segunda-feira, 22 de abril de 2013

Homofobia: termo propagandístico manipulado


Dom Estevão Bettencourt (1919-2008), monge beneditino poliglota, escrevia na revista Pergunte e Responderemos n. 546, dezembro de 2007, p. 558-560, uma constatação importantíssima para os nossos dias quando muito se usa – por “engenharia verbal” – o termo homofobia a fim de condenar quem, em nome de princípios religiosos ou éticos, rejeita práticas (e não pessoas) homossexuais.
Com efeito, diz Bettencourt: “Chama-se ‘Engenharia Verbal’ a manipulação de certas palavras para exprimir condutas de vida novas e causadoras de polêmica na sociedade”. A seguir, ele dá o exemplo da homofobia: “Phobos em grego quer dizer ‘medo’. Em consequência, homofobia seria o medo frente aos homossexuais. Todavia, não é isto que se entende hoje por homofobia; a palavra significa a censura à prática homossexual, de modo que não se poderia condenar em público o homossexualismo, significado este que não está contido no sentido original de homofobia”. Trata-se de manipulação interesseira da linguagem.
A fim de bem ilustrar o que está dito acima, reproduzimos as páginas 45 e 46 do livro Homem e mulher Deus os criou, do Padre David Francisquini (São Paulo: Artpress, 2011).
1) O que é homofobia? – Homofobia é um termo inventado pelo psicólogo americano George Weinberg para desacreditar os opositores do homossexualismo. No seu sentido etimológico, a palavra homofobia deveria significar aversão irracional a pessoas do mesmo sexo, por paralelismo com homoafetividade. No entanto, o movimento homossexual emprega a palavra para rotular de modo depreciativo as pessoas que se manifestam contrárias às práticas homossexuais, que desse modo passam a ser vistas como preconceituosas ou desequilibradas. Uma resolução do Parlamento Europeu a favor da legalização do “casamento” homossexual, emitida em 2006, define homofobia, sem nenhuma base na realidade, como “um sentimento irracional de medo e de aversão em relação à homossexualidade e às pessoas lésbicas, bissexuais e transgêneros e propõe que esse sentimento seja combatido desde a idade escolar.
2) Por que o movimento homossexual insiste em utilizar a palavra homofobia? – Porque se trata de um recurso publicitário, e se tem mostrado eficiente. Arthur Evans, cofundador de Gay Activist Alliance (Aliança de Ativistas Homossexuais), explica como o movimento homossexual criou a palavra homofobia para caracterizar seus opositores: “O psicólogo George Weinberg não-homossexual, mas amigo de nossa comunidade, comparecia regularmente aos encontros do GAA. Observando fascinado a nossa energia e excitação e as respostas da mídia, ele apareceu com a palavra que nos empenhávamos em conseguir:homofobia, que significa o temor irracional de amar alguém do mesmo sexo”. George Weinberg classificou então a oposição moral à homossexualidade como uma anomalia, uma fobia. Ele vai além “Eu nunca consideraria um paciente saudável se ele não tivesse superado seu preconceito contra a homossexualidade”.
Fica assim claro o caráter ideológico e propagandístico da palavra, que poderíamos qualificar de arma semântica. Aplicando aos opositores o rótulo de homófobos, os homossexuais procuram intimidá-los e desqualificá-los, descartando como “temores irracionais” os seus argumentos. Porém, pelo contrário, tais argumentos são baseados na reta razão (...).
3) Existe algum fundamento para essa alegada homofobia? – Como expusemos acima, a palavra homofobia foi artificialmente criada e divulgada para facilitar a aceitação social e legal do modo de vida homossexual, e tem como objetivo colocar em posição desconfortável e odiosa todos os que a ela se opõem, ou mesmo criminalizá-los.           Os que defendem a Lei natural e os Dez Mandamentos devem denunciar e desmontar essa tática desonesta, pois os que fazem esse uso demagógico do rótulo homófobo nunca conseguem apresentar provas científicas dessa suposta fobia, que só existe no arsenal de qualificativos com que a propaganda homossexual procura desmerecer os seus opositores. Corresponde à mesma tática empregada outrora pelos comunistas, que acusavam de fascistas quem se opusesse aos seus desígnios e ideologia.
Até aqui o Pe. David Francisquini. Seu estudo merece muita atenção.
Vanderlei de Lima cursou Filosofia e Iniciação Teológica pela Escola Mater Ecclesiae, no Rio de Janeiro. É formado em Filosofia pela PUC-Campinas, e pós-graduado em Psicopedagogia no processo ensino-aprendizagem pelo Centro Universitário Amparense-UNIFIA.

Fonte: Zenit

sábado, 20 de abril de 2013

Os meus paroquianos não-católicos


Por padre Léo Trese




19,30

"Ainda que a família Marks chegue às sete e meia, devo ter tempo para responder a uma ou duas cartas entre tantas que deixei sem resposta. Os Marks chegam sempre atrasados, o que é compreensível visto serem seis. Querem entrar na Igreja católica todos juntos, incluída a pequena Doreen, de quatro anos, e o bebê, que dorme pacificamente durante as minhas explicações sobre o Credo.

Foi uma feliz coincidência a que me animou a visitá-los há três meses.

Philip, o pai, viera à porta da minha cozinha pedir-me o favor de deixá-lo telefonar ao médico, pois a esposa estava doente.A minha governanta (o FBI de todas as casas paroquiais) deduziu da conversa telefônica que ele estava desempregado e andava mal de finanças. Contou-me isso durante o jantar, e quando, no dia seguinte, passei perto da casa dos Marks, parei e entrei para ver se podia ajudá-los nalguma coisa.

Como não eram católicos, mostraram-se um pouco embaraçados com a presença de um padre, e o pequenino chegou a chorar quando me viu. Mas no fim todos vieram até à porta despedir-se de mim, assegurando-me cortesmente que tudo corria bem. Um mês depois, Sara, de treze anos, veio dizer-me que não estava batizada e que a sua mãe gostaria de que eu a batizasse...Fiz-lhe ver que a coisa não era tão simples assim: os pais deveriam dar o seu consentimento e ela teria que aprender o catecismo...

Moral da história: daqui a seis semanas todos os Marks se reunirão à volta da pia batismal para se tornarem membros do Corpo Místico de Cristo.

É estranho, penso agora, que tenha levado tanto tempo a perceber que todas as almas da minha paróquia são membros dela. Em teoria, sabia disso. Mas muitos anos se passaram até que começasse a lembrar-me, muito em especial durante a Missa, dos membros não-católicos do meu rebanho.

E foi ainda mais tarde que adquiri o hábito mental, quando apertava a mão ao pastor metodista, de ver nele um dos “meus”,de quem um dia terei que prestar contas a Deus. Há uma notável diferença entre considerar os meus paroquianos não-católicos como adversários irredutíveis e como possíveis freqüentadores da minha igreja. É uma disposição de espírito que parece facilitar-me a comunicação com eles.

Nota-se que sentem em mim uma sinceridade e interesse autênticos, que não existiam quando me deixava conduzir por uma atitude que vinha a dizer mais ou menos o seguinte: “Não desrespeitemos as normas da cortesia, mas guardemos as distâncias”.

Hoje, quando um dos meus não-católicos se casa com uma divorciada ou morre num desastre, preocupo-me quase tanto como se isso acontecesse a um dos meus paroquianos registrados nos livros da paróquia.

Mas talvez não esteja tão preocupado por eles como por mim próprio. Não faço por eles tudo o que deveria. Tudo, isto é, toda a oração e penitência que deveria. Afinal, são esses os dois únicos instrumentos de que disponho para trabalhar. Não tenho o dom da eloqüência que subjuga, nem uma personalidade magnética que arraste.

Nem mesmo tenho o tempo necessário para seguir todas as técnicas promocionais recomendadas pelos livros para converter almas. Mas poderia orar com mais freqüência, mortificar-me mais, para conseguir as graças de que o meu rebanho, quer esteja ou não dentro do redil, tanto necessita. Até hoje, nunca fiz uma oração premente – unida a um ato de mortificação – sem que apalpasse imediatamente os resultados.

 Às vezes, é tão eficaz que chega a deixar-me mudo de espanto, como se tivesse introduzido distraidamente uma moeda num “caça-níqueis” e de lá jorrasse uma cascata.

Com certeza a maioria dos sacerdotes compreendeu muito mais rapidamente isto que eu demorei tanto a perceber: que o apostolado mais frutífero é o do sacerdote santo e não o do “grande realizador”. Frutífero, entendamos, a longo prazo. Frutífero através dos anos, como a semente enterrada bem fundo, cujas raízes crescem lentamente, mas perduram anos e anos.

Talvez estas reflexões não se devam à sabedoria, mas aos cabelos grisalhos. Talvez não sejam um começo de piedade, mas uma certa espécie de cansaço. Dá a impressão de que, ao envelhecermos, nós os sacerdotes nos tornamos um pouco cínicos.

Aderimos com tanta freqüência à última “panacéia” para reformar a fé e a moral! Tantas vezes recorremos febrilmente ao método mais recente de transformar as nossas paróquias! No fim das contas, para quê? Para vermos (nós ou os nossos sucessores) esgotar-se o nosso frenesi e morrer no nosso entusiasmo, e termos de voltar mais uma vez ao ponto de partida.

Portanto,e com toda a razão , vamo-nos apoiando mais e mais na graça de Deus. Ou, melhor, compreendemos por fim a verdade que estava sempre diante dos nossos olhos, isto é,que quando pensávamos estar removendo montanhas, era o dedo mindinho de Deus, secundado pela oração e penitência de desconhecidos, que realmente fazia o milagre.

De qualquer modo, é reconfortante compreender finalmente, com o passar dos anos, que existe um atalho:que mais horas junto do Sacrário e menos indulgência para com o egoísmo próprio conseguem aquilo que o nosso ativismo ultra-sônico nunca será capaz de conseguir.

 É reconfortante olhar à volta com os olhos já sem escamas e ver que são os bons sacerdotes – aqueles que se movem no meio do seu rebanho com bondade, educação, paciência e amizade verdadeira – os que pastoreiam, falando espiritualmente, os rebanhos mais bem nutridos.

Sinto passos junto à porta de entrada. Devem ser os Marks. A caneta na minha mão não começou sequer a primeira das duas cartas que queria escrever.

E, apesar das minhas reflexões, amanhã ou depois lerei provavelmente alguma coisa sobre outro método infalível de converter a minha paróquia numa comunidade de santos.Tentarei experimentá-lo, trabalhando até esgotar-me, e mais uma vez a balança ora et labora - ora e trabalha - se inclinará pesadamente do lado da palavra mais longa.

Fonte: Vaso de Argila

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quinta-feira, 18 de abril de 2013

Igreja não pode ser babá dos leigos


Papa Francisco

 

 "O poder do Batismo leva os cristãos à valentia de anunciar Jesus, inclusive sem seguranças, até em meio a perseguições": esta foi a mensagem do Papa Francisco durante a Missa que celebrou ontem na Casa Santa Marta, na presença de um grupo de trabalhadores do Banco Vaticano.

 A homilia do Papa se centrou em uma passagem dos Atos dos Apóstolos: a primeira comunidade cristã de Jerusalém vivia em paz e caridade, mas, imediatamente depois do martírio de São Estêvão, começou uma violenta perseguição. "Isso, observou o Pontífice, é um pouco do estilo de vida da Igreja: entre a paz da caridade e a perseguição."

 É o que acontece sempre na história, "porque é o estilo de Jesus". Com a perseguição, muitos fiéis fogem para a Judeia e Samaria, e lá anunciam o Evangelho, apesar de estarem sozinhos, sem sacerdotes, porque os apóstolos tinham ficado em Jerusalém. "Deixaram suas casas, levaram poucas coisas consigo; não tinham segurança, mas foram de lugar em lugar anunciando a Palavra. Carregavam a riqueza que possuíam: a fé. Esta riqueza que o Senhor lhes havia dado. Eram simples fiéis, batizados há cerca de um ano. Mas tinham essa valentia de ir anunciar. E as pessoas acreditavam neles. E eles faziam milagres." "Estes primeiros cristãos tinham somente a força do Batismo, que lhes dava a valentia apostólica, a força do Espírito Santo", afirmou o Papa.

 "Então eu penso em nós, batizados, se nós temos esta força. E penso: mas nós acreditamos nisso? Acreditamos que o Batismo é suficiente para evangelizar? Ou esperamos que o padre peça, que o bispo peça? Mas e nós?"

 "A graça do Batismo está um pouco fechada e nós estamos endurecidos pelos nossos pensamentos, pelas nossas coisas. Ou às vezes pensamos: 'Não, nós somos cristãos; eu recebi o Batismo, a Crisma, fiz a primeira comunhão, ou seja, o documento de identidade está em dia'. E agora você dorme tranquilo: você é cristão. Mas onde está a força do Espírito Santo que faz você seguir em frente?"

 Para o Papa, "é necessário ser fiéis ao Espírito para anunciar Jesus com a nossa vida, com o nosso testemunho e com as nossas palavras". "Quando fazemos isso, a Igreja se torna uma Igreja Mãe que gera filhos, filhos e filhos, para que nós, filhos da Igreja, levemos isso. Mas quando não o fazemos, a Igreja não se torna Mãe, e sim Igreja babá, que nina a criança para dormir. É uma Igreja dormente. Pensemos em nosso Batismo, na responsabilidade do nosso Batismo."

 O Papa recordou as perseguições no Japão, no século 17, quando os missionários católicos foram expulsos e as comunidades cristãs permaneceram 200 anos sem sacerdotes. Ao voltar, os missionários encontraram "todas as comunidades bem, todos batizados, todos catequizados, todos casados pela Igreja": graças à ação dos batizados. "Existe uma grande responsabilidade para nós, batizados: anunciar Cristo, levar adiante a Igreja, essa maternidade fecunda da Igreja.

 Ser cristão não é fazer carreira num escritório para se tornar um advogado ou um médico cristão. Não! Ser cristão é um dom que nos faz ir em frente com a força do Espírito no anúncio de Jesus Cristo", disse.

 Durante a perseguição dos primeiros cristãos, recordou finalmente o Papa, Maria orava muito e incentivava os batizados a seguir adiante com valentia.

 "Peçamos ao Senhor a graça de ser batizados corajosos e confiantes em que o Espírito, que temos em nós, recebido no Batismo, nos incentive sempre a proclamar Jesus Cristo com nossa vida, com o nosso testemunho e também com as nossas palavras", concluiu Francisco.

 (© Rádio Vaticano)

terça-feira, 16 de abril de 2013

A Graça Habitual ou Santificante






Primeira parte AQUI

Segunda parte AQUI

Deus Nosso Senhor, querendo, na sua infinita bondade, elevar-nos até Si, na medida em que o permite a nossa fraca natureza, dá - nos um princípio vital sobrenatural, deiforme: é a graça habitual, graça que se chama criada, por oposição à graça incriada, que consiste na habitação do Espírito Santo em nós.

Esta graça torna-nos semelhantes a Deus e une-nos a Ele duma maneira estreitíssima.

É uma qualidade sobrenatural, inerente à nossa alma, que nos faz particípar, dum modo real, formal, mas acidental, da natureza e vida divinas.

1 - É, pois, uma realidade da ordem sobrenatural, não porém substância, pois que substância nenhuma criada pode ser sobrenatural; é uma maneira de ser, um estado da alma, uma qualidade inerente à substância da nossa alma, que a transforma e eleva acima de todos os seres naturais, ainda os mais perfeitos; qualidade permanente, de sua natureza, que fica em nós enquanto a não expelimos da alma cometendo voluntariamente algum pecado mortal.

«É, diz o Cardeal Mercier, apoiando-se em Bossuet, essa qualidade espiritual que Jesus difunde em nossas almas; que penetra o mais íntimo da nossa substância; que se imprime no mais secreto de nos almas e se derrama (pelas virtudes) em todas as potências e faculdades da alma; que, tomando posse dela interiormente, a torna pura e agradável aos olhos deste divino Salvador e a faz seu santuário, seu templo, seu tabernáculo, enfim seu lugar de delícias»

Esta qualidade torna-nos, segundo a expressão de São Pedro, participantes da natureza divina; faz-nos entrar, diz São Paulo, em comunicação com o Espírito Santo; em sociedade com o Pai e o Filho, ajunta São João. 


É claro que não nos faz iguais a Deus, mas unicamente seres deiformes, semelhantes a Deus; dá-nos, não a vida divina em si mesma, que é essencialmente incomunicável, senão uma vida semelhante à de Deus.

Ora a graça habitual é já uma preparação para a visão beatífica e um como antegosto desse favor, é o botão que já contém flor, se bem que esta não haja de desabrochar senão mais tarde; é, pois, do mesmo gênero que a própria visão beatífica e participa da sua natureza.

Esta participação da vida divina é, não simplesmente virtual senão formal. Uma participação virtual não nos faz possuir uma qualidade senão de maneira diversa daquela que se encontra na causa principal, assim a razão é uma participação virtual da inteligência divina, porque nos faz conhecer a verdade, mas de modo bem diferente do conhecimento que dela tem Deus. Não assim a visão beatífica, e, guardada toda a proporção, a fé: estas fazem-nos conhecer a Deus como Ele se conhece a si mesmo, não sem dúvida no mesmo grau, mas da mesma maneira.

Esta participação não é substancial, senão acidental. Assim se distingue da geração do Verbo, que recebe toda a substância do Pai, bem como da união hipostática, que é uma união substancial da natureza humana e da natureza divina na única Pessoa do Verbo: nós, efetivamente, conservamos a nossa personalidade, e a nossa únião com Deus não é substancial.


Para nos fazerem compreender esta divina semelhança, empregam os santos Padres diversas comparações:

1 - A nossa alma, dizem, é uma imagem viva da Santíssima Trindade uma espécie de retrato em miniatura, pois que o próprio Espírito se vem imprimir em nós, como um sinete sobre cera branda, e a sua divina semelhança. Daqui concluem que a alma em estado de graça é duma beleza arrebatadora, pois que o artista, que nela pinta esta imagem, é infinitamente perfeito, visto ser o próprio Deus.

Para mostrarem que esta semelhança não fica à superfície, se não que penetra até o mais íntimo da nossa alma, recorrem à comparação do fogo. Assim como, dizem eles, uma barra de ferro, metida em água ardente, adquire bem depressa o brilho, o calor e maleabilidade do fogo, assim a nossa alma, mergulhada na fornalha do amor divino, ali se desembaraça das escórias, tornando-se brilhante, ardente e dócil às divinas inspirações

2) Esta mesma verdade se deduz da comparação feita por alguns autores entre a união hipostática e a união da nossa alma com Deus. Não há dúvida que a diferença entre ambas é essencial: a união hipostática é substancial e pessoal, pois que a natureza divina e a natureza humana, se bem que perfeitamente distintas, não formam em Jesus Cristo mais que uma única e mesma Pessoa, enquanto a união da alma com Deus pela graça nos deixa a nossa personalidade própria, essencialmente distinta da personalidade divina, e não nos une a Deus senão dum modo acidental.


Faze-se, efetivamente, essa união, por intermédio da graça santificante, «acidente» acrescentado à substância da alma; ora, na linguagem escolástica, a união num acidente e de uma substância chama-se união «acidental» .

Nem por isso é menos verdade que a união da alma com Deus se pode dizer uma união de substância a substância , que o homem e Deus estão em contato tão íntimo como o ferro e o fogo que o envolve e penetra, como o cristal e a luz.

Para tudo resumir numa palavra, a união hipostática faz um Homem-Deus, a união da graça faz homens divinizados; e, assim como as ações de Cristo são divino-humanas ou teândricas, assim as do justo são deiformes, feitas em comum por Deus e por nós, e, por este título, meritórias da vida eterna, que não é outra coisa senão uma união imediata com a divindade.

Assim como na ordem da natureza necessitamos do concurso de Deus a passarmos da potência ao ato, assim na ordem sobrenatural não podemos pôr em ação as nossas faculdades sem o auxílio da graça atual.

Depois veremos sobre a graça atual.

 

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O que fazer com o Império?

Por Georges Suffert 



Qual é a situação da Igreja nessa época indecisa que se segue às mortes de Pedro e de Paulo e sobretudo à derrota dos judeus?

A Igreja deve enfrentar quatro problemas distintos. 

Primeiro: precisar seu pensamento, preparar sua pregação. Mas esta logo vai esbarrar com a primeira semi-heresia, filha conjunta do judaísmo e do cristianismo: a "gnose". Ela será uma heresia resistente porque, sob outras formas, o gnosticismo existe até hoje. 

Depois, a Igreja deverá assimilar as múltiplas influências intelectuais que pesarão sobre ela. Para começar, o cristianismo, nascido aramaico-hebraico, se tornará grego. Sem essa metamorfose, talvez tivesse sido impossível o discurso cristão penetrar no mundo "civilizado" de então.

E depois a Igreja deverá ouvir os discurso de outras tradições religiosas. A Pérsia, entre outras, difundirá sua religião. As comunidades judaicas e cristãs das origens levarão isso em conta sem sequer terem consciência do peso da religião de Zaratustra. Os essênios, por sua vez, conheceram essa religião. Até o Evangelho de João tem, aqui e ali, marcas da oposição radical entre a luz e as trevas a luz e as trevas.

Finalmente, a Igreja deverá inventar comportamentos em relação ao Império; não poderá recusá-lo, nem aceitá-lo como está. Decerto, a preocupação dos cristãos não é afrontar o imperador. 

Mas, à medida que aumenta a importância das comunidades cristãs, as autoridades romanas começam a ficar de olho nessa seita judaica de um tipo diferente. Roma experimentará sucessivamente diversas políticas - uma a uma, elas fracassarão. O núcleo cristão foge aliás às classificações da polícia: não pertence nem ao universo político nem ao das religiões clássicas. Nessa época, ele não é confundido verdadeiramente com o dos judeus. Em resumo, as autoridades romanas hesitam entre a repressão e a tolerância.

As perseguições - que foram menos numerosas do que a história lendária afirma não terão muito efeito na rápida progressão do cristianismo. Se foram relativamente poucas, foram violentas e em geral cruéis. 

Eis algumas das perguntas que os bispos da época se fazem. Porém, eles estão geograficamente afastados uns dos outros. Comunicam-se apenas por carta, às vezes por mensageiros. É demorado. Pois que cada comunidade tenta superar os obstáculos particulares que encontra. Por isso, pode-se dizer que há três zonas distintas de influência cristã: a Igreja de Roma, a da Asia e a da Africa. O novo centro que se constitui lentamente em Roma deverá reunir as peças desse quebra-cabeça dispersado. O que exigirá Tempo

No fundo, as heresias - que pululam durante todo o século II e o III - são conseqüência ao mesmo tempo desse desaparecimento e da fragilidade teológica desse primeiro cristianismo. Será necessário esperar os verdadeiros encontros entre a Revelação de um lado e o pensamento grego de outro para que o conjunto tome forma.

O caso das seitas gnósticas é exemplar. A gnose é, no início, um meio de reconciliar, após o fracasso da insurreição, os temas cristãos, a tradição judaica e a razão grega. É a aparição do sincretismo que deseja casar os temas judaico-cristãos com os das escolas filosóficas da época . 

A gnose nasce às margens do judaísmo ortodoxo; o que conta para judeus é a iminência do fim dos tempos. Para eles, o mundo viveu bastante e o apocalipse é dissimulado no canto do calendário. Essa época é perspassada por essa obsessão, à qual os cristãos são tão sensíveis quanto os outros. Eles aguardam para a breve a volta do Messias e a virada da história. Alguns judeus-cristãos agravarão essa angústia. Para eles, jogou-se tudo. 

Aliás,"Jesus é Cristo - isto é, uma pessoa que foi dirigida e abençoada Deus -, mas é sobretudo um homem como os outros".

Este é um que encontraremos até a passagem do século V ao VI. Se preferimos, Jesus é o profeta anunciado por Moisés, foi escolhido por Deus, mas não é seu filho. Embora possamos localizar e datar o nascimento daquilo que nem chega a ser uma heresia - os gnósticos não pertencem verdadeiramente à cepa cristã -, foi em Péla que tudo teria começado; cristãos, talvez os essênios, é que foram para lá com a comunidade de Jerusalém para escapar da cilada da guerra.

Eles professam que existem dois princípios que animam o universo: O bem e o Mal. Mas acham que o mal é parte integrante da criação do universo.

Depois veremos: Os Gnósticos - o bem e o mal

Estudo AQUI

Imitação de Cristo



"Chora e geme por estares ainda tão carnal e mundano, tão pouco mortificado nas paixões, tão cheio de movimentos de concupiscência; tão pouco diligente na guarda dos sentidos exteriores, tão envolto muitas vezes em vãs imaginações; tão inchado às coisas exteriores, tão negligente nas interiores, tão fácil ao riso e à dissipação, tão duro para as lágrimas e compunção; tão disposto à relaxação e regalos da carne, tão lento para seguir vida austera e fervorosa; tão curioso para ouvir novidades e ver coisas formosas, tão remisso em abraçar as humildes e desprezadas; tão cobiçoso de ter muito, tão apertado em dar, tão avarento em reter; tão inconsiderado em falar, tão pouco acautelado no calar; tão pouco regulado nos costumes, tão indiscreto nas ações; tão intemperante no comer e beber, tão surdo às vozes de Deus; tão pronto para o descanso, tão preguiçoso para o trabalho; tão desperto para ouvir contos e fábulas, tão sonolento para velar na oração; tão impaciente por chegar ao fim, e tão vago na atenção, tão negligente em rezar o ofício divino, tão tíbio em celebrar a missa, tão indevoto na comunhão; tão fácil em te distraíres, tão difícil em te recolheres, tão ligeiro em irar-te, tão fácil em admoestar os outros; tão precipitado em julgar, tão rigoroso em repreender; tão alegre na prosperidade, tão abatido na desgraça; tão fecundo em bons propósitos e tão estéril em boas obras..."(KEMPIS, T. A. Imitação de Cristo. Rio de Janeiro: Ediouro, 1968. Livro 4, Cap. VI)

quarta-feira, 10 de abril de 2013

A Redenção de Cristo e sua maravilhosa Graça.




Primeira Parte aqui:




Depois da queda de Adão, coube então a Jesus, o novo Adão, pela sua Paixão, Morte e Ressurreição, restaurar pelos méritos que adquiriu na Cruz, este homem, que estava depois do pecado, condenado a viver eternamente longe de Deus.

Justamente porque, pelo pecado, perdeu a graça santificante que o capacitaria a vê-lo e viver eternamente com Ele. Por isso Jesus se fez homem, para ser um como nós e se oferecer em nosso lugar. Homem sem pecado e nascido de uma mulher sem pecado, para ser o representante legítimo da criatura feita a imagem de Deus e Deus perfeitíssimo, para oferecer e ser vítima de expiação em nosso favor.

A Encarnação, este bem precioso, por si só, já é motivo de júbilo, é um dos maravilhosos atos de amor do Pai para com os seus filhos. Pois se não fora o pecado original, não é certo que o Verbo se encarnaria. Por isso cantamos: O felix culpa!! Em vez de Adão, chefe bem dotado, sem dúvida, mas falível e pecável, temos por cabeça o Filho eterno de Deus, que revestido de nossa natureza, é homem tão verdadeiro, como é verdadeiro Deus. Pela maravilhosa bondade de Deus, veio Este em favor do homem caído e condenado, para refazer este homem desfigurado pela culpa e o repõe em certo sentido, num estado melhor que o anterior à queda.

Jesus desde este momento foi constituído cabeça da raça humana, é que estava reservado "Expiar as nossas culpas e instituir o Sacramento da Regeneração, para transmitir a cada Batizado a graça perdida pelo primeiro homem

Jesus não contente em reparar, pela Sua satisfação a ofensa feita a Deus e de nos reconciliar com Ele, merece-nos todas as graças que havíamos perdido pelo pecado e outras ainda, entre elas a graça santificante tem a primazia, com ela vem em cortejo de virtudes infusas e dons do Espírito Santo.
Jesus também institui os Sacramentos, sinais sensíveis da graça invisível que nos será dada em cada fase de nossa vida. Eles são os canais da graça que tanto os homens necessitarão enquanto viverem neste mundo. E os deixou à sua Igreja para que ela os administrasse, por isso a fundou a preço de seu sangue.

 Depois do Batismo, cada batizado recebe a graça santificante, que é o próprio Deus que vem habitar em sua nossa alma, transformando-a num templo santo, ornado de todas as virtudes: “Templum Dei sanctum est”.

O Deus que vem habitar em nós pela graça, é o Deus vivo, a Santíssima Trindade, fonte infinita da vida divina que nada mais ardentemente deseja do que fazer-nos participar da sua santidade. Nossa alma passa a ser o trono de Deus e ali Ele distribui seus favores celestes e o adorna de todas as virtudes. Ele é então princípio de nossa santificação, a fonte da nossa vida interior.. Ele é também, causa exemplar e como filhos devemos imitar nosso Pai.

A partir do Batismo o homem começa seu Exodo – recebe a graça, sai do pecado para a vida nova – travando a partir daí a luta entre o bem e o mal, para sair vitorioso em Cristo .

Já os dons Preternaturais - o dom da Integridade, é restituído de uma forma progressiva. O Homem ainda de posse da concuspicência, tem agora forças para combater e vencer as tentações que certamente virão. E que luta haverá de travar para vencer em Cristo!

E os auxílios são muitos:

1 - entre elas as virtudes o robustece e podem ele alcançar os merecimentos de que por ela tem agora direito. As virtudes infusas nos capacitam a agir de maneira sobrenatural, de julgar as coisas à luz da revelação divina e agir de acordo com que a fé nos mostra. Dispõe a nossa inteligencia e a nossa vontade para a união com Deus, mas não nos confere por si mesmas a facilidade de pensar e agir segundo as luzes da fé.

Por isso é necessário que elas sejam reforçadas por hábitos moralmente bons, que se adquirem por atos correspondentes, realizados com intensidade e de maneira repetida. .

Jesus é o exemplo a seguir e sua cruz o grande estímulo para a luta e as graças atuais que o Senhor merece facilitam e muito os esforços e vitórias. A ajuda das graças atuais que o Senhor não nega às almas que as pedem com o coração desejoso de ama-Lo e de servi-Lo, entra em ação, nos capacitando a chegarmos ao termo final.

E para receber estas graças atuais, - (que nos iluminam a inteligência, fortificam a vontade e ajudam a praticar atos e a aumentar assim o capital de graça santificante ou habitual que nos foi concedido) -, são imprescindíveis os dons do Espírito Santo, que são disposições ou hábitos sobrenaturais que faz com que a alma elevada já à vida sobrenatuaral pela graça santificante, se torne capaz de receber estas inspirações divinas.

Os dons portanto, intervem necessariamente em todo ato sobrenatural.

Entendamos pois, que o homem em estado de graça, todos os seus atos, são realizados com ajuda de Deus. É Ele que opera em nós e por nós. Por isso, qualquer ação que fazemos, tem méritos de vida eterna. São Paulo, na carta aos Colossenses no cap. 3, vers 17 – nos diz que “tudo quanto fizermos, por palavras ou por obras, que façamos em Nome de Jesus Cristo dando por Ele, graças a Deus Pai.

Nossa caridade, nosso amor, nossos atos, nenhum deles são desperdiçados, pois o fazemos em Deus e para Deus. Ao abrirmos nossos olhos, saibamos que a menor de nossas ações devem ser oferecidas a Deus e devemos pedir que tudo naquele dia seja feito com Sua ajuda santíssima. Assim, nosso coração se torna um coração descansado, já que nos unimos a Deus que tudo realiza.

Esta vida da graça, se bem que distinta da vida natural, não lhe é simplesmente sobreposta, senão que por completo a penetra, transforma e diviniza. Assimila tudo quanto há de bom em nossa natureza, educação, hábitos adquiridos, aperfeiçoa e sobrenaturaliza todos estes elementos, orientando-os para o último fim, isto é, para a posse de Deus, pela visão beatífica e amor que a acompanha.

É esta a esta vida sobrenatural que compete dirigir a vida natural, em virtude do princípio geral, que os seres inferiores são subordinados aos superiores . É que, na verdade, não pode durar nem se desenvolver-se, se não domina e conserva sob a sua influência os atos da inteligência, da vontade e das outras faculdades; e com isso não destrói nem diminui a natureza, antes a exalta e aperfeiçoa.

Depois veremos:  A Graça Habitual ou Santificante