segunda-feira, 8 de abril de 2013

A Maravilhosa graça de Deus




palavra “graça” quando utilizada em sentido simples e por si, refere-se àqueles dons invisíveis que residem e operam na alma, contribuindo para a perfeição do homem para capacitá-lo a cumprir seu fim último, que é viver eternamente com Deus.

É um dom de Deus, dom este que o homem não tem direito, nem sequer remotamente, pois que sua natureza humana não lhe dá acesso

É portanto, um dom sobrenatural e interior de Deus, concedido para a nossa própria salvação, pelos méritos de Jesus Cristo.

Para entendermos sobre este tesouro imprescindível para nossa vida espiritual é preciso saber como foi o homem criado por Deus, como seria ele no estado natural e como Deus, por amor, o elevou a um estado sobrenatural, para que este gozasse de sua vida divina maravilhosa

Como tudo começou.....

No início o homem, - este ser composto de corpo e alma -, foi criado por Deus num grau inferior aos anjos, que sente, cresce, reproduz, reconhece os objetos sensíveis e tem a capacidade de reconhecer intelectualmente o ser Supra-sensível, a Verdade, e com vontade inclina-se para o bem racional.

Este tende à perfeição e para que isso aconteça, suas faculdades inferiores, vegetativas e sensitivas, devem ser submetidas à razão e à vontade e esta condição é absoluta, pois na medida em que ela falta, enfraquece ou desaparece a vida, começa-se a dissolução dos elementos, enfraquecendo o sistema, ocorrendo a morte.

 São Tomás nos diz que o homem foi elevado ao estado sobrenatural, no momento da sua criação ou imediatamente após, na tese de São Boaventura. Criatura alguma, por mais perfeita que se suponha, pode por si mesma contemplar a essência divina «que habita uma luz inacessível, lucem inhabitat inacessibilem» .

Mas Deus, por um privilégio inteiramente gratuito, chama o homem a contemplar esta divina essência no céu; e, como este por si mesmo é disso incapaz, Deus eleva, dilata, fortifica a inteligência pelo lume da glória. E assim participaremos, que de modo finito, da vida própria de Deus, pois que O conheceremos como Ele se conhece e o amaremos como Ele se ama a si mesmo

Mas o que seria este homem sobrenatural?

Deus quis pelo seu amor, eleva-lo a um estado superior, dando-lhes dons que o elevaria a esta condição. A noção de sobrenatural, conforme nos ensina Tanquerey, em geral, é tudo o que supera a natureza dum ser, as suas forças atuais, as suas exigências e os seus merecimentos

Um destes dons que o Senhor deu ao homem para eleva-lo a esta condição, seria a graça santificante, que é um divino comunicado a uma criatura, sobrepujando.

.A Graça Santificante: por ela o homem é modificado por Deus, de uma forma acidental, na sua natureza e capacidade de ação, não o torna Deus, mas deiforme, semelhante a Ele, capaz de atingi-lo pela visão beatífica, quando esta graça for transformada em glória e de o ver face a face, como Ele se vê a Si mesmo. Participamos da natureza de Deus, Ele vem a nós com sua graça maravilhosa!

Fora esta graça que é o próprio Deus em nós, deu-lhe também o Dom da Integridade (dom Preternatural – que aperfeiçoa a natureza, mas não a eleva até à ordem divina, e não a muda substancialmente, apenas transcende as capacidades ou exigências de alguma natureza particular) -, completa sua natureza e o capacita a receber a Graça.

O Dom da Integridade como disse, capacita o homem a receber a graça santificante - confere a ele três privilégios: A Ciência Infusa, O domínio das Paixões e a Imortalidade da alma

A Ciência Infusa, - é um privilégio só dos anjos, mas foi conferido a Adão, para facilitar o seu munus de cabeça e educador do gênero humano, dando a ele a capacidade infusa de conhecer a verdade e uma certa facilidade para adquirir a ciência experimental.

O domínio das Paixões- Deus conferiu a capacidade de lutar contra as paixões desregradas, do orgulho, facilitando-lhe a virtude, mas não o tornou impecável. Adão não tinha a tirania da concuspiscência, que o levava ao mal, mas tào somente uma certa tendência para o prazer, subordinada à razão. Sua vontade estava sujeita a Deus e por isso, suas faculdades inferiores estavam submetidas à razão e o corpo à alma: era a ordem, a retidão perfeita.

A Imortalidade do corpo - Naturalmente falando, o homem está sujeito à doença e à morte, mas pela providência divina, foi preservado desta dupla fraqueza. Para assim mais livremente poder a alma cumprir seus deveres superiores.

A união da Graça santificante, mais o dom da Integridade constitui o que se chama de Justiça original, modo como o homem se tornou ao ser elevado ao estado sobrenatural.

Portanto, nossos primeiros pais foram criados assim, em estado de justiça original, cheio de dons e privilégios, que os capacitariam a ver a Deus, que é santo e perfeito. O maravilhoso é que todos estes bens, com excessão da ciência infusa (que foi privilégio sómente de Adão), seriam como um bem de família e todos aqueles que nascessem depois deste Pai, nasceria com todos eles, para se tornarem aptos a também verem a face de Deus, quando viesse seu fim e caso não os perdesse.

Mas infelizmente Adão ao pecar, perdeu todos estes privilégios. Perdeu os dons preternaturais e a graça santificante, ficando com que lhe era próprio: a natureza e seus privilégios naturais. Sua vontade fica agora enfraquecida, mas permanece livre e pode escolher entre o bem e o mal. Deus quis lhe deixar a fé e a esperança e no momento da queda (Gn.3- Proto - Evangelho_) já o deixa vislumbrar a visào do libertador, saído da raça humana, que triunfaria sobre o demônio e restauraria o homem decaído, e ao mesmo tempo, pela graça atual, lhes instigava ao arrependimento. Adão perdeu, infelizmente o estado de justiça original.

Foi aí que Deus, por amor a este homem caído pelo pecado, envia Jesus, seu Filho amado, nascido de uma Virgem para o remir.

Depois retornaremos...

Festa da Anunciação

                                       

Por Bento XVI


"O que aconteceu em Nazaré, longe dos olhares do mundo, foi um gesto singular de Deus, uma intervenção poderosa na história através da qual uma criança foi concebida para trazer a salvação ao mundo inteiro.

O prodígio da Encarnação continua a desafiar-nos a abrir a nossa inteligência às possibilidades ilimitadas do poder transformador de Deus, do seu amor por nós e do seu desejo de estar em comunhão connosco. Aqui, o eterno Filho de Deus tornou-se homem e assim fez com que nós, seus irmãos e irmãs, pudéssemos compartilhar a sua filiação divina. Aquele movimento de abaixamento de um amor que se esvaziou a si mesmo tornou possível o movimento contrário, de exaltação, em que também nós somos elevados para participar da própria vida de Deus (cf. Fl 2, 6-11).

O Espírito que "desceu sobre Maria" (cf. Lc 1, 35) é o mesmo Espírito que pairou sobre as águas na aurora da Criação (cf. Gn 1, 2). Isto recorda-nos que a Encarnação foi um novo acto criativo. Quando nosso Senhor Jesus Cristo foi concebido por obra do Espírito Santo no seio virginal de Maria, Deus uniu-se à nossa humanidade criada, entrando numa nova relação permanente connosco e inaugurando uma nova Criação.

A narração da Anunciação ilustra a extraordinária amabilidade de Deus (cf. Madre Julian de Norwich, Revelações, 77-79). Ele não se impõe e si mesmo, não predetermina simplesmente o papel que Maria desempenhará no seu plano para a nossa salvação, mas procura em primeiro lugar o seu consenso.

Claramente, na Criação original Deus não pediu o consenso às suas criaturas, mas nesta nova Criação, sim. Maria está no lugar de toda a humanidade. Ela fala por todos nós, quando responde ao convite do Anjo. São Bernardo descreve como toda a plêiade celeste esperava com vigorosa impaciência a sua palavra de consenso, que deu cumprimento à união nupcial entre Deus e a humanidade. A atenção de todos os coros angélicos concentrou-se neste momento, no qual teve lugar um diálogo que daria início a um novo e definitivo capítulo da história do mundo. Maria disse: "Faça-se em mim segundo a tua palavra". E a Palavra de Deus tornou-se carne.

Reflectir sobre este mistério gozoso incute-nos esperança, a esperança certa de que Deus continuará a conduzir a nossa história, a agir com o poder criativo para alcançar as finalidades que para o cálculo humano parecem impossíveis. Isto desafia-nos a abrir-nos à acção transformadora do Espírito Criador que nos renova, nos faz um só com Ele e nos completa com a sua vida. Convida-nos, com especial amabilidade, a dar o consenso para que Ele habite em nós, a acolher a Palavra de Deus nos nossos corações, tornando-nos capazes de responder a Ele com amor e ir com amor uns ao encontro dos outros.

[...]. Às vezes talvez tenhais a impressão de que a vossa voz tenha pouca importância. [..]. A vossa situação traz à mente a da jovem Virgem Maria, que levou uma vida escondida em Nazaré, dispondo de muito pouco para a sua vida quotidiana, em termos de riqueza e de influência mundana. Para citar as palavras de Maria no seu grande hino de louvor, oMagnificat, Deus olhou para a humilde condição da sua serva e encheu de bens os famintos.

Tiremos a força do cântico de Maria, que daqui a pouco entoaremos em união com a Igreja do mundo inteiro! Tende a coragem de ser fiéis a Cristo e de permanecer aqui na terra que Ele santificou com a sua própria presença! Como Maria, também vós tendes um papel a desempenhar no plano divino da salvação, levando Cristo ao mundo, dando testemunho dele e difundindo a sua mensagem de paz e de unidade.

A vossa unidade na fé, na esperança e no amor é um fruto do Espírito Santo que habita em vós e vos torna capazes de ser instrumentos eficazes da paz de Deus, ajudando-vos a construir uma reconciliação genuína entre os diversos povos que reconhecem Abraão como seu pai na fé. Pois como Maria proclamou alegremente no seu Magnificat, Deus recorda-se sempre da "sua misericórdia, conforme tinha dito a nossos pais, em favor de Abraão e da sua descendência, para sempre" (Lc 1, 54-55).

Caros amigos em Cristo, tende a certeza de que eu me recordo continuamente de vós nas minhas orações, e peço-vos que façais o mesmo em relação a mim. Dirigimo-nos agora ao nosso Pai celestial, que neste lugar olhou para a humilde condição da sua serva, e entoemos os seus louvores em união com a Bem-Aventurada Virgem Maria, com todos os coros dos anjos e dos santos, e com a Igreja inteira em todas as regiões do mundo"


quarta-feira, 3 de abril de 2013

Novena a Nossa Senhora do Bom Conselho




Oh! Virgem gloriosa, escolhida pelo Conselho eterno para serdes a Mãe do Verbo Divino encarnado, tesoureira das graças divinas e advogada dos pecadores:

Eu, o mais indigno dos vossos servos a vós recorro, para que vos digneis ser minha guia e meu conselho neste vale de lágrimas.

Alcançai-me, pelo preciosíssimo sangue de vosso divino Filho, o perdão de meus pecados, a salvação da minha alma, os meios necessários para a conseguir.

Alcançai para a Santa Igreja o triunfo sobre os seus inimigos e a dilatação do Reino de Jesus Cristo em todo o mundo.

Assim seja.

Rezar Pai-Nosso, Ave- Maria e Glória.

( A novena para este mês de abril, vai do dia 18 ao dia 26)

Que a Virgem Santíssima esteja com todos nós.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Homilia Missa Crismal.

 

Santo Padre Francisco

Amados irmãos e irmãs,

 Com alegria, celebro pela primeira vez a Missa Crismal como Bispo de Roma. Saúdo com afeto a todos vós, especialmente aos amados sacerdotes que hoje recordam, como eu, o dia da Ordenação.

 As Leituras e o Salmo falam-nos dos «Ungidos»: o Servo de Javé referido por Isaías, o rei David e Jesus nosso Senhor. Nos três, aparece um dado comum: a unção recebida destina-se ao povo fiel de Deus, de quem são servidores; a sua unção «é para» os pobres, os presos, os oprimidos…

 Encontramos uma imagem muito bela de que o santo crisma «é para» no Salmo 133: «É como óleo perfumado derramado sobre a cabeça, a escorrer pela barba, a barba de Aarão, a escorrer até à orla das suas vestes» (v. 2). Este óleo derramado, que escorre pela barba de Aarão até à orla das suas vestes, é imagem da unção sacerdotal, que, por intermédio do Ungido, chega até aos confins do universo representado nas vestes. As vestes sagradas do Sumo Sacerdote são ricas de simbolismos; um deles é o dos nomes dos filhos de Israel gravados nas pedras de ónix que adornavam as ombreiras do efod, do qual provém a nossa casula atual: seis sobre a pedra do ombro direito e seis na do ombro esquerdo (cf. Ex 28, 6-14).

Também no peitoral estavam gravados os nomes das doze tribos de Israel (cf. Ex 28, 21). Isto significa que o sacerdote celebra levando sobre os ombros o povo que lhe está confiado e tendo os seus nomes gravados no coração. Quando envergamos a nossa casula humilde pode fazer-nos bem sentir sobre os ombros e no coração o peso e o rosto do nosso povo fiel, dos nossos santos e dos nossos mártires, que são tantos neste tempo.

 Depois da beleza de tudo o que é litúrgico – que não se reduz ao adorno e bom gosto dos paramentos, mas é presença da glória do nosso Deus que resplandece no seu povo vivo e consolado –, fixemos agora o olhar na ação. O óleo precioso, que unge a cabeça de Aarão, não se limita a perfumá-lo a ele, mas espalha-se e atinge «as periferias». O Senhor dirá claramente que a sua unção é para os pobres, os presos, os doentes e quantos estão tristes e abandonados. A unção, amados irmãos, não é para nos perfumar a nós mesmos, e menos ainda para que a conservemos num frasco, pois o óleo tornar-se-ia rançoso... e o coração amargo.

 O bom sacerdote reconhece-se pelo modo como é ungido o seu povo; temos aqui uma prova clara. Nota-se quando o nosso povo é ungido com óleo da alegria; por exemplo, quando sai da Missa com o rosto de quem recebeu uma boa notícia. O nosso povo gosta do Evangelho quando é pregado com unção, quando o Evangelho que pregamos chega ao seu dia a dia, quando escorre como o óleo de Aarão até às bordas da realidade, quando ilumina as situações extremas, «as periferias» onde o povo fiel está mais exposto à invasão daqueles que querem saquear a sua fé.

As pessoas agradecem-nos porque sentem que rezamos a partir das realidades da sua vida de todos os dias, as suas penas e alegrias, as suas angústias e esperanças. E, quando sentem que, através de nós, lhes chega o perfume do Ungido, de Cristo, animam-se a confiar-nos tudo o que elas querem que chegue ao Senhor: «Reze por mim, padre, porque tenho este problema», «abençoe-me, padre», «reze para mim»… Estas confidências são o sinal de que a unção chegou à orla do manto, porque é transformada em súplica – súplica do Povo de Deus.

Quando estamos nesta relação com Deus e com o seu Povo e a graça passa através de nós, então somos sacerdotes, mediadores entre Deus e os homens. O que pretendo sublinhar é que devemos reavivar sempre a graça, para intuirmos, em cada pedido – por vezes inoportuno, puramente material ou mesmo banal (mas só aparentemente!) –, o desejo que tem o nosso povo de ser ungido com o óleo perfumado, porque sabe que nós o possuímos.

 Intuir e sentir, como o Senhor sentiu a angústia permeada de esperança da hemorroíssa quando ela Lhe tocou a fímbria do manto. Este instante de Jesus, no meio das pessoas que O rodeavam por todos os lados, encarna toda a beleza de Aarão revestido sacerdotalmente e com o óleo que escorre pelas suas vestes. É uma beleza escondida, que brilha apenas para aqueles olhos cheios de fé da mulher atormentada com as perdas de sangue. Os próprios discípulos – futuros sacerdotes – não conseguem ver, não compreendem: na «periferia existencial», vêem apenas a superficialidade duma multidão que aperta Jesus de todos os lados quase O sufocando (cf. Lc 8, 42). Ao contrário, o Senhor sente a força da unção divina que chega às bordas do seu manto. É preciso chegar a experimentar assim a nossa unção, com o seu poder e a sua eficácia redentora: nas «periferias» onde não falta sofrimento, há sangue derramado, há cegueira que quer ver, há prisioneiros de tantos patrões maus. Não é, concretamente, nas auto-experiências ou nas reiteradas introspecções que encontramos o Senhor: os cursos de auto-ajuda na vida podem ser úteis, mas viver a nossa vida sacerdotal passando de um curso ao outro, de método em método leva a tornar-se pelagianos, faz-nos minimizar o poder da graça, que se ativa e cresce na medida em que, com fé, saímos para nos dar a nós mesmos oferecendo o Evangelho aos outros, para dar a pouca unção que temos àqueles que não têm nada de nada.

 O sacerdote, que sai pouco de si mesmo, que unge pouco – não digo «nada», porque, graças a Deus, o povo nos rouba a unção –, perde o melhor do nosso povo, aquilo que é capaz de ativar a parte mais profunda do seu coração presbiteral. Quem não sai de si mesmo, em vez de ser mediador, torna-se pouco a pouco um intermediário, um gestor. A diferença é bem conhecida de todos: o intermediário e o gestor «já receberam a sua recompensa». É que, não colocando em jogo a pele e o próprio coração, não recebem aquele agradecimento carinhoso que nasce do coração; e daqui deriva precisamente a insatisfação de alguns, que acabam por viver tristes, padres tristes, e transformados numa espécie de colecionadores de antiguidades ou então de novidades, em vez de serem pastores com o «cheiro das ovelhas» – isto vo-lo peço: sede pastores com o «cheiro das ovelhas», que se sinta este –, serem pastores no meio do seu rebanho, e pescadores de homens.

É verdade que a chamada crise de identidade sacerdotal nos ameaça a todos e vem juntar-se a uma crise de civilização; mas, se soubermos quebrar a sua onda, poderemos fazer-nos ao largo no nome do Senhor e lançar as redes. É um bem que a própria realidade nos faça ir para onde, aquilo que somos por graça, apareça claramente como pura graça, ou seja, para este mar que é o mundo atual onde vale só a unção – não a função – e se revelam fecundas unicamente as redes lançadas no nome d’Aquele em quem pusemos a nossa confiança: Jesus. Amados fiéis, permanecei unidos aos vossos sacerdotes com o afeto e a oração, para que sejam sempre Pastores segundo o coração de Deus. Amados sacerdotes, Deus Pai renove em nós o Espírito de Santidade com que fomos ungidos, o renove no nosso coração de tal modo que a unção chegue a todos, mesmo nas «periferias» onde o nosso povo fiel mais a aguarda e aprecia. Que o nosso povo sinta que somos discípulos do Senhor, sinta que estamos revestidos com os seus nomes e não procuramos outra identidade; e que ele possa receber, através das nossas palavras e obras, este óleo da alegria que nos veio trazer Jesus, o Ungido. Amém.

 Que provoque, em nós Presbíteros, um profundo exame de consciência em vista de uma verdadeira conversão pessoal e pastoral (grifos meus)

quarta-feira, 27 de março de 2013

Chesterton




“O corpo foi descido da cruz, e um dos poucos ricos entre os cristãos obteve permissão para sepultá-lo numa tumba aberta na rocha em seu jardim; e os romanos montaram uma guarda militar para impedir um possível tumulto e a tentativa de recuperar o corpo. Houve mais uma vez um simbolismo natural nesses procedimentos naturais: convinha que a tumba fosse lacrada com todo o sigilo das antigas sepulturas orientais e guardada pela autoridade dos césares. Pois naquela segunda caverna toda a grande e gloriosa humanidade a que chamamos de antiguidade estava reunida e encoberta, e ali foi sepultada. Foi o fim de algo muito grande chamado de história humana que foi simplesmente humana. As mitologias e as filosofias foram ali sepultadas, os deuses e os heróis e os sábios.

 Na grande frase romana, eles haviam vivido. Mas como só podiam viver, eles só poderiam morrer; e estavam mortos. No terceiro dia os amigos de Cristo vieram para o local ao romper da manhã e encontraram o túmulo vazio e a pedra removida. De várias formas eles perceberam a nova maravilha, mas até mesmo eles mal se deram conta de que o mundo havia morrido naquela noite. O que estavam contemplando era o primeiro dia de uma nova criação, com um novo céu e uma nova terra; e sob as aparências do jardineiro Deus novamente caminhava pelo jardim, no frio não da noite e sim da madrugada.”

 (Gilbert Keith Chesterton, The Everlasting Man)

Via Chesterton Brasil

segunda-feira, 25 de março de 2013

Domingo de Ramos


Por Papa Francisco




1. Jesus entra em Jerusalém. A multidão dos discípulos acompanha-O em festa, os mantos são estendidos diante d’Ele, fala-se dos prodígios que realizou, ergue-se um grito de louvor: «Bendito seja o Rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas!» (Lc 19, 38).

Multidão, festa, louvor, bênção, paz: respira-se um clima de alegria. Jesus despertou tantas esperanças no coração, especialmente das pessoas humildes, simples, pobres, abandonadas, pessoas que não contam aos olhos do mundo. Soube compreender as misérias humanas, mostrou o rosto misericordioso de Deus e inclinou-Se para curar o corpo e a alma.

Assim é Jesus. Assim é o seu coração, que nos vê a todos, que vê as nossas enfermidades, os nossos pecados. Grande é o amor de Jesus! E entra em Jerusalém assim com este amor que nos vê a todos. É um espectáculo lindo: cheio de luz – a luz do amor de Jesus, do amor do seu coração –, de alegria, de festa.

No início da Missa, também nós o reproduzimos. Agitámos os nossos ramos de palmeira. Também nós acolhemos Jesus; também nós manifestamos a alegria de O acompanhar, de O sentir perto de nós, presente em nós e no nosso meio, como um amigo, como um irmão, mas também como rei, isto é, como farol luminoso da nossa vida. Jesus é Deus, mas desceu a caminhar connosco como nosso amigo, como nosso irmão; e aqui nos ilumina ao longo do caminho. E assim hoje O acolhemos.

E aqui temos a primeira palavra que vos queria dizer: alegria! Nunca sejais homens e mulheres tristes: um cristão não o pode ser jamais! Nunca vos deixeis invadir pelo desânimo! A nossa alegria não nasce do facto de possuirmos muitas coisas, mas de termos encontrado uma Pessoa: Jesus, que está no meio de nós; nasce do facto de sabermos que, com Ele, nunca estamos sozinhos, mesmo nos momentos difíceis, mesmo quando o caminho da vida é confrontado com problemas e obstáculos que parecem insuperáveis… e há tantos! E nestes momentos vem o inimigo, vem o diabo, muitas vezes disfarçado de anjo, e insidiosamente nos diz a sua palavra. Não o escuteis! Sigamos Jesus! Nós acompanhamos, seguimos Jesus, mas sobretudo sabemos que Ele nos acompanha e nos carrega aos seus ombros: aqui está a nossa alegria, a esperança que devemos levar a este nosso mundo. E, por favor, não deixeis que vos roubem a esperança! Não deixeis roubar a esperança… aquela que nos dá Jesus!

2. Segunda palavra. Para que entra Jesus em Jerusalém? Ou talvez melhor: Como entra Jesus em Jerusalém? A multidão aclama-O como Rei. E Ele não Se opõe, não a manda calar (cf. Lc 19, 39-40). Mas, que tipo de Rei seria Jesus? Vejamo-Lo… Monta um jumentinho, não tem uma corte como séquito, nem está rodeado de um exército como símbolo de força. Quem O acolhe são pessoas humildes, simples, que possuem um sentido para ver em Jesus algo mais; têm o sentido da fé que diz: Este é o Salvador. Jesus não entra na Cidade Santa, para receber as honras reservadas aos reis terrenos, a quem tem poder, a quem domina; entra para ser flagelado, insultado e ultrajado, como preanuncia Isaías na Primeira Leitura  (cf. Is 50, 6); entra para receber uma coroa de espinhos, uma cana, um manto de púrpura (a sua realeza será objecto de ludíbrio); entra para subir ao Calvário carregado com um madeiro.

 E aqui temos a segunda palavra: Cruz. Jesus entra em Jerusalém para morrer na Cruz.

 E é precisamente aqui que refulge o seu ser Rei segundo Deus: o seu trono real é o madeiro da Cruz! Vem-me à mente aquilo que Bento XVI dizia aos Cardeais: Vós sois príncipes, mas de um Rei crucificado. Tal é o trono de Jesus. Jesus toma-o sobre Si… Porquê a Cruz? Porque Jesus toma sobre Si o mal, a sujeira, o pecado do mundo, incluindo o nosso pecado, o pecado de todos nós, e lava-o; lava-o com o seu sangue, com a misericórdia, com o amor de Deus. 

Olhemos ao nosso redor… Tantas feridas infligidas pelo mal à humanidade: guerras, violências, conflitos económicos que atingem quem é mais fraco, sede de dinheiro, que depois ninguém pode levar consigo, terá de o deixar. A minha avó dizia-nos (éramos nós meninos): a mortalha não tem bolsos. Amor ao dinheiro, poder, corrupção, divisões, crimes contra a vida humana e contra a criação! E também – como bem o sabe e conhece cada um de nós - os nossos pecados pessoais: as faltas de amor e respeito para com Deus, com o próximo e com a criação inteira. E na cruz, Jesus sente todo o peso do mal e, com a força do amor de Deus, vence-o, derrota-o na sua ressurreição. Este é o bem que Jesus realiza por todos nós sobre o trono da Cruz. Abraçada com amor, a cruz de Cristo nunca leva à tristeza, mas à alegria, à alegria de sermos salvos e de realizarmos um bocadinho daquilo que Ele fez no dia da sua morte.

3. Hoje, nesta Praça, há tantos jovens. Desde há 28 anos que o Domingo de Ramos é a Jornada da Juventude! E aqui aparece a terceira palavra: jovens! Queridos jovens, vi-vos quando entráveis em procissão; imagino-vos fazendo festa ao redor de Jesus, agitando os ramos de oliveira; imagino-vos gritando o seu nome e expressando a vossa alegria por estardes com Ele! Vós tendes um parte importante na festa da fé! Vós trazeis-nos a alegria da fé e dizeis-nos que devemos viver a fé com um coração jovem, sempre: um coração jovem, mesmo aos setenta, oitenta anos! Coração jovem! Com Cristo, o coração nunca envelhece. Entretanto todos sabemos – e bem o sabeis vós – que o Rei que seguimos e nos acompanha, é muito especial: é um Rei que ama até à cruz e nos ensina a servir, a amar. E vós não tendes vergonha da sua Cruz; antes, abraçai-la, porque compreendestes que é no dom de si, no dom de si, no sair de si mesmo, que se alcança a verdadeira alegria e que com o amor de Deus Ele venceu o mal. Vós levais a Cruz peregrina por todos os continentes, pelas estradas do mundo. Levai-la, correspondendo ao convite de Jesus: «Ide e fazei discípulos entre as nações» (cf. Mt 28, 19), que é o tema da Jornada da Juventude deste ano. Levai-la para dizer a todos que, na cruz, Jesus abateu o muro da inimizade, que separa os homens e os povos, e trouxe a reconciliação e a paz. 

Queridos amigos, na esteira do Beato João Paulo II e de Bento XVI, também eu, desde hoje, me ponho a caminho convosco. Já estamos perto da próxima etapa desta grande peregrinação da Cruz. Olho com alegria para o próximo mês de Julho, no Rio de Janeiro. Vinde! Encontramo-nos naquela grande cidade do Brasil! Preparai-vos bem, sobretudo espiritualmente, nas vossas comunidades, para que o referido Encontro seja um sinal de fé para o mundo inteiro. Os jovens devem dizer ao mundo: é bom seguir Jesus; é bom andar com Jesus; é boa a mensagem de Jesus; é bom sair de nós mesmos para levar Jesus às periferias do mundo e da existência. Três palavras: alegria, cruz, jovens.

Peçamos a intercessão da Virgem Maria. Que Ela nos ensine a alegria do encontro com Cristo, o amor com que O devemos contemplar ao pé da cruz, o entusiasmo do coração jovem com que O devemos seguir nesta Semana Santa e por toda a nossa vida. Assim seja.(grifos meus)