sexta-feira, 23 de março de 2012

A "Unidade" da Igreja Católica


Por Padre Leo Trese.

Há muitas “igrejas” no mundo de hoje que se chamam cristãs. Abreviemos o nosso trabalho de escrutínio examinando a nossa própria igreja, a Igreja Católica, e se encontrarmos nela a marca de Cristo, não precisaremos examinar as outras.

Por muito errado que você esteja sobre alguma coisa, sempre é desagradável que alguém lho diga sem rodeios. E enquanto esse alguém lhe for explicando cuidadosamente por que está enganado, é provável que você se mostre mais e mais obstinado. Talvez nem sempre suceda isso consigo, ou talvez você seja muito santo e nunca tenha essa reação. Mas, em geral, nós, os homens, somos assim.

Todos devemos estar dispostos a expor a nossa religião em qualquer ocasião; mas nunca a discutir sobre ela. No momento em que dissermos a alguém: “A sua religião é falsa e eu lhe direi por quê”, fecharemos com uma batida de porta a mente dessa pessoa, e nada do que dissermos depois conseguirá abri-la.

Por outro lado, devemos ver que, se conhecermos bem a nossa religião, poderemos explicá-la, inteligente e amavelmente, ao vizinho que não é católico ou que não pratica: haverá bastantes esperanças de que nos escute. Se pudermos demonstrar-lhe que a Igreja Católica é a verdadeira Igreja estabelecida por Jesus Cristo, não há razão para dizer-lhe que a “igreja” dele é falsa. Poderá ser que seja teimoso, mas não será estúpido, e é de confiar que tire as suas próprias conclusões.

Tendo isto em mente, examinemos agora a Igreja Católica para ver se apresenta a marca de Cristo, se Jesus a indicou como sua, sem possibilidades de erro.

Primeiro, vejamos a UNIDADE, que o Senhor estabeleceu como característica do seu rebanho.

Observemos esta unidade em suas três dimensões: unidade de credo, unidade de culto e unidade de autoridade.

“ A unidade da Igreja peregrina é assegurada também por laços visíveis de comunhão:

- “a profissão duma só fé recebida dos Apóstolos;”

- “a celebração comum do culto divino, sobretudo dos sacramentos”;

- “a sucessão apostólica pelo sacramento da Ordem, mantendo a concórdia fraterna da família de Deus” (n. 815).

Sabemos que os membros da Igreja de Cristo devem manifestar unidade de credo. As verdades em que cremos são as que foram dadas a conhecer pelo próprio Cristo; são verdades que procedem diretamente de Deus.

Não há verdades mais “verdadeiras” que a mente humana possa conhecer e aceitar do que as reveladas por Deus. Deus é a verdade; sabe tudo e não pode errar; é infinitamente verdadeiro e não pode mentir. É mais fácil crer, por exemplo, que não existe sol em pleno dia do que pensar que Jesus tenha podido enganar-se ao dizer-nos que existem três Pessoas num só Deus.

Por este motivo, consideramos o princípio do “juízo privado” como absolutamente ilógico. Há pessoas que estendem o princípio do juízo privado às questões religiosas. Admitem que Deus nos deu a conhecer certas verdades, mas dizem que cada homem tem de interpretar essas verdades de acordo com o seu critério. Que cada um leia a sua Bíblia, e aquilo que chegue a pensar que a Bíblia significa, esse é o significado para ele.

Não está em nossas mãos escolher e acomodar a revelação de Deus às nossas preferências ou às nossas conveniências. Essa teoria do´“juízo privado” levou, naturalmente, a dar um passo mais: a negar toda a verdade absoluta.

Hoje, muita gente pretende que a verdade e a bondade são termos relativos. Uma coisa será verdadeira enquanto a maioria dos homens pensar que é útil, enquanto parecer que essa coisa “funciona”. Se crer em Deus ajuda você, então creia em Deus; mas, se você pensa que essa crença dificulta a marcha do progresso, deve estar disposto a afastá-la.

E o mesmo se passa com a bondade. Uma coisa ou uma ação é boa se contribui para o bem-estar e a felicidade do homem. Mas se a castidade, por exemplo, parece que refreia o avanço de um mundo que está sempre evoluindo, então a castidade deixa de ser boa.

Em resumo, bom ou verdadeiro é apenas o que, aqui e agora, é útil para a comunidade, para o homem como elemento construtivo da sociedade, e é bom ou verdadeiro somente enquanto continua a ser útil. Esta filosofia tem o nome de pragmatismo.

É muito difícil dialogar com um pragmático sobre a verdade, porque minou o terreno que você pisa começando por negar a existência de qualquer verdade real e absoluta. Tudo o que um homem de fé pode fazer por ele é rezar e demonstrar-lhe com uma vida cristã autêntica que o cristianismo “funciona”.

Talvez nos tenhamos desviado um pouco do nosso tema principal: o de que não há igreja que possa dizer que é de Cristo se todos os seus membros não crêem nas mesmas verdades, já que essas verdades são de Deus, eternamente imutáveis, as mesmas para todos os povos. Sabemos que na Igreja Católica todos cremos nas mesmas verdades: bispos, sacerdotes ou crianças; norte-americanos, franceses e japoneses; brancos ou negros; cada católico, esteja onde estiver, diz exatamente o mesmo quando recita o Credo dos Apóstolos.

Estamos unidos também no culto, como nenhuma outra igreja.

Temos um só altar, sobre o qual Jesus Cristo renova, todos os dias, o seu oferecimento na cruz.

Só um católico pode dar a volta ao mundo sabendo que, aonde quer que vá – à África ou à Índia, à Alemanha ou à América do Sul -, se encontrará sempre em casa, do ponto de vista religioso. Em toda a parte, a mesma Missa; em toda a parte, os mesmos sete sacramentos.

Não estamos unidos entre nós apenas pelo que cremos e pelo que celebramos, mas também por estarmos sob a mesma autoridade.

Jesus Cristo designou São Pedro como pastor supremo do seu rebanho, e tomou as medidas necessárias para que os sucessores do Apóstolo até o fim dos tempos fossem a cabeça da sua Igreja e quem guardasse as suas verdades.

A lealdade ao bispo de Roma, a quem chamamos carinhosamente Santo Padre, será sempre o centro obrigatório da Igreja de Cristo: “Onde está Pedro, ali está a Igreja”.

Uma fé, um culto, uma cabeça.

Esta é a unidade pela qual Cristo orou, a unidade que estabeleceu como um dos sinais que identificariam perpetuamente a sua Igreja.

É uma unidade que só pode ser encontrada na Igreja Católica

Fonte: A Fé Explicada

Estudos anteriores AQUI

quinta-feira, 22 de março de 2012

O Nome de Deus tomado em vão


«Senhor; nosso Deus, como é admirável o vosso nome em toda a terra! (Sl 8, 2).

O primeiro Preceito da Lei Divina, mandando-nos honrar a Deus com filial afeição, contém necessariamente o objeto do segundo; pois quem quer ser honrado, exige também que por palavras exprimamos nossa suma reverência para com ele, e proíbe qualquer atitude contrária.

Esse é o sentido evidente daquelas palavras, que o Senhor proferiu Profeta Malaquias: "O filho honra a seu pai, e o servo a seu senhor. Então, se sou Eu vosso Pai, onde está pois a Minha honra?" ( Ml 1,6) Assim, pela importância da matéria, quis Deus dar um preceito particular sobre o culto de Seu divino e santíssimo Nome, e que o mesmo nos fosse promulgado em termos claros e formais.

Pela frequência de sua transgressão

Conhecer este preceito é importantíssimo, pois existem pessoas tão obcecadas pelas trevas de opiniões errôneas, que não temem de blasfemar d'Aquele, a quem os Anjos glorificam. Sem temer sequer a lei para sempre promulgada, eles se atrevem, com a maior desfaçatez, a apoucar a majestade de Deus, dia por dia, quase hora por hora, a todos os instantes.

Quem não observa como juram em todas as afirmações, como tudo enchem suas pragas e imprecações? Chegou ao ponto que, em vendas, em compras, em qualquer transação, quase ninguém deixa de recorrer ao sagrado juramento, invocando milhares de vezes o santíssimo Nome, por temeridade, até nas coisas mais fúteis e levianas.

Cláusula preceptiva

O que a lei manda é honrar o nome de Deus, jurar por ele santamente. O que ela proíbe é desprezar o Nome de Deus, tomá-lo em vão, jurar por ele falsa, inútil ou temerariamente.

1. Sentido do nome de Deus

Nesta parte do Preceito, que manda honrar o Nome de Deus, todos os fiéis devem saber que não se deve tomar materialmente o Nome de Deus, em suas letras, em suas sílabas, no simples vocábulo como tal; mas que se deve atender ao sentido da palavra, enquanto designa a onipotente e sempiterna majestade de Deus Uno e Trino. Nestes termos, não custa averiguar quão descabida era a superstição de certos judeus que, embora escrevessem o nome de Deus, não se atreviam a pronunciá-lo, como se a virtude divina estivera nas quatro letras, e não no sentido que elas exprimem.

Ainda que se diga no singular: "Não tomarás o Nome de Deus" - não devemos, contudo, entendê-lo de um só nome, mas de quantos nomes se atribuem a Deus. Pois são muitos os nomes dados a Deus, tais como: Senhor, Onipotente, Senhor dos Exércitos, Rei dos Reis, Forte, e outros que se lêem nas Escrituras. Todos eles merecem por igual a mesma veneração.

A seguir, cumpre ensinar a maneira de se prestar ao Nome de Deus a honra devida; pois o povo cristão, cujos lábios devem continuamente anunciar os louvores de Deus, não poderia licitamente ignorar uma prática tão útil e tão necessária para a salvação.

2. Modos de louvar o Nome de Deus

Vários são os modos de louvar o Nome de Deus, mas todos se reduzem, substancialmente,
aos que passamos a explicar.

Em primeiro lugar, Deus é louvado, quando temos a coragem de proclamá-l'O, publicamente, como Nosso Deus e Senhor; quando não só reconhecemos, mas também apregoamos, que Cristo é o Autor de nossa salvação.

Em segundo lugar, quando estudamos, com santo fervor, a palavra de Deus, pela qual se manifesta a Sua vontade; quando nos pomos a meditá-la assiduamente, e a decorá-la com interesse, quer lendo, quer ouvindo, conforme for mais útil e adequado para a pessoa, e para o cargo que ela ocupa.

Em terceiro lugar, veneramos e respeitamos o Nome de Deus, quando por dever ou por devoção celebramos os louvores divinos, agradecendo de modo especial, por todos os bens e males que nos aconteçam. Dizia o Profeta: "Bendize, minha alma, ao Senhor, e não esqueças de Seus benefícios". Existem ainda muitos Salmos em que David , cheio de entranhado amor a Deus, canta os louvores divinos com a maior suavidade. Outro tanto fazia Jó, que se nos apresenta como admirável exemplo de paciência.

Por conseguinte, quando nos debatemos com dores espirituais e corporais nos contorcemos em misérias e provações, empenhemos zelo e todas as energias de nossa alma em louvar a Deus, repetindo aquela palavra de Jó: "Bendito seja o Nome do Senhor!"

Em quarto lugar, não menos honrado é o Nome de Deus, quando confiantes a Sua proteção, ou para que nos livre de calamidades, que nos dê força e coragem de suportá-las com perseverança. Assim quer Deus que se faça: "Invoca-Me, diz Ele, no dia da tribulação. Eu te Me darás a glória". Desta invocação, encontram-se notáveis em muitos lugares da Escritura, mormente nos Salmos 16, 43 e 118.

Em quinto lugar, honramos também o Nome de Deus, quando invocamos a Deus por testemunha, para comprovar uma verdade. É um modo de louvar que muito difere dos precedentes. Pois os modos já enumerados são, de sua natureza, tão bons e desejáveis, que nada pode ser mais ditoso e mais apetecível para o homem, do que exercer-se dia e noite em sua prática frequente. "Bendirei ao Senhor em todo o tempo", dizia Davi, "e em minha boca estará sempre o Seu louvor".

O juramento, porém, ainda que seja bom em si, não é para louvar, usado freqüentemente.

Origem do juramento

A razão de tal diferença está em que o juramento só foi instituído como remédio da fragilidade humana, e como um meio necessário para comprovar a veracidade de afirmações. Assim como não convém aplicar remédio ao corpo, sem haver necessidade, sendo até prejudicial o seu uso freqüente: assim também não é salutar fazer-se juramento, desde que não haja, para isso, grave e justa.

Empregado muitas vezes, o juramento não só deixa de aproveitar, mas chega até a causar grande dano espiritual. Por isso dizia acertadamente São João Crisóstomo que "não foi desde o início, mas em época já avançada do mundo, - quando os vícios se propagaram por toda a parte, e encheram todo o orbe da terra; quando nada mais se mantinha em sua ordem e lugar, e tudo ia de alto a baixo, no maior desconcerto, levando grande confusão nas coisas; quando, de todos os males o maior, quase todos os homens se precipitaram na degradante escravidão dos ídolos - só então, depois de longo tempo, é que se introduziu, entre os homens, a prática do juramento. Havendo, entre os homens, tanta perfídia e iniqüidade, não era fácil fazer que alguém acreditasse [em seu semelhante]. Por isso, invocaram a Deus por testemunha"(Chrysost in Acta hom. 9)

O principal, nesta parte do Preceito, é mostrar-se aos fiéis como devem proceder, para se servirem do juramento com retidão e piedade.

b) noção do juramento

Primeiro, é preciso dizer-lhes que "jurar" nada mais é senão invocar a Deus por testemunha, seja qual for a fórmula e expressão empregada. Pois tanto vale dizer: "Deus é minha testemunha" _ como dizer: "Juro por Deus".

Há também juramento, quando juramos pelas criaturas, para fazer fé, como jurar pelos Santos Evangelhos de Deus, pela Cruz, pelas relíquias e pelos nomes dos Santos, e por outras coisas semelhantes. Naturalmente, elas de per si não conferem ao juramento nenhum valor e força, mas quem lho dá é o próprio Deus, porque nessas coisas vislumbra o esplendor de Sua majestade.

Por lógica conclusão, os que juram pelo Evangelho, juram pelo próprio Deus, cuja verdade está contida e explicada no Evangelho. O mesmo se diga do jurar pelos Santos, pois eles são templos de Deus , creram na verdade do Evangelho, observaram-na com toda a submissão, e propagaram-na entre os povos e as nações, até às mais remotas paragens.

Outro tanto é o valor do juramento que se faz por imprecação, como aquele de São Paulo: "Invoco a Deus por testemunha, contra a minha vida".( 2Cor 1,23) Por uma cláusula dessa, a pessoa se submete ao juízo de Deus, enquanto é vingador da mentira.

Não negamos, porém, que algumas dessas fórmulas se podem entender de tal maneira, que já não tenham caráter de juramento. Convém, todavia, observar-se a seu respeito o que ficou dito do juramento, e aplicar-lhes as mesmas normas e princípios.

c)espécies de juramento

Há duas espécies de juramento:

O primeiro se chama juramento assertório. Por exemplo, quando sob juramento afirmamos alguma coisa do presente ou do passado, como fez o Apóstolo na epístola aos Gálatas: "Digo, na presença de Deus, que não minto".

Segundo se chama promissório, a cuja categoria pertencem também aos juramentos cominatórios. Refere-se ao tempo futuro. Consiste em prometermos alguma coisa, com absoluta certeza, e a garantirmos com um juramento. Desta espécie, era o juramento de Davi que, jurando à sua mulher Bersabé "pelo Senhor seu Deus", prometeu que o filho dela, Salomão, o herdeiro do reino, e lhe sucederia no trono.

d - Condições para jurar:

Para haver juramento, basta invocar a Deus por testemunha. Contudo, para que seja reto e requerem-se muitas outras condições, que devem ser cuidadosamente aplicadas. Elas foram, como atesta São Jerônimo , brevemente compendiadas pelo Profeta Jeremias, quando dizia: "Jurarás: Vive o Senhor! - [ mas] verdade, com juízo, e com justiça".(Jr 4,2)
Realmente, com tais palavras abrangeu [o Profeta], com suma precisão os elementos que constituem toda a perfeição do juramento, a saber, verdade, critério, justiça.

Com Verdade...

No juramento, cabe à verdade o primeiro lugar. Isto quer dizer, o objeto da afirmação deve ser mesmo verdadeiro; e quem jura deve julgar que o seja de fato, não se baseando afoitamente em leves conjecturas, mas em prova de absoluta certeza.

A segunda especie de juramento, que e o promissório, também requer a verdade, da mesma maneira. Pois quem promete alguma coisa, deve ter a deliberada vontade de cumpri-la realmente, e de satisfazer a promessa no tempo aprazado. O homem honesto também não se comprometerá jamais a fazer alguma coisa que julgue contraria aos santíssimos Preceitos e a vontade de Deus.

Em materia lícita de promessa e juramento, não pode tampouco mudar o que uma vez prometeu; salvo o caso em que, por mudança das circunstancias, já não possa levar adiante o prometido, sem incorrer no ódio e desagrado de Deus. Ora, que a verdade é um requisito necessario do juramento, declara-o tambem Davi com as palavras: "Quem jura a seu próximo, e não o engana".[Sl 14,4]

Com criterio...

Em segundo lugar, vem o criterio, pois não se deve jurar com temeraria leviandade, mas com madura reflexão. Portanto, quem está para fazer juramento, deve primeiro averiguar se a tanto o obriga alguma necessidade; atenda tambem a ocasião, ao lugar, e a outras inúmeras circunstâincias. Não se deixe levar por ódio, nem por amor, nem por algum afeto desordenado, mas só pela necessidade decorrente da própria situacao.

Portanto, se não lhe preceder essa rigorosa ponderação, o juramento será forçosamente precipitado e temerario. De tal jaez é o ímpio falar daqueles que, nas coisas mais leves e insignificantes, juram sem nenhum cuidado e reflexao, só por mau costume. É o que a cada passo observamos, todos os dias, entre vendedores e compradores. Juram sem escrupulos, encarecendo ou depreciando a mercadoria: uns para a venderem pelo mais possível; outros, por sua vez, para a comprarem pelo menos possivel.

Como se requer juízo e prudencia [para jurar], e, como pela idade as crianças não possuem ainda tino bastante para distinguir as coisas, decretou o Papa Sao Cornelio (Cf Corpus Iuris Canonici c. 16 C. XXII) que se não deve exigir juramento de crianças antes da puberdade, isto e, antes dos catorze anos.

Com justiça ...

A ultima condição é a justiça, postulado essencial do juramento promissório. Quem promete, com juramento, alguma coisa injusta ou desonesta, peca pelo fato de jurar. A este primeiro pecado acrescenta outro, se vier a cumprir o que prometeu.

Desta materia, há no Evangelho o exemplo do rei Herodes que, ligado por temerario juramento, deu a jovem bailarina a cabeça de Joao Batista, como premio de sua dança. Tal foi tambem o juramento daqueles judeus que, como narram os Atos dos Apóstolos, juraram não tomar alimento, enquanto não matassem a Paulo.

e) santidade do juramento

Depois de tais explicações, já nao resta a menor duvida de que pode jurar com segurança quem atender a todas estas circunstâncias, e usar dessas clausulas como outras tantas garantias para o seu juramento.

E fácil é provar esta asserção por meio de muitos argumentos. Pois a "
Lei do Senhor", que é "imaculada" e "santa", contem o preceito seguinte: "Temeras o Senhor teu Deus, e só a Ele serviras; e pelo Seu Nome é que juraras". E Davi escreveu: "Louvados serão todos aqueles que juram por Ele"

Alem do mais, as Sagradas Escrituras atestam que os santissimos apostolos, luzeiros da Igreja, recorreram por vezes ao juramento. Isto transparece das epistolas do Apóstolo. (Rm 1,9)

Acresce que os próprios Anjos juram de vez em quando. No Apocalipse, escreveu Sao Jõao Evangelista que um Anjo havia jurado por "Aquele que vive pelos seculos dos seculos". (Ap 10,20)

O que mais é, o próprio Deus, Senhor dos Anjos, faz uso do juramento. Em muitas passagens do Antigo Testamento, confirma Deus Suas promessas, por meio de juramento, como o fez a Abrãao e a Davi. Este nos deu a conhecer um celebre juramento de Deus: "Jurou o Senhor, e não há de arrepender-Se: Tu és Sacerdote por toda a eternidade, segundo a ordem de Melquisedec".
(Sl 109,4)

f
) razoes intrinsicas ao juramento

Com efeito, se considerarmos mais de perto toda a questão, se levarmos em conta a origem e a finalidade do juramento, não nos será dificil determinar o motivo por que o juramento é um ato louvavel.

O juramento tem sua origem na fé, porquanto os homens creem que Deus é o autor de toda a verdade; que Ele não pode jamais enganar-Se a Si mesmo, nem enganar a outrem; que "a Seus olhos estao patentes e descobertas todas as coisas"; que Ele afinal, por Sua admiravel Providencia, cuida de todos os negócios humanos, e governa o mundo inteiro.

Assim, imbuidos desta fe, invocam os homens a Deus por testemunha da verdade. E negar-Lhe credito [a Deus], seria crime e profanação.

g) finalidade do juramento

Quanto a sua finalidade, o juramento tende por natureza a provar, de modo absoluto, a justiça e a inocencia de alguma pessoa, e pôr termo a litigios e demandas. Esta é tambem a doutrina do Apóstolo na epistola aos Hebreus (Hb 6,16)

Cristo e 0 juramento

De modo algum contrariam esta exposição de principios as palavras de Nosso Salvador que se encontram no Evangelho de Sao Mateus: "Ouvistes que se disse aos antigos: Não juraras falso, e cumpriras ao Senhor os teus juramentos. Eu, porem, vos digo que não jureis de forma alguma: nem pelo ceu, porque é o trono de Deus; nem pela terra, porque é o descanso de Seus pes; nem por Jerusalem, porque é a cidade do grande Rei. Nem pela tua cabeça juraras, porque não és capaz de tornar branco nem preto um só fio de cabelo. Mas seja o vosso modo de falar: Sim, sim; nao, nao. O que dai passa, tem sua origem no mal". (Mt 5, 33-37)

Nao se deve, pois, afirmar que tais palavras sejam uma reprovação formal e sumaria do juramento, porque ja vimos, há pouco, que o proprio Senhor e os Apostolos juraram repetidas vezes.

Nosso Senhor queria, apenas, refutar a perversa opiniao dos judeus, pela qual estavam persuadidos de que no juramento nada mais era preciso evitar senao a mentira. Por isso, por qualquer coisa sem a menor importancia, juravam pessoalmente, e exigiam tambem que os outros tambem jurassem, da mesma forma. Este mau vezo é que o Salvador censura e reprova, ensinando que devemos absolutamente abster-nos de jurar, quando nao o exige a necessidade.

h) o abuso de jurar

O juramento foi instituido por causa da fragilidade humana. Realmente, sua razao de ser está na malicia, pois revela de per si a inconstancia de quem jura, ou a obstinacao daquele que nos faz jurar, porquanto nao podemos leva-lo a crer de outra forma.

Isto nao obstante, a necessidade de jurar tem sua justificação.

Quando o Salvador diz: Seja vosso sim, vosso não, não" - Sua própria expressão dá claramente a entender que Ele só proibe o costume de se jurar em assuntos familiares e corriqueiros. Por certo, o sentido principal da advertencia de Nosso Senhor é que nao sejamos demasiado faceis para jurar, nem cedamos a qualquer propensão de faze-lo. Este é um ponto que se deve ensinar com frequencia, e inculcar aos ouvidos dos fieis.

Pois nao só pela autoridade das Sagradas Escrituras, como tambem pelo testemunho dos Santos Padres, temos provas de serem quase sem conta os males que resultam do exagerado costume de jurar.

No Livro do Eclesiastico esta escrito: "
Nao se acostume tua boca a jurar, porque isso traz ocasiao para muitas quedas". E no mesmo lugar: "O homem que jura muito, será cheio de iniquidade, e a desgraça nao se apartara de sua casa"

Mais explicaçoes sobre a materia, podemos encontra-las nos escritos de Sao Basílio e Santo Agostinho sobre a mentira.

Ate aqui se tratou do que o Preceito manda. Vejamos, doravante, o que ele proíbe.

Clausula proibitiva:
1. Perjurio

Proibido nos é tomar o Nome de Deus em vao. Evidentemente, grave pecado comete quem, no juramento, nao se deixa guiar pela reflexao, mas antes por temeraria leviandade. Mas que isto vem a ser ate um pecado gravissimo, declaram-no as palavras textuais: "Nao tomaras em vao o Nome do Senhor teu Deus". Indicam, por assim dizer, a razao por que esse pecado é tao funesto e abominavel; e por desacatar a majestade d'Aquele a quem reconhecemos como Nosso Deus e Senhor.

Este Preceito proibe, portanto, que se faça juramento falso.

Quem não recua de tamanho crime, como o de invocar a Deus como falsa testemunha, faz a Deus uma tremenda injuria, pois Lhe atira a pecha de ignorancia, julgando que Ele possa desconhecer a verdade, ou a de perversao e má fe, como se Ele se prontificasse a confirmar uma mentira com o Seu testemunho.

Fonte: Catecismo Romano

Mandamentos AQUI

segunda-feira, 19 de março de 2012

Solenidade de São José - Patrono Universal da Igreja


São José defendeu a Cristo e Sua Mãe Santíssima. Hoje defende a Igreja contra os combates do demônio. São José. Rogai por nós! Defendei-nos no combate!

sexta-feira, 16 de março de 2012

Significação de "Cristo"











1. No velho Testamento designa

a) reis, sacerdotes :

Ao nome de Jesus também se acrescentou o apelido de
"Cristo", cuja significação é "Ungido". Serve para designar uma dignidade e um ministério. Não é próprio de uma só categoria, mas é uma designação comum de várias funções. Na antiguidade, nossos pais chamavam de "cristos" aos sacerdotes e reis, porquanto Deus ordenara que fossem ungidos, em atenção à dignidade de seu ministério.

Sacerdotes são aqueles que, por meio de assíduas preces, recomendam o povo a Deus. São eles que oferecem sacrifícios a Deus, e aplicam pelo povo o poder de sua intercessão. Aos reis, porém, está confiado o governo dos povos. Seu dever primordial é salvaguardar a autoridade das leis, proteger a vida dos inocentes, e punir a audácia dos criminosos.

Ambos os ministérios são, pois, uma imagem da majestade de Deus, - na terra. Por isso, os que eram eleitos para a dignidade real ou sacerdotal, recebiam a unção do óleo santo

b) profetas

Era também costume ungirem-se os Profetas. Na qualidade de intérpretes e mensageiros de Deus imortal, eles revelavam os segredos do céu, e com salutares conselhos e predições do futuro nos exortavam à regeneração dos costumes.

2 - No novo testamento

O redentor foi ungido pelo Espírito Santo

Ora, quando veio a este mundo, Nosso Salvador Jesus Cristo tomou sobre Si o tríplice encargo e função de profeta, de sacerdote e de rei. Por esse motivo é que foi chamado "Cristo", e ungido para o empenho daqueles ministérios. Não o foi, contudo, por obra de nenhum mortal, mas pela virtude do Pai Celeste. Não o foi com uma unção de terrestre, mas de óleo espiritual, quando em Sua Alma santíssima se derramaram a graça, a plenitude e os dons do Espírito Santo, em tal superabundância que nenhuma outra criatura a poderia jamais comportar.

É o que muito bem exprime o Profeta, quando interpela o próprio Redentor: "Vós amastes a justiça, e aborrecestes a iniqüidade. Por isso Deus, o vosso Deus, vos ungiu com óleo de alegria na presença de vossos companheiros".

A mesma idéia, Isaías a exprime com muito mais clareza, na passagem seguinte: "O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque o Senhor Me ungiu, e Me enviou para pregar aos que são mansos".

a) como sumo profeta ... Jesus Cristo foi, portanto, o Profeta e Mestre supremo que nos ensinou a vontade de Deus, e cuja doutrina fez ao mundo conhecer o Pai Celestial. Cabe-lhe o nome de Profeta com maior glória e distinção, porquanto não passavam de discípulos Seus todos aqueles que [anteriormente] tiveram a honra desse nome, e que não foram enviados senão para anunciar o Profeta por excelência, que viria salvar todos os homens.

b) eterno sacerdote... Cristo foi também Sacerdote, não na ordem pela qual na Antiga Lei os sacerdotes procediam da tribo de Levi, mas por aquela que o profeta Davi exaltou em seu vaticínio: "Vós sois sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedec". Na epístola aos Hebreus, o Apóstolo explana detidamente o fundo desta passagem.

c) Eterno Rei...Reconhecemos, igualmente, que Cristo é Rei, não só como Deus, mas também enquanto Homem, participante de nossa natureza. De Sua dignidade real disse o Anjo: "Há de reinar eternamente na casa de Jacó, e Seu reino não terá fim".

cujo domínio é a Igreja..

Esse Reino de Cristo é espiritual e eterno. Começa na terra, e consuma-se no céu. É com admirável providência que Cristo presta os ofícios de Rei à Sua Igreja. Ele a governa; defende-a dos ataques e embustes do inimigo; prescreve-lhe leis; comunica-lhe santidade e justiça; proporciona-lhe, ainda por cima, força e meios de perseverar.

que abrange bons e maus..

Nos limites deste Reino, existem bons e maus. Por direito, fazem parte dele todos os homens. No entanto, aqueles que levam uma vida pura e santa, segundo os Seus Mandamentos, chegam a sentir, mais do que os outros, a suma bondade e benevolência de nosso Rei.

e também o mundo inteiro.

Este Reino, porém, não Lhe foi adjudicado por direito de herança ou sucessão humana, ainda que Cristo descendesse dos reis mais ilustres. Era Rei, porque Deus reuniu em Sua humanidade tudo o que a natureza humana podia comportar de poder, grandeza e dignidade. Entregou-Lhe, portanto, o governo do mundo inteiro. E Cristo já começou a dominar, mas só no dia do Juízo é que todas as coisas se curvarão plena e incondicionalmente, à Sua autoridade.


Estudos do segundo Artigo do Credo:


Fonte: Catecismo Romano.

Depois veremos: Um só Seu Filho - Jesus Cristo é Filho de Deus,

Primeiro Artigo AQUI

quarta-feira, 14 de março de 2012

Confessando Crianças.


Por Padre Leo Trese

14,15

O resto da correspondência terá de esperar. É o momento de ir confessar os garotos e para isso precisarei de uma hora e quinze, pois são perto de quarenta.

Dois minutos para cada um não me parecem muitos, mas ainda me posso lembrar do tempo em que perdia a paciência quando levava uma hora a confessar por volta de sessenta.

Era uma época em que celebrava a Missa com tanta velocidade que quase fazia vento com as mãos ao dizer o Senhor esteja convosco; em que, ao dar Comunhão, dizia o Corpo de Cristo de qualquer jeito; em que as paredes do confessionário estremeciam como um tambor com as minhas entradas e saídas nas atarefadas tardes de sábado.

Talvez seja um pouco exagerado, mas as gerações de hoje me consideraria um verdadeiro Fittipaldi. Nunca compreenderei como fui induzido pelo demônio a admitir que havia algo de admirável na pressa. Mas é fácil compreender por que queria ele que eu pensasse assim. Satanás não é capaz de impedir o fluxo de graça que os Sacramentos derramam, mas tenta neutralizar uma parte da sua fecundidade, fazendo com que sejam administrados por mãos descuidadas.

As confissões, por exemplo. Não sei quando percebi pela primeira vez que não devia ser como uma máquina expedidora de Sacramentos; talvez tenha sido por uma chispa de graça na meditação da manhã. De qualquer modo, iluminou-se em mim a idéia de que " médico de almas" e "guia espiritual" são mais de que meras frases de uma prédica sobre o Sacramento da Penitencia.

Evidentemente, nunca deixei de admoestar com severidade um penitente que faltasse sistematicamente à Missa ou que tivesse andado com a mulher do próximo. Mas, quando se tratava de almas já de si piedosas, era fácil ouvi-las numa meia sonolencia, enquanto perguntava a mim mesmo se chegaria em casa a tempo de ouvir a transmissão de um jogo de futebol ou pensava nova idéia para o próximo sermão dominical.

Enquanto me ajoelho diante do altar e recito o Vinde Espírito Santo, penso se não haverá no céu almas que goza de uma grau a menos de glória por se terem confessado comigo. E fico com calafrios ao ocorrer-me que talvez possa haver alguém que se tenha condenado por eu ter cochilado quando precisava ter lhe dito umas palavras de salvação.

Um movimento de passos as minhas costas indica-me que os meninos me estão esperando. Mais uns segundos, enquanto renovo a minha resolução de dar importancia aos seus pecadinhos. Atrás de mim estão quarenta santos em potencial. A graça de Deus moldará as suas almas, mas a minha mão tem que sustentar o conzel que lhes dará forma. Nunca tão eloquentemente como agora pode um coração de um sacerdote falar e ser ouvido pelo coração de uma criança.

Dez palavras agora valem mais do que cem ditas na aula ou mil no púlpito.

Esqueceram diariamente as orações da manhã? Uma palavra sussurrada sobre o valor do oferecimento das obras matinal, uma visão rápida de um dia desperdiçado, como um dever de casa feito com uma esferográfica sem tinta. Furtos infantis? A infancia pobre de Jesus, sem brinquedos nem bombons, será o melhor remédio. Irritam-se? Então era só brincadeira que voce dizia a Jesus, na Via-Sacra, que gostaria de ajudá-lo a levar a cruz?

A primeira vez que comecei a dar conselhos aos pequenos, a Irmã afligiu-se....Demoravam tanto a confessar-se (quase dois minutos) que achou que deviam estar-se enganado no ato de contrição. Mas saíam tão sorridentes que não pode resistir a curiosidade.

Perguntou a uma menininha o que tinha feito durante tanto tempo. "O padre esteve contando-me uma história", foi a resposta. Agora, enquanto me soergo e olho pelas cortinas, vem-me ao pensamento que talvez a piedade estéril e anemica dos "bons catolicos" se deva as confissões rotineiras e que se habituaram desde crianças.

Sorrio na escuridão, imaginando o choque que experimentaria uma dessas penitentes que se acusam todas as semanas de "distrações nas orações", se lhe perguntasse como quem não quer nada: "Gostaria de ser santa?" Talvez o tente no próximo sábado.

Deve haver sacerdotes que recomendam a oração mental aos seus penitentes, mas eu nunca fui um desses. Agora penso nisso, talvez seja uma boa idéia. Pergunto-me se haverá algum livro que se adapte a vida dos leigos e que possa fazer por eles o que as meditações de Chaignon fazem pelos padres.

Um livro assim, baseados em princípios sólidos, ajudar-me-ia a ir eliminando escandalos e depois se envolvem em injustiças sociais, discriminações raciais ou intrigas políticas.

Mas vejamos, Leo! Não são as confissões das crianças que te ocupam agora? Enquanto abro a porta do confessionário, faço um último esforço por afastar do meu espírito qualquer outra preocupação.

Um dos garotos dirá: "Fui ao "banheiro" na rua" . E os atos de contrição serão variados e confusos: "Estou muito pouco triste pelos meus pecados" ou "Preza-me Senhor de Vos ter ofendido".

Contudo, no meio de tudo isso, nunca me sentirei tão unido ao meu Mestre como neste momento.

Cristo e seus pequeninos! Senhor, ajudai-me a levá-los até junto de Vós.

Fonte: Vaso de Argila

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terça-feira, 13 de março de 2012

Rodolfo, o pombo cristão


Quem me conhece sabe como gosto de ler, e esta é a razão deste Blog, levar aos leitores um pouquinho do que leio. Tenho lido textos maravilhosos de um irmão em Cristo, Alexandre Core -, que recebeu de Deus, nosso Pai, esta graça especial de escrever bem e nos prender à leitura, sempre nos dando a chance de tirar algo de bom de cada uma delas. Trouxe então um texto de sua autoria. Gostaria que lessem e conhecessem o trabalho deste tão maravilhoso escritor, que é um filho de Deus e servo de nossa Mãe Santíssima, o que muito nos honra.



O Herege

Por Alexandre Core - Blog o Apanágio dos Néscios


"Rodolfo era um pombo que vivia no telhado (forro) da Igreja Matriz de São João do Quentão. Gabava-se de ser todo branco, de não ter nenhuma pena de outra cor. Tão branco que era idêntico à pomba do vitral da igreja que representa o Espírito Santo. Quando a luz do Sol iluminava os vitrais um pouco antes das missas da manhã e da tarde, o Rodolfo sempre resolvia fazer o seu vôo exibicionista pousando em uma das cadeiras junto ao altar. Essa repetição de estrelismo já estava atraindo a atenção dos fiéis que agora levavam suas máquinas fotográficas para a igreja na intenção de registrar o espetáculo proporcionado pelo pombo santo quase todos os dias.

Rodolfo era vaidoso. Costumava gastar um tempão arrumando as penas antes de cada missa (ou deveria dizer, apresentação?). O Pe. Henrique já começava a ficar incomodado com as atitudes do exibido pombo. Percebia que a igreja sempre começava a encher de “fiéis” pouco antes do horário das missas, mas tão logo o Rodolfo fazia a sua aparição – considerada até por alguns respeitados leigos da comunidade como uma manifestação do próprio Espírito Santo – grande parte ia embora sem ficar para a missa . Cada qual se contentava em gravar o vôo do pombo em sua câmera digital e depois de um sinal da cruz feito sem vontade e de uma genuflexão tímida já feita quase na escadaria da igreja, voltar pra casa correndo para colocar o vídeo no Youtube.

O Pe. Henrique já havia percebido que de santo o Rodolfo não tinha nada. Além de estar atrapalhando o bom andamento das missas, havia toda uma série de outras coisas que o pombo fazia que, muito longe de serem manifestações do Espírito Santo, revelavam-se como trabalho digno de um verdadeiro espírito de porco. A começar que o Rodolfo não escolhia lugar para fazer as suas necessidades e, desse modo, não era difícil encontrar sinais de sua passagem pelos bancos da igreja. Da mesma forma, ele não tinha o controle sobre o rumo de suas penas, o que certa vez ocasionou um incidente desagradável com a Dona Gertrudes que bem no meio do “Hosana” engasgou com uma pena vinda sabe-se lá de onde. Por sorte foi levada para o hospital que, graças a Providência Divina, fica exatamente do outro lado da rua em frente a igreja. O inconveniente Rodolfo também não escolhia hora para arrulhar. Podia ser no meio da Homilia do Pe. Henrique ou mesmo durante a Comunhão. E o seu som, amplificado pela ótima acústica da igreja, transformava o pombo no próprio Godzilla de tão alto que era possível ouvi-lo.

O Pe. Henrique aceitava com uma certa dose de resignação todo aquele martírio que o Rodolfo lhe fazia passar, mas não sem ter tentado se livrar do herege. Tentou armadilhas de todos os tipos, gel para que o pombo achasse os locais preferidos de pouso gosmentos e não retornasse mais e até apitos para tentar espantá-lo (fora do horário das missas, claro!). Mas nada disso deu resultado. O Rodolfo continuava se sentindo o próprio Bispo – talvez até o Cardeal – já que era superior ao Pe. Henrique e mandava na paróquia.

Foi então que um leigo integrante do Grupo de Encontros de Casais com Cristo sugeriu a um cansado Pe. Henrique uma solução, digamos assim…, não muito cristã. O bondoso padre, que, realmente, nunca desejou mal à criatura alguma, a princípio se recusou a colocar aquela idéia em prática; mas, como cada dia que passava estava ainda mais difícil conviver com o Rodolfo, reconsiderou e decidiu fazer um teste.

Então, numa chuvosa manhã de segunda-feira, o Rodolfo que ainda dormia seu sono de pop-star católico cansado de todas as apresentações que fez no domingo – incluindo dezenas de fotografias com autógrafo já que foi dia de batizado – foi acordado por uma agitação atípica na secretaria da igreja. Sem se mexer muito, esticou a cabeça por cima do ombro de Santo Expedito e ficou acompanhando o que estava acontecendo na sala. Conseguiu ver o Pe. Henrique, o Jeremias (jardineiro da paróquia) e a Dona Rita (responsável pelo Apostolado da Oração) conversando. A Dona Rita só conseguia repetir: – Ah, mas coitado do pombinho, Pe. Henrique! – enquanto o pobre padre tentava justificar aquilo garantindo para a velha senhora que o santo do Rodolfo não sairia ferido.

O Rodolfo sentiu um frio na espinha com o que ouviu e quase desmaiou logo em seguida com o que viu. A próxima tentativa do Pe. Henrique de acabar com o seu reinado na igreja foi retirada pelo Jeremias de dentro de uma grande gaiola que estava no chão da secretaria. Quando o bicho estava no braço do jardineiro, esticou as asas e elas praticamente tocaram as paredes opostas da sala de tão grandes que eram. Nesse momento o Rodolfo pensou até em fazer uma promessa pra Santo Expedito, mas o medo foi maior e ele bateu asas para junto de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição que ficava mais próxima do altar e longe daquela visão aterradora"

domingo, 11 de março de 2012

Chesterton


O Deus na caverna

"[..]Onipotência e impotência, ou divindade e infância, criam definitivamente uma espécie de epigrama que um milhão de repetições não conseguem transformar numa banalidade. Não é nenhum exagero chama-lo de único. Belém é decididamente um lugar onde os extremos se encontram.

Aqui começa, nem é preciso dize-lo, outra poderosa influência para a humanização da cristandade. Se o mundo quisesse o que se chama de um aspecto controverso do cristianismo, provavelmente escolheria o Natal. Todavia, o Natal está obviamente ligado ao que se supõe ser um aspecto controverso ( eu jamais consegui, em estágio algum de minhas avaliações, imaginar por quê): o respeito prestado à abençoada Virgem..

Na minha infância uma geração mais puritana levantou objeções contra a estátua sobre a minha igreja paroquial representando a Virgem e o Menino. Depois de muita controvérsia, concordaram em tirar a criança. Ter-se-ia até a impressão de que isso era mariolatria ainda mais deturpada, a menos que a mãe fosse considerada menos perigosa quando despojada de uma espécie de arma. Mas a dificuldade prática é também uma parábola.

Não se pode cortar da estátua de uma mãe todo o cenário de um recém-nascido. Da mesma forma, não se pode manter a ideia de uma criança recém-nascida suspensa no vazio, ou pensar nela sem pensar em sua mãe. Não se pode visitar a criança sem visitar a mãe, não se pode, na vida humana normal, abordar a criança a não ser por intermédio da mãe. Se nós simplesmente quisermos pensar nesse aspecto da vida de Cristo, a outra ideia é consequência como é uma consequência na história.

Devemos excluir Cristo do Natal, ou o Natal de Cristo: ou então devemos admitir, mesmo que seja apenas como admitimos num quadro antigo, que aquelas duas cabeças sagradas estão próximos demais para que suas auréolas não se misturem ou se sobreponham"

Fonte: O Homem Eterno - pag 181

O problema da Liberdade

Por Arcebispo Fulton Sheen

‎"A indiferença ao Cristo não termina e nem pode terminar na ausência do Cristo; acaba no Anticristo. Foi assim no começo; é assim agora, e será assim até o fim. ensinaram a Europa a cerrar o punho e a cuspir sempre que Seu nome é ouvido; não O podem deixar só. Eles não são precisamente homens sem religião; são homens contra a religião; não mostram frieza para com Deus. entregam-se ao ateísmo com todo o ardor.

Donde tiram eles energia para esse ódio? Donde tal entusiasmo pelo ateísmo? Como conseguem tal apostolado pelo Anticristo, tantas espadas para a pilhagem das coisas de Deus e assassínio das mulheres de Deus? Donde tirou a Rússia esse ímpeto para implantar em Valência, pela primeira vez na história do mundo ocidental, um regime declaradamente contra Deus? Tirou-o da realidade de Deus. Os homens não se entusiasmam por fantasmas. Os homens não saem a campo para dar combate às ficções da imaginação nem a mortos. Odeiam, entretanto, os vivos. Rejeitando-O, estão eles prestando-Lhe testemunho. Ninguém odeia César, Napoleão ou Genghis Khan. E por que não? Porque morre o ódio quando perece o objeto odiado. Os homens já não cerram mais os punhos contra um Bismarck, nem montam mais guarda ao túmulo de um Nélson. Mas cerram ainda os punhos contra o Cristo. Dizem que Ele está morto, mas põem sentinelas em Seu túmulo. Dizem que Ele é inofensivo enquanto criança, contudo Herodes manda os seus soldados matar a Criança indefesa.

A verdade é que eles odeiam porque creem - não com a fé dos redimidos, mas com a fé dos condenados."

Arcebispo Fulton Sheen. O problema da Liberdade. Editora Agir, 1962 pag. 15