Por Lucio Navarro
Se aceitamos a Cristo exclusivamente como Salvador, se tapamos a sua boca quando Ele nos vai doutrinar, se não Lhe damos outro direito senão o de estender os braços sobre a cruz e morrer por nós, então é fácil lançarmos mão do Evangelho e fazermos a salvação do tamanho que a quisermos; mas se aceitamos a Cristo integralmente, se O deixamos falar como nosso Legislador, como nosso Mestre, como fundador da sua e nossa Igreja, logo chegaremos à conclusão de que para a salvação, é necessária:
- A observância dos Mandamentos: " Se tu queres entrar na vida, guarde os mandamentos" (Mateus XIX-12);
- São necessárias as boas obras, como se deduz claramente da descrição do juízo final (Mateus XXV-81 a 46):
- É de grande importância a penitência: "ai de ti, Corozain; ai de ti, Betsaida; que se em Tiro e Sidônia se tivessem, obrado as maravilhas que se obraram entre vós, há muito tempo teriam feito penitência, cobrindo-se de saco e cinza. Por isso haverá no dia do juízo menos rigor para Tiro e Sidônia do que para vós. E tu, Cafarnaum, que te elevas até o céu, serás precipitada até aos infernos (Lc X-18 e 14)
- É preciso fazer sacrifícios e renúncias: ,"Se Teu olho te escandaliza, arranca-o fora, melhor te é entrar no reino de Deus sem um olho, do que tendo dois, ser lançado ao fogo do inferno"(Mc IX-46) "Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome sua Cruz cada dia e siga-me"(Lc IX - 23)
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- É preciso orar para se obter a graça, pois sem a graça não se pode praticar a virtude: "Importa orar sempre e não cessar de o fazer". "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação"
- É preciso receber os Sacramentos: "Quem, não renascer da água e do Espírito Santo não pode entrar no reino de Deus". "Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue não tereis a vida em vós" (João VI-54). "Aos que vós perdoardes os pecados, ser-lhe-ão perdoados, e aos que vós os reterdes, ser-lhes-ão eles retidos (João xx-23) ;
- É preciso obedecer à lgreja: "Tudo o que ligares sobre a terra será ligado também nos Céus, e tudo o que desatares sôbre o terra será desatado também, nos Céus" (Mateus XVI-19), disse Jesus a Pedro, pedra da Igreja. E se não ouvir a, Igreja, tenha-o por um gentio ou um publicano (Mateus
xvrrr-17
E veremos que, em vez desta salvação baratíssima, Ele nos prega uma salvação árdua e penosa: "Larga é a porta e espaçoso o caminho que guia, para a perdição e muitos são os que entram por ela. Que estreita é a porta, que apertado o caminho que guia para a vida e que poucos são os que acertam por ele (Mateus VII - 13,14)
Por que motivo então havemos de aceitar a Cristo como Aquêle quenos dá a salvação e não havemos de aceita-Lo como Aquêle que tem o direito de nos impor, de nos indicar as condições em que esta salvação é obtida?
Reduzindo a fé que salva à simples aceitação de Cristo como Salvador e ao mesmo tempo dando a cada um o direito de interpretar a Bíblia como bem entende, o Protestantismo abre o Céu de par em par a todos os hereges. Isto de doutrina, de ensinamentos de Cristo passa a ter muito pouca importância, cada um os aceita como acha mais conveniente; o que vale somente para a vida eterna é aceitar a Cristo como SALVADOR.
Como veremos mais adiante há, entre os protestantes, uns que negam a Santíssima Trindade e outros
que a admitem; uns que dizem que Jesus Cristo é Deus, e outros, que é um simples homem: uns que crêem na existência do inferno e outros que a rejeitam; uns que admitem a imortalidade da alma e outros que a negam; uns que crêem que Jesus está realmente presente na Eucaristia e outros que dizem que a Eucaristia não é mais do que pão e vinho; uns que batizam e outros que não batizam etc, etc.
Todos êstes entram de roldão no Céu. Pois a pergunta de ordem é somente esta: Aceitais a Cristo como vosso único e Suficiente Salvador, como vosso Salvador Pessoal?
- Aceitamos - respondem todos.
Pois então, todos estais salvos.
Não se podia inventar uma doutrina que fôsse mais a gôsto para contentar a todos os hereges. Além disto (e a questão agora é com aqueles inúmeros protestantes que acham que aquele que aceitou a Cristo como Salvador já não se pode perder mais) perguntamos: "Um homem se arrependeu de seus pecados e aceitou a Cristo como Salvador. De agora por diante, que homem vai ser êle? O mesmo homem combatido pelas paixões próprias e pelas tentações do inimigo, livre para pecar ou deixar de pecar - ou um homem impecável?
Cada um olhe sinceramente para si e veja se se tornou impecável, depois que aceitou a Cristo como Salvador... Se este homem depois peca, engolfa-se no pecado, não se arrepende mais, não quer mais emendar-se, como pode ter já neste mundo a salvação garantida? A salvação dada por Cristo será uma licença ampla para cada um fazer o que bem lhe apraz e ir para o Céu de qualquer jeito? Ou, por acaso, estão os protestantes confiados em que aquêle que pecava quando tinha medo da condenação eterna, agora espontaneamente, vai deixar de pecar, depois que se considera já com a salvação garantida? Isto seria ser ingênuo demais e não ter nenhum conhecimento do que é a nossa natureza humana.
Fonte: A Legítima Interpretação da Bíblia - Lúcio Navarro
Mais do Estudo AQUI
Depois veremos: A Bíblia mal compreendida
A Doutrina Católica, a vida dos Santos, o Itinerário Espiritual do Cristão, me fascinam. Leio tudo incansavelmente e trago para o Blog. Que ele sirva de formação para perseverarmos na verdade da fé, defendendo-nos contra as astúcias do inimigo, para a Glória de Nosso Senhor.
domingo, 16 de setembro de 2012
sábado, 15 de setembro de 2012
Nossa Senhora das Dores

NOSSA SENHORA DAS DORES, memória
De pé a Mãe dolorosa,
junto da cruz, lacrimosa,
via Jesus que pendia.
No coração transpassado
sentia o gládio enterrado
de uma cruel profecia.
Mãe entre todas bendita,
do Filho único, aflita,
à imensa dor assistia.
E, suspirando, chorava,
e da cruz não se afastava,
ao ver que o Filho morria.
Pobre mãe, tão desolada,
ao vê-la assim transpassada,
quem de dor não choraria?
Quem na terra há que resista,
se a mãe assim se contrista
ante uma tal agonia?
Para salvar sua gente,
eis que seu Filho inocente
suor e sangue vertia.
Na cruz por seu Pai chamando,
vai a cabeça inclinando,
enquanto escurece o dia.
Quando chegar minha hora,
dai-me, Jesus, sem demora,
a intercessão de Maria.
Adoremos o Cristo Jesus Salvador, que à sua paixão quis unir sua Mãe.
Oremos.
Ó Deus, quando o vosso Filho foi exaltado, quisestes que sua Mãe estivesse de pé junto à cruz, sofrendo com ele. Dai à vossa Igreja, unida a Maria na paixão de Cristo,
participar da ressurreição do Senhor. Que convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo.
Donde há de vir julgar os vivos e os mortos
O Tríplice Ministério de Cristo
Jesus Cristo honra e engrandece a Sua Igreja com três importantes Ministerios: de Redentor, de Protetor, e de Juiz.
Pelos Artigos anteriores, já sabemos que Ele remiu o gênero humano pela Sua Paixão e Morte, e que pela Ascensão se tornou o perpétuo advogado e defensor de nossa causa. No presente Artigo, só resta explicar a Sua funçao de juiz. O Artigo quer dizer que Cristo Nosso Senhor, naquele dia supremo, há de julgar todo o gênero humano.
O Dia do Senhor
As Sagradas Escrituras atestam que são duas as vindas do Filho de Deus:
1 - A primeira foi quando assumiu carne, para nos salvar, e Se fez homem no seio da Virgem; a segunda será, quando vier para julgar todos os homens, na consumação dos séculos.
Nas Escrituras, esta segunda vinda se chama Dia do Senhor, do qual diz o Apostólo: "O dia do Senhor há de vir como o ladrão de noite Aquele dia, porém, e aquela hora, ninguém os conhece - declara o próprio Salvador"
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Sua realidade
Em prova do Juízo Final, basta citar esta passagem do Apóstolo: "Todos nós teremos de comparecer perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba retribuição do bem ou do mal, que tiver praticado em sua vida terrena".
Objeto de nossa esperança
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Se desde o início do mundo, todos ansiavam por aquele primeiro dia em que o Senhor se revestiu de nossa carne, porquanto nesse mistério havia a esperança de seu resgate, também agora devemos - depois da Morte e Ascenção do Filho de Deus suspirar ardentemente pelo segundo Dia do Senhor, aguardando a ditosa esperança e o aparecimento da glória do grande Deus.
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Dois Juízos
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Teremos de atender as duas ocasiões, em que todo homem deve comparecer na presenca do Senhor, para dar contas de todos os seus pensamentos, ações e palavras, e para aceitar finalmente a sentença imediata do Juiz.
a) o particular
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A primeira ocasião e o momento em que cada um de nós deixa este mundo; a alma é levada incontinenti ao tribunal de Deus, onde se examina com a máxima justeza, tudo o que o homem jamais fez, disse, e pensou em sua vida. É o que chamamos Juizo Particular.
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b) o universal
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A segunda ocasião, porém, há de ser quando todos os homens terão de comparecer juntos, no mesmo dia e no mesmo lugar, perante o tribunal do juiz, para que, na presença de todos os homens de todos os seculos, cada um venha saber a sentença, que a seu respeito foi lavrada.
Para os impios e malvados, esta declaração de sentença não constituirá a menor parte de suas penas e castigos; ao passo que os virtuosos e justos nela terão uma boa parte de sua alegria e galardão. Naquele instante, será pois revelado o que foi cada individuo, durante a sua vida mortal. Este Juizo se chama universal.
Motivos para o juízo universal
1 - Abrir todas as conciências
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Ora, os mortos deixam as vezes filhos que imitam os pais; parentes e discipulos que seguem e propagam seus exemplos em palavras e obras. Esta circunstancia deve aumentar os prêmios ou castigos dos próprios mortos.
Tal influencia, que a muitos empolga, em seu carater benefico ou maligno, não acabará senão quando romper o ultimo dia do mundo. Convinha, pois, fazer-se entao uma perfeita averiguação de todas essas obras e palavras, quer sejam boas, quer sejam más. O que, porém, não seria possivel sem um julgamento geral de todos os homens.
b) Reabilitar os justos
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Muitas vezes, os justos são lesados em sua reputação, porquanto os impios passam por grandes e virtuosos. Pede a divina justiça que, numa convocação para publico julgamento de todos os homens, possam os justos recuperar a boa fama, que lhes fora iniquamente roubada aos olhos do mundo.
c) responsabilizar também o corpo
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Alem disso, em tudo o que façam durante a vida, os bons e os maus não prescindem da cooperação de seus corpos. Dai decorre, necessariamente, que as boas ou más ações praticadas devem atribuir-se tambem aos corpos, que delas foram instrumentos.
Era, pois, de suma conveniência que os corpos partilhassem, com as almas dos prêmios da eterna glória ou dos suplícios, conforme houvessem merecido. Isto, porém, não poderia efetuar-se, sem a ressurreição de todos os homens, e sem um julgamento universal.
d) Justificar a Providencia de Deus
Como também a fortuna e a desgraça não fazem escolha entre bons e maus, era necessário provar que tudo é dirigido e governado pela infinita sabedona e justiça de Deus. Convinha, pois, só reservar premios aos bons e castigos aos maus, na vida futura, mas também decretá-los num juizo publico e universal, que os tornasse mais claros e evidentes a todos os homens.
Desta forma, todos renderão louvor a Deus pela sua justiça e providencia, em desagravo daquela injusta queixa com que as vezes os próprios Santos, por fraqueza humana, se lastimavam, ao verem os maus na posse de grandes cabedais e dignidades.
O Profeta dizia: "Meus pés estiveram a ponto de vacilar. Por pouco se não transviaram os meus passos, porque me enchi de zelo contra os maus, quando observava a vida bonancosa dos pecadores". E mais adiante:" Eis que, sendo pecadores, e favorecidos pelo mundo, eles conseguiram riquezas. E eu disse: Então não me adiantou guardar puro o meu coração, e lavar em inocencia as minhas mãos; em ser torturado o dia inteiro, e padecer aflição desde o romper da madrugada"
Por conseguinte, era preciso haver um Juizo Universal, a fim de que os homens se não pusessem a comentar que Deus passeia pelos quadrantes do ceu, e que pouco se Lhe da a sorte das coisas terrenas. Com toda a razao foi incluida a formula desta verdade nos doze Artigos do Credo, para apoiar, com a força de sua doutrina, os animos que duvidem da providência e justic,a de Deus.
e) alentar os bons e aterrar os maus
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Sobretudo, era mister que a lembrança do Juízo alentasse os bons e aterrasse os maus. Conhecendo a justiça de Deus, aqueles nao viriam a desfalecer; estes seriam arredados do mal, gracas ao temor e a expectacao dos eternos castigos.
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Por isso, falando do Último Dia. Nosso Senhor e Salvador declarou que haveria um Juízo Universal. Descreveu os sinais do tempo em que ha de chegar, para que, ao ve-los, reconhecessemos estar perto o fim do mundo. Depois, no momento de subir aos ceus, enviou Anjos que consolassem os Apostolos, tristes com Sua ausencia, e Ihes dissessem as seguintes palavras: Este Jesus que de vosso meio foi arrebatado ao ceu, há de vir assim como O vistes subir ao ceu"
O juiz..
Ensinaram as Sagradas Escrituras, que a Cristo Nosso Senhor foi entregue o julgamento, não só enquanto Deus, mas tambem enquanto Homem. Ainda que o poder de julgar é comum a todas as Pessoas da Santissima Trindade, contudo o atribuimos ao Filho de modo particular, por dizermos que Lhe compete tambem a sabedoria. Uma declaração do Senhor confirma que Ele, enquanto Homem, há de julgar o mundo:"Assim como o Pai tem a vida em Si mesmo, assim concedeu também ao Filho ter a vida em Si mesmo, conferiu-lhe o poder de julgar, porque é o Filho do Homem" Jo 5,26
A - Por que será Cristo?
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Esse juízo será efetuado por Cristo Nosso Senhor. Já que os julgados são os homens, ser-lhes-á possível ver o juiz com os olhos corporais, e com os próprios ouvidos escutar a sentença que lhes for lavrada e pelos sentidos chegar ao perfeito conhecimento da ação judicial.
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De mais a mais, era de suma justiça que aquele Homem, que fora condenado pela mais iniqua das sentenças humanas, tomasse assento à vista de todos, para julgar todos os homens. Por isso é que, depois de expor, em casa de Cornélio, os pontos capitais da religiao cristã; depois de ensinar que Cristo fora crucificado e morto pelos Judeus, mas que ao terceiro dia havia ressurgido. - o Principe dos Apostolos nao deixou de acrescentar: E deu-nos ordem de pregar ao povo, e testemunhar que Ele foi por Deus instituído Juiz dos vivos e dos mortos
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4. O Julgamento que precede o juízo
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Como sinais que precedem o Juizo, as Sagradas Escrituras enumeram três principais: a pregação do Evangelho pelo mundo inteiro, a apostasia, o anticristo.
Com efeito, assim falou Nosso Senhor: Será pregado este Evangelho do Reino por todo o mundo, para servir de testemunho a todos os povos, e depois ha de vir a consumação. E o Apostolo nos adverte que ninguém se iluda, como se o Dia do Senhor esteja vizinho; porquanto nao se fará o juízo, "sem que venha antes a apostasia, e tenha aparecido o homem do pecado"
O Julgamento
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A sentença dos bons
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As circunstâncias do Juízo, poderemos ve-las comodamente nas profecias de Daniel(7,9), na doutrina dos santos Evangelhos e do Apóstolo Sao Paulo. Neste lugar, o que merece maior atenção e a sentença que pelo será pronunciada.
Cristo Nosso Senhor lançara um olhar de jubilosa complacência para os justos colocados a direita, e com extremos de bondade Ihes dirá a seguinte sentença: "Vinde, benditos de Meu Pai, tomai posse do Reino, que vos esta preparado desde o principio do mundo".
Não se poderá ouvir palavra mais suave do que esta! Assim há de averigua-lo quem a cotejar com a condenação dos maus; quem levar em conta tal sentença chama os homens bons e justos, da labuta ao descanso, deste vale de lágrimas aos cimos de alegria, das tribulações à eterna bem aventurança, que eles merecem por suas obras de caridade.
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A sentença dos maus
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Volvendo-se, então, para aqueles que estarão à esquerda, lançará sobre eles o rigor de Sua justiça, usando as palavras: "Apartai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno que foi preparado ao demônio e seus anjos"
As palavras: "apartai-vos de Mim" exprimem a maior das penas que atingirá os maus quando forem lançados o mais longe possível da presença de Deus, sem que os possa consolar a esperança de virem jamais a gozar de um bem perfeito.
.. a pena de dano
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Esta é a pena que os teólogos chamam pena de dano, porque os reprobos no inferno ficarao para sempre privados da luminosa visao de Deus.
O acrescimo " malditos" agrava-lhes a miseria e desgraça, de uma maneira pavorosa. Se, na verdade, ao serem escorraçados da presenca de Deus, fossem pelo menos julgados dignos de alguma bencao, nao ha duvida que disso poderiam ter grande consolacao. Mas, como nao lhes é dado esperar consolo semelhante para mitigar sua desgraca, de pleno direito a justiça divina os perseguira, com todas as maldiçoes, a partir do momento em que são [inteiramente] repudiados.
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a pena dos sentidos
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Seguem-se entao as palavras: "para o fogo eterno". A esta segunda especie de tormentos chamam os teologos pena dos sentidos, porque empolga os sentidos do corpo, como acontece nos açoites, flagelações, e outros generos de suplicios mais pesados.
Não é para duvidar que, entre eles, a tortura do fogo causa a mais intensa sensação de dor. Como tal suplicio deve durar para todo o sempre, temos nessa circunstancia uma prova de que o castigo dos réprobos concentra em si todos os suplicios possiveis.
Mostram-no, com maior clareza as ultimas palavras da condenação: "que foi preparado para o demonio e seus anjos". Por índole nossa, nao sentimos tanto os sofrimentos, quando temos algum parceiro a repartir conosco o infortúnio, e que ate certo ponto nos assiste e conforta, com sua prudencia e bondade. Qual não será, porem, a miséria dos condenados, uma vez que em tantas aflições não poderão jamais apartar-se da companhia dos mais perversos demonios?
Muito justa será, naturalmente, a condenação que Nosso Senhor e Salvador ha de proferir contra os maus; porque eles vilipendiaram todas as obras de verdadeira piedade. Não deram de comer, nem de beber ao faminto e ao sequioso; não agasalharam o peregrino; não cobriram o desnu; não visitaram o preso, nem o enfermo.
Frutos destas verdades
Quem aceita estas verdades com espírito de fé, a verdade que vai neste Artigo, ela tem grande virtude para refrear as depravações da alma, e para arredar os homens do pecado. Por esse motivo diz o eclesiastico: "Em todas as tuas obras, lembra-te dos teus novíssimos, e não pecaras eternamente"
a) para a conversão do pecador
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Na verdade, dificilmente alguem se arrojará em pecados, com tanta cegueira, que não seja de novo atraído pelo amor a virtude, em se lembrando que um dia dará contas a um juiz de suma justiça, não só de todas as suas ações e palavras, mas até dos mais ocultos pensamentos; que tera de satisfazer pelas penas que merecidamente tiver incorrido.
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b - para a perseverança do justo
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De sua parte, ainda que a vida lhe decorra em privações, calúnias e sofrimentos, pode o justo afervorar-se cada vez mais na pratica da virtude, e dar largas a sua alegria, quando se lembra daquele dia em que, apos as lutas desta vida laboriosa, será aclamado vencedor, na presença de todos os homens, e recebido na Pátria Celestial, onde Deus lhe dara o quinhão das honras eternas.
Só resta, pois, que os fieis sejam exortados a procurarem uma santa maneira de viver, a adestrarem- se em todas as obras de piedade . Isto Ihes permitira aguardar, com maior firmeza de animo, o grande Dia do Senhor que esta próximo; e almejar, até, a Sua vinda com o mais vivo amor e empenho, como convem a filhos [de Deus].
Fonte: Catecismo Romano - pags 145 - 151
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
Subiu aos céus, está sentado... à mão direita de Deus Pai Todo Poderoso .
Catecismo Romano
Ao contemplar, cheio do Espírito de Deus, a bem-aventurada Ascensão de Nosso Senhor, o profeta David exorta o mundo inteiro a celebrar o Seu triunfo, em transportes de alegria e satisfação. "Nações todas, diz ele, batei palmas, louvai a Deus em cantos de alegria! Subiu Deus no meio de aclamações"
Cristo subiu
1. Como homem
Os fieis devem crer, sem a menor dúvida, que Jesus Cristo, depois de consumar o misterio de nossa Redenção, subiu aos céus enquanto Homem, com corpo e alma; enquanto Deus, nunca de lá se ausentou, pois que enche todos os lugares com Sua Divindade.
2 - Por conta própria
Cristo não foi arrebatado por uma força estranha, mas subiu por conta própria. Nâo foi como Elias que foi levado ao céu num carro de fogo, nem como Habacuc ou o diácono Filipe que, transportados através dos ares por uma virtude divina venceram as distancias de terras longínquas.
Como Deus e como Homem
Entretanto, não subiu aos céus só pela virtude de Sua onipotencia, mas também em Sua condição de Homem. Isto nao podia acontecer por força da natureza; mas, pela virtude de que estava munida, podia a gloriosa Alma de Cristo mover o corpo a seu grado. Tendo ja a posse da glória, o Corpo obedecia, sem dificuldade, a direção que a alma que lhe dava, em seus movimentos. Desta maneira é que acreditamos ter Cristo subido aos céus, por virtude própria, como Deus e como Homem.
Está sentado a direita de Deus Pai
Para maior facilidade de compreensão, atribuímos a Deus afetos e membros humanos, apesar de não podermos imaginar nada de corpóreo em Deus, porque é [puro] espírito. Mas, como nas relações sociais julgamos dar maior honra a quem colocamos à nossa direita, assim aplicamos também o mesmo princípio as coisas do céu. Confessamos que Cristo está a direita do Pai, para exprimir a glória que, como Homem, alcançou acima de todas as criaturas. O "estar sentado" nao exprime aqui uma postura de corpo, mas põe em evidencia a posse segura e inabalável do regio poder e da gloria infinita, que [Cristo] recebeu de Seu Pai.
Disso fala o Apostolo: "Ressuscitou-O da morte, e colocou-O a Sua direita no céu, acima de todos os principados e potestades, virtudes e dominações, e de todas as dignidades que possa haver não só neste mundo, mas também no mundo futuro. Pos-Lhe aos pes todas as coisas" - Ef 1,20ss
Destas palavras inferimos que tal glória é tão própria e particular de Nosso Senhor, que não pode convir a nenhuma outra natureza criada. Eis porque o Apostolo declara em outro lugar: "A qual dos Anjos disse jamais: Senta-te a Minha direita? - Hb 1,13 . Será preciso antes de tudo observar que todos os outros mistérios se referem Ascensão como a um ponto final, que resume a perfeição e consumação de todos. Com efeito, assim como pela Encarnação do Senhor começam todos os misterios de nossa Religiao, assim tambem pela Ascensao e que termina a peregrinação de Cristo neste mundo. Confessar que Cristo subiu aos céus, e está sentado à direita de Deus Pai não existe expressao mais sublime e grandiosa, para nos dar uma ideia de Sua glória suprema e divina majestade.
Razões do porque Cristo subiu aos céus
a) Dar ao corpo uma morada gloriosa: Antes de tudo, subiu aos céus, porque o Seu Corpo, dotado de glória imortal desde a Ressurreição, já não lhe convinha esta obscura morada da terra, mas antes a elevada e esplendorosa mansão dos céus.
b)Diligenciar nossa Glorificação: E não foi só para tomar posse do trono de glória e poder, merecido pelo Seu próprio Sangue; mas também para diligenciar tudo o que diz respeito a nossa salvação.
c) Mostrar que Seu Reino não é deste mundo: Os reinos do mundo são terrenos e passageiros, apoiam-se em grandes cabedais e na força proveniente da carne. Ora, o Reino de Cristo não era terrestre, como os judeus esperavam, mas espiritual e eterno. Colocando Seu trono nos céus, o próprio Cristo demonstrou que as forças e riquezas de Seu reino eram de natureza espiritual. Neste Reino, os mais ricos e os mais providos com a abundancia de todos os bens são aqueles que [na terra] procuram com maior ardor as coisas de Deus. São Tiago, com efeito, declara que Deus escolheu os pobres neste mundo, para serem ricos na fé, e herdeiros do Reino que Deus prometeu aqueles que O amam.
d) Elevar ao céu nosso pensamento : Pela Ascensão, Nosso Senhor queria que, subindo Ele aos céus, continuassemos nós a segui-lO com saudosos pensamentos. Com efeito, pela Sua Morte e Ressurreção, deixou-nos um exemplo que nos mostra como devemos morrer e ressurgir espiritualmente. Pela Sua Ascensão também nos ensina e educa a erguermos nossa mente ao céu, enquanto vivemos ainda aqui na terra - e que aqui somos hóspedes e peregrinos a procura da verdadeira pátria.
e - Enviar-nos o Espírito Santo: A eficácia e a grandeza dos inefáveis benefícios que a bondade de Deus derramou sobre nós [por meio deste mistério], desde muito as havia vaticinado o santo profeta Davi: Subindo ao alto, arrebatou consigo os escravos e distribuiu seus dons aos homens. Neste sentido é que São Paulo interpreta esta passagem. Efetivamente, ao cabo de 10 dias, enviou Cristo o Espírito Santo, de cuja virtude e exuberância encheu a multidão de fieis ali presentes. Então é que cumpriu verdadeiramente aquela grandiosa promessa: Para vós convém que Eu me vá. Se Eu não for, não virá a vós o Consolador, mas se for, Eu vo-lO enviarei
f - Por ser nosso advogado: Pela carta aos Hebreus, vemos que Cristo tbem subiu aos céus " para Se apresentar agora ante a face de Deus em nosso favor", e exercer perante o Pai o ofício de advogado. "Filhinhos meus, diz São João, eu vos escrevo para que não venhais a pecar. No entanto, se alguem pecar. por advogado junto ao Pai, temos Jesus Cristo, o justo. Ele próprio é propiciação pelos nossos pecados" Nada pode inspirar aos fieis maior alegria e felicidade, do que verem a Jesus Cristo feito patrono de nossa causa e intercessor pela nossa salvação, ele que goza junto ao Eterno Pai de suma influencia e autoridade
g - Preparar-nos um lugar: Afinal, preparou-nos um lugar conforme havia prometido. Foi em nome de todos nós que Jesus Cristo, como nosso Chefe, entrou na posse da glória celeste. Com Sua ida para o céu, abriu as portas que se tinha fechado, em consequência do pecado de Adão. Franqueou-nos um caminho para chegarmos à celestial bem-aventurança, conforme predissera aos Discípulos na última Ceia. Para confirmar Sua presença com a realidade dos fatos, levou consigo, para a mansão da eterna bem-aventurança, as almas dos justos que tinha arrancado dos infernos.
Frutos imediatos de Sua Ascensão:
- Aumenta-nos a fé: Esta admirável abundancia de dons celestes vem acompanhada de uma valiosa série de frutos e vantagens. Primeiramente o mérito de nossa fé cresce até o último grau, porquanto a fé se refere a coisas que são inacessíveis à nossa vista e que ficam fora de alcance para nosa razão e inteligencia. Portanto, se o Senhor Se não se apartara de nós, diminuir-se-ia o mérito de nossa fé; pois Ele próprio exalta como bem aventurado " os que não viram, mas creram"
- Confirma-nos a esperança: Ademais, a subida de Cristo aos céus tem a grande força de confirmar a esperança que se aninha em nossos corações. Crendo que Cristo subiu aos céus, enquanto Homem e colocou [Sua] natureza humana a direita de Deus Pai, grande é a nossa esperança de que também nós para lá havemos de subir, como membros Seus, e de unir-nos [a Ele] como nossa cabeça. Foi o que Nosso Senhor asseverou pessoalmente: Pai, quero que, onde Eu estou, estejam comigo também aqueles, que Vos me destes
Espiritualiza nosso amor: Além disso, um dos maiores benefícios que auferimos [da Ascensão], foi o de Cristo arrebatar consigo para o céu o nosso amor, e de abrasa-lo no Espírito de Deus. É uma grande verdade o que se disse: Nosso coração está onde estiver o nosso tesouro
E tira-lhe o caráter terreno: Realmente, permanecesse Jesus Cristo conosco na terra, todas as nossas considerações se concentrariam em Seu porte e trato humano. Nele veriamos apenas um homem, que nos cumulou de assinalados beneficios, e por Ele teríamos certa afeição natural e terrena. No entanto, pelo fato de ter subido aos céus, [Cristo] espiritualizou nosso amor; fez-nos amar e venerar, como Deus, Aquele que sabemos estar ausente [com Sua humanidade].
Nós o verificamos no exemplo dos Apóstolos. Enquanto o Senhor estava no meio deles, parecia que O consideravam por um prisma muito humano. De outro lado, o proprio Senhor no-lo afirma com Sua palavra: Para vós é bom que Eu vá. Aquele amor perfeito com que [os Apostolos] amavam a Jesus Cristo humanamente presente, devia ser aperfeiçoado pelo amor divino, e por sinal a vinda do Espinto Santo. Razão porque Cristo logo acrescentou: Se Eu nao me ausentar, nao virá a vós o Consolador"
Dilata a sua Igreja: Acresce que assim Nosso Senhor dilatou Sua casa na terra, que é a Igreja, cujo governo devia ser dirigido pela virtude e assistência do Espírito Santo. Como pastor e chefe supremo de toda a Igreja deixou entre os homens a Pedro, o Príncipe dos Apóstolos. Além disso, a uns constituiu "Apóstolos, a outros profetas, a outros evangelistas, a outros pastores e mestres". E sentado que está à direita do Pai, não cessa de distribuir, a uns e a outros, os dons que Ihes convém a eles, como diz o Apóstolo: A cada um de nos foi dada a graça, segundo a medida com que Cristo a distribuiu
Nossa perfeita salvação, nós a devemos aos sofrimentos de Cristo; e Seus méritos patentearam aos justos a entrada para o céu. Fora isso, a Ascenção de Cristo se nos apresenta como um modelo, que nos ensina a olhar para o alto e transportar-nos ao céu em espírito. Ela Também nos dá uma força divina, que nos põe em condições de faze-lo
Fonte: Catecismo Romano - Pags 140 - 145
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Para a menina Unwin. Acerca do objectivo da vida
20 Maio 1969
Cartas de Tolkien
"Lamento o atraso da minha resposta. Espero que chegue a tempo. Que grande pergunta! Acho que as «opiniões», sejam de quem forem, não servem de muito sem uma explicação da forma como se formaram, mas, nesta questão, não é fácil ser breve.
O que significa realmente a pergunta? É preciso definir Objectivo e Vida. É uma pergunta puramente humana e moral ou refere-se ao Universo? Pode querer dizer: Como devo tentar utilizar o tempo de vida que me é dado? OU: Que objectivo/desígnio servem os seres vivos ao viverem? No entanto, a resposta à primeira pergunta só será possível após considerarmos a segunda.
Parece-me que as perguntas sobre o «objectivo» só são realmente úteis quando se referem aos objectivos ou objectos conscientes dos seres humanos ou às utilizações das coisas por eles concebidos e criados. Quanto às «outras coisas», o seu valor reside nelas próprias: elas SÃO, existiriam mesmo que nós não existíssemos. Mas, uma vez que existimos, uma das suas funções é serem contempladas por nós.
Se subirmos a escala da existência até «outras coisas vivas», como, por exemplo, uma pequena planta, esta apresenta forma e organização: um «padrão» reconhecível (com variações) nos seus parentes e descendentes, e isso é profundamente interessante, pois essas são «outras» coisas e não fomos nós que as fizemos. Parecem derivar de uma fonte de invenção incrivelmente mais rica do que a nossa.
A curiosidade humana em breve coloca a questão COMO: como foi que isto passou a existir? E uma vez que o «padrão» reconhecível sugere o desígnio, pode passar a colocar a questão PORQUÊ? Mas o PORQUÊ, neste sentido, pode apenas referir-se a uma MENTE. Apenas uma Mente pode ter objectivos em qualquer sentido ou relacionados com os objectivos humanos. Por isso, a pergunta «Porque é que a vida, a comunidade de seres vivos, apareceu no Universo físico?» introduz imediatamente a pergunta: será que existe um Deus, um Criador/Designer, uma Mente com que as nossas mentes sejam aparentadas (tendo origem nela) de modo a tornar-se, em parte, inteligível?
Chegamos, assim, à religião e às ideias morais que dela derivam. Quanto a isso, direi apenas que as «morais» têm duas faces, devido ao facto de sermos indivíduos (como, em certo grau, todos os seres vivos), mas não vivermos, nem podermos viver, em isolamento, e de termos uma ligação com todas as outras coisas, mais próxima da ligação absoluta à nossa própria espécie humana. Assim, as morais deverão ser um guia para os nossos objectivos humanos, para a conduta das nossas vidas: (a) a forma como os nossos talentos individuais podem ser desenvolvidos sem que os desperdicemos ou façamos mau uso deles; e (b) sem prejudicar os outros membros da nossa espécie ou interferir com o seu desenvolvimento. (Para além e acima de tudo isto, encontra-se o sacrifício pessoal por amor).
Mas estas são apenas respostas à pergunta menor. Para a maior, não existe resposta, pois essa exige um conhecimento completo de Deus, o que é inatingível. Se perguntarmos porque é que Deus nos incluiu no seu Desígnio, só poderemos responder: porque sim. Se não acreditarmos num Deus pessoal, não será possível perguntar nem responder à pergunta: «Qual é o objectivo da vida?". A quê ou a quem dirigiríamos a pergunta?
Mas, uma vez que num estranho canto (ou estranhos cantos) do Universo, as coisas se desenvolveram com mentes que fazem perguntas e tentam dar-lhes resposta, poderia dirigir-lhe uma destas peculiares questões. Se eu fosse uma dessas mentes, poderia ousar dizer (falando com absurda arrogância pelo Universo): «Sou como sou. Não há nada a fazer. Podem continuar a tentar descobrir o que sou, mas nunca conseguirão. E não sei porque querem saber. Talvez o desejo de saber apenas por saber esteja relacionado com as orações que alguns de voz dirigem àquele a quem chamam Deus. Nos seus momentos mais elevados, estas parecem simplesmente louvá-Lo por existir, tal como é, e por ter feito aquilo que faz tal como o fez.»
Aqueles que acreditam num Deus, num Criador pessoal, não pensam que o próprio Universo é digno de ser louvado, embora estudá-lo aplicadamente possa ser uma das formas de O honrar. E se, como criaturas vivas, fazemos parte dele, as nossas ideias sobre Deus e as nossas formas de as expressarmos serão, em larga medida, extraídas da contemplação do mundo que nos rodeia. (Embora exista também uma revelação dirigida simultaneamente a todos os homens e a cada pessoa em particular). Assim, pode-se dizer que o principal objectivo da vida, para cada um de nós, é aumentar, de acordo com a nossa capacidade, o nosso conhecimento de Deus, recorrendo a todos os meios de que dispomos para que esse conhecimento nos conduza a orar e a dar graças.
Fazer o que dizemos em Gloria in Excelsis: Laudamus te, benedicamus te, adoramus te, gloroficamus te, gratias agimus tibi propter magnam gloriam tuam. Louvamos-te, chamamos-te santo, adoramos-te, proclamamos a tua glória, agradecemos a grandiosidade do teu esplendor. E, em momentos de exaltação, podemos apelar a todas as coisas criadas para que se juntem ao nosso coro, dando-lhes voz, como no Salmo 148 e no Cântico das Três Crianças em Daniel 2: LOUVAI O SENHOR [...] todas as montanhas e montes, pomares e florestas, coisas rastejantes e aves que voam. Isto é demasiado longo, e também demasiado curto, para responder a tal questão" Com os melhores cumprimentos, J. R. R. Tolkien.(grifos meus)
Fonte: Portal Tolkienianos
( Esta carta foi traduzida por Ana Margarida Pereira Marcos e cedida por Mellon-fa)
terça-feira, 11 de setembro de 2012
29 - Parresía: Devoção à Santíssima Virgem Maria
Santa Maria, Mãe de Deus - Rogai por Nós!
sábado, 8 de setembro de 2012
Natividade da Bem-Aventurada Virgem Maria
Ó Virgem nascente,
esperança e aurora de salvação para o mundo inteiro, / volve benigna o teu olhar materno para nós todos, / aqui reunidos para celebrar e proclamar as tuas glórias.
Ó Virgem fiel,
que sempre estiveste pronta e solicita para acolher, conservar e meditar a Palavra de Deus, / faz que também nós, no meio das dramáticas alternativas da história, saibamos manter sempre intacta a nossa fé cristã, / tesouro que nos foi transmitido pelos Antepassados.
Ó Virgem poderosa,
que esmagas com o teu pé a cabeça da serpente tentadora, / faz que, dia após dia, cumpramos as nossas promessas baptismais, renunciando a Satanás, às suas obras e às suas seduções, / e saibamos dar ao mundo alegre testemunho da esperança cristã.
Ó Virgem clemente,
que sempre abriste o teu coração maternal às invocações da humanidade, às vezes dividida pelo desamor e também, infelizmente, pelo ódio e pela guerra, faz que saibamos sempre crescer todas, segundo o ensinamento do teu Filho, na unidade e na paz, para sermos dignos filhos do único Pai celestial.
Amém!
Por Joâo Paulo II
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Jesus e a Mulher
« Ficaram admirados por estar ele a conversar com uma mulher »
Por João Paulo II
As palavras do Proto-Evangelho, no Livro de Gênesis, permitem que passemos ao âmbito do Evangelho. A redenção do homem, ali anunciada, aqui se torna realidade na pessoa e na missão de Jesus Cristo, nas quais reconhecemos também aquilo que a realidade da redenção significa para a dignidade e a vocação da mulher. Este significado é-nos esclarecido em grau maior pelas palavras de Cristo e por todo o seu comportamento, em relação às mulheres, que é extremamente simples e, exatamente por isso, extraordinário, se visto no horizonte do seu tempo: é um comportamento que se caracteriza por uma grande transparência e profundidade. Diversas mulheres aparecem no itinerário da missão de Jesus de Nazaré, e o encontro com cada uma delas é uma confirmação da « novidade de vida » evangélica, de que já se falou.
Admite-se universalmente — e até por parte de quem se posiciona criticamente diante da mensagem cristã — que Cristo se constituiu, perante os seus contemporâneos, promotor da verdadeira dignidade da mulher e da vocação correspondente a tal dignidade. Às vezes, isso provocava estupor, surpresa, muitas vezes raiando o escândalo: « ficaram admirados por estar ele a conversar com uma mulher » (Jo 4, 27), porque este comportamento se distinguia daquele dos seus contemporâneos.
« Ficaram admirados » até os próprios discípulos de Cristo. O fariseu, a cuja casa se dirigiu a mulher pecadora para ungir os pés de Jesus com óleo perfumado, « disse consigo: "Se este homem fosse um profeta, saberia quem é e de que espécie é a mulher que o toca: é uma pecadora" » (Lc 7, 39). Estranheza ainda maior ou até « santa in dignação » deviam provocar nos ouvintes satisfeitos de si as palavras de Cristo: « Os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus » (Mt 21, 31).
Aquele que falava e agia assim fazia compreender que os « mistérios do Reino » lhe eram conhecidos até o fundo. Ele também « sabia o que há em cada homem » (Jo 2, 25), no seu íntimo, no seu « coração ». Era testemunha do desígnio eterno de Deus a respeito do homem por ele criado à sua imagem e semelhança, como homem e mulher. Era também profundamente consciente das consequências do pecado, do « mistério de iniquidade » que opera nos corações humanos come fruto amargo do ofuscamento da imagem divina
Como é signiíicativo o fato de que, no colóquio fundamental sobre o matrimônio e sobre a sua indissolubilidade, Jesus, diante de seus interlocutores, « os escribas », que eram por ofício os conhecedores da Lei, faça referência ao « princípio ». A questão colocada é a do direito « masculino » de « repudiar a própria mulher por qualquer motivo » (Mt 19, 3); e, portanto, também do direito da mulher, da sua justa posição no matrimônio, da sua dignidade. Os interlocutores consideram ter a seu favor a legislação mosaica vigente em Israel « Moisés mandou dar-lhe libelo de repúdio e despedi-la »(Mt 19, 7). Responde Jesus: « por causa da dureza do vosso coração permitiu-vos Moisés repudiar as vossas mulheres; mas no princípio não era assim » (Mt 19, 8). Jesus apela para o « princípio », para a criação do homem como homem e mulher e para o ordenamento de Deus que se fundamenta no fato de que os dois foram criados « à sua imagem e semelhança ». Por isso, quando o homem « deixa seu pai e sua mãe » unindo-se à sua esposa, de modo a formarem os dois « uma só carne », permanece em vigor a lei que provém de Deus mesmo: « Não separe, pois, o homem o que Deus uniu » (Mt 19, 6).
O princípio desse « ethos », que desde o início foi inscrito na realidade da criação, é agora confirmado por Cristo contra a tradição, que comportava a discriminação da mulher. Nesta tradição, o homem « dominava », não considerando adequadamente a mulher e a dignidade que o « ethos » da criação colocou como base das relações recíprocas das duas pessoas unidas em matrimônio. Este « ethos » é recordado e confirmado pelas palavras de Cristo: é o « ethos » do Evangelho e da redenção.
As mulheres do Evangelho
Folheando as páginas do Evangelho, passa diante de nossos olhos um grande número de mulheres, de idade e condições diversas. Encontramos mulheres atingidas pela doença ou por sofrimentos físicos, como a mulher que tinha « um espírito que a mantinha enferma, andava recurvada e não podia de forma alguma endireitar-se » (cf. Lc 13, 11); ou como a sogra de Simão que estava « de cama com febre » (Mc 1, 30); ou como a mulher que « sofria de um fluxo de sangue » (cf. Mc 5, 25-34), que não podia tocar ninguém, porque se pensava que o seu toque tornasse o homem « impuro ». Cada uma delas foi curada e a última, a hemorroíssa, que tocou o manto de Jesus « no meio da multidão » (Mc 5, 27), foi por ele louvada pela sua grande fé: « a tua fé te salvou » (Mc 5, 34). Há, depois, a filha de Jairo, que Jesus faz voltar à vida, dirigindo-se a ela com ternura: « Menina, eu te mando, levanta-te! » (Mc 5, 41). E há ainda a viúva de Naim, para quem Jesus faz voltar à vida o filho único, fazendo acompanhar o seu gesto de uma expressão de terna piedade: « compadeceu-se dela e disse-lhe: "Não chores" » (Lc 7, 13). E há, enfim, a Cananéia, uma mulher que merece da parte de Cristo palavras de especial estima pela sua fé, sua humildade e pela grandeza de espírito, de que só um coração de mãe é capaz: « ó Mulher, é grande a tua fé! Faça-se como desejas » (Mt 15, 28). A mulher cananéia pedia a cura de sua filha.
às vezes as mulheres, que Jesus encontrava e que dele recebiam tantas graças, o acompanhavam, enquanto com os apóstolos peregrinava pelas cidades e aldeias, anunciando o Evangelho do Reino de Deus; e elas « os assistiam com os seus bens ». O Evangelho cita entre elas Joana, esposa do administrador de Herodes, Susana e « muitas outras» (Lc 8, 1-3).
As vezes, figuras de mulheres aparecem nas parábolas, com que Jesus de Nazaré ilustrava aos seus ouvintes a verdade sobre o Reino de Deus. Assim é nas parábolas da dracma perdida (cf.Lc 15, 8-10), do fermento (cf. Mt 13, 33), das virgens prudentes e das virgens estultas (cf. Mt 25, 1-13). É particularmente eloquente o relato do óbulo da viúva. Enquanto « os ricos ... colocavam as suas ofertas na caixa do templo ... uma viúva ... deitou lá duas moedinhas ». Então Jesus disse: « essa viúva pobre deitou mais do que todos... foi da sua penúria que tirou tudo quanto possuía » (cf. Lc 21, 1-4). Deste modo Jesus a apresenta como modelo para todos e a defende, pois no sistema sócio-jurídico da época, as viúvas eram seres totalmente indefesos (cf. tambémLc 18, 1-7).
Em todo o ensinamento de Jesus, como também no seu comportamento, não se encontra nada que denote a discriminação, própria do seu tempo, da mulher. Ao contrário, as suas palavras e as suas obras exprimem sempre o respeito e a honra devidos à mulher. A mulher recurvada é chamada « filha de Abraão » (Lc 13,16), enquanto em toda a Bíblia o título « filho de Abraão » é atribuído só aos homens. Percorrendo a via dolorosa rumo ao Gólgota, Jesus dirá às mulheres: « Filhas de Jerusalém, não choreis por mim » (Lc 23, 28). Este modo de falar às mulheres e sobre elas, assim como o modo de tratá-las, constitui uma clara « novidade » em relação aos costumes dominantes do tempo.
Isso se torna ainda mais explícito no tocante àquelas mulheres que a opinião comum apontava com desprezo como pecadoras, pecadoras públicas e adúlteras. Por exemplo, a Samaritana, a quem Jesus mesmo diz: « tiveste cinco maridos e aquele que agora tens não é teu marido ». E ela, percebendo que ele conhecia os segredos da sua vida, reconhece nele o Messias e corre a anunciá-lo aos seus conterrâneos. O diálogo que precede este reconhecimento é um dos mais belos do Evangelho (cf. Jo 4, 7-27).
Eis, depois, uma pecadora pública que, não obstante a condenação por parte da opinião comum, entra na casa do fariseu para ungir com óleo perfumado os pés de Jesus. Ao anfitrião que se escandalizava deste fato, Jesus dirá dela: « São perdoados os seus muitos pecados, visto que muito amou » (cf. Lc 7, 37-47).
Eis, enfim, uma situação que é talvez a mais eloquente: uma mulher surpreendida em adultérioé conduzida a Jesus. A pergunta provocatória: « Ora Moisés, na Lei, mandou-nos apedrejar tais mulheres. Tu que dizes? », Jesus responde: « Aquele de vós que estiver sem pecado, lance-lhe por primeiro uma pedra ». A força de verdade, contida nesta resposta, é tão grande que « se foram embora um após o outro, a começar pelos mais velhos ». Permanecem só Jesus e a mulher. « Onde estão? Ninguém te condenou? » — « Ninguém, Senhor ». — « Nem eu te condenarei: — vai e doravante não tornes a pecar » (cf. Jo 8, 3-11).
Estes episódios constituem um quadro de conjunto muito transparente. Cristo é aquele que « sabe o que há no homem » (cf.Jo 2, 25), no homem e na mulher. Conhece a dignidade do homem, o seu valor aos olhos de Deus. Ele mesmo, Cristo, é a confirmação definitiva deste valor. Tudo o que diz e faz tem o seu cumprimento definitivo no mistério pascal da redenção. O comportamento de Jesus a respeito das mulheres, que encontra ao longo do caminho do seu serviço messianico, é o reflexo do desígnio eterno de Deus, o qual, criando cada uma delas, a escolhe e ama em Cristo (cf. Ef 1, 1-5). Por isso, cada mulher é aquela « única criatura na terra que Deus quis por si mesma ». Cada mulher herda do « princípio » a dignidade de pessoa precisamente como mulher. Jesus de Nazaré confirma esta dignidade, recorda-a, renova-a e faz dela um conteúdo do Evangelho e da redenção, para a qual é enviado ao mundo. É preciso, pois, introduzir na dimensão do mistério pascal toda palavra e todo gesto de Cristo que se referem à mulher. Desta maneira tudo se explica completamente.
A mulher surpreendida em adultério
14. Jesus entra na situação concreta e hístórica da mulher, situação sobre a qual pesa a herança do pecado. Esta herança exprime-se, entre outras coisas, no costume que discrimina a mulher em favor do homem, e está enraizada também dentro dela. Deste ponto de vista, o episódio da mulher « surpreendida em adultério » (cf. Jo 8, 3-11) parece ser particularmente eloquente. No fim Jesus lhe diz: « não tornes a pecar »; mas, primeiro ele desperta a consciência do pecado nos homens que a acusam para apedrejá-la, manifestando assim a sua profunda capacidade de ver as consciências e as obras humanas segundo a verdade. Jesus parece dizer aos acusadores: esta mulher, com todo o seu pecado, não é talvez também, e antes de tudo, uma confirmação das vossas transgressões, da vossa injustiça « masculina », dos vossos abusos?
Esta é uma verdade válida para todo o gênero humano. O fato narrado no Evangelho de João pode apresentar-se em inúmeras situações análogas em todas as épocas da história. Uma mulher é deixada só, é exposta diante da opinião pública com « o seu pecado », enquanto por detrás deste « seu » pecado se esconde um homem como pecador, culpado pelo « pecado do outro », antes, co-responsável do mesmo. E, no entanto, o seu pecado escapa à atenção, passa sob silêncio: aparece como não responsável pelo « pecado do outro »! às vezes ele passa a ser até acusador, como no caso descrito, esquecido do próprio pecado. Quantas vezes, de modo semelhante, a mulher paga pelo próprio pecado (pode acontecer que seja ela, em certos casos, a culpada pelo pecado do homem como « pecado do outro »), mas paga ela só e paga sozinha!Quantas vezes ela fica abandonada na sua maternidade, quando o homem, pai da criança, não quer aceitar a sua responsabilidade? E ao lado das numerosas « mães solteiras » das nossas sociedades, é preciso tomar em consideração também todas aquelas que, muitas vezes, sofrendo diversas pressões, inclusive da parte do homem culpado, « se livram » da criança antes do seu nascimento. « Livram-se »: mas a que preço? A opinião pública de hoje tenta, de várias maneiras, « anular » o mal deste pecado; normalmente, porém, a consciência da mulher não consegue esquecer que tirou a vida do próprio filho, porque não consegue apagar a disponibilidade a acolher a vida, inscrita no seu « ethos » desde o « princípio ».
É significativo o comportamento de Jesus no fato descrito no Evangelho de João 8, 3-11. Talvez em poucos momentos como neste se manifesta o seu poder — o poder da verdade — a respeito das consciências humanas. Jesus está tranquilo, recolhido, pensativo. A sua consciência, aqui como no colóquio com os Fariseus (cf. Mt 19, 3-9), não estará talvez em contato com o mistério do « princípio », quando o homem foi criado homem e mulher, e a mulher foi confiada ao homem com a sua diversidade feminina, e também com a sua potencial maternidade? Também o homem foi confiado pelo Criador à mulher. Foram reciprocamente confiados um ao outro como pessoas feitas à imagem e semelhança do próprio Deus. Nesse ato de confiança está a medida do amor, do amor esponsal: para tornar-se « um dom sincero » um para o outro, é preciso que cada um dos dois se sinta responsável pelo dom. Esta medida destina-se aos dois — homem e mulher — desde o « princípio ».
Após o pecado original, forças opostas operam no homem e na mulher, por causa da tríplice concupiscência, « fonte do pecado ». Essas forças agem no interior do homem. Por isso Jesus dirá no Sermão da montanha: « todo aquele que olhar para uma mulher com mau desejo, já com ela cometeu adultério no seu coração » (Mt 5, 28). Estas palavras, dirigidas diretamente ao homem, mostram a verdade fundamental da sua responsabilidade em relação à mulher: pela sua dignidade, pela sua maternidade, pela sua vocação. Mas, indiretamente, elas se referem também à mulher. Cristo fazia tudo o que estava ao seu alcance para que — no âmbito dos costumes e das relações sociais daquele tempo — as mulheres reconhecessem no seu ensinamento e no seu agir a subjetividade e dignidade que lhes são próprias. Tendo por base a eterna « unidade dos dois », esta dignidade depende diretamente da própria mulher, como sujeito responsável por si, e é ao mesmo tempo « dada como responsabililade » ao homem. Coerentemente Cristo apela para a responsabilidade do homem. Na presente meditação sobre a dignidade e a vocação da mulher, hoje, é preciso referir-se necessariamente à impostação que encontramos no Evangelho.
A dignidade da mulher e a sua vocação — como, de resto, a do homem — encontram a sua vertente eterna no coração de Deus e, nas condições temporais da existência humana, estão estreitamente conexas com a « unidade dos dois ». Por isso, cada homem deve olhar para dentro de si e ver se aquela que lhe é confiada como irmã na mesma humanidade, como esposa, não se tenha tornado objeto de adultério no seu coração; se aquela que, sob diversos aspectos, é o co-sujeito da sua existência no mundo, não se tenha tornado para ele « objeto »: objeto de prazer, de exploração.
Custódias da mensagem evangélica
15. O modo de agir de Cristo, o Evangelho de suas obras e palavras é um protesto coerente contra tudo quanto ofende a dignidade da mulher. Por isso, as mulheres que se encontram perto de Cristo reconhecem-se a si mesmas na verdade que ele « ensina » e que ele « faz », também quando esta verdade versa sobre a « pecaminosidade » delas. Sentem-se « libertadas » por esta verdade, restituídas a si mesmas: sentem-se amadas de « amor eterno », por um amor que encontra direta expressão no próprio Cristo. No raio da ação de Cristo, a posição social delas se transforma. Sentem que Jesus lhes fala de questões sobre as quais, naquele tempo, não se discutia com uma mulher. O exemplo, em certo sentido, mais significativo a este respeito é o daSamaritana, junto ao poço de Siquém. Jesus — que sabe que é pecadora e disto lhe fala —conversa com ela sobre os mistérios mais profundos de Deus. Fala-lhe do dom infinito do amor de Deus, que é como uma « fonte de água que jorra para a vida eterna » (Jo 4, 14). Fala-lhe de Deus que é Espírito e da verdadeira adoração que o Pai tem direito de receber em espírito e verdade (cf. Jo 4, 24).
Revela-lhe, enfim, ser ele o Messias prometido a Israel (cf. Jo 4, 26).
Este é um evento sem precedentes: essa mulher, e além do mais « mulher-pecadora », torna-se « discípula » de Cristo; mais ainda, uma vez instruída, anuncia Cristo aos habitantes da Samaria, de modo que também eles o acolhem com fé (cf. Jo 4, 39-42). Um evento sem precedentes, se se tem presente o modo comum de tratar as mulheres, próprio de quantos ensinavam em Israel, enquanto no modo de agir de Jesus de Nazaré, tal evento se faz normal. A este propósito, merecem uma recordação particular também as irmãs de Lázaro: a Jesus amava Marta, Maria, irmã dela e Lázaro » (cf. Jo 11, 5). Maria « escutava a palavra » de Jesus. Quando vai visitá-los em casa, ele mesmo define o comportamento de Maria como « a melhor parte » em relação à preocupação de Marta com os afazeres domésticos (cf. Lc 10, 38-42). Noutra ocasião, também Marta — depois da morte de Lázaro — se torna interlocutora de Cristo e o colóquio se refere às mais profundas verdades da revelação e da fé. « Senhor, se estivesses aqui, não teria morrido meu irmão » — « Teu irmão ressuscitará » — « Sei que há de ressuscitar no último dia ». Disse-lhe Jesus: « Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que venha a morrer, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim não morrerá jamais. Crês nisto? » — « Sim, Senhor, creio que és o Cristo, o Filho de Deus, que deve vir ao mundo » (Jo 11, 21-27). Depois desta profissão de fé, Jesus ressuscita Lázaro. Também o colóquio com Marta é um dos mais importantes do Evangelho.
Cristo fala com as mulheres sobre as coisas de Deus, e elas compreendem-nas: uma autêntica ressonância da mente e do coração, uma resposta de fé. E por esta resposta marcadamente « feminina » Jesus exprime apreço e admiração, como no caso da mulher cananéia (cf. Mt 15, 28). Por vezes, Ele propõe como exemplo essa fé viva, permeada de amor: ensina, portanto, tomando como ponto de referência essa resposta feminina da mente e do coração. Assim acontece no caso da mulher « pecadora », cujo modo de agir, na casa do fariseu, é tomado por Jesus como ponto de partida para explicar a verdade sobre a remissão dos pecados: « são perdoados os seus muitos pecados visto que muito amou. Mas aquele a quem pouco se perdoa pouco ama » (Lc 7, 47). Por ocasião de outra unção, Jesus toma a defesa, diante dos discípulos e particularmente diante de Judas, da mulher e da sua ação: « por que molestais esta mulher? Foi por certo uma boa obra que ela praticou comigo... Ao derramar este unguento perfumado sobre o meu corpo, fê-lo para preparar-me para a sepultura. Em verdade vos digo que em todo o mundo, onde quer que seja pregada esta boa-nova, também o que ela fez será dito para seu louvor » (Mt 26, 6-13).
Na realidade, os Evangelhos não só descrevem o que fez aquela mulher em Betânia, na casa de Simão o leproso, mas colocam também em destaque como, no momento da prova definitiva e determinante para toda a missão messiânica de Jesus de Nazaré, aos pés da Cruz se encontram, primeiras entre todos, as mulheres. Dos apóstolos, somente João permaneceu fiel. As mulheres, ao invés, são muitas. Estavam presentes não só a Mãe de Cristo e a « irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena » (Jo 19, 25), mas « muitas mulheres que observavam de longe: isto é, aquelas que tinham seguido a Jesus desde a Galiléia, prestando-lhe assistência » (Mt 27, 55). Como se vê, naquela que foi a mais dura prova da fé e da fidelidade, as mulheres demonstraram-se mais fortes que os apóstolos: nesses momentos de perigo, aquelas que « amam muito » conseguem vencer o medo. Antes, havia as mulheres na via dolorosa, « que batiam no peito e se lamentavam por ele » (Lc 23, 27). Antes ainda, havia a mulher de Pilatos que advertira o marido: « Não te encarregues desse justo, pois que hoje padeci muito em sonhos por causa dele » (Mt 27, 19).
Primeiras testemunhas de Ressurreição
16. Desde o início da missão de Cristo, a mulher demonstra para com Ele e seu mistério umasensibilidade especial que corresponde a uma característica da sua feminilidade. É preciso dizer, além do mais, que uma confirmação particular disso se verifica em relação ao mistério pascal, não só no momento da Cruz, mas também na manhã da Ressurreição. As mulheres são as primeiras junto à sepultura. São as primeiras a encontrá-la vazia. São as primeiras a ouvir: « não está aqui, porque ressuscitou, como tinha dito » (Mt 28, 6). São as primeiras a abraçar-lhe os pés (cf. Mt 28, 9). São também as primeiras a serem chamadas a anunciar esta verdade aos apóstolos (cf. Mt 28, 1-10; Lc 24, 8-11). O Evangelho de João (cf. também Mc 16, 9) coloca em destaque a função particular de Maria Madalena. É a primeira a encontrar o Cristo ressuscitado.
De início, supõe tratar-se do jardineiro; reconhece-o só quando ele a chama pelo nome: «"Maria!" diz-lhe Jesus. Ela, voltando-se, exclama em hebraico: «Rabbuni!", que quer dizer "Mestre!" Diz-lhe Jesus: "não me retenhas, porque ainda não subi para o Pai; mas vai ter com meus irmãos e diz-lhes que vou subir para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus". E Maria Madalena foi logo anunciar aos discípulos: "Vi o Senhor" e também o que lhe tinhafalado » (Jo 20, 16-18).
Por isso ela é chamada também « a apóstola dos apóstolos » (38) Maria Madalena foi a testemunha ocular do Cristo ressuscitado antes dos apóstolos e, por essa razão, foi também a primeira a dar-lhe testemunho diante dos apóstolos. Este acontecimento, em certo sentido, coroa tudo o que foi dito em precedência sobre o ato de Cristo de confiar as verdades divinas às mulheres, de igual maneira que aos homens. Pode-se dizer que assim se cumpriram as palavras do Profeta: « Derramarei o meu espírito sobre todo homem, e tornar-se-ão profetas os vossos filhos e as vossas filhas » (J1 3, 1). Cinquenta dias depois da ressurreição de Cristo, estas palavras confirmam-se mais uma vez no cenáculo de Jerusalém, durante a vinda do Espírito Santo, o Paráclito (cf. At 2, 17).
Tudo o que se disse até aqui sobre o comportamento de Cristo em relação às mulheres confirma e esclarece, no Espírito Santo, a verdade sobre a igualdade dos dois — homem e mulher. Deve-se falar de uma « paridade » essencial: dado que os dois — a mulher e o homem — são criados à imagem e semelhança de Deus, ambos são em igual medida susceptíveis de receber a dádiva da verdade divina e do amor no Espírito Santo. Um e outro acolhem as suas « visitas » salvíficas e santificantes.
O fato de ser homem ou mulher não comporta aqui nenhuma limitação, como não limita em absoluto a ação salvífica e santificante do Espírito no homem o fato de ser judeu ou grego, escravo ou livre, segundo as palavras bem conhecidas do apóstolo: « todos vós sois um só em Cristo Jesus » (Gál 3, 28). Esta unidade não anula a diversidade. O Espírito Santo, que opera essa unidade na ordem sobrenatural da graça santificante, contribui em igual medida para o fato que se « tornem profetas os vossos filhos » e que se tornem profetas « as vossas filhas ». « Profetizar » significa exprimir com a palavra e com a vida « as grandes obras de Deus » (cf. At2, 11), conservando a verdade e a originalidade de cada pessoa, seja homem ou mulher. A « igualdade » evangélica, a « paridade » da mulher e do homem no que se refere às « grandes obras de Deus », tal como se manifestou de modo tão límpido nas obras e nas palavras de Jesus de Nazaré, constitui a base mais evidente da dignidade e da vocação da mulher na Igreja e no mundo. Toda vocação tem um sentido profundamente pessoal e profético. Na vocação assim entendida, a personalidade da mulher atinge uma nova medida: a medida das « grandes obras de Deus », das quais a mulher se torna sujeito vivo e testemunha insubstituível
Documento Mulieris Dignitatem
Por João Paulo II
As palavras do Proto-Evangelho, no Livro de Gênesis, permitem que passemos ao âmbito do Evangelho. A redenção do homem, ali anunciada, aqui se torna realidade na pessoa e na missão de Jesus Cristo, nas quais reconhecemos também aquilo que a realidade da redenção significa para a dignidade e a vocação da mulher. Este significado é-nos esclarecido em grau maior pelas palavras de Cristo e por todo o seu comportamento, em relação às mulheres, que é extremamente simples e, exatamente por isso, extraordinário, se visto no horizonte do seu tempo: é um comportamento que se caracteriza por uma grande transparência e profundidade. Diversas mulheres aparecem no itinerário da missão de Jesus de Nazaré, e o encontro com cada uma delas é uma confirmação da « novidade de vida » evangélica, de que já se falou.
Admite-se universalmente — e até por parte de quem se posiciona criticamente diante da mensagem cristã — que Cristo se constituiu, perante os seus contemporâneos, promotor da verdadeira dignidade da mulher e da vocação correspondente a tal dignidade. Às vezes, isso provocava estupor, surpresa, muitas vezes raiando o escândalo: « ficaram admirados por estar ele a conversar com uma mulher » (Jo 4, 27), porque este comportamento se distinguia daquele dos seus contemporâneos.
« Ficaram admirados » até os próprios discípulos de Cristo. O fariseu, a cuja casa se dirigiu a mulher pecadora para ungir os pés de Jesus com óleo perfumado, « disse consigo: "Se este homem fosse um profeta, saberia quem é e de que espécie é a mulher que o toca: é uma pecadora" » (Lc 7, 39). Estranheza ainda maior ou até « santa in dignação » deviam provocar nos ouvintes satisfeitos de si as palavras de Cristo: « Os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus » (Mt 21, 31).
Aquele que falava e agia assim fazia compreender que os « mistérios do Reino » lhe eram conhecidos até o fundo. Ele também « sabia o que há em cada homem » (Jo 2, 25), no seu íntimo, no seu « coração ». Era testemunha do desígnio eterno de Deus a respeito do homem por ele criado à sua imagem e semelhança, como homem e mulher. Era também profundamente consciente das consequências do pecado, do « mistério de iniquidade » que opera nos corações humanos come fruto amargo do ofuscamento da imagem divina
Como é signiíicativo o fato de que, no colóquio fundamental sobre o matrimônio e sobre a sua indissolubilidade, Jesus, diante de seus interlocutores, « os escribas », que eram por ofício os conhecedores da Lei, faça referência ao « princípio ». A questão colocada é a do direito « masculino » de « repudiar a própria mulher por qualquer motivo » (Mt 19, 3); e, portanto, também do direito da mulher, da sua justa posição no matrimônio, da sua dignidade. Os interlocutores consideram ter a seu favor a legislação mosaica vigente em Israel « Moisés mandou dar-lhe libelo de repúdio e despedi-la »(Mt 19, 7). Responde Jesus: « por causa da dureza do vosso coração permitiu-vos Moisés repudiar as vossas mulheres; mas no princípio não era assim » (Mt 19, 8). Jesus apela para o « princípio », para a criação do homem como homem e mulher e para o ordenamento de Deus que se fundamenta no fato de que os dois foram criados « à sua imagem e semelhança ». Por isso, quando o homem « deixa seu pai e sua mãe » unindo-se à sua esposa, de modo a formarem os dois « uma só carne », permanece em vigor a lei que provém de Deus mesmo: « Não separe, pois, o homem o que Deus uniu » (Mt 19, 6).
O princípio desse « ethos », que desde o início foi inscrito na realidade da criação, é agora confirmado por Cristo contra a tradição, que comportava a discriminação da mulher. Nesta tradição, o homem « dominava », não considerando adequadamente a mulher e a dignidade que o « ethos » da criação colocou como base das relações recíprocas das duas pessoas unidas em matrimônio. Este « ethos » é recordado e confirmado pelas palavras de Cristo: é o « ethos » do Evangelho e da redenção.
As mulheres do Evangelho
Folheando as páginas do Evangelho, passa diante de nossos olhos um grande número de mulheres, de idade e condições diversas. Encontramos mulheres atingidas pela doença ou por sofrimentos físicos, como a mulher que tinha « um espírito que a mantinha enferma, andava recurvada e não podia de forma alguma endireitar-se » (cf. Lc 13, 11); ou como a sogra de Simão que estava « de cama com febre » (Mc 1, 30); ou como a mulher que « sofria de um fluxo de sangue » (cf. Mc 5, 25-34), que não podia tocar ninguém, porque se pensava que o seu toque tornasse o homem « impuro ». Cada uma delas foi curada e a última, a hemorroíssa, que tocou o manto de Jesus « no meio da multidão » (Mc 5, 27), foi por ele louvada pela sua grande fé: « a tua fé te salvou » (Mc 5, 34). Há, depois, a filha de Jairo, que Jesus faz voltar à vida, dirigindo-se a ela com ternura: « Menina, eu te mando, levanta-te! » (Mc 5, 41). E há ainda a viúva de Naim, para quem Jesus faz voltar à vida o filho único, fazendo acompanhar o seu gesto de uma expressão de terna piedade: « compadeceu-se dela e disse-lhe: "Não chores" » (Lc 7, 13). E há, enfim, a Cananéia, uma mulher que merece da parte de Cristo palavras de especial estima pela sua fé, sua humildade e pela grandeza de espírito, de que só um coração de mãe é capaz: « ó Mulher, é grande a tua fé! Faça-se como desejas » (Mt 15, 28). A mulher cananéia pedia a cura de sua filha.
às vezes as mulheres, que Jesus encontrava e que dele recebiam tantas graças, o acompanhavam, enquanto com os apóstolos peregrinava pelas cidades e aldeias, anunciando o Evangelho do Reino de Deus; e elas « os assistiam com os seus bens ». O Evangelho cita entre elas Joana, esposa do administrador de Herodes, Susana e « muitas outras» (Lc 8, 1-3).
As vezes, figuras de mulheres aparecem nas parábolas, com que Jesus de Nazaré ilustrava aos seus ouvintes a verdade sobre o Reino de Deus. Assim é nas parábolas da dracma perdida (cf.Lc 15, 8-10), do fermento (cf. Mt 13, 33), das virgens prudentes e das virgens estultas (cf. Mt 25, 1-13). É particularmente eloquente o relato do óbulo da viúva. Enquanto « os ricos ... colocavam as suas ofertas na caixa do templo ... uma viúva ... deitou lá duas moedinhas ». Então Jesus disse: « essa viúva pobre deitou mais do que todos... foi da sua penúria que tirou tudo quanto possuía » (cf. Lc 21, 1-4). Deste modo Jesus a apresenta como modelo para todos e a defende, pois no sistema sócio-jurídico da época, as viúvas eram seres totalmente indefesos (cf. tambémLc 18, 1-7).
Em todo o ensinamento de Jesus, como também no seu comportamento, não se encontra nada que denote a discriminação, própria do seu tempo, da mulher. Ao contrário, as suas palavras e as suas obras exprimem sempre o respeito e a honra devidos à mulher. A mulher recurvada é chamada « filha de Abraão » (Lc 13,16), enquanto em toda a Bíblia o título « filho de Abraão » é atribuído só aos homens. Percorrendo a via dolorosa rumo ao Gólgota, Jesus dirá às mulheres: « Filhas de Jerusalém, não choreis por mim » (Lc 23, 28). Este modo de falar às mulheres e sobre elas, assim como o modo de tratá-las, constitui uma clara « novidade » em relação aos costumes dominantes do tempo.
Isso se torna ainda mais explícito no tocante àquelas mulheres que a opinião comum apontava com desprezo como pecadoras, pecadoras públicas e adúlteras. Por exemplo, a Samaritana, a quem Jesus mesmo diz: « tiveste cinco maridos e aquele que agora tens não é teu marido ». E ela, percebendo que ele conhecia os segredos da sua vida, reconhece nele o Messias e corre a anunciá-lo aos seus conterrâneos. O diálogo que precede este reconhecimento é um dos mais belos do Evangelho (cf. Jo 4, 7-27).
Eis, depois, uma pecadora pública que, não obstante a condenação por parte da opinião comum, entra na casa do fariseu para ungir com óleo perfumado os pés de Jesus. Ao anfitrião que se escandalizava deste fato, Jesus dirá dela: « São perdoados os seus muitos pecados, visto que muito amou » (cf. Lc 7, 37-47).
Eis, enfim, uma situação que é talvez a mais eloquente: uma mulher surpreendida em adultérioé conduzida a Jesus. A pergunta provocatória: « Ora Moisés, na Lei, mandou-nos apedrejar tais mulheres. Tu que dizes? », Jesus responde: « Aquele de vós que estiver sem pecado, lance-lhe por primeiro uma pedra ». A força de verdade, contida nesta resposta, é tão grande que « se foram embora um após o outro, a começar pelos mais velhos ». Permanecem só Jesus e a mulher. « Onde estão? Ninguém te condenou? » — « Ninguém, Senhor ». — « Nem eu te condenarei: — vai e doravante não tornes a pecar » (cf. Jo 8, 3-11).
Estes episódios constituem um quadro de conjunto muito transparente. Cristo é aquele que « sabe o que há no homem » (cf.Jo 2, 25), no homem e na mulher. Conhece a dignidade do homem, o seu valor aos olhos de Deus. Ele mesmo, Cristo, é a confirmação definitiva deste valor. Tudo o que diz e faz tem o seu cumprimento definitivo no mistério pascal da redenção. O comportamento de Jesus a respeito das mulheres, que encontra ao longo do caminho do seu serviço messianico, é o reflexo do desígnio eterno de Deus, o qual, criando cada uma delas, a escolhe e ama em Cristo (cf. Ef 1, 1-5). Por isso, cada mulher é aquela « única criatura na terra que Deus quis por si mesma ». Cada mulher herda do « princípio » a dignidade de pessoa precisamente como mulher. Jesus de Nazaré confirma esta dignidade, recorda-a, renova-a e faz dela um conteúdo do Evangelho e da redenção, para a qual é enviado ao mundo. É preciso, pois, introduzir na dimensão do mistério pascal toda palavra e todo gesto de Cristo que se referem à mulher. Desta maneira tudo se explica completamente.
A mulher surpreendida em adultério
14. Jesus entra na situação concreta e hístórica da mulher, situação sobre a qual pesa a herança do pecado. Esta herança exprime-se, entre outras coisas, no costume que discrimina a mulher em favor do homem, e está enraizada também dentro dela. Deste ponto de vista, o episódio da mulher « surpreendida em adultério » (cf. Jo 8, 3-11) parece ser particularmente eloquente. No fim Jesus lhe diz: « não tornes a pecar »; mas, primeiro ele desperta a consciência do pecado nos homens que a acusam para apedrejá-la, manifestando assim a sua profunda capacidade de ver as consciências e as obras humanas segundo a verdade. Jesus parece dizer aos acusadores: esta mulher, com todo o seu pecado, não é talvez também, e antes de tudo, uma confirmação das vossas transgressões, da vossa injustiça « masculina », dos vossos abusos?
Esta é uma verdade válida para todo o gênero humano. O fato narrado no Evangelho de João pode apresentar-se em inúmeras situações análogas em todas as épocas da história. Uma mulher é deixada só, é exposta diante da opinião pública com « o seu pecado », enquanto por detrás deste « seu » pecado se esconde um homem como pecador, culpado pelo « pecado do outro », antes, co-responsável do mesmo. E, no entanto, o seu pecado escapa à atenção, passa sob silêncio: aparece como não responsável pelo « pecado do outro »! às vezes ele passa a ser até acusador, como no caso descrito, esquecido do próprio pecado. Quantas vezes, de modo semelhante, a mulher paga pelo próprio pecado (pode acontecer que seja ela, em certos casos, a culpada pelo pecado do homem como « pecado do outro »), mas paga ela só e paga sozinha!Quantas vezes ela fica abandonada na sua maternidade, quando o homem, pai da criança, não quer aceitar a sua responsabilidade? E ao lado das numerosas « mães solteiras » das nossas sociedades, é preciso tomar em consideração também todas aquelas que, muitas vezes, sofrendo diversas pressões, inclusive da parte do homem culpado, « se livram » da criança antes do seu nascimento. « Livram-se »: mas a que preço? A opinião pública de hoje tenta, de várias maneiras, « anular » o mal deste pecado; normalmente, porém, a consciência da mulher não consegue esquecer que tirou a vida do próprio filho, porque não consegue apagar a disponibilidade a acolher a vida, inscrita no seu « ethos » desde o « princípio ».
É significativo o comportamento de Jesus no fato descrito no Evangelho de João 8, 3-11. Talvez em poucos momentos como neste se manifesta o seu poder — o poder da verdade — a respeito das consciências humanas. Jesus está tranquilo, recolhido, pensativo. A sua consciência, aqui como no colóquio com os Fariseus (cf. Mt 19, 3-9), não estará talvez em contato com o mistério do « princípio », quando o homem foi criado homem e mulher, e a mulher foi confiada ao homem com a sua diversidade feminina, e também com a sua potencial maternidade? Também o homem foi confiado pelo Criador à mulher. Foram reciprocamente confiados um ao outro como pessoas feitas à imagem e semelhança do próprio Deus. Nesse ato de confiança está a medida do amor, do amor esponsal: para tornar-se « um dom sincero » um para o outro, é preciso que cada um dos dois se sinta responsável pelo dom. Esta medida destina-se aos dois — homem e mulher — desde o « princípio ».
Após o pecado original, forças opostas operam no homem e na mulher, por causa da tríplice concupiscência, « fonte do pecado ». Essas forças agem no interior do homem. Por isso Jesus dirá no Sermão da montanha: « todo aquele que olhar para uma mulher com mau desejo, já com ela cometeu adultério no seu coração » (Mt 5, 28). Estas palavras, dirigidas diretamente ao homem, mostram a verdade fundamental da sua responsabilidade em relação à mulher: pela sua dignidade, pela sua maternidade, pela sua vocação. Mas, indiretamente, elas se referem também à mulher. Cristo fazia tudo o que estava ao seu alcance para que — no âmbito dos costumes e das relações sociais daquele tempo — as mulheres reconhecessem no seu ensinamento e no seu agir a subjetividade e dignidade que lhes são próprias. Tendo por base a eterna « unidade dos dois », esta dignidade depende diretamente da própria mulher, como sujeito responsável por si, e é ao mesmo tempo « dada como responsabililade » ao homem. Coerentemente Cristo apela para a responsabilidade do homem. Na presente meditação sobre a dignidade e a vocação da mulher, hoje, é preciso referir-se necessariamente à impostação que encontramos no Evangelho.
A dignidade da mulher e a sua vocação — como, de resto, a do homem — encontram a sua vertente eterna no coração de Deus e, nas condições temporais da existência humana, estão estreitamente conexas com a « unidade dos dois ». Por isso, cada homem deve olhar para dentro de si e ver se aquela que lhe é confiada como irmã na mesma humanidade, como esposa, não se tenha tornado objeto de adultério no seu coração; se aquela que, sob diversos aspectos, é o co-sujeito da sua existência no mundo, não se tenha tornado para ele « objeto »: objeto de prazer, de exploração.
Custódias da mensagem evangélica
15. O modo de agir de Cristo, o Evangelho de suas obras e palavras é um protesto coerente contra tudo quanto ofende a dignidade da mulher. Por isso, as mulheres que se encontram perto de Cristo reconhecem-se a si mesmas na verdade que ele « ensina » e que ele « faz », também quando esta verdade versa sobre a « pecaminosidade » delas. Sentem-se « libertadas » por esta verdade, restituídas a si mesmas: sentem-se amadas de « amor eterno », por um amor que encontra direta expressão no próprio Cristo. No raio da ação de Cristo, a posição social delas se transforma. Sentem que Jesus lhes fala de questões sobre as quais, naquele tempo, não se discutia com uma mulher. O exemplo, em certo sentido, mais significativo a este respeito é o daSamaritana, junto ao poço de Siquém. Jesus — que sabe que é pecadora e disto lhe fala —conversa com ela sobre os mistérios mais profundos de Deus. Fala-lhe do dom infinito do amor de Deus, que é como uma « fonte de água que jorra para a vida eterna » (Jo 4, 14). Fala-lhe de Deus que é Espírito e da verdadeira adoração que o Pai tem direito de receber em espírito e verdade (cf. Jo 4, 24).
Revela-lhe, enfim, ser ele o Messias prometido a Israel (cf. Jo 4, 26).
Este é um evento sem precedentes: essa mulher, e além do mais « mulher-pecadora », torna-se « discípula » de Cristo; mais ainda, uma vez instruída, anuncia Cristo aos habitantes da Samaria, de modo que também eles o acolhem com fé (cf. Jo 4, 39-42). Um evento sem precedentes, se se tem presente o modo comum de tratar as mulheres, próprio de quantos ensinavam em Israel, enquanto no modo de agir de Jesus de Nazaré, tal evento se faz normal. A este propósito, merecem uma recordação particular também as irmãs de Lázaro: a Jesus amava Marta, Maria, irmã dela e Lázaro » (cf. Jo 11, 5). Maria « escutava a palavra » de Jesus. Quando vai visitá-los em casa, ele mesmo define o comportamento de Maria como « a melhor parte » em relação à preocupação de Marta com os afazeres domésticos (cf. Lc 10, 38-42). Noutra ocasião, também Marta — depois da morte de Lázaro — se torna interlocutora de Cristo e o colóquio se refere às mais profundas verdades da revelação e da fé. « Senhor, se estivesses aqui, não teria morrido meu irmão » — « Teu irmão ressuscitará » — « Sei que há de ressuscitar no último dia ». Disse-lhe Jesus: « Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que venha a morrer, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim não morrerá jamais. Crês nisto? » — « Sim, Senhor, creio que és o Cristo, o Filho de Deus, que deve vir ao mundo » (Jo 11, 21-27). Depois desta profissão de fé, Jesus ressuscita Lázaro. Também o colóquio com Marta é um dos mais importantes do Evangelho.
Cristo fala com as mulheres sobre as coisas de Deus, e elas compreendem-nas: uma autêntica ressonância da mente e do coração, uma resposta de fé. E por esta resposta marcadamente « feminina » Jesus exprime apreço e admiração, como no caso da mulher cananéia (cf. Mt 15, 28). Por vezes, Ele propõe como exemplo essa fé viva, permeada de amor: ensina, portanto, tomando como ponto de referência essa resposta feminina da mente e do coração. Assim acontece no caso da mulher « pecadora », cujo modo de agir, na casa do fariseu, é tomado por Jesus como ponto de partida para explicar a verdade sobre a remissão dos pecados: « são perdoados os seus muitos pecados visto que muito amou. Mas aquele a quem pouco se perdoa pouco ama » (Lc 7, 47). Por ocasião de outra unção, Jesus toma a defesa, diante dos discípulos e particularmente diante de Judas, da mulher e da sua ação: « por que molestais esta mulher? Foi por certo uma boa obra que ela praticou comigo... Ao derramar este unguento perfumado sobre o meu corpo, fê-lo para preparar-me para a sepultura. Em verdade vos digo que em todo o mundo, onde quer que seja pregada esta boa-nova, também o que ela fez será dito para seu louvor » (Mt 26, 6-13).
Na realidade, os Evangelhos não só descrevem o que fez aquela mulher em Betânia, na casa de Simão o leproso, mas colocam também em destaque como, no momento da prova definitiva e determinante para toda a missão messiânica de Jesus de Nazaré, aos pés da Cruz se encontram, primeiras entre todos, as mulheres. Dos apóstolos, somente João permaneceu fiel. As mulheres, ao invés, são muitas. Estavam presentes não só a Mãe de Cristo e a « irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena » (Jo 19, 25), mas « muitas mulheres que observavam de longe: isto é, aquelas que tinham seguido a Jesus desde a Galiléia, prestando-lhe assistência » (Mt 27, 55). Como se vê, naquela que foi a mais dura prova da fé e da fidelidade, as mulheres demonstraram-se mais fortes que os apóstolos: nesses momentos de perigo, aquelas que « amam muito » conseguem vencer o medo. Antes, havia as mulheres na via dolorosa, « que batiam no peito e se lamentavam por ele » (Lc 23, 27). Antes ainda, havia a mulher de Pilatos que advertira o marido: « Não te encarregues desse justo, pois que hoje padeci muito em sonhos por causa dele » (Mt 27, 19).
Primeiras testemunhas de Ressurreição
16. Desde o início da missão de Cristo, a mulher demonstra para com Ele e seu mistério umasensibilidade especial que corresponde a uma característica da sua feminilidade. É preciso dizer, além do mais, que uma confirmação particular disso se verifica em relação ao mistério pascal, não só no momento da Cruz, mas também na manhã da Ressurreição. As mulheres são as primeiras junto à sepultura. São as primeiras a encontrá-la vazia. São as primeiras a ouvir: « não está aqui, porque ressuscitou, como tinha dito » (Mt 28, 6). São as primeiras a abraçar-lhe os pés (cf. Mt 28, 9). São também as primeiras a serem chamadas a anunciar esta verdade aos apóstolos (cf. Mt 28, 1-10; Lc 24, 8-11). O Evangelho de João (cf. também Mc 16, 9) coloca em destaque a função particular de Maria Madalena. É a primeira a encontrar o Cristo ressuscitado.
De início, supõe tratar-se do jardineiro; reconhece-o só quando ele a chama pelo nome: «"Maria!" diz-lhe Jesus. Ela, voltando-se, exclama em hebraico: «Rabbuni!", que quer dizer "Mestre!" Diz-lhe Jesus: "não me retenhas, porque ainda não subi para o Pai; mas vai ter com meus irmãos e diz-lhes que vou subir para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus". E Maria Madalena foi logo anunciar aos discípulos: "Vi o Senhor" e também o que lhe tinhafalado » (Jo 20, 16-18).
Por isso ela é chamada também « a apóstola dos apóstolos » (38) Maria Madalena foi a testemunha ocular do Cristo ressuscitado antes dos apóstolos e, por essa razão, foi também a primeira a dar-lhe testemunho diante dos apóstolos. Este acontecimento, em certo sentido, coroa tudo o que foi dito em precedência sobre o ato de Cristo de confiar as verdades divinas às mulheres, de igual maneira que aos homens. Pode-se dizer que assim se cumpriram as palavras do Profeta: « Derramarei o meu espírito sobre todo homem, e tornar-se-ão profetas os vossos filhos e as vossas filhas » (J1 3, 1). Cinquenta dias depois da ressurreição de Cristo, estas palavras confirmam-se mais uma vez no cenáculo de Jerusalém, durante a vinda do Espírito Santo, o Paráclito (cf. At 2, 17).
Tudo o que se disse até aqui sobre o comportamento de Cristo em relação às mulheres confirma e esclarece, no Espírito Santo, a verdade sobre a igualdade dos dois — homem e mulher. Deve-se falar de uma « paridade » essencial: dado que os dois — a mulher e o homem — são criados à imagem e semelhança de Deus, ambos são em igual medida susceptíveis de receber a dádiva da verdade divina e do amor no Espírito Santo. Um e outro acolhem as suas « visitas » salvíficas e santificantes.
O fato de ser homem ou mulher não comporta aqui nenhuma limitação, como não limita em absoluto a ação salvífica e santificante do Espírito no homem o fato de ser judeu ou grego, escravo ou livre, segundo as palavras bem conhecidas do apóstolo: « todos vós sois um só em Cristo Jesus » (Gál 3, 28). Esta unidade não anula a diversidade. O Espírito Santo, que opera essa unidade na ordem sobrenatural da graça santificante, contribui em igual medida para o fato que se « tornem profetas os vossos filhos » e que se tornem profetas « as vossas filhas ». « Profetizar » significa exprimir com a palavra e com a vida « as grandes obras de Deus » (cf. At2, 11), conservando a verdade e a originalidade de cada pessoa, seja homem ou mulher. A « igualdade » evangélica, a « paridade » da mulher e do homem no que se refere às « grandes obras de Deus », tal como se manifestou de modo tão límpido nas obras e nas palavras de Jesus de Nazaré, constitui a base mais evidente da dignidade e da vocação da mulher na Igreja e no mundo. Toda vocação tem um sentido profundamente pessoal e profético. Na vocação assim entendida, a personalidade da mulher atinge uma nova medida: a medida das « grandes obras de Deus », das quais a mulher se torna sujeito vivo e testemunha insubstituível
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