terça-feira, 17 de abril de 2012

A Missa é sagrada, e este terrível abuso?

"Na Última Ceia, Nosso Senhor estabeleceu a s cerimônias da Nova Aliança, ou Nova Lei, também denominada Santa Missa, ou seja:
1 - Com o Lava-pés, a preparação para a consagração;
2 - Com a benção do pão e do vinho, a própria consagração da oferenda;
3 - Com a distribuição do pão da vida e do sangue da salvação, a comunhão.

Além disso, na última Ceia Nosso Senhor instituiu dois sacramentos:
1 - a Eucaristia; e
2 - a Ordem.

Portanto, A Eucaristia, sob as espécies de pão e de vinho, precedeu a imolação de Cristo na Cruz para sustentar a fé dos discípulos Assim como a Eucaristia precedeu a imolação de Cristo na Cruz, assim o sacrifício da Missa devia seguir e perpetuar a imolação do Calvário, como sinal de que o sacrifício de Cristo foi, e sempre será, o único sacrifício propiciatório, instituído no Cenáculo, consumado no Calvário e perpetuado nos nossos altares.

Na oblação da Cruz, tudo nos é sensível e patente: a escolha da vítima, sua oferta a Deus pelas mãos do sacerdote eterno e sua imolação sangrenta. Esta oblação encerra, ainda, o holocausto de adoração, a hóstia dos pacíficos e a expiação dos pecados. S. Paulo conclui não ser mais necessário que Jesus Cristo reitere seu sacrifício sangrento para a remissão dos pecados, como se reiteravam os sacrifícios da lei mosaica, bastando somente que os atos repetidos desta oblação, perpetuada na Missa, apliquem seu valor e seus méritos a cada fiel em particular.

Nos ensina o Concílio de Trento: "Ainda que bastasse Nosso Senhor se oferecer uma só vez ao seu Pai, unindo-se no altar da Cruz para realizar a redenção eterna, Ele quis deixar à sua Igreja um sacrifício visível, tal como requer a natureza dos homens, pelo qual se aplicasse, de geração em geração, para a remissão dos pecados, a virtude deste sangrento sacrifício, que devia cumprir-se somente uma vez na Cruz; na última ceia, na mesma noite em que foi entregue, declarando-se sacerdote eterno, conforme a ordem de Melquisedeque, Ele ofereceu, a Deus Pai, seu corpo e seu sangue, sob as espécies de pão e de vinho, os deu aos seus apóstolos, a quem os tornou, então, sacerdotes do Novo Testamento, com estas palavras: Fazei isto em memória de mim, investindo-os, assim, e aos seus sucessores, no sacerdócio, para que oferecessem a mesma hóstia" (Sessão XXII, I).

O sacrifício da Missa foi instituído, portanto, para nos aplicar o preço do sangue derramado na
Cruz, para tornar a oblação única de Jesus Cristo, eficaz e proveitosa para cada um de nós, e para nos comunicar, pela sua própria virtude, o mérito geral e superabundante da fé e da penitência que conduzem aos sacramentos, nos quais aperfeiçoamos a justificação que a graça do altar começou"- (Catecismo da Santa Missa)

Sabendo disso, nos diz João Paulo II:

"De quanto fica dito, compreende-se a grande responsabilidade que têm sobretudo os sacerdotes na celebração eucarística, à qual presidem in persona Christi, assegurando um testemunho e um serviço de comunhão não só à comunidade que participa directamente na celebração, mas também à Igreja universal, sempre mencionada na Eucaristia.

Temos a lamentar, infelizmente, que sobretudo a partir dos anos da reforma litúrgica pós-conciliar, por um ambíguo sentido de criatividade e adaptação, não faltaram abusos, que foram motivo de sofrimento para muitos. Uma certa reacção contra o « formalismo » levou alguns, especialmente em determinadas regiões, a considerarem não obrigatórias as « formas » escolhidas pela grande tradição litúrgica da Igreja e do seu magistério e a introduzirem inovações não autorizadas e muitas vezes completamente impróprias.

Por isso, sinto o dever de fazer um veemente apelo para que as normas litúrgicas sejam observadas, com grande fidelidade, na celebração eucarística. Constituem uma expressão concreta da autêntica eclesialidade da Eucaristia; tal é o seu sentido mais profundo. A liturgia nunca é propriedade privada de alguém, nem do celebrante, nem da comunidade onde são celebrados os santos mistérios.

O apóstolo Paulo teve de dirigir palavras àsperas à comunidade de Corinto pelas falhas graves na sua celebração eucarística, que tinham dado origem a divisões (skísmata) e à formação de facções ('airéseis) (cf. 1 Cor 11, 17-34). Actualmente também deveria ser redescoberta e valorizada a obediência às normas litúrgicas como reflexo e testemunho da Igreja, una e universal, que se torna presente em cada celebração da Eucaristia.

O sacerdote, que celebra fielmente a Missa segundo as normas litúrgicas, e a comunidade, que às mesmas adere, demonstram de modo silencioso mas expressivo o seu amor à Igreja.

Precisamente para reforçar este sentido profundo das normas litúrgicas, pedi aos dicastérios competentes da Cúria Romana que preparem, sobre este tema de grande importância, um documento específico, incluindo também referências de carácter jurídico. A ninguém é permitido aviltar este mistério que está confiado às nossas mãos: é demasiado grande para que alguém possa permitir-se de tratá-lo a seu livre arbítrio, não respeitando o seu carácter sagrado nem a sua dimensão universal" - ( Ecclesia de Eucharistia).(grifos meus)


Vou postar aqui um vídeo; vejam se esta bagunça tem lugar dentro do santo sacrifício de Cristo, nosso Deus e Senhor -




Os direitos da Religião


Qual a relação entre a religião e os negócios públicos?

A esta pergunta foram dadas duas respostas diversas no século passado, ambas erradas.

1 - a religião é estranha aos negócios públicos
2 - a religião é inimiga dos negócios públicos.

1 - A época do Liberalismo julgou ser possível servir a um tempo a Deus e a Mammon. A religião era tida como uma espécie de luxo sentimental a que o homem se podia apegar se assim o quisesse, mas que devia ser mantida num compartimento separado da ordem econômica e política. O homem poderia trabalhar durante a semana e se por um acaso quisesse participar da Igreja , no dia de seu repouso, isso era por sua conta. Mas jamais, de forma alguma, deveria levar a "igreja" para o trabalho ou para a mesa de conversas. A sua religião era algo particular e os negócios eram públicos.

Verdade é que se poderia debater qualquer assunto, falar de qualquer pessoa, mas não poderia se discutir religião. Quantas vezes se ouviu: " religião não se discute, cada um tem a sua". A política e a economia eram terrenos em que cada qual devia decidir por si e qualquer tentativa da Igreja de sugerir princípios morais que governassem esses domínios era encarada como uma grande intromissão.

Como diz o arcebispo Fulton Sheen: " Criou-se assim uma atitude mental em que se supunha que o grande ato redentor do Calvário não tinha significação alguma para a ordem social. A alma convertia-se num insignificante subúrbio da cidade chamado negócio. Se a política e a economia não interferiam na religião, por que deveria a religião interferir em ambas? A liberdade religiosa era assim adquirida na suposição de que devia abster-se da ordem secular"

A religião, portanto, deveria ficar em um canto isolado, delimitado, fora de qualquer contato com o temporal, e qualquer tentativa que fizesse de introduzir qualquer valor moral e ético nos negócios e na vida, eram consideradas uma intromissão abusiva e condenada, como se a virtude da justiça, da verdade, da honestidade fossem algo do culto, e não de uma fábrica. Até se aceitava que a religião mostrasse ao homem o seu fim, toleravam este ensinamento, mas que ela não viesse dizer como se chegar a ele.

De certo modo, permitiam que a religião fizesse o que eles, os homens da política e dos negócios não conseguiam faze-lo. Aqui entrava o serviço aos aleijados, aos indigentes, o serviço de ambulância aos pobres. Onde eles não chegavam, por não terem meios de faze-lo, que a Igreja o fizesse, desde que ficasse calada.

Com o avanço da ciência, chegaram a conclusão que nem este papel a religião deveria ter. Desse modo a religião era relegada para um lugar onde ele os homens poderiam repousar, depois de terem realizados seus negócios, nada mais que isso. Nos diz ainda Fulton Sheen : " Chegava-se quase a pensar que o homem que ia à Igreja era diferente do homem que ia ao trabalho, ou que o homem, como criatura política e econômica, tinha escapado de algum modo miraculoso à queda do homem". E assim houve o divórcio entre a religião e a política.

2 - Por conta deste afastamento entre religião e o mundo dos negócios, deu-se o que vemos hoje: a religião é considerada inimiga dos negócios públicos. O que tem causado um grande dano a nossa sociedade. Na prática, dizer que a religião é inimiga do negócios públicos é implantar a anti-religião, deixando fora valores indispensáveis para que qualquer sociedade sobreviva na ordem , na justiça, na caridade e na paz. Retirar de cena estes valores que pertencem à religião, é como se tirasse a alma fora do corpo. Sem ela, não há vida, sem religião, não há valores elevados para guiar o homem, ou seja, é o caos.

Nos diz Fulton Sheen: " A ordem secular nunca vive no vácuo; nem mesmo neutra pode ser; se os cidadãos de um Estado abandonaram a religião e o seu dever de dar a Deus que a Deus pertence, imediatamente julgará César que até Deus recebe Sua autoridade de César. É então permitido a qualquer propagandista barato de Moscou ou Berlim, pregar o seu ateísmo ou seu racismo, enquanto o homem de Deus que prega a justiça e a caridade é tido como um inútil intruso. O ódio de classe é mau fruto do desprezo da justiça; a desonestidade em política é a triste herança do desprezo da justiça; o comunismo na vida nacional é o resultado do desprezo da redenção e do amor fraterno"

"O mesmo mundo que há vinte anos aceitava ser a religião desligada da economia e da política, é o mundo que hoje hostiliza a religião. Não é bem porque a violência, o ateísmo, o racismo sejam consequências ao declínio da religião, como o castigo se segue ao ato de desobediência; é antes porque são eles inseparáveis, como um lírio podre e seu desagradável odor, ou a semeadura e a colheita"

Se o camponês não plantar trigo, não ficará estéril seu campo no outono; cobri-lo-ão as ervas daninhas. Deixai os homens crescer sem cuidarem se sua alma pertence a Deus ou a César, e, antes que eles saibam, César os possuirá de corpo e alma. Chama-se isso totalitarismo ou teoria Estatal, que diz que o homem pertence ao estado. Tal regime deve necessariamente perseguir a religião, pois para possuir o homem ele tem de desprezar a religião que afirma que o homem tem direitos independentes do Estado.

"Em princípio, uma filosofia totalitária que nega o valor à pessoa humana fora da raça ou da classe, é necessariamente anti-religiosa. O totalitarismo tem de agir assim se quiser sobreviver, pois nunca poderá possuir inteiramente o homem enquanto não alijar a Igreja, que diz que o homem não pertence inteiramente ao Estado. A Igreja opõe-se a tal absorção do homem pelo totalitarismo e por esta razão é perseguida. Uma vez que o Estado inclui a religião sob a política, toda e qualquer atividade religiosa da parte da Igreja passa a ser encarada como uma interferência política"


Ninguém, nenhum governo, nenhuma pessoa pode dispor da alma do homem, como se ele fosse um objeto a ser usado como meio para se chegar ao fim de suas loucas ideias. Cabe a Igreja dizer a ele seu valor e é exatamente o que ela faz e fez ao longo de sua história. Exatamente por isso, porque não permite que ele seja um instrumento do Estado por conta de sua semelhança com o Criador, por conta de sua dignidade de filho de Deus, que ela é continuamente perseguida, rechaçada e escarnecida. Enquanto houver quem queira usurpar o lugar de Deus haverá perseguição a Seu Cristo e aos seus.

Quanto mais insistir a Igreja em seu direito à alma do homem tanto mais será perseguida. César crucificará o Cristo sempre que César julgar que ele próprio é Deus"

Baseado no livro: O problema da Liberdade - de Fulton Sheen

Caridade


Por Padre Leo Trese

14,30

Terminaram as confissões das crianças, e o ônibus da escola espera com o motor ligado a preciosa carga, ruidosa e inquieta. Enquanto volto ao trabalho de abrir a correspondencia, o envelope já familiar da Associação das Missões de São Papagus olha para mim como cachorrinho abanando a cauda.

Levará um afago na cabeça ou um pontapé? Possivelmente, o afago. Não há dúvida de que quase todos os pedidos que terminem com um "vosso em Cristo" farão sair ao menos um dólar do bolso de um sacerdote.

Mas a Associação de São Papagus é um pouco diferente. Tem aqui no país e lá fora várias centenas de missionários que precisam de igrejas e de auxílio para a subsistência de freiras e catequistas, e de fundos para hospitais e dispensários. Contam com um pessoal, mas precisam, além disso, de meios para que esse pessoal renda.

Leio o último folheto que acabam de mandar-me, em que descrevem as suas ambiciosas tentativas na batalha pela conquista das almas, e experimento no meu íntimo um sentimento de vergonha ao pensar, confortavelmente instalado no meu escritório, como é fácil dedicar-se a almas que não opõem resistência alguma em serem salvas.

A vergonha chega ainda mais fundo. Tem as suas raízes na minha persistente obstinação em fechar os ouvidos às palavras do Senhor: "Vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e depois vem e segue-me".

A sua voz é suave como a brisa, mas Ele quer ser escutado. Não possso alegar ignorancia ou inadivertencia quanto a necessidade de desapego dos bens deste mundo. A fórmula evangélica de perfeição é bastante simples e clara. Se a ignoro, o risco é todo meu.

É claro que não fiz voto de pobreza. Mas Cristo não fala de votos. Fala de nos conformarmos voluntária e cordialmente com Ele. É também claro que poderia ir para o céu limitando-me a observar os Mandamentos, tal como Cristo disse. Mas eu não me ordenei apenas para alcançar o céu; poderia cumprir esse mínimo sendo um pedreiro com mulher e filhos ou outra coisa qualquer. Preferi um lugar que apontava para uma mira mais alta: um certo grau de santidade, um certo grau de amor e intimidade com Cristo.

"Vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres". Tal como o refrão de Corvo de Poe, estas palavras ressoam continuamente aos meus ouvidos, enquanto vejo a lista das necessidades dos missionários. Com três mil dólares poderiam construir uma capela. Três mil dólares foi exatamente a quantia que paguei por uma casa na praia, que não chego a ocupar nem quinze dias por ano, enquanto Cristo espera em Uganda por um teto e um altar.

Para custear a bolsa de estudos de um seminarista indígena, bastariam quatrocentos dólares; foi mais ou menos o que gastei com acessórios para o meu novo carro. Agora vou sentado em estofamento de seda e escuto deliciado Bing Crosby, enquanto de Dacca me mendigam auxílio para uma vocação.

Duzentos dólares seriam suficientes para abastecer um dispensário em Tanganica; foi o que paguei por uma máquina de projetar, um brinquedo caro de que precisava tanto como um pato precisa de guarda-chuva. Bem , mas posso projetar slides coloridos, ainda que os missionários andem faltos de quinino e penicilina.

Não julgo ser cobiçoso. Pelo menos nunca me ocorreu acusar-me de avareza na confissão. Mas o demônio tem seus métodos próprios para enredar-me no cifrão do dólar. Tenho que garantir a minha velhice: "não quero ser um peso para ninguém". Com isso faço um corte de 90% no valor da parábola de Cristo sobre os lírios do campo. E vejo a minha conta corrente no banco engordar de dia para dia.

Depois, está a viagem a Europa, para a qual venho poupando há tanto tempo. Quero conhecer Lourdes, Fátima e Roma antes de morrer. Talvez Nossa Senhora viesse a ser mais venerada se se pudesse dedicar-lhe uma capelinha alguma aldeola chinesa - mas nesse caso...adeus viagem a Europa.

Poderia esperar e contentar-me com o sonho de ver a Europa do céu, que é um mirante nitidamente superior, mas a gente tambem precisa ter algum projeto nesta terra e divertir-se um pouco. Pelo menos se se quer tomar o Evangelho com um certo jogo de cintura...

"Vai e vende tudo o que tens e dá...

Não haverá ninguém que mude o disco, por favor?

Suponhamos que gosto de apalpar a carteira, bem recheada, quase tanto como um pai de família que tem de alimentar seis crianças esfomeadas; suponhamos que me encho de satisfação jogando na mesa do restaurante uma nota de vinte dólares para pagar o jantar, enquanto acaricio entre os dedos um cálice de licor; suponhamos que desfruto andando de carro mais de que de onibus; não há pecado algum em nada disso.

Não estou acumulando nenhuma fortuna. O meu testamento não escandalizará ninguém quando o abrirem. Nunca deixo de atender pedidos de dinheiro como estes. Contribuo sempre com um dólar, as vezes com dois e até cinco.

"As migalhas que caem das mesas dos ricos..."

Que é isso?

Uma nova voz que se junta as palavras penetrantes que tenho tentado afogar? É o Evangelho que procura encurralar-me, sem me deixar um cantinho livre onde me possa defender: "Vai, vende tudo o que tens..., e tereis um tesouro no céu...,vem e segue-me...,não tecem nem fiam..., recebereis cem por um..."

Está certo! Está certo! Sei que não posso dizer ao Evangelho: "Cala-te".

Tentarei fazer-lhe caso. Talvez algum dia me surpreenda gratamente com o resultado

Fonte: Vaso de Argila

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segunda-feira, 16 de abril de 2012

Aniversário do Papa Bento XVI


"Tu és Pedro e sobre ti edificarei a minha Igreja, e as portas do Inferno não prevalecerão sobre Ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus e tudo o que ligares na Terra será ligado no Céu e tudo o que desligares na Terra será desligado no Céu" (Mt 16, 18 - 19)

Parabéns, Santo Padre! Tua ortodoxia, teu amor a Cristo e à Igreja me fascinam! Vida longa a Pedro!


"Uma das regras fundamentais para o discernimento espiritual poderia ser a seguinte: onde falta a alegria, onde morre o humor, aí não está o Espírito Santo, o Espírito de Jesus Cristo. A alegria é um sinal da graça. Quem está profundamente sereno, quem sofreu sem por isso perder a alegria, esse não está longe do Deus do Evangelho, do Espírito de Deus, que é o Espírito da eterna alegria" ( Bento XVI)

domingo, 15 de abril de 2012

Divina Misericórdia


"Confitemini Domino quoniam bonus, quoniam in aeternum misericordia eius".

"Louvai o Senhor, porque Ele é bom, porque é eterno o Seu amor" (Sl 118, 1).

"Assim canta a Igreja na Oitava de Páscoa, como que recolhendo dos lábios de Cristo estas palavras do Salmo, dos lábios de Cristo ressuscitado, que no Cenáculo traz o grande anúncio da misericórdia divina e confia aos apóstolos o seu ministério: "A paz seja convosco! Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós... Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos" (Jo 20, 21-23).

Antes de pronunciar estas palavras, Jesus mostra as mãos e o lado. Isto é, indica as feridas da Paixão, sobretudo a chaga do coração, fonte onde nasce a grande onda de misericórdia que inunda a humanidade. Daquele Coração Santa Faustina Kowalska, verá partir dois fachos de luz que iluminam o mundo: "Os dois raios, explicou-lhe certa vez o próprio Jesus representam o sangue e a água" (Diário, Libreria Editrice Vaticana, pág. 132).

2. Sangue e água! O pensamento corre rumo ao testemunho do evangelista João que, quando um soldado no Calvário atingiu com a lança o lado de Cristo, vê jorrar dali "sangue e água" (cf. Jo 19, 34). E se o sangue evoca o sacrifício da cruz e o dom eucarístico, a água, na simbologia joanina, recorda não só o baptismo, mas também o dom do Espírito Santo (cf. Jo 3, 5; 4, 14; 7, 37-39).

A misericórdia divina atinge os homens através do Coração de Cristo crucificado: "Minha filha, dize que sou o Amor e a Misericórdia em pessoa", pedirá Jesus à santa Faustina (Diário, pág. 374).

Cristo derrama esta misericórdia sobre a humanidade mediante o envio do Espírito que, na Trindade, é a Pessoa-Amor. E porventura não é a misericórdia o "segundo nome" do amor (cf. Dives in misericordia, 7), cultuado no seu aspecto mais profundo e terno, na sua atitude de cuidar de toda a necessidade, sobretudo na sua imensa capacidade de perdão?

Jesus disse à Irmã Faustina: "A humanidade não encontrará paz, enquanto não se voltar com confiança para a misericórdia divina" (Diário, pág. 132).

O que nos trarão os anos que estão diante de nós? Como será o futuro do homem sobre a terra? A nós não é dado sabê-lo. Contudo, é certo que ao lado de novos progressos não faltarão, infelizmente, experiências dolorosas. Mas a luz da misericórdia divina, que o Senhor quis como que entregar de novo ao mundo através do carisma da Irmã Faustina, iluminará o caminho dos homens do terceiro milénio.

Assim como os Apóstolos outrora, é necessário porém que também a humanidade de hoje acolha no cenáculo da história Cristo ressuscitado, que mostra as feridas da sua crucifixão e repete: A paz seja convosco! É preciso que a humanidade se deixe atingir e penetrar pelo Espírito que Cristo ressuscitado lhe dá. É o Espírito que cura as feridas do coração, abate as barreiras que nos separam de Deus e nos dividem entre nós, restitui ao mesmo tempo a alegria do amor do Pai e a da unidade fraterna.

É importante, então, que acolhamos inteiramente a mensagem que nos vem da palavra de Deus neste segundo Domingo de Páscoa, que de agora em diante na Igreja inteira tomará o nome de "Domingo da Divina Misericórdia".

Nas diversas leituras, a liturgia parece traçar o caminho da misericórdia que, enquanto reconstrói a relação de cada um com Deus, suscita também entre os homens novas relações de solidariedade fraterna. Cristo ensinou-nos que "o homem não só recebe e experimenta a misericórdia de Deus, mas é também chamado a "ter misericórdia" para com os demais. "Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia" (Mt 5, 7)" (Dives in misericordia, 14).

Depois, Ele indicou-nos as múltiplas vias da misericórdia, que não só perdoa os pecados, mas vai também ao encontro de todas as necessidades dos homens. Jesus inclinou-se sobre toda a miséria humana, material e espiritual.

A sua mensagem de misericórdia continua a alcançar-nos através do gesto das suas mãos estendidas rumo ao homem que sofre. Foi assim que O viu e testemunhou aos homens de todos os continentes a santa Faustina que, escondida no convento de Lagiewniki em Cracóvia, fez da sua existência um cântico à misericórdia: Misericordias Domini in aeternum cantabo.

Amor a Deus e amor aos irmãos são de facto inseparáveis: "Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus: quando amamos a Deus e guardamos os Seus mandamentos" (Jo 5, 2). O Apóstolo recorda-nos nisto a verdade do amor, indicando-nos na observância dos mandamentos a medida e o critério.

Com efeito, não é fácil amar com um amor profundo, feito de autêntico dom de si. Aprende-se este amor na escola de Deus, no calor da sua caridade. Ao fixarmos o olhar n'Ele, ao sintonizarmo-nos com o seu coração de Pai, tornamo-nos capazes de olhar os irmãos com olhos novos, em atitude de gratuidade e partilha, de generosidade e perdão. Tudo isto é misericórdia!

Na medida em que a humanidade souber aprender o segredo deste olhar misericordioso, manifesta-se como perspectiva realizável o quadro ideal, proposto na primeira leitura: "A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma. Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia mas, entre eles, tudo era comum" (Act 4, 32). Aqui a misericórdia do coração tornou-se também estilo de relações, projecto de comunidade, partilha de bens. Aqui floresceram as "obras da misericórdia", espirituais e corporais. Aqui a misericórdia tornou-se um concreto fazer-se "próximo" dos irmãos mais indigentes.

Esta mensagem consoladora dirige-se sobretudo a quem, afligido por uma provação particularmente dura ou esmagado pelo peso dos pecados cometidos, perdeu toda a confiança na vida e se sente tentado a ceder ao desespero. Apresenta-se-lhe o rosto suave de Cristo, chegando-lhe aqueles raios que partem do seu Coração e iluminam, aquecem e indicam o caminho, e infundem esperança. Quantas almas já foram consoladas pela invocação "Jesus, confio em Ti", que a Providência sugeriu através da Irmã Faustina! Este simples acto de abandono a Jesus dissipa as nuvens mais densas e faz chegar um raio de luz à vida de cada um.

"Jezu ufam tobie!"

Jesus Cristo, confio em Ti!

Papa João Paulo II

O Caminho de Tomé


A resposta ao mistério da vocação divina

"O caminho começa com uma vocação, uma vocação concedida por Deus. A missão autêntica é o mistério da resposta a uma vocação, e não a tomada de uma iniciativa de modo isolado.

Num trecho particularmente dramático do Evangelho de S. João, S. Tomé rompe o silêncio para infundir coragem nos seus companheiros de discipulado, dizendo-lhes: "Vamos, também nós, morrer com Ele!" (Jo 11, 16). Porém, depois desta expressão de lealdade inabalável, por alguns instantes o seu espírito duvidoso parece levá-lo a perder o equilíbrio e ele pergunta qual é o caminho (cf. Jo 14, 5), levando Jesus a dar-lhe uma das definições mais famosas que Ele jamais dera de si mesmo: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida" (Jo 14, 6).

Para salvar a todos através da graça do Filho, a vocação recebida de Deus é tão poderosa que torna possível aquilo que parece impossível e reconcilia o que parece irreconciliável.

Ser convidado desta maneira recorda-nos com grande vigor que a nossa vida não nos pertence a nós, mas a Deus e, por conseguinte, a Cristo. Para uma vocação tão abnegada, são necessárias pessoas altruístas. S. Tomé era uma destas pessoas e correspondeu à sua vocação. Ele era enviado por Cristo, e estava consciente disto. Todavia, a sua resposta não foi totalmente desprovida de numerosos desafios externos e internos.

Vemos S. Tomé ameaçado por uma luta interior entre a sua lealdade inata e o seu candor desarmante. Talvez seja por este motivo que, nos Evangelhos, ele parece estar com frequência ligado ao caminho e à procura do caminho. O problema apresentou-se na única vez em que ele estava ausente, naquele fatídico domingo, quando a dor o obcecou e, por um momento, não conseguiu acreditar. Mas também nisto ele não está sozinho, porque nenhuma das onze aparições do Senhor ressuscitado, narradas pelo Evangelho, encontrou as pessoas prontas.

Se S. Tomé se emendou, foi porque queria viver em harmonia com os seus companheiros. Assim que voltou para o seu grupo, mostrou-se à altura da situação. Quando o Senhor apareceu pela segunda vez, S. Tomé pronunciou a máxima expressão de fé que se encontra no Evangelho: "Meu Senhor e meu Deus!" (Jo 20, 28). Ele não sabia que, depois de ter vivido a experiência mais excelsa, a conclusão daquela viagem representava apenas o início de uma nova peregrinação, que o levaria até à Índia.

Ali, os seus discípulos, tanto ontem como hoje, definiram aquilo que o Apóstolo lhes ensinou, como "o Caminho de Tomé". Ele nunca foi entendido como senda substitutiva daquele que é o Caminho para o Pai, nosso Senhor e nosso Deus, mas como um caminho que para Ele conduz"

Cardeal Prefeito da congregação para as Igrejas Orientais

sábado, 14 de abril de 2012

Chesterton



“O corpo foi descido da cruz, e um dos poucos ricos entre os cristãos obteve permissão para sepultá-lo numa tumba aberta na rocha em seu jardim; e os romanos montaram uma guarda militar para impedir um possível tumulto e a tentativa de recuperar o corpo.

Houve mais uma vez um simbolismo natural nesses procedimentos naturais: convinha que a tumba fosse lacrada com todo o sigilo das antigas sepulturas orientais e guardada pela autoridade dos césares. Pois naquela segunda caverna toda a grande e gloriosa humanidade a que chamamos de antiguidade estava reunida e encoberta, e ali foi sepultada. Foi o fim de algo muito grande chamado de história humana que foi simplesmente humana. As mitologias e as filosofias foram ali sepultadas, os deuses e os heróis e os sábios. Na grande frase romana, eles haviam vivido. Mas como só podiam viver, eles só poderiam morrer; e estavam mortos.

No terceiro dia os amigos de Cristo vieram para o local ao romper da manhã e encontraram o túmulo vazio e a pedra removida. De várias formas eles perceberam a nova maravilha, mas até mesmo eles mal se deram conta de que o mundo havia morrido naquela noite. O que estavam contemplando era o primeiro dia de uma nova criação, com um novo céu e uma nova terra; e sob as aparências do jardineiro, Deus novamente caminhava pelo jardim, no frio não da noite e sim da madrugada.”



(Gilbert Keith Chesterton, The Everlasting Man)


Veja mais de Chesterton AQUI

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Questões sobre o Matrimônio



Por São Francisco de Sales

"O casamento é um grande sacramento, eu digo em Jesus Cristo e na sua Igreja é honroso para todos, em todos, e em tudo, isto é, em todas as suas partes. Para todos: porque as próprias virgens o devem honrar com humildade. Em todos: porque é tão santo entre os pobres como é entre os ricos. Em tudo: porque a sua origem, o seu fim, as suas vantagens, a sua forma e matéria são santas. É o viveiro do Cristianismo, que enche a terra de fiéis, para tornar completo no céu o número dos eleitos: de sorte que a conservação do bem do casamento é sobremaneira útil para a república; porque é a raiz e o manancial de todos os seus arroios.

Prouvera a Deus que o seu Filho muito amado fosse chamado para todas as bodas como o foi para a de Caná; nunca faltaria lá o vinho das consolações e das bençãos; porque se não as há senão um pouco ao princípio, é porque, em vez de Nosso Senhor, se fez vir a elas Adônis e, em lugar de Nossa Senhora, se faz vir a Vênus.

Quem quer ter cordeirinhos bonitos e malhados, como Jacó, precisa como ele de apresentar às ovelhas quando se juntam para conceber umas lindas varinhas de diversas cores; e quem quer ser bem-sucedido no casamento, deveria em suas bodas representar a si mesmo a santidade e dignidade deste Sacramento; mas em lugar disso dão-se aí mil abusos e excessos em passatempos, festins e palavras. Não é pois de admirar que os efeitos sejam desordenados.

Exorto sobretudo aos casados ao amor recíproco que o Espírito Santo tanto lhes recomenda na Sagrada Escritura: ó casados não se deve dizer: amai-vos um ao outro com o amor natural, porque os casais de rolas fazem isto muito bem; nem se deve dizer: amai-vos com amor humano, porque também os pagãos praticaram esse amor; mas digo-vos encostado ao grande Apóstolo: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Jesus Cristo ama a Igreja; ó mulheres, amai vossos maridos, como a Igreja ama o seu Salvador”.

Foi Deus quem levou Eva a nosso primeiro pai Adão, e lha deu por mulher; foi também Deus, meus amigos, que com sua mão invisível fez o nó do sagrado laço do vosso matrimônio, e que vos deu uns aos outros: por que não haveis então de amar-vos com amor todo santo, todo sagrado, todo divino?

O primeiro efeito deste amor é a união indissolúvel dos vossos corações. Se se grudam duas peças de pinho, uma vez que a cola seja fina, a união fica tão forte, que será mais fácil quebrar as peças noutros locais do que no local da junção; mas Deus junta o marido e a mulher em seu próprio sangue: e por isso é que esta união é tão forte que antes se deve separar a alma do corpo de um e de outro do que separar-se o marido da mulher. Ora esta união não se entende principalmente do corpo, mas sim do coração, do afeto e do amor.

O segundo efeito deste amor deve ser a fidelidade inviolável de um ao outro: antigamente gravavam-se os selos nos anéis que se traziam nos dedos, como a própria santa Escritura testifica. Aqui está o segredo da cerimônia que se faz nas bodas: a Igreja pela mão do sacerdote benze um anel, e dando-o primeiramente ao homem, dá a entender que sela e cerra seu coração por este Sacramento, para que nunca mais nem o nome, nem o amor de qualquer outra mulher possa nesse coração entrar, enquanto viver aquela que lhe foi dada: depois o esposo mete o anel na mão da própria esposa, para que ela reciprocamente saiba que nunca o seu coração deve conceber afeto por qualquer outro homem, enquanto viver sobre a terra aquele, que Nosso Senhor acaba de lhe dar.

O terceiro fruto do casamento é a geração e a legítima criação e educação dos filhos. Grande honra é esta para vós, ó casados, que Deus, querendo multiplicar as almas que possam bendizê-lO e louvá-lO por toda a eternidade, vos torna cooperadores de obra tão digna, por meio da produção dos corpos, em que Ele reparte, como gotas celestes, as almas, criando-as e infundindo-as nos corpos.

Conservai pois, ó maridos, um terno, constante e cordial amor a vossas mulheres: por isto foi a mulher tirada do lado mais chegado ao coração do primeiro homem, para que fosse amada por ele cordial e ternamente. As fraquezas e enfermidades de vossas mulheres, quer do corpo, quer do espírito, não devem provocar-vos a nenhuma espécie de desdém, mas antes a uma doce e amorosa compaxião, pois Deus criou-as assim para que dependendo de vós, vos honrem e vos respeitem mais, e de tal modo as tenhais por companheiras que contudo sejais os chefes e superiores.

E vós, ó mulheres, amai ternamente, cordialmente, mas com um amor respeitoso e cheio de reverência, os maridos que Deus vos deu: porque realmente por isso os criou Deus de um sexo mais vigoroso e predominante, e quis que a mulher fosse uma dependência do homem, e osso dos seus ossos, e carne da sua carne, e que ela fosse produzida por uma costela deste, tirada debaixo dos seus braços, para mostrar que ela deve estar debaixo da mão e governo do marido; e toda a Escritura Santa vos recomenda severamente esta sujeição, que aliás a mesma Escritura vos faz doce e suave, não somente querendo que vos acomodeis a ela com amor, mas ordenando a vossos maridos que a exerçam com grande afeto, ternura e suavidade.

Maridos, diz São Pedro, portai-vos discretamente com vossas mulheres como com um vaso mais frágil, honrando-as. Mas assim como vos exorto a afervorar cada vez mais este recíproco amor que vos deveis, estai alerta para que não se converta em nenhuma espécie de ciúme: porque acontece muitas vezes que, como o verme se cria na maçã mais delicada e madura, também o ciúme nasce no amor mais ardente e afetuoso dos casados, cuja substância aliás estraga e corrompe; porque pouco a pouco acarreta os desgostos, desavenças e divórcios. Por certo que o ciúme nunca chega aonde a amizade está de parte a parte fundada na verdadeira virtude: e eis a razão por que ela é um sinal indubitável de um amor sensual, grosseiro, e que se dirigiu a objeto em que encontrou uma virtude defeituosa, inconstante e exposta a desconfianças. É, pois, uma pretensão tola quere dar a entender com os zelos a grandeza amizade: porque o sinal na verdade é um sinal da magnitude e corpolência da amizade, mas não da sua bondade, pureza e perfeição; pois que a perfeição da amizade pressupõe a firmeza da virtude da coisa que se ama, e o ciúme pressupõe a incerteza.

Se quereis, maridos, que as vossas mulheres vos sejam fiéis, ensinai-lhes a lição com o vosso exemplo: “Com que cara,- diz S. Gregório Nazianzeno -, quereis exigir honestidade de vossas mulheres, se vós próprios viveis na desonestidade? Como lhes pedis o que não lhes dais? Quereis que elas sejam castas? Vivei castamente com elas”, e, como diz São Paulo, saiba cada um possuir o seu vaso em santificação. Mas, se pelo contrário vós mesmos lhes ensinais as dissoluções, não é de admirar que sofrais a desonra da sua perda. Mas vós, ó mulheres, cuja honra está inseparavelmente aliada com a pureza e honestidade, conservai zelosamente a vossa glória, e não permitais que nenhuma espécie de dissolução empane a brancura da vossa reputação.

Temei toda a sorte de ataques, por pequenos que sejam: nunca permitais que andem em volta de vós os galanteios. Todo aquele que vem elogiar a vossa formosura e a vossa graça deve ser-vos suspeito. Porque quem gaba uma mercadoria que não pode comprar, ordinariamente é muito tentado a roubá-la. Mas se ao vosso encômio alguém adicionar o desprezo de vosso marido, ofende-vos sobremaneira, porque a coisa é clara, que não somente quer perder-vos, mas já vos tem na conta de meio perdida, pois que metade do contrato é feito com o segundo comprador, quando se está desgostoso do primeiro.

As senhoras, tanto antigas como modernas, acostumaram-se a levar pendentes das orelhas muitas pérolas, pelo prazer, diz Plínio, que têm em as ouvir tilintar e chocalhar, tocando umas nas outras. Mas quanto a mim, que sei que o grande amigo de Deus, Isaac, enviou à casta Rebeca pendentes de orelhas como os primeiros penhores do seu amor: eu creio que este ornamento místico significa que a primeira coisa que um marido deve ter de uma mulher, e que a mulher lhe deve fielmente guardar, é a orelha, para que nenhuma linguagem ou ruído possa aí entrar, senão o doce e amigável gorjeio das palavras castas e pudicas, que são as pérolas orientais do Evangelho. Porque é preciso lembrar-se sempre de que as almas se envenenam pelo ouvido, como o corpo pela boca.

O amor e a fidelidade juntos trazem sempre consigo a familiaridade e confiança; é por isso que os Santos e as Santas usaram de muitas carícias recíprocas em seu matrimônio, carícias verdadeiramente amorosas, mas castas; ternas, mas sinceras. Assim Isaac e Rebeca, o casal mais casto dos casados do tempo antigo, foram vistos à janela a acariciar-se de tal sorte que, embora nada nisso houvesse de desonesto, Abimelec conheceu bem que eles não podiam ser senão marido e mulher.

O grande São Luís, tão rigoroso com a sua carne, como terno amor a sua mulher, foi quase censurado de ser pródigo em tais carícias: embora na verdade antes merecesse encômio por saber despojar-se do seu espírito marcial e corajoso para praticar estas ligeiras obrigações necessárias para a conservação do amor conjugal; porque ainda que estas pequenas mortificações de pura e franca amizade não prendam os corações, contudo aproximam-nos, e servem de agradável isca para a mútua conversação.

Santa Mônica, estando grávida do grande Santo Agostinho, consagrou-o com repetidos oferecimentos à Religião cristã, e ao serviço da glória de Deus, como ele próprio testifica, dizendo: que já no ventre de sua mãe tinha provado o sal de Deus. É um grande ensinamento para as mulheres cristãs oferecer à divina Majestade o fruto de seus ventres, mesmo antes que deles tenham saído: porque Deus, que aceita as oblações de um coração humilde e bem formado, ordinariamente favorece os bons desejos das mães nessa circunstância: sejam disso testemunhas Samuel, S. Tomás de Aquino, S. André de Fiesole, e muitos outros.

A mãe de S. Bernardo, digna mãe dum tal filho, tomando seus filhos e filhas nos braços apenas nasciam, oferecia-os a Jesus Cristo; e desde logo os amava com respeito como coisa sagrada, e que Deus lhe tinha confiado: o que lhe deu tão feliz resultado, que todos os seus sete filhos foram muito santos. Mas uma vez vindos os filhos ao mundo, e começando a ter uso da razão, devem os pais e mães ter um grande cuidado de lhes imprimir o temor de Deus no coração.

 A boa rainha Branca desempenhou fervorosamente este encargo com o rei S. Luís, seu filho, porque lhe dizia a cada passo: ' Antes quero, meu caro filho, ver-te cair morto na minha presença do que ver-te cometer um só pecado mortal'. O que ficou de tal modo gravado na alma deste santo filho, que, como ele próprio contava, não houve dia da sua vida em que disso se não lembrasse, esforçando-se o quanto lhe era possível por observar à risca esta santa doutrina.

Na nossa linguagem chamamos casas às linhagens e gerações; e os próprios hebreus chamam a geração dos filhos edificação de casa. Porque foi neste sentido que se disse que Deus edificou casas para as parteiras do Egito. Ora é para mostrar que não é fazer uma boa casa provê-la de muitos bens mundanos: mas educar bem os filhos no temor de Deus e na virtude. Nisto não devemos esquivar-nos a penas nem trabalhos, pois os filhos são a coroa do pai e da mãe. Assim, Santa Mônica combateu com tanto fervor e constância as más inclinações de Santo Agostinho que, tendo-o seguido por mar e por terra, o tornou mais felizmente filho de suas lágrimas, pela conversão da sua alma, do que o tinha sido do sangue pela geração do seu corpo.

S. Paulo deixa como incumbência às mulheres o governo da casa; e por isso muitos seguem esta verdadeira opinião que a sua devoção é mais frutuosa para a família que a dos maridos, que, não tendo uma residência tão continuada entre os domésticos, não pode, por conseguinte encaminhá-los tão facilmente para a virtude. Segundo esta consideração Salomão nos seus provérbios faz depender a felicidade de toda a sua casa do cuidado e esmero da mulher forte que descreve.

Diz-se no Gênesis que Isaac, vendo a esterilidade de sua esposa Rebeca, rogou ao Senhor por ela: ou segundo o texto hebraico, rogou ao Senhor em frente dela, porque um orava de um lado do oratório e outro do outro lado; e a oração do marido feita deste modo foi ouvida. A maior e mais frutuosa união do marido e da mulher é a que se faz na devoção, à qual se devem excitar à perseverança um ao outro. Frutos há, como o marmelo, que, pela aspereza do seu suco, não são agradáveis senão postos em conserva. Há outros que, pela sua brandura e delicadeza, não se podem conservar senão também postos em doce, como as cerejas e os damascos: assim as mulheres hão de desejar que os seus maridos estejam em conserva no açúcar da devoção. Porque o homem sem devoção é um animal severo, áspero e duro; e os maridos devem desejar que as suas mulheres sejam devotas; porque sem a devoção, a mulher é em extremo frágil e sujeita a cair ou embaciar a sua virtude.

S. Paulo disse que o homem infiel é santificado pela mulher fiel e a mulher infiel pelo homem fiel, porque nesta estreita aliança do casamento um pode facilmente puxar o outro à virtude. Mas que grande benção há quando o homem e a mulher fiéis se santificam um ao outro num verdadeiro temor de Deus! Além disso, hão de ter tanta condescendência um com o outro, que nunca se aborreçam e irritem ambos ao mesmo tempo e de repente, para que entre eles não se note dissensão nem disputa. As abelhas não podem estar em lugar onde se ouvem ecos e estrondos, e onde soa a voz repetida: nem o Espírito Santo pode demorar numa casa onde há disputas, réplicas e repetição de vozes e altercações.

 S. Gregório Nazianzeno diz que no seu tempo os casados faziam festa no aniversário dos seus casamentos. E eu por certo aprovaria que se introduzisse este costume, contanto que não fosse com aparatos de diversões mundanas e sensuais, mas que os maridos e mulheres, tendo-se confessado e comungado nesse dia, recomendassem a Deus, mais fervorosamente que de costume, o progresso do seu matrimônio, renovando os bons propósitos de o santificar cada vez mais por uma recíproca amizade e fidelidade, e cobrando alento em Nosso Senhor, para arcar com os encargos da sua vocação."

São Francisco de Sales - Filotéia (cap.38)