sábado, 18 de fevereiro de 2012

Tem de haver uma causa primeira?



Por Alfonso Aguiló

"- Não conheço nenhum oleiro - disse o vaso de barro - Nasci por mim mesmo e sou eterno."
"- Ficou louco, coitado. O barro subiu-lhe à cabeça."


"Assim expressava Franz Binhack, na sua obra Topfer und Topf ( "Oleiro e vaso"), com um certo toque de humor, o que há de ridículo na atitude de quem fecha os olhos ante a inevitável pergunta sobre a origem do primeiro ser.

Se de uma torneira sai água, é porque existe um encanamento que transporta esta água. E essa tubulação recebe-la-á de outra, e essa, por sua vez, de outra. Mas, em algum momento, os canos vão acabar e chegaremos ao reservatório. Ninguém afirmaria que sempre há agua na torneira simplismente porque os canos tem um comprimento infinito.

"Do nada - afirma Leo J.Trese - não podemos obter coisa alguma. Se não temos bolotas, não podemos plantar um carvalho. Sem pais não há filhos" - Portanto se não existisse um Ser que fosse eterno (isto é um Ser que nunca tivesse começado a existir) e onipotente (capaz de fazer do nada alguma coisa), não existiria o mundo, e nós também não existiríamos.

"Um carvalho origina-se de uma bolota, mas as bolotas crescem nos carvalhos. Quem fez a primeira bolota ou o primeiro carvalho?"

Alguns evolucionistas diriam que tudo começou a partir de uma massa informe de átomos. Está bem, mas... quem criou essa massa de átomos? De onde procediam? Quem foi que dirigiu a evolução desses átomos, conforme leis que podemos descobrir, e que evitaram um desenvolvimento caótico? Alguém teve de faze-lo. Alguém que, desde toda a eternidade, tenha possuído uma existencia independente.

Houve um tempo em que não existiu nenhum dos seres deste mundo, cada um deles deverá sempre a sua existencia a outro ser. Todos, tanto vivos como os inertes, são elos de uma longa cadeia de causas e efeitos. Mas essa cadeia tem de chegar até uma causa primeira. Pretender que um número infinito de causas pudessem dispensar-nos de encontrar uma causa primeira seria a mesma coisa que afirmar que um pincel pode pintar sozinho

Há quem diga que é suficiente saber que os seres simplesmente existem. Que pouco importa saber de onde procedem e que, portanto, não é preciso pensar mais nisso. Então estaríamos perto de dizer que não se deve pensar. Porque renunciar a uma parcela tão importante do pensamento equivale a deixar de lado uma parcela importante da realidade.

Se vemos um paletó pendurado de uma parede (o exemplo é de Frank Sheed), mas não reparamos que está sustentado por um cabide, e isso nos leva a pensar que os paletós desafiam as leis da gravidade e se penduram das paredes pelo seu próprio poder, então não viveríamos no mundo real, mas num mundo irreal que nós mesmos forjamos.

Da mesma forma, se observamos que as coisas existem e não vemos com clareza qual é a causa pela qual existem, e isso nos leva a negar ou a ignorar essa causa, estaríamos saindo do mundo real.

Um Pequeno "Drible" Dialético

Mas alguns filósosfos afirmaram que a relação causa-efeito náo é senão uma dialética alheia à natureza, na qual os fenômenos se repetem de maneira incessante sem que essa relação de causa e efeito exista senão no nosso entendimento...

Não parece que a noção de causa seja uma simples elucubração humana. É algo que comprovamos todos os dias e que a ciencia não cessa de invocar.

"Se vejo umas crianças - observa André Frossard -a experiencia diz-me que não se fizeram por si mesmas. Talvez um filósofo afirme que não posso demonstrá-lo, mas também ele se veria em apuros para demonstrar que estou errado se afirmo que surgiram de umas couves".

Rejeitar dessa maneira a relação causa-efeito parece um atentado contra o bom senso. Na realidade, os que pensam assim, depois, na vida diária, não são consequentes com essa teoria.

Sabem, por exemplo, que, se meterem o dedo numa tomada, receberão o choque correspondente , e por isso procuram não faze-lo. Sabem que a relação entre esse ato e o choque elétrico não é uma "dialética alheia à natureza" que "só exista no seu entendimento"...até porque o seu entendimento não está nos dedos.

Quando - negando a evidência das causas - se diz que tudo o que existe é fruto do acaso, renuncia-se explicitamente ao uso da razão.

A fé cristã confia totalmente na reta razão, mediante a qual se pode chegar ao conhecimento de Deus. Para os que creem, a razão é inseparável da fé e deve ser respeitada como o que é, ou seja, um dom divino.

Mas se se pode chegar a Deus com as luzes da razão, para que é necessária a fé?

Não é difícil chegar a reconhecer que Deus existe. Acabamos de ver alguns raciocínios que nos levam a Ele, e veremos ainda muitos mais. De qualquer modo, nem sempre esse trabalho é fácil. Além de exigir - como acontece com todo o conhecimento - uma maneira reta de pensar e um profundo amor à verdade, é preciso levar em conta que, em muitos casos, nós, os homens, renunciamos a continuar a discorrer racionalmente, quando que contrariam os nossos egoísmos ou as nossas más paixões.

Penso que esta pode ser uma das razões pelas quais Deus se adiantou e, dando-se a conhecer mediante a "Revelação," como sabemos, nos estendeu a mão.

Assim, além disso, todos os homens podem conhecer todas essas verdades de modo mais fácil, com maior certeza e sem erros.

Parte 1 AQUI


Fonte: É Razoável crer? - Quadrante

Depois veremos: Um Conto de Fadas para Adultos

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

71 - Formas de penitência e suas razões

"Nosso corpo tem essa manha, quanto mais o satisfazemos, mais necessidades inventa". - Santa Tereza



Estudo sobre Mortificação - segundo Tanquerey - AQUI

Porta Fidei


Sumo Pontífice Bento XVI

Com o qual se proclama o ano da Fé


1. A PORTA DA FÉ (cf. Act 14, 27), que introduz na vida de comunhão com Deus e permite a entrada na sua Igreja, está sempre aberta para nós. É possível cruzar este limiar, quando a Palavra de Deus é anunciada e o coração se deixa plasmar pela graça que transforma. Atravessar esta porta implica embrenhar-se num caminho que dura a vida inteira. Este caminho tem início no Baptismo (cf. Rm 6, 4), pelo qual podemos dirigir-nos a Deus com o nome de Pai, e está concluído com a passagem através da morte para a vida eterna, fruto da ressurreição do Senhor Jesus, que, com o dom do Espírito Santo, quis fazer participantes da sua própria glória quantos crêem n’Ele (cf. Jo 17, 22).

Professar a fé na Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo – equivale a crer num só Deus que é Amor (cf. 1 Jo 4, 8): o Pai, que na plenitude dos tempos enviou seu Filho para a nossa salvação; Jesus Cristo, que redimiu o mundo no mistério da sua morte e ressurreição; o Espírito Santo, que guia a Igreja através dos séculos enquanto aguarda o regresso glorioso do Senhor.

2. Desde o princípio do meu ministério como Sucessor de Pedro, lembrei a necessidade de redescobrir o caminho da fé para fazer brilhar, com evidência sempre maior, a alegria e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo. Durante a homilia da Santa Missa no início do pontificado, disse: «A Igreja no seu conjunto, e os Pastores nela, como Cristo devem pôr-se a caminho para conduzir os homens fora do deserto, para lugares da vida, da amizade com o Filho de Deus, para Aquele que dá a vida, a vida em plenitude»[1]. Sucede não poucas vezes que os cristãos sintam maior preocupação com as consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé, considerando esta como um pressuposto óbvio da sua vida diária. Ora um tal pressuposto não só deixou de existir, mas frequentemente acaba até negado.[2] Enquanto, no passado, era possível reconhecer um tecido cultural unitário, amplamente compartilhado no seu apelo aos conteúdos da fé e aos valores por ela inspirados, hoje parece que já não é assim em grandes sectores da sociedade devido a uma profunda crise de fé que atingiu muitas pessoas.

3. Não podemos aceitar que o sal se torne insípido e a luz fique escondida (cf. Mt 5, 13-16). Também o homem contemporâneo pode sentir de novo a necessidade de ir como a samaritana ao poço, para ouvir Jesus que convida a crer n’Ele e a beber na sua fonte, donde jorra água viva (cf. Jo 4, 14). Devemos readquirir o gosto de nos alimentarmos da Palavra de Deus, transmitida fielmente pela Igreja, e do Pão da vida, oferecidos como sustento de quantos são seus discípulos (cf. Jo 6, 51). De facto, em nossos dias ressoa ainda, com a mesma força, este ensinamento de Jesus: «Trabalhai, não pelo alimento que desaparece, mas pelo alimento que perdura e dá a vida eterna» (Jo 6, 27). E a questão, então posta por aqueles que O escutavam, é a mesma que colocamos nós também hoje: «Que havemos nós de fazer para realizar as obras de Deus?» (Jo 6, 28). Conhecemos a resposta de Jesus: «A obra de Deus é esta: crer n’Aquele que Ele enviou» (Jo 6, 29). Por isso, crer em Jesus Cristo é o caminho para se poder chegar definitivamente à salvação.

4. À luz de tudo isto, decidi proclamar um Ano da Fé. Este terá início a 11 de Outubro de 2012, no cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II, e terminará na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, a 24 de Novembro de 2013. Na referida data de 11 de Outubro de 2012, completar-se-ão também vinte anos da publicação do Catecismo da Igreja Católica, texto promulgado pelo meu Predecessor, o Beato Papa João Paulo II,[3] com o objectivo de ilustrar a todos os fiéis a força e a beleza da fé. Esta obra, verdadeiro fruto do Concílio Vaticano II, foi desejada pelo Sínodo Extraordinário dos Bispos de 1985 como instrumento ao serviço da catequese[4] e foi realizado com a colaboração de todo o episcopado da Igreja Católica. E uma Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos foi convocada por mim, precisamente para o mês de Outubro de 2012, tendo por tema A nova evangelização para a transmissão da fé cristã. Será uma ocasião propícia para introduzir o complexo eclesial inteiro num tempo de particular reflexão e redescoberta da fé. Não é a primeira vez que a Igreja é chamada a celebrar um Ano da Fé.

O meu venerado Predecessor, o Servo de Deus Paulo VI, proclamou um ano semelhante, em 1967, para comemorar o martírio dos apóstolos Pedro e Paulo no décimo nono centenário do seu supremo testemunho. Idealizou-o como um momento solene, para que houvesse, em toda a Igreja, «uma autêntica e sincera profissão da mesma fé»; quis ainda que esta fosse confirmada de maneira «individual e colectiva, livre e consciente, interior e exterior, humilde e franca».[5]

Pensava que a Igreja poderia assim retomar «exacta consciência da sua fé para a reavivar, purificar, confirmar, confessar».[6] As grandes convulsões, que se verificaram naquele Ano, tornaram ainda mais evidente a necessidade duma tal celebração. Esta terminou com a Profissão de Fé do Povo de Deus, [7] para atestar como os conteúdos essenciais, que há séculos constituem o património de todos os crentes, necessitam de ser confirmados, compreendidos e aprofundados de maneira sempre nova para se dar testemunho coerente deles em condições históricas diversas das do passado.

5. Sob alguns aspectos, o meu venerado Predecessor viu este Ano como uma «consequência e exigência pós-conciliar»[8], bem ciente das graves dificuldades daquele tempo sobretudo no que se referia à profissão da verdadeira fé e da sua recta interpretação. Pareceu-me que fazer coincidir o início do Ano da Fé com o cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II poderia ser uma ocasião propícia para compreender que os textos deixados em herança pelos Padres Conciliares, segundo as palavras do Beato João Paulo II, «não perdem o seu valor nem a sua beleza. É necessário fazê-los ler de forma tal que possam ser conhecidos e assimilados como textos qualificados e normativos do Magistério, no âmbito da Tradição da Igreja. Sinto hoje ainda mais intensamente o dever de indicar o Concílio como a grande graça de que beneficiou a Igreja no século XX: nele se encontra uma bússola segura para nos orientar no caminho do século que começa».[9]

Quero aqui repetir com veemência as palavras que disse a propósito do Concílio poucos meses depois da minha eleição para Sucessor de Pedro: «Se o lermos e recebermos guiados por uma justa hermenêutica, o Concílio pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a renovação sempre necessária da Igreja».[10]

6. A renovação da Igreja realiza-se também através do testemunho prestado pela vida dos crentes: de facto,
os cristãos são chamados a fazer brilhar, com a sua própria vida no mundo, a Palavra de verdade que o Senhor Jesus nos deixou. O próprio Concílio, na Constituição dogmática Lumen gentium, afirma: «Enquanto Cristo “santo, inocente, imaculado” (Heb 7, 26), não conheceu o pecado (cf. 2 Cor 5, 21), mas veio apenas expiar os pecados do povo (cf. Heb 2, 17), a Igreja, contendo pecadores no seu próprio seio, simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação, exercita continuamente a penitência e a renovação. A Igreja “prossegue a sua peregrinação no meio das perseguições do mundo e das consolações de Deus”, anunciando a cruz e a morte do Senhor até que Ele venha (cf. 1 Cor 11, 26). Mas é robustecida pela força do Senhor ressuscitado, de modo a vencer, pela paciência e pela caridade, as suas aflições e dificuldades tanto internas como externas, e a revelar, velada mas fielmente, o seu mistério, até que por fim se manifeste em plena luz».[11]

Nesta perspectiva, o Ano da Fé é convite para uma autêntica e renovada conversão ao Senhor, único Salvador do mundo. No mistério da sua morte e ressurreição, Deus revelou plenamente o Amor que salva e chama os homens à conversão de vida por meio da remissão dos pecados (cf. Act 5, 31).

Para o apóstolo Paulo, este amor introduz o homem numa vida nova: «Pelo Baptismo fomos sepultados com Ele na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela glória do Pai, também nós caminhemos numa vida nova» (Rm 6, 4). Em virtude da fé, esta vida nova plasma toda a existência humana segundo a novidade radical da ressurreição. Na medida da sua livre disponibilidade, os pensamentos e os afectos, a mentalidade e o comportamento do homem vão sendo pouco a pouco purificados e transformados, ao longo de um itinerário jamais completamente terminado nesta vida. A «fé, que actua pelo amor» (Gl 5, 6), torna-se um novo critério de entendimento e de acção, que muda toda a vida do homem (cf. Rm 12, 2; Cl 3, 9-10; Ef 4, 20-29; 2 Cor 5, 17).

7. «Caritas Christi urget nos – o amor de Cristo nos impele» (2 Cor 5, 14): é o amor de Cristo que enche os nossos corações e nos impele a evangelizar. Hoje, como outrora, Ele envia-nos pelas estradas do mundo para proclamar o seu Evangelho a todos os povos da terra (cf. Mt 28, 19). Com o seu amor, Jesus Cristo atrai a Si os homens de cada geração: em todo o tempo, Ele convoca a Igreja confiando-lhe o anúncio do Evangelho, com um mandato que é sempre novo.

Por isso, também hoje é necessário um empenho eclesial mais convicto a favor duma nova evangelização, para descobrir de novo a alegria de crer e reencontrar o entusiasmo de comunicar a fé. Na descoberta diária do seu amor, ganha força e vigor o compromisso missionário dos crentes, que jamais pode faltar. Com efeito, a fé cresce quando é vivida como experiência de um amor recebido e é comunicada como experiência de graça e de alegria. A fé torna-nos fecundos, porque alarga o coração com a esperança e permite oferecer um testemunho que é capaz de gerar: de facto, abre o coração e a mente dos ouvintes para acolherem o convite do Senhor a aderir à sua Palavra a fim de se tornarem seus discípulos.

Os crentes – atesta Santo Agostinho – «fortificam-se acreditando».[12] O Santo Bispo de Hipona tinha boas razões para falar assim. Como sabemos, a sua vida foi uma busca contínua da beleza da fé enquanto o seu coração não encontrou descanso em Deus.[13] Os seus numerosos escritos, onde se explica a importância de crer e a verdade da fé, permaneceram até aos nossos dias como um património de riqueza incomparável e consentem ainda que tantas pessoas à procura de Deus encontrem o justo percurso para chegar à «porta da fé».

Por conseguinte, só acreditando é que a fé cresce e se revigora; não há outra possibilidade de adquirir certeza sobre a própria vida, senão abandonar-se progressivamente nas mãos de um amor que se experimenta cada vez maior porque tem a sua origem em Deus.

8. Nesta feliz ocorrência, pretendo convidar os Irmãos Bispos de todo o mundo para que se unam ao Sucessor de Pedro, no tempo de graça espiritual que o Senhor nos oferece, a fim de comemorar o dom precioso da fé. Queremos celebrar este Ano de forma digna e fecunda.

Deverá intensificar-se a reflexão sobre a fé, para ajudar todos os crentes em Cristo a tornarem mais consciente e revigorarem a sua adesão ao Evangelho, sobretudo num momento de profunda mudança como este que a humanidade está a viver. Teremos oportunidade de confessar a fé no Senhor Ressuscitado nas nossas catedrais e nas igrejas do mundo inteiro, nas nossas casas e no meio das nossas famílias, para que cada um sinta fortemente a exigência de conhecer melhor e de transmitir às gerações futuras a fé de sempre. Neste Ano, tanto as comunidades religiosas como as comunidades paroquiais e todas as realidades eclesiais, antigas e novas, encontrarão forma de fazer publicamente profissão do Credo.

9. Desejamos que este Ano suscite, em cada crente, o anseio de confessar a fé plenamente e com renovada convicção, com confiança e esperança. Será uma ocasião propícia também para intensificar a celebração da fé na liturgia, particularmente na Eucaristia, que é «a meta para a qual se encaminha a acção da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força».[14]

Simultaneamente esperamos que o testemunho de vida dos crentes cresça na sua credibilidade. Descobrir novamente os conteúdos da fé professada, celebrada, vivida e rezada[15] e reflectir sobre o próprio acto com que se crê, é um compromisso que cada crente deve assumir, sobretudo neste Ano.

Não foi sem razão que, nos primeiros séculos, os cristãos eram obrigados a aprender de memória o Credo. É que este servia-lhes de oração diária, para não esquecerem o compromisso assumido com o Baptismo. Recorda-o, com palavras densas de significado, Santo Agostinho quando afirma numa homilia sobre a redditio symboli (a entrega do Credo): «O símbolo do santo mistério, que recebestes todos juntos e que hoje proferistes um a um, reúne as palavras sobre as quais está edificada com solidez a fé da Igreja, nossa Mãe, apoiada no alicerce seguro que é Cristo Senhor. E vós recebeste-lo e proferiste-lo, mas deveis tê-lo sempre presente na mente e no coração, deveis repeti-lo nos vossos leitos, pensar nele nas praças e não o esquecer durante as refeições; e, mesmo quando o corpo dorme, o vosso coração continue de vigília por ele».[16]

10. Queria agora delinear um percurso que ajude a compreender de maneira mais profunda os conteúdos da fé e, juntamente com eles, também o acto pelo qual decidimos, com plena liberdade, entregar-nos totalmente a Deus. De facto, existe uma unidade profunda entre o acto com que se crê e os conteúdos a que damos o nosso assentimento. O apóstolo Paulo permite entrar dentro desta realidade quando escreve: «Acredita-se com o coração e, com a boca, faz-se a profissão de fé» (Rm 10, 10). O coração indica que o primeiro acto, pelo qual se chega à fé, é dom de Deus e acção da graça que age e transforma a pessoa até ao mais íntimo dela mesma.

A este respeito é muito eloquente o exemplo de Lídia. Narra São Lucas que o apóstolo Paulo, encontrando-se em Filipos, num sábado foi anunciar o Evangelho a algumas mulheres; entre elas, estava Lídia. «O Senhor abriu-lhe o coração para aderir ao que Paulo dizia» (Act 16, 14). O sentido contido na expressão é importante. São Lucas ensina que o conhecimento dos conteúdos que se deve acreditar não é suficiente, se depois o coração – autêntico sacrário da pessoa – não for aberto pela graça, que consente ter olhos para ver em profundidade e compreender que o que foi anunciado é a Palavra de Deus.

Por sua vez, o professar com a boca indica que a fé implica um testemunho e um compromisso públicos. O cristão não pode jamais pensar que o crer seja um facto privado. A fé é decidir estar com o Senhor, para viver com Ele. E este «estar com Ele» introduz na compreensão das razões pelas quais se acredita. A fé, precisamente porque é um acto da liberdade, exige também assumir a responsabilidade social daquilo que se acredita. No dia de Pentecostes, a Igreja manifesta, com toda a clareza, esta dimensão pública do crer e do anunciar sem temor a própria fé a toda a gente. É o dom do Espírito Santo que prepara para a missão e fortalece o nosso testemunho, tornando-o franco e corajoso.

A própria profissão da fé é um acto simultaneamente pessoal e comunitário. De facto, o primeiro sujeito da fé é a Igreja. É na fé da comunidade cristã que cada um recebe o Baptismo, sinal eficaz da entrada no povo dos crentes para obter a salvação. Como atesta o Catecismo da Igreja Católica, «“Eu creio”: é a fé da Igreja, professada pessoalmente por cada crente, principalmente por ocasião do Baptismo. “Nós cremos”: é a fé da Igreja, confessada pelos bispos reunidos em Concílio ou, de modo mais geral, pela assembleia litúrgica dos crentes. “Eu creio”: é também a Igreja, nossa Mãe, que responde a Deus pela sua fé e nos ensina a dizer: “Eu creio”, “Nós cremos”».[17]

Como se pode notar, o conhecimento dos conteúdos de fé é essencial para se dar o próprio assentimento, isto é, para aderir plenamente com a inteligência e a vontade a quanto é proposto pela Igreja. O conhecimento da fé introduz na totalidade do mistério salvífico revelado por Deus. Por isso, o assentimento prestado implica que, quando se acredita, se aceita livremente todo o mistério da fé, porque o garante da sua verdade é o próprio Deus, que Se revela e permite conhecer o seu mistério de amor.[18]

Por outro lado, não podemos esquecer que, no nosso contexto cultural, há muitas pessoas que, embora não reconhecendo em si mesmas o dom da fé, todavia vivem uma busca sincera do sentido último e da verdade definitiva acerca da sua existência e do mundo. Esta busca é um verdadeiro «preâmbulo» da fé, porque move as pessoas pela estrada que conduz ao mistério de Deus. De facto, a própria razão do homem traz inscrita em si mesma a exigência «daquilo que vale e permanece sempre».[19] Esta exigência constitui um convite permanente, inscrito indelevelmente no coração humano, para caminhar ao encontro d’Aquele que não teríamos procurado se Ele mesmo não tivesse já vindo ao nosso encontro.[20] É precisamente a este encontro que nos convida e abre plenamente a fé.

11. Para chegar a um conhecimento sistemático da fé, todos podem encontrar um subsídio precioso e indispensável no Catecismo da Igreja Católica. Este constitui um dos frutos mais importantes do Concílio Vaticano II. Na Constituição apostólica Fidei depositum – não sem razão assinada na passagem do trigésimo aniversário da abertura do Concílio Vaticano II – o Beato João Paulo II escrevia: «Este catecismo dará um contributo muito importante à obra de renovação de toda a vida eclesial (...). Declaro-o norma segura para o ensino da fé e, por isso, instrumento válido e legítimo ao serviço da comunhão eclesial».[21]

É precisamente nesta linha que o Ano da Fé deverá exprimir um esforço generalizado em prol da redescoberta e do estudo dos conteúdos fundamentais da fé, que têm no Catecismo da Igreja Católica a sua síntese sistemática e orgânica. Nele, de facto, sobressai a riqueza de doutrina que a Igreja acolheu, guardou e ofereceu durante os seus dois mil anos de história. Desde a Sagrada Escritura aos Padres da Igreja, desde os Mestres de teologia aos Santos que atravessaram os séculos, o Catecismo oferece uma memória permanente dos inúmeros modos em que a Igreja meditou sobre a fé e progrediu na doutrina para dar certeza aos crentes na sua vida de fé.

Na sua própria estrutura, o Catecismo da Igreja Católica apresenta o desenvolvimento da fé até chegar aos grandes temas da vida diária. Repassando as páginas, descobre-se que o que ali se apresenta não é uma teoria, mas o encontro com uma Pessoa que vive na Igreja. Na verdade, a seguir à profissão de fé, vem a explicação da vida sacramental, na qual Cristo está presente e operante, continuando a construir a sua Igreja. Sem a liturgia e os sacramentos, a profissão de fé não seria eficaz, porque faltaria a graça que sustenta o testemunho dos cristãos. Na mesma linha, a doutrina do Catecismo sobre a vida moral adquire todo o seu significado, se for colocada em relação com a fé, a liturgia e a oração.

12. Assim, no Ano em questão, o Catecismo da Igreja Católica poderá ser um verdadeiro instrumento de apoio da fé, sobretudo para quantos têm a peito a formação dos cristãos, tão determinante no nosso contexto cultural. Com tal finalidade, convidei a Congregação para a Doutrina da Fé a redigir, de comum acordo com os competentes Organismos da Santa Sé, uma Nota, através da qual se ofereçam à Igreja e aos crentes algumas indicações para viver, nos moldes mais eficazes e apropriados, este Ano da Fé ao serviço do crer e do evangelizar.

De facto, em nossos dias mais do que no passado, a fé vê-se sujeita a uma série de interrogativos, que provêm duma diversa mentalidade que, hoje de uma forma particular, reduz o âmbito das certezas racionais ao das conquistas científicas e tecnológicas. Mas, a Igreja nunca teve medo de mostrar que não é possível haver qualquer conflito entre fé e ciência autêntica, porque ambas, embora por caminhos diferentes, tendem para a verdade.[22]

13. Será decisivo repassar, durante este Ano, a história da nossa fé, que faz ver o mistério insondável da santidade entrelaçada com o pecado. Enquanto a primeira põe em evidência a grande contribuição que homens e mulheres prestaram para o crescimento e o progresso da comunidade com o testemunho da sua vida, o segundo deve provocar em todos uma sincera e contínua obra de conversão para experimentar a misericórdia do Pai, que vem ao encontro de todos.

Ao longo deste tempo, manteremos o olhar fixo sobre Jesus Cristo, «autor e consumador da fé» (Heb 12, 2): n’Ele encontra plena realização toda a ânsia e anélito do coração humano. A alegria do amor, a resposta ao drama da tribulação e do sofrimento, a força do perdão face à ofensa recebida e a vitória da vida sobre o vazio da morte, tudo isto encontra plena realização no mistério da sua Encarnação, do seu fazer-Se homem, do partilhar connosco a fragilidade humana para a transformar com a força da sua ressurreição. N’Ele, morto e ressuscitado para a nossa salvação, encontram plena luz os exemplos de fé que marcaram estes dois mil anos da nossa história de salvação.

Pela fé, Maria acolheu a palavra do Anjo e acreditou no anúncio de que seria Mãe de Deus na obediência da sua dedicação (cf. Lc 1, 38). Ao visitar Isabel, elevou o seu cântico de louvor ao Altíssimo pelas maravilhas que realizava em quantos a Ele se confiavam (cf. Lc 1, 46-55). Com alegria e trepidação, deu à luz o seu Filho unigénito, mantendo intacta a sua virgindade (cf. Lc 2, 6-7). Confiando em José, seu Esposo, levou Jesus para o Egipto a fim de O salvar da perseguição de Herodes (cf. Mt 2, 13-15). Com a mesma fé, seguiu o Senhor na sua pregação e permaneceu a seu lado mesmo no Gólgota (cf. Jo 19, 25-27). Com fé, Maria saboreou os frutos da ressurreição de Jesus e, conservando no coração a memória de tudo (cf. Lc 2, 19.51), transmitiu-a aos Doze reunidos com Ela no Cenáculo para receberem o Espírito Santo (cf. Act 1, 14; 2, 1-4).

Pela fé, os Apóstolos deixaram tudo para seguir o Mestre (cf. Mc 10, 28). Acreditaram nas palavras com que Ele anunciava o Reino de Deus presente e realizado na sua Pessoa (cf. Lc 11, 20). Viveram em comunhão de vida com Jesus, que os instruía com a sua doutrina, deixando-lhes uma nova regra de vida pela qual haveriam de ser reconhecidos como seus discípulos depois da morte d’Ele (cf. Jo 13, 34-35). Pela fé, foram pelo mundo inteiro, obedecendo ao mandato de levar o Evangelho a toda a criatura (cf. Mc 16, 15) e, sem temor algum, anunciaram a todos a alegria da ressurreição, de que foram fiéis testemunhas.

Pela fé, os discípulos formaram a primeira comunidade reunida à volta do ensino dos Apóstolos, na oração, na celebração da Eucaristia, pondo em comum aquilo que possuíam para acudir às necessidades dos irmãos (cf. Act 2, 42-47).

Pela fé, os mártires deram a sua vida para testemunhar a verdade do Evangelho que os transformara, tornando-os capazes de chegar até ao dom maior do amor com o perdão dos seus próprios perseguidores.

Pela fé, homens e mulheres consagraram a sua vida a Cristo, deixando tudo para viver em simplicidade evangélica a obediência, a pobreza e a castidade, sinais concretos de quem aguarda o Senhor, que não tarda a vir. Pela fé, muitos cristãos se fizeram promotores de uma acção em prol da justiça, para tornar palpável a palavra do Senhor, que veio anunciar a libertação da opressão e um ano de graça para todos (cf. Lc 4, 18-19).

Pela fé, no decurso dos séculos, homens e mulheres de todas as idades, cujo nome está escrito no Livro da vida (cf. Ap 7, 9; 13, 8), confessaram a beleza de seguir o Senhor Jesus nos lugares onde eram chamados a dar testemunho do seu ser cristão: na família, na profissão, na vida pública, no exercício dos carismas e ministérios a que foram chamados.

Pela fé, vivemos também nós, reconhecendo o Senhor Jesus vivo e presente na nossa vida e na história.

14. O Ano da Fé será uma ocasião propícia também para intensificar o testemunho da caridade. Recorda São Paulo: «Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade» (1 Cor 13, 13). Com palavras ainda mais incisivas – que não cessam de empenhar os cristãos –, afirmava o apóstolo Tiago: «De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: “Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome”, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta. Mais ainda! Poderá alguém alegar sensatamente: “Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me então a tua fé sem obras, que eu, pelas minhas obras, te mostrarei a minha fé”» (Tg 2, 14-18).

A fé sem a caridade não dá fruto, e a caridade sem a fé seria um sentimento constantemente à mercê da dúvida. Fé e caridade reclamam-se mutuamente, de tal modo que uma consente à outra realizar o seu caminho. De facto, não poucos cristãos dedicam amorosamente a sua vida a quem vive sozinho, marginalizado ou excluído, considerando-o como o primeiro a quem atender e o mais importante a socorrer, porque é precisamente nele que se espelha o próprio rosto de Cristo. Em virtude da fé, podemos reconhecer naqueles que pedem o nosso amor o rosto do Senhor ressuscitado. «Sempre que fizestes isto a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40): estas palavras de Jesus são uma advertência que não se deve esquecer e um convite perene a devolvermos aquele amor com que Ele cuida de nós. É a fé que permite reconhecer Cristo, e é o seu próprio amor que impele a socorrê-Lo sempre que Se faz próximo nosso no caminho da vida. Sustentados pela fé, olhamos com esperança o nosso serviço no mundo, aguardando «novos céus e uma nova terra, onde habite a justiça» (2 Ped 3, 13; cf. Ap 21, 1).

15. Já no termo da sua vida, o apóstolo Paulo pede ao discípulo Timóteo que «procure a fé» (cf. 2 Tm 2, 22) com a mesma constância de quando era novo (cf. 2 Tm 3, 15). Sintamos este convite dirigido a cada um de nós, para que ninguém se torne indolente na fé. Esta é companheira de vida, que permite perceber, com um olhar sempre novo, as maravilhas que Deus realiza por nós. Solícita a identificar os sinais dos tempos no hoje da história, a fé obriga cada um de nós a tornar-se sinal vivo da presença do Ressuscitado no mundo. Aquilo de que o mundo tem hoje particular necessidade é o testemunho credível de quantos, iluminados na mente e no coração pela Palavra do Senhor, são capazes de abrir o coração e a mente de muitos outros ao desejo de Deus e da vida verdadeira, aquela que não tem fim.

Que «a Palavra do Senhor avance e seja glorificada» (2 Ts 3, 1)! Possa este Ano da Fé tornar cada vez mais firme a relação com Cristo Senhor, dado que só n’Ele temos a certeza para olhar o futuro e a garantia dum amor autêntico e duradouro. As seguintes palavras do apóstolo Pedro lançam um último jorro de luz sobre a fé: «É por isso que exultais de alegria, se bem que, por algum tempo, tenhais de andar aflitos por diversas provações; deste modo, a qualidade genuína da vossa fé – muito mais preciosa do que o ouro perecível, por certo também provado pelo fogo – será achada digna de louvor, de glória e de honra, na altura da manifestação de Jesus Cristo. Sem O terdes visto, vós O amais; sem O ver ainda, credes n’Ele e vos alegrais com uma alegria indescritível e irradiante, alcançando assim a meta da vossa fé: a salvação das almas» (1 Ped 1, 6-9). A vida dos cristãos conhece a experiência da alegria e a do sofrimento.


(Quantos Santos viveram na solidão! Quantos crentes, mesmo em nossos dias, provados pelo silêncio de Deus, cuja voz consoladora queriam ouvir! As provas da vida, ao mesmo tempo que permitem compreender o mistério da Cruz e participar nos sofrimentos de Cristo (cf. Cl 1, 24) , são prelúdio da alegria e da esperança a que a fé conduz: «Quando sou fraco, então é que sou forte» (2 Cor 12, 10). Com firme certeza, acreditamos que o Senhor Jesus derrotou o mal e a morte. Com esta confiança segura, confiamo-nos a Ele: Ele, presente no meio de nós, vence o poder do maligno (cf. Lc 11, 20); e a Igreja, comunidade visível da sua misericórdia, permanece n’Ele como sinal da reconciliação definitiva com o Pai.

À Mãe de Deus, proclamada «feliz porque acreditou» (cf. Lc 1, 45), confiamos este tempo de graça.

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 11 de Outubro do ano 2011, sétimo de Pontificado.
(Grifos meus)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

"Alguns motivos por que sou contra o aborto"





Lendo o Blog do meu irmão em Cristo, André Brandalise, me deparei com esta análise excelente sobre a questão do aborto, gostaria que meus leitores a lessem para ver a coerência de suas ponderações. Há aqui n. motivos para que sejamos contra este pecado.

A vida é um dom e cuidar dela é um dever.


Ele diz:

"A questão do aborto sempre é matéria de controvérsia, em especial desde que a então Ministra Dilma tornou-se candidata à Presidência da República. Vamos ver se consigo ajudar em algo no texto a seguir, embora se alguém colocar no google vai achar INÚMEROS textos sobre a matéria (contra, a favor, ou nem tanto).

Recentemente a nova ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci (PT), afirmou que o aborto é uma questão de saúde pública. Disse ainda que:

(...) Como sanitarista, tenho que dizer que o aborto é uma questão de saúde pública, não de ideologia, assim como o crack, a dengue e o HIV. (...)

(...) Nenhuma pessoa de gestão que tenha sensibilidade, que ouça os números, admite que mulheres continuem morrendo em decorrência de aborto, assim como não queremos que crianças continuem morrendo por falta de atendimento no parto. (...)

Esta declaração não se limita ao que pensa a Sra. Ministra, mas sim o que diversos membros do Governo Dilma, do PT e tantos outros defendem. E tais pontos devem ser analisados com cuidado, e pretendo fazer isso de uma forma jurídica, moral e fática"

Continue AQUI

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Um sopro do passado


Por Scott Hann

Apesar de heterogênio, os futuristas não esgotaram as perspectivas interpretativas a respeito do livro do Apocalípse.

Alguns (chamados "idealistas") achavam que o livro inteiro era apenas metáfora para as lutas da vida espiritual. Outros achavam que o livro delineava um plano para a história da Igreja. Outros ainda argumentavam que o livro era simplesmente uma descrição codificada da situação política dos cristãos do séc.I. O objetivo do Apocalípse, segundo essa opinião, era exortar os fiéis a permanecerem firmes na fé, e prometer a vingança divina contra os perseguidores da Igreja.

Scott até achou algum mérito nesses argumentos, principalmente porque se relacionavam com alguns versículos específicos, mas nenhum foi capaz de satisfazer seu desejo de compreender o desenrolar da narrativa de João.

Quanto mais estudava, mais Scott entendia detalhes selecionados, mas menos parecia entender a totalidade do livro. Então, enquanto pesquisava outros assuntos, Scott depara com um tesouro escondido - isto é , escondido aos estudiosos da Escrituras em uma tradição que remonte a apenas 400 anos.

Scott começa a ler os Padres da Igreja, os autores e mestres cristãos dos oito primeiros séculos e em especial, seus comentários acerca da Bíblia. Scott diz que não parou de se chocar com sua ignorância, já que os Padres referiam-se frequentemente a uma coisa que ele desconhecia: a liturgia.

Entretanto, foi interessante descobrir que essa literatura antiga parecia incorporar muitos dos pequenos detalhes do Apocalípse - em um contexto no qual eles faziam sentido! Então, quando Scott passou a ler os estudos exegéticos do Apocalípse pelos Padres, descobriu que muitos deles haviam feito ligação explícita entre Missa e o livro do Apocalípse.

De fato, para a maioria dos cristãos primitivos era ponto pacífico: separado da liturgia, o livro do Apocalípse era incompreensível. Como Scott descreveu no cap.I, foi só quando começou a participar da missa que muitas partes deste livro enigmático começaram derepente a se esclarecer.

Scott começou a descobrir o sentido do altar do Apocalíse (Ap 8,3), seus sacerdotes paramentados (4,4), candelabros (1,12), perfume (5,8), maná (2,17), taças (cap 16), o culto no domingo (1,10), a proeminência que dá a Santíssima Virgem Maria (12,1-6), o "Santo, Santo, Santo!"(4,8), O Glória(15,3-4), o sinal da cruz (14,1), a Aleluia (19,1.3.6), as leituras das Escrituras (caps 2-3) e o "Cordeiro de Deus" (muitas e muitas vezes).

Não são interpretações da narrativa nem detalhes casuais; são a própria essência do Apocalípse.

Respostas dos Porquês.

Então o Apocalípse não era simplesmente uma advertência velada a respeito da geopolítica da década de 1970, nem uma história codificada do Império Romano do séc.I ou um manual de instruções para o fim dos tempos. Tratava-se, de certo modo, do próprio Sacramento que começa a atrair este "cristão´bíblico" para a plenitude da fé católica.

Contudo, surgiram novas perguntas. Se, nos textos das antigas liturgias, Scott topou com o "quê" do Apocalípse, restavam alguns imensos "porquês".

Por que essa estranha apresentação? Por que uma visão e não um texto liturgico? Por que o Apocalípse foi atribuido à João, entre todos os discípulos possíveis? Por que foi escrito, quando foi escrito?

As respostas surgiram quando Scott começou a estudar o tempo do Apocalípse e a liturgia desse tempo.

Fonte: O Banquete do Cordeiro

Veja o estudo AQUI

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Chesterton


"A sociedade de nosso tempo está dotada de um coração que não está no seu devido lugar.

O mundo moderno não é mau; sob determinados aspectos, o mundo moderno é até extremamente bom. Ele está repleto das mais selvagens e desperdiçadas virtudes.

Quando um sistema religioso sofre qualquer abalo (como aconteceu com o Cristianismo por ocasião da Reforma), não são apenas os vícios que ficam em liberdade. Os vícios ficam, sem dúvida, à solta, vagueiam livremente e causam imensos danos. Mas as virtudes também andam à solta, vagueiam de modo mais selvagem e causam danos ainda maiores. O mundo moderno está repleto de antigas virtudes cristãs que enlouqueceram. Elas enlouqueceram porque ficaram isoladas umas das outras e vagueiam por aí sozinhas.

Pensemos na humildade. Esta virtude foi amplamente encarada como um freio para a arrogância e para o desmedido apetite do homem, que sempre se esforçou por desejar mais do que possui, através da criação de novas necessidades. Foi a própria capacidade de gozo que destruiu metade de suas alegrias. Na busca do prazer, perdeu o principal prazer, pois o principal prazer é a surpresa.

Disso se conclui que, se o homem quiser tornar o seu mundo grande, deve sempre tornar-se a si mesmo pequeno. As mais altas visões, as grandes cidades e os pináculos mais elevados são criações da humildade. Os gigantes que arrancam florestas como quem arranca ervas são criações da humildade. As torres que se elevam nos ares a apontar para as estrelas solitárias são criações da humildade, porque as torres só são altas se nós, para vê-las, olharmos para cima; da mesma forma que os gigantes não serão gigantes se não forem maiores do que nós. Toda esta prodigiosa imaginação, que é, talvez, o maior dos prazeres humanos é, no fundo, essencialmente humilde.É impossível, sem humildade, gozar seja do que for. - mesmo do orgulho.

Acontece, porém, que a humildade está no lugar errado. A modéstia afastou-se do órgão da ambição e estabeleceu-se no órgão da convicção, onde nunca deveria estar. O homem podia duvidar de si, mas não duvidava da verdade. Agora se dá exatamente o contrário. Hoje, a parte de um homem que esse mesmo afirma é precisamente aquela que ele não deveria afirmar - a sua própria pessoa; a parte da qual ele duvida é exatamente de que ele não devia duvidar - a Divina Razão.

Huxley (naturalista inglês, difusor do darwinismo) - pregou uma humildade que duvida até de ser capaz de aprender. Estaríamos, por isso, errados se, apressadamente, disséssemos que não existe uma humildade típica de nosso tempo. A verdade é que essa humildade é praticamente mais perniciosa do que as mais desvairadas prostrações do asceta. A velha humildade era uma espora que impedia o homem de parar; agora é um prego no sapato que o impede de continuar a andar.

A velha humildade fazia com que um homem duvidasse de seus esforços, e isso dava-lhe ânimo para trabalhar com mais afinco; a nova humildade faz com que o homem duvide dos objetivos, e isso o obriga a parar o seu trabalho"

Ortodoxia pag: 50-51

Mais de Chesterton AQUI

Afinal, guardamos o Sábado ou Domingo?


Nós cristãos católicos guardamos o Domingo.

Somos filhos de Deus e como tal temos obrigação de render-lhe exteriormente culto e ação de graças. A Fé e a esperança recebidas no Batismo, nos levam sempre a desejar honra-Lo com amor e reverência, reconhecendo Seu grande dom para conosco. Sim, Ele nos fez de forma admirável, nos remiu pelo sangue de Seu Filho e nos quis como filhos no Filho. Render-lhe graças e prestar-lhes culto, para nós, é questão de amor e agradecimento.

Sabendo o Senhor de que o preceito de prestar-lhe culto não seria facilmente cumprido por nós, estabeleceu um tempo fixo para que pudéssemos cumprir nossa obrigação. Cumprindo esta, certamente buscaremos cumprir de todo o coração todas as outras prescrições, que são caminho seguro para nos levar à Ele, quando encerrar nosso tempo neste mundo.

Mas por que Domingo, se foi o próprio Senhor quem disse:

"Lembra-te de santificar o dia do sábado. Seis dias trabalharás, e farás todos os teus serviços. No sétimo dia, porém, é o Sábado do Senhor teu Deus. Nesse dia, não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem teu animal de carga, nem o forasteiro que se achar dentro de tuas portas. Pois em seis dias fez o Senhor o céu e a terra, o mar, e tudo que neles se encerra, e no sétimo dia descansou. Por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado, e o fez santo".

Vejamos primeiro o que quer dizer a palavra Sábado: é um termo hebraico que, em vernáculo, quer dizer cessação de trabalho. Por isso sabadear significa parar e descansar. Portanto, o sentido próprio e verdadeiro deste mandamento é que o homem se aplique, de corpo e alma, ao cuidado de prestar piedoso culto a Deus, conservando-se livre, em tempo determinado de ocupações e trabalhos corporais

Guardar e Santificar este dia quer dizer: largar os trabalhos corporais e interesses temporais, conforme o evidenciam as seguintes palavras do Preceito: "Nenhuma obra farás".(Ex 20,10), dando a ele um caráter religioso, consagrado ao culto divino e aos santos exercícios da religião.

"Por conseguinte, celebramos o dia de sábado com a máxima perfeição, se cumprirmos para com Deus os deveres de piedade e religião. Assim, temos realmente um sábado, a que Isaías chama "deleitoso" (Is 58,13), porque os dias festivos constituem, por assim dizer, as delícias do Senhor e dos homens religiosos. Se a esta santa e piedosa celebração do sábado acrescentarmos as obras de misericórdia, muito grandes e copiosos serão certamente - os prêmios que, no mesmo capítulo, nos são prometidos. (Is 58,8-13)

Através dessa significação, "o sétimo dia" veio a chamar-se sábado, porquanto "Deus", depois de concluir e aperfeiçoar o mundo universo, "descansou de toda a obra que tinha feito"(Ex 20,10) por tal nome é que o Senhor chama esse dia no Êxodo. Mais tarde, devido à sua importância, designou-se com o mesmo não só o sétimo dia, mas também a semana inteira. Nesse sentido, declara o fariseu no Evangelho de São Lucas: "Eu jejuo duas vezes aos sábados". (Catecismo Romano)

Nos diz ainda o Catecismo Romano:

Porém, na explicação deste Preceito, é preciso cuidar que os fiéis aprendam as semelhanças e as diferenças em relação aos outros Mandamentos. Assim reconhecerão também a razão determinante por que guardamos e santificamos já não o sábado, mas o domingo

Como certa, deve considerar-se que os demais Preceitos do Decálogo são naturais e perpétuos, e não podem de maneira alguma sofrer alteração. Por isso, não obstante a ab-rogação da Lei Mosaica, o povo cristão continua a observar todos os Preceitos que se contêm nas duas Tábuas. Tal acontece, não porque Moisés assim o mandasse, mas porque que eles correspondem à própria natureza das coisas, cuja força intrínsica impele os homens a observá-los.

O Preceito, porém, de observar o sábado, no que refere à determinação do tempo, não é fixo nem perpétuo, mas é passível de mudança. Não pertence aos Preceitos morais, mas antes às prescrições cerimoniais. Não faz parte tampouco da lei natural, porque não é a natureza que nos ensina e move a render culto externo a Deus nesse dia, de preferência a outro qualquer. O próprio povo de Israel só começou a celebrar o dia de sábado a partir do tempo em que foi libertado da escravidão de Faraó.

O tempo em que se devia ab-rogar a observância do sábado como tal, coincide com a época em que deviam também caducar os demais ritos e cerimônias hebraicas, quer dizer, por ocasião da Morte de Cristo. Essas cerimônias eram como que pálidas imagens da luz e da verdade. Força era, portanto, que desvanecessem ao raiar a própria luz e verdade que é Jesus Cristo.

Nesse sentido é que São Paulo escreveu aos Gálatas, repreendendo os que observavam o rito mosaico: "Observais os dias e os meses, os tempos e os anos. Receio, pois, ter trabalhado entre vós inutilmente". A mesma declaração fez ele na epístola aos Colossenses.

Na segunda parte do Preceito, mostra-se que o sétimo dia foi reservado ao culto de Deus, por instituição divina, pois assim rezam as Escrituras: "Seis dias trabalharás, e farás todas as tuas obras. O sétimo dia, porém, é o Sábado do Senhor teu Deus".(Ex 20,9-10) O sentido destas palavras é que devemos considerar o sábado como sagrado ao Senhor, tributando-Lhe nesse dia atos de religião, tomando o dia como um memorial do descanso do Senhor.

Foi designado esse dia para o culto divino, porque não convinha deixar ao critério de um povo mal avisado a livre escolha do tempo, porque iria talvez imitar as festas dos Egípcios.
Portanto, dos sete dias se escolheu o último para o culto de Deus, e esta determinação está cheia de mistério. Esta é a razão por que o Senhor lhe chama de sinal, no Êxodo e no Profeta Ezequiel. (Ez 20,12) "Tomai cuidado em guardar o Meu Sábado, porque é um sinal entre Mim e vós, através de vossas gerações, para que saibais que Eu sou o Senhor, que vos santifico".

Era pois um sinal, porque indicava aos homens a necessidade de se consagrarem a Deus, e de se santificarem para Ele. Santo é esse dia, por ser a ocasião principal em que os homens devem cultivar a santidade e a religião. Depois, é um sinal e como que um monumento desta admirável criação do Universo.

Era, ainda, um sinal gravado na consciência dos Israelitas, para se lembrarem de que, por mercê de Deus, foram para sempre libertados da duríssima escravidão do Egito. É o que o Senhor prova com a solene afirmação: "Lembra-te de que tu mesmo foste escravo no Egito, e que de lá te tirou o Senhor teu Deus, com mão vigorosa e com braço armado. Por isso, Ele te mandou observar o sábado".(Dt 5,15)

Enfim, era também um sinal do sábado espiritual, bem como do sábado celestial.

Ora, o sábado espiritual consiste numa espécie de santo e místico repouso que se goza, quando o velho homem, sepultado com Cristo, ressuscita para uma vida nova, esmerando-se em práticas que são próprias da vida cristã. Porquanto, "os que outrora eram trevas, e agora sois Luz no Senhor" devem "andar como filhos da luz ... em toda a bondade, justiça e verdade... e não tomar parte nas infrutuosas obras das trevas".

Como diz São Cirilo, explicando a passagem do Apóstolo: "Para o povo de Deus, há pois a perspectiva de um repouso sabático" - o sábado celestial vem a ser aquela vida em que, vivendo com Cristo, gozaremos de todos os bens, após a total extirpação de acordo com a palavra da Escritura: "Ali não haverá passará fera alguma"; mas "ali há de haver um caminho limpo, e chamarse-á estrada santa".

Façamos empenho de entrar naquele descanso

Outros dias festivos entre os judeus: Além do sétimo dia, tinha o povo judaico outros dias festivos e santificados, que foram instituídos por Lei Divina. Sua finalidade ter sempre viva a lembrança de insignes benefícios.

Escolha do domingo

A Igreja de Deus, porém, achou conveniente transferir para o domingo a solene celebração do sábado. Assim como nesse dia começou a brilhar a luz para o mundo universo nossa vida foi retirada das trevas para a luz, em virtude da Ressurreição de Nosso Salvador, realizada naquele mesmo dia, e que nos umbrais da vida eterna. Por isso, quiseram os Apóstolos fosse o "domingo". (Quer dizer: Dia do Senhor - "dies Dominicus")

Vemos também, pela Sagrada Escritura, que esse dia é memorável, pois nele teve início a criação do mundo, e nele foi comum Santo aos Apóstolos.

Instituição dos Dias Santos

Desde o início da Igreja, e nos tempos posteriores, os Apóstolos e nossos santos Chefes instituíram outros dias festivos, para que celebrássemos, com amor e devoção, a lembrança dos benefícios divinos. Entre eles, consideram-se, como os mais insignes, os dias que são consagrados ao culto divino, por causa dos Mistérios de nossa Redenção. Depois, os dias comemorativos da Santíssima Virgem Mãe, dos Apóstolos, dos Mártires e Santos, que reinam com Cristo. Pela exaltação de sua vitória, glorificas a bondade e o poder de Deus, a eles mesmos tributamos as honras devidas, e o povo cristão é levado à imitação de suas virtudes

O preceito do trabalho

Para a sua observância, é de grande alcance uma cláusula do próprio Preceito, a qual se reveste das palavras seguintes: "Seis dias farás as tuas obras; porém o sétimo é o Sábado de Deus".

Destas palavras pode ele inferir a obrigação de exortar os fiéis a que - façam uma vida ociosa e despreocupada; pelo contrário, que, lembrando-se do conselho do Apóstolo, tenha cada qual sua ocupação, e trabalhe de suas próprias mãos, conforme ele mesmo havia ordenado.
Além disso, manda o Senhor, em virtude deste Preceito, fazer nossos trabalhos nesses seis dias, e não deixar para o dia santo nenhum dos trabalhos e obrigações, que devem recair nos outros dias da semana, para que o nosso espírito se não distraia do fervoroso culto às coisas da Religião.

Aspecto negativo do Preceito

Agora vem a explicação da terceira parte do Preceito, que descreve mais de perto a maneira, pela qual devemos celebrar o dia de sábado. Expõe-se, de preferência, o que nesse dia nos é proibido fazer.

Pois, diz o Senhor: "Não farás nesse dia trabalho algum, nem tu, nem filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem teu animal de carga, nem o forasteiro que estiver dentro de tuas portas".

Estas palavras nos ensinam, antes de tudo, a evitar categoricamente o que possa, de qualquer maneira, impedir a prática do culto divino. É fácil reconhecer que se proíbe toda a espécie de obra servil, não que seja indecorosa e má por natureza, mas porque distrai nosso espírio culto a Deus, que é o fim determinado pelo Preceito.

Devemos reconhecer o efeito deste Mandamento, porquanto os que são fiéis em cumpri-lo parecem estar na presença de Deus e entreter-se com Ele. Pois, quando nos entregamos à oração, contemplamos a Majestade de Deus, e privamos com Ele; quando escutamos os pregadores escutamos a voz de Deus, a qual chega aos nossos ouvidos por intermédio daqueles que, santa e piedosamente anunciam as coisas divinas. E no Sacrifício do altar adoramos a presença de Cristo Nosso Senhor. Ora, de todos estes bens se tornam participantes aqueles antes de tudo que cumprem zelosamente este Preceito.

Os que desprezam formalmente este Preceito, não obedecendo a Deus nem à Igreja, são inimigos de Deus e de Suas santas Leis. Isto se torna evidente, porque este Preceito é de tal natureza que pode ser observado sem nenhum sacrifício. Ora, Deus não nos impõe trabalhos, que aliás, deveríamos aceitar por amor a Ele, fossem embora os mais difíceis - mas, pelo contrário, ordena-nos de ficar tranqüilos e livres de preocupações temporais. Seria, pois, sinal de grande temeridade rejeitar a obrigação imposta por este Preceito.
Devem servir-nos de exemplo os castigos que Deus contra os violadores deste Preceito, como vemos pela leitura do Livro dos Números ( Nm 15, 35)

Munido de graves sanções

Para não incorrermos nessa cólera de Deus, vale a pena recordar muitas vezes a palavra "Lembra-te", ponderando maduramente os frutos e as vantagens que resultam da observância dos dias festivos, como acima foi declarado.

Fonte: Catecismo Romano

Católicos são idólatras? Veja AQUI

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Símbolo da Fé - Primeiro Artigo


Criador do Céu e da Terra.

1. A criação, ato de onipotência..

O que agora vamos dizer da criação de todas as coisas mostrará claramente como era necessário explicar antes aos fiéis a noção da onipotência divina. Com maior facilidade acreditarão no milagre que se manifesta em obra tão grandiosa, se nenhuma dúvida tiverem a respeito do imenso poder do Criador.

de amor espontãneo...

Pois Deus não formou o mundo de uma matéria preexistente, mas criou-o do nada, sem a tanto ser obrigado por violência estranha ou necessidade natural; mas por Sua livre e espontânea vontade. Nenhum outro motivo O impeliu a criar o mundo, senão a Sua própria bondade. Queria comunicá-la a todas as coisas que criasse. Possuindo por Sua natureza toda a felicidade, Deus não tem falta de coisa nenhuma, como o exprime o rei Davi: "Disse eu ao Senhor: Vós sois o meu Deus, e não tendes precisão dos meus bens".

de infinita sabedoria

Assim como não obedeceu senão à própria bondade, para "fazer tudo o que era do Seu agrado", assim também não seguiu na criação nenhum modelo que estivesse fora de Sua própria natureza. Sua inteligência infinita possui, dentro de Si mesma, a idéia exemplar de todas as coisas. Contemplando, pois, em Si mesmo essa idéia exemplar; e reproduzindo-a, por assim dizer, com a suma sabedoria e o infinito poder, que Lhe são próprios, Supremo Artífice criou no princípio todas as coisas do Universo. "Ele disse, e tudo foi feito; Ele mandou, e tudo foi criado".

Descrição da Criação -

a) O firmamento

Pelos termos "céu e terra", deve tomar-se tudo o que o céu e a terra compreendem. Além dos céus, que o Profeta considerava como "obra de Suas mãos" , Deus criou também a claridade do sol e o encanto da lua e dos outros corpos celestes, para que "servissem desinais para os tempos, os dias e os anos". Aos astros marcou uma órbita inalterável, desorte que não pode haver coisa mais rápida que suas contínuas rotações, nem coisa mais regular que sua velocidade.

b) os Anjos ...

A par do firmamento, Deus criou do nada seres de natureza espiritual, os inúmeros Anjos, cujo ministério era servir-lhe, e assistir diante de Seu trono. Conferiu-lhes depois o admirável dom de Sua graça e poder. Se na Bíblia está escrito: "O demônio não persistiu na verdade" ,não padece dúvida que ele e os outros anjos rebeldes haviam [também] recebido a graça, desde o primeiro instante de sua existência.

sua santidade, ciência e poder

Santo Agostinho diz a respeito: "Criou os Anjos e dotou-os de boa vontade, quer dizer, com o casto amor que os unia a Deus. Em formando a natureza [angélica], infundiu-lhe ao mesmo tempo a graça. Daí devemos concluir que os Anjos bons nunca se viram destituídos de boa vontade, isto é, de amor a Deus". Quanto ao grau da ciência [angélica], há um testemunho das Sagradas letras: "Vós, Senhor meu Rei, sois sábio, como a sabedoria que tem um de Deus, para entendermos tudo o que se passa sobre a terra". Indicam enfim o poder dos Anjos as palavras que lhes aplica o rei -" Sois poderosos e fortes, e executais a Sua vontade". Por esse motivo, a Sagrada Escritura lhes dá, muitas vezes, o nome de "virtudes e exércitos do Senhor".

Os Anjos maus

Dotados que eram, todos, de prendas celestiais, muitos deles abandonaram, todavia a Deus, seu Pai e Criador. Foram, por conseguinte, derrubados de seus altos tronos, e detidos numa prisão muito escura da terra, onde agora sofrem o eterno castigo de sua soberba. Deles escreve o Príncipe dos Apóstolos: "Deus não poupou os Anjos que pecaram, mas acorrentados os precipitou nos abismos do inferno, para serem cruciados, e tidos em reserva até o dia do juízo".

c) Terra

Com o poder de Sua palavra, Deus também firmou a Terra em bases sólidas, e deu-lhe um lugar no meio do Universo. Fez com que os morros se erguessem, e os campos baixassem ao nível que marcado. E para que as massas de água não inundassem a terra, "assentou-lhes limites dos quais não passarão, e não tornarão a cobri-la".

Em seguida, revestiu a terra de árvores e de toda a sorte de flores; encheu-a também de inúmeras espécies de animais, como antes já o tinha feito com as águas e os ares.

d) o homem...

Por último, Deus formou do limo da terra o corpo do homem, de maneira que fosse imortal e impassível, não por exigência da própria natureza, mas por mero efeito da bondade divina.

dotes de sua alma

A alma, porém, Deus a criou à Sua imagem e semelhança, e dotou-a de livre arbítrio. Além de tudo, regulou os movimentos e apetites da alma, de sorte que sempre obedecessem ao império da razão. Finalmente, deu-lhe ainda o admirável dom da justiça original, e quis que tivesse o governo de todos os outros seres animados.

e) "céu e terra"

Com as noções "do céu e da terra", compreende-se, pois, a criação de todas as coisas. O Profeta Davi resumiu tudo em poucas palavras: "Vossos são os céus, e vossa é a terra. Vós criastes o orbe da terra, e tudo o que nele se contém".

Fórmula do Símbolo de Nicéia

Com maior concisão ainda, souberam exprimir- se os Padres do Concílio de Nicéia, ao acrescentarem ao Símbolo só duas palavras: "das coisas visíveis e invisíveis". Tudo o que o mundo abrange, e que reconhecemos como criado por Deus, - ou entra pelos sentidos, e chama-se "visível" , - ou só pode ser percebido pela inteligência, e chama-se então "invisível".

Conservação e Governo de todo o criado

Não devemos, porem, crer que Deus é Criador e autor de todas as coisas, de molde que, consumada a obra da Criação, os seres por Ele criados pudessem, em nossa opinião, continuar a subsistir sem o auxílio de Sua potência infinita.

Como tudo só existe graças a onipotencia, sabedoria e bondade do criador, todas as criaturas recairiam logo em seu nada, se Deus lhes não assistisse continuamente pela Sua Providencia e não as conservasse pelo mesmo poder que, desde o principio, empregou para as criar

A criação é obra comum de todas as Tres Pessoas da Santa e indivisivel trindade.

Fonte: Catecismo Romano - pag 89 - 103

Estudo AQUI: