quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O pudor cristão

Por sua santidade Papa Pio XII


" Bem melhor fariam os educadores da juventude clerical, inculcando-lhe as normas do pudor cristão, que tanto contribui para manter incólume a virgindade, e bem pode chamar-se a prudência da castidade. O pudor adivinha o perigo, obsta a que se afronte, e leva a evitar aquelas mesmas ocasiões de que não se acautelam os menos prudentes. Ao pudor não agradam as palavras torpes ou menos honestas, e aborrece-lhe a mais leve imodéstia. Ele afasta-se da familiaridade suspeita com pessoas do outro sexo, porque enche a alma de profundo respeito pelo corpo, membro de Cristo (cf. l Cor 6, 15), e templo do Espírito Santo (l Cor 6, 19). A alma cristãmente pudica tem horror de qualquer pecado de impureza e retira-se ao primeiro assomo da sedução.

 O pudor sugere ainda aos pais e educadores os termos apropriados para formar, na castidade, a consciência dos jovens. Evidentemente, como lembrávamos há pouco numa alocução, "este pudor não se deve confundir com o silêncio perpétuo que vá até excluir, na formação moral, que se fale com sobriedade e prudência dessas matérias". Contudo, com freqüência demasiada nos nossos dias, certos professores e educadores julgam-se obrigados a iniciar as crianças inocentes nos segredos da geração duma maneira que lhes ofende o pudor. Ora, nesse assunto tem de se observar a justa moderação que exige o pudor.

. Alimenta-se esse do temor de Deus, temor filial baseado numa profunda humildade, o qual inspira horror ao menor pecado. Já o afirmava o nosso predecessor são Clemente I: "Aquele que é casto no seu corpo, não se glorie, pois deve saber que recebeu de outro o dom da continência".

Mas ninguém mostrou melhor que santo Agostinho a importância da humildade cristã para a defesa da virgindade: "Sendo a continência perpétua, e sobretudo a virgindade um grande bem nos santos de Deus, deve-se evitar com o maior cuidado que se corrompa com a soberba... Quanto maior vejo é este bem que eu vejo, mais temo que a soberba o roube. Esse bem virginal ninguém o conserva senão o próprio Deus que o deu: e 'Deus é caridade' (1 Jo 4, 8). Portanto, a guardiã da virgindade é a caridade; e a morada dessa guardiã é a humildade".

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Relacionar-se com Nossa Senhora

Por Papa Francisco



" Aconselho-vos o que vos disse há pouco, procurar refúgio... Um bom relacionamento com Nossa Senhora; relação com Nossa Senhora ajuda-nos a ter um bom relacionamento com a Igreja: as duas são Mães...

Conheceis o lindo trecho de santo Isaac, abade da Estrela: ' o que se pode dizer de Maria pode dizer-se da Igreja e também da nossa alma. As três são femininas, as três são mães, as três dão vida. A relação com Nossa Senhora é uma relação de filho'... Vigiar sobre isto: se não tivermos um bom relacionamento com Nossa Senhora, haverá um pouco de orfandade no meu coração.

 Recordo-me, uma vez, há 30 anos, estava no Norte da Europa: tinha que ir lá para a educação da Universidade de Córdova, da qual naquele momento eu era vice-chanceler. E convidou-me uma família de católicos praticantes; aquele era um país secularizado demais. E no jantar, tinham muitos filhos, eram católicos praticantes, ambos professores universitários, e também catequistas. A um certo ponto, falando de Jesus Cristo — entusiastas de Jesus Cristo, falo de há trinta anos — disseram: «Sim, graças a Deus superámos a etapa de Nossa Senhora...». E que significa isto, perguntei. «Sim, porque descobrimos Jesus Cristo, e já não precisamos dela». Senti-me um pouco contristado, não compreendi bem. E falámos um pouco sobre este aspecto. Não é esta a maturidade! Não é maturidade, esquecer a mãe é mau... E, dizendo de outro modo: se não quiseres Nossa Senhora por Mãe, sem dúvida tê-la-ás por sogra! E isto não é bom! Obrigado."


terça-feira, 12 de agosto de 2014

O Cristão e a Esperança.

Por Gustavo Corção.




"O cristão tem a promessa de Deus e espera. Ora, se um pai de família espera a visita dum amigo que tarda, não deverá decerto andar dum lado para outro, à toa, sob pretexto de impaciência e de amizade, nem consentir que os filhos e a mulher fiquem tontos entre o portão e o telefone. Ele deverá 'providenciar todas as coisas' e a esposa deverá trabalhar com paciência e alegria para que o amigo encontre a casa adornada e cada coisa pequenina em seu lugar.

Esperar para o cristão, é providenciar e preparar para o hóspede, é ser vigilante como um soldado, humilde como a dona de casa, confiante como a criança. Anos atrás as crianças tinham um sentido vivo de esperança, porque gostavam muito de brincar de soldado e de dona de casa que recebe visitas, mas o mundo de idéias avançadas e mecanizadas vai perdendo essas duas noções fundamentais, a do soldado e a do hóspede.

A visita hoje é um susto que se prega nos outros; é um aparecer de repente com gritos; é um acidente resolvido por uma guinada na direção de um automóvel. Hoje, por exemplo, há casas em que não se põe mais a toalha na mesa: o hóspede inopinado é conduzido para diante duma frigideire onde se improvisavam uns sanduíches americanos com um pão pedido às pressas pelo telefone.

Os soldados também vão deixando de existir com sua antiga galhardia para dar lugar a uns técnicos eficientes do manejo de certos instrumentos de engenharia. O ludus infantil tenta em vão se apegar a esses tristes modelos de vida, e a Esperança cristã encontra nos corações dos adultos, cada vez mais, a raiz de nossa infância quese calcinada.

Fonte: A descoberta do outro - pag 155 - Gustavo Corção

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São Bernardo de Claraval.

Por sua santidade Papa Pio XII



"A sua doutrina foi embebida quase toda nas páginas da Sagrada Escritura e dos santos padres, que dia e noite tinha à mão e meditava profundamente; não nas sutis disputas dos dialéticos e filósofos, que mais de uma vez parece menosprezar. Deve, todavia, notar-se que ele não rejeita a filosofia humana, a genuína filosofia que conduz a Deus, à vida honesta e à sabedoria cristã; mas aquela que, com vã verbosidade e falaz prestígio das cavilações, presume com temerária audácia subir às coisas divinas e sondar todos os segredos de Deus; de maneira a violar - como freqüentemente acontecia também então - a integridade da fé e miseravelmente cair na heresia.

 "Vês... - escreve ele - como (s. Paulo apóstolo) faz depender o fruto e a utilidade da ciência do modo de saber? Que quer dizer modo de saber? Que quer dizer senão que se saiba com que ordem, com que vontade, para que fim se deva saber? Com que ordem: em primeiro lugar o que mais convém para a salvação; com que vontade: mais ardentemente o que mais acende o amor; para que fim: não por vaidade, ou por curiosidade, ou coisa parecida, mas somente para edificação própria ou do próximo. Há alguns de fato que gostam de saber só por saber; e é curiosidade ignóbil. Outros há que desejam saber para serem conhecidos; e é indigna vaidade. E há também os que desejam saber para vender a sua ciência, por exemplo, por dinheiro, pelas honras; e é vergonhosa mercadoria. Mas há ainda os que querem saber, para edificar, e é caridade. E, finalmente, os que desejam saber para serem educados; e é prudência".

A doutrina, ou melhor, a sabedoria que ele segue e ardentemente ama, bem a exprime com estas palavras: "Há o espírito de sabedoria e de inteligência que, à maneira da abelha que produz cera e mel, tem com que acender a luz da ciência e infundir o sabor da graça. Não espere, portanto, receber o beijo, nem o que compreende a verdade, mas não a ama; nem o que a ama, mas não a compreende". "Que faria a ciência sem o amor? Envaideceria. Que faria o amor sem a ciência? Erraria". "Só resplandecer é vão; só arder é pouco; arder e resplandecer é perfeito."Donde nasça, porém, a verdadeira e genuína doutrina, e como deva unir-se com a caridade, assim explica: "Deus é sabedoria e quer ser amado não só suave mas também sapientemente... Aliás com muita facilidade o espírito do erro zombará do teu zelo, se desprezares a ciência; nem o astuto inimigo tem instrumento mais eficaz para arrancar do coração o amor, do que conseguir que no mesmo amor se ande incautamente, e não com a razão". 

O seu estilo vivaz, florido, abundante e sentencioso é tão suave e doce que atrai o espírito do leitor, deleita-o e eleva-o para as coisas do alto; excita, alimenta e dirige a piedade; força, enfim, o ânimo a procurar atingir os bens que não são caducos e passageiros, mas verdadeiros, certos e eternos. Por isso os seus escritos foram sempre tidos em grande consideração; e deles a própria Igreja tirou não poucas páginas celestiais e ardentes de piedade para a sagrada liturgia. Parecem vivificadas pelo sopro do Espírito Santo e resplandecentes de tal esplendor de luz que nunca se podem apagar no decurso dos séculos, pois nascem da alma de quem escreve, sequioso de verdade e caridade e desejoso de nutrir os outros e conformá-los com a sua imagem.

Sua caridade para com Deus

Apraz-nos, veneráveis irmãos, citar dos seus livros, para comum utilidade, algumas sentenças, entre as mais belas, acerca desta mística doutrina: "Ensinamos que toda alma, embora carregada de pecados, enredada nos vícios, escrava das paixões, prisioneira no exílio, encarcerada no corpo,.. ainda que, digo, de tal forma condenada e desesperada; ensinamos que ela pode, todavia, encontrar em si não só com que possa dilatar o espírito na esperança do perdão e da misericórdia; mas até com que ouse aspirar às núpcias do Verbo, não temer estreitar um pacto de aliança com Deus, nem ter receio de levar o suave jugo de amor com o Rei dos anjos. O que é que não pode ousar com segurança junto daquele cuja insigne imagem ela vê em si e cuja esplêndida semelhança ela conhece?" 

 "Tal conformidade desposa a alma com o Verbo, visto que assim ela se torna semelhante por meio da vontade àquele a quem é semelhante por natureza e o ama como é amada. Portanto se ama perfeitamente, contraiu as núpcias. Que há de mais aprazível do que tal conformidade? Que há de mais desejável do que aquela caridade, que faz com que, tu, ó alma, não contente do magistério humano, por ti mesma te aproximes com confiança do Verbo, estejas sempre unida ao Verbo, interrogues familiarmente o Verbo e o consultes sobre todas as coisas, tanto capaz de compreender quanto és audaz no desejo? É isso realmente um contrato de espiritual e santo conúbio. Disse pouco, contrato: é um abraço, na verdade, em que querer ou não querer a mesma coisa faz de dois um só espírito. Nem há que recear que a diferença das pessoas torne de qualquer maneira imperfeito o acordo das vontades, porque o amor não conhece temor reverencial. De fato amor vem de amar, não de reverenciar... O amor transborda, o amor; quando chega, assimila e submete todas as outras afeições. Por isso quem ama, ama e mais nada sabe".

Depois de ter observado que Deus quer ser amado pelos homens, muito mais que temido e reverenciado, acrescenta com agudeza e sagacidade: "Ele (o amor) basta por si só, agrada em si mesmo e por causa de si. É mérito e prêmio de si mesmo. O amor não procura motivo, nem fruto, fora de si. O seu fruto é o seu uso. Amo porque amo, amo para amar. Grande coisa é o amor, desde que recorra ao seu princípio, desde que voltando à sua origem, restituído à sua fonte, sempre dela tome o de que perenemente se alimentar. Entre todos os movimentos, sentimentos e afetos da alma, é só no amor que a criatura pode, embora não adequadamente, corresponder ao seu Autor, ou pagar com o mesmo amor".

 Visto que ele próprio várias vezes experimentou, na contemplação e na oração, esse divino amor com o qual nos podemos unir estreitamente a Deus, do seu espírito saem estas palavras abrasadas: "Feliz (a alma) que mereceu ser prevenida com a bênção de tão grande suavidade! Feliz, porque teve a graça de experimentar tão grande abraço de felicidade! Isso não é outra coisa senão amor santo e casto, suave e doce; amor tão sereno como sincero; amor mútuo, íntimo e forte, que une dois não numa carne só, mas num só espírito, faz com que dois já não sejam dois, mas um só, como disse s. Paulo: 'Quem adora a Deus é um só espírito com ele"'.

 Embora nem todos possam atingir o cume de tal contemplação divina, de que fala s. Bernardo com sublimes pensamentos e palavras; embora nem todos possam unir-se tão intimamente a Deus, que se sintam unidos ao Sumo Bem como que pelos vínculos de arcano conúbio celestial; todavia, todos podem e devem elevar de vez em quando o espírito das coisas terrenas às celestes, e amar com vontade apaixonada o Supremo Doador de todos os bens.

O contemplativo

 Desta divina caridade ninguém falou talvez com tal clareza, elevação e ardor como são Bernardo. "A causa para amar a Deus - assim diz - é o próprio Deus; a medida, amá-lo sem medida". "Onde há amor, não há canseira, mas gosto".

 Ele mesmo confessa que o experimentou, quando escreve: "Oh! amor santo e casto! Oh! doce e suave afeto!... Tanto mais doce e suave, porque é todo divino o sentimento que se prova. Experimentá-lo é divinizar-se".E noutro lugar: "É melhor para mim, Senhor, abraçar-te na tribulação e estar contigo na fornalha, do que estar sem ti até mesmo no Céu". Quando, porém, chegou à suma e perfeita caridade, que o uniu em íntimo conúbio com o próprio Deus, então goza de uma alegria e paz tal que não pode haver outra maior: "Oh! lugar do verdadeiro repouso... em que não se vê a Deus como que perturbado pela ira e ocupado em cuidados; mas nele se experimenta a sua vontade bondosa, benévola e perfeita. Essa visão não atemoriza, mas afaga; não excita curiosidade inquieta, mas acalma; não cansa os sentidos, mas tranqüiliza. Aqui realmente repousa-se. Deus tranqüilo dá tranqüilidade em tudo; e vê-lo pacífico é estar em paz".

Todavia esse repouso total não é morte da alma, mas verdadeira vida: "Este sono vital e vigilante ilumina pelo contrário o sentido interior e, sendo repelida a morte, dá a vida eterna. É deveras um sono, que todavia não adormece, mas eleva. É também morte - não receio dizê-lo - visto que o apóstolo elogiando alguns ainda vivos na carne, assim diz:  "Estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus".

Esse total repouso do espírito, de que gozamos correspondendo com o nosso ao amor de Deus, e por meio do qual para ele nos voltamos e dirigimos com todo o nosso ser, não nos leva à preguiça nem à inércia, mas a uma álacre, solícita e operosa diligência, com que nos esforçamos por procurar, com a ajuda de Deus, não só a nossa salvação, mas também a dos outros. De fato, tal sublime meditação e contemplação, incitada e estimulada pelo amor divino, "governa os afetos, dirige as ações, corrige os excessos, regula os costumes, aformoseia e põe em ordem a vida, dá enfim a ciência das coisas divinas e humanas... É ela que distingue o que é confuso, une o que está dividido, recolhe o que está espalhado, investiga o que está escondido, procura a verdade, pondera o que é verossímil e descobre a ficção e o artifício. É ela que preordena o que se deve fazer, reflete sobre o que se fez, de maneira que nada fique na mente por corrigir. É ela que na prosperidade, nas contrariedades quase não as sente; uma é fortaleza, a outra prudência".

O homem de ação

E com efeito, embora deseje ficar imerso em tão alta contemplação e suave meditação, que se nutre do espírito divino, todavia o Doutor de Claraval não se fecha na sua cela, que "guardada é suave", mas onde quer que se trate da causa de Deus e da Igreja, está imediatamente presente com o conselho, com a palavra e com a ação. Afirmava de fato que não "deve cada qual viver para si só, mas para todos". De si mesmo, além disso, e dos seus, assim escrevia: "Também aos nossos irmãos, no meio dos quais vivemos, somos devedores, por direito de fraternidade e convívio humano, de conselho e de auxílio".

 Quando, porém, com tristeza, via ameaçada ou perseguida nossa santa religião, não se poupava a canseiras, viagens e cuidados para a defender esforçadamente e ajudá-la segundo as suas forças. "Nada daquilo que se revele interesse de Deus - dizia - me é alheio". E ao rei Luís de França escrevia estas corajosas palavras: "Nós, filhos da Igreja, não podemos de forma alguma dissimular as injúrias feitas à nossa mãe, o seu desprezo e os seus direitos conculcados... Certamente estaremos firmes, e combateremos até à morte, se for necessário, pela nossa mãe, com as armas convenientes; não com os escudos e as espadas, mas com as orações e lágrimas diante de Deus".

A Pedro, abade de Cluny:  "Glorio-me nas minhas tribulações, se fui considerado digno de sofrer alguma coisa pela Igreja. Esta é na verdade a minha glória que exalta a minha cabeça, o triunfo da Igreja. Com efeito se fomos companheiros na dificuldade, sê-lo-emos também na consolação. Houve que trabalhar e sofrer juntamente com a nossa mãe...".

 Quando depois o corpo místico de Jesus Cristo foi perturbado por um cisma tão grave que até os bons estavam hesitantes entre uma e outra parte, ele entregou-se totalmente a compor os dissídios e à feliz reconciliação e união dos espíritos. Visto que os príncipes, por ambição do domínio terreno, estavam divididos por terríveis discórdias, de que podiam derivar graves prejuízos para os povos, fez-se artífice de paz e reconciliador de mútua concórdia. Enfim, pois que os lugares santos da Palestina, que o divino Redentor consagrou com o seu sangue, corriam grande perigo, e estavam expostos à pressão hostil de exércitos estrangeiros, por mandato do sumo pontífice excitou com altas palavras e mais elevada caridade os príncipes e os povos cristãos a uma nova cruzada; se ela não teve êxito feliz, não foi certamente por culpa sua.

 E quando a integridade da fé católica e dos costumes, transmitida pelos antigos como herança sagrada, estava exposta a gravíssimos perigos, sobretudo por obra de Abelardo, Arnaldo de Bréscia e Gilberto Porretano, ele, quer com a publicação de escritos cheios de doutrina, quer com laboriosas viagens, tentou tudo o que pode, amparado pela graça divina, para que os erros fossem debelados e condenados, e para que os errantes conforme as suas possibilidades voltassem ao reto caminho e se emendassem.

O defensor da autoridade pontifícia

 Como bem sabia que nesta questão não importava tanto a doutrina dos doutores, como a autoridade especialmente do romano pontífice, tratou de interpor tal autoridade, que em dirimir tais questões reconhecia suprema e completamente infalível. Por isso ao nosso predecessor de feliz memória Eugênio III, que fora seu discípulo, escreve estas palavras, que revelam o seu amor e profunda reverência para com ele, unida com aquela liberdade de espírito, que convém aos santos: "O amor não conhece o patrão, conhece o filho mesmo com a tiara... Admoestar-te-ei, portanto, não como mestre, mas como mãe; certamente como alguém que te quer muito".

Dirige-se-lhe, em seguida, com estas ardentes palavras: "Quem és? O sumo sacerdote, o sumo pontífice. És o príncipe dos bispos, o herdeiro dos apóstolos... Pedro por poder, por unção Cristo. És aquele a quem foram entregues as chaves e confiadas as ovelhas. Há também outros porteiros do céu e pastores de rebanhos; mas tu és tanto mais glorioso, quanto maior é a diferença com que herdaste, em comparação dos outros, os dois nomes. Aqueles foram confiados os seus rebanhos, e a cada qual o seu: a ti foram confiados todos, a ti só, na unidade. E não só és pastor dos rebanhos mas único pastor de todos os pastores".E de novo: "Devia sair deste mundo quem quisesse encontrar o que não pertence ao teu cuidado".

 Reconhece, porém, aberta e plenamente a infalibilidade do magistério do romano pontífice, quando se trata de coisas de fé e costumes. Quando combate, na verdade, os erros de Abelardo, o qual, "quando fala da Santíssima Trindade, sabe a Ário; quando da graça, sabe a Pelágio; quando sobre a pessoa de Cristo, sabe a Nestório" "ele que... põe graus na Santíssima Trindade, modos na majestade, sucessão numérica na eternidade"(37); e no qual "a razão humana tudo chama a si, nada deixando à fé"(38); não só discute, desfaz e refuta os seus ardis e sofismas, sutis e falazes, mas também escreve ao nosso predecessor de imortal memória Eugênio III, por tal motivo, estas graves palavras: "É mister referir à vossa autoridade apostólica todos os perigos... sobretudo os que dizem respeito à fé. Julgo, pois, justo que se remediem os prejuízos da fé sobretudo onde ela não pode faltar. É esta de fato a prerrogativa da Sé Apostólica... É tempo de reconhecerdes a vossa autoridade, Pai amantíssimo... Nisso realmente fazeis as vezes de Pedro, cuja cadeira ocupais, se confirmais com as vossas admoestações os espíritos hesitantes na fé e se com a vossa autoridade esmagais os seus corruptores".

Força e humildade

 Mas de onde esse monge humilde, quase sem recursos humanos, pôde receber a força para superar as mais árduas dificuldades, resolver os mais complicados problemas e dirimir as mais intricadas questões, só se pode compreender se se considera a exímia santidade de vida, que o ornava, unida a um grande amor da verdade. Ardia sobretudo, como dissemos, da mais ardente caridade para com Deus e para com o próximo, que é, como sabeis, veneráveis irmãos, o preceito principal e como que o compêndio de todo o Evangelho; de modo que não só vivia sempre misticamente unido ao Pai celeste, mas nada mais desejava do que lucrar os homens para Cristo, defender os sacrossantos direitos da Igreja e defender com invicta coragem a integridade da fé católica.

No meio de tanta benevolência e estima de que gozava junto dos sumos pontífices, dos povos, não se envaidecia, nem corria atrás da transitória e vã glória dos homens, mas sempre nele resplandecia aquela humildade cristã, que "reúne as outras virtudes... depois de as reunir guarda-as... e conservando-as aperfeiçoa-as"(40); de maneira que "sem ela... nem sequer parecem virtudes".(41) Por isso "a sua alma não foi tentada pelas honras que lhe ofereceram, nem o seu pé se moveu para procurar a glória; nem a tiara e o anel o atraíam mais do que o ancinho e a enxada".(42) E, sujeitando-se a tantas e tão grandes canseiras pela glória de Deus e proveito do nome cristão, professava-se "servo inútil dos servos de Deus"(43), "desprezível inseto" (44) , "árvore estéril"(45), "pecador, cinza...".(46)Alimentava essa humildade cristã e as outras virtudes com a assídua contemplação das coisas celestes, com ardentes orações dirigidas a Deus, com as quais atraia a graça sobrenatural sobre si e sobre os seus empreendimentos e obras.

Seu amor a Jesus

 De modo muito especial amava tão ardentemente Jesus Cristo, divino Redentor, que sob sua moção e impulso escrevia belas e elevadas páginas, que ainda hoje causam a admiração de todos e fomentam a piedade do leitor. "O que é que enriquece a alma que medita... dá força às virtudes, faz prosperar os bons e honestos costumes, suscita puros afetos? É árido todo o alimento da alma, se não tiver esse azeite; e insípido, se não for temperado com este sal. Se escreves alguma coisa, não pinto gosto se não leio Jesus. Se discutes e falas, não me agrada, se não ouço Jesus. Jesus é mel na boca, doce melodia no ouvido, alegria no coração. Mas é também medicina. Há no meio de vós alguém triste? Jesus desça ao coração e depois suba aos lábios; e eis que à luz desse nome desaparecem todas as nuvens, volta a serenidade. Cometeu alguém um pecado? Corre desesperado ao laço da morte? Mas se invocar esse nome de vida, não há de sentir imediatamente o respiro vital?... A quem é que, agitado e hesitante nos perigos, a invocação desse nome de força não restituiu imediatamente a confiança e repeliu o medo?... Nada melhor refreia o ímpeto da ira, reprime o tumor da soberba e cura a ferida da inveja...".

O louvor da Mãe de Deus

A esse ardente amor por Jesus Cristo unia-se uma devoção terna e suave à sua excelsa Mãe, que amava e venerava com filial ternura. Tinha tanta confiança no seu poderoso patrocínio, que não receou escrever: "Deus quis que nada recebêssemos que não passe pelas mãos de Maria".(48) E de novo: "Tal é a vontade daquele, que quis que nós tudo tivéssemos por meio de Maria".(49)

E agora apraz-nos, veneráveis irmãos, propor à meditação de todos aquela página, que, sobre os louvores à virgem Mãe de Deus, é talvez a mais bela, a mais ardente, a mais apta a excitar em nós o amor para com ela e a mais útil para fomentar a piedade e para imitar os seus exemplos de virtude: "...Chama-se estrela do mar, e o nome é bem apropriado à Virgem Mãe. Ela na verdade é comparada muito justamente a uma estrela; porque assim como a estrela emite os seus raios, sem se corromper, assim também a Virgem dá à luz o seu Filho sem lesar a sua integridade. Os raios não diminuem a claridade à estrela, nem o Filho à Virgem a sua integridade. Ela é, portanto, aquela nobre estrela que nasceu de Jacó, cujos raios iluminam todo o universo, cujo esplendor brilha no céu e penetra no inferno... É ela, digo, a estrela preclara e exímia, erguida necessariamente sobre este grande e largo mar, que ilumina com os seus méritos e ilustra com seus exemplos. Oh! tu, quem quer que sejas, que te vês mais flutuar à mercê das ondas neste mundo em tempestade do que andar sobre a terra; não tires os olhos do fulgor dessa estrela, se não queres ser submergido pelas tempestades. Se se levantarem os ventos das tentações, se topares nos escolhos das tribulações, olha para a estrela, invoca Maria. Se fores arremessado pelas ondas da soberba, da ambição, da murmuração e da inveja: olha para a estrela, invoca Maria. Se a ira, a avareza ou as atrações da carne sacudirem a barquinha da alma: olha para Maria. Se, perturbado pela enormidade do pecado, cheio de confusão pela fealdade da consciência, cheio de medo pelo horror do juízo, começares a ser devorado pelos abismos da tristeza e do desespero: pensa em Maria. Nos perigos, nas aflições, nas incertezas, pensa em Maria, invoca Maria. Que ela não se afaste da tua boca nem do teu coração; e para obter o auxílio da sua oração, nunca deixes o exemplo da sua vida. Se a segues, não te podes perder; se a invocas, não podes desesperar; se pensas nela, não te podes enganar. Se ela te ampara, não cais; se te protege, não tens que temer; se te guia, não te cansas; se te é propícia, chegas ao fim...".(50)

CONCLUSÃO

Julgamos, pois, que não podíamos terminar melhor esta carta encíclica do que convidando-vos a todos, com as palavras do doutor melífluo, a aumentar cada dia mais a devoção para com a santa Mãe de Deus, e imitar com o maior empenho suas excelsas virtudes, cada qual segundo as peculiares condições da sua vida. Se no século XII graves perigos ameaçavam a Igreja e a humanidade, não menos graves, sem dúvida, ameaçam a nossa época. A fé católica, que dá aos homens o supremo conforto, não raramente afrouxou nos espíritos, mas até em alguns países é áspera e publicamente combatida. E quando a religião cristã é desprezada ou combatida, vê-se infelizmente que a moralidade individual e pública se desvia do reto caminho, e até às vezes, através dos meandros do erro, cai miseramente nos vícios.

À caridade, que é vínculo da perfeição, da concórdia e da paz, substituem-se os ódios, as inimizades e as discórdias.

. Há inquietação, angústia e trepidação no espírito humano; teme-se que, se a luz do Evangelho for pouco a pouco diminuindo e afrouxando em muitos, ou - pior ainda-for rejeitada completamente, desmoronem os próprios alicerces da civilização e da vida doméstica; e dessa forma venham tempos ainda piores e mais infelizes.

Assim como o doutor de Claraval pediu o auxílio da santíssima Virgem e o alcançou para a sua época turbulenta, assim também nós todos, com a mesma constante piedade e oração, devemos alcançar da nossa Mãe divina que para estes graves males, que já avançam ou se temem, impetre de Deus os remédios oportunos; e conceda, com o auxílio divino, benigna e poderosa, que uma sincera, sólida e frutuosa paz brilhe finalmente para a Igreja, para os povos, para as nações.
Sejam esses os abundantes e salutares frutos, que, sob a proteção de s. Bernardo, tragam as celebrações centenárias da sua pia morte; que todos se unam conosco nestas preces e súplicas, e, observando e meditando os exemplos do doutor melífluo, envidem todos os esforços para seguir com boa vontade e zelo as suas pegadas.

34. Desses salutares frutos seja propiciadora a bênção apostólica que a vós, veneráveis irmãos, aos rebanhos que vos foram confiados, e especialmente àqueles que abraçaram a ordem de s. Bernardo, de todo o coração concedemos.

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 24 de maio, festa do Pentecostes, de 1953, XV ano do nosso pontificado.

PIO PP. XII

Fonte: http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html


As satisfações Criadas.

Adaptação do livro A Vida Interior - de François Sales Pollien


 Primeira parte: A Vida que herdamos

 Segunda parte: A finalidade da criação

 Terceira parte: O ordenamento de minhas relações divinas 

Quarta parte: A anterioridade de Deus

Quinta parte:  A superioridade de Deus.

Sexta parte: O uso das Criaturas.

Variedade dos prazeres criados:

" Fica entendido: As criaturas são apenas o canal e não a fonte da felicidade que experimento em meu crescimento para Deus. Deus é a fonte, o único princípio da minha felicidade.

Mas as criaturas são ainda portadoras de um outro tipo de satisfações: as satisfações criadas.Elas contém, semeadas para mim pelas mãos do seu Autor, uma variedade infinita de prazeres.: prazeres materiais da vista, do ouvido, do olfato, do paladar e do tato, belezas da natureza e das artes, encantos da música, perfume das flores, sabores dos alimentos, etc. Prazeres morais da família, da amizade, da literatura e da ciência, da descoberta e da contemplação da verdade, prazeres sobrenaturais da oração, das práticas religiosas e dos toques divinos da graça.

Quantos prazeres! E como são variados e extensos!

Que representam eles para Deus que os fez, e qual é a sua função?

A - A gota de óleo: 

As criaturas são instrumentos de Deus para nós, Ele destinou a nosso uso. Minha faculdades  se desgastam rapidamente e se fatigam, e por isso necessitam da gota de óleo que suaviza, da gota de água que refresca, da lima que aguça. Elas precisam de ânimo e vigor, de entusismo e de força, de destreza e alegria.

Necessitam, pois, segundo extensão e as exigências de seus deveres, dessa alegria do Senhor que é a sua força. (Ne 8,10). Quando as engrenagens da alma estão lubrificadas e engraxadas, os lábios cantam com alegria e facilidade os louvores de Deus. (Sl 62,6). Eis portanto o papel desse óleo de alegria, colocado por Deus nas criaturas, a serviço das almas que querem amar a justiça e odiar a iniquidade (Sl 44,8).

B - Antes e depois do pecado:

No plano divino inicial, todas as criaturas eram instrumentos, nenhuma era obstáculo; e cada uma trazia consigo sua gota de óleo, isto é, sua alegria, que tornava mais fácil o seu uso em função de Deus. Infelizmente, porém, o pecado transtornou essa ordem perfeita; encontramos obstáculos a cada passo e dores a cada momento.

Deus não havia feito nem os obstáculos, nem as dores; elas são consequências do pecado. Ao restaurar a ordem degradada Jesus Cristo não suprimiu os obstáculos, nem as dores, mas deu a ambos uma utilidade, que estudaremos mais adiante.

Apesar do pecado, ainda restam múltiplos prazeres, que não deixam faltar totalmente o óleo da alegria às minhas faculdades. Em toda parte onde há deveres a cumprir, encontro também instrumentos suficientes, com frequência portadores da doçura que facilita seu uso - Assim, por que existe o prazer da família? - Para facilitar aos pais e aos filhos o grande dever da educação. - Por que o prazer da amizade?  - Para impulsionar para o bem as almas unidas por seus laços - Por que o prazer dos alimentos: - Para me ajudar a responder ao dever fundamental da conservação corporal. - Por que o prazer da oração, dos sacramentos e dos favores espirituais?- Para favorecer o grande e sagrado dever das relações divinas.

O prazer sempre responde a um dever, para facilitar o  seu cumprimento e será tanto mais intenso, quanto mais importante for o dever.

C - Prazer unicamente instrumental:

Esse prazer é, pois, verdadeiramente uma satisfação, já que responde a uma necessidade.  das minhas faculdades e satisfaz essa necessidade. Mas é uma satisfação apenas instrumental, da qual devo me servir e não uma satisfação final, na qual eu possa descansar. É um meio e não um fim.

Quando digo que sou feito para a felicidade e que a felicidade é o fim secundário da minha existência, não me refiro, de forma alguma, a esse prazer que me vem das criaturas. Nestas não há para mim, nenhum vestígio de finalidade; minha finalidade e felicidade estão em Deus e as criaturas contém unicamente meios.

Quando alguém se engana a respeito do prazer criado e vive para desfruta-lo, isso transforma terrivelmente o plano divino. Tal transtorno infelizmente é muito frequente! É sobre este ponto que me engano, cada vez que saio da ordem. - ou seja, é uma desordem.

O prazer é bom, certamente, quando eu uso de forma ordenada. Quando dele abuso, torna-se o pior de forma ordenada. Quando dele abuso, torna-se o pior dos males e a fonte de minhas aberrações. Feliz o homem que dele se serve! Oxalá eu aprenda a nunca perverter o pensamento de Deus. Se o prazer não é mau em si, o seu abuso pode terna-lo mau.

Todo prazer que serve para facilitar o cumprimento do dever é sadio, fortifica e eleva. Quando contraria o dever torna-se pernicioso, deletério, aviltante. No primeiro caso alimenta as virtudes, no segundo, produz monstros. Cabe a mim decidir como utiliza-los, mas é preciso que seja sempre com moderação, uma vez que, depois do pecado original, as satisfações mais legítimas - e sobretudo as dos sentidos - tornaram-se um perigo.

Não somente elas correm o risco de assumir o primeiro plano na intenção, como também é difícil, para quem enelas toma gosto, desejar apenas as que são legítimas; quem se deixa escorregar pelo declive de sua natureza decaída, logo buscará também as demais.

Para manter o controle sobre nossas inclinações, é preciso dirigi-las com rédeas curtas.  Dai vem a necessidade de mortificação, para levar um vida verdadeiramente cristã e essa necessidade será ainda maior na medida que buscamos a santidade e esforçar-nos para amar a Deus de todo coração, despojando-nos de qualquer apego às satisfações criadas.

Depois veremos:  O ordenamento de minhas relações com as criaturas.

Estudo sobre Mortificação AQUI



segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Lembranças de Minha Vida


Por Bento XVI

Primeira parte: Aqui

Segunda parte: Aqui

( Casa onde nasceu Bento XVI)

"Não se comungava tão frequentemente como hoje, mas havia datas marcadas para que todos recebessem os sacramentos, e a isso dificilmente alguém se subtraía; quem não pudesse mostrar sua ficha de confissão pascal era considerado um paria.

Quando hoje se diz que tudo isso era muito formal e superficial, reconheço de bom grado que, sem dúvida, não poucas pessoas agiam mais por coação social do que por convicção interna. Todavia, não deixava de ter valor que na Páscoa também os fazendeiros, que a bem dizer eram grandes proprietários, tivessem que se ajoelhar no confessionário e acusar-se como pecadores, exatamente como seus empregados e empregadas, que naquele tempo ainda eram numerosos. Esse momento de auto humilhação, em que todas as distinções de classe caíam, certamente não era totalmente sem efeito.

O ano litúrgico imprimia seu ritmo ao tempo, e desde criança, aliás especialmente como criança, senti isso com muita gratidão e alegria. No Advento, as missas em honra dos anjos eram celebradas muito festivamente, de manhã cedinho, em uma igreja escura, iluminada apenas por velas. A alegre expectativa do Natal dava àqueles dias escuros um caráter todo especial. Todos os anos nosso presépio ganhava mais algumas figuras, e era sempre uma alegria especial buscar no mato, com nosso pai, o musgo, o zimbro e os galhos de pinheiro.

Nas quintas-feiras da Quaresma realizavam-se as comemorações do Monte das Oliveiras; sua seriedade e confiante esperança sempre me penetravam profundamente na alma. Especialmente impressionante era, depois, na noite do Sábado Santo, a celebração da ressurreição.

Durante toda a Semana Santa, cortinas pretas cobriam as janelas da igreja, deixando todo aquele espaço, também durante o dia, em uma misteriosa penumbra. Quando o vigário cantava as palavras: “Cristo ressuscitou”, as cortinas de repente eram recolhidas e uma luz radiante fluía pelo espaço. Era a mais impressionante representação da ressurreição do Senhor de que posso me lembrar.

O movimento litúrgico, que naquele tempo chegou a seu auge, não deixou de atingir também nossa aldeia. O pároco começou a organizar missas comunitárias para a meninada da escola; os textos da missa eram lidos do “Schott”, e todos juntos rezavam as respostas.

O que era o “Schott”?

No fim do século XIX, Anselm Schott, um beneditino de Beuron, tinha traduzido o missal para o alemão. Havia edições com o texto apenas em alemão; outras em que somente alguns trechos estavam impressos em latim e em alemão; e outras que traziam todo o texto em latim, com a tradução alemã ao lado.  Um vigário progressista deu o “Schott” de presente a meus pais no dia de seu casamento, em 1920; assim, esse livro de orações esteve presente em nossa família desde o começo.

Nossos pais ajudaram-nos desde cedo a nos familiarizar com a liturgia: havia um livro de orações para crianças que se apoiava no missal, e no qual os momentos sucessivos do ato sagrado eram representados por imagens, de sorte que era fácil acompanhar o que estava acontecendo.

Ao lado havia sempre uma oração em que o essencial das diversas fases da liturgia estava resumido e acessível para a oração de uma criança.  Algum tempo depois, ganhei um “Schott” para crianças, no qual os textos essenciais da liturgia já estavam impressos; em seguida, o “Schott” dominical, em que a liturgia dos domingos e dias de festa já estava completamente reproduzida; finalmente, o missal completo para todos os dias.

Cada novo degrau no acesso à liturgia era, para mim, um grande acontecimento.  Cada livro novo me era uma preciosidade, e eu não podia sonhar com nada mais lindo.   Foi para mim uma aventura cativante esse lento acesso ao misterioso mundo da liturgia, que lá no altar, diante de nós, se realizava.

Tornou-se cada vez mais claro para mim que eu me encontrava aí diante de uma realidade que não foi inventada por uma pessoa qualquer, e não havia sido criada por uma autoridade ou grande personagem. Essa misteriosa fusão de textos e ações tinha nascido da fé da Igreja, através dos séculos.

. Carregava dentro de si o peso de toda a história, mas era, ao mesmo tempo, muito mais do que um produto da história humana.  Cada século tinha contribuído com seus vestígios. As introduções nos ensinavam o que tinha vindo da Igreja primitiva, da Idade Média, dos tempos modernos.

Nem tudo era lógico.Tudo era bastante complicado; nem sempre era fácil a gente se orientar. Mas exatamente por isso aquela estrutura era maravilhosa, e nos sentíamos em casa.

Como criança, eu naturalmente não percebi tudo isso em detalhe, mas meu caminho com a liturgia foi um processo contínuo de crescimento, penetrando numa grandiosa realidade, que supera todas as individualidades e gerações, o que me levava a sempre renovadas surpresas e descobertas.

A inesgotável realidade da liturgia católica acompanhou-me em todas as fases de minha vida; por isso, não posso deixar de voltar continuamente a esse assunto.



Papa Bento XVI A legalização do aborto é uma traição a democracia

O Comunismo e a destruição da Família

Por Orlando Figes



Livro: Sussurros

Resumo de uma parte do Capítulo: Crianças de 1917.

"Declarou Stalin em 1926: 'As atitudes e os hábitos que herdamos da antiga sociedade são os inimigos mais perigosos do socialismo'.  Anatoly  Lunacharsky escreveu em 1927: ' A dita esfera da vida privada não pode nos escapar, porque é precisamente nela que o objetivo final da revolução deve ser alcançado'.

A família foi a primeira arena na qual os bolcheviques começaram a luta. Na década de 1920, eles  consideravam a nocividade  social da 'família burguesa'  uma verdade inquestionável: ela olhava para dentro de si própria e era conservadora, uma fortaleza da religião, da superstição, da ignorância e do preconceito; ela fomentava o egotismo e as aquisições materiais, além de oprimir mulheres e crianças.

Os bolcheviques esperavam que a família desaparecesse conforme a Rússia se desenvolvesse até se transformar em um sistema totalmente socialista, no qual o Estado assumiria a responsabilidade por todas as funções básicas do lar, oferecendo creches, lavanderias e refeitórios em centros públicos e em prédios residenciais. Liberadas do trabalho em casa, as mulheres ficariam livres para ingressar na força de trabalho em um nível igual ao dos homens. O casamento patriarcal, com suas correspondentes  morais sexuais, morreria - para ser substituído, acreditavam os radicais, por 'uniões livres de amor'.

Para os bolcheviques as famílias eram  o maior obstáculo à socialização das crianças. 'Por amar a criança, a família a torna um ser egotista, encorajando-a a ver-se como o centro do universo', escreveu a pensadora educacional soviética. Teóricos bolcheviques concordavam com a necessidade esse amor egotista pelo amor racional de uma 'família social'mais ampla.  O ABC do comunismo (1919) vislumbrava uma sociedade futura na qual os pais deixariam de utilizar a palavra 'eu'em referência a um filho, pois se importariam com todas as crianças na comunidade.

Para acelerar a desintegração da família várias estratégias foram tomadas, como forçar as famílias ricas a dividirem seus apartamentos com os pobres urbanos. Os proprietários ocupavam os cômodos principais, enquanto os quartos dos fundos eram ocupados por outras famílias.  A política tinha um apelo ideológico forte não somente como uma guerra contra o privilégio, como foi apresentada na propaganda do novo regime: 'Guerra contra os palácios!, mas também como parte da cruzada para projetar um modo de vida mais coletivo.

Para eles, desaparecendo o espaço e a propriedade privada,  a família individual burguesa, seria substituída pela fraternidade e por oraganizações comunistas e a vida do indivíduo passaria a ser imersa na comundade.

A partir da metade da decada de 1920 os arquitetos construtivistas propuseram a obliteração completa da esfera privada construindo 'casas comunais', nas quais toda a propriedade, incluindo roupas e roupas intimas seriam compartilhadas, onde tarefas domésticas seriam designadas rotativamente a grupos e onde todos dormiriam em um grande dormitório, dividido por gênero, com quartos particulares para práticas sexuais.

O Novo Código da Casamento e da Família (1918) estabeleceu uma estrutura legislativa que visava claramente facilitar a ruptura da família tradicional, removendo a influência da Igreja sobre o casamento e o divórcio, tornando-os simples processos de registro com o Estado, e assegurando direitos legais iguais aos casamentos de facto (casais vivendo juntos) e aos casamentos legais.  O Código tornou o divórcio acessível para todos. Resultado: maior indice de divorcios do mundo - à medida que o colapso da ordem cristã - patriarcal e o caos dos anos revolucionarios afrouxaram a moral  sexual  e os laços familiares e comunais.

Nos primeiros anos do poder soviético, a ruptura familiar era tão comum entre os ativistas revolucionários que quase constituía um risco do trabalho. Relações casuais eram praticamente a norma nos círculos bolcheviques, quando qualer camarada podia ser enviado de uma hora para outra para algum setor diante do front.

 Os ativistas do partido e os jovens participantes da Liga Jovem Comunista eram ensinados a colocar o  o compromentimento com o proletariado acima do amor romântico ou da família. A promiscuidade sexual era mais acentuada nos escalões jovens do que entre a juventude soviética de modo geral.  Muitos viam a licença sexual como uma forma de libertação de convenções morais burguesas e um sinal da " modernidade soviética". Alguns até defendiam a promiscuidade como um modo de reagir à formação de relações burguesas bígamas que separavam os amantes do coletivo e os afastavam da lealdade do Partido.

Era comum que os bolcheviques fossem maus pais e maridos porque a exigências do patido os afastavam de casa. " Nós comunistas, não conhecemos nossas próprias famílias", observou um bolchevique de Moscou." Você sai cedo e chega tarde em casa. Você vê a esposa raramente e quase nunca vê os filhos"

Depois continuamos.

Na foto abaixo vemos crianças que sofreram os horrores do comunismo, com sua fome e suas desgraças. No comunismo todo mundo é igual, na miséria e na fome. Que Deus tenha misericórdia de nós e do mundo inteiro.