domingo, 11 de março de 2012

Chesterton


O Deus na caverna

"[..]Onipotência e impotência, ou divindade e infância, criam definitivamente uma espécie de epigrama que um milhão de repetições não conseguem transformar numa banalidade. Não é nenhum exagero chama-lo de único. Belém é decididamente um lugar onde os extremos se encontram.

Aqui começa, nem é preciso dize-lo, outra poderosa influência para a humanização da cristandade. Se o mundo quisesse o que se chama de um aspecto controverso do cristianismo, provavelmente escolheria o Natal. Todavia, o Natal está obviamente ligado ao que se supõe ser um aspecto controverso ( eu jamais consegui, em estágio algum de minhas avaliações, imaginar por quê): o respeito prestado à abençoada Virgem..

Na minha infância uma geração mais puritana levantou objeções contra a estátua sobre a minha igreja paroquial representando a Virgem e o Menino. Depois de muita controvérsia, concordaram em tirar a criança. Ter-se-ia até a impressão de que isso era mariolatria ainda mais deturpada, a menos que a mãe fosse considerada menos perigosa quando despojada de uma espécie de arma. Mas a dificuldade prática é também uma parábola.

Não se pode cortar da estátua de uma mãe todo o cenário de um recém-nascido. Da mesma forma, não se pode manter a ideia de uma criança recém-nascida suspensa no vazio, ou pensar nela sem pensar em sua mãe. Não se pode visitar a criança sem visitar a mãe, não se pode, na vida humana normal, abordar a criança a não ser por intermédio da mãe. Se nós simplesmente quisermos pensar nesse aspecto da vida de Cristo, a outra ideia é consequência como é uma consequência na história.

Devemos excluir Cristo do Natal, ou o Natal de Cristo: ou então devemos admitir, mesmo que seja apenas como admitimos num quadro antigo, que aquelas duas cabeças sagradas estão próximos demais para que suas auréolas não se misturem ou se sobreponham"

Fonte: O Homem Eterno - pag 181

O problema da Liberdade

Por Arcebispo Fulton Sheen

‎"A indiferença ao Cristo não termina e nem pode terminar na ausência do Cristo; acaba no Anticristo. Foi assim no começo; é assim agora, e será assim até o fim. ensinaram a Europa a cerrar o punho e a cuspir sempre que Seu nome é ouvido; não O podem deixar só. Eles não são precisamente homens sem religião; são homens contra a religião; não mostram frieza para com Deus. entregam-se ao ateísmo com todo o ardor.

Donde tiram eles energia para esse ódio? Donde tal entusiasmo pelo ateísmo? Como conseguem tal apostolado pelo Anticristo, tantas espadas para a pilhagem das coisas de Deus e assassínio das mulheres de Deus? Donde tirou a Rússia esse ímpeto para implantar em Valência, pela primeira vez na história do mundo ocidental, um regime declaradamente contra Deus? Tirou-o da realidade de Deus. Os homens não se entusiasmam por fantasmas. Os homens não saem a campo para dar combate às ficções da imaginação nem a mortos. Odeiam, entretanto, os vivos. Rejeitando-O, estão eles prestando-Lhe testemunho. Ninguém odeia César, Napoleão ou Genghis Khan. E por que não? Porque morre o ódio quando perece o objeto odiado. Os homens já não cerram mais os punhos contra um Bismarck, nem montam mais guarda ao túmulo de um Nélson. Mas cerram ainda os punhos contra o Cristo. Dizem que Ele está morto, mas põem sentinelas em Seu túmulo. Dizem que Ele é inofensivo enquanto criança, contudo Herodes manda os seus soldados matar a Criança indefesa.

A verdade é que eles odeiam porque creem - não com a fé dos redimidos, mas com a fé dos condenados."

Arcebispo Fulton Sheen. O problema da Liberdade. Editora Agir, 1962 pag. 15

sábado, 10 de março de 2012

Primado do Papa


Por São Tomás de Aquino

"O Pontífice romano é o primeiro e o maior entre todos os bispos"
«O erro daqueles que pretendem que o vigário de Jesus Cristo, o Pontífice de Roma, não tem o primado na Igreja universal parece-se com o daqueles que pretendem que o Espírito Santo não procede do Filho. Pois Cristo Jesus, Filho de Deus, consagra a sua Igreja e marca-a com o sinal do Espírito Santo, como do Seu carácter e selo, o que é manifesto nos escritos dos Padres que citámos antes.

Temos agora de provar, pela autoridade dos Padres gregos que esse Vigário de Jesus Cristo possui a plenitude da piedade sobre toda a Igreja. Com efeito, o Cânone do concílio prova expressamente que o Pontífice romano, sucessor de S. Pedro e vigário de Jesus Cristo é o primeiro e o maior de todos os bispos. “Nós confessamos, e está escrito, segundo as Escrituras e a definição dos Cânones, que o santíssimo Pontífice da antiga Igreja de Roma, é o primeiro e o maior de todos os bispos”. Isto é conforme à Sagrada Escritura, que atribui a S. Pedro o primeiro lugar entre os Apóstolos, tanto nos Evangelhos como nos Actos dos Apóstolos.

É o que faz dizer a S. João Crisóstomo, no seu Comentário a S. Mateus sobre estas palavras: “Os discípulos aproximaram-se de Jesus dizendo: ‘quem é o maior no Reino dos Céus?’”. Porque eles estavam escandalizados, sem o poder dissimular, como não podiam comprimir o seu orgulho humilhado, pois que viam que S. Pedro tinham sobre eles a primazia e a honra.

«O mesmo Pontífice tem o primado sobre toda a Igreja de Jesus Cristo"

«É igualmente demonstrado que o Vigário de Jesus Cristo tem o primado na Igreja Universal. Lemos no concílio de Calcedónia, que “todo o Sínodo se exclama ao dizer ao papa Leão: ‘Viva o santíssimo pai Leão, apostólico e ecuménico’, ou seja universal. E S. João Crisóstomo sobre S. Mateus: “O Filho concedeu a S. Pedro o poder que vem do Pai e do próprio Filho, sobre todo o universo. E ele deu a um homem mortal a autoridade sobre tudo o que está no Céu, ao confiar-lhe as chaves, para estender a Sua Igreja a toda a Terra”. E na sua Homilia sobre S. João, c.VIII diz: “Ele estabeleceu S. Tiago num só lugar, mas fez de S. Pedro mestre e doutor de todo o universo”. E também sobre os Actos dos Apóstolos: “S. Pedro recebeu do Filho autoridade sobre todos os que lhe pertencem, não como Moisés sobre um só povo, mas em todo o universo.” Isto deduz-se também das Sagradas Escrituras. Pois Nosso Senhor Jesus Cristo confiou a S. Pedro todos as suas ovelhas dizendo (Jo 24) “Apascenta as minhas ovelhas” e no cap. 10 “Para que haja um só rebanho e um só pastor”.

«Ele herdou o poder que Jesus Cristo deu a S. Pedro
«Prova-se que sendo S. Pedro o Vigário de Jesus Cristo e o Pontífice romano sucessor de S. Pedro, este último é o herdeiro do seu poder. Está escrito no Cânone do concílio de Calcedónia:; “Se algum bispo está acusado de infâmia, que ele tenha a liberdade de apelar ao bem-aventurado da antiga Igreja de Roma. Porque temos Pedro, nosso pai, por refúgio, e só a ele pertence o direito, no lugar de Deus, de conhecer a criminalidade de um bispo acusado, pelo poder das chaves que Deus lhe deu”. E mais adiante: “Que tudo o que ele decide seja aceite como do vigário do trono apostólico”.

S. Cirilo, patriarca de Jerusalém, disse falando na pessoa de Cristo: “Tu por um tempo e eu eternamente, eu estarei com todos os que colocarei no teu lugar, pela autoridade e os sacramentos, como estou contigo”. S. Cirilo de Alexandria diz, no seu livro Thesaurorum, que “os Apóstolos afirmaram, no Evangelho, e nas suas Epístolas, que para a doutrina, Pedro e a sua Igreja tinham o lugar de Deus, dando-lhe a primazia em todas as reuniões e todas as assembleias, em todas as eleições e em todas as decisões”, e mais adiante: “Todos inclinam a cabeça diante dele (Pedro), de direito divino, e todos os primazes do mundo obedecem-lhe como ao Senhor Jesus”. S. João Crisóstomo diz, falando na pessoa do Filho: “’Apascenta as minhas ovelhas’, quer dizer, está à cabeça dos teus irmãos, em meu lugar.”» (Contra errores Graecorum, parte 2, c. 32, 33 e 35)

sexta-feira, 9 de março de 2012

Honrar Pai e Mãe


"Honra teu pai e tua mãe, para teres longa vida na terra, que o Senhor teu Deus te há de dar".

Catecismo Romano

Importância dos Preceitos da Segunda Tábua

Estes preceitos nos ensinam a caridade do próximo; tomados, porém, em sua plena extensão, levam igualmente a Deus, que é a última razão por que amamos nosso próximo. Por isso, Cristo Nosso Senhor disse que eram iguais entre si os dois Preceitos de amar a Deus e amar ao próximo.

Mal podemos descrever quantas vantagens se encerram nessa palavra de Nosso Senhor, ela produz seus frutos, abundantes e excelentes, e constitui uma espécie de sinal, que faz transparecer a obediência e veneração que se devem ao Primeiro Mandamento.

São João diz: "Quem não ama seu irmão, a quem vê, como pode amar a Jesus, a quem não vê?" Analogamente, se não amamos e respeitamos nossos pais, a quem devemos amar segundo a vontade de Deus, apesar de em quase sempre diante de nossos olhos: que estima e veneração tributaremos a Deus, Pai supremo e boníssimo, a quem não vemos de maneira alguma? Por aí se patenteia a consonância que existe entre ambos os Mandamentos.

1. Âmbito do IV Mandamento.

O âmbito, porém, deste Preceito é muito vasto. Além daqueles que nos geraram, muitas são as pessoas que devemos venerar, como se fossem nossos pais, em razão de sua autoridade, de sua posição, de sua benemerência, de seu cargo e função importante.

Por sua parte, este Preceito suaviza também a tarefa dos pais e todos os superiores, cujo cuidado principal é conseguir que seus subordinados tenham uma vida honesta, enquadrada na Lei Divina. Ora, muito fácil será a tarefa, se todos reconhecerem que, por ordem e disposição de Deus, se deve tributar aos pais a mais alta veneração

Mas, para isto conseguirmos, é preciso conhecer certa diferença que há entre os Preceitos da Primeira e os da Segunda Tábua da Lei.

2. Sua integração nas Duas Tábuas

Antes de tudo, temos que saber que os divinos Preceitos do Decálogo foram gravados em duas tábuas. A primeira, como reza a tradição dos Santos Padres, continha os três Preceitos relativos ao amor a Deus. A segunda abrangia os restantes.

Essa enumeração vem muito a propósito, porquanto a própria seqüência dos Preceitos faz ressaltar a sua razão intrínseca. Ora, nas Sagradas Escrituras, todas as ordens e proibições da Lei Divina se reduzem a uma das duas categorias, pois toda e qualquer obrigação se relaciona com a caridade, quer para com Deus, quer para com o próximo.

Por sinal, os três Preceitos anteriores ensinam a caridade para com Deus; o que, porém, diz respeito ao amor e união dos homens entre si, se contém nos sete Preceitos restantes. Não é, pois, sem motivo que se fez tal distinção, de sorte que uns Preceitos foram descriminados na Primeira Tábua, e outros na Segunda.

3. Sua relação com o 1.0 Preceito...

Nos três Preceitos anteriores, o objeto intrínseco, por assim dizer, é Deus, o sumo Bem; nos demais é o bem do próximo. Aqueles propõem o amor máximo; estes, um amor que fica próximo do supremo. Aqueles visam o fim [de toda a Lei]; estes, os meios que se coordenam ao fim. (Santo Thom. II-II q.122 art.1-2)

Mais ainda. O amor a Deus de Deus depende, pois Deus deve ser sumamente amado, por atenção a Ele mesmo, e não por outro motivo qualquer. Porém o amor ao próximo tem sua origem no amor a Deus, e deve referir-se a esse amor, como norma segura.

Pois, se amamos nossos pais, se obedecemos aos superiores, se respeitamos as autoridades, fazemo-lo, antes de tudo, porque Deus é quem os criou e quis prepô-Io a outros, para governar e defender os demais pelo seu ministério. Ora, sendo Ele mesmo que nos manda honrar tais pessoas, é de nossa obrigação fazê-lo, por isso mesmo que Deus as distinguiu com essa dignidade.

Em conseqüência, a honra que prestamos aos pais parece referir-se antes a Deus, do que aos homens. Assim o lemos em São Mateus, quando do acatamento devido aos superiores: "Quem vos recebe, a Mim recebe".

E na epístola aos Efésios, instruindo os escravos, diz o Apóstolo: "Servos, obedecei aos vossos senhores temporais, com temor e tremor, de coração sincero, como se fosse a Cristo; não servindo só quando sois vistos, como para agradar aos homens, mas fazei-o como servidores de Cristo".

a) ... que o limita...

Acresce, ainda, que nenhuma honra, nenhuma reverência, nenhuma veneração é bastante digna de tributar-se a Deus. O amor para com Ele pode crescer em proporções infinitas. Por isso, é necessário que nosso amor a Deus se torne cada vez mais ardente, pois segundo o Seu preceito devemos amá-Iode todo o nosso coração, de toda a nossa alma, de todas as nossas forças.

Ora, o amor que nutrimos ao próximo tem seus limites.

Nosso Senhor manda amar o próximo como a nós mesmos. Se alguém ultrapassa os limites, a ponto de ter igual amor a Deus e ao próximo, comete um pecado de máxima gravidade. O Senhor declarou: "Se alguém vem a Mim, e não odeia seu pai, sua mãe, sua esposa, seus filhos, seus irmãos e irmãs, e até a sua própria vida, não pode ser Meu discípulo".

No mesmo sentido falou: "Deixa os mortos sepultarem os seus mortos" - quando certo homem queria primeiro enterrar seu pai, para depois seguir a Cristo. Mais clara é a explicação que deste assunto se acha em São Mateus: "Quem ama pai e mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim"
.

b) ... que o engrandece

Não há dúvida, devemos extremar-nos no amor e respeito a nossos pais. Mas, para que nisso haja piedade filial, é preciso, antes de tudo, prestar-se a principal honra e veneração a Deus, que é o Pai e Criador de todos os homens. Por conseguinte, devemos amar nossos pais, de modo que toda a veemência desse amor se refira ao Pai Celeste e Sempiterno.

Se alguma vez as ordens dadas pelos pais contrariarem os Preceitos de Deus, é evidente que os filhos devem antepor a vontade de Deus aos maus intentos dos pais, lembrando-se daquela advertência: "É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens".

Que é "honrar"?

Consiste ela em ter apreço por alguma pessoa, e nutrir 0 mais alto conceito de tudo o que se lhe refira. Acompanham essa honra os sentimentos de amor, respeito, obediencia e veneração. De caso pensado, empregou-se na Lei o termo "honra", e não "amor" ou "temor", apesar do muito que devemos amar e temer nossos pais. Quem ama, nem sempre respeita e venera; quem teme, nem sempre ama. Mas quem honra de coração, tambem ama e teme.

Que se entende por pais?

Ainda que a Lei fale, dos pais que nos geraram, esse nome se aplica tambem a outras pessoas que a Lei por certo abrange da mesma maneira. Sem mais dificuldade o deduzimos de numerosas passagens da Sagrada Escritura. Conforme ja fizemos notar, alem dos pais que nos deram a vida, falam as Sagradas Escrituras de outras especies de pais, a quem se deve uma honra correspondente.

Em primeiro lugar, chamam-se pais os Superiores eclesiasticos, tanto prelados como sacerdotes. Prova-o a passagem do Apóstolo, quando escrevia aos Corintios: "Nao escrevo estas coisas para vos confundir, mas exorto-vos como filhos meus carissimos. Pois, ainda que tenhais dez mil mestres em Cristo, nao tendes contudo muitos pais. Mas fui eu que pelo Evangelho vos gerei em Jesus Cristo" (I Co 4,14) E no Eclesiastico esta escrito: "Louvemos os ilustres varões, nossos pais, a cuja geração pertencemos".(Sr 44,1)

Da-se ainda o nome de "pais" aqueles que receberam uma jurisdição, uma delegação de poderes, o governo geral da Nação. Assim é que Naamã era chamado pai pelo seus servos. (2Rs 5,13)

Outrossim, chamamos de "pais" aqueles a cuja direção, lealdade, honradez e prudencia estão confiadas outras pessoas. Desta categoria são os tutores, curadores, educadores e mestres. Por isso, os filhos dos Profetas davam o titulo de "pai" a Elias e Eliseu. (2Rs 2,12; 13,14) Afinal, chamamos de "pais" os anciãos e as pessoas encanecidas, a quem alias, devemos reverencia.

Devemos honrar todos os pais, seja qual for a sua categoria, mas que em primeiro lugar estão os pais que nos puseram no mundo, pois a eles e que a Lei Divina se refere de modo particular.

A. Obrigacao de filhos e súditos:

São eles, por assim dizer, imagens de Deus imortal; neles vemos uma representação de nossa origem; por eles nos foi dada a vida; deles Se serviu Deus para nos dar uma alma racional; foram eles que nos levaram aos Sacramentos, que nos formaram para a vida religiosa e social, que nos instruiram na integridade e pureza de costumes.

Com razão se menciona o nome de "mãe", neste Preceito, para termos em consideração seus benefícios e benemerencias para conosco, com quanto cuidado e angustia ela nos trouxe debaixo de seu coração, com quanta dor e sofrimento nos deu a luz e nos criou.

Carater de nossa piedade filial

Devemos honrar nossos pais de tal maneira, que nossas demonstrações de respeito para com eles procedam, visivelmente, de um coração cheio de amor e carinho. O principal motivo desta nossa obrigação e o nutrirem eles tal afeição para conosco que, por nossa causa, não recusam nenhum trabalho, nenhuma fadiga, nenhum perigo, não podendo experimentar maior alegria do que se sentirem benquistos de seus filhos, a quem-amam extremosamente.

José do Egito, por ser o primeiro em glória e majestade abaixo do Rei, recebeu com todas as honras a seu pai, quando este se transferiu para o Egito. Salomão levantou-se, indo ao encontro de sua mãe que chegava, inclinou-se diante dela, e colocou-a a sua direita no trono real.

Manifestações da piedade filial

Ha ainda outras mostras de honra, que devemos prestar aos nossos pais. Assim é que tambem os honramos, quando nos afervoramos em pedir a Deus, para que tudo lhes corra prosperamente; que tenham a maior estima e consideração entre os homens; que sejam bem aceitos aos olhos de Deus e dos Santos no céu.

Outra maneira de honrar nossos pais é regular nossos planos pelo seu juízo e vontade. Assim o aconselha Salomão: "Ouve, meu fllho, as advertências de teu pai, e não abandones a doutrina de tua mãe, para que isto seja como um adorno em tua cabeça, e como um colar no teu pescoço".

Do mesmo sentido são as exortações dadas por Sao Paulo: "Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor, pois assim é de justiça". E tambem: "Fllhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque nisso se compraz o Senhor".

Abonam esta doutrina os exemplos de pessoas muito virtuosas. Isaac submeteu-se, humilde, sem relutancia, quando seu pai se pos a liga-lo para o holocausto. E os Recabitas, por não contrariarem o preceito de seu pai, abstiveram-se de vinho para sempre

Honramos tambem nossos pais:

1 - imitando-lhes os bons exemplos e costumes, pois o maior sinal de estima que se pode dar a uma pessoa e procurar a maior semelhança com ela.

2 - , quando não só pedimos, mas também pomos em pratica os seus conselhos.

3 - quando os socorremos, ministrando-lhes o necessário para a sua mantença e posição social.

Prova-o uma palavra de Cristo que, reprovando a dureza dos fariseus para com os pais, lhes perguntou: "Por que violais o Mandamento de Deus, por amor de vossa tradição? Pois Deus disse: Honra teu pai e tua mae - e: Quem amaldiçoar seu pai ou sua mãe, seja punido de morte. Vós, porem, apregoais: Todo aquele que disser a seu pai ou a sua mãe: Qualquer oferenda que eu faça a Deus te há de aproveitar - esse já não esta obrigado a honrar seu pai e sua mãe. Desta forma, invalidastes o Mandamento de Deus, por causa de vossa tradição".

Os deveres da piedade filial, devemos cumpri-los em todas as ocasiões, mas sobretudo quando os pais caem em doença perigosa. Cumpre-nos cuidar que nada se omita a respeito da Confissao e dos mais Sacramentos, que todos os cristãos devem receber, quando a morte esta iminente.

Procuremos que pessoas boas e piedosas os visitem com frequencia, para os confortarem e aconselharem, quando enfraquecidos na fé, para os levarem a esperança da vida eterna, quando ja se acham em boas disposições, de sorte que ponham toda a sua alma nas mãos de Deus, depois de tela desapegado das coisas humanas

Sendo, assim, venturosamente acompanhados pela fe; esperança e caridade, tendo o socorro da santa Religião, [nossos pais] não só temerão a morte, que é realmente inevitavel, mas até a julgarao desejavel, porque franqueia o acesso para a eternidade.

Por ultimo, presta-se honra aos pais, quando falecidos, fazendo-lhes os funerais, promovendo condignas exequias, preparando uma honesta sepultura, garantindo os sufragios e Missas aniversarias, executando fielmente suas declarações de ultima vontade.

Obrigacoes para com os Superiores

Devemos, no entanto, honrar não só aqueles que nos deram a vida, mas tambem os que em geral merecem o nome de pais, como sao os Bispos, sacerdotes, reis, principes, magistrados, tutores, curadores, mestres, educadores, anciaos e outras pessoas de igual condição. Todos eles são dignos, uns mais e outros menos, de tirar proveito de nossa caridade, de nossa obediencia, de nossa fortuna.

Dos Bispos e outros superiores eclesiasticos esta escrito: "Sacerdotes, que desempenham bem o seu ministerio, sao dignos de honra dobrada, mormente os que se afadigam em pregar e ensinar". (ITm 5,17)

Na verdade, quantas provas de amor não deram os Galatas ao Apóstolo? Ele próprio lhes rendeu grande preito de gratidão, quando escrevia: "Posso assegurar-vos que, se possivel fora, até os próprios olhos teríeis arrancado, para me fazerdes presente deles". Aos sacerdotes, devemos proporcionar-lhes o que for necessário para a sua manutenção. Por isso perguntava o Apóstolo: "Quem vai jamais a guerra, e custeia-se a si mesmo?" E no Eclesiastico está escrito: "Honra os sacerdotes, e purifica-te do pecado pela oferta das espaduas. Da-lhes, como te foi mandado, a parte das primicias e da expiação".

Deve-se-lhes tambem obediencia, conforme ensina o Apóstolo: "Obedecei aos vossos superiores, e sujeitai-vos a eles, pois eles estao vigilantes, como quem ha de dar contas de vossas almas". E Cristo Nosso Senhor mandou até obedecer aos maus pastores, quando declarava: "Na cadeira de Moises estão sentados os escribas e fariseus. Respeitai, pois, e executai tudo o que vos disserem. Mas não façais de acordo com suas obras, porque eles falam e não praticam".

Outro tanto se diga dos reis, príncipes, magistrados e mais pessoas, a cujo poder estamos submetidos. Na epistola aos Romanos, o Apóstolo se detem em especificar qual honra, respeito e submissao Ihes devemos a eles. Faz lembrar a obrigação de se rezar também por eles. E São Pedro diz por sua vez: "Sede submissos, por amor de Deus, a toda autoridade humana, seja ao rei como soberano, seja aos governantes como seus delegados".

A honra que lhes tributamos a Deus se refere, pois os homens acatam a preeminencia do cargo, por ser esta um reflexo do poder divino. Assim reverenciamos tambem a Providencia de Deus que, confiando-lhes o exercício de um cargo publico, se serve deles como ministros de Seu poder

As autoridades indígnas

Nossa veneração, naturalmente, não se reporta a malícia e perversão humana, se tal houver nos detentores do poder, mas a autoridade divina de que estão revestidos. Por mais estranho que pareça, nunca poderá haver uma razão suficiente para lhes negarmos o devido respeito, ainda que eles nos persigam com todo rancor e hostilidade

Assim é que Davi levava por diante suas grandes atenções para com Saul, embora este lhe mostrasse os piores sentimentos. Davi no-lo da a entender nas seguintes palavras: "Eu era pacato com os que odiavam a paz". Contudo, não podemos obedecer-lhes de maneira alguma, quando dão ordens ímpias e injustas, porque não o fazem de acordo com os seus poderes, mas por injustiça e maldade.

Premios e sansões:

1 - Longa vida...

Seu maior fruto, porem, é que "tenham longa vida". Na verdade, digno de lograr um beneficio, o mais tempo possivel, se torna aquele que o tem continuamente na lembrança. Portanto, os que honram seus pais, e se mostram gratos a quem lhes deu o gozo da luz e da vida, merecem com razao alcançar a extrema velhice.

Depois, é preciso dar uma explicacao bem declarada da divina promessa, pois não se promete apenas o gozo de uma vida eterna e venturosa, mas também da vida que levamos aqui na terra. Assim o explica São Paulo naquela passagem: "A piedade para tudo é proveitosa; tem a promessa, tanto para a vida presente, como para a futura". (ITim 4,8)
.
2 - vida venturosa ...

Esta recompensa não é pequena, nem desprezível, ainda que grandes Santos, como Jó, Davi e Paulo anelavam pela morte, e que pessoas tristes e sofredoras não encontram prazer numa vida prolongada.

Pois a clausula que vem a seguir: " [na terra] que o teu Senhor te há de dar" - promete não só uma vida dilatada, mas tambem o repouso, a paz e a segurança que se requer para uma vida venturosa. O Deuteronomio não se limita a dizer: "para que tenhas longa vida", mas acrescenta tambem: "para que sejas feliz". 0 mesmo pensamento foi, mais tarde, inculcado pelo Apóstolo

O problema da morte prematura

Dizemos, todavia, que Deus prodigaliza tais bens aos homens, cuja piedade filial Ele quer remunerar. Alias, a divina promessa não deixa de ser menos segura e constante, ainda que por vezes seja mais curta a vida daqueles que tiveram grande amor filial a seus pais.

Isto acontece, ou porque é melhor para eles deixar o mundo, antes que abandonem a pratica da virtude e do dever: são, pois, arrebatados, para que "a malícia nao Ihes perverta o entendimento, e a hipocrisia não lhes seduza o coração" . Ou então são separados de seus corpos, na iminencia de males e flagelos públicos, para escaparem as provações dos tempos que correm. "O justo, diz o Profeta, é arrebatado, em vista da malicia reinante".

Assim acontece, para que não venha a perigar sua virtude e salvação, quando Deus castiga os pecados dos homens; ou para que, em tempos de suma tristeza, não tenham de chorar, amargamente, a desgraca de parentes e amigos.

Por isso, mais razões há para se temer [grandes castigos de Deus], quando pessoas virtuosas sao ceifadas por uma morte prematura.

3. Castigos dos maus filhos

Assim como Deus prometeu premio e benção, pelo cumprimento de seu dever, aos que são carinhosos para com os pais: assim tambem reserva penas gravíssimas aos filhos ingratos e impiedosos. Pois esta escrito: "Quem amaldiçoar seu pai ou sua mãe, seja punido de morte". E "Quem acabrunha seu pai e sua mãe é um infame desgraçado" ". Noutro lugar: "Quem amaldiçoar seu pai ou sua mãe, verá sua candeia apagar-se no meio das trevas". Afinal: "O olho que escarnece de seu pai, e despreza o parto de sua mãe, seja arrancado pelos corvos das torrentes, e comido pelos filhotes da aguia".

Conforme lemos nas Escrituras, dos filhos que ultrajaram os próprios pais, muitos houve contra os quais se inflamou a vinganca da cólera divina. Assim Deus não deixou Davi sem desafronta. Infligiu o devido castigo a Absalao, e puniu seu crime, fazendo que fosse trespassado por três lanças.

Daqueles, porém, que não obedecem aos sacerdotes, esta escrito: "Quem se ensoberbece, não querendo obedecer ao sacerdote, que nesse tempo ministra ao Senhor teu Deus, tal homem seja, por sentença do juiz, condenado a morte"

Obrigações dos Pais e Superiores

1. Educar por bons princípios

Se, pois, a Lei de Deus manda aos filhos honrar, obedecer e acatar seus pais, é tambem dever e encargo dos pais educar os filhos por princípios e costumes bem assentados, dar-lhes as melhores normas de vida, para que eles, tendo boa instrução e formação religiosa, sirvam a Deus com perseveranca e fidelidade. Dessa maneira procederam os pais de Susana, consoante o que lemos nas Escrituras.(Dn 13,3)

Por isso mesmo, advirta o sacerdote que, para com os filhos, devem os pais haver-se como mestres da virtude, pela retidao, continencia, modestia, e santidade, procurando, antes de tudo, evitar três pontos, contra os quais costumam muitas vezes cometer faltas.

Primeiro, quando falam ou repreendem, não sejam asperos demais para com os filhos. É o que manda o Apostolo na epístola aos Colossenses: Pais, nao provoqueis o rancor de vossos filhos, para que se nao tornem retraidos". Há perigo de ficarem covardes e subservientes, porque de tudo se arreceiam. Por isso, deve [o paroco] ordenar que os pais evitem o rigor demasiado, procurando antes morigerar os filhos, do que castiga-los propriamente.

Segundo, não perdoem nada aos filhos, por nímia indulgencia, quando cometerem alguma falta que exija castigo e repreensão. Nao raras vezes os filhos se desencaminham por causa da excessiva brandura e complacencia dos pais. Para os desviar dessa irrazoavel condescendencia, sirva-lhes de exemplo o sumo sacerdote Heli, que sofreu o pior dos castigos, por se ter excedido na bondade para com os filhos.

Terceiro, não sigam os pais princípios errados na instrução e educação dos filhos, o que seria a maior das calamidades. Pois muitos são os que pensam e só cuidam em deixar aos filhos bens materiais, rendas pecuniarias, grandes e suntuosas heranças. Não os exortam a pratica da religiao e piedade, nem a aquisição de bons conhecimentos, mas antes a ganancia de aumentarem sempre mais a sua fortuna. Pouco se lhes da o bom nome e a salvaçao eterna dos filhos, contanto que estes tenham dinheiro e façam grande fortuna. Poder-se-ia falar ou pensar de modo mais vergonhoso?

Assim herdam eles aos filhos nao tanto os bens de fortuna, quanto os seus crimes e desordens. Em ultima analise, tornam-se guias que os não conduzem ao céu, mas aos eternos suplícios do inferno. Os pais, portanto, devem ensinar seus filhos no temor e na santidade, recebendo por isso copiosos frutos de amor, obediencia e respeito.

terça-feira, 6 de março de 2012

Um conto de fadas para Adultos



Por Alfonso Aguiló

" Muitas pessoas dizem que a teoria do big bang, como tal, é perfeitamente a auto-criação do Universo, e portanto não precisa de Deus para explicar seja o que for"

O big-bang e a auto-criação do Universo são duas coisas bem diferentes. A teoria do big-bang, como tal, é perfeitamente conciliavel com a existencia de Deus*. (*Essa teoria diz que todo o universo se teria originado de um ponto inicial de massa e energia quase infinitas, mas a teoria nada afirma sobre a origem deste ponto inicial)

Mas, quanto à teoria da auto-criação - que sustenta, mediante explicações mais ou menos engenhosas, que o Universo se criou a si próprio do nada - seria preciso objetar duas coisas:

Primeiro, que desde o momento em que se fala de criação a partir do nada, estamos já fora do método científico, já que o nada não existe e, portanto, não é possível aplicar-lhe o método científico. E, segundo, que é necessária muita fé para pensar que uma massa de matéria ou de energia possa ter-se criado a si mesma.

Tanta fé, que o próprio Jean Rostand - para citar um cientísta de reconhecida autoridade mundial nesta matéria e, no seu tempo, pouco suspeito de simpatia pela doutrina católica - chegou a dizer que essa história da auto-criação é como "um conto de fadas para adultos".

Afirmação que André Frossard reforça ironocamente dizendo que "se deve admitir que algumas pessoas adultas não são muito mais exigentes que as crianças a respeito dos contos de fadas[...]:as partículas originais, sem qualquer impulso nem direção exteriores, começam a associar-se, a combinar-se aleatoriamente entre elas para passar dos quasares aos átomos e dos átomos a moléculas de arquitetura cada vez mais complicada e diversa, até produzirem, depois de milhares de milhões de anos de esforços incenssantes, um professor de astrofísica de óculos e bigode. É o supra-sumo das maravilhas. A doutrina da Criação não pedia senão um milagre de Deus. A da auto-criação exige um milagre a cada décimo de segundo".

Evolução: está certo, mas a partir do quê?

- Há quem entenda a história do Universo como a evolução dos organismos vivos que emergiram da matéria e alcançaram um certo grau de complexidade...

Para os que defendem essas teorias, parece que o mundo é apenas um questão de geometria extraordinariamente complexa. No entanto, por mais que algumas estruturas se compliquem, e por mais que se admita uma vertiginosa evolução da sua complexidade, essa evolução da substancia material depara com pelo menos duas objeções importantes.

A primeira é que a evolução nunca explicaria a origem primeira dessa matéria incial. A evolução transcorre no tempo; tem por pressuposto a Criação.

A segunda é que a passagem da matéria para a inteligencia humana é um salto ontológico - um salto no modo de ser de cada coisa - que não se pode dever a uma simples evolução fruto do acaso.

Por muito que a matéria se desenvolva, não é capaz de produzir um só pensamento que lhe permita compreender-se a si mesma, do mesmo modo que - como exemplifica André Frossard - "nunca veríamos um triangulo que, depois de um extraordinário processo evolutivo, notasse de repente, maravilhado, que a soma dos seus ângulos internos é igual a cento e oitenta graus".

- Há algum inconveniente em que um católico acredite na evolução das espécies? Muitos dizem que não faz sentido que a Igreja continue relutante em aceitar um dado que está provado cientificamente.

Talvez não estejam bem informados, porque a Igreja Católica não tem inconveniente algum em aceitar a evolução do corpo humano a partir de um primata. Para conciliar a doutrina da evolução humana com a teologia católica, é suficiente admitir que Deus agiu num momento determinado sobre o corpo do primeiro casal, infundindo-lhes uma alma humana.

Deus pôde, com efeito, ir formando o corpo do homem a partir de alguma espécie de primata em evolução, de acordo com um projeto desenhado por Ele, e quando esse primata alcançou o grau de desenvolvimento requerido, dotou-o de alma humana.

A Igreja não tem nenhum inconveniente em que um católico aceite essa hipótese, se a considera digna de crédito.

- Então um católico não tem de acreditar ao pé da letra no relato da Criação que aparece no Gênesis?

Não é preciso acreditar ao pé da letra. O relato do ato da Criação que o Genesis oferece, não pretende seu uma explicação científica sobre a origem do ser humano.

As descrições de fenomenos físicos ou naturais que encontramos na Bíblia não pretendem proporcionar-noa diretamente ensinamentos em matéria científica, e os detalhes contidos nessas descrições também não afetam diretamente a doutrina da salvação.

Observa-se perfeitamente que a narrativa do Genesis é um esquema teológico, que não pretende ser histórico, mas proporcionar uma visão geral das verdades mais fundamentais, a fim de deixar claro que o mundo procede somente do poder de Deus. O modo como o processo se levou a cabo é uma questão que a Bíblia deixa completamente em aberto.

O autor do Genesis não se propunha das aulas de astrofísica ou de biologia molecular. Dá a entender que todo o homem, e o homem todo, em corpo e alma, vem de Deus, depende de Deus e foi criado por Deus; que o Universo não é auto-suficiente e que Deus é o criador e senhor de todas as coisas.

As aparentes divergencias que parecem observar-se entre algumas narrativas bíblicas e os conhecimentos científicos atuais devem-se ao sentido matafórico ou figurado com que, em alguns casos, os autores sagrados escreviam, ou então a um modo diferente de expressar-se, de acordo com as aparencias sensíveis ou a maneira de falar do povo da época.

Estudos anteriores AQUI


Fonte: É Razoável crer? - Quadrante

Depois veremos: Deus pode caber na minha cabeça?

Nobreza Espiritual


Um Cartuxo

" É no mundo do homem, em que tudo lisonjeia os sentidos e a vaidade, que devemos criar uma solidão sagrada, praticar a renúncia e deixarmo-nos despojar de acordo com as exigências da graça. Mas nenhuma perda resulta para nós de tudo isso: de cada vez que renunciamos a uma satisfação aparente, é-nos assegurado um aumento de verdadeiros bens.

Os prazeres que o mundo procura são uma decepção constante, gelam o coração e deixam-no vazio diante da morte, enfraquecem o seu instinto de nobreza e privam-no da sua paz, e levam-no muitas vezes ao desespero. Pois este mundo continua surdo à voz de Cristo e recusa-se a acreditar na verdade que lhe diz respeito, defende-se com a ira contra a alegria de Cristo, contra Deus e contra os seus, cuja sentença receia: " Agora, vou para ti; e digo estas coisas estando ainda no mundo, para que eles tenham em si mesmos a plenitude do meu gozo. Dei-lhes a tua palavra e o mundo os odiou, porque não são do mundo, como também eu não sou do mundo" (João, XVIII, 13-14)

Fonte: Intimidade com Deus - Um cartuxo - Quadrante

Rezemos pelo clero, sobretudo pelo Nosso Papa e pelo Padre Paulo Ricardo.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Céu e Terra em miniatura


Por Scott Hann

"Muitos pequenos detalhes da visão de João se esclarecem quando procuramos entrar em contato com o Apocalípse da maneira como seu público original deve tê-lo feito.Se fôssemos judeu-cristãos de fala grega do tempo de João e vivêssemos nas cidades da província romana da Asia, é provável que conhecessemos a topografia de Jerusalém por causa de nossas peregrinações regulares.

Jerusalém era exatamente importante para os leitores de João.Era a capital e o centro economico do antigo Israel, além do centro cultural e academico da nação.Mas,acima de tudo, Jerusalém era o coração espiritual do povo israelita, como o Vaticano para os católicos.

Em Jerusalém, sentiríamos a mais profunda afeição pelo Templo, que era o centro da vida cultural e religiosa para os judeus de todo mundo.Jerusalém não era tanto uma cidade com um Templo quanto o Templo com uma cidade construída em sua volta.

Para os judeus piedosos, mais que lugar de culto, o Templo representava a maquete de toda criação.Assim como o universo foi feito para ser o santuário de Deus, com Adão como sacerdote, o Templo deveria restaurar essa ordem, com sacerdotes de Israel oficiando diante do Santo dos Santos.

Como judeus-cristãos, reconheceríamos imediatamente o Templo na descrição que o Apocalípse faz do céu. No templo, como no céu de João, os sete candelabros de ouro (Ap 1,12) e o altar de perfumes (8,3-5) ficavam diante do Santo dos Santos.

No Templo, quatro querubins esculpidos adornavam as paredes, como os quatro anjos vivos ministram diante do trono no céu de João.Os vinte e quatro "anciãos" (em grego ptrsbyteroi)são uma réplica dos vinte e quatro grupos de sacerdotes que serviam no Templo todos os anos.O "mar límpido, semelhante ao cristal"(Ap 4,6)era a grande piscina de bronze polido do Templo que comportava 45 mil litros de àgua.

Como no Templo de Salomão, no centro,do templo do Apocalípse ficava a Arca da aliança.(Ap 11,19)O apocalípse revelava o Templo - mas para os judeus devotos e os judeus convertidos ao cristianismo também revelava muito mais, pois o Templo e seus ornamentos indicavam realidades mais elevadas.

Como Moisés (veja Ex 25,9), o rei Davi recebeu o plano do templo do próprio Deus: "Tudo isto encontra-se num escrito redigido pela mão do Senhor, que me fez compreender todas as obras do plano" (I Cr 29,19).

O Templo deveria seguir o modelo da corte celeste: " Ordenaste-me construir um Templo em tua morada, à imitação da tenda santa que tinhas preparado desde a origem" (Sb 9,8).

Da imitação à Participação.

De acordo com as antigas crenças judaicas, o culto no Templo de Jerusalém espelhava o culto dos anjos no céu.O sacerdócio levítico,a liturgia da aliança, os sacrifícios eram vagas representações de modelos celestes. Ainda assim, o livro do Apocalípse tinha algo diferente , algo mais. Enquanto Israel rezava "por imitação dos anjos", a Igreja do Apocalípse adorava "junto com os anjos" (veja 19,10).

Enquanto sómente os sacerdotes podiam entrar no lugar santo do Templo de Jerusalém, o Apocalípse mostrava uma nação de sacerdotes (Veja 5,10;20,6) que habitavam sempre na presença de Deus.Já não haveria um arquétipo celeste e uma imitação terrena.Agora o Apocalíse revelava "um só culto", compartilhado por homens e anjos!

Das Cinzas.

Os biblistas discordam a respeito de quando o livro do Apocalípse foi escrito; as estimativas variam do fim dos anos 60 até o final dos anos 90d.C. Entretanto, quase todos concordam que a medição do Templo por João (Ap 11,1) indica uma data anterior a 70, pois depois desta data não havia mais Templo para medir.

De qualquer modo,o culto sacrifical da antiga aliança encontrou seu fim definitivo com a destruição do templo e de Jerusalém em 70 d.C.Para os judeus de todo o mundo esse foi um acontecimento cataclísmico - que prefigurava o juízo final do "templo cósmico" no fim dos tempos.

Depois de 70 d.C. a fumaça dos cordeiros dos sacrifícios de Israel não mais subiu.As legiões romanas reduziram a entulho enegrecido pelo fogo a cidade e o santuário que davam sentido à vida dos judeus da Palestina e do exterior.

O que João descreve em sua visão era nada menos que o fim do mundo antigo, da antiga Jerusalém, da antiga aliança e a criação de um mundo novo, uma nova Jerusalém. Com a ordem do mundo novo surgiu uma nova ordem de culto.

É difícil "não " ouvir ecos do evangelho de João:" Destrui este templo, e em tres dias eu o reerguerei" (Jo 2,19)..."vem a hora em que nem sobre esta montanha, nem em Jerusalém adorareis o Pai...na qual os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade"(Jo 4,21.23).

No Apocalípse, essas previsões se realizam quando o novo Templo se revela como o corpo místico de Cristo, a Igreja e qdo a adoração "no Espírito" tem lugar na nova Jerusalém celeste.Do mesmo modo, é fácil entender por que os cristãos primitivos consideravam o véu rasgado do Templo tão significativo do ponto de vista teológico e litúrgico.

O véu rasgou-se exatamente quando o corpo de Cristo foi decisivamente rasgado.Quando Jesus completou a oferenda terrena de seu corpo, Deus assegurou que o mundo soubesse que o véu fora removido do "Santuário".

Agora todos - reunidos na Igreja - podiam entrar em sua presença no dia do Senhor:

Destarte, irmaõs, temos total garantia de acesso ao santuário pelo sangue de Jesus. Temos aí um caminho novo e vivo, que Ele inaugurou através do véu, isto é, através da sua humanidade...Velemos una pelos outros para nos estimular à caridade e às boas obras.Não abandonemos as nossas assembléias..mas animemo-nos, tanto mais que vedes o Dia aproximar-se (Hb 10,19-20.24-25).

" No Espírito no dia do Senhor", João viu algo que era mais completo do que qualquer narrativa ou argumento poderia transmitir.Ele viu que parte do mundo já estava transformada em um novo céu e uma nova terra.Alguns séculos mais tarde,Scott (e agora nós!) começamos a nos voltar para olhar.

Fonte: O Banquete do Cordeiro

Veja o estudo AQUI

Depois veremos: Quem é quem no Céu.
O Elenco de Milhares do Apocalípse:

domingo, 4 de março de 2012

As Notas e os Atributos da Igreja de Cristo


Por Padre Leo Trese

“Não é produto genuíno se não traz esta marca”.

Encontramos com frequência este lema nos anúncios dos produtos.

Talvez não acreditemos em toda a tagarelice sobre os “produtos de qualidade” e “os entendidos o recomendam”, mas, quando vão fazer compras, muitos insistem em que lhes sirvam determinadas marca, e quase ninguém compra um artigo de prata sem lhe dar a volta para verificar se traz o selo que garante que é prata de lei, e muito poucos compram um anel sem antes olhar a marca dos quilates.

Sendo a sabedoria de Cristo a própria sabedoria de Deus, era de esperar que, ao estabelecer a sua Igreja, tivesse Ele previsto alguns meios para reconhecê-la, não menos inteligentes que os dos modernos comerciantes; umas “marcas” para que todos os homens de boa vontade pudessem reconhecê-la facilmente.

Era de esperar que o fizesse, especialmente tendo em conta que Jesus fundou a sua Igreja à custa da sua própria vida. Jesus não morreu na Cruz por gosto. Não deixou aos homens a escolha de pertencer ou não à Igreja, segundo as suas preferências. A sua Igreja é a Porta do Céu, pela quais todos (ao menos com um desejo implícito) devem entrar.

Ao constituir a Igreja como pré-requisito para a nossa felicidade eterna, o Senhor não deixou de estampar nela, claramente, a sua marca, o sinal da sua origem divina, e tão à vista que não pudéssemos deixar de reconhecê-la no meio da miscelânea de mil seitas, confissões e religiões do mundo atual. Podemos dizer que a “marca” da Igreja é um quadrado, e que o próprio Jesus Cristo nos disse que devíamos olhar para cada lado desse quadrado.

Primeiro, a unidade:

"Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco, e é preciso que eu as traga. Elas ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor "(Jo 10,16).

E também: "Pai santo guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, como nós somos um "(Jo 17,11)

Depois, a santidade:

"Santifica-os na verdade [...]. Por eles eu me santifico a mim mesmo, para que eles também sejam santificados na verdade" (Jo 17,17 e 19). Esta foi a oração do Senhor pela sua Igreja, e São Paulo recorda-nos que Jesus Cristo se entregou por nós, a fim de nos resgatar de toda a iniquidade e purificar para sim um povo aceitável, zeloso pelas boas obras (TI.2,14).

O terceiro lado do quadrado é a catolicidade ou universalidade.

A palavra “católico” vem do grego, como a palavra “universal” vem do latim, mas ambas significam o mesmo: “tudo”. Todo o ensinamento de Cristo a todos os homens, em todos os tempos e em todos os lugares.

Escutemos as palavras do Senhor:

"Será pregado este evangelho do reino por todo o mundo, em testemunho a todas as gentes (MT.24,14). Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura (MC. 16,15). Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia, na Samaria e até os confins da terra (AT. 1,8).

O quadrado completa-se com a nota da Apostolicidade

Esta palavra parece um pouco complicada de se pronunciar, mas significa simplesmente que a Igreja que proteste ser de Cristo deve ser capaz de remontar a sua linhagem, em linha ininterrupta, até os Apóstolos. Deve ser capaz de mostrar a sua legítima descendência de Cristo por meio dos Apóstolos.

De novo fala Jesus: E eu digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela (MT.16,18).

E, dirigindo-se a todos os Apóstolos: Foi-me dado todo o poder no céu e na terra. Ide, pois, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-as a observar todas as coisas que mandei. Eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo (MT. 28,18-20).

São Paulo sublinha este sinal de apostolicidade quando escreve aos Efésios:

Vós, pois, já não sois hóspedes, nem adventícios, mas sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo o próprio Jesus Cristo a principal pedra angular (EF.2,19-20).

Qualquer Igreja que reclame ser de Cristo deve mostrar essas quatro notas.

Fonte: A Fé Explicada

Estudos anteriores AQUI