quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Maria, a Rainha

Por Bento XVI


Catequese 
Castel Gandolfo
Quarta-feira, 22 de agosto de 2012


"Hoje celebramos a festa da Santíssima Virgem Maria, invocada com o título: "Rainha". É uma  festa criada recentemente, mas antiga na origem e na devoção. Foi estabelecida pelo Venerável Pio XII, em 1954, no final do Ano Mariano, para o dia 31 de maio (cf. Carta Apostólica Ad caeli Reginam, 11 octobris 1954: AAS 46 [1954], 625-640). Nesta ocasião, o Papa disse que a Maria é rainha mais  que qualquer outra criatura pela elevação de sua alma e a excelência dos dons recebidos. Ela nunca deixa de conceder os tesouros de seu amor e seu cuidado para a humanidade (cf. Discurso em honra de Maria Rainha, 1º de novembro de 1954). Mas após a reforma pós-conciliar do calendário litúrgico foi estipulada para oito dias após a Solenidade da Assunção para enfatizar a estreita relação entre a realeza de Maria e sua glorificação em alma e corpo junto ao seu Filho. Na Constituição sobre a Igreja do Concílio Vaticano II lemos assim: "Maria foi assunta à glória celeste e exaltada por Deus como Rainha do universo, para que fosse plenamente conformada a seu Filho" (Lumen gentium, 59).

E esta é a origem da festa de hoje: Maria é rainha porque é associada de forma única a seu Filho, tanto na vida terrena, como na glória do céu. O grande santo da Síria, Efrém da Síria, afirma, sobre a realeza de Maria, que ela vem de sua maternidade: Ela é a Mãe do Senhor, o Rei dos reis (cf. Is 9,1-6) e nos mostra Jesus como vida, salvação e nossa esperança. O Servo de Deus Paulo VI recordou na Exortação Apostólica Marialis Cultus: "Na Virgem Maria tudo é relativo a Cristo e tudo depende dele: em vista Dele, o Pai, desde toda a eternidade, a escolheu Mãe, toda santa, e a adornou dos dons do Espírito, concedidos a mais ninguém"(n. 25).

Mas agora nos perguntamos: o que significa Maria Rainha? É apenas um título como os outros, a coroa, um ornamento como os outros? O que quer dizer? O que significa esta realeza? Como já indicado, é uma conseqüência do seu ser unido ao Filho, do seu ser no céu, que está em comunhão com Deus. Ela participa da responsabilidade de Deus para com o mundo e do amor de Deus pelo mundo. Há uma idéia comum, de rei ou rainha: seria uma pessoa com poder e riqueza. Mas este não é o tipo de realeza de Jesus e Maria. Pensemos no Senhor: a realeza, a condição de rei de Cristo é revestida de humildade, serviço, amor: é, acima de tudo, servir, ajudar, amar.

Lembremo-nos de que Jesus foi proclamado rei na cruz com a inscrição escrita por Pilatos: "Rei dos Judeus" (cf. Mc. 15,26). Naquele momento na cruz se prova que Ele é rei. E como é rei? Sofrendo conosco, por nós, amando até o fim e assim governa e inaugura o amor, a verdade e a justiça. Ou pensemos também em outro momento: na Última Ceia inclina-se para lavar os pés dos seus. A realeza de Jesus não tem nada a ver com a dos poderosos da terra. É um rei que serve os seus servos, assim agiu em toda sua vida. E o mesmo vale para Maria: é Rainha no serviço a Deus para a humanidade, é rainha do amor, que vive o dom de si a Deus para entrar no plano de salvação do homem. Ao anjo responde: Eis aqui a serva do Senhor (cf. Lc. 1,38) e canta no Magnificat: Deus olhou para a humildade de sua serva (cf. Lc. 1,48). Ela nos ajuda. É rainha amando-nos, ajudando-nos em todas as nossas necessidades, é a nossa irmã, serva humilde.

E assim chegamos ao ponto: como Maria exerceu a realeza de serviço e amor? Cuidando de nós, seus filhos, os filhos que se voltam a ela em oração, para agradecer ou para pedir sua proteção maternal e ajuda celeste, talvez depois de terem se perdido no caminho, oprimidos pela dor ou angústia, pelas tristes e incômodas vicissitudes da vida. Na serenidade ou na escuridão da existência, voltamo-nos a Maria, confiando em sua contínua intercessão, para que do Filho possamos obter toda a graça e misericórdia necessária para a nossa peregrinação ao longo da estrada do mundo. A Ele, que governa o mundo e detém os destinos do universo, nós nos voltamos confiantes, através da Virgem Maria. Ela, pelos séculos, é invocada como uma rainha celeste do Céu; oito vezes, depois da oração do Santo Rosário é invocada na ladainha lauretana como a Rainha dos Anjos, dos patriarcas, profetas, apóstolos, mártires, confessores, virgens, todos os Santos e todas as famílias. O ritmo dessas invocações antigas e orações diárias como a Salve Rainha, ajuda-nos a compreender que a Virgem Santíssima, nossa Mãe junto a seu Filho Jesus na glória do céu, está sempre conosco, no desenrolar cotidiano da nossa vida.

O título de rainha é, então, título de confiança, de alegria, de amor. E sabemos que aquela que tem nas mãos o destino do mundo é boa, nos ama e nos ajuda em nossas dificuldades.

Queridos amigos, a devoção a Nossa Senhora é um elemento importante da vida espiritual. Em nossa oração, não deixemos de recorrer confiantes a ela. Maria não deixará de interceder por nós junto a seu Filho. Olhando para ela, imitemos a fé, a disponibilidade plena no projeto de amor de Deus, o generoso acolhimento de Jesus. Aprendamos a viver como Maria. Maria é a Rainha do céu perto de Deus, mas é também a mãe perto de cada um de nós, que nos ama e ouve a nossa voz. Obrigado pela atenção




terça-feira, 21 de agosto de 2012

Nova Edição da revista In Guardia


Nesse mês de agosto, mês das vocações, temos a satisfação de entregar a todos os nossos leitores a 7ª Edição da Revista In Guardia.

Com essa edição comemoramos nosso primeiro aniversário, nosso primeiro ano.

Nesse último ano tivemos a oportunidade de conhecer muitos de nossos leitores, muitos católicos ávidos por formação e informação. Fiéis à Igreja e ao Santo Padre. Tivemos a oportunidade de crescer junto com cada um que nos acompanha e ver esse projeto aumentar em amplitude e devoção.

Nessa edição temos em nossa capa São João Maria Vianney, padroeiro de todos os sacerdotes, alguém que não poderia faltar no mês dedicado às vocações. Junto a ele temos aquele que vem trazendo a nós católicos a visão e experiência de um sacerdócio que deve entender a principal missão da Igreja: a salvação das almas.

Parabéns a todos os bispos, sacerdotes, diáconos, vocacionados e também a todos os pais e mães que também tem sua vocação específica destinada a uma igreja doméstica, onde tudo começa. Não nos esqueçamos dos catequistas e tantas outras vocações, enfim parabéns a todos.

Aproveitem  essa edição de aniversário, afinal, continuamos sempre on line e gratuitos.

LINK PARA LER ON LINE

http://is.gd/iFHF4W


LINK PARA DOWNLOAD

http://is.gd/UodClr

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

São Bernardo de Claraval


Por Bento XVI



"Hoje gostaria de falar de São Bernardo de Claraval, chamado "o último dos Padres" da Igreja, porque no século XII, mais uma vez, renovou e tornou presente a grande teologia dos Padres. Não conhecemos os pormenores os anos da sua infância; sabemos contudo que ele nasceu em 1090 em Fontaines na França, numa família numerosa e discretamente abastada. Ainda jovem, prodigalizou-se no estudo das chamadas artes liberais – especialmente da gramática, da retórica e da dialéctica – na escola dos Cónegos da igreja de Saint-Vorles, em Châtillon-sur-Seine e amadureceu lentamente a decisão de entrar na vida religiosa.

Por volta dos vinte anos entrou em Cîteaux, uma fundação monástica nova, mais activa em relação aos antigos e veneráveis mosteiros de então e, ao mesmo tempo, mais rigorosa na prática dos conselhos evangélicos. Alguns anos mais tarde, em 1115, Bernardo foi enviado por Santo Estêvão Harding, terceiro Abade de Cîteaux, para fundar o mosteiro de Claraval (Clairvaux). Aqui o jovem Abade, tinha apenas vinte e cinco anos, pôde apurar a própria concepção da vida monástica, e empenhar-se em pô-la em prática. Olhando para a disciplina de outros mosteiros, Bernardo recordou com decisão a necessidade de uma vida sóbria e comedida, tanto à mesa como no vestuário e nos edifícios monásticos, recomendando o sustento e a atenção aos pobres. Entretanto a comunidade de Claraval tornava-se cada vez mais numerosa, e multiplicava as suas fundações.

Nestes mesmos anos, antes de 1130, Bernardo iniciou uma ampla correspondência com muitas pessoas, quer importantes quer de modestas condições sociais. Às muitas Cartas deste período é preciso acrescentar numerosos Sermões, assim como Sentenças e Tratados. Remonta sempre a este tempo a grande amizade de Bernardo com Guilherme, Abade de Saint-Thierry, e com Guilherme de Champeaux, figuras entre as mais importantes do século XII. A partir de 1130, começou a ocupar-se de muitas e graves questões da Santa Sé e da Igreja. Por este motivo teve que sair cada vez mais do seu mosteiro, e por vezes da França. Fundou também alguns mosteiros femininos, e foi protagonista de um vivaz epistolário com Pedro o Venerável, Abade de Cluny, sobre o qual falei na quarta-feira passada. Dirigiu sobretudo os seus escritos polémicos contra Abelardo, um grande pensador que iniciou um novo modo de fazer teologia, introduzindo sobretudo o método dialéctico-filosófico na construção do pensamento teológico.

 Outra frente contra a qual Bernardo lutou foi a heresia dos Cátaros, que menosprezavam a matéria e o corpo humano, desprezando, por conseguinte, o Criador. Ele, ao contrário, sentiu-se no dever de assumir a defesa dos judeus, condenando as manifestações de anti-semitismo cada vez mais difundidas. Devido a este aspecto da sua acção apostólica, algumas dezenas de anos mais tarde, Ephraim, rabino de Bonn, dirigiu a Bernardo uma vivaz homenagem. Naquele mesmo período o santo Abade escreveu as suas obras mais famosas, como os celebérrimos Sermões sobre o Cântico dos Cânticos. Nos últimos anos da sua vida – a sua morte verificou-se em 1153 – Bernardo teve que limitar as viagens, sem contudo as interromper totalmente. Aproveitou para rever definitivamente o conjunto das Cartas, dos Sermões e dos Tratados. Merece ser mencionado um livro bastante particular, que ele terminou precisamente neste período, em 1145, quando um seu aluno, Bernardo Pignatelli, foi eleito Papa com o nome de Eugénio III.

 Nesta circunstância, Bernardo, como Padre espiritual, escreveu a este seu filho espiritual o texto De Consideratione, que contém ensinamentos para poder ser um bom Papa. Neste livro, que permanece uma leitura conveniente para os Papas de todos os tempos, Bernardo não indica apenas como desempenhar bem o papel de Papa, mas expressa também uma visão profunda do mistério da Igreja e do mistério de Cristo, que no final se resolve na contemplação do mistério de Deus trino e uno:  "Deveria ainda prosseguir a busca deste Deus, que ainda não é bastante procurado", escreve o santo Abade "mas talvez se possa procurar melhor e encontrar mais facilmente com a oração do que com o debate. Ponhamos então aqui um ponto final no livro, mas não na pesquisa" (XIV, 32:  PL 182, 808), no estar a caminho rumo a Deus.

Gostaria de me deter agora só sobre dois aspectos centrais da rica doutrina de Bernardo:  eles referem-se a Jesus Cristo e a Maria santíssima, sua Mãe. A sua solicitude pela participação íntima e vital do cristão no amor de Deus em Jesus Cristo não contribui com novas orientações para o estatuto científico da teologia. Mas, de modo mais do que decidido, o Abade de Clairvaux configura o teólogo com o contemplativo e com o místico. Só Jesus – insiste Bernardo diante dos complexos raciocínios dialécticos do seu tempo – só Jesus é "mel para os lábios, cântico para os ouvidos, júbilo para o coração" (mel in ore, in aure melos, in corde iubilum)".

Vem precisamente daqui o título, a ele atribuído pela tradição, de Doctor mellifluus:  de facto, o seu louvor de Jesus Cristo "escorre como o mel". Nas extenuantes batalhas entre nominalistas e realistas – duas correntes filosóficas da época – o Abade de Claraval não se cansa de repetir que um só nome conta, o de Jesus de Nazaré. "Todo o alimento da alma é árido", confessa, "se não for aspergido com este óleo; insípido, se não for temperado com este sal. Aquilo que escreves para mim não tem sabor, se nisso eu não ler Jesus". E conclui:  "Quando discutes ou falas, para mim nada tem sabor, se eu não ouvir ressoar nisso o nome de Jesus" (Sermones in Cantica Canticorum XV, 6:  PL 183, 847). De facto, para Bernardo o verdadeiro conhecimento de Deus consiste na experiência pessoal, profunda de Jesus Cristo e do seu amor. E isto, queridos irmãos e irmãs, é válido para cada cristão:  a fé é antes de tudo encontro pessoal, íntimo com Jesus, é fazer a experiência da sua proximidade, da sua amizade, do seu amor, e só assim se aprende a conhecê-lo cada vez mais, a amá-lo e a segui-lo sempre mais. Que isto se verifique com cada um de nós!

Noutro célebre Sermão no domingo entre a oitava da Assunção, o santo Abade descreve em termos apaixonados a íntima participação de Maria no sacrifício redentor do Filho. "Ó santa Mãe – exclama ele – deveras uma espada trespassou a tua alma!... A violência da dor trespassou de tal modo a tua alma, que justamente podemos chamar-te mais do que mártir, porque em ti a participação na paixão do Filho superou muito em intensidade os sofrimentos físicos do martírio" (14:  PL 183, 437-438). Bernardo não tem dúvidas:  "per Mariam ad Iesum", através de Maria somos conduzidos até Jesus. Ele testemunha com clareza a subordinação de Maria a Jesus, segundo os fundamentos da mariologia tradicional. Mas o corpo do Sermone documenta também o lugar privilegiado da Virgem na economia da salvação, após a particularíssima participação da Mãe (compassio) no sacrifício do Filho. Não por acaso, um século e meio depois da morte de Bernardo, Dante Alighieri, no último canto da Divina Comédia, colocará nos lábios do "Doutor melífluo" a sublime oração a Maria:  "Virgem Mãe, filha do teu Filho, / humilde e nobre mais do que qualquer criatura, / termo fixo do eterno conselho,..." (Paraíso 33, vv. 1 ss.).

Estas reflexões, características de um apaixonado por Jesus e Maria como São Bernardo, provocam ainda hoje de modo saudável não só os teólogos, mas todos os crentes. Por vezes pretende-se resolver as questões fundamentais sobre Deus, sobre o homem e sobre o mundo unicamente com as forças da razão. São Bernardo, ao contrário, solidamente fundado na Bíblia e nos Padres da Igreja, recorda-nos que sem uma fé profunda em Deus, alimentada pela oração e pela contemplação, por uma relação íntima com o Senhor, as nossas reflexões sobre os mistérios divinos correm o risco de se tornarem uma vã prática intelectual, e perdem a sua credibilidade. A teologia remete para a "ciência dos santos", para a sua intuição dos mistérios do Deus vivo, para a sua sabedoria, dom do Espírito Santo, que se tornam ponto de referência do pensamento teológico. Juntamente com Bernardo de Claraval, também nós devemos reconhecer que o homem procura melhor e encontra mais facilmente Deus "com a oração do que com o debate". No final, a figura mais verdadeira do teólogo e de cada evangelizador permanece a do Apóstolo João, que apoiou a sua cabeça no coração do Mestre.

Gostaria de concluir estas reflexões sobre São Bernardo com as invocações a Maria, que lemos numa sua bonita homilia. "Nos perigos, nas angústias, nas incertezas – diz ele – pensa em Maria, invoca Maria. Que ela nunca abandone os teus lábios, nem o teu coração; e para obteres a ajuda da sua oração, nunca esqueças o exemplo da sua vida. Se a segues, não te podes desviar; se lhe rezas, não te podes desesperar; se pensas nela não podes errar. Se ela te ampara, não cais; se ela te protege, nada temes; se ela te guia, não te cansas; se ela te é propícia, alcançarás a meta..." (Hom. II super "Missus est", 17:  PL 183, 70-71).

Veja também a Carta Encíclica  Doctor Mellifluus - do Sumo Pontífice Papa Pio XII

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Sola Fide - A Salvação só pela Fé?

O Caso dos Cristãos  - Pela lógica e a Bíblia

Lúcio Navarro

Do Livro: A Legítima Interpretação da Bíblia.





Primeira Parte:  A Tese do Pastor - O Caso dos Pagãos

 "Passemos agora às religiões  cristãs, que aceitam a Revelação feita por Nosso Senhor Jesus Cristo. Se elas ensinam que o "homem se  salva pelas obras", estão ensinando uma coisa certa ou errada? Isto depende do sentido que se queira dar à frase.

Se se toma no sentido de que o homem se salva exclusivamente pelas suas obras, desprezando-se a fé, como a desprezam aqueles que dizem "Todas as religiões são boas, vem a dar tudo na mesma coisa; minha religião consiste em fazer o bem", a doutrina está errada.  Foi precisamente para combater este erro, para mostrar que era preciso submeter humildemente a inteligência a todas as verdades por Êle reveladas, que Jesus Cristo tanto insistiu em dizer que - quem crê nÊle se salva, quem não crê se condena.

 Mas, se se toma num sentido que não exclua a obrigação de crer e se leva em conta a absoluta necessidade da graça para a realização das boas obras, a frase tem um sentido legítimo e verdadeiro, perante a razão e perante a Bíblia. Senão, vejamos. Os cristãos, ou aqueles que têm conhecimento da doutrina cristã, Nosso Senhor veio ao mundo para dispensá-los da observância dos mandamentos, impondo-lhes ünicamente a obrigação de crer? Absolutamente não! porque é o próprio Cristo quem diz:  Se tu queres entrar na vida, guarda os mandamentos (Mateus XIX-17).

Absolutamente não! porque ninguém está dispensado de obedecer à voz da consciência, de cumprir esta lei que está escrita no coração humano, se quiser conseguir o Céu. Foram abolidas tôdas as cerimonias e prescrições da lei mosaica, mas o Decálogo ficou de pé, porque é a lei eterna, que rege a alma do homem, é a fonte de toda a moral, de todas as leis.

 O que acontece com o cristão é que, tendo um conhecimento mais vasto das coisas de Deus, dos preceitos e da vontade divina, a observância dos mandamentos lhe abre novos horizontes. Tem maiores obrigações e responsabilidades, desde que por sua vez recebeu maiores luzes, mais abundantes graças e tem mais facilidade para salvar-se. A todo aquele o quem muito foi dado, muito lhe será pedido (Lucas XII-48). Ele sabe que o grande mandamento da lei, é este: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma e de todo o teu entendimento (Mateus XXII-37). Bem como, conhece pelo Evangelho as palavras de Jesus Cristo. Ora, não estará amando a Deus com todo o seu entendimento, se não crer nas palavras do Divino Mestre. Logo, a obrigação de crer nas palavras de Jesus, que são palavras de Deus, pois Jesus Cristo é Deus, já está incluída na lei: observa os mandamentos.

 Porque não posso amar a Deus e, ao mesmo tempo desacreditar a sua palavra. E quando Jesus lhe diz que quem crê nÊle se salva, quem não crê se condena, o cristão sabe que tem que aceitar todas as palavras de Jesus; logo, não pode desprezar a verdade que está contida nestas palavras: Se tu queres entrar na vida, guarda os mandamentos (Mateus XIX-17).

Veja-se, portanto, que equilíbrio, que lógica se encerra na doutrina católica ! Os mandamentos incluem a obrigação da fé em Cristo, e a fé em Cristo traz como consequência a obrigação dos mandamentos.

Desequilíbrio da doutrina dos protestantes. 

Nós lhes apresentamos um número incalculável de pagãos que existiram antes de Cristo ou que existem ainda hoje (milhões dos quais têm adorado o Deus verdadeiro, como os maometanos, por exemplo) pagãos estes que não chegaram a ter conhecimento da doutrina de Cristo e que têm a fé mínima, a que se refere S. Paulo na sua Epístola aos Hebreus, isto é, crêem que existe um Deus e que Êle é  remunerador; quanto ao mais, nada sabem da doutrina revelada. Ora, segundo a doutrina protestante, 
só a fé é que salva, as boas obras do indivíduo não vogam para a salvação. 

Agora perguntamos: esta fé mínima - crer em um Deus Remunerador é suficiente para a salvação ou não?

 Se é suficiente, todos esses pagãos se salvaram ou ainda se salvam, só vão para o inferno os ateus, 
pois segundo os protestantes, o que salva é a fé, e não as obras. Neste  caso, onde está a justiça de Deus, colocando assim no Céu a todo o mundo, indistintamente, sem nenhuma atenção à maneira de proceder de cada um? Se não é suficiente, então todos eles se condenam, mesmo que pratiquem as melhores obras deste mundo e se mostrem corretíssimos na sua maneira de proceder, pois as boas obras, segundo os protestantes, não influem na salvação. Estão esses pagãos irremediavelmente perdidos, porque sua fé é, na hipótese, insuficiente para salvar. Neste caso, onde está a justiça de Deus condenando, por não terem fé em Cristo povos inteiros que, sem culpa sua, desta fé foram privados!

Os protestantes já estão salvos aqui na terra apesar de tôdas as suas faltas e imperfeições, as quais temos todos nós humanos, quando morrem, vão diretamente para o Céu (pois os protestantes não acreditam na existência do purgatório) - mas fora do Protestantismo, são muitos os que inevitavelmente se condenam. Deus seria neste caso, não um Pai de Misericórdia, mas um Soberano evidentemente injusto e monstruoso, que predestina uns para o Céu e outros para a perdição. 

Êste Deus que assim concebem os protestantes, que a inúmeros homens nega qualquer oportunidade 
para se salvarem, pois para a salvação Só aceita a fé e nada mais, mas "Como crerão aquele que não ouviram? e como ouvirão se não houver quem pregue? (Romanos X-14), este Deus tão parcial que 
aos protestantes dá tudo e a outros nega tudo em matéria de salvação, será o mesmo Deus da Bíblia que quer" que todos os homens se salvem "(1.u Timóteo II-4) ? que não tem acepção de pessoas (Romanos II-11, Efésios VI-9, Colossenses III-25; 1 Pedro I-17) ? 

O único Mediador que eles pregam será mesmo Jesus Cristo que se deu a Si mesmo para a redenção de todos?  (1.4 Timóteo II-6), Que é a propiciação dos nossos pecados e não apenas dos nossos, mas do mundo inteiro?(1 João II-2). Não há lógica, portanto, nesta matéria de doutrina da salvação, se não se admite aquilo que vimos agora mesmo a Bíblia dizer pela pena de S. PauÌo, na sua Epístola aos 
Romanos: que Deus há de retribuir a cada um segundo suas obras (Romanos II-6)

Lutero pensava e ainda pensam os protestantes de hoje que se pode alterar facilmente a doutrina verdadeira que Deus deixou neste mundo e que vem sendo ensinada pela sua Igreja, a Igreja Católica. 
Com a sua ampla liberdade para mexer na Bíblia e dela extrair apenas os textos que mais lhes convenham e agradem, os protestantes entenderam de tornar para si muito fácil a salvação, fazendo-a depender somente da fé, tornando-a inteiramente independente das boas obras. Mas ao mesmo tempo a tornaram impossível para os pagãos que nenhum conhecimento tiveram de Nosso Senhor Jesus Cristo. 

A doutrina da salvação só pela fé, sem as obras, logo se fez acompanhar da doutrina horrorosa e blasfema de que Deus predestina uns para o Céu e outros para o inferno, a qual já estava contida claramente nas obras de Lutero e foi abertamente ensinada por Calvino. Por mais que repugne a alguns modernos protestantes esta monstruosa teoria, não há como fugir a ela, na hipótese de que só a fé e nunca as obras do indivíduo é que podem influir na salvação. Aqueles a quem não chega a luz da revelação ficam assim numa situação irremediável. 

No entanto, nada mais contrário ao ensino da Bíblia, segundo a qual Deus é infinitamente bom e quer salvar a todos. E é muito de admirar que os protestantes vejam perigo (de favorecer ao orgulho e à presunção) na teoria de que o homem se salva praticando boas obras - já veremos  até onde existe este perigo na doutrina católica - e não vejam perigo nenhum em ensinar-se ao povo que pela fé ele iá está salvo e que as boas obras não influem nem direta nem indiretamente na salvação da nossa alma... 

Depois veremos: Estranho Remédio para os males do mundo


A Igreja não é refúgio de Carolas

Por Rafael Vitola Brodbeck




"Retiro a expressão que dá título a este artigo do equivalente assinado pelo senador Gilberto Amado, sob o título “O Brasil e a renascença católica”, publicado em 1930. Na ocasião, o ilustre político, que já exaltara as qualidades intelectuais de outros católicos, como o leigo Carlos de Laet e o Cardeal Arcoverde, punha-se a tecer a elegia de Alceu de Amoroso Lima, o “Tristão de Ataíde”.

De fato, ao contrário do que propugnam os anticlericais – tomada a palavra em sua pior acepção –, nunca se opôs a Igreja ao fomento da cultura, da ciência e das artes. Não são seus templos redutos exclusivos de beatas, senhoras piedosas, e homens iletrados. É católica a Igreja, i.e., universal, acolhendo todas as almas, das mais variadas colorações sociais, étnicas e circunstanciais.

Desde seu surgimento, justificou, como pedira o apóstolo São Pedro, as razões de sua esperança. Explicou-se aos romanos perseguidores, desfez os equívocos da heresia – “a verdade que enlouqueceu”, no dizer de Chesterton –, alcançou os simples e os poetas, os analfabetos e os filósofos. Deu-nos gigantes da têmpera de um Jerônimo, de um Irineu, de um Crisóstomo, de um Atanásio e de um Agostinho. Forjou, em Santo Tomás de Aquino, o diálogo perfeito entre as letras clássicas, sobretudo de Aristóteles, e o Evangelho. E legou-nos, dos escombros do Império dilacerado pelos bárbaros – que ela converterá depois, começando pelos francos de Clóvis e Clotilde –, a civilização que não se envergonhou de chamar-se "Cristandade".

Quando se dá conta dessa verdade, o laicista enfurece. Nem todos os Richard Dawkins juntos poderão negar a evidência de que a Igreja de Cristo não só não se opôs ao desenvolvimento humano, científico e literário, como o incentivou positivamente. Mais do que isso: o pensamento cristão é, como direi, uma causa do método científico. Ao conceber um Deus Criador que rege o mundo por leis imutáveis dispostas em sua sabedoria, e não pelo mito ou pelo acaso, põe-se o pensador impregnado de cristianismo a perscrutar essas leis. Daí a física, a biologia, a química, vindas, é claro, do legado helênico - não por acaso, o menos mitológico e o mais próximo, entre os filósofos, da idéia cristã de divindade -, porém elevadas a um patamar talvez impossível sem a fé. O Deus cristão assume a natureza humana, encarna-se, e suas leis passam a ser objeto de estudo. A própria moralidade do bem supremo que é Deus converte-se em paradigma de um novo Direito, que mescla a cientificidade do latino com a humanidade evangélica.

O incremento das modernas técnicas agronômicas cooube aos monges beneditinos e cistercienses, que transformaram lodos e pântanos em locais de pastagem e agricultura, criando mosteiros sustentáveis. As noções de liberdade e moral em economia são fruto dos neoescolásticos de Salamanca. E o Direito Internacional é cria de padres católicos: Francisco Suárez, Francisco de Vitória, Bartolomeu de las Casas.

Contra isso, o laicista se levanta. Pode tolerar a senhora, com seu véu negro, desfiando as contas de seu rosário na igreja à meia-luz. Rasga suas vestes de pavor, entretanto, ao deparar-se com o já citado Chesterton, ou a descobrir que Pascal era cristão - embora jansenista. Quando percebe que Pasteur era católico e devoto, sua ira se intensifica. É-lhe impossível reconhecer, sem rubor ou violência, a profunda fé de inúmeros responsáveis pelo incremento da ciência - além dos referidos Pascal e Pasteur, Mendel, Copérnico, Jerôme Lejeune, descobridor da origem genética da Síndrome de Down e que está em processo de beatificação, Georges Lemâitre, padre que propôs o que viria a ser a Teoria do Big Bang (provando que ciência e relato bíblico não são excludentes), Pierre Pérignon (sim, o inventor do espumante era monge), Landell de Moura, padre gaúcho que inventou o rádio. Descobrindo o catolicismo de intelectuais do calibre do historiador Christopher Dawson, do escritor J.R.R. Tolkien, autor da monumental saga de "O Senhor dos Anéis", do economista Thomas Woods, do arquiteto Gaudí (que logo será beatificado), da medievalista francesa Régine Pernoud, ou dos grandes pensadores convertidos Cardeal Newman, Marcel de Corte, Dietrich von Hildebrand, Hilaire Belloc, Paul Claudel, Jacques e Raíssa Maritain, Santa Edith Stein, ou um cineasta de sucesso como Mel Gibson, não pode o inimigo da religião ficar impune em seu erro.

O Brasil não foge a tão robusta tradição. Herdou de Camões, o pai da última flor do lácio, que insculpiu em seus Lusíadas, a mais varonil fé católica e uma impactante devoção à Cruz e ao Cristo, a formação cristã de seus intelectuais. Daí que nos honremos da fibra de Dom Vital, mártir branco no regime do padroado, a pena polêmica e sagaz de Laet, Arcoverde, Eduardo Prado, Joaquim Nabuco (o patriarca da abolição),  Felício dos Santos, João Gualberto (que refutou magristralmente as tresloucadas teses criminológicas lombrosianas), Júlio Maria, Dom Macedo Costa. Daí o orgulho por Jackson de Figueiredo, por Amoroso Lima, por Leonel Franca, pelo gênio Gustavo Corção, por Maurílio Teixeira-Leite Penido, o grande comentador de Pio XII. Daí a figura ímpar, ainda que por muitos incompreendida, de Plínio Corrêa de Oliveira. Daí a liderança do Cardeal Leme.

Leigos e padres não se furtaram a dar sua contribuição à humanidade. Espiritual e temporal. Tal qual o homem, que não é alma penada, tampouco um cadáver ambulante"

Rafael Vitola Brodbeck, casado e pai de família, é Delegado de Polícia no Rio Grande do Sul, e coordena o Salvem a Liturgia, sendo responsável nesse site pelos textos sobre erros litúrgicos, incentivo ao latim, e comentários sobre rubricas e normas. É membro da Sociedade Internacional Santo Tomás de Aquino (SITA/Roma), e da Academia Marial de Aparecida. Desde 1998, é incorporado ao Regnum Christi. Ministra palestras sobre temas litúrgicos e doutrinários

109 - Qual é a diferença da bíblia católica para a bíblia protestante?

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Sobre o AntiCristo

A presente exposição da doutrina dos santos padres acerca do Anticristo foi pregada pelo autor(Cardeal Newman) em forma de sermões durante o advento de 1835.Uma notável ilustração de tudo quanto foi dito por Newman em seus 4 sermões é constituída pela seguinte passagem extraída de uma carta do Bispo Horsley escrita antes do século 20:



Cardeal Newman:

"Nos tempos do Anticristo a Igreja de Deus sobre a terra verá reduzida grandemente o número aparente de seus fiéis devida a aberta deserção dos poderes deste mundo.Esta deserção começará por uma indiferença a toda forma de cristianismo, sobre a aparência de uma tolerância universal.Mas esta tolerância não procederá de um verdadeiro espírito de caridade e indulgência mas de uma projeto que tem por fim destruir o cristianismo pelo incentivo as seitas.Esta pretensiosa tolerância irá muito mas além de uma justa tolerância a inclusive a que diz respeito as diversas denominações cristãs.Pois os governos pretenderão ser indiferentes a todas e não darão proteção preferencial a nenhuma.

Todas as Igrejas conhecidas serão colocadas de lado.Da tolerância das mas pestíferas heresias passarão logo a tolerância do islamismo, do ateísmo e por fim virá a perseguição explícita da verdade do Cristianismo.Nesses tempos o Templo de Deus se verá reduzido aos santos, isto é, ao pequeno número dos verdadeiros cristãos que adoram o Pai em espírito e em verdade e que regem estritamente sua doutrina e culto e toda sua conduta, pela Palavra de Deus. Os cristãos meramente de nome abandonarão a profissão da verdade quando os poderes deste mundo o façam.

Penso que este trágico sucesso está profetizado pela ordem de São João de medir o templo e o altar e de permitir que o átrio [as igrejas] seja pisoteado pelos pagãos. Os bens do clero serão entregues a pilhagem, o culto público será insultado e rebaixado pelos desertores da fé que uma vez professaram[...]Quando esta deserção geral da fé tiver lugar então começará o ministério das duas testemunhas vestidas de saco (Ap.11 , 3) [Os profetas Elias e Enoc que estão, segundo os padres e doutores da Igreja, sendo mantidos vivos por Deus - segundo as escrituras eles não morreram mas foram arrebatados- até que aparecerão misteriosamente para pregar contra o Anticristo e então mortos].

O esplendor externo das Igrejas desaparecerá, elas não terão apoio dos governos, não receberão honras, nem imunidades, nem recursos, nem autoridade: só terão a autoridade que nenhum poder humano pode lhes tirar, e que elas recebem daquele que lhes encarregou de dar testemunho"

Oxford, na festa de São Pedro, 1838.
Fonte: www.reporterdecristo.com