segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Lembranças de Minha Vida


Por Bento XVI

Primeira Parte Aqui




Parte II

"Tínhamos chegado em dezembro de 1932. Em janeiro de 1933, Hindenburgo entregou a Hitler a função de chanceler do Reich, o que na linguagem do partido logo foi chamado de “tomada do poder” – o que de fato foi. Exerceu-se poder desde o primeiro momento.

Pessoalmente, não me lembro daquele dia chuvoso, mas meus irmãos me contaram que a escola foi obrigada a fazer uma passeata pela aldeia, que acabou sendo uma volta trivial, que não deixou muito entusiasmo.

Em todo caso, também na aldeia já tinham havido nazistas, abertamente ou em segredo, que agora achavam que sua hora havia chegado, e, de repente, para susto de muitos, tiravam seus uniformes marrons dos baús.

A “Hitlerjugend” [Juventude hitleriana] e a “Bund deustscher Madchen” [Liga de meninas alemãs] foram introduzidas e ligadas à escola, de sorte que também minha irmã e meu irmão tiveram de participar de suas atividades. Meu pai sofria muito por estar a serviço, agora, de um poder estatal cujos detentores ele considerava criminosos, embora o serviço na aldeia, graças a Deus, naquele momento ainda não estivesse sendo muito afetado.

Durante os quatros anos que moramos naquele lugar, que eu sabia, os efeitos do novo regime somente uma vez levaram a uma investigação contra sacerdotes que se comportavam de maneira “hostil ao Reich”; estava claro que meu pai não participava disso. (off: O pai de Bento XVI era comissário de polícia). Pelo contrário, ele avisava e apoiava os padres quando sabia que algum perigo os ameaçava.

Aliás, foi só aos poucos que o nacional-socialismo (nazismo) conseguiu transformar a vida na pequena aldeia.  Por exemplo: o professor, conforme era costume na Baviera, continuou, por algum tempo, a ser também o organista e dirigente do coral da igreja, e com a tarefa de dar aulas sobre a Bíblia, enquanto o Catecismo era assunto do vigário.

Tudo isso ainda parecia garantido pela concordata, * mas desde cedo ficou claro que a fidelidade a um pacto não tinha valor para os novos senhores.

A luta contra a escola confessional estava começando; o laço ainda existente entre a escola e a Igreja tinha de ser dissolvido, e a base espiritual da escola não devia mais ser a fé cristã, mas a ideologia do Fuhrer. Os bispos lutaram com todo o vigor pela escola confessional e pela observação da concordata: as cartas pastorais, que o vigário lia para o povo, ficaram em minha memória.

Na época eu já desconfiava, porém, que os bispos, naquela luta pelas instituições, até certo ponto não interpretavam bem a realidade, pois a garantia institucional de nada adianta quando não há pessoas que a sustentem por convicção interior.  E somente em parte era esse o caso.

Sem dúvida, havia nas gerações mais velhas, como também nas mais novas, professores com profunda convicção religiosa, para os quais a fé cristã era a base intrínseca da nossa cultura e, com isso, do seu trabalho educacional.  Nas gerações mais antigas, no entanto, havia também um ressentimento anticlerical, não difícil de entender, por causa do controle sobre as escolas, antigamente exercido pelo clero.

Nas gerações mais novas havia nazistas convictos. Tanto nesse como naquele caso, gabar-se de um Cristianismo institucionalmente garantido não levava a nada.

Meus professores durante aqueles quatro anos de escola em Aschau certamente não eram cristãos fervorosos, mas diante do novo movimento sua atitude era: “Vamos aguardar”. Já que a Igreja ainda estava no centro da aldeia, não apenas arquitetonicamente, mas sobretudo no modo de sentir e viver a vida, também não teria sido muito inteligente engajar-se contra ela com demasiada veemência.

Isso só criaria adversários do novo regime.

Um professor jovem – aliás de muito talento – estava, sem dúvida, entusiasmado pelas novas idéias. Tentou abrir, finalmente, uma brecha na sólida estrutura da vida dos aldeões, caracterizada pelo ano litúrgico. Mandou, por exemplo, levantar com muita pompa a Árvore de Maio, como símbolo da sempre renovada força vital. A Árvore de Maio devia restabelecer um pedaço da religião germânica, ajudando, assim, a suplantar o que era cristão, denunciado como alienação da nossa própria grande cultura germânica.

No mesmo estilo, ele organizava festejos de solstício, novamente como retorno à santa natureza e à nossa própria origem, no lugar das idéias estranhas sobre pecado e redenção, que nos teriam sido impingidas por uma religião estranha, judaico-cristã.

Quando ouço, hoje em dia, as críticas ao cristianismo pela destruição da identidade cultural de um local, invadido por valores europeus, percebo como as argumentações são semelhantes, e muitas frases floreadas me soam familiares.

Aliás, naquele tempo, afirmações semelhantes não impressionavam muito a mentalidade prosaica dos camponeses bávaros. Os rapazes estavam mais interessados nas lingüiças penduradas na Árvore de Maio, que caberiam a quem subisse na árvore mais rapidamente, do que nos sofisticados discursos do professor.

Outro sinal inquietante do novo tempo foi o farol que pouco depois foi erguido em Winterberg, um dos lugares altos em redor da aldeia. Quando seu forte clarão passava pelo céu noturno, isso nos parecia ser o relâmpago de um perigo para o qual ainda não existia nome.  Dizia-se que com isso aviões inimigos podiam ser descobertos. Mas no céu de Aschau não havia avião nenhum, portanto também nenhum avião inimigo.

Que aí se preparava algo que só podia ser profundamente inquietante, percebia-se vagamente, mas naquele mundo aparentemente ainda pacífico ninguém podia acreditar em um futuro sinistro.

Quando saímos de lá, em 1937, ficamos sabendo que havia um plano para a construção de uma “obra”, que, pouco depois, cuidadosamente camuflada, começou a surgir na floresta – uma fábrica de munição, imperceptível do alto: o que estava iminente, começava a assumir uma figura assustadoramente clara.

Mas, como já disse, nós mesmos não chegamos a ver isso acontecer. Naquele momento, o cotidiano da aldeia, em si, continuava como sempre tinha sido. Primeiro, meu irmão tornou-se acólito.

Em 1935, ele entrou para o ginásio de Traunstein e, depois, para o seminário arquiepiscopal do lugar: eu o segui, mas não pude igualá-lo em aplicação e capacidade.

Minha irmã freqüentou, a partir do mesmo ano, no vizinho mosteiro de Au, às margens do rio Inn, a escola de ensino médio para meninas, onde lecionavam as irmãs franciscanas, no antigo convento dos cônegos agostinianos; havia lá uma daquelas belas igrejas barrocas de nossa terra bávara.

Assim a Igreja, por enquanto, ainda caracterizava a educação, embora a escola de Au já fosse vítima de muitas distorções.

A vida dos agricultores ainda estava inserida, em sólida simbiose, na fé da Igreja: nascimento e morte, casamento e doença, semeadura e colheita – tudo era abrangido pela fé.

Embora a vida e o pensamento pessoais nem sempre correspondessem à fé da Igreja, ninguém conseguiria imaginar uma morte sem a presença da Igreja, ou os grandes acontecimentos da vida sem ela.

A vida ter-se-ia perdido no vazio, teria perdido a base que a sustentava e lhe dava sentido...

Fonte: Livro Lembranças de Minha Vida - Bento XVI

Depois continuamos

O Vaticano II, tal como eu o vi. Bento XVI, discurso ao Clero de Roma, 1...

domingo, 3 de agosto de 2014

Significado Ritual do Dom da Paz na Missa


CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS

CARTA CIRCULAR: O SIGNIFICADO RITUAL DO DOM DA PAZ NA MISSA

1. "Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz", são as palavras com as quais Jesus promete aos discípulos reunidos no cenáculo, antes de enfrentar a paixão, o dom da paz, para infundir-lhes a gozosa certeza de sua presença permanente. Depois de sua ressurreição, o Senhor leva ao termo sua promessa apresentando-se no meio deles, no lugar em que se encontravam por temor aos Judeus, dizendo: "A paz esteja convosco!". A paz, fruto da Redenção que Cristo trouxe ao mundo com sua morte e ressurreição, é o dom que o Ressuscitado segue oferecendo hoje a sua Igreja, reunida para a celebração da Eucaristia, de modo que possa testemunhá-la na vida de cada dia.

2. Na tradição litúrgica romana o sinal da paz, colocado antes da Comunhão, tem um significado teológico próprio. Este encontra seu ponto de referência na contemplação eucarística do mistério pascal - diversamente de como fazem outras famílias litúrgicas que se inspiram na passagem evangélica de Mateus (cf. Mt 5, 23) - apresentando-se assim como o "beijo pascal" de Cristo ressuscitado presente no altar. Os ritos que preparam a comunhão constituem um conjunto bem articulado dentro do qual cada elemento tem seu próprio significado e contribui ao sentido do conjunto da sequência ritual, que conduz à participação sacramental no mistério celebrado. O sinal da paz, portanto, se encontra entre o Pater noster - ao qual se une mediante o embolismo que prepara ao gesto da paz - e a fração do pão - durante a qual se implora ao Cordeiro de Deus que nos dê sua paz -. Com este gesto, que significa a paz, a comunhão e a caridade", a Igreja implora a paz e a unidade para si mesma e para toda a família humana, e os fiéis expressam a comunhão eclesial e a mútua caridade, antes da comunhão sacramental"[5], isto é, a comunhão no Corpo de Cristo Senhor.


3. Na Exortação Apostólica pós-sinodal Sacramentum caritatis o papa Bento XVI havia confiado a esta Congregação a tarefa de considerar a problemática referente ao sinal da paz, com o fim de salvaguardar o valor sagrado da celebração eucarística e o sentido do mistério no mundo da Comunhão sacramental: "A Eucaristia é por sua natureza sacramento da paz. Esta dimensão do Mistério eucarístico se expressa na celebração litúrgica de maneira específica com o gesto da paz. Trata-se indubitavelmente de um sinal de grande valor (cf. Jo 14, 28). Em nosso tempo, tão cheio de conflitos, este gesto adquire, também a partir ponto de vista da sensibilidade comum, um relevo especial, já que a Igreja sente cada vez mais como tarefa própria pedir a Deus o dom da paz e a unidade para si mesma e para toda a família humana. [...] Por isso se compreende a intensidade com que se vive frequentemente o rito da paz na celebração litúrgica. A este propósito, contudo, durante o Sínodo dos bispos se viu a conveniência de moderar este gesto, que pode adquirir expressões exageradas, provocando certa confusão na assembléia precisamente antes da Comunhão. Seria bom recordar que o alto valor do gesto não fica diminuído pela sobriedade necessária para manter um clima adequado à celebração, limitando por exemplo a troca da paz aos mais próximos"[7].

4. O Papa Bento XVI, além de destacar o verdadeiro sentido do rito e do sinal da paz, punha em evidência seu grande valor como colaboração dos cristãos, para preencher, mediante sua oração e testemunho, as angústias mais profundas e inquietantes da humanidade contemporânea. Por esta razão, renovava seu convite para cuidar este rito e para realizar este sinal litúrgico com sentido religioso e sobriedade.

5. O Discasterio, baseado pelas disposições do Papa Bento XVI, dirigiu-se às Conferências dos bispos em maio de 2008 pedindo seu parecer sobre se manter o sinal da paz antes da Comunhão, onde se encontra agora, ou se mudá-lo a outro momento, com o fim de melhorar a compreensão e o desenvolvimento de tal gesto. Traz uma profunda reflexão, se viu conveniente conservar na liturgia romana o rito da paz em seu lugar tradicional e não introduzir mudanças estruturais no Missal Romano. Oferecem-se na continuação algumas disposições práticas para expressar melhor o conteúdo do sinal da paz e para moderar os excessos, que suscitam confusão na assembléias litúrgica antes da Comunhão.

6. O tema tratado é importante. Se os fiéis não compreendem e não demonstram viver, em seus gestos rituais, o significado correto do rito da paz, debilita-se o conceito cristão da paz e se vê afetada negativamente sua própria frutuosa participação na Eucaristia. Portanto, junto às precedentes reflexões, que podem constituir o núcleo de uma oportuna catequese a respeito, para a qual se ofereceram algumas linhas orientativas, submete-se a prudente consideração das Conferências dos bispos algumas sugestões práticas:

a) Esclarece-se definitivamente que o rito da paz alcança já seu profundo significado com a oração e o oferecimento da paz no contexto da Eucaristia. O dar-se a paz corretamente entre os participantes na Missa enriquece seu significado e confere expressividade ao próprio rito. Portanto, é totalmente legítimo afirmar que não é necessário convidar "mecanicamente" para se dar a paz. Se se prevê que tal troca não se levará ao fim adequadamente por circunstâncias concretas, ou se retem pedagogicamente conveniente não realizá-lo em determinadas ocasiões, pode-se omitir, e inclusive, deve ser omitido. Recorda-se que a rúbrica do Missal disse: Deinde, pro opportunitate, diaconus, vel sacerdos, subiungit: Offerte vobis pacem"[8].

b) Baseado nas presentes reflexões, pode ser aconselhável que, com ocasião da publicação da terceira edição típica do Missal Romano no próprio País, ou quando se façam novas edições do mesmo, as Conferências considerem se é oportuno mudar o modo de se dar a paz estabelecido em seu momento. Por exemplo, naqueles lugares em nos quais se optou por gesto familiares e profanos de saudação, traz a experiência destes anos, poderiam-se substituir por gestos mais apropriados.

c) De todos os modos, será necessário que no momento de dar-se a paz se evitem alguns abusos tais como:
- A introdução de um "canto para a paz", inexistente no Rito romano [9].
- Os deslocamentos dos fiéis para trocar a paz.
- Que o sacerdote abandone o altar para dar a paz a alguns fiéis.
- Que em algumas circunstâncias, como a solenidade de Páscoa ou de Natal, ou Confirmação, o Matrimônio, as sagradas Ordens, as Profissões religiosas ou as Exequias, o dar-se a paz seja ocasião para felicitar ou expressar condolências entre os presentes[10].

d) Convida-se igualmente a todas as Conferências dos bispos a preparar catequeses lirtúgicas sobre o significado do rito da paz na liturgia romana e sobre seu correto desenvolvimento na celebração da Santa Missa. A este propósito, a Congregação para o Culto Divino e a Disiciplina dos Sacramentos acompanha a presente carta com algumas pistas orientativas.

7. A íntima relação entre lex orandi e lex credendi deve obviamente estender-se a lex vivendi. Conseguir hoje um compromisso sério dos católicos frente a construção de um mundo mais justo e pacífico implica uma compreensão mais profunda do significado cristão da paz e de sua expressão na celebração litúrgica. Convida-se, então, com insistência a dar passos eficazes em tal matéria já que dele depende a qualidade de nossa participação eucarística e o que nos vejamos incluídos entre os que merecem a graça prometida nas bem-aventuranças aos que trabalham e constroem a paz[11].

8. Ao finalizar estas considerações, exorta-se aos bispos, e sob sua guia, aos sacerdotes a considerar e aprofundar no significado espiritual do rito da paz, tanto na celebração da Santa Missa como na própria formação litúrgica e espiritual ou na oportuna catequese aos fiéis. Cristo é nossa paz[12],a paz divina, anunciada pelos profetas e pelos anjos, e que Ele trouxe ao mundo com seu mistério pascal. Esta paz do Senhor Ressuscitado é invocada, anunciada e difundida nas celebração, também através de um gesto humano elevado ao âmbito sagrado.

O Santo Padre Francisco, no dia 7 de junho de 2014, aprovou e confirmou o que se contém nesta Carta circular, preparada pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, e ordenou sua publicação.

Na sede da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, ao dia 08 de junho de 2014, na solenidade de Pentecostes.

Antonio Card. CAÑIZARES LLOVERA
Prefeito
Arthur ROCHE
Arcebispo Secretário

*************
Demos graças a Deus!

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Lembranças de Minha Vida


Por Bento XVI

Enxerto do Livro: Lembrança de minha vida.




"Para nós, crianças, tudo isso era misterioso e interessante; para mamãe, no entanto, encarregada de todo o serviço da casa, significava muita fadiga. Ela sentia-se muito mais feliz quando podia passear um pouco conosco.

Gostavamos de entrar na vizinha Áustria.  Era uma sensação diferente podermos estar no “exterior”, andando apenas um pouco; e lá se falava a mesma língua e, com pequenas diferenças, até o nosso mesmo dialeto.

No tempo que antecedia o Natal, procurávamos a alface campestre e, ensinados por mamãe, encontrávamos nas várzeas muita coisa para nosso presépio, do qual gostávamos sobremaneira.

Tenho as mais belas lembranças dos dias de Natal, quando podíamos fazer uma visita a uma senhora idosa, cujo presépio enchia quase toda sua casa; com todas as suas maravilhas, jamais nos cansávamos de olhá-lo. Também me vem agora à memória o sótão onde um amigo nos apresentava seu teatro de marionetes, cujas figuras davam asas à nossa imaginação.

Todavia, percebíamos também que nosso alegre mundo infantil não estava dentro de um paraíso.
Atrás das belas fachadas escondia-se muita pobreza. Aquela pequena cidade fronteiriça, esquecida pelo desenvolvimento, estava evidentemente passando por uma grave crise econômica.

O clima político tinha se exacerbado a olhos vistos. Embora eu não entendesse os pormenores do que lá se passava, lembro-me dos cartazes de propaganda eleitoral e das permanentes lutas políticas às quais se referiam.

A incapacidade da República dessa época de criar estabilidade política, e com isso um agir político convincente, manifestava-se naquela extravagância das lutas entre os partidos, coisa que até uma criança percebia.  O partido nazista tentava cada vez mais se impor; declarava ser a última alternativa contra o caos ameaçador.

Quando Hitler fracassou em sua tentativa de ser eleito presidente do Reich, meu pai e minha mãe mostraram-se aliviados, mas também não se alegraram com a eleição de Hindenburg para presidente, pois não viam nele uma garantia segura contra os avanços dos potentados de camisa marrom. Muitas vezes meu pai teve que intervir contra a violência dos nazistas por ocasião dos comícios. Percebíamos, também, a enorme preocupação que pesava sobre ele, e da qual, mesmo no dia-a-dia, não conseguia livrar-se.


OS PRIMEIROS ANOS NA ESCOLA DA ALDEIA – À SOMBRA

Em virtude dos problemas, papai resolveu, no final de 1932, mudar-se mais uma vez; em Tittmoning tinha se exposto demais, enfrentando os “marrons”. Em dezembro, pouco antes do Natal, mudamo-nos para nossa nova morada em Aschau, às margens do rio Inn, um lugarejo rural, pacato, com fazendas grandes e vistosas.

Para mamãe, a bonita casa que agora nos era destinada foi uma agradável surpresa. Um fazendeiro construíra uma vivenda, moderna segundo os critérios da época, com sacada e balcão, e a alugara à comissária de polícia. 

Os escritórios e a morada do segundo oficial encontravam-se no andar térreo. A nós foi destinado o segundo andar, onde encontramos um lar confortável.  Na frente da casa havia um jardim com um belo cruzeiro e um grande gramado com um viveiro de carpas, no qual eu, aliás, ao brincar, um dia quase me afoguei. 

No meio do povoado havia, como tem que ser na Baviera, uma cervejaria imponente, em cuja taberna os homens se encontravam aos domingos. A praça principal encontrava-se no outro extremo da aldeia, com mais uma considerável taberna, uma igreja e uma escola.

No início, nós, crianças, sentíamos falta, naturalmente, da grandeza da pequena cidade da qual havíamos tido tanto orgulho. A graciosa igreja da aldeia, em estilo neogótico, não se comparava àquilo que costumávamos ver em Tittmoning. 

O comércio era mais simples e o dialeto, um bocado mais rude, de sorte que no começo não entendíamos uma porção de palavras.  Mas em bem pouco tempo acabamos gostando de nossa aldeia e aprendemos a dar valor a suas belezas peculiares. Logo no começo, porém, fomos surpreendidos por acontecimentos históricos. 

Tínhamos chegado em dezembro de 1932. Em janeiro de 1933, Hindenburgo entregou a Hitler a função de chanceler do Reich, o que na linguagem do partido logo foi chamado de “tomada do poder” – o que de fato foi.

Depois continuamos.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Filosofias em Luta - Guerra e Revolução

Por venerável Fulton Sheen

Parte I




Guerra e Revolução

" Há duas maneiras de encarar a guerra atual: a do jornalista e a do teólogo. Se a observarmos com os olhos do jornalista ou de comentador, veremos nela apenas uma sequência de eventos sem causas remotas no passado, sem qualquer grande desígnio para o futuro. Se a observarmos porém com os olhos de Deus, então a guerra não aparecerá despida de sentido, muito embora não nos seja dado, no momento presente, compreender os seus particulares.

Será talvez uma purgação premeditada do mal deste mundo, a fim de que nele possa renascer a liberdade à sombra da santa lei, pois:

  ' Todos os caminhos humanos levam a Deus, Que tem em Suas mãos miríades de fios, mais brilhantes do que o ouro. E fortes como desejos divinos, que nos atraem para Ele, numa sutil tensão ascensional'  - (E.C.Stedman - Protest of Faith)

Nossa tomada de contato é do ponto de vista divino, antes do mais por proporcionar a única explicação adequada aos fatos; e a seguir porque  o povo dotado de inteligência, quer compreender porque isso vem acontecendo.

Sabemos todos contra o que combatemos, queremos saber pelo que combatemos. Sabemos todos que estamos envolvidos numa guerra; queremos saber o que devemos fazer para criar uma paz duradoura. Sabemos a quem odiamos; queremos saber o que deveríamos amar. Sabemos que estamos lutando contra a barbárie que é intrinsecamente má; queremos saber o que nos compete fazer para tornar impossível o ressurgir do mal.

Esta guerra não é:

1 - Um  mero conflito político ou econômico, mas de preferência um conflito teológico. Não é política nem econômica, porque a política e a economia ocupam-se apenas dos meios de viver. E não foram exatamente os meios de viver que se corromperam,  mas as finalidades.

Nunca antes, na história deste mundo, houve tão opulentos recursos de vida.  Nunca antes existiu tamanho poder, nunca homens tão aptos a utiliza-lo na destruição da vida humana. Nunca antes houve tanta riqueza material; e nunca também tamanha pobreza. Nunca houve tanta comunicação e nunca estivemos tão segregados pelo ódio, pela competição e pela guerra.

Esses meios de viver não mais nos proporcionam a paz e a ordem, porque pervertemos e esquecemos os verdadeiros fins da vida.  Não foi a polítca que azedou, nem a nossa economia que se enferrujou, porém o nosso coração. O motivo de haverem falhado a política e a economia como processos para realizar a paz, é que ambas se abstrairam do fim de intenção da vida. Vivemos a agimos como se não tivéssemos sido criados por Deus. E daí não ser esta guerra, em aspectos fundamentais, nem política, nem econômica, porém teológica.

Não foi ela  causada por ditadores malvados. Muitos pensam que se pudessemos  livrar o mundo desses desalmados, voltaríamos a uma era de relativa prosperidade, em que só teríamos de cuidar eventualmente de um qualquer concidadão que pussesse água no leite. Que engano! esses diatadores não criaram o mal deste mundo, mas são, ao invés, as suas criaturas; não passam de borbulhas à flor da pele. E se apareceram é porque o sangue está corrompido. Não adianta furar as borbulhas, se deixarmos perdurar o foco de infecção.

Esquecemos que, de 1914 a 1919, nosso clamor era " livrai o mundo do kaiser e teremos paz". Pelo contrário, preparamo-nos para uma nova guerra, no decorrer de 21 anos. Bradamos: " livrai o mundo de Hitler e teremos paz!" Não, não teremos! Só no livraremos dos ditadores e teremos paz se nós mesmos proporcionarmos as forças morais e espirituais cuja carência produziu Hitler  e tantos outros.

A paz não sucederá ao extermínio dos ditadores, porque estes são meros efeitos de erradas filosofias da vida e não causas. Tivéssemos nós probidade e haveríamos de reconhecer que somos todos cidadãos de um mundo apóstata, de um mundo que abandonou Deus. Por esta apostasia somos todos responsáveis e ninguém mais do que nós, cristãos, tidos como o sal da terra, destinados a prevenir a corrupção. Não! Não foram os maus ditadores que tornaram mau o mundo; foi o mau modo de pensar. E, por conseguinte, é no reino das idéias que teremos de reintegrar o mundo!

Fonte: Filosofias em Luta .

Depois continuamos.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Santa Marta

Por Bento XVI



Marta e Maria são duas irmãs; têm também um irmão, Lázaro, que contudo neste caso não comparece. Jesus passa pela sua aldeia e – diz o texto – Marta hospeda (cf. 10, 38). Este pormenor dá a entender que, das duas, Marta é a mais idosa, a que governa a casa. De facto, depois de Jesus ter entrado, Maria senta-se aos seus pés e ouve-o, enquanto Marta andava atarefada com muitos serviços, certamente devidos ao Hóspede extraordinário.

 Parece que vemos a cena: uma irmã que anda toda atarefada, e a outra como que raptada pela presença do Mestre e das suas palavras. Um pouco depois Marta, evidentemente ressentida, não resiste mais e protesta, sentindo-se até no direito de criticar Jesus: "Senhor, não se Te dá que a minha irmã me deixe só a servir? Diz-lhe, pois, que me venha ajudar". 

Marta pretenderia até ensinar o Mestre! Mas Jesus, com grande calma, responde: "Marta, Marta – e este nome repetido exprime afecto – andas inquieta e perturbada com muitas coisas; mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada" (10, 41-42).

A palavra de Cristo é claríssima: nenhum desprezo pela vida activa, nem muito menos pela generosa hospitalidade; mas uma chamada clara ao facto de que a única coisa deveras necessária é outra; ouvir a Palavra do Senhor; e o Senhor naquele momento está ali, presente na Pessoa de Jesus! Tudo o resto passará e ser-nos-á tirado, mas a Palavra de Deus é eterna e dá sentido ao nosso agir quotidiano.

Fonte: Aqui

domingo, 27 de julho de 2014

Da Consolação Interior


A Imitação de Cristo.

Livro Terceiro - Da Consolação Interior
Capítulo 25



Em Que Consiste a Firme Paz do Coração e o Verdadeiro Aproveitamento

1. Jesus: Filho, eu disse a meus discípulos: Eu vos deixo a paz; dou-vos a minha paz; não vola dou como a dá o mundo (Jo 14,27). Todos desejam a paz, mas nem todos buscam as coisas que produzem a verdadeira paz. A minha paz está com os humildes e mansos de coração. Na muita paciência encontrarás a tua paz. Se me ouvires e seguires a minha voz, poderás gozar grande paz.

2. A alma: Que hei de fazer, pois, Senhor?

3. Jesus: Em tudo olha bem o que fazes e dizes, e dirige toda a tua intenção só para meu agrado, sem desejar ou buscar coisa alguma fora de mim. Não julgues temerariamente das palavras e obras dos outros, nem te intrometas em coisas que não te dizem respeito; deste modo poderá ser que pouco ou raras vezes te perturbes.

4. Nunca sentir, porém, inquietação, nem sofrer moléstia alguma do corpo ou do espírito, não é próprio da vida presente, senão do estado do eterno descanso. Não julgues, pois, ter achado a verdadeira paz, se não sentires nenhuma aflição; nem que tudo está bem, se não tiveres nenhum adversário, ou tudo perfeito, se tudo correr a teu gosto. Nem penses que és grande coisa ou singularmente amado por Deus, se sentes muita devoção e doçura, porque não são estes os sinais pelos quais se conhece o verdadeiro amante da virtude, nem consiste nisso o aproveitamento e a perfeição do homem.

5. A alma: Em que consiste, pois, Senhor?

6. Jesus: Em te ofereceres de todo o teu coração à divina vontade, sem buscares o teu próprio interesse em coisa alguma, nem eterna; de sorte que com igualdade de ânimo dês graças a Deus na ventura e na desgraça, pesando tudo na mesma balança. Se fores tão forte e constante na esperança que, privado de toda consolação interior, disponhas teu coração para maiores provações, sem te justificares, como se não deveras sofrer tanto, e antes louvares a santidade e a justiça em todas as minhas disposições, então andarás no verdadeiro e reto caminho da paz e poderás ter certíssima esperança de contemplar novamente minha face com júbilo. E, se chegares ao perfeito desprezo de ti mesmo, fica sabendo que então gozarás da abundância da paz, no grau possível nesta peregrinação terrestre.

sábado, 26 de julho de 2014

“Descobri que o Mundo Morre de Coletivismo”


Por Gustavo Corção


...
"O coletivismo de que morre o mundo e de que vivem os novos aventureiros é a teoria do ajuntamento sem unidade; é a tentativa de encontrar significado na multidão, já que não se consegue descobrir o significado de cada um: é a conspiração dos que se ignoram; a união dos que se isolam; a sociabilidade firmada nos mal-entendidos; o lugar geométrico dos equívocos.
Os homens que perderam o segredo da alma ora se isolam, ora se aglomeram.
A história do homem é uma dança em compasso binário. O erro é um pêndulo. E assim o mundo vai trilhando seu sinuoso delírio. Enquanto dura um certo contentamento do egoísmo, os homens conseguem viver numa esportiva competição (lei da oferta e da procura, cada umpor si e Deus por todos), dividindo a sociedade em compartimentos estanques (amigos amigos, negócios à parte), e chegam a formular e a viver uma doutrina do individualismo apenas temperada, na inevitável convivência, por um acordo extrínceco, por um contrato social. Quando, porém, se esgota a euforia dessa espécie de atomização social e nas almas pesa a solidão, correm todos a se amontoar, a encher as praças públicas levantando ora o braço direito, ora o esquerdo, em sinal de congraçamento; ou no morno contato dos ombros, dos peitos, das nádegas, no trépido aconchego de curral, os homens coletivos sorriem reconfortados, com um sorriso de rua, felizes de terem escapado, por um triz! do pesadelo horrível de terem almas. Falam então de solidariedade humana, isto é, do sentimento de estarem colados uns aos outros, pelos hombros, pelos peitos, pelas nádegas.
Qual dos dois será o pior, o egoísmo que se isola ou o egoísmo que se congrega? É difícil decidir. Será pior aquele de que o mundo se cansou; será melhor aquele de cujos incômodos o mundo esqueceu. E assim vamos, como o viajante sem cabine, que passa a noite na ponta escassa de um banco a jogar com sua anatomia, a mudar de posição encontrando um fugaz alívio nas mesmas atitudes que já lhe deram cãibras. E assim vamos, de contorção em contorção, de alívio em alívio, e o que ainda é pior, de entusiasmo em entusiasmo.
Eu quereria demonstrar, se tivesse tempo, que a verdadeira sociedade só é possível quando tiver raízes que desçam aos abismos da subjetividade. Pois somente dessas profundezas pode jorrar a verdadeira generosidade. Em outras palavras, o que eu quereria demonstrar é que as verdadeiras aberturas do homens estão no seu interior, no claustro, no jardim secreto de seu coração.
Essa seria a minha bandeira, se ainda pudesse reunir as forças que dissipei numa vida absurda. Chego tarde. Hoje, só de pensar no empreendimento, sinto um imenso enjôo, e assalta-me a imaginação o infinito enfado de polêmicas que eu deveria sustentar, dos indivíduos que me viriam provar, com esse ar profundo, peculiar ao medíocre que encontrou uma doutrina na justa medida de sua mediocridade (la poule qui a trouvé un sou), que dois e dois são quatro, e que quatro vezes quatro são dezesseis, nove fora, sete. Teria eu de explicar mil vezes, em termos cordiais e sugestivos, que não ignoro o fato de ser preciso quatro portugueses para carregar um piano; e que também não me escapa a sutileza da regra de três, pela qual dez homens fazem um muro em menos tempo do que cinco.
Na verdade, a maioria das demonstrações socialistas começa pela suposição de trazer ao mundo a sensacional descoberta de que dois e dois são quatro. Mesmo sem a doença, não sei se teria ânimo para o hercúleo empreendimento de dizer todos os dias as mesmas coisas, de retomar cem vezes o mesmo raciocínio, para o cabo de dez anos, de vinte, de cem anos, encontrar-me no ponto de partida a explicar que o homem só pode acertar razoavelmente os problemas exteriores quando tiver descoberto, ao menos em seus vagos lineamentos, o segredo do seu ser.
Com a doença, paro nestas notas o meu ardente apostolado. A pouca força que me resta mal chega para experimentar, em três ou quatro botões de rosas, o que eu poderia ver nas vidas dos homens: o ritmo, a harmonia do desabrochar perfeito".
(Gustavo Corção: Lições de Abismo, Editora Agir, pág. 87-89, 2004)