Infelizmente vivemos hoje um espírito funcionalista que é incapaz de apreciar o valor das coisas belas que não tenham um reflexo imediato no campo da utilidade. Tudo hoje é perecível, tudo hoje é efêmero. Quantas vezes ouvimos pessoas, mesmo católicas, reclamarem da beleza dos vasos sagrados, dos paramentos Papais, da "riqueza da Igreja", do canto gregoriano, do latim na santa Liturgia, como se fossem coisas supérfluas, ou como se a Igreja fosse resolver todos os problemas do mundo se não os utilizassem.
Ao contrário do que muitos pensam, por terem uma visão distorcida de que a Igreja reflete Deus e sua Glória -, a beleza nos eleva, a beleza traz alegria ao coração dos homens e leva ao mundo Deus para curar e salvar este mesmo homem. Nos diz João Paulo II: "O mundo em que vivemos tem necessidade de beleza para não cair no desespero. A beleza é chave do mistério e apelo ao transcendente. É convite a saborear a vida e a sonhar o futuro. Por isso, a beleza das coisas criadas não pode saciar, e suscita aquela arcana saudade de Deus que um enamorado do belo, como S. Agostinho, soube interpretar com expressões incomparáveis: « Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! »(João Paulo II Mensagem do Concílio aos artistas (8 de Dezembro de 1965): AAS 58 (1966), 13 Cf. n. 122.)
E ela serve, sobretudo quando é gratuita, quando não busca utilidade alguma, mas somente a irradiação de Deus. Quem não sabe apreciar o valor gratuito (ou seja, da graça) da beleza, em especial da beleza litúrgica, dificilmente conseguirá realizar um ato adequado de culto divino. Nos diz Von Balthasar: "Quem, ao ouvir falar dela, sorri, julgando-a como um resíduo exótico de um passado burguês, desse se pode ter certeza de que - secreta ou abertamente - já não é capaz de rezar e, depois, tampouco o será de amar" (Glória, p. 11).
No presente, é urgente redescobrir o valor do decoro e da majestade do culto divino. Bento XVI em seus pronunciamentos e sobretudo em suas perfeitas e dignas celebrações, tem nos chamado a entender onde estamos e o que fazemos quando participamos da santa Liturgia. No rito está manifestada a beleza da ação de Deus que santifica o homem, onde O adoramos em todo seu esplendor. A beleza do rito nos chama a viver os dignos mistérios de forma a compreender que apesar de ação divina, fazemos parte dela com todo nosso ser. Ali está presente Deus e o homem. Deus que é adorado e o homem que é beneficiado pela sua graça santificadora. Portanto, a santa liturgia, antes de ser do homem é um ato de próprio Deus e a Ele deve servir. Não cabe aqui satisfazer o gosto de cada um, onde o sentimento supera a espiritualidade e onde se esvazia o Mistério.
Bento XVI nos diz: "A sagrada liturgia da Igreja atrairá o homem da nossa época não vestindo cada vez mais as vestimentas da cotidianidade anônima e cinza, a que já está muito acostumado, mas vestindo o manto real da verdadeira beleza, vestidura sempre nova e jovem, que a faz ser percebida como uma janela aberta ao céu, como ponto de contato com o Deus Uno e Trino, a cuja adoração está ordenada, através da mediação de Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote"
"A verdadeira beleza é o amor de Deus que nos foi revelado definitivamente no mistério pascal. A beleza da liturgia pertence a este mistério; é expressão excelsa da glória de Deus e, de certa forma, constitui o céu que desce à terra (...) Concluindo, a beleza não é um factor decorativo da acção litúrgica, mas seu elemento constitutivo, enquanto atributo do próprio Deus e da sua revelação. Tudo isto nos há-de tornar conscientes da atenção que se deve prestar à acção litúrgica, a fim de que brilhe segundo a sua própria natureza» (Bento XVI Sacramentum Caritatis, n. 35)
A Igreja vive do Mistério Pascal, onde Cristo se entrega por amor a nós e tudo que vivemos em termos litúrgicos, vivemos e atualizamos a ação de Cristo e seu mandato de fazer tudo o que Ele nos ensinou. Portanto, a Celebração Eucarística implica Tradição viva e implica reverência e obediência. Cristo é seu centro e seu fundamento. Para que os fieis participem ativamente e com toda reverência, da celebração dos santos mistérios, estes devem ser celebrados corretamente segundo as normas litúrgicas na sua integridade, porque, como ainda nos diz sua santidade Bento XVI:
" é este modo de celebrar que, há dois mil anos, garante a vida de fé de todos os crentes, chamados a viver a celebração enquanto povo de Deus, sacerdócio real, nação santa. Com efeito, a liturgia, por sua natureza, possui uma tal variedade de níveis de comunicação que lhe permitem cativar o ser humano na sua totalidade. A simplicidade dos gestos e a sobriedade dos sinais, situados na ordem e nos momentos previstos, comunicam e cativam mais do que o artificialismo de adições inoportunas. A atenção e a obediência à estrutura própria do rito, ao mesmo tempo que exprimem a consciência do carácter de dom da Eucaristia, manifestam a vontade que o ministro tem de acolher, com dócil gratidão, esse dom inefável. (1 Pd 2, 4-5.9).(115)
"A predisposição interior de cada sacerdote, de cada pessoa consagrada deve ser a de "nada antepor ao Ofício divino". A beleza desta predisposição interior expressar-se-á na beleza da liturgia, a ponto que onde juntos cantamos, louvamos, exaltamos e adoramos Deus, torna-se presente na terra um pouco de céu. Deveras não é exagerado dizer que numa liturgia totalmente centrada em Deus, nos ritos e nos cânticos, se vê uma imagem da eternidade. De outra forma, como teriam podido os nossos antepassados há centenas de anos construir um edifício sagrado tão solene como este? Já a arquitectura só por si atrai para o alto os nossos sentidos para "aquelas coisas que nenhum olho viu, nenhum ouvido ouviu, nem jamais passou pelo pensamento do homem, o que Deus preparou para aqueles que O amam" (cf. 1 Cor 2, 9). Em cada forma de empenho pela liturgia o critério determinante deve ser sempre o olhar dirigido para Deus. Nós estamos diante de Deus Ele fala-nos e nós falamos com Ele. Quando, nas reflexões sobre a liturgia, nos perguntamos como torná-la atraente, interessante e bela, o jogo já está feito. Ou ela é opus Dei com Deus como sujeito específico ou não o é. Neste contexto peço-vos: realizai a sagrada liturgia tendo o olhar em Deus na comunhão dos Santos, da Igreja vivente de todos os lugares e de todos os tempos, para que se torne expressão da beleza e da sublimidade do Deus amigo dos homens" (Bento XVI aos monges reunidos na abadia de Heiligenkreuz - Austria)
" As nossas liturgias da terra, inteiramente dedicadas a celebrar este acto único da história, não conseguirão nunca expressar totalmente a sua densidade infinita. Sem dúvida, a beleza dos ritos nunca será bastante procurada, nem suficientemente cuidada nem assaz elaborada, porque nada é demasiado belo para Deus, que é a Beleza infinita. As nossas liturgias terrestres não poderão ser senão um pálido reflexo da liturgia que se celebra na Jerusalém do céu, ponto de chegada da nossa peregrinação na terra. Possam, porém, as nossas celebrações aproximar-se o mais possível dela, permitindo-nos antegozá-la!(Bento XVI Catedral de Notre-Dame, Paris)
Portanto, diante disso, como haveremos de nos portar quando formos á casa do Senhor e participar de seu Santo Sacrifício?
A Doutrina Católica, a vida dos Santos, o Itinerário Espiritual do Cristão, me fascinam. Leio tudo incansavelmente e trago para o Blog. Que ele sirva de formação para perseverarmos na verdade da fé, defendendo-nos contra as astúcias do inimigo, para a Glória de Nosso Senhor.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Beleza e Liturgia
quarta-feira, 23 de maio de 2012
E nós nos gloriamos da Cruz
Por Gustavo Corção
"Hoje já é possível ser católico sem encontrar nas portas de engraxates os poemas que zombam e os tratados que provam; de todo um volumoso lixo dum século racionalista sobrou apenas a poeira leve dum ateísmo crônico que funciona nos cursos oficiais.
Depois de Newman, de Maritain, de Karl Adam, o Catolicismo oferece nos mercados do pensamento alguns títulos de vitória intelectual, e agora, quando ouvimos falar de evolucionismo ou positivismo, somos nós que sorrimos e temos material para fácil escárnio.
Realmente, depois do século do vapor e da eletricidade, podemos tirar nossa esperada desforra e arvorar nossa glória intelectual com nomes prestigiosos de autores que todo o mundo respeita. É a nossa vez. Temos Maritain, Chesterton, Newman, Adam. Contam de Bergson que se converteu pouco antes de morrer. Temos o imenso Bloy, Péguy, Bernanos; temos Guardini, Dom Vonier, Dom Marmion....
O convertido encontra um caminho largo e fácil, tendo razão contra a tolice elementar das academias; em cada esquina aumenta seu triunfo porque em cada passo encontra mais um nome de autor respeitado ou grande convertido.
E lá vai ele, o novo cristão, contente, tendo razão, contente em ter razão, sem ouvir os antigos sarcasmos e até recebendo de vez em quando os cumprimentos respeitosos dos senhores bem vestidos que ficam conversando nas portas sobre mulheres ou gasogênio. Lá vai ele, o novo cristão, com sua coroa imaginária, com sua euforia de sujeito que acertou, tendo razão num mundo em que os próprios ministros de nações poderosas já falam em civilização cristã.
O caminho parece fácil e largo; mais adiante um pouco, ali mesmo naquela volta do caminho, naquele ângulo do calendário, marcado por um solstício e por um plenilúnio, dir-se-ia que ele encontrará um monumento enguirlandado, um arco triunfal, um obelisco: mas de repente ele encontra a Cruz.
Esse momento é decisivo e essa prova é sempre dura; a glória da Cruz, vista pela fé, é uma prova que o homem novo tem de carregar todos os dias, entrando em luta com o homem velho que se tinha instalado no mundo com suas convicções, seus tiques intelectuais e sobretudo seu critério de vitória. Justamente quando lhe parecia estar próximo um novo triunfo, um acréscimo de prestígio, um formidável sucesso, ele esbarra na Cruz.
O homem novo sobressalta-se e esperneia sob o aguilhão; apalpa-se, busca apoio no seu próprio discernimento que até ali o servia como bússula fiel para indicar com nitidez os caminhos da credibilidade e que agora perece ter enlouquecido sob a ação de estranho magnetismo. Ele mesmo pedira a fé. Pusera de joelhos seu corpo, sua alma, suas convicções, sua inteligência, pusera tudo de joelhos; submetera a razão à prova última do reconhecimento e do amor; escolhera, decidira casar-se em vez de ficar a vida inteira excogitando; optara; pedira a Deus com amoroso temor a nova aliança de noivado....E agora, ao levantar-se, sente nos ombros o peso duma Cruz"
Veja: Padre Antonio
Fonte: A descoberta do Outro.
Marcadores:
Autores Ilustres,
Gustavo Corção
terça-feira, 22 de maio de 2012
Santa Rita de Cássia
Simplesmente Maravilhoso! Santa Rita de Cássia - Rogai por nós!
Santa Rita de Cássia
Por Joâo Paulo II
"De todos é conhecido como o itinerário terreno da Santa de Cássia se articula em diversos estados de vida, cronologicamente sucessivos e — o que mais vale — dispostos numa ordem ascendente, que marca as diversas fases de desenvolvimento da sua vida de união com Deus.
Porque Rita é santa?
Não tanto pela fama dos prodígios que a devoção popular atribui à eficácia da sua intercessão junto de Deus omnipotente, quanto pela admirável "normalidade" da existência quotidiana, por ela vivida antes como esposa e mãe, depois como viúva e enfim como monja agostiniana.
Era uma desconhecida jovenzinha dessa Terra, que no calor do ambiente familiar aprendera o hábito à tenra piedade para com o Criador na visão, que já é um ensinamento, do sugestivo cenário dos apeninos. Onde esteve então a razão da sua santidade? E onde a heroicidade das suas virtudes?
Vida tranquila e própria da região da úmbria era a sua, sem o relevo de acontecimentos externos, no momento em que, contra as suas preferências pessoais, abraçou o estado matrimonial. Torna-se assim esposa, revelando-se logo como verdadeiro anjo do lar e desenvolvendo uma acção resoluta em transformar o comportamento do esposo.
E também foi mãe, alegrada pelo nascimento de dois filhinhos, pelos quais, após a traiçoeira morte do marido, tanto receou e sofreu, no temor de que nas suas almas surgisse até mesmo o vislumbre de um desejo de vingança contra os assassinos do pai. Da sua parte, tinha-lhes generosamente perdoado, determinando também a pacificação das famílias.
Já viúva, pouco depois perdeu os filhos, de tal sorte que, estando livre de qualquer vínculo terreno, decidiu entregar-se toda a Deus. Mas também neste caso sofreu tormentos e contradições, até que pôde realizar o ideal que se lhe mostrara sorridente desde a primeira juventude, consagrando-se ao Senhor no mosteiro de Santa Maria Madalena.
A humilde existência, aqui transcorrida por cerca de quarenta anos, foi igualmente desconhecida aos olhos do mundo e aberta só à intimidade com Deus. Foram, aqueles, anos de assídua contemplação, anos de penitências e de orações, que culminaram naquela chaga que se lhe imprimiu dolorosa na fronte. Na verdade este sinal do espinho, para além do sofrimento físico a ela causado, foi como o sigilo das suas provações interiores, mas sobretudo foi a prova da sua directa participação na Paixão de Cristo, centralizada — por assim dizer — num dos momentos mais dramáticos, como foi o da coroação de espinhos no pretório de Pilatos (cf. Mt 27, 29; Mc 15, 17; Jo 19, 2.5).
É aqui, portanto, que se precisa reconhecer o vértice da sua ascese mística; aqui a profundidade de um sofrimento que foi tal a determinar um vestígio somático externo. E aqui ainda se descobre um significativo ponto de contacto entre os dois filhos da úmbria, Rita e Francisco. Na realidade, o que foram os estigmas para o "Poverello", foi o espinho para Rita: isto é, um sinal, aqueles e este, em directa associação à Paixão redentora de Cristo Senhor, coroado de agudos espinhos após a cruenta flagelação e, sucessivamente, trespassado pelos pregos e ferido pela lança no Calvário.
Tal associação estabeleceu-se em ambos os Santos na mesma base daquele amor, que tem intrínseca força unitiva, e precisamente por aquele doloroso espinho a Santa das rosas se torna vivo símbolo de amorosa co-participação nos sofrimentos do Salvador. Como a rosa do amor é então viçosa e perfumada, quando está associada ao espinho do sofrimento! Assim foi em Cristo, modelo supremo; assim foi em Francisco; assim foi em Rita. Na verdade, também Ela sofreu e amou: amou a Deus e amou os homens; sofreu por amor de Deus e sofreu por causa dou homens.
Portanto, o gradual suceder-se das várias etapas no seu caminho terreno revela em Rita um paralelo crescimento de amor até àquele estigma que, assim como dá a medida adequada da sua elevação, também explica porque a sua meiga figura exerce tanto atractivo entre os fiéis, que celebram o seu nome e exaltam o seu admirável poder junto do trono de Deus.
Filha espiritual de Santo Agostinho, colocou em prática os ensinamentos dele, embora não os tenha lido nos livros. Aquele que às mulheres consagradas tinha tanto recomendado "seguissem o Cordeiro por onde quer que fosse" e "contemplassem com os olhos interiores as chagas do Crucificado, as cicatrizes do Ressuscitado, o sangue daquele que morria (...), tudo avaliando na balança da caridade" (cf. De sancta virginitate, 52, 54, 55; PL 40, 428), foi obedecido "ad litteram" por Rita que, especialmente nos quarenta anos de vida claustral, demonstrou a continuidade e a firmeza do contacto estabelecido com a vítima divina do Gólgota.
A lição da Santa — convém precisar — concentra-se nestes elementos típicos de espiritualidade: a oferta do perdão e a aceitação do sofrimento, não já por uma forma de passiva resignação ou como fruto de feminina debilidade, mas em virtude daquele amor por Cristo, que precisamente no recordado episódio da coroação sofreu, com as outras humilhações, uma atroz paródia da sua realeza.
Alimentado por esta cena, que não sem motivo a tradição da Igreja inseriu no centro dos "mistérios dolorosos do Santo Rosário, o misticismo de Santa Rita une-se de novo ao mesmo ideal, vivido em primeira pessoa e não simplesmente enunciado pelo Apóstolo Paulo: Ego... stigmata Domini Jesu in corpore me o porto (Gál 6, 17); Adimpleo ea, quae desunt passionum Christi, in carne mea pro corpore eius, quod est Ecclesia (Col 1, 24).
Também este último elemento é preciso salientar, isto é, a destinação eclesial dos méritos da Santa: separada do mundo e intimamente associada ao Cristo que sofre. Ela fez refluir na comunidade dos irmãos o fruto deste seu "sofrer junto".
Realmente Rita é ao mesmo tempo a "mulher forte" e "a virgem prudente", de que nos fala a Sagrada Escritura (Prov. 31, 10 ss.; Mt 25, 1 ss.), que em todos os estados de vida indica, e não já por palavras, qual seja a via autêntica para a santidade como fiel seguimento de Cristo até à cruz. Por isto a todos os seus devotos, espalhados por todas as partes do mundo, desejei repropor a sua meiga e sofredora figura com o augúrio de que, nela inspirando-se, queiram corresponder — cada um no estado de vida que lhe é próprio — à vocação cristã nas suas exigências de clareza, de testemunho e de coragem: sic luceat lux vestra coram hominibus... (Mt 5, 16).
Santa Rita - Rogai por Nós!
"De todos é conhecido como o itinerário terreno da Santa de Cássia se articula em diversos estados de vida, cronologicamente sucessivos e — o que mais vale — dispostos numa ordem ascendente, que marca as diversas fases de desenvolvimento da sua vida de união com Deus.
Porque Rita é santa?
Não tanto pela fama dos prodígios que a devoção popular atribui à eficácia da sua intercessão junto de Deus omnipotente, quanto pela admirável "normalidade" da existência quotidiana, por ela vivida antes como esposa e mãe, depois como viúva e enfim como monja agostiniana.
Era uma desconhecida jovenzinha dessa Terra, que no calor do ambiente familiar aprendera o hábito à tenra piedade para com o Criador na visão, que já é um ensinamento, do sugestivo cenário dos apeninos. Onde esteve então a razão da sua santidade? E onde a heroicidade das suas virtudes?
Vida tranquila e própria da região da úmbria era a sua, sem o relevo de acontecimentos externos, no momento em que, contra as suas preferências pessoais, abraçou o estado matrimonial. Torna-se assim esposa, revelando-se logo como verdadeiro anjo do lar e desenvolvendo uma acção resoluta em transformar o comportamento do esposo.
E também foi mãe, alegrada pelo nascimento de dois filhinhos, pelos quais, após a traiçoeira morte do marido, tanto receou e sofreu, no temor de que nas suas almas surgisse até mesmo o vislumbre de um desejo de vingança contra os assassinos do pai. Da sua parte, tinha-lhes generosamente perdoado, determinando também a pacificação das famílias.
Já viúva, pouco depois perdeu os filhos, de tal sorte que, estando livre de qualquer vínculo terreno, decidiu entregar-se toda a Deus. Mas também neste caso sofreu tormentos e contradições, até que pôde realizar o ideal que se lhe mostrara sorridente desde a primeira juventude, consagrando-se ao Senhor no mosteiro de Santa Maria Madalena.
A humilde existência, aqui transcorrida por cerca de quarenta anos, foi igualmente desconhecida aos olhos do mundo e aberta só à intimidade com Deus. Foram, aqueles, anos de assídua contemplação, anos de penitências e de orações, que culminaram naquela chaga que se lhe imprimiu dolorosa na fronte. Na verdade este sinal do espinho, para além do sofrimento físico a ela causado, foi como o sigilo das suas provações interiores, mas sobretudo foi a prova da sua directa participação na Paixão de Cristo, centralizada — por assim dizer — num dos momentos mais dramáticos, como foi o da coroação de espinhos no pretório de Pilatos (cf. Mt 27, 29; Mc 15, 17; Jo 19, 2.5).
É aqui, portanto, que se precisa reconhecer o vértice da sua ascese mística; aqui a profundidade de um sofrimento que foi tal a determinar um vestígio somático externo. E aqui ainda se descobre um significativo ponto de contacto entre os dois filhos da úmbria, Rita e Francisco. Na realidade, o que foram os estigmas para o "Poverello", foi o espinho para Rita: isto é, um sinal, aqueles e este, em directa associação à Paixão redentora de Cristo Senhor, coroado de agudos espinhos após a cruenta flagelação e, sucessivamente, trespassado pelos pregos e ferido pela lança no Calvário.
Tal associação estabeleceu-se em ambos os Santos na mesma base daquele amor, que tem intrínseca força unitiva, e precisamente por aquele doloroso espinho a Santa das rosas se torna vivo símbolo de amorosa co-participação nos sofrimentos do Salvador. Como a rosa do amor é então viçosa e perfumada, quando está associada ao espinho do sofrimento! Assim foi em Cristo, modelo supremo; assim foi em Francisco; assim foi em Rita. Na verdade, também Ela sofreu e amou: amou a Deus e amou os homens; sofreu por amor de Deus e sofreu por causa dou homens.
Portanto, o gradual suceder-se das várias etapas no seu caminho terreno revela em Rita um paralelo crescimento de amor até àquele estigma que, assim como dá a medida adequada da sua elevação, também explica porque a sua meiga figura exerce tanto atractivo entre os fiéis, que celebram o seu nome e exaltam o seu admirável poder junto do trono de Deus.
Filha espiritual de Santo Agostinho, colocou em prática os ensinamentos dele, embora não os tenha lido nos livros. Aquele que às mulheres consagradas tinha tanto recomendado "seguissem o Cordeiro por onde quer que fosse" e "contemplassem com os olhos interiores as chagas do Crucificado, as cicatrizes do Ressuscitado, o sangue daquele que morria (...), tudo avaliando na balança da caridade" (cf. De sancta virginitate, 52, 54, 55; PL 40, 428), foi obedecido "ad litteram" por Rita que, especialmente nos quarenta anos de vida claustral, demonstrou a continuidade e a firmeza do contacto estabelecido com a vítima divina do Gólgota.
A lição da Santa — convém precisar — concentra-se nestes elementos típicos de espiritualidade: a oferta do perdão e a aceitação do sofrimento, não já por uma forma de passiva resignação ou como fruto de feminina debilidade, mas em virtude daquele amor por Cristo, que precisamente no recordado episódio da coroação sofreu, com as outras humilhações, uma atroz paródia da sua realeza.
Alimentado por esta cena, que não sem motivo a tradição da Igreja inseriu no centro dos "mistérios dolorosos do Santo Rosário, o misticismo de Santa Rita une-se de novo ao mesmo ideal, vivido em primeira pessoa e não simplesmente enunciado pelo Apóstolo Paulo: Ego... stigmata Domini Jesu in corpore me o porto (Gál 6, 17); Adimpleo ea, quae desunt passionum Christi, in carne mea pro corpore eius, quod est Ecclesia (Col 1, 24).
Também este último elemento é preciso salientar, isto é, a destinação eclesial dos méritos da Santa: separada do mundo e intimamente associada ao Cristo que sofre. Ela fez refluir na comunidade dos irmãos o fruto deste seu "sofrer junto".
Realmente Rita é ao mesmo tempo a "mulher forte" e "a virgem prudente", de que nos fala a Sagrada Escritura (Prov. 31, 10 ss.; Mt 25, 1 ss.), que em todos os estados de vida indica, e não já por palavras, qual seja a via autêntica para a santidade como fiel seguimento de Cristo até à cruz. Por isto a todos os seus devotos, espalhados por todas as partes do mundo, desejei repropor a sua meiga e sofredora figura com o augúrio de que, nela inspirando-se, queiram corresponder — cada um no estado de vida que lhe é próprio — à vocação cristã nas suas exigências de clareza, de testemunho e de coragem: sic luceat lux vestra coram hominibus... (Mt 5, 16).
Santa Rita - Rogai por Nós!
Marcadores:
Festas da Igreja,
Santos
Chesterton
"Agora um filho é o sinal e sacramento próprio da liberdade pessoal. Ele é uma vontade livre nova adicionada às vontades do mundo; ele é algo que seus pais têm escolhido livremente produzir e o qual eles concordam livremente em proteger. Eles podem sentir qualquer divertimento que ele dá (que normalmente é considerável) realmente vêm dele e deles de mais ninguém. Ele tem nascido sem a intervenção de nenhum senhor ou lorde. Ele é uma criação e uma contribuição; ele é sua própria contribuição criativa a criação. Ele é também uma coisa muito mais bonita, maravilhosa, divertida e surpreendente do que qualquer das musicas de histórias velhas ou jazz a tilintar produzidas pelas maquinas.
Quando os homens não sentem mais que ele é tal, eles então perderam a apreciação das coisas primárias, e, portanto todo senso de proporção acerca do mundo. Pessoas que preferem os prazeres mecânicos, a tal milagre, estão exaustas e escravizadas. Elas estão preferindo as próprias escorias da vida a as primeiras fontes da vida. Elas estão preferindo as coisas, últimas, tortas, indiretas, emprestadas, repetidas e esgotadas da nossa civilização capitalista que está morrendo, a realidade que é o único rejuvenescimento de toda a civilização. São eles que estão pondo nos braços as correntes da sua velha escravidão; esse é o filho que está pronto para o mundo novo. "
Mais de Chesterton AQUI
segunda-feira, 21 de maio de 2012
A superioridade de Deus
Adaptação do livro A Vida Interior - de François Sales Pollien
Primeira parte: A Vida que herdamos
Segunda parte: A finalidade da criação
Terceira parte: O ordenamento de minhas relações divinas
Quarta parte: A anterioridade de Deus
Os direitos de Deus
Mas o divino não é somente anterior ao humano, é também superior.
A anterioridade afirma os direitos de Deus a receber minhas homenagens; a superioridade estabelece o seu direito de ditar as regras segundo as quais devo servi- Lo.
Tanto sua anterioridade e superioridade, atestam Seus direitos sobre tudo que existe, e proclamam em si, a razão do que devo fazer e do modo como devo fazê-Lo.
A impiedade rejeita a todo custo os direitos de Deus e a piedade muitas vezes a ignora. Jamais, por nossa própria conta, os situaríamos demasiadamente alto, uma vez que somente a sua elevação pode elevar-me. Quanto mais Deus dominar minha vida, mais a atrairá a Si e mais perto de participar de sua herança, dos bens de seu reino, e de reinar com Ele eternamente na glória da eternidade, estarei.
Seus direitos resultam da Criação
O direito que Deus tem de reger o que Ele criou é uma necessária decorrência do fato criador. Qual o homem que tendo plantado uma arvore, não teria direitos sobre seus frutos? E, no entanto, ainda que ele seja dono da arvore, não fez a terra, nem a semente, nem os elementos, nem os instrumentos de seu crescimento, nem suas energias, nem suas leis. Ainda assim, quem poderia contestar seus direitos de produtor?
Pois bem, se a razão reconhece a inegável legitimidade de tal domínio, quanto mais deverá afirmar a soberania absoluta de Deus sobre o homem que dele provém inteiramente, alma e corpo, faculdades e aptidões, vida e vitalidade!
O Senhor
Por direito de criação, Deus é Senhor absoluto - Ele o diz e pretende continuar sendo, como nos demonstram as Sagradas Escrituras. O que foi o AT senão uma afirmação, durante 40 anos de seu direito de posse? Ele os proclamou antes que fossem desrespeitados e por várias vezes reiterou suas declarações diante de tantas infrações. Inúmeras são as passagens onde Ele disse: "Sou eu o Senhor". Assim Ele proclama seu senhorio sobre o universo e tudo o que nele contém. Bençãos e Castigos vem de suas mãos.. Se alguém viola seu domínio, ele vinga a ofensa, a quem respeita sua autoridade, Ele recompensa a fidelidade.
A terrível liberdade do homem se levanta com frequência contra Deus , mas suas desgraças atestam que os direitos soberanos não dormem. Pode-se ataca-los, mas eles nunca perderão a validade. Deus é o Senhor e permanece sendo o Senhor, acima de todas as ingratidões, impiedades e esquecimentos.
O Servo
Se Deus é Senhor, o homem é o servo, se o Senhor comanda, o servo obedece. Como Deus não abre mão de seus direitos, o servo está obrigado à obediência. O universo lhe pertence, é governado por sua Providência. O homem, que é seu servo e que Ele quer tornar filho e herdeiro, é dirigido por sua Paternidade. Ele deu suas leis ao mundo e as criaturas obedecem as suas ordens e a seu governo. O homem também recebeu suas leis; por que será que entre as criaturas é ele o único a transgredir as disposições e a orientação de seu Autor?
Triste espetáculo o dessa criatura privilegiada, que se serve dos próprios privilégios de sua grandeza para colocar-se abaixo de todas as criaturas obedientes! Ele é chamado a ser um servidor livre, súdito voluntário, filho dedicado; e sua liberdade rejeita o jugo, sua vontade nega a dominação, sua filiação insulta a Paternidade. Sendo assim, como estranhar que ele sofra tão lamentável desgraças? Isto bem revela o quanto a glória dada ao Senhor é a única fonte de felicidade para o servo.
Na dependência absoluta
Em nenhuma criatura há coisa alguma que não esteja inteiramente nas mãos de Deus. Tudo em minha vida lhe está submetido, mesmo que forçosamente. E como quero ordenar minha existência segundo a correção exigida pela lei da minha criação, devo concluir que nenhum dos meus movimentos livres, pode subtrair-se à direção de Deus que me possui.
O Senhor espera e tem direito a meus frutos de glória; ele espera e tem direito à direção do meu trabalho, Ele espera e tem direito à escolha dos meus métodos.
Para que eu possa conformar minha vontade com a Sua, é preciso que eu a conheça, como fim a atingir, como caminho a seguir e como meios a utilizar; que conhecendo eu me apegue a ela; e que a ela tendo me apegado; a ele me devote. Assim Ele será meu Senhor e eu serei o Seu servo. E se eu souber, como servo bom e fiel -, seguir o Mestre segundo suas próprias instruções, chegarei, segundo Sua promessa, lá onde Ele se encontra; e, depois de o ter servido, serei coroado de honra por Seu Pai (Jo 12,26)
Depois veremos: O uso das criaturas
Fonte: A vida interior - de François Sales Pollien
domingo, 20 de maio de 2012
Ascensão do Senhor
"Hoje, celebramos o mistério da Ascensão do Senhor. É mistério porque brota do coração de Deus, é mistério porque ultrapassa tudo quanto possamos imaginar, é mistério porque nos dá a vida eterna.
A hodierna Solenidade, caríssimos, é uma só com a do Dia de Páscoa: Aquele que admiramos ressuscitado em glória na Ressurreição, hoje, contemplamo-lo à Direita de Deus, com a mesma autoridade do Pai, e o proclamamos Cabeça da Igreja, Senhor sobre toda a criação, sobre toda a humanidade, Princípio e Fim da história humana e Juiz dos vivos e dos mortos. No Dia da Páscoa contemplamos o Cristo resplendente de Glória; na Festa de hoje, contemplamos o que essa glória significa para nós todos.
Eis, caríssimos no Senhor. Primeiramente, a Ascensão do Senhor nos faz compreender com o coração que o Cristo que por nós se fez homem, como um de nós viveu e por nós morreu, ele mesmo, agora, com a sua humanidade glorificada, está à Direita do Pai. Isto é admirável: um da nossa raça, o homem Jesus, participa agora do mesmo poder divino, acima de todas as criaturas. Que mistério: nele, a nossa humanidade está totalmente glorificada! Como dizia a oração inicial desta Santa Missa, “a Ascensão do Filho já é a nossa vitória” porque nós, enxertados nele, a ele unidos no Batismo e na Eucaristia, somos membros do seu Corpo, que é a Igreja; e sabemos: onde já está a nossa Cabeça, estaremos também nós um dia! Como diz a segunda leitura da Missa de hoje, chegaremos “todos juntos à unidade da fé e do conhecimento do filho de Deus, ao estado do homem perfeito e à estatura de Cristo em sua plenitude”. Vede, portanto, caríssimos, que destino a Festa deste hoje nos revela: chegar à estatura do Cristo em sua plenitude! Nada menos que isso pode saciar o coração humano; nada menos que isso pode nos contentar, pode nos dar paz! Olhemos para o Cristo glorioso à Direita do Pai e veremos a que somos chamados… Contemplai, pois o nosso destino! Pensai que miséria a do nosso mundo, que vive de bagatelas, empenha todo o seu afeto com futilidades e procura alegria e plenitude no que é efêmero! Tanto maior a grandeza que contemplamos em Cristo, mais deveria nos espantar a ilusão e alienação do mundo atual! Recordai, caros, a exortação do Apóstolo: “Esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à Direita de Deus; aspirai Às coisas celestes e não às coisas terrestres. Quando Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com ele, revestidos de glória” (Cl 3,1-4).
Em segundo lugar, sentado como Senhor à Direita do Pai, Jesus é o Senhor do universo e de toda a história. Vede a criação, caríssimos! Pensai nas galáxias, recordai as estrelas, imaginai a riqueza de vida nas profundezas do mar, pensai ainda na sede de infinito do coração humano… De tudo isso Cristo é Senhor; tudo caminha para ele, ele é a Finalidade de tudo… também da história humana. Por mais que o homem pecador trame contra Cristo, por mais que o mundo hodierno volte suas costas ao Senhorio do Ressuscitado, tudo caminha para ele e ele triunfará ao fim de tudo – ele é o Alfa e o Ômega, o A e o Z, o Princípio e o Fim de todas as coisas!
Por tudo isso, ele é o Juiz de tudo quanto existe. Terá valido a pena, terá sentido, o que estiver sob o seu senhorio de paz, de amor, de vida, de justiça e de santidade. Tudo quanto não condisser com o seu reinado perecerá, passará, pois não servirá para mais nada a não ser para ser jogado fora e pisado pelos homens.
Mais ainda: o Senhor Jesus, hoje no mais alto dos céus, é Cabeça da Igreja. Aquele que é o Unigênito de Deus, pela sua ressurreição e pelo dom do seu Espírito, tornou-se o Primogênito de muitos irmãos, Cabeça do seu Corpo, que é a Igreja. Eis, meus irmãos: o Cristo pleno de glória que está nos céus, é nossa cabeça e dele continuamos recebendo a vida, que é o próprio Espírito Santo. Esta vida vem-nos sobretudo nos sacramentos, especialmente da Eucaristia, na qual recebemos o Cristo morto e ressuscitado, pleno do Santo Espírito, Senhor que dá a vida. Olhando para Aquele que está à Direita do Pai e é nossa Cabeça e Princípio, como não nos alegrar? Como não nos encher de esperança? Como não ter a certeza que nossa vida caminha para a Plenitude? Não estamos sozinhos, irmãos! A Igreja jamais estará sozinha – seu Senhor é o mesmo que está à direita do Pai; seu Esposo e Cabeça é o Rei da Glória!
Por fim, caríssimos, a Festa de hoje – que, de certo modo já nos prepara para o encerramento do Tempo da Páscoa, com o Santo Pentecostes, no próximo Domingo -, a Festa de hoje nos convida a colocar os pés nas estradas do mundo – na nossa família, no nosso trabalho, entre os nossos amigos, na vida social… pés nas estradas do mundo para proclamar o Senhorio de Cristo. Lembrai-vos hoje da sua promessa, lembrai-vos da sua missão: “Recebereis o poder do Espírito Santo que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas até os confins da terra!” Coragem, pois, caríssimos! Se conhecermos Jesus de verdade, se o experimentarmos realmente na nossa vida, se crermos na sua glória e esperarmos com todo nosso coração participar dela, seremos, então, suas testemunhas e nossa convicção, nosso amor e nossa esperança invencível contagiarão a muitos.
Portanto, “homens da Galiléia, por que estais admirados, olhando para o céu? Este Jesus há de voltar, do mesmo modo que o vistes subir!” Façamos, pois, como nossos irmãos das origens que saíram e pregaram por toda parte. O Senhor os ajudava e confirmava sua palavra por meio dos sinais que a acompanhavam”. Que assim seja! Amém"
Fonte: Site Presbítero
sábado, 19 de maio de 2012
Mistério de Fé
Por João Paulo II
« O Senhor Jesus, na noite em que foi entregue » (1 Cor 11, 23), instituiu o sacrifício eucarístico do seu corpo e sangue. As palavras do apóstolo Paulo recordam-nos as circunstâncias dramáticas em que nasceu a Eucaristia. Esta tem indelevelmente inscrito nela o evento da paixão e morte do Senhor. Não é só a sua evocação, mas presença sacramental. É o sacrifício da cruz que se perpetua através dos séculos. Esta verdade está claramente expressa nas palavras com que o povo, no rito latino, responde à proclamação « mistério da fé » feita pelo sacerdote: « Anunciamos, Senhor, a vossa morte ».
A Igreja recebeu a Eucaristia de Cristo seu Senhor, não como um dom, embora precioso, entre muitos outros, mas como o dom por excelência, porque dom d'Ele mesmo, da sua Pessoa na humanidade sagrada, e também da sua obra de salvação. Esta não fica circunscrita no passado, pois « tudo o que Cristo é, tudo o que fez e sofreu por todos os homens, participa da eternidade divina, e assim transcende todos os tempos e em todos se torna presente ».(Catecismo n.1085)
Quando a Igreja celebra a Eucaristia, memorial da morte e ressurreição do seu Senhor, este acontecimento central de salvação torna-se realmente presente e « realiza-se também a obra da nossa redenção ». Este sacrifício é tão decisivo para a salvação do género humano que Jesus Cristo realizou-o e só voltou ao Pai depois de nos ter deixado o meio para dele participarmos como se tivéssemos estado presentes.
Assim cada fiel pode tomar parte nela, alimentando-se dos seus frutos inexauríveis. Esta é a fé que as gerações cristãs viveram ao longo dos séculos, e que o magistério da Igreja tem continuamente reafirmado com jubilosa gratidão por dom tão inestimável.[..] Que mais poderia Jesus ter feito por nós?Verdadeiramente, na Eucaristia demonstra-nos um amor levado até ao « extremo » (cf. Jo13, 1), um amor sem medida.
Este aspecto de caridade universal do sacramento eucarístico está fundado nas próprias palavras do Salvador. Ao instituí-lo, não Se limitou a dizer « isto é o meu corpo », « isto é o meu sangue », mas acrescenta: « entregue por vós (...) derramado por vós » (Lc 22, 19-20). Não se limitou a afirmar que o que lhes dava a comer e a beber era o seu corpo e o seu sangue, mas exprimiu também o seu valor sacrificial, tornando sacramentalmente presente o seu sacrifício, que algumas horas depois realizaria na cruz pela salvação de todos. « A Missa é, ao mesmo tempo e inseparavelmente, o memorial sacrificial em que se perpetua o sacrifício da cruz e o banquete sagrado da comunhão do corpo e sangue do Senhor ».
A Igreja vive continuamente do sacrifício redentor, e tem acesso a ele não só através duma lembrança cheia de fé, mas também com um contacto actual, porque este sacrifício volta a estar presente, perpetuando-se, sacramentalmente, em cada comunidade que o oferece pela mão do ministro consagrado. Deste modo, a Eucaristia aplica aos homens de hoje a reconciliação obtida de uma vez para sempre por Cristo para humanidade de todos os tempos.
Com efeito, « o sacrifício de Cristo e o sacrifício da Eucaristia são um único sacrifício ». Já o afirmava em palavras expressivas S. João Crisóstomo: « Nós oferecemos sempre o mesmo Cordeiro, e não um hoje e amanhã outro, mas sempre o mesmo. Por este motivo, o sacrifício é sempre um só. [...] Também agora estamos a oferecer a mesma vítima que então foi oferecida e que jamais se exaurirá ».(Homilias sobre a Carta aos Hebreus, 17, 3: PG 63, 131.)
A Missa torna presente o sacrifício da cruz; não é mais um, nem o multiplica. O que se repete é a celebração memorial, a « exposição memorial » (memorialis demonstratio), de modo que o único e definitivo sacrifício redentor de Cristo se actualiza incessantemente no tempo. Portanto, a natureza sacrificial do mistério eucarístico não pode ser entendida como algo isolado, independente da cruz ou com uma referência apenas indirecta ao sacrifício do Calvário.
Em virtude da sua íntima relação com o sacrifício do Gólgota, a Eucaristia é sacrifício em sentido próprio, e não apenas em sentido genérico como se se tratasse simplesmente da oferta de Cristo aos fiéis para seu alimento espiritual. Com efeito, o dom do seu amor e da sua obediência até ao extremo de dar a vida (cf. Jo 10,17-18) é em primeiro lugar um dom a seu Pai. Certamente, é um dom em nosso favor, antes em favor de toda a humanidade (cf. Mt26, 28; Mc 14, 24; Lc 22, 20; Jo 10, 15), mas primariamente um dom ao Pai: « Sacrifício que o Pai aceitou, retribuindo esta doação total de seu Filho, que Se fez “obediente até à morte” (Flp 2, 8), com a sua doação paterna, ou seja, com o dom da nova vida imortal na ressurreição ».(João Paulo II, Carta enc. Redemptor hominis)
Ao entregar à Igreja o seu sacrifício, Cristo quis também assumir o sacrifício espiritual da Igreja, chamada por sua vez a oferecer-se a si própria juntamente com o sacrifício de Cristo. Assim no-lo ensina o Concílio Vaticano II: « Pela participação no sacrifício eucarístico de Cristo, fonte e centro de toda a vida cristã, [os fiéis] oferecem a Deus a vítima divina e a si mesmos juntamente com ela ».
A Páscoa de Cristo inclui, juntamente com a paixão e morte, a sua ressurreição. Assim o lembra a aclamação da assembleia depois da consagração: « Proclamamos a vossa ressurreição ». Com efeito, o sacrifício eucarístico torna presente não só o mistério da paixão e morte do Salvador, mas também o mistério da ressurreição, que dá ao sacrifício a sua coroação. Por estar vivo e ressuscitado é que Cristo pode tornar-Se « pão da vida » (Jo 6, 35.48), « pão vivo » (Jo 6, 51), na Eucaristia. S. Ambrósio lembrava aos neófitos esta verdade, aplicando às suas vidas o acontecimento da ressurreição: « Se hoje Cristo é teu, Ele ressuscita para ti cada dia ». Por sua vez, S. Cirilo de Alexandria sublinhava que a participação nos santos mistérios « é uma verdadeira confissão e recordação de que o Senhor morreu e voltou à vida por nós e em nosso favor ».
15. A reprodução sacramental na Santa Missa do sacrifício de Cristo coroado pela sua ressurreição implica uma presença muito especial, que – para usar palavras de Paulo VI – « chama-se “real”, não a título exclusivo como se as outras presenças não fossem “reais”, mas por excelência, porque é substancial, e porque por ela se torna presente Cristo completo, Deus e homem ». Reafirma-se assim a doutrina sempre válida do Concílio de Trento: « Pela consagração do pão e do vinho opera-se a conversão de toda a substância do pão na substância do corpo de Cristo nosso Senhor, e de toda a substância do vinho na substância do seu sangue; a esta mudança, a Igreja católica chama, de modo conveniente e apropriado, transubstanciação ».
Verdadeiramente a Eucaristia é mysterium fidei, mistério que supera os nossos pensamentos e só pode ser aceite pela fé, como lembram frequentemente as catequeses patrísticas sobre este sacramento divino. « Não hás-de ver – exorta S. Cirilo de Jerusalém – o pão e o vinho [consagrados] simplesmente como elementos naturais, porque o Senhor disse expressamente que são o seu corpo e o seu sangue: a fé t'o assegura, ainda que os sentidos possam sugerir-te outra coisa ».
« Adoro te devote, latens Deitas »: continuaremos a cantar com S. Tomás, o Doutor Angélico. Diante deste mistério de amor, a razão humana experimenta toda a sua limitação. Permanece o limite apontado por Paulo VI: « Toda a explicação teológica que queira penetrar de algum modo neste mistério, para estar de acordo com a fé católica deve assegurar que na sua realidade objectiva, independentemente do nosso entendimento, o pão e o vinho deixaram de existir depois da consagração, de modo que a partir desse momento são o corpo e o sangue adoráveis do Senhor Jesus que estão realmente presentes diante de nós sob as espécies sacramentais do pão e do vinho ».
A eficácia salvífica do sacrifício realiza-se plenamente na comunhão, ao recebermos o corpo e o sangue do Senhor. O sacrifício eucarístico está particularmente orientado para a união íntima dos fiéis com Cristo através da comunhão: recebemo-Lo a Ele mesmo que Se ofereceu por nós, o seu corpo entregue por nós na cruz, o seu sangue « derramado por muitos para a remissão dos pecados » (Mt 26, 28).
Recordemos as suas palavras: « Assim como o Pai, que vive, Me enviou e Eu vivo pelo Pai, assim também o que Me come viverá por Mim » (Jo 6, 57). O próprio Jesus nos assegura que tal união, por Ele afirmada em analogia com a união da vida trinitária, se realiza verdadeiramente. A Eucaristia é verdadeiro banquete, onde Cristo Se oferece como alimento. A primeira vez que Jesus anunciou este alimento, os ouvintes ficaram perplexos e desorientados, obrigando o Mestre a insistir na dimensão real das suas palavras: « Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós » (Jo 6, 53). Não se trata de alimento em sentido metafórico, mas « a minha carne é, em verdade, uma comida, e o meu sangue é, em verdade, uma bebida » (Jo 6, 55).
Através da comunhão do seu corpo e sangue, Cristo comunica-nos também o seu Espírito. Escreve S. Efrém: « Chamou o pão seu corpo vivo, encheu-o de Si próprio e do seu Espírito. [...] E aquele que o come com fé, come Fogo e Espírito. [...] Tomai e comei-o todos; e, com ele, comei o Espírito Santo. De facto, é verdadeiramente o meu corpo, e quem o come viverá eternamente ».(Homilia IV para a Semana Santa: CSCO 413 / Syr. 182, 55.)
A Igreja pede este Dom divino, raiz de todos os outros dons, na epiclese eucarística. Assim reza, por exemplo, a Divina Liturgia de S. João Crisóstomo: « Nós vos invocamos, pedimos e suplicamos: enviai o vosso Santo Espírito sobre todos nós e sobre estes dons, [...] para que sirvam a quantos deles participarem de purificação da alma, remissão dos pecados, comunicação do Espírito Santo ».E, no Missal Romano, o celebrante suplica: « Fazei que, alimentando-nos do Corpo e Sangue do vosso Filho, cheios do seu Espírito Santo, sejamos em Cristo um só corpo e um só espírito ». Assim, pelo dom do seu corpo e sangue, Cristo aumenta em nós o dom do seu Espírito, já infundido no Baptismo e recebido como « selo » no sacramento da Confirmação.
A aclamação do povo depois da consagração termina com as palavras « Vinde, Senhor Jesus », justamente exprimindo a tensão escatológica que caracteriza a celebração eucarística (cf. 1 Cor 11, 26). A Eucaristia é tensão para a meta, antegozo da alegria plena prometida por Cristo (cf. Jo 15, 11); de certa forma, é antecipação do Paraíso, « penhor da futura glória ».A Eucaristia é celebrada na ardente expectativa de Alguém, ou seja, « enquanto esperamos a vinda gloriosa de Jesus Cristo nosso Salvador ». Quem se alimenta de Cristo na Eucaristia não precisa de esperar o Além para receber a vida eterna: já a possui na terra, como primícias da plenitude futura, que envolverá o homem na sua totalidade.
De facto, na Eucaristia recebemos a garantia também da ressurreição do corpo no fim do mundo: « Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia » (Jo 6, 54). Esta garantia da ressurreição futura deriva do facto de a carne do Filho do Homem, dada em alimento, ser o seu corpo no estado glorioso de ressuscitado. Pela Eucaristia, assimila-se, por assim dizer, o « segredo » da ressurreição. Por isso, S. Inácio de Antioquia justamente definia o Pão eucarístico como « remédio de imortalidade, antídoto para não morrer ».
De facto, na Eucaristia recebemos a garantia também da ressurreição do corpo no fim do mundo: « Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia » (Jo 6, 54). Esta garantia da ressurreição futura deriva do facto de a carne do Filho do Homem, dada em alimento, ser o seu corpo no estado glorioso de ressuscitado. Pela Eucaristia, assimila-se, por assim dizer, o « segredo » da ressurreição. Por isso, S. Inácio de Antioquia justamente definia o Pão eucarístico como « remédio de imortalidade, antídoto para não morrer ».
A tensão escatológica suscitada pela Eucaristia exprime e consolida a comunhão com a Igreja celeste. Não é por acaso que, nas Anáforas orientais e nas Orações Eucarísticas latinas, se lembra com veneração Maria sempre Virgem, Mãe do nosso Deus e Senhor Jesus Cristo, os anjos, os santos apóstolos, os gloriosos mártires e todos os santos. Trata-se dum aspecto da Eucaristia que merece ser assinalado: ao celebrarmos o sacrifício do Cordeiro unimo-nos à liturgia celeste, associando-nos àquela multidão imensa que grita: « A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro » (Ap 7, 10). A Eucaristia é verdadeiramente um pedaço de céu que se abre sobre a terra; é um raio de glória da Jerusalém celeste, que atravessa as nuvens da nossa história e vem iluminar o nosso caminho.
Consequência significativa da tensão escatológica presente na Eucaristia é o estímulo que dá à nossa caminhada na história, lançando uma semente de activa esperança na dedicação diária de cada um aos seus próprios deveres. De facto se a visão cristã leva a olhar para o « novo céu » e a « nova terra » (Ap 21, 1), isso não enfraquece, antes estimula o nosso sentido de responsabilidade pela terra presente.
Desejo reafirmá-lo com vigor ao início do novo milénio, para que os cristãos se sintam ainda mais decididos a não descurar os seus deveres de cidadãos terrenos. Têm o dever de contribuir com a luz do Evangelho para a edificação de um mundo à medida do homem e plenamente conforme ao desígnio de Deus.
Desejo reafirmá-lo com vigor ao início do novo milénio, para que os cristãos se sintam ainda mais decididos a não descurar os seus deveres de cidadãos terrenos. Têm o dever de contribuir com a luz do Evangelho para a edificação de um mundo à medida do homem e plenamente conforme ao desígnio de Deus.
Muitos são os problemas que obscurecem o horizonte do nosso tempo. Basta pensar quanto seja urgente trabalhar pela paz, colocar sólidas premissas de justiça e solidariedade nas relações entre os povos, defender a vida humana desde a concepção até ao seu termo natural. E também que dizer das mil contradições dum mundo « globalizado », onde parece que os mais débeis, os mais pequenos e os mais pobres pouco podem esperar? É neste mundo que tem de brilhar a esperança cristã! Foi também para isto que o Senhor quis ficar connosco na Eucaristia, inserindo nesta sua presença sacrificial e comensal a promessa duma humanidade renovada pelo seu amor.
É significativo que, no lugar onde os Sinópticos narram a instituição da Eucaristia, o evangelho de João proponha, ilustrando assim o seu profundo significado, a narração do « lava-pés », gesto este que faz de Jesus mestre de comunhão e de serviço (cf. Jo13, 1-20). O apóstolo Paulo, por sua vez, qualifica como « indi- gna » duma comunidade cristã a participação na Ceia do Senhor que se verifique num contexto de discórdia e de indiferença pelos pobres (cf. 1 Cor 11, 17-22.27-34).
É significativo que, no lugar onde os Sinópticos narram a instituição da Eucaristia, o evangelho de João proponha, ilustrando assim o seu profundo significado, a narração do « lava-pés », gesto este que faz de Jesus mestre de comunhão e de serviço (cf. Jo13, 1-20). O apóstolo Paulo, por sua vez, qualifica como « indi- gna » duma comunidade cristã a participação na Ceia do Senhor que se verifique num contexto de discórdia e de indiferença pelos pobres (cf. 1 Cor 11, 17-22.27-34).
Anunciar a morte do Senhor « até que Ele venha » (1 Cor 11, 26) inclui, para os que participam na Eucaristia, o compromisso de transformarem a vida, de tal forma que esta se torne, de certo modo, toda « eucarística ». São precisamente este fruto de transfiguração da existência e o empenho de transformar o mundo segundo o Evangelho que fazem brilhar a tensão escatológica da celebração eucarística e de toda a vida cristã: « Vinde, Senhor Jesus! » (cf. Ap 22, 20).
Fonte: Ecclesia da Eucharistia
Fonte: Ecclesia da Eucharistia
Assinar:
Postagens (Atom)








