quinta-feira, 25 de abril de 2013

A falsidade do casamento gay

Por Padre Paulo Ricardo



 "Nenhuma ideologia pode cancelar do espírito humano a certeza de que só existe matrimônio entre duas pessoas de sexo diferente, que através da recíproca doação pessoal, que lhes é própria e exclusiva, tendem à comunhão das suas pessoas." (Bento XVI)

 Depois de longos meses de discussões e intensos debates públicos, a Assembleia Nacional da França - espécie de Câmara dos Deputados - aprovou por 331 votos a favor e 225 contra a lei que reconhece as uniões homossexuais como família e o direito à adoção por esses pares. A decisão foi tomada nesta terça-feira, 23/04, sob forte pressão contrária dos franceses. Embora a ideologia gay veja o fato como uma vitória, na verdade, ele constitui uma derrota tanto para os homossexuais, quanto para a França, outrora "filha mais velha da Igreja".

 Nesta polêmica sobre as uniões homossexuais, é recorrente a acusação de que aqueles que se posicionam contrários a essas propostas sejam motivados por preconceito ou fundamentalismo religioso. Acusação nada mais falaciosa, pois a verdade fundamental de que o matrimônio seja algo genuinamente formado por um homem e uma mulher não é, nem nunca foi de ordem religiosa, mas natural. Por isso não é justa a argumentação laicista que pretende excluir os católicos dessa discussão, pois ela fere diretamente o ordenamento jurídico da sociedade e sua moral.[...]

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quarta-feira, 24 de abril de 2013

Deus vem ao encontro do homem



50. Pela razão natural, o homem pode conhecer Deus com certeza, a partir das suas obras. Mas existe outra ordem de conhecimento, que o homem de modo nenhum pode atingir por suas próprias forças: a da Revelação divina . Por uma vontade absolutamente livre, Deus revela-Se e dá-Se ao homem. E fá-lo revelando o seu mistério, o desígnio benevolente que, desde toda a eternidade, estabeleceu em Cristo, em favor de todos os homens. Revela plenamente o seu desígnio, enviando o seu Filho bem-amado, nosso Senhor Jesus Cristo, e o Espírito Santo


A REVELAÇÃO DE DEUS

I. Deus revela o seu «desígnio benevolente»

51. «Aprouve a Deus, na sua sabedoria e bondade, revelar-Se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade, segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tomam participantes da natureza divina»(2).

52. Deus, que «habita numa luz inacessível» (1 Tm 6, 16), quer comunicar a sua própria vida divina aos homens que livremente criou, para fazer deles, no seu Filho único, filhos adoptivos (3). Revelando-Se a Si mesmo, Deus quer tornar os homens capazes de Lhe responderem, de O conhecerem e de O amarem, muito para além de tudo o que seriam capazes por si próprios.

53. O desígnio divino da Revelação realiza-se, ao mesmo tempo, «por meio de acções e palavras, intrinsecamente relacionadas entre si» (4) e esclarecendo-se mutuamente. Comporta uma particular «pedagogia divina»: Deus comunica-Se gradualmente ao homem e prepara-o, por etapas, para receber a Revelação sobrenatural que faz de Si próprio e que vai culminar na Pessoa e missão do Verbo encarnado, Jesus Cristo.
Santo Ireneu de Lião fala várias vezes desta pedagogia divina, sob a imagem da familiaridade mútua entre Deus e o homem: «O Verbo de Deus [...] habitou no homem e fez-Se Filho do Homem, para acostumar o homem a apreender Deus e Deus a habitar no homem, segundo o beneplácito do Pai» (5).
II. As etapas da Revelação

DESDE A ORIGEM, DEUS DÁ-SE A CONHECER

54. «Deus, criando e conservando todas as coisas pelo Verbo, oferece aos homens um testemunho perene de Si mesmo nas coisas criadas, e, além disso, decidindo abrir o caminho da salvação sobrenatural, manifestou-se a Si mesmo, desde o princípio, aos nossos primeiros pais» (6). Convidou-os a uma comunhão íntima consigo, revestindo-os de uma graça e justiça resplandecentes.

55. Esta Revelação não foi interrompida pelo pecado dos nossos primeiros pais. Com efeito, Deus, «depois da sua queda, com a promessa de redenção, deu-lhes a esperança da salvação, e cuidou continuamente do género humano, para dar a vida eterna a todos aqueles que, perseverando na prática das boas obras, procuram a salvação»(7).
«E quando, por desobediência, perdeu a vossa amizade, não o abandonastes ao poder da morte [...] Repetidas vezes fizestes aliança com os homens. (8)».

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segunda-feira, 22 de abril de 2013

A hora da coragem


PAPA PAULO VI

AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 20 de Maio de 1970





Devemos repetir uma frase que pronunciámos no Consistório (reunião dos Cardeais) de anteontem, porque Nos parece que é importante, actual, e pode ser repetida também numa audiência geral como esta, porque se destina a todos. É a seguinte: a hora que soa no quadrante da história exige, efectivamente, de todos os filhos da Igreja, uma grande coragem e, de modo muito especial, a coragem da verdade, que o Senhor em pessoa recomendou aos seus discípulos, quando lhes disse: « Seja este o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não; ... » (Mt 5, 37).

Este dever, o de professar corajosamente a verdade, é tão importante, que o próprio Senhor o definiu como a finalidade da sua vinda a este mundo. Diante de Pilatos, durante o processo que precedeu a sua condenação à cruz, Jesus pronunciou estas graves palavras: « Para isto nasci e para isto vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade » (Jo 18, 37). Jesus é a luz do mundo (cfr. Jo 8, 12), é a manifestação da verdade; e, para cumprir esta missão, que dá origem à nossa salvação, Jesus ofereceu a própria vida, mártir da verdade que, afinal, é Ele mesmo.

Deste facto surgem duas questões. 

A primeira é a que veio aos lábios do próprio Pilatos. Ele, talvez não ignaro, mas céptico em relação às discussões filosóficas da cultura greco-romana sobre a verdade, ele, magistrado competente para julgar não teorias especulativas, mas delitos e crimes, admira-se que este Rabi, que lhe tinha sido apresentado como réu de morte, por crime de lesa majestade, se declare mestre da verdade; imediatamente o interrompe e, talvez com certa ironia, pergunta: Quid est veritas? — o que é a verdade? (Jo 18, 38). Houve quem, engenhosamente, baseando-se nesta frase latina, construísse um estupendo anagrama como resposta: « Est vir qui adest — é o homem que está aqui ». Mas Pilatos não espera a resposta e procura concluir imediatamente o interrogatório, resolvendo a questão judiciária. Para nós e para todos, porém, a questão — o que é a verdade? — continua aberta.

É uma grande questão que abrange a consciência, os factos, a história, a ciência, a cultura, a filosofia, a teologia e a fé. A nós, porém, interessa-nos este último ponto: a verdade da fé, porque é sobre ela que se funda todo o edifício da Igreja, do cristianismo e, por isso, o da nossa salvação e, consequentemente, o do destino do homem e da civilização à qual está ligado. Hoje, mais do que nunca, esta verdade da fé apresenta-se como a base fundamental sobre a qual devemos construir a nossa vida. É a pedra angular (cfr. 1 Pdr 2, 6-7; Ef 2, 20; Mt 21, 42).

E que verificamos a este respeito? Verificamos um fenómeno de timidez e de medo; mais ainda, um fenómeno de incerteza, de ambiguidade e de cedimento. Foi bem identificado nesta frase: « Houve um tempo em que o respeito humano prejudicava tudo. Era uma grande preocupação para os Pastores. O cristão não ousava viver segundo a própria fé... Mas, agora, não se começa a ter medo de crer? Este é um mal mais grave, porque danifica os fundamentos... » (Cardeal Garrone, Que faut-il croire? Desclée, 1967).

Sentimos a obrigação, no final do ano da fé, de fazer, na festa de São Pedro de 1968, uma explícita profissão de fé, de recitar um Credo que, seguindo os autorizados ensinamentos da Igreja e da Tradição autêntica, remonta ao testemunho apostólico que, por sua vez, se funda em Jesus Cristo, Ele mesmo definido « testemunha fiel » (Apoc 1, 5).

Mas, hoje, a verdade está em crise. A verdade objectiva, que nos dá a posse cognoscitiva da realidade, é substituída pela verdade subjectiva: a experiência, a consciência, a livre opinião pessoal e, às vezes, até a crítica da nossa capacidade de conhecer e de pensar validamente. A verdade filosófica cede o passo ao agnosticismo, ao cepticismo e ao « esnobismo » da dúvida sistemática e negativa. Há quem estude e investigue quase mais para demolir do que para encontrar. Prefere-se o vazio. O Evangelho adverte-nos disto : « ...os homens amaram mais as trevas do que a luz... » (Jo 3, 19). E, com a crise da verdade filosófica (onde está a nossa sã racionalidade, a nossa filosofia perene?), a verdade religiosa desabou em muitos espíritos, que já não sabiam admitir as grandes e luminosas afirmações do conhecimento de Deus, da teologia natural e, muito menos, as da teologia da revelação. E, assim, os olhos enevoaram-se e depois ficaram cegos. E ousou-se trocar a própria cegueira com a morte de Deus.

A verdade cristã, portanto, sofre actualmente perturbações e crises pavorosas. Intolerante, em relação ao ensinamento do magistério instituído por Cristo, como tutela e lógico desenvolvimento da sua doutrina, que é a de Deus (cfr. Jo 7, 12; Lc 10, 16; Mc 16, 16), há quem procure uma fé cómoda, esvaziando a fé íntegra e verdadeira daquelas verdades que não parecem aceitáveis à mentalidade moderna, e escolhendo, por iniciativa própria, algumas verdades que são consideradas admissíveis (selected faith); há também quem procure uma nova fé, principalmente no que diz respeito à Igreja, tentando adaptá-la às ideias da sociologia moderna e da história profana (e assim repete o erro de outros tempos, modelando a estrutura canónica da Igreja, segundo as instituições históricas vigentes); há ainda quem deseje confiar numa fé puramente naturalista e filantrópica, numa fé utilitarista, ainda que baseada nos autênticos valores da mesma fé — os da caridade —, tornando-a culto do homem e transcurando o seu primeiro valor, o amor e o culto de Deus; há, por fim, quem, com uma certa desconfiança das exigências dogmáticas da fé e com o pretexto do pluralismo, que permite estudar as inexauríveis riquezas das verdades divinas e exprimi-las com diversidade de linguagem e de mentalidade, queira legitimar as expressões ambíguas e incertas da fé e limitar-se a procurá-la para não ter que a afirmar e pedir a opinião dos fiéis, perguntando-lhes em que realidades querem crer e atribuindo-lhes um indiscutível carisma de competência e de experiência, que expõe a verdade da fé ao perigo das mais estranhas e volúveis arbitrariedades.
Tudo isto verifica-se quando não se presta reverência ao magistério da Igreja, com que o Senhor quis proteger as verdades da fé (cfr. Hebr 13, 7; 9, 17).

Mas a nós, que, por divina misericórdia, possuímos este « scudum fidei — escudo da fé » (Ef  6, 16) ou, por outras palavras, uma verdade defendida, segura e capaz de suportar o choque das opiniões impetuosas do mundo moderno (cfr. Ef 4, 14), apresenta-se uma segunda questão, a da coragem. Devemos ter, como dissemos, a coragem da verdade.

 Não vamos agora analisar esta virtude moral e psicológica que chamamos coragem e que todos nós sabemos ser uma força da alma, que significa maturidade humana, vigor de espírito, audácia de vontade e, também, capacidade de amor e de sacrifício. Vamos fazer notar apenas, mais uma vez, que a educação cristã se nos apresenta como um campo de treino das energias espirituais, da nobreza humana, do domínio de si e da consciência dos próprios deveres.

E acrescentamos que esta coragem da verdade é exigida, principalmente, de quem é mestre e defensor da verdade, e se refere também a todos os cristãos baptizados e crismados. Não é um desporto agradável, mas uma profissão da fidelidade que devemos a Cristo e à sua Igreja e, hoje, é um grande serviço prestado ao mundo moderno que, talvez mais do que supomos, espera de cada um de nós este testemunho benéfico e confortador.

Para tanto vos ajude, com a graça do Senhor, a Nossa Bênção Apostólica.

Homofobia: termo propagandístico manipulado


Dom Estevão Bettencourt (1919-2008), monge beneditino poliglota, escrevia na revista Pergunte e Responderemos n. 546, dezembro de 2007, p. 558-560, uma constatação importantíssima para os nossos dias quando muito se usa – por “engenharia verbal” – o termo homofobia a fim de condenar quem, em nome de princípios religiosos ou éticos, rejeita práticas (e não pessoas) homossexuais.
Com efeito, diz Bettencourt: “Chama-se ‘Engenharia Verbal’ a manipulação de certas palavras para exprimir condutas de vida novas e causadoras de polêmica na sociedade”. A seguir, ele dá o exemplo da homofobia: “Phobos em grego quer dizer ‘medo’. Em consequência, homofobia seria o medo frente aos homossexuais. Todavia, não é isto que se entende hoje por homofobia; a palavra significa a censura à prática homossexual, de modo que não se poderia condenar em público o homossexualismo, significado este que não está contido no sentido original de homofobia”. Trata-se de manipulação interesseira da linguagem.
A fim de bem ilustrar o que está dito acima, reproduzimos as páginas 45 e 46 do livro Homem e mulher Deus os criou, do Padre David Francisquini (São Paulo: Artpress, 2011).
1) O que é homofobia? – Homofobia é um termo inventado pelo psicólogo americano George Weinberg para desacreditar os opositores do homossexualismo. No seu sentido etimológico, a palavra homofobia deveria significar aversão irracional a pessoas do mesmo sexo, por paralelismo com homoafetividade. No entanto, o movimento homossexual emprega a palavra para rotular de modo depreciativo as pessoas que se manifestam contrárias às práticas homossexuais, que desse modo passam a ser vistas como preconceituosas ou desequilibradas. Uma resolução do Parlamento Europeu a favor da legalização do “casamento” homossexual, emitida em 2006, define homofobia, sem nenhuma base na realidade, como “um sentimento irracional de medo e de aversão em relação à homossexualidade e às pessoas lésbicas, bissexuais e transgêneros e propõe que esse sentimento seja combatido desde a idade escolar.
2) Por que o movimento homossexual insiste em utilizar a palavra homofobia? – Porque se trata de um recurso publicitário, e se tem mostrado eficiente. Arthur Evans, cofundador de Gay Activist Alliance (Aliança de Ativistas Homossexuais), explica como o movimento homossexual criou a palavra homofobia para caracterizar seus opositores: “O psicólogo George Weinberg não-homossexual, mas amigo de nossa comunidade, comparecia regularmente aos encontros do GAA. Observando fascinado a nossa energia e excitação e as respostas da mídia, ele apareceu com a palavra que nos empenhávamos em conseguir:homofobia, que significa o temor irracional de amar alguém do mesmo sexo”. George Weinberg classificou então a oposição moral à homossexualidade como uma anomalia, uma fobia. Ele vai além “Eu nunca consideraria um paciente saudável se ele não tivesse superado seu preconceito contra a homossexualidade”.
Fica assim claro o caráter ideológico e propagandístico da palavra, que poderíamos qualificar de arma semântica. Aplicando aos opositores o rótulo de homófobos, os homossexuais procuram intimidá-los e desqualificá-los, descartando como “temores irracionais” os seus argumentos. Porém, pelo contrário, tais argumentos são baseados na reta razão (...).
3) Existe algum fundamento para essa alegada homofobia? – Como expusemos acima, a palavra homofobia foi artificialmente criada e divulgada para facilitar a aceitação social e legal do modo de vida homossexual, e tem como objetivo colocar em posição desconfortável e odiosa todos os que a ela se opõem, ou mesmo criminalizá-los.           Os que defendem a Lei natural e os Dez Mandamentos devem denunciar e desmontar essa tática desonesta, pois os que fazem esse uso demagógico do rótulo homófobo nunca conseguem apresentar provas científicas dessa suposta fobia, que só existe no arsenal de qualificativos com que a propaganda homossexual procura desmerecer os seus opositores. Corresponde à mesma tática empregada outrora pelos comunistas, que acusavam de fascistas quem se opusesse aos seus desígnios e ideologia.
Até aqui o Pe. David Francisquini. Seu estudo merece muita atenção.
Vanderlei de Lima cursou Filosofia e Iniciação Teológica pela Escola Mater Ecclesiae, no Rio de Janeiro. É formado em Filosofia pela PUC-Campinas, e pós-graduado em Psicopedagogia no processo ensino-aprendizagem pelo Centro Universitário Amparense-UNIFIA.

Fonte: Zenit

sábado, 20 de abril de 2013

Os meus paroquianos não-católicos


Por padre Léo Trese




19,30

"Ainda que a família Marks chegue às sete e meia, devo ter tempo para responder a uma ou duas cartas entre tantas que deixei sem resposta. Os Marks chegam sempre atrasados, o que é compreensível visto serem seis. Querem entrar na Igreja católica todos juntos, incluída a pequena Doreen, de quatro anos, e o bebê, que dorme pacificamente durante as minhas explicações sobre o Credo.

Foi uma feliz coincidência a que me animou a visitá-los há três meses.

Philip, o pai, viera à porta da minha cozinha pedir-me o favor de deixá-lo telefonar ao médico, pois a esposa estava doente.A minha governanta (o FBI de todas as casas paroquiais) deduziu da conversa telefônica que ele estava desempregado e andava mal de finanças. Contou-me isso durante o jantar, e quando, no dia seguinte, passei perto da casa dos Marks, parei e entrei para ver se podia ajudá-los nalguma coisa.

Como não eram católicos, mostraram-se um pouco embaraçados com a presença de um padre, e o pequenino chegou a chorar quando me viu. Mas no fim todos vieram até à porta despedir-se de mim, assegurando-me cortesmente que tudo corria bem. Um mês depois, Sara, de treze anos, veio dizer-me que não estava batizada e que a sua mãe gostaria de que eu a batizasse...Fiz-lhe ver que a coisa não era tão simples assim: os pais deveriam dar o seu consentimento e ela teria que aprender o catecismo...

Moral da história: daqui a seis semanas todos os Marks se reunirão à volta da pia batismal para se tornarem membros do Corpo Místico de Cristo.

É estranho, penso agora, que tenha levado tanto tempo a perceber que todas as almas da minha paróquia são membros dela. Em teoria, sabia disso. Mas muitos anos se passaram até que começasse a lembrar-me, muito em especial durante a Missa, dos membros não-católicos do meu rebanho.

E foi ainda mais tarde que adquiri o hábito mental, quando apertava a mão ao pastor metodista, de ver nele um dos “meus”,de quem um dia terei que prestar contas a Deus. Há uma notável diferença entre considerar os meus paroquianos não-católicos como adversários irredutíveis e como possíveis freqüentadores da minha igreja. É uma disposição de espírito que parece facilitar-me a comunicação com eles.

Nota-se que sentem em mim uma sinceridade e interesse autênticos, que não existiam quando me deixava conduzir por uma atitude que vinha a dizer mais ou menos o seguinte: “Não desrespeitemos as normas da cortesia, mas guardemos as distâncias”.

Hoje, quando um dos meus não-católicos se casa com uma divorciada ou morre num desastre, preocupo-me quase tanto como se isso acontecesse a um dos meus paroquianos registrados nos livros da paróquia.

Mas talvez não esteja tão preocupado por eles como por mim próprio. Não faço por eles tudo o que deveria. Tudo, isto é, toda a oração e penitência que deveria. Afinal, são esses os dois únicos instrumentos de que disponho para trabalhar. Não tenho o dom da eloqüência que subjuga, nem uma personalidade magnética que arraste.

Nem mesmo tenho o tempo necessário para seguir todas as técnicas promocionais recomendadas pelos livros para converter almas. Mas poderia orar com mais freqüência, mortificar-me mais, para conseguir as graças de que o meu rebanho, quer esteja ou não dentro do redil, tanto necessita. Até hoje, nunca fiz uma oração premente – unida a um ato de mortificação – sem que apalpasse imediatamente os resultados.

 Às vezes, é tão eficaz que chega a deixar-me mudo de espanto, como se tivesse introduzido distraidamente uma moeda num “caça-níqueis” e de lá jorrasse uma cascata.

Com certeza a maioria dos sacerdotes compreendeu muito mais rapidamente isto que eu demorei tanto a perceber: que o apostolado mais frutífero é o do sacerdote santo e não o do “grande realizador”. Frutífero, entendamos, a longo prazo. Frutífero através dos anos, como a semente enterrada bem fundo, cujas raízes crescem lentamente, mas perduram anos e anos.

Talvez estas reflexões não se devam à sabedoria, mas aos cabelos grisalhos. Talvez não sejam um começo de piedade, mas uma certa espécie de cansaço. Dá a impressão de que, ao envelhecermos, nós os sacerdotes nos tornamos um pouco cínicos.

Aderimos com tanta freqüência à última “panacéia” para reformar a fé e a moral! Tantas vezes recorremos febrilmente ao método mais recente de transformar as nossas paróquias! No fim das contas, para quê? Para vermos (nós ou os nossos sucessores) esgotar-se o nosso frenesi e morrer no nosso entusiasmo, e termos de voltar mais uma vez ao ponto de partida.

Portanto,e com toda a razão , vamo-nos apoiando mais e mais na graça de Deus. Ou, melhor, compreendemos por fim a verdade que estava sempre diante dos nossos olhos, isto é,que quando pensávamos estar removendo montanhas, era o dedo mindinho de Deus, secundado pela oração e penitência de desconhecidos, que realmente fazia o milagre.

De qualquer modo, é reconfortante compreender finalmente, com o passar dos anos, que existe um atalho:que mais horas junto do Sacrário e menos indulgência para com o egoísmo próprio conseguem aquilo que o nosso ativismo ultra-sônico nunca será capaz de conseguir.

 É reconfortante olhar à volta com os olhos já sem escamas e ver que são os bons sacerdotes – aqueles que se movem no meio do seu rebanho com bondade, educação, paciência e amizade verdadeira – os que pastoreiam, falando espiritualmente, os rebanhos mais bem nutridos.

Sinto passos junto à porta de entrada. Devem ser os Marks. A caneta na minha mão não começou sequer a primeira das duas cartas que queria escrever.

E, apesar das minhas reflexões, amanhã ou depois lerei provavelmente alguma coisa sobre outro método infalível de converter a minha paróquia numa comunidade de santos.Tentarei experimentá-lo, trabalhando até esgotar-me, e mais uma vez a balança ora et labora - ora e trabalha - se inclinará pesadamente do lado da palavra mais longa.

Fonte: Vaso de Argila

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quinta-feira, 18 de abril de 2013

Igreja não pode ser babá dos leigos


Papa Francisco

 

 "O poder do Batismo leva os cristãos à valentia de anunciar Jesus, inclusive sem seguranças, até em meio a perseguições": esta foi a mensagem do Papa Francisco durante a Missa que celebrou ontem na Casa Santa Marta, na presença de um grupo de trabalhadores do Banco Vaticano.

 A homilia do Papa se centrou em uma passagem dos Atos dos Apóstolos: a primeira comunidade cristã de Jerusalém vivia em paz e caridade, mas, imediatamente depois do martírio de São Estêvão, começou uma violenta perseguição. "Isso, observou o Pontífice, é um pouco do estilo de vida da Igreja: entre a paz da caridade e a perseguição."

 É o que acontece sempre na história, "porque é o estilo de Jesus". Com a perseguição, muitos fiéis fogem para a Judeia e Samaria, e lá anunciam o Evangelho, apesar de estarem sozinhos, sem sacerdotes, porque os apóstolos tinham ficado em Jerusalém. "Deixaram suas casas, levaram poucas coisas consigo; não tinham segurança, mas foram de lugar em lugar anunciando a Palavra. Carregavam a riqueza que possuíam: a fé. Esta riqueza que o Senhor lhes havia dado. Eram simples fiéis, batizados há cerca de um ano. Mas tinham essa valentia de ir anunciar. E as pessoas acreditavam neles. E eles faziam milagres." "Estes primeiros cristãos tinham somente a força do Batismo, que lhes dava a valentia apostólica, a força do Espírito Santo", afirmou o Papa.

 "Então eu penso em nós, batizados, se nós temos esta força. E penso: mas nós acreditamos nisso? Acreditamos que o Batismo é suficiente para evangelizar? Ou esperamos que o padre peça, que o bispo peça? Mas e nós?"

 "A graça do Batismo está um pouco fechada e nós estamos endurecidos pelos nossos pensamentos, pelas nossas coisas. Ou às vezes pensamos: 'Não, nós somos cristãos; eu recebi o Batismo, a Crisma, fiz a primeira comunhão, ou seja, o documento de identidade está em dia'. E agora você dorme tranquilo: você é cristão. Mas onde está a força do Espírito Santo que faz você seguir em frente?"

 Para o Papa, "é necessário ser fiéis ao Espírito para anunciar Jesus com a nossa vida, com o nosso testemunho e com as nossas palavras". "Quando fazemos isso, a Igreja se torna uma Igreja Mãe que gera filhos, filhos e filhos, para que nós, filhos da Igreja, levemos isso. Mas quando não o fazemos, a Igreja não se torna Mãe, e sim Igreja babá, que nina a criança para dormir. É uma Igreja dormente. Pensemos em nosso Batismo, na responsabilidade do nosso Batismo."

 O Papa recordou as perseguições no Japão, no século 17, quando os missionários católicos foram expulsos e as comunidades cristãs permaneceram 200 anos sem sacerdotes. Ao voltar, os missionários encontraram "todas as comunidades bem, todos batizados, todos catequizados, todos casados pela Igreja": graças à ação dos batizados. "Existe uma grande responsabilidade para nós, batizados: anunciar Cristo, levar adiante a Igreja, essa maternidade fecunda da Igreja.

 Ser cristão não é fazer carreira num escritório para se tornar um advogado ou um médico cristão. Não! Ser cristão é um dom que nos faz ir em frente com a força do Espírito no anúncio de Jesus Cristo", disse.

 Durante a perseguição dos primeiros cristãos, recordou finalmente o Papa, Maria orava muito e incentivava os batizados a seguir adiante com valentia.

 "Peçamos ao Senhor a graça de ser batizados corajosos e confiantes em que o Espírito, que temos em nós, recebido no Batismo, nos incentive sempre a proclamar Jesus Cristo com nossa vida, com o nosso testemunho e também com as nossas palavras", concluiu Francisco.

 (© Rádio Vaticano)

terça-feira, 16 de abril de 2013

A Graça Habitual ou Santificante






Primeira parte AQUI

Segunda parte AQUI

Deus Nosso Senhor, querendo, na sua infinita bondade, elevar-nos até Si, na medida em que o permite a nossa fraca natureza, dá - nos um princípio vital sobrenatural, deiforme: é a graça habitual, graça que se chama criada, por oposição à graça incriada, que consiste na habitação do Espírito Santo em nós.

Esta graça torna-nos semelhantes a Deus e une-nos a Ele duma maneira estreitíssima.

É uma qualidade sobrenatural, inerente à nossa alma, que nos faz particípar, dum modo real, formal, mas acidental, da natureza e vida divinas.

1 - É, pois, uma realidade da ordem sobrenatural, não porém substância, pois que substância nenhuma criada pode ser sobrenatural; é uma maneira de ser, um estado da alma, uma qualidade inerente à substância da nossa alma, que a transforma e eleva acima de todos os seres naturais, ainda os mais perfeitos; qualidade permanente, de sua natureza, que fica em nós enquanto a não expelimos da alma cometendo voluntariamente algum pecado mortal.

«É, diz o Cardeal Mercier, apoiando-se em Bossuet, essa qualidade espiritual que Jesus difunde em nossas almas; que penetra o mais íntimo da nossa substância; que se imprime no mais secreto de nos almas e se derrama (pelas virtudes) em todas as potências e faculdades da alma; que, tomando posse dela interiormente, a torna pura e agradável aos olhos deste divino Salvador e a faz seu santuário, seu templo, seu tabernáculo, enfim seu lugar de delícias»

Esta qualidade torna-nos, segundo a expressão de São Pedro, participantes da natureza divina; faz-nos entrar, diz São Paulo, em comunicação com o Espírito Santo; em sociedade com o Pai e o Filho, ajunta São João. 


É claro que não nos faz iguais a Deus, mas unicamente seres deiformes, semelhantes a Deus; dá-nos, não a vida divina em si mesma, que é essencialmente incomunicável, senão uma vida semelhante à de Deus.

Ora a graça habitual é já uma preparação para a visão beatífica e um como antegosto desse favor, é o botão que já contém flor, se bem que esta não haja de desabrochar senão mais tarde; é, pois, do mesmo gênero que a própria visão beatífica e participa da sua natureza.

Esta participação da vida divina é, não simplesmente virtual senão formal. Uma participação virtual não nos faz possuir uma qualidade senão de maneira diversa daquela que se encontra na causa principal, assim a razão é uma participação virtual da inteligência divina, porque nos faz conhecer a verdade, mas de modo bem diferente do conhecimento que dela tem Deus. Não assim a visão beatífica, e, guardada toda a proporção, a fé: estas fazem-nos conhecer a Deus como Ele se conhece a si mesmo, não sem dúvida no mesmo grau, mas da mesma maneira.

Esta participação não é substancial, senão acidental. Assim se distingue da geração do Verbo, que recebe toda a substância do Pai, bem como da união hipostática, que é uma união substancial da natureza humana e da natureza divina na única Pessoa do Verbo: nós, efetivamente, conservamos a nossa personalidade, e a nossa únião com Deus não é substancial.


Para nos fazerem compreender esta divina semelhança, empregam os santos Padres diversas comparações:

1 - A nossa alma, dizem, é uma imagem viva da Santíssima Trindade uma espécie de retrato em miniatura, pois que o próprio Espírito se vem imprimir em nós, como um sinete sobre cera branda, e a sua divina semelhança. Daqui concluem que a alma em estado de graça é duma beleza arrebatadora, pois que o artista, que nela pinta esta imagem, é infinitamente perfeito, visto ser o próprio Deus.

Para mostrarem que esta semelhança não fica à superfície, se não que penetra até o mais íntimo da nossa alma, recorrem à comparação do fogo. Assim como, dizem eles, uma barra de ferro, metida em água ardente, adquire bem depressa o brilho, o calor e maleabilidade do fogo, assim a nossa alma, mergulhada na fornalha do amor divino, ali se desembaraça das escórias, tornando-se brilhante, ardente e dócil às divinas inspirações

2) Esta mesma verdade se deduz da comparação feita por alguns autores entre a união hipostática e a união da nossa alma com Deus. Não há dúvida que a diferença entre ambas é essencial: a união hipostática é substancial e pessoal, pois que a natureza divina e a natureza humana, se bem que perfeitamente distintas, não formam em Jesus Cristo mais que uma única e mesma Pessoa, enquanto a união da alma com Deus pela graça nos deixa a nossa personalidade própria, essencialmente distinta da personalidade divina, e não nos une a Deus senão dum modo acidental.


Faze-se, efetivamente, essa união, por intermédio da graça santificante, «acidente» acrescentado à substância da alma; ora, na linguagem escolástica, a união num acidente e de uma substância chama-se união «acidental» .

Nem por isso é menos verdade que a união da alma com Deus se pode dizer uma união de substância a substância , que o homem e Deus estão em contato tão íntimo como o ferro e o fogo que o envolve e penetra, como o cristal e a luz.

Para tudo resumir numa palavra, a união hipostática faz um Homem-Deus, a união da graça faz homens divinizados; e, assim como as ações de Cristo são divino-humanas ou teândricas, assim as do justo são deiformes, feitas em comum por Deus e por nós, e, por este título, meritórias da vida eterna, que não é outra coisa senão uma união imediata com a divindade.

Assim como na ordem da natureza necessitamos do concurso de Deus a passarmos da potência ao ato, assim na ordem sobrenatural não podemos pôr em ação as nossas faculdades sem o auxílio da graça atual.

Depois veremos sobre a graça atual.