempre projeta luz sobre a vida de cada qual.

Já dizia Aristóteles que, "se a religião é uma constante na história dos povos, não pode ser senão porque pertence à própria essência do homem" Por mais fortes que tenham sido, às vezes, a hostilidade e a influencia secularizante do ambiente, nunca o homem foi totalmente indiferente a questão religiosa. Onde quer que as instituições religiosas tenham sido suprimidas e os fiéis perseguidos de uma maneira ou de outra, as idéias e as obras da religião voltaram a brotar uma e outra vez. As perguntas sobre o sentido da vida, sobre o enígma do mal e da morte, sobre o que acontecerá depois da morte, são perguntas a que nunca se pôde fugir. Deus está na própria origem existencial do homem.

Pode-se atribuir tudo ao acaso?

- Mas não se pode pensar que o Universo inteiro é, simplesmente fruto do acaso?

Desde os tempos mais remotos, o homem interrogou-se com espanto sobre qual seria a explicação para toda essa harmonia que existe na configuração e nas leis do Universo.

"Quando o homem de hoje - comenta José Ramón Ayllón - observa a complexidade e perfeição dos processos bioquímicos no interior de uma célula, ou a dos mais gigantescos fenomenos de movimento e transformação das galáxias; quando assoma ao mundo microfísico e propõe leis que tentam explicar os fenomenos que acontecem em escalas de até um bilionésimo de milímetro; ou quando aprofunda na estrutura em grande escala do Universo até os limites de mais de um bilhão de bilhões de quilometros - contemplando todo esse espetáculo grandioso, cada dia com maior profundidade graças aos avanços da ciencia - torna-se cada vez mais difícil sustentar que tudo obedece a uma evolução misteriosa governada pelo acaso, sem que haja nenhuma inteligencia por trás".

Onde existe um plano, tem de haver alguém que planeja.

E por trás de uma obra tão complexa e de tais proporções, tem de haver um Criador cujo poder e sabedoria transcendem qualquer medida. Pensar que toda a harmonia do Universo e todas as complexas leis da natureza são fruto do acaso seria como pensar que as andanças de Dom Quixote de La mancha, escritas por Cervantes, podem ter aparecido íntegras extraíndo as letras ao acaso de uma gigantesca marmita com uma sopa de letras.

Recorrer a um gigantesco acaso para explicar as maravilhas da natureza é uma explicação demasiado ingenua.

-Mas não é possível também sustentar, como dizem alguns, que o mundo sempre existiu?

Quando vemos um livro, um quadro ou um edifício, pensamos imediatamente que, por trás dessas obras, deve haver, rspectivamente, um escritor, um pintor e um arquiteto.

Assim como a ninguém passa pela cabeça pensar que o Quixote surgiu de um imenso monte de letras que caíram por obra do acaso sobre umas folhas de papel e se ordenaram precisamente dessa forma tão engenhosa, também não se pode dizer que aquele edifício "está ai desde sempre", ou que aquele quadro "se pintou a si mesmo", ou coisas desse tipo.

Não podemos seriamente sustentar que o mundo "se fez sózinho" ou que " se criou a si próprio". É uma incompatibilidade absolutamente evidente.

Fonte: É Razoável crer? - Quadrante

Depois veremos: Tem de haver uma causa Primeira?