" Alguns desses judiciosos homens modernos devem ter abandonado o Cristianismo sob a pressão de uma das três seguintes e convergentes convicções:
1 - Que os homens, com a sua forma, a sua estrutura e a sua sexualidade, são, apesar de tudo, muito semelhantes aos irracionais, ou uma simples variedade do reino animal
2 - Que a religião primitiva teve princípio na ignorância e no medo
3 - Que os sacerdotes tem feito estiolar as sociedades no meio de amarguras e trevas.
Estes três argumentos anti-cristãos são muito diferentes, mas são todos perfeitamente lógicos e legítimos, e todos eles convergem para o mesmo ponto. Há, apenas, uma única objeção contra eles: é que são todos falsos.
Se deixarmos de olhar para os livros, que se ocupam dos irracionais e dos homens e começarmos a olhar os próprios irracionais e para o próprio homem, havemos de observar que o mais impressionante não é ver quão semelhante é o homem aos brutos, mas sim como eles são dissemelhantes. É a monstruosa escala de sua divergência que precisa de uma explicação. Que o homem e o bruto são semelhantes é, em certo sentido, uma verdade; mas que, sendo tão semelhantes, sejam tão desmedidamente diferentes, essa é que é a grande surpresa e o grande enigma.
O fato de o macaco ter mãos é muito menos interessante para o filósofo do que o fato de ele nada fazer com elas; não toca violino, não joga o "Knucle-bones" (jogo de pedrinhas), não esculpe sobre mármore e não trincha um carneiro. Fala-se por vezes, a respeito de arquitetura bárbara e de arte trivial, mesmo em estilo rococó. Os camelos também não pintam nem sequer más pinturas, embora andem providos com material que dava muitos pincéis. Certos visionários modernos dizem que as formigas e as abelhas tem uma sociedade superior à nossa. Tem, sem dúvida, uma civilização, mas essa civilização serve apenas para nos lembrarmos de que se trata de uma civilização inferior. Quem foi que encontrou já um formigueiro adornado com estátuas de formigas célebres? Quem foi que já viu um cortiço que tivesse esculpidas imagens de antigas e faustosas rainhas?
Não, o abismo entre o homem e as outras criaturas pode ter uma explicação natural, mas é um abismo. Falamos de animais selvagens, mas o homem é o único animal selvagem. Foi o homem que saiu fora de si. Todos os outros animais são animais domesticados que seguem a rude respeitabilidade da tribo ou do tipo. Todos os animais são animais domésticos, apenas o homem se conserva por domesticar, quer seja libertino quer seja um monge.
Assim, esta primeira e superficial razão para o materialismo é, pelo contrário, uma razão para a doutrina oposta; é exatamente onde a biologia acaba que a religião começa.
(Depois veremos os outros dois argumentos)
Fonte: Ortodoxia pag 233-234
Mais de Chesterton AQUI
A Doutrina Católica, a vida dos Santos, o Itinerário Espiritual do Cristão, me fascinam. Leio tudo incansavelmente e trago para o Blog. Que ele sirva de formação para perseverarmos na verdade da fé, defendendo-nos contra as astúcias do inimigo, para a Glória de Nosso Senhor.
terça-feira, 8 de maio de 2012
Maria, Mãe dos predestinados
" Um Homem e um homem nasceu dela" (Sl 86,5), diz o Espírito Santo. Segundo a explicação de alguns Santos padres, o primeiro homem que nasceu de Maria foi o Homem-Deus, Jesus Cristo; o segundo é um homem impuro, filho de Deus e de Maria por adoção. Se Jesus Cristo, cabeça dos homens, nasceu dela, todos os predestinados, membros desta cabeça, também dela devem nascer, por uma consequência necessária.
A mesma mãe não pode dar a luz a cabeça ou o chefe sem membros, nem os membros sem a cabeça: isso seria uma monstruosidade da natureza. Do mesmo modo, na ordem da graça, a cabeça e os membros nascem também duma só Mãe. Se um membro do Corpo Místico de Jesus Cristo, quer dizer, um predestinado, nascesse de outra mãe que não fosse Maria, que gerou a cabeça, não seria um predestinado nem um membro de Jesus Cristo, mas sim um monstro na ordem da graça"
São Luis Maria Grignion de Montfort
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segunda-feira, 7 de maio de 2012
Os Movimentos de Apostolado
Por Padre Leo Trese
15:00
"A escrivaninha está livre de correspondência. Mais precisamente, as cartas foram lidas e arrumadas junto com as que não tiveram resposta. Se não me espevito e respondo com brevidade a algumas delas, não me restará um só amigo neste mundo. Mas agora preciso dar uma olhada no Novo Testamento. Margie está para chegar.
Foi-lhe confiada a terefa de comentar o Evangelho na reunião semanal de dirigentes da Ação Católica e combinou vir às quatro para que a ajude a preparar-se. Depois dela virá Jean, as quatro e meia, para falarmos do Corpo Místico.
Há uma coisa de que estou certo: a Ação Católica suscita dentro de mim o mesmo sentimento de fracasso que tantas outras iniciativas boas que vicejam na paróquia. O apostolado da oração, a cruzada do Rosário, a renovação litúrgica, o movimento rural, as escolas de ação social inflamam a minha imaginação pelo seu bem potencial, mas depois deixam-me desiludido ao encontrar- me diante da compacta lista de encontros e obrigações anotadas no meu caderno.
É muito fácil dizer: " Deixemos de lado o menos importante". Mas o que é menos importante? Eu não posso abandonar os doentes, membros sofredores de Cristo. Não posso esquecer as crianças da escola, que são o meu rebanho e o dEle.
Não posso ser superficial quando instruo os conversos. Não posso atirar para um canto os que vem, preocupados e tristes, pedir-me um conselho. Nem mesmo posso esquivar-me à administração material da paróquia, uma vez que os consertos e reparações, as compras e a contabilidade também se relacionam, embora indiretamente, com a salvação das almas.
Talvez pudesse deixar os movimentos de apostolado entregues a si próprios, mas, sem um sacerdote, depressa pereceriam, e eu perderia contacto com os meus adultos.
É um verdadeiro dilema, um dilema em que as coisas que gostaria de fazer se opõem ao que ao que devo fazer. Mas, ao encará-lo de frente, a solução aparece-me nítida e afiada como espada que cortará o nó górdio em que estou envolvido.
Não é uma solução nova, certamente. Mas é uma solução que facilmente se ignora e se contorna na hipertensa atividade da paróquia moderna. É a mesma solução que São Bernardo dava ao Papa Eugenio, quando o advertia do perigo de se dar completamente aos outros que nada restasse para si próprio; o perigo, diríamos hoje, de nos exaurirmos.
A solução é : maior santidade pessoal. À primeira vista, parece uma solução difícil: é muito mais fácil trabalhar os outros do que trabalharmos a nós mesmos. Mas é a única solução para um sacerdote acossado, que vê tanto que fazer e tão pouco tempo disponível para faze-lo. Ainda está por nascer o movimento de apostolado que seja um sucedâneo da santidade sacerdotal.
Em contrapartida, a santidade sacerdotal poderá substituir qualquer outra coisa, em caso de necessidade.
Precisamos de dirigentes? É Cristo quem chama os seus dirigentes, e eles ouvirão o seu apelo e o acatarão quando Ele se fizer reconhecer na vida de um sacerdote santo. É o amor a liturgia que procuramos? O povo amará a Missa e aproximar-se-a dos sacramentos quando se evidenciar em cada gesto do celebrante um profundo amor e uma fé ardente. É justiça social que queremos promover urgentemente, uma caridade inflamada que queremos suscitar? Certamente a palavra de Deus não poderá sair do coração transbordante de um sacerdote verdadeiramente " à medida do coração de Cristo", durante cinquenta e dois domingos por ano, sem acender uma centelha nova nalgum coração renovado.
...Sei tudo isso. Sei também que é perfeitamente inutil escudar-me na frase feita "Padre de sacristia" se, por padre de sacristia, queremos dizer "padre de poltrona". Mas se, por padre de sacristia, entendo um padre com um profundo amor a Cristo nos seus mistérios, um padre que passa mais tempo na Igreja do que em ler o jornal e a revista da semana - então, sim, poderei falar de um homem que nos fins das contas faz mais por Cristo do que muitos cujos os nomes aparecem no semanário diocesano.
Esta lógica esmaga-me. Prevejo a conclusão... mas se se impõe que eu escolha entre mais oração e sacrificio, por um lado e mais desapontamento e fracasso por outro, talvez conviesse que os meus joelhos trabalhassem um pouco mais e os braços um pouco menos.
Bem, Margie está a porta. É necessário ajudá-la a preparar o evangelho da Missa de Pentecostes. "Se alguém me ama...meu Pai o amará, e viremos a Ele e faremos Nele a nossa morada...Não se assuste o vosso coração".
É precisamente isto oque diz, e está tudo muito claro.
Fonte: Vaso de Argila.
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sexta-feira, 4 de maio de 2012
Igreja Una, Santa
Por Padre Leo Trese
O argumento mais forte contra a Igreja Católica é a vida dos maus católicos e dos católicos relaxados. Se perguntássemos a um católico tíbio: “Não será que tanto faz uma igreja como outra?”, certamente nos responderia indignado: “Claro que não! Há uma só Igreja verdadeira, a Igreja Católica”.
E pouco depois passaria por mentiroso aos olhos dos seus amigos não-católicos ao contar as mesmas piadas imorais que eles, ao embebedar-se nas mesmas reuniões, ao colaborar com eles em mexericos maliciosos, ao comprar os mesmos anticoncepcionais e até, talvez, ao mostrar-se menos escrupuloso que eles nos seus negócios ou na sua atuação política.
Sabemos que estes homens e mulheres são a minoria, ainda que já seria excessivo que houvesse um só. Também sabemos que não nos pode surpreender que na Igreja de Cristo haja membros indignos. O próprio Jesus comparou a sua Igreja à rede que apanha peixes maus e bons (cf. MT. 13,47-50); ao campo, onde o joio cresce entre o trigo (cf. MT.13,24-30); à festa de casamento, em que um dos convidados se apresenta sem a veste nupcial (cf. MT.22,11-14).
Sempre haverá pecadores: até o fim dos tempos serão a cruz que Jesus Cristo deve carregar aos ombros do seu Corpo Místico. E, não obstante, Jesus sublinhou a santidade como uma das notas distintivas da sua Igreja. Pelos seus frutos os conhecereis, disse Ele. Porventura colhem-se uvas dos espinhos ou figos dos abrolhos? Assim toda a árvore boa dá bons frutos, e toda a árvore má dá maus frutos. (MT.7,16-17).
O Catecismo da Igreja Católica ensina que “a Igreja é [...], aos olhos da fé, indefectivelmente santa”. Com efeito, Cristo, Filho de Deus, que é com o Pai e o Espírito proclamado ‘o único Santo’, amou a Igreja como sua esposa, entregou-Se por ela para santificar, uniu-a a Si como seu Corpo e cumulou-a com o dom do Espírito Santo para a glória de Deus (LG. 39).
Todas e cada uma destas palavras são verdades, mas não são um ponto fácil de aceitar para o nosso amigo não-católico, especialmente se na noite anterior esteve de farra com um católico e se, além disso, sabia que esse seu amigo pertence à Confraria de Nossa Senhora das Dores da paróquia de São Pafúncio.
Sabemos que Jesus Cristo fundou a Igreja e que as outras comunidades que se autodenominam “igrejas” foram fundadas por homens. Mas o luterano, provavelmente, zombará da nossa afirmação de que Martinho Lutero fundou uma nova igreja, e dirá que ele nada fez senão purificar a antiga Igreja dos seus erros e abusos. O anglicano, sem dúvida, dirá algo parecido: Henrique VIII e Thomas Cranner não iniciaram uma nova igreja, simplesmente, separaram-se do “ramo romano” e estabeleceram o “ramo inglês”da Igreja cristã original. Os presbiterianos dirão o mesmo de John Knox, e os metodistas de John Wesley, e assim sucessivamente em toda a longa lista das seitas protestantes. Todas elas sem exceção proclamam Jesus Cristo como seu fundador.
Acontecerá o mesmo quando, como prova da sua origem divina, afirmamos que a Igreja ensina uma doutrina santa. “A minha igreja também ensina uma doutrina santa”, responderá o nosso amigo não-católico. “Concordo sem reservas”, podemos responder. “Penso, evidentemente, que a sua igreja está a favor do bem e da virtude. Mas também creio que não há igreja que promova a caridade cristã e o ascetismo tão plenamente como a Igreja Católica”. Com toda a certeza, o nosso amigo continuará impassível e porá de lado a questão da “santidade da doutrina” como questão de opinião. Mas não poderíamos ao menos apontar os santos como prova de que a santidade de Cristo continua a operar na Igreja Católica? Sim, porque é uma evidência difícil de se ignorar.
Os milhares e milhares de homens, mulheres e jovens que levaram uma vida de santidade eminente, e cujos nomes estão inscritos no santoral, são algo que se torna bastante difícil de não ver, como também que as outras igreja não têm coisa parecida, nem de longe. Não obstante, se o nosso interlocutor possui um verniz de psicologia moderna, poderá tentar derrubar os santos com palavras como “neurose”, “sublimação de instintos básicos”... E, de qualquer maneira, dir-nos-á que esses santos estão só nos livros e que não podemos mostrar-lhe um santo aqui mesmo, agora.
Bem, e agora, que podemos dizer? Só ficamos você e eu. O nosso amigo perguntador (esperemos que pergunte com interesse sincero) pode proclamar Cristo como seu fundador, pode atribuir uma doutrina santa à sua igreja e pode qualificar os santos como um tema discutível. Porém, não nos pode ignorar a nós; não pode permanecer surdo e cego ao testemunho de nossas vidas.
Se cada católico que o nosso inquiridor imaginário encontrasse fosse uma pessoa de eminentes virtudes cristãs – amável, paciente, abnegado e amistoso; casto, delicado e reverente na palavra; honrado, sincero e simples; generoso, sóbrio, leal e puro na conduta -, com que impressão você pensa que ele ficaria? Que testemunho arrasador daríamos da santidade da Igreja de Cristo! Temos de recordar-nos uma e mil vezes de que somos os guardiões do nosso irmão. Não podemos tolerar as nossas pequenas debilidades, o nossos egoísmo, pensando que tudo se resolve sacudindo o pó numa confissão.
Teremos de responder diante de Cristo não só pelos nossos pecados, mas também pelos pecados das almas que poderão ir para o inferno por nossa culpa. Esqueçamo-nos de todos os restantes católicos e concentremo-nos exclusivamente, agora mesmo, você em si e eu em mim. Então a nota de santidade da Igreja Católica se tornará evidente ao menos na pequena área em que você e eu vivemos e nos movemos.
Fonte: A Fé Explicada
Estudos anteriores AQUI
O argumento mais forte contra a Igreja Católica é a vida dos maus católicos e dos católicos relaxados. Se perguntássemos a um católico tíbio: “Não será que tanto faz uma igreja como outra?”, certamente nos responderia indignado: “Claro que não! Há uma só Igreja verdadeira, a Igreja Católica”.
E pouco depois passaria por mentiroso aos olhos dos seus amigos não-católicos ao contar as mesmas piadas imorais que eles, ao embebedar-se nas mesmas reuniões, ao colaborar com eles em mexericos maliciosos, ao comprar os mesmos anticoncepcionais e até, talvez, ao mostrar-se menos escrupuloso que eles nos seus negócios ou na sua atuação política.
Sabemos que estes homens e mulheres são a minoria, ainda que já seria excessivo que houvesse um só. Também sabemos que não nos pode surpreender que na Igreja de Cristo haja membros indignos. O próprio Jesus comparou a sua Igreja à rede que apanha peixes maus e bons (cf. MT. 13,47-50); ao campo, onde o joio cresce entre o trigo (cf. MT.13,24-30); à festa de casamento, em que um dos convidados se apresenta sem a veste nupcial (cf. MT.22,11-14).
Sempre haverá pecadores: até o fim dos tempos serão a cruz que Jesus Cristo deve carregar aos ombros do seu Corpo Místico. E, não obstante, Jesus sublinhou a santidade como uma das notas distintivas da sua Igreja. Pelos seus frutos os conhecereis, disse Ele. Porventura colhem-se uvas dos espinhos ou figos dos abrolhos? Assim toda a árvore boa dá bons frutos, e toda a árvore má dá maus frutos. (MT.7,16-17).
O Catecismo da Igreja Católica ensina que “a Igreja é [...], aos olhos da fé, indefectivelmente santa”. Com efeito, Cristo, Filho de Deus, que é com o Pai e o Espírito proclamado ‘o único Santo’, amou a Igreja como sua esposa, entregou-Se por ela para santificar, uniu-a a Si como seu Corpo e cumulou-a com o dom do Espírito Santo para a glória de Deus (LG. 39).
Todas e cada uma destas palavras são verdades, mas não são um ponto fácil de aceitar para o nosso amigo não-católico, especialmente se na noite anterior esteve de farra com um católico e se, além disso, sabia que esse seu amigo pertence à Confraria de Nossa Senhora das Dores da paróquia de São Pafúncio.
Sabemos que Jesus Cristo fundou a Igreja e que as outras comunidades que se autodenominam “igrejas” foram fundadas por homens. Mas o luterano, provavelmente, zombará da nossa afirmação de que Martinho Lutero fundou uma nova igreja, e dirá que ele nada fez senão purificar a antiga Igreja dos seus erros e abusos. O anglicano, sem dúvida, dirá algo parecido: Henrique VIII e Thomas Cranner não iniciaram uma nova igreja, simplesmente, separaram-se do “ramo romano” e estabeleceram o “ramo inglês”da Igreja cristã original. Os presbiterianos dirão o mesmo de John Knox, e os metodistas de John Wesley, e assim sucessivamente em toda a longa lista das seitas protestantes. Todas elas sem exceção proclamam Jesus Cristo como seu fundador.
Acontecerá o mesmo quando, como prova da sua origem divina, afirmamos que a Igreja ensina uma doutrina santa. “A minha igreja também ensina uma doutrina santa”, responderá o nosso amigo não-católico. “Concordo sem reservas”, podemos responder. “Penso, evidentemente, que a sua igreja está a favor do bem e da virtude. Mas também creio que não há igreja que promova a caridade cristã e o ascetismo tão plenamente como a Igreja Católica”. Com toda a certeza, o nosso amigo continuará impassível e porá de lado a questão da “santidade da doutrina” como questão de opinião. Mas não poderíamos ao menos apontar os santos como prova de que a santidade de Cristo continua a operar na Igreja Católica? Sim, porque é uma evidência difícil de se ignorar.
Os milhares e milhares de homens, mulheres e jovens que levaram uma vida de santidade eminente, e cujos nomes estão inscritos no santoral, são algo que se torna bastante difícil de não ver, como também que as outras igreja não têm coisa parecida, nem de longe. Não obstante, se o nosso interlocutor possui um verniz de psicologia moderna, poderá tentar derrubar os santos com palavras como “neurose”, “sublimação de instintos básicos”... E, de qualquer maneira, dir-nos-á que esses santos estão só nos livros e que não podemos mostrar-lhe um santo aqui mesmo, agora.
Bem, e agora, que podemos dizer? Só ficamos você e eu. O nosso amigo perguntador (esperemos que pergunte com interesse sincero) pode proclamar Cristo como seu fundador, pode atribuir uma doutrina santa à sua igreja e pode qualificar os santos como um tema discutível. Porém, não nos pode ignorar a nós; não pode permanecer surdo e cego ao testemunho de nossas vidas.
Se cada católico que o nosso inquiridor imaginário encontrasse fosse uma pessoa de eminentes virtudes cristãs – amável, paciente, abnegado e amistoso; casto, delicado e reverente na palavra; honrado, sincero e simples; generoso, sóbrio, leal e puro na conduta -, com que impressão você pensa que ele ficaria? Que testemunho arrasador daríamos da santidade da Igreja de Cristo! Temos de recordar-nos uma e mil vezes de que somos os guardiões do nosso irmão. Não podemos tolerar as nossas pequenas debilidades, o nossos egoísmo, pensando que tudo se resolve sacudindo o pó numa confissão.
Teremos de responder diante de Cristo não só pelos nossos pecados, mas também pelos pecados das almas que poderão ir para o inferno por nossa culpa. Esqueçamo-nos de todos os restantes católicos e concentremo-nos exclusivamente, agora mesmo, você em si e eu em mim. Então a nota de santidade da Igreja Católica se tornará evidente ao menos na pequena área em que você e eu vivemos e nos movemos.
Fonte: A Fé Explicada
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Cristo padeceu sob Poncio Pilatos
Padeceu sob Poncio Pilatos... ....foi crucificado, morto e sepultado
Pela declaraçao de "não conhecer outra coisa senão a Jesus Cristo, e por sinal que Crucificado" - São Paulo apregoa a grande necessidade de conhecermos este Artigo, e o zelo que deve ter para meditarmos, o mais possível, a Paixao de Nosso Senhor.
A primeira parte deste Artigo nos propõe a crer que Cristo Nosso Senhor foi crucificado, quando Poncio Pilatos governava, em nome de Tiberio Cesar a província da Judeia. Fora encarcerado, escarnecido, coberto de toda a sorte de opróbrios e tormentos, e finalmente arvorado no madeiro da Cruz.
Ninguém deve supor que a parte inferior de Sua Alma ficasse talvez isenta das torturas. Uma vez que Cristo assumiu, realmente, a natureza humarna, força é reconhecer que também na alma sentiu dores fortíssimas. Esta é a razão de ter dito: "Minha alma está triste, a ponto de morrer".
É certo que a natureza humana estava unida a Pessoa Divina, mas nem por isso deixou de sentir menos a amargura da Pecado. Era como se tal união não existisse; na Pessoa única de Cristo se conservavam as propriedades de ambas as naturezas. Por conseguinte, o que era passível e mortal, permaneceu passivel e mortal; por sua vez, o que era impassível e imortal como cremos ser a natureza divina - conservou esta sua propriedade.
Neste Artigo, notamos uma certa insistencia em indicar-se que Jesus Cristo sofreu durante o tempo que Poncio Pilatos governava a Judeia. Assim se fez, porque a notícia de um fato tão importante e tão necessário seria mais acessível para todos, desde que se notificasse a época certa de sua ocorrência.
Conforme se lê na Escritura, o Apóstolo Sao Paulo também a indicou - I Tim 6,13. Outra razão era para que víssemos, por tais indicações, como realmente se cumpriu a predição de Nosso Salvador: "Entrega-l'O-ao aos gentios, para ser escarnecido, flagelado e crucificado" - Mt 20,19
Devemos tambem atribuir a um designio de Deus que Cristo, para morrer, escolhesse o madeiro da Cruz. Foi para que dali mesmo [nos] renascesse a vida, por onde [nos] tinha vindo a morte (Prefacio da Santa Cruz). Com efeito, a serpente que por uma árvore vencera nossos primeiros pais, foi vencida por Cristo na árvore da Cruz.
Podemos, ainda, alegar muitas outras razões, que os Santos Padres desenvolveram mais largamente, e por elas demonstrar, quanto convinha que Nosso Redentor sofresse, de preferencia, a morte na Cruz.
Nosso Senhor escolheu tal gênero de morte, porque lhe parecia o mais próximo e conveniente para a redenção do gênero humano. Certamente, não havia outro que fosse mais vergonhoso e humilhante. Não eram os pagãos os únicos a verem no suplício da cruz a maior repulsão, infâmia e vergonha; também a Lei de Moisés chama " Maldito o homem que pende no madeiro"
Conhecer e entender este artigo são muito necessarios, já que nele se assentam como em sua base, a religião e a fé cristã. Bem lançado este fundamento, todas as outras verdades se mantem firmes e inabalaveis. Se há o que ofereça dificuldades, ao espírito e ao coração humano, será sem dúvida o misterio da cruz. Por ele devemos admirar a soberana Providencia de Deus. Esta é a loucura da sabedoria de Deus que o mundo não conhece. Para compreende-lo, Deus não se cansou de nos ajudar, anunciando sempre a morte de Seu Filho, seja por figuras ou por predições dos profetas.
As figuras que representavam antecipadamente a Paixão e Morte de Cristo Nosso Senhor, Abel morto pela inveja do irmão, depois a imolação de Isaac, o cordeiro sacrificado pelos judeus, ao saírem do Egito e finalmente a serpente que Moisés alçou no deserto. Quanto aos profetas, muitos foram aqueles que falaram sobre o assunto. Davi nos Salmos, abrangeu todos os principais mistérios de nossa Redenção, distinguem-se, entre todas, as predições de Isaías. São tão claras e evidentes que, com razão, se nos afiguram ser antes a narração de fatos consumados, do que um previsão de coisas futuras.
Morto e Sepultado Jesus depois de crucificado, morreu realmente e foi sepultado. Todos os Evangelistas concordam em afirmar que Jesus "entregou o Seu espirito". Ademais, homem que era perfeito e verdadeiro, Cristo podia tambem morrer, no sentido próprio da palavra. Ora, o homem morre, quando a alma se aparta do corpo. Portanto, com o dizermos que Jesus morreu, queremos simplesmente declarar que Sua Alma foi separada do Corpo.
Mas, por tal afirmação, não admitimos que do Corpo se tenha separado [também] a Divindade. Muito pelo contrário. Com fé inabalavel confessamos que, depois de separada a Alma do Corpo, a Divindade permaneceu sempre unida, não só ao Corpo no sepulcro, como também a Alma nos infernos.
Convinha que o Filho de Deus morresse, "a fim de aniquilar aquele que tinha o poder da morte, isto é, o demonio; e libertar aqueles que, pelo temor da morte, passavam toda a vida em escravidao" - (Heb 2,14) . O que houve de extraordinario em Cristo Nosso Senhor é ter morrido, quando Ele mesmo decretou morrer; e ter sofrido a morte por um ato de Sua vontade, e não por violencia estranha. Foi Ele mesmo que determinou não só a Sua propria morte, mas até o lugar e o tempo em que havia de morrer.
Assim, pois, profetizara Isaias: " Foi imolado, porque Ele próprio o quis" (Is 53,7) . E antes da Paixão, o Senhor mesmo disse de Si proprio: "Eu dou a Minha vida, para que a tome de novo. Ninguém a tira de Mim, mas sou Eu que a dou de mim mesmo. Tenho o poder de dá-la, e tenho o poder de toma-la de novo"(Jo 10,17-18 )
Quando Herodes espreitava a ocasiao de lhe dar a morte, Cristo mesmo Se declarou a respeito do tempo e lugar:" Ide dizer a essa raposa: Eis que lanço fora os demonios, e faço curas hoje e amanhã e no terceiro dia morrerei. Mas, hoje e amanha, e no dia seguinte, devo ainda caminhar, porque nao convem que um profeta pereça fora de Jerusalem" Lc 13,32-33
Fonte: Catecismo Romano
quinta-feira, 3 de maio de 2012
O Ordenamento de minhas relações divinas
Continuamos nosso estudo sobre a Vida Interior:
Primeira Parte: A Vida que herdamos
Segunda Parte: Finalidade da Criação
Semelhança e não Igualdade
Deus decidiu nos criar e designou-nos uma finalidade: Temporal e Eterna.
Nesta finalidade única, há dois interesses: Sua Glória e nossa Felicidade : um me é proposto e o outro, imposto
De minha parte devo unir estes dois interesses, devo, porque embora Deus já os tenha unido em seu desígnio, Ele confiou á minha liberdade - que implica em responsabilidade e se exerce na provação -, o poder de uni-los ou separa-los. Não posso jamais impedir a glória de Deus, mas posso deixar de obter a felicidade.
Cabe a nós, associa-los; mas como? Em pé de igualdade ou de semelhança? - De semelhança, sim; pois fomos criados á imagem e semelhança de Deus, e somos chamados a desenvolver esta semelhança. De igualdade não, porque Deus está essencialmente acima de nós, homens - o divino é necessariamente anterior e superior ao humano.
A essência dos seres manifesta a supremacia absoluta de Deus; a anterioridade indica que Ele deve preceder, e sua superioridade, que Ele deve reger o ser humano.
A essência inteligível:
Deus é eterno em si mesmo, sem começo nem fim. Antes que qualquer coisa existisse, Ele era. Antes de toda a criação, qualquer glória que lhe dariam as suas obras já era, assim como Ele, a finalidade suprema, a única absoluta, a única necessária; tão necessária, tão absoluta, que antes mesmo que qualquer coisa existisse, já era verdade, eterna e invariavelmente verdade, que todos os seres não poderiam existir senão para a glória de seu Autor.
O modo de glorifica-LO, a medida da honra que prestamos à Deus, pode variar ao infinito, segundo a natureza e a ação dos seres, variando conforme a conduta e a capacidade de cada um. Será mais meritória a glória que presto a Deus, segundo a conformação da minha vontade para com Ele. Mesmo que eu não me eleve até o modo supremo de glorificação que corresponde à perfeita fidelidade, de qualquer forma o glorifico, nem que seja lhe proporcionando a glória do castigo merecido e da vitória que a justiça obtém por meio deste castigo.
Os modos de glorificação não fazem parte da essência absoluta, e sim, a obrigação que temos, inerente a toda criatura de estar relacionada de alguma forma, embora na medida própria de seu ser, à glória do Criador. Dar glória a Deus, faz parte da constituição própria do ser, já que sem isso, deixaríamos de existir. Ela penetra tão profundamente a natureza do homem e domina tão plenamente sua vida, que mesmo os condenados, sob o peso da justiça, rendem a Deus, a contragosto, a glória que não quiseram prestar-lhe livremente, sob as solicitações de sua misericórdia. Deus tudo fez para si mesmo: tudo, mesmo o ímpio ao qual está reservada a desgraça eterna (Pv 16,4)
Minha felicidade faz parte da essência das coisas?
Nada neste mundo reclamava minha existência, portanto, Deus poderia não me ter criado. Ele nos criou, portanto, livremente, por um decreto gratuito de sua bondade. E, a partir do instante que me criou, a essência absoluta de sua natureza e da minha, exigia que fosse para sua glória. Mas nada o obrigava a me dar a graça, para me elevar a Ele de forma sobrenatural, participando de sua própria vida. Se participamos hoje de sua própria felicidade, pela nova forma de ação dadas as nossas faculdades, para nos unir a Ele, nos capacitando a chegarmos ao fim proposto por Ele mesmo, foi por pura liberalidade e bondade.
A capacidade de busca-lo e a capacidade de me unir a Ele, na visão beatífica, estão presentes em todas as minhas potências, e são dons totalmente gratuitos, reflexo de sua bondade divina.Portanto, a essência das coisas não pedia minha criação, não a exigia, e minha vida sobrenatural é um dom ainda mais gratuito, já que nem minha natureza a reclamava de nenhum modo.
Posso perdê-la
Com efeito, posso sofrer neste mundo e me condenar por toda eternidade, sem perder minha natureza e sem que a ordem essencial seja destruída. Se minha felicidade terrena e minha salvação eterna fossem parte da essência inteligível, eu não poderia absolutamente perde-las; pois o que pertence à essência primordial é invariavelmente necessário e não pode ser de outra forma. Se essas coisas estivessem na essência de minha natureza, eu não poderia perde-la sem perder minha própria natureza.
A única coisa que lhe é essencial é a glória de Deus, obtida de alguma forma, mesmo minha salvação, enquanto fonte de felicidade para mim, é coisa relativa, ou melhor, correlativa à glória de Deus.
Baseado no livro: A Vida Interior - François de Sales Pollien
Depois veremos: Anterioridade do divino - que indica que Ele tudo deve preceder
Primeira Parte: A Vida que herdamos
Segunda Parte: Finalidade da Criação
Semelhança e não Igualdade
Deus decidiu nos criar e designou-nos uma finalidade: Temporal e Eterna.
Nesta finalidade única, há dois interesses: Sua Glória e nossa Felicidade : um me é proposto e o outro, imposto
De minha parte devo unir estes dois interesses, devo, porque embora Deus já os tenha unido em seu desígnio, Ele confiou á minha liberdade - que implica em responsabilidade e se exerce na provação -, o poder de uni-los ou separa-los. Não posso jamais impedir a glória de Deus, mas posso deixar de obter a felicidade.
Cabe a nós, associa-los; mas como? Em pé de igualdade ou de semelhança? - De semelhança, sim; pois fomos criados á imagem e semelhança de Deus, e somos chamados a desenvolver esta semelhança. De igualdade não, porque Deus está essencialmente acima de nós, homens - o divino é necessariamente anterior e superior ao humano.
A essência dos seres manifesta a supremacia absoluta de Deus; a anterioridade indica que Ele deve preceder, e sua superioridade, que Ele deve reger o ser humano.
A essência inteligível:
Deus é eterno em si mesmo, sem começo nem fim. Antes que qualquer coisa existisse, Ele era. Antes de toda a criação, qualquer glória que lhe dariam as suas obras já era, assim como Ele, a finalidade suprema, a única absoluta, a única necessária; tão necessária, tão absoluta, que antes mesmo que qualquer coisa existisse, já era verdade, eterna e invariavelmente verdade, que todos os seres não poderiam existir senão para a glória de seu Autor.
O modo de glorifica-LO, a medida da honra que prestamos à Deus, pode variar ao infinito, segundo a natureza e a ação dos seres, variando conforme a conduta e a capacidade de cada um. Será mais meritória a glória que presto a Deus, segundo a conformação da minha vontade para com Ele. Mesmo que eu não me eleve até o modo supremo de glorificação que corresponde à perfeita fidelidade, de qualquer forma o glorifico, nem que seja lhe proporcionando a glória do castigo merecido e da vitória que a justiça obtém por meio deste castigo.
Os modos de glorificação não fazem parte da essência absoluta, e sim, a obrigação que temos, inerente a toda criatura de estar relacionada de alguma forma, embora na medida própria de seu ser, à glória do Criador. Dar glória a Deus, faz parte da constituição própria do ser, já que sem isso, deixaríamos de existir. Ela penetra tão profundamente a natureza do homem e domina tão plenamente sua vida, que mesmo os condenados, sob o peso da justiça, rendem a Deus, a contragosto, a glória que não quiseram prestar-lhe livremente, sob as solicitações de sua misericórdia. Deus tudo fez para si mesmo: tudo, mesmo o ímpio ao qual está reservada a desgraça eterna (Pv 16,4)
Minha felicidade faz parte da essência das coisas?
Nada neste mundo reclamava minha existência, portanto, Deus poderia não me ter criado. Ele nos criou, portanto, livremente, por um decreto gratuito de sua bondade. E, a partir do instante que me criou, a essência absoluta de sua natureza e da minha, exigia que fosse para sua glória. Mas nada o obrigava a me dar a graça, para me elevar a Ele de forma sobrenatural, participando de sua própria vida. Se participamos hoje de sua própria felicidade, pela nova forma de ação dadas as nossas faculdades, para nos unir a Ele, nos capacitando a chegarmos ao fim proposto por Ele mesmo, foi por pura liberalidade e bondade.
A capacidade de busca-lo e a capacidade de me unir a Ele, na visão beatífica, estão presentes em todas as minhas potências, e são dons totalmente gratuitos, reflexo de sua bondade divina.Portanto, a essência das coisas não pedia minha criação, não a exigia, e minha vida sobrenatural é um dom ainda mais gratuito, já que nem minha natureza a reclamava de nenhum modo.
Posso perdê-la
Com efeito, posso sofrer neste mundo e me condenar por toda eternidade, sem perder minha natureza e sem que a ordem essencial seja destruída. Se minha felicidade terrena e minha salvação eterna fossem parte da essência inteligível, eu não poderia absolutamente perde-las; pois o que pertence à essência primordial é invariavelmente necessário e não pode ser de outra forma. Se essas coisas estivessem na essência de minha natureza, eu não poderia perde-la sem perder minha própria natureza.
A única coisa que lhe é essencial é a glória de Deus, obtida de alguma forma, mesmo minha salvação, enquanto fonte de felicidade para mim, é coisa relativa, ou melhor, correlativa à glória de Deus.
Baseado no livro: A Vida Interior - François de Sales Pollien
Depois veremos: Anterioridade do divino - que indica que Ele tudo deve preceder
quarta-feira, 2 de maio de 2012
Padre Antonio
Por Gustavo Corção
Numa cidadezinha perdida e esquecida, lá nos confins deste tão imenso Brasil, existe uma igreja quase sem existir.
Em torno, mil ou duas mil almas mais ou menos desalmadas; dentro, um velho vigário a fazer contas intermináveis, e um padre coadjutor, na sacristia, a olhar o morro, a linha férrea lá longe, o rio, talvez o céu. Já traz cinzas na cabeça e uma curvatura nas costas, mas naquele momento o que mais lhe pesa é a solidão que cerca a velhice que se aproxima. Está ali. Não é nada.
Não sente forças para fazer nada pela vila indiferente que quer viver sua vida rotineiramente encaminhada para a morte. Sente-se inútil a mais não poder. Quer que ele celebre a única missa da féria, e com uma só porta apenas entreaberta. Precaução aliás inútil porque ninguém mais aparece nas missas dos dias da semana. O povo não gostou quando o vigário tirou os santos que há mais de cem anos povoavam a velha igrejinha. Diminuiu a assistência à missa, diminuíram as confissões. A conversa com o vigário, na hora do jantar, reduz-se a monossílabos.
Padre Antônio torna a pensar nas coisas que se perderam: a água benta, a oração do terço à noite, os santinhos que dava aos moleques na rua com magnanimidade, e tudo o mais que fazia companhia, que cercava a alma da gente nas igrejinhas da roça. Por que esta devastação? O vigário não gosta de abordar o assunto. Sofre a seu modo, com a tenacidade obtusa dos animais feridos. Cerra os dentes. Não pensa. Não fala. Faz o que o bispo mandou fazer e encerra-se num mutismo quase vegetal.
Às vezes parece ter gosto de transmitir seu sofrimento fazendo um outro sofrer. É seu modo de conversar, e quem paga é padre Antônio. Um dia padre Antônio não encontrou sua velha batina e teve de pedir uma explicação a d. Ana e ao vigário. Explicaram-lhe que estava imprestável. Ganharia nova batina? Não. Clergy-man também é muito caro. Padre Antônio deveria comprar na loja do João Mansur umas calças de lonita e duas camisas esporte. E é com esta roupa pobre que padre Antônio agora se debruça na janela e consulta o infinito. Pobre, pobre padre Antônio. Ele nunca foi propriamente vaidoso e preocupado com a roupa que haveria de vestir, como aconselha Nosso Senhor.
Mas essa história da batina doía-lhe ainda como se estivesse em carne viva, como se 1he tivessem arrancado a pele. E o pior é pensar que é com esta roupa por baixo, esta roupa de rua, esta roupa sem bênçãos que deve celebrar a Santa Missa. Disseram-lhe que era mais prático usar uma só alva por cima do traje esporte. E esta alva não era mais daquelas antigas, rendadas e compridas. Padre Antônio não queria as rendas para si, já que era desgracioso e escuro: queria-as para enfeitar o louvor de Deus.
Mesmo porque, descontada alguma andorinha, nenhum ser vivo aparecia para assistir ao Sacrifício de nosso Salvador. Nem valia a pena bater a campainha. As novas alvas não têm rendas. São ordinárias e curtas, sim, curtas, porque o importante é aparecerem as calças para todo o mundo ver que o padre é homem, como outro homem qualquer. Está na hora de preparar a missa da tarde, e padre Antônio sente a tristeza aumentar. Está só. Está só. Não tem com quem falar. Poderá conversar na farmácia com a turma do gamão do Frederico, mas depois a volta para a casa é ainda mais pesada. Poderá perguntar a d. Emília se está melhor do reumatismo, e a d. Maria se o marido já voltou do Rio. Mas não tem ninguém com quem possa falar, com quem possa desabafar, a quem possa explicar a desmedida tristeza de vestir por cima das calças uma alva sem rendas, e a quem possa dizer a saudade que tem da batina preta, a batina bendita em que um dia amortalhara o homem velho para viver em Cristo Nosso Senhor.
E não tem ninguém a quem possa perguntar tremendo: «O que é que está acontecendo em nossa Igreja? E o Papa?» Ou então alguém, um irmão, um padre, a quem possa dizer com medida indignação: «Não pode ser! Não pode ser! As portas do inferno não prevalecerão!»
Padre Antônio olhou mais uma vez para o horizonte que a noite já escondia. O mundo começava além daquela serra... O mundo! Padre Antonio curvou a cabeça como um condenado. Estava preso! Estava preso! Abriu então as duas mãos grandes e magras que considerou com triste ternura: um dia elas tinham recebido o poder de consagrar o Pão e o Vinho, e de trazer assim ao mundo, como a Virgem Santíssima, o Corpo de Deus.
Mãos grandes, mãos nervosas e escuras, mãos consagradas. Ao menos esta pele não lhe arrancam, esta marca não lhe tiram. Num desamparo infinito padre Antônio contemplava as duas mãos frementes, tão poderosas e tão inúteis. Turvava-se o espírito, vacilava a razão e a fé. Estão ali as mãos. E o resto. E a água benta? o Latim? as coisas da Igreja? As palmas inúteis não respondiam às suas indagações, e até pareciam pedir-lhe uma resolução, uma decisão, já que a mão foi feita mais para fazer do que para pensar...
O que é isto? O que é isto nas palmas das mãos? Estará chovendo? Padre Antônio, padre Antônio, o senhor está chorando. Quem foi que falou? Ninguém. Ninguém. É o próprio padre Antônio que tomou o costume de falar com o padre Antônio. Juntam-se as mãos. E das profundezas dos abismos que todos trazemos, mesmo debaixo de uma camisa esporte, subiu um clamor de aflição: «Usquequo exaltabitur inimicus meus super me? Respice et exaudi me! Respice et exaudi me! Respice et exaudi me, Domine Deus meus...». E então, neste momento infinito, padre Antônio teve a incomparável certeza de que não estava só. (15-2-69)
Fonte: AQUI http://permanencia.org.br/drupal/node/508
Vencendo a indiferença -
Este ensino é uma pérola!
Vejam ao lado a parte 2 e 3
Por Fulton Sheen
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