Por venerável Fulton Sheen
" A liberdade está plantada no espírito. Só as criaturas espirituais e racionais são livres. Só o homem tem determinação própria. Porque, dotado de razão, pode assentar os seus próprios projetos e propósitos e escolher os meios de usa-los. Sua suprema liberdade é obtida quando age dentro da lei de seu ser e escolhe dentre as boas coisas com o fim de alcançar o mais completo enriquecimento e a plenitude de sua personalidade em Deus.
A base de nossa liberdade, bem sabemos -, é nossa alma racional. Mas existe uma garantia externa de nossa liberdade, já que não somos puramente espirituais, mas porque somos compostos de corpo e alma, matéria e espírito, necessitamos de algum sinal visível e externo de nossa invisível liberdade espiritual. Ou, se o homem é livre porque tem uma alma espiritual, não deverá haver um sinal externo para essa liberdade interna, algo que possa chamar de seu no mundo exterior, assim como chama a sua alma propriedade dentro de si?
Liberdade significa responsabilidade ou domínio de seus atos.. Como pode, porém, esta responsabilidade interna melhor revelar-se externamente do que por meio da posse de alguma coisa material sobre a qual se possa exercer controle? O homem é mais livre em seu íntimo, quando possui alguma coisa no mundo exterior que possa chamar de seu , que possa dar cunho a sua personalidade.
Se o homem não possuísse nenhuma coisa que se pudesse tornar responsável, não seria livre nem dentro, nem fora de si. Dêem-lhe, porém, alguma coisa que possa afeiçoar à sua própria imagem e semlhança, assim como Deus o fez à sua imagem e semelhança e o homem será economicamente livre. Tal coisa é a propriedade privada.
A propriedade privada, então, é a garantia econômica da liberdade, tal como a alma é sua garantia espiritual - a prova de que é tao livre em seus atos externos quanto em seu fôro íntimo; a garantia de que é a fonte da responsabilidade não somente no que se refere ao que ele é, mas também ao que possui.
O direito à propriedade privada baseia-se na dignidade da pessoa humana e não num privilégio do Estado. O Estado pode confirmar o direito natural, mas em nenhum sentido o cria. O direito á propriedade está, portanto, fundado na natureza humana. Não é o Estado que nos dá este direito. O homem tem esse direito antes do Estado e o Estado não pode destruí-lo sem destruir a natureza do homem.
Pelo fato de a propriedade em suas relações externas ser o sinal da liberdade, é que a Igreja tem feito da larga distribuição da propriedade privada a pedra angular de seu programa social. " A riqueza, constantemente aumentada pelo progresso econcômico e social, deve ser distrubuída por entre os vários indivíduos e classes de modo tal que seja alcançado o bem comum de todos" ( Quadragesimo Anno)
A Igreja por saber que a propriedade privada é a garantia econômica de uma pessoa ou família, luta por ela. Porque renunciar à propriedade é ficar alguém sujeito a outrem. Se renunciar ao meu direito è propriedade, ficarei sujeito, quer:
1 - Ao Estado ou coletividade, como no comunismo,
2 - Ao próximo, como o capitalismo selvagem o quer
3 - A Deus, como no voto de pobreza.( neste caso, ele tudo possui, mas a tudo renuncia, pois nada tem a desejar)
Porque a abolição da propriedade é o começo da escravidão, opõe-se a Igreja ao capitalismo selvagem que encerra a propriedade nas mãos de poucos e ao comunismo, que confisca inteiramente em nome da coletividade.
Profundamente interessada na liberdade do homem, recorre a Igreja a um meio eficaz: sugere-lhe aquilo que o fará livre, isto é, dá-lhe alguma coisa que ele possa chamar de seu.
***
Depois veremos: Restaurar a propriedade ou destruir a liberdade?
Fonte: O problema da Liberdade
A Doutrina Católica, a vida dos Santos, o Itinerário Espiritual do Cristão, me fascinam. Leio tudo incansavelmente e trago para o Blog. Que ele sirva de formação para perseverarmos na verdade da fé, defendendo-nos contra as astúcias do inimigo, para a Glória de Nosso Senhor.
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
terça-feira, 19 de agosto de 2014
Os Anos de Ginásio em Traunstein
Por Bento XVI
Primeira Parte AQUI
Segunda Parte AQUI
Terceira Parte AQUI
"Os policiais daquele tempo aposentavam-se ao completar 60 anos de idade, por causa dos consideráveis esforços físicos que a profissão exigia. Meu pai esperou ansiosamente por esse dia. Os freqüentes serviços noturnos que faziam parte de suas tarefas o incomodavam.
Mais pesada ainda lhe era a situação política em que tinha que cumprir seu serviço. Ele conseguiu uma licença médica mais demorada, durante a qual, muitas vezes, foi caminhar comigo, contando-me coisas de sua vida. Finalmente, no dia 6 de março de 1937, ele completou seus 60 anos.
Em 1933 meus pais tinham conseguido comprar, por baixo preço, uma velha casa de fazenda, do ano de 1726 (assim estava escrito, se me recordo bem, numa viga do telhado), na periferia de Traunstein. Os proprietários de outrora tinham dissipado as terras; à casa pertencia ainda um gramado grande, no qual se erguiam duas imponentes cerejeiras, além de uns pés de maçã, pêra e ameixa. Esse terreno estava delimitado por um bosque de carvalhos, a uma distância de poucos passos da casa, além do qual se estendia uma floresta de pinheiros, até uma distância de muitas horas.
A casa tinha sido construída no estilo alpino da região de Salzburgo: celeiros e estábulos debaixo de um só teto com a moradia. O teto dos estábulos e celeiros ainda era coberto de telhas de madeira, que o peso de pedras protegia contra o vento.
Não havia água corrente; em compensação, um poço na frente da casa tinha uma água deliciosa, fresquinha. Mais tarde, porém, quando surgiram outras casas com poços na vizinhança,o nosso, em épocas sem chuva, acabava secando. As janelas do quarto de dormir, onde nós, meninos, estávamos alojados, abriam-se para o sul. Quando, de manhã cedo, abríamos as cortinas, estavam lá, quase ao nosso alcance, o Hochfellen e o Hochgern, as duas montanhas “caseiras” de Traunstein.
No descurso dos anos, nossa mãe transformou em um lar maravilhoso aquela casa, inicialmente meio estragada, que nosso pai mandara reformar. Nas janelas havia jardineiras com flores, e mamãe plantou dois canteiros nos quais crescia tudo o que era útil, os quais, por sua vez, estavam também cercados por uma abundância de flores.
A meu pai, o estado desta nossa casa, desta nossa nova morada, causou muita preocupação, mas para nós foi um paraíso, como não poderíamos ter sonhado mais belo.
Havia lá alpendres espaçosos cheios de mistérios, além de uma oficina de tecelagem, em que os proprietários anteriores, sem dúvida, haviam trabalhado, e depois: o gramado, o poço, as árvores e a floresta... Foi aí que, depois de muitas mudanças, encontramos finalmente o nosso lar, para onde sempre voltam as minhas gratas lembranças.
Nunca vou me esquecer da primeira impressão: o caminhão da mudança já tinha ido mais cedo; nós chegamos ao carro da dona da casa em Aschau, e a primeira coisa que vimos foi o gramado, salpicado de prímulas. Era o início de abril.
Com a mudança para Traunstein, porém, começou também para mim uma vida mais séria. Poucos dias depois de nossa chegada, a escola abriu suas portas; entrei para o primeiro ano no “ginásio humanístico”, que hoje seria chamado “ginásio para línguas antigas”.
Tinha que andar meia hora até a escola, tempo suficiente para observar e pensar, mas também para repetir o que tinha aprendido na escola. A escola primária de Aschau, a bem dizer, não dera muito resultado. Agora, encontrava-me diante de uma nova matéria e uma nova exigência, ainda mais porque eu era o mais novo e um dos mais baixinhos de toda a turma.
Ainda se ensinava o latim, com aquele vigor e solidez de antigamente, como base de todo o ensino, o que me deixou grato pelo restante da vida; como teólogo não tive dificuldade para ler as fontes em latim e grego; e em Roma, durante o Concílio, pude me adaptar rapidamente ao latim dos teólogos que lá se falava, embora nunca tivesse ouvido palestras nessa língua.
Também no ginásio de Traunstein o nazismo ainda não tinha conseguido mudar muita coisa. Da velha guarda dos filósofos das línguas antigas, ninguém tinha aderido ao partido, apesar da considerável pressão exercida sobre os funcionários. Pouco depois de minha entrada no ginásio, o vice-reitor foi demitido porque não agradou aos novos senhores.
Uma retrospectiva me faz pensar que a formação pela antiguidade greco-latina criava uma atitude espiritual que se opunha às seduções da ideologia totalitária.
Folheando nosso livro de cânticos daquela época, que, além das valiosas músicas antigas, continha também uma série de cantos nazistas, vi que nosso professor de música, um católico sincero, havia mandado riscar, com muita tinta, as palavras“Judá den Tod” [a Judá a morte] e escrever no seu lugar: “Wend die Not” [acaba com a miséria].
Mas um ano depois de minha entrada no ginásio, houve uma reforma radical. Até aquela época o ginásio e a escola profissionalizante tinham existido separadamente, como duas instituições distintas.
Fundiram-se, então, em um novo tipo de escola, a chamada OBERSCHULE (escola secundária), da qual o ensino do grego desapareceu totalmente e o latim foi consideravelmente reduzido, começando apenas no terceiro ano, ao passo que as línguas modernas, especialmente o inglês, e as ciências naturais ganharam mais peso.
Com o novo tipo de escola chegou também uma outra geração, mais nova, de professores, alguns excelentes, sem dúvida, mas entre eles também havia, naturalmente, propagadores entusiastas do novo regime. Daí a mais três anos o ensino religioso foi excluído da escola, enquanto a prática dos esportes aumentou proporcionalmente.
Ao ginásio, condenados a acabar, eles preservaram amplamente sua forma antiga, graças a Deus. Enquanto isso, os trovões da história mundial também já ressoavam mais alto.
No início de 1938 houve inúmeros movimentos de tropas; falava-se de uma guerra contra a Áustria, até que um dia chegou a notícia de uma invasão do exército alemão a esse país e de sua anexação ao Reich alemão, que daí para frente seria chamado “Groszdeutschland” [Grande Alemanha].
Para nós, a tomada do poder na Áustria pelos potentados marrons teve também um lado positivo: Hitler tinha fechado as fronteiras para o país vizinho. Ainda me lembro de que um dia fizemos uma excursão de Aschau para a amada Tittmoning, mas a ponte sobre o Salzach, que tantas vezes tínhamos atravessado, estava fechada; já não era ponte, mas fronteira.
Agora a Áustria estava novamente aberta, infelizmente a um preço alto demais. Daí em diante fomos muitas vezes, com nossos pais, para a vizinha Salzburgo; disso sempre fazia parte uma romaria para Maria Plain e uma visita às magníficas igrejas, sentindo a influência do ambiente daquela excepcional cidade.
Dentro em pouco, meu irmão tomou a iniciativa de conhecer ainda uma outra dimensão de Salzburgo: por causa da guerra, o festival tinha perdido seu público internacional. Podíamos conseguir ingressos realmente bons por preços muito baixos.
Assim, assistimos à Nona Sinfonia de Beethoven, dirigida por Knappertsbusch, à Missa em Dó Menor de Mozart, a um concerto do coral da catedral de Ratisbona e a muitos outros concertos inesquecíveis.
Neste meio- tempo, vivi uma mudança bem decisiva em minha vida.
Durante dois anos tinha ido diretamente, com muito prazer, de nossa casa para a escola, mas agora o pároco insistia para que eu entrasse para o seminário, a fim de ser introduzido, sistematicamente, na vida espiritual. Para meu pai, cuja aposentadoria era bem parca, isso foi um grande sacrifício.
De outro lado, minha irmã, depois de terminar o ensino médio e o ano de estudo de agronomia, obrigatório para as meninas, conseguira um emprego no escritório de uma grande empresa em Traunstein, aliviando, com isso, o orçamento familiar.
Assim, a decisão foi tomada, e eu entrei para o seminário na Páscoa de 1939, alegre e com grande expectativa, porque meu irmão me tinha contado muitas coisas bonitas a esse respeito, e eu vivia em boa amizade com os seminaristas da minha classe.
Mas sou um daqueles seres humanos que não foram criados para viver em internato. Em casa eu tinha vivido com muita liberdade, tinha estudado como queria, tinha construído meu próprio mundo infantil.
Ser colocado agora em uma sala de estudo com mais uns sessenta meninos era, para mim, uma tortura, e aprender, coisa que tinha sido tão fácil, agora me parecia quase impossível.
Porém, o mais difícil para mim era que todos os dias, de acordo com as idéias progressistas de educação, estavam prescritas duas horas de esporte na grande quadra ao lado da casa; e, além disso, os meus colegas eram todos mais velhos do que eu, alguns até três anos, e em força física eu era muito inferior a quase todos.
Assim, aquilo se tornou um verdadeiro tormento.
É preciso dizer, no entanto, que meus colegas eram na verdade muito tolerantes, mas com o tempo torna-se desagradável depender da tolerância dos outros e saber que só atrapalhamos o time em que somos colocados.
Enquanto isso, agrava-se o drama da história, em conseqüência dos atos do Terceiro Reich.
Surgiu a crise dos sudetos, sendo depois esquentada com uma maquinaria de mentiras, transparente até para os ingênuos. Era evidente que o acordo de Munique, que havia sancionado a anexação da região dos Sudetos, era um adiamento, não uma solução do problema.
Meu pai não conseguia entender que os franceses, que ele tanto estimava, parecessem aceitar quase como algo normal uma série de atos ilegais de Hitler. Na primavera de 1939, seguiu a ocupação da Tchecoslováquia, e no dia 1º. De setembro do mesmo ano, depois de uma nova campanha no mesmo estilo, agora contra a Polônia, a guerra eclodiu.
A guerra ainda estava longe de nós, mas o futuro nos parecia inquietante, ameaçador e imprevisível.
Uma conseqüência imediata da eclosão da guerra foi que o seminário foi declarado hospital militar, e eu, então com meu irmão, podia novamente ir à pé de nossa casa para a escola.
Mas o diretor conseguiu um outro alojamento, primeiro no sanatório da cidade (que o vigário Kneipp teria gostado de transformar em uma grande cidade, a ser chamada de “Kneipp”), depois no instituto para meninas, das Damas Inglesas, em Sparz, na parte alta da cidade.
Como os nazistas tinham fechado as escolas conventuais, a casa estava vazia, e a comunidade do seminário podia agora encontrar lá seu alojamento. Mas não havia área de esportes.
Em vez disso, caminhávamos na parte da tarde, juntos, pelos bosques da redondeza, e brincávamos à beira do córrego que descia da montanha. Construíamos barragens, pescávamos etc.
Era uma vida alegre, de meninos mesmo. Então reconciliei-me com o seminário e vivi um período maravilhoso. Tive que aprender a me adaptar ao grupo e a sair de minha excentricidade, construindo, no dar e receber, uma comunidade com os demais. Sou grato por essa experiência; ela foi importante para a minha vida.
Inicialmente, a guerra parecia quase irreal. Depois que Hitler, com a União Soviética, derrubou a Polônia, estabeleceu-se um silêncio. As potências ocidentais pareciam indecisas, e na fronteira com a França não acontecia praticamente nada.
O ano de 1940 foi marcado, então, pelos grandes triunfos de Hitler: a Dinamarca e a Noruega foram ocupadas; Holanda, Bélgica, Luxemburgo e França foram derrotados em pouco tempo.
Até as pessoas que eram adversárias do nazismo sentiam uma espécie de satisfação patriótica.
O grande historiador do Concílio, Hubert Jedin, mais tarde meu colega em Bonn, foi obrigado, sendo meio judeu, a fugir da Alemanha; passou os anos de Hitler no Estado do Vaticano, em exílio involuntário; mas em suas memórias ele descreveu profundamente o curioso dilema de sentimentos que lhe provocaram os acontecimentos daqueles dias.
Meu pai enxergava muito precisamente, com incorruptível clarividência, que a vitória de Hitler não seria uma vitória da Alemanha, mas uma vitória do anticristo, que introduziria tempos apocalípticos para todos os crentes, e não apenas para eles.
A guerra continuou seu implacável caminho. Os Bálcãs foram a próxima região a ser submetida ao domínio de Hitler. Mas o fato de a invasão da Inglaterra, grandiosamente anunciada, ser sempre adiada, suscitou dúvidas e inquietação.
Continua inesquecível, para mim, aquele domingo ensolarado do ano de 1941, em que nos surpreendeu a notícia de que a Alemanha, com seus aliados, em uma frente que ia do Pólo Norte até o Mar Negro, tinha iniciado um ataque contra a União Soviética.
Minha turma tinha combinado para esse dia um pequeno passeio de barco em uma lagoa vizinha.
O passeio foi lindo, mas a notícia da nova extensão da guerra nos abatia, como um pesadelo, e paralisava a alegria. Aquilo não podia dar certo.
Pensávamos em Napoleão; pensávamos nas vastíssimas dimensões da Rússia, nas quais a invasão alemã devia, em algum ponto, se dispesar. Em breve os efeitos apareceram: chegavam grandes levas de soldados, a maioria terrivelmente ferida; precisava-se, agora, de toda a capacidade do hospital militar.
Todas as casas disponíveis, também aquela em Sparz, foram ocupadas.
Os seminaristas provenientes de outros lugares (praticamente todos) tiveram que procurar alojamento em casas particulares. Meu irmão e eu voltamos definitivamente para casa. Agora, porém, era também evidente que a guerra ainda demoraria muito, e ela se aproximava cada vez mais ameaçadoramente de nossa vida. Meu irmão tinha 17 anos de idade; eu, 14.
Talvez eu fosse poupado, mas podia-se prever que meu irmão não escaparia.
De fato, no verão de 1942 ele foi convocado para o treinamento básico da infantaria; no outono seguiu a convocação para o exército, onde ele foi colocado no Serviço de Informação, como telegrafista.
Depois de uma permanência na França, na Holanda e na Tchecoslováquia, ele foi mandado para a frente italiana, onde foi ferido. Assim, ele veio parar, afortunadamente, no seminário de Traunstein, lugar de tantos anos agradáveis para ele, agora hospital militar. Depois de curado, ele teve que voltar para a frente na Itália.
Quanto a mim, aguardava-me ainda – apesar daquele sinistro contexto histórico- um belo ano em casa e no seminário de Traunstein.
Depois continuamos.
Fonte: Lembranças de Minha Vida.
Eis aqui a Mulher a quem amamos!
Por venerável Fulton Sheen
" Dissemos que cada um de nós tráz impressa no coração a imagem do seu amor ideal. Os melhores amores humanos, por mais profundos que sejam, estão sempre condenados a acabar- e nada existe Perfeito que acabe. Se há alguém, de quem se possa afirmar: " Este é o derradeiro abraço" - então, não existe, de fato, amor perfeito.
E daí que alguns, que ignoram o Amor divino, tentem experimentar uma multiplicidade de amores que lhes supram o amor ideal; mas é isso o mesmo que dizer que, para executar uma obra prima musical, devemos tocar uma dúzia de violinos diferentes.
Todo homem que procura uma jovem, toda a jovem que deseja ser escolhida, toda a aspiração de amizade neste mundo, busca um amor que não seja apenas amor dele ou dela , mas alguma coisa que os inunde a ambos e a que eles possam chamar o nosso amor.
Cada um de nós se enamora de amor ideal, de um amor que transcende a carne e a faz cair no esquecimento. Todos nós amamos para lá do nosso amor. Logo que cesse tal aspiração, acabou o amor. Como disse o poeta: " Não poderia meu amor, amar-te tanto, se não te adorasse ainda mais que te amo".
Este amor ideal que nós vemos para lá de todo o amor humano, para o qual instintivamente nos voltamos quando o amor dos sentidos deixa de existir, é o mesmo ideal que Deus experimentou em seu coração, desde toda a eternidade, pela Senhora a quem Ele chama Minha Mâe. É a ela que todos os homens amam quando amam uma mulher - quer o saibam ou não. É Ela aquilo que, no fundo, toda a mulher deseja ser. É Ela a mulher com quem todos os homens casam idealmente quando recebem esposa.. É Ela o ideal secreto da mulher infeliz que sofre com agressividade carnal do homem. É Ela o inefável desejo que toda a mulher tem de ser respeitada e protegida, de ser amada, em virtude da beleza de tudo aquilo que constitui o seu bem: o seu corpo e sua alma.
E esse amor, impresso no coração de Deus, que Deus amou antes de o mundo ser mundo, essa Mulher de Sonho que existiu antes de a mulher ter sido criada, é Aquela a quem todos os corações podem dizer, do mais profundo de si próprios: Eis aqui a Mulher a quem amamos!
Fonte: O primeiro Amor do Mundo - pag:21-22 - Fulton Sheen
" Dissemos que cada um de nós tráz impressa no coração a imagem do seu amor ideal. Os melhores amores humanos, por mais profundos que sejam, estão sempre condenados a acabar- e nada existe Perfeito que acabe. Se há alguém, de quem se possa afirmar: " Este é o derradeiro abraço" - então, não existe, de fato, amor perfeito.
E daí que alguns, que ignoram o Amor divino, tentem experimentar uma multiplicidade de amores que lhes supram o amor ideal; mas é isso o mesmo que dizer que, para executar uma obra prima musical, devemos tocar uma dúzia de violinos diferentes.
Todo homem que procura uma jovem, toda a jovem que deseja ser escolhida, toda a aspiração de amizade neste mundo, busca um amor que não seja apenas amor dele ou dela , mas alguma coisa que os inunde a ambos e a que eles possam chamar o nosso amor.
Cada um de nós se enamora de amor ideal, de um amor que transcende a carne e a faz cair no esquecimento. Todos nós amamos para lá do nosso amor. Logo que cesse tal aspiração, acabou o amor. Como disse o poeta: " Não poderia meu amor, amar-te tanto, se não te adorasse ainda mais que te amo".
Este amor ideal que nós vemos para lá de todo o amor humano, para o qual instintivamente nos voltamos quando o amor dos sentidos deixa de existir, é o mesmo ideal que Deus experimentou em seu coração, desde toda a eternidade, pela Senhora a quem Ele chama Minha Mâe. É a ela que todos os homens amam quando amam uma mulher - quer o saibam ou não. É Ela aquilo que, no fundo, toda a mulher deseja ser. É Ela a mulher com quem todos os homens casam idealmente quando recebem esposa.. É Ela o ideal secreto da mulher infeliz que sofre com agressividade carnal do homem. É Ela o inefável desejo que toda a mulher tem de ser respeitada e protegida, de ser amada, em virtude da beleza de tudo aquilo que constitui o seu bem: o seu corpo e sua alma.
E esse amor, impresso no coração de Deus, que Deus amou antes de o mundo ser mundo, essa Mulher de Sonho que existiu antes de a mulher ter sido criada, é Aquela a quem todos os corações podem dizer, do mais profundo de si próprios: Eis aqui a Mulher a quem amamos!
Fonte: O primeiro Amor do Mundo - pag:21-22 - Fulton Sheen
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Virgem Santíssima
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
quinta-feira, 14 de agosto de 2014
Filosofias em Luta
Por venerável Fulton Sheen
Parte I - AQUI
Parte II - AQUI
" À luz dessas três filosofias, nossa tarefa é tripla:
1 - O totalitarismo anticristão, anti-semita e anti-humano deve ser derrotado e destruído não exatamente por constituir um sistema político ou econômico contrário ao nosso, mas porque é anti-humano e é anti-humano por ser contra Deus.
Nossa guerra contra ele é movida não em nome da democracia, porém da humanidade. Devemos a todo custo repudiar o materialismo, o egoísmo e o ateísmo, que devoram que o temos de vital: a Justiça e a Igualdade. Tendo recuperado a fidelidade à Divina Lei Moral, estaremos à altura da nossa missão de conduzir o mundo a uma paz nascida da justiça e da caridade de Deus, pois " a menos que o Senhor edifique a casa, vão terá sido o trabalho dos que a construíram. A menos que o Senhor preserve a cidade em vão vigiará quem a guarda".
Esta é a decisão que o mundo tem de tomar: a saber, se o homem é instrumento do Estado, como julga o totalitarismo; se é um animal, como acredita a tradição leiga do mundo ocidental ; ou ainda se é criatura feita à imagem e semelhança de Deus, como creêm os cristãos.
Esta é a essência do conflito.
Enfrentamos nesta guerra um inimigo dual e não singular. Temos que desbaratar a barbárie ativa do exterior e a barbárie passiva do interior. Temos que usar nossas espadas num golpe contra o totalitarismo externo e a sua rude barbárie; mas também dentro de nós, para decepar nossa própria mansa barbárie.
Cada um de nós deve dizer: cumpre-me lutar contra o inimigo do homem, contra mim mesmo, quando sou eu próprio o pior de meus inimigos.
Precisamos ganhar uma guerra e ganhar uma revolução. Uma guerra, aniquilando o poder combativo do inimigo; uma paz, tornando-nos dignos de impo-la. A vitória no campo de batalha dominará a barbárie bruta. O arrependimento e a cartase do espírito, tão somente, poderão abater a mansa barbárie. Canhões, aviões, navios, dinamite, fábricas e bombas abaterão o primeiro desses males.
Somente a oração, o pesar, o arrependimento, a purificação de nossas almas e nossos corações, a meditação, a reparação, o sacrifício e uma volta a Deus poderão aniquilar o segundo.
Se nos limitarmos a vencer a barbárie bruta, perdendo a outra, estaremos no início de guerras cíclicas, que tornarão e retornarão até sermos flagelados e purificados e alquebrados num desespero criador, que nos levará de novo a Deus.
Esta é a verdadeira revolução. Todas as outras, no sec XX foram de fora para dentro; desta vez queremos uma revolução de dentro para fora. As revoluções que abalaram a Europa nos últimos vinte e cinco anos, apenas deslocaram o poder de uma classe para outra, os despojos de uma bolsa para outra, a autoridade de partido para outro.
Desta vez queremos uma revolução que mude os corações. Uma revolução semelhante à que descreve o "Magníficat", que foi mil vezes mais revolucionário do que o manifesto de Karl Marx, em 1848. O mal de todas as revoluções políticas e econômicas, é que elas não são suficientemente revolucionárias! Deixam ainda ódio no coração do homem! "
Depois veremos: Aquilo contra que estamos combatendo.
Fiquem com Deus!
Parte I - AQUI
Parte II - AQUI
" À luz dessas três filosofias, nossa tarefa é tripla:
1 - O totalitarismo anticristão, anti-semita e anti-humano deve ser derrotado e destruído não exatamente por constituir um sistema político ou econômico contrário ao nosso, mas porque é anti-humano e é anti-humano por ser contra Deus.
Nossa guerra contra ele é movida não em nome da democracia, porém da humanidade. Devemos a todo custo repudiar o materialismo, o egoísmo e o ateísmo, que devoram que o temos de vital: a Justiça e a Igualdade. Tendo recuperado a fidelidade à Divina Lei Moral, estaremos à altura da nossa missão de conduzir o mundo a uma paz nascida da justiça e da caridade de Deus, pois " a menos que o Senhor edifique a casa, vão terá sido o trabalho dos que a construíram. A menos que o Senhor preserve a cidade em vão vigiará quem a guarda".
Esta é a decisão que o mundo tem de tomar: a saber, se o homem é instrumento do Estado, como julga o totalitarismo; se é um animal, como acredita a tradição leiga do mundo ocidental ; ou ainda se é criatura feita à imagem e semelhança de Deus, como creêm os cristãos.
Esta é a essência do conflito.
Enfrentamos nesta guerra um inimigo dual e não singular. Temos que desbaratar a barbárie ativa do exterior e a barbárie passiva do interior. Temos que usar nossas espadas num golpe contra o totalitarismo externo e a sua rude barbárie; mas também dentro de nós, para decepar nossa própria mansa barbárie.
Cada um de nós deve dizer: cumpre-me lutar contra o inimigo do homem, contra mim mesmo, quando sou eu próprio o pior de meus inimigos.
Precisamos ganhar uma guerra e ganhar uma revolução. Uma guerra, aniquilando o poder combativo do inimigo; uma paz, tornando-nos dignos de impo-la. A vitória no campo de batalha dominará a barbárie bruta. O arrependimento e a cartase do espírito, tão somente, poderão abater a mansa barbárie. Canhões, aviões, navios, dinamite, fábricas e bombas abaterão o primeiro desses males.
Somente a oração, o pesar, o arrependimento, a purificação de nossas almas e nossos corações, a meditação, a reparação, o sacrifício e uma volta a Deus poderão aniquilar o segundo.
Se nos limitarmos a vencer a barbárie bruta, perdendo a outra, estaremos no início de guerras cíclicas, que tornarão e retornarão até sermos flagelados e purificados e alquebrados num desespero criador, que nos levará de novo a Deus.
Esta é a verdadeira revolução. Todas as outras, no sec XX foram de fora para dentro; desta vez queremos uma revolução de dentro para fora. As revoluções que abalaram a Europa nos últimos vinte e cinco anos, apenas deslocaram o poder de uma classe para outra, os despojos de uma bolsa para outra, a autoridade de partido para outro.
Desta vez queremos uma revolução que mude os corações. Uma revolução semelhante à que descreve o "Magníficat", que foi mil vezes mais revolucionário do que o manifesto de Karl Marx, em 1848. O mal de todas as revoluções políticas e econômicas, é que elas não são suficientemente revolucionárias! Deixam ainda ódio no coração do homem! "
Depois veremos: Aquilo contra que estamos combatendo.
Fiquem com Deus!
Campo de Concentração de Auschwitz-Birkenau
Visita de sua santidade Bento XVI à Polônia.
" Tomar a palavra neste lugar de horror, de acúmulo de crimes contra Deus e contra o homem sem igual na história, é quase impossível e é particularmente difícil e oprimente para um cristão, para um Papa que provém da Alemanha. Num lugar como este faltam as palavras, no fundo pode permanecer apenas um silêncio aterrorizado um silêncio que é um grito interior a Deus: Senhor, por que silenciaste? Por que toleraste tudo isto? É nesta atitude de silêncio que nos inclinamos profundamente no nosso coração face à numerosa multidão de quantos sofreram e foram condenados à morte; todavia, este silêncio torna-se depois pedido em voz alta de perdão e de reconciliação, um grito ao Deus vivo para que jamais permita uma coisa semelhante.
Há 27 anos, no dia 7 de Junho de 1979, estava aqui o Papa João Paulo II; então ele disse: "Venho hoje aqui... Quantas vezes! E desci muitas vezes à cela da morte de Maximiliano Kolbe e detive-me diante do muro do extermínio e passei entre as ruínas dos fornos crematórios de Birkenau.
O Papa João Paulo II veio aqui como um filho do povo polaco. Hoje eu vim aqui como um filho do povo alemão, e precisamente por isto devo e posso dizer como ele: não podia deixar de vir aqui. Tinha que vir. Era e é um dever perante a verdade e o direito de quantos sofreram, um dever diante de Deus, de estar aqui como sucessor de João Paulo II e como filho do povo alemão filho daquele povo sobre o qual um grupo de criminosos alcançou o poder com promessas falsas, em nome de perspectivas de grandeza, de recuperação da honra da nação e da sua relevância, com previsões de bem-estar e também com a força do terror e da intimidação, e assim o nosso povo pôde ser usado e abusado como instrumento da sua vontade de destruição e de domínio. Sim, não podia deixar de vir aqui.
Quantas perguntas surgem neste lugar! Sobressai sempre de novo a pergunta: Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar este excesso de destruição, este triunfo do mal? Vêm à nossa mente as palavras do Salmo 44, a lamentação de Israel que sofre: "... Tu nos esmagaste na região das feras e nos envolveste em profundas trevas... por causa de ti, estamos todos os dias expostos à morte; tratam-nos como ovelhas para o matadouro. Desperta, Senhor, por que dormes? Desperta e não nos rejeites para sempre! Por que escondes a tua face e te esqueces da nossa miséria e tribulação? A nossa alma está prostrada no pó, e o nosso corpo colado à terra. Levanta-te! Vem em nosso auxílio; salva-nos, pela tua bondade!" (Sl 44, 20.23-27). Este grito de angústia que Israel sofredor eleva a Deus em períodos de extrema tribulação, é ao mesmo tempo um grito de ajuda de todos os que, ao longo da história ontem, hoje e amanhã sofrem por amor de Deus, por amor da verdade e do bem; e há muitos, também hoje.
Nós não podemos perscrutar o segredo de Deus vemos apenas fragmentos e enganamo-nos se pretendemos eleger-nos a juízes de Deus e da história. Não defendemos, nesse caso, o homem, mas contribuiremos apenas para a sua destruição.
Não em definitiva, devemos elevar um grito humilde mas insistente a Deus: Desperta! Não te esqueças da tua criatura, o homem! E o nosso grito a Deus deve ao mesmo tempo ser um grito que penetra o nosso próprio coração, para que desperte em nós a presença escondida de Deus para que aquele seu poder que Ele depositou nos nossos corações não seja coberto e sufocado em nós pela lama do egoísmo, do medo dos homens, da indiferença e do oportunismo.
Emitamos este grito diante de Deus, dirijamo-lo ao nosso próprio coração, precisamente nesta nossa hora presente, na qual incumbem novas desventuras, na qual parecem emergir de novo dos corações dos homens todas as forças obscuras: por um lado, o abuso do nome de Deus para a justificação de uma violência cega contra pessoas inocentes; por outro, o cinismo que não conhece Deus e que ridiculariza a fé n'Ele.
Nós gritamos a Deus, para que impulsione os homens a arrepender-se, para que reconheçam que a violência não cria a paz, mas suscita apenas outra violência uma espiral de destruição, na qual todos no fim de contas só têm a perder. O Deus, no qual nós cremos, é um Deus da razão mas de uma razão que certamente não é uma matemática neutral do universo, mas que é uma coisa só com o amor, com o bem. Nós rezamos a Deus e gritamos aos homens, para que esta razão, a razão do amor e do reconhecimento da força da reconciliação e da paz prevaleça sobre as ameaças circunstantes da irracionalidade ou de uma falsa razão, separada de Deus.
O lugar no qual nos encontramos é um lugar da memória, é o lugar do Shoá. O passado nunca é apenas passado. Ele refere-se a nós e indica-nos os caminhos que não devem ser percorridos e os que o devem ser. Como João Paulo II, percorri o caminho ao longo das lápides que, nas várias línguas, recordam as vítimas deste lugar: são lápides em bielo-russo, checo, alemão, francês, grego, hebraico, polaco, russo, rom, romeno, eslovaco, sérvio, ucraniano, judaico-hispânico, inglês.
Todas estas lápides comemorativas falam de dor humana, deixam-nos intuir o cinismo daquele poder que tratava os homens como material e não os reconhecia como pessoas, nas quais resplandece a imagem de Deus. Algumas lápides convidam a uma comemoração particular. Há uma em língua hebraica. Os poderosos do Terceiro Reich queriam esmagar o povo judeu na sua totalidade; eliminá-lo do elenco dos povos da terra. Então as palavras do Salmo: "estamos todos os dias expostos à morte; tratam-nos como ovelhas para o matadouro", verificam-se de modo terrível.
No fundo, aqueles criminosos violentos, com a aniquilação deste povo, pretendiam matar aquele Deus que chamou Abraão, que falando no Sinai estabeleceu os critérios orientadores da humanidade que permanecem válidos para sempre. Se este povo, simplesmente com a sua existência, constitui um testemunho daquele Deus que falou ao homem e o assumiu, então aquele Deus devia finalmente estar morto e o domínio devia pertencer apenas ao homem àqueles que se consideravam os fortes que tinham sabido apoderar-se do mundo. Com a destruição de Israel, com o Shoa, queriam, no fim de contas, arrancar também a raiz sobre a qual se baseia a fé cristã, substituindo-a definitivamente com a fé feita por si, a fé no domínio do homem, do forte.
Depois, há a lápide em língua polaca: numa primeira fase e antes de tudo queria-se eliminar a élite cultural e cancelar assim o povo como sujeito histórico autónomo para o reduzir, na medida em que continuava a existir, a um povo de escravos. Outra lápide, que convida particularmente a reflectir, é a que está escrita na língua dos Sint e dos Rom. Também aqui se pretendia fazer desaparecer um povo inteiro que vive migrando entre os outros povos. Ele estava inserido entre os elementos inúteis da história universal, numa ideologia na qual só devia contar o útil medível; tudo o resto, segundo os seus conceitos, era classificado como lebensunwertes Leben uma vida indigna de ser vivida.
Depois há a lápide em russo que evoca o imenso número das vidas sacrificadas entre os soldados russos no confronto com o regime do terror nazista; mas, ao mesmo tempo, faz-nos reflectir sobre o trágico duplo significado da sua missão: libertaram os povos de uma ditadura, mas submetendo também os mesmos povos a uma nova ditadura, a de Estalin e da ideologia comunista.
Também todas as outras lápides nas numerosas línguas da Europa nos falam do sofrimento de homens de todo o continente; tocariam profundamente o nosso coração, se não fizéssemos apenas memória das vítimas de modo global, mas se víssemos, ao contrário, os rostos das pessoas individualmente que acabaram naquele terror escuro.
Senti como um dever íntimo deter-me de modo particular também diante da lápide em língua alemã. Dela emerge diante de nós o rosto de Edith Stein, Theresa Benedicta da Cruz: judia e alemã desaparecida, juntamente com a irmã, no horror da noite do campo de concentração alemão-nazista; como cristã e judia, aceitou morrer juntamente com o seu povo e por ele.
Os alemães, que então foram conduzidos a Auschwitz-Birkenau e aqui morreram, eram vistos como Abschaum der Nation como o refugo da nação. Mas agora nós reconhecemo-los com gratidão como as testemunhas da verdade e do bem, que também no nosso povo tinha desaparecido. Agradecemos a estas pessoas, porque não se submeteram ao poder do mal e agora estão diante de nós como luz numa noite escura. Com profundo respeito e gratidão inclinamo-nos diante de todos os que, como os três jovens diante da ameaça da fornalha babilónica, souberam responder: "Só o nosso Deus nos pode salvar. Mas também se não nos libertares, sabe, ó rei, que nós nunca serviremos os teus deuses nem adoraremos a estátua de ouro que erigistes" (cf. Dn 3, 17s).
Sim, por detrás destas lápides encerra-se o destino de inumeráveis seres humanos. Eles despertam a nossa memória, despertam o nosso coração. Não querem provocar em nós o ódio: ao contrário, demonstram-nos como é terrível a obra do ódio. Querem conduzir a razão a reconhecer o mal como mal e a rejeitá-lo; querem suscitar em nós a coragem do bem, da resistência contra o mal. Querem dar-nos aqueles sentimentos que se expressam nas palavras que Sófocles coloca nos lábios de Antígona face ao horror que a circunda: "Estou aqui não para odiar mas para, juntos, amar".
A humanidade atravessou em Auschwitz-Birkenau um "vale escuro". Por isso desejo, precisamente neste lugar, concluir com a oração de confiança com um Salmo de Israel que é, ao mesmo tempo, uma oração da cristandade: "O Senhor é o meu pastor: nada me falta. Em verdes prados me fez descansar e conduz-me às águas refrescantes. Reconforta a minha alma e guia-me por caminhos rectos, por amor do seu nome. Ainda que atravesse vales tenebrosos, de nenhum mal terei medo porque Tu estás comigo. A tua vara e o teu cajado dão-me confiança... habitarei na casa do Senhor para todo o sempre" (Sl 23, 1-4.6).
Fonte: AQUI
" Tomar a palavra neste lugar de horror, de acúmulo de crimes contra Deus e contra o homem sem igual na história, é quase impossível e é particularmente difícil e oprimente para um cristão, para um Papa que provém da Alemanha. Num lugar como este faltam as palavras, no fundo pode permanecer apenas um silêncio aterrorizado um silêncio que é um grito interior a Deus: Senhor, por que silenciaste? Por que toleraste tudo isto? É nesta atitude de silêncio que nos inclinamos profundamente no nosso coração face à numerosa multidão de quantos sofreram e foram condenados à morte; todavia, este silêncio torna-se depois pedido em voz alta de perdão e de reconciliação, um grito ao Deus vivo para que jamais permita uma coisa semelhante.
Há 27 anos, no dia 7 de Junho de 1979, estava aqui o Papa João Paulo II; então ele disse: "Venho hoje aqui... Quantas vezes! E desci muitas vezes à cela da morte de Maximiliano Kolbe e detive-me diante do muro do extermínio e passei entre as ruínas dos fornos crematórios de Birkenau.
O Papa João Paulo II veio aqui como um filho do povo polaco. Hoje eu vim aqui como um filho do povo alemão, e precisamente por isto devo e posso dizer como ele: não podia deixar de vir aqui. Tinha que vir. Era e é um dever perante a verdade e o direito de quantos sofreram, um dever diante de Deus, de estar aqui como sucessor de João Paulo II e como filho do povo alemão filho daquele povo sobre o qual um grupo de criminosos alcançou o poder com promessas falsas, em nome de perspectivas de grandeza, de recuperação da honra da nação e da sua relevância, com previsões de bem-estar e também com a força do terror e da intimidação, e assim o nosso povo pôde ser usado e abusado como instrumento da sua vontade de destruição e de domínio. Sim, não podia deixar de vir aqui.
Quantas perguntas surgem neste lugar! Sobressai sempre de novo a pergunta: Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar este excesso de destruição, este triunfo do mal? Vêm à nossa mente as palavras do Salmo 44, a lamentação de Israel que sofre: "... Tu nos esmagaste na região das feras e nos envolveste em profundas trevas... por causa de ti, estamos todos os dias expostos à morte; tratam-nos como ovelhas para o matadouro. Desperta, Senhor, por que dormes? Desperta e não nos rejeites para sempre! Por que escondes a tua face e te esqueces da nossa miséria e tribulação? A nossa alma está prostrada no pó, e o nosso corpo colado à terra. Levanta-te! Vem em nosso auxílio; salva-nos, pela tua bondade!" (Sl 44, 20.23-27). Este grito de angústia que Israel sofredor eleva a Deus em períodos de extrema tribulação, é ao mesmo tempo um grito de ajuda de todos os que, ao longo da história ontem, hoje e amanhã sofrem por amor de Deus, por amor da verdade e do bem; e há muitos, também hoje.
Nós não podemos perscrutar o segredo de Deus vemos apenas fragmentos e enganamo-nos se pretendemos eleger-nos a juízes de Deus e da história. Não defendemos, nesse caso, o homem, mas contribuiremos apenas para a sua destruição.
Não em definitiva, devemos elevar um grito humilde mas insistente a Deus: Desperta! Não te esqueças da tua criatura, o homem! E o nosso grito a Deus deve ao mesmo tempo ser um grito que penetra o nosso próprio coração, para que desperte em nós a presença escondida de Deus para que aquele seu poder que Ele depositou nos nossos corações não seja coberto e sufocado em nós pela lama do egoísmo, do medo dos homens, da indiferença e do oportunismo.
Emitamos este grito diante de Deus, dirijamo-lo ao nosso próprio coração, precisamente nesta nossa hora presente, na qual incumbem novas desventuras, na qual parecem emergir de novo dos corações dos homens todas as forças obscuras: por um lado, o abuso do nome de Deus para a justificação de uma violência cega contra pessoas inocentes; por outro, o cinismo que não conhece Deus e que ridiculariza a fé n'Ele.
Nós gritamos a Deus, para que impulsione os homens a arrepender-se, para que reconheçam que a violência não cria a paz, mas suscita apenas outra violência uma espiral de destruição, na qual todos no fim de contas só têm a perder. O Deus, no qual nós cremos, é um Deus da razão mas de uma razão que certamente não é uma matemática neutral do universo, mas que é uma coisa só com o amor, com o bem. Nós rezamos a Deus e gritamos aos homens, para que esta razão, a razão do amor e do reconhecimento da força da reconciliação e da paz prevaleça sobre as ameaças circunstantes da irracionalidade ou de uma falsa razão, separada de Deus.
O lugar no qual nos encontramos é um lugar da memória, é o lugar do Shoá. O passado nunca é apenas passado. Ele refere-se a nós e indica-nos os caminhos que não devem ser percorridos e os que o devem ser. Como João Paulo II, percorri o caminho ao longo das lápides que, nas várias línguas, recordam as vítimas deste lugar: são lápides em bielo-russo, checo, alemão, francês, grego, hebraico, polaco, russo, rom, romeno, eslovaco, sérvio, ucraniano, judaico-hispânico, inglês.
Todas estas lápides comemorativas falam de dor humana, deixam-nos intuir o cinismo daquele poder que tratava os homens como material e não os reconhecia como pessoas, nas quais resplandece a imagem de Deus. Algumas lápides convidam a uma comemoração particular. Há uma em língua hebraica. Os poderosos do Terceiro Reich queriam esmagar o povo judeu na sua totalidade; eliminá-lo do elenco dos povos da terra. Então as palavras do Salmo: "estamos todos os dias expostos à morte; tratam-nos como ovelhas para o matadouro", verificam-se de modo terrível.
No fundo, aqueles criminosos violentos, com a aniquilação deste povo, pretendiam matar aquele Deus que chamou Abraão, que falando no Sinai estabeleceu os critérios orientadores da humanidade que permanecem válidos para sempre. Se este povo, simplesmente com a sua existência, constitui um testemunho daquele Deus que falou ao homem e o assumiu, então aquele Deus devia finalmente estar morto e o domínio devia pertencer apenas ao homem àqueles que se consideravam os fortes que tinham sabido apoderar-se do mundo. Com a destruição de Israel, com o Shoa, queriam, no fim de contas, arrancar também a raiz sobre a qual se baseia a fé cristã, substituindo-a definitivamente com a fé feita por si, a fé no domínio do homem, do forte.
Depois, há a lápide em língua polaca: numa primeira fase e antes de tudo queria-se eliminar a élite cultural e cancelar assim o povo como sujeito histórico autónomo para o reduzir, na medida em que continuava a existir, a um povo de escravos. Outra lápide, que convida particularmente a reflectir, é a que está escrita na língua dos Sint e dos Rom. Também aqui se pretendia fazer desaparecer um povo inteiro que vive migrando entre os outros povos. Ele estava inserido entre os elementos inúteis da história universal, numa ideologia na qual só devia contar o útil medível; tudo o resto, segundo os seus conceitos, era classificado como lebensunwertes Leben uma vida indigna de ser vivida.
Depois há a lápide em russo que evoca o imenso número das vidas sacrificadas entre os soldados russos no confronto com o regime do terror nazista; mas, ao mesmo tempo, faz-nos reflectir sobre o trágico duplo significado da sua missão: libertaram os povos de uma ditadura, mas submetendo também os mesmos povos a uma nova ditadura, a de Estalin e da ideologia comunista.
Também todas as outras lápides nas numerosas línguas da Europa nos falam do sofrimento de homens de todo o continente; tocariam profundamente o nosso coração, se não fizéssemos apenas memória das vítimas de modo global, mas se víssemos, ao contrário, os rostos das pessoas individualmente que acabaram naquele terror escuro.
Senti como um dever íntimo deter-me de modo particular também diante da lápide em língua alemã. Dela emerge diante de nós o rosto de Edith Stein, Theresa Benedicta da Cruz: judia e alemã desaparecida, juntamente com a irmã, no horror da noite do campo de concentração alemão-nazista; como cristã e judia, aceitou morrer juntamente com o seu povo e por ele.
Os alemães, que então foram conduzidos a Auschwitz-Birkenau e aqui morreram, eram vistos como Abschaum der Nation como o refugo da nação. Mas agora nós reconhecemo-los com gratidão como as testemunhas da verdade e do bem, que também no nosso povo tinha desaparecido. Agradecemos a estas pessoas, porque não se submeteram ao poder do mal e agora estão diante de nós como luz numa noite escura. Com profundo respeito e gratidão inclinamo-nos diante de todos os que, como os três jovens diante da ameaça da fornalha babilónica, souberam responder: "Só o nosso Deus nos pode salvar. Mas também se não nos libertares, sabe, ó rei, que nós nunca serviremos os teus deuses nem adoraremos a estátua de ouro que erigistes" (cf. Dn 3, 17s).
Sim, por detrás destas lápides encerra-se o destino de inumeráveis seres humanos. Eles despertam a nossa memória, despertam o nosso coração. Não querem provocar em nós o ódio: ao contrário, demonstram-nos como é terrível a obra do ódio. Querem conduzir a razão a reconhecer o mal como mal e a rejeitá-lo; querem suscitar em nós a coragem do bem, da resistência contra o mal. Querem dar-nos aqueles sentimentos que se expressam nas palavras que Sófocles coloca nos lábios de Antígona face ao horror que a circunda: "Estou aqui não para odiar mas para, juntos, amar".
A humanidade atravessou em Auschwitz-Birkenau um "vale escuro". Por isso desejo, precisamente neste lugar, concluir com a oração de confiança com um Salmo de Israel que é, ao mesmo tempo, uma oração da cristandade: "O Senhor é o meu pastor: nada me falta. Em verdes prados me fez descansar e conduz-me às águas refrescantes. Reconforta a minha alma e guia-me por caminhos rectos, por amor do seu nome. Ainda que atravesse vales tenebrosos, de nenhum mal terei medo porque Tu estás comigo. A tua vara e o teu cajado dão-me confiança... habitarei na casa do Senhor para todo o sempre" (Sl 23, 1-4.6).
Fonte: AQUI
O pudor cristão
Por sua santidade Papa Pio XII
" Bem melhor fariam os educadores da juventude clerical, inculcando-lhe as normas do pudor cristão, que tanto contribui para manter incólume a virgindade, e bem pode chamar-se a prudência da castidade. O pudor adivinha o perigo, obsta a que se afronte, e leva a evitar aquelas mesmas ocasiões de que não se acautelam os menos prudentes. Ao pudor não agradam as palavras torpes ou menos honestas, e aborrece-lhe a mais leve imodéstia. Ele afasta-se da familiaridade suspeita com pessoas do outro sexo, porque enche a alma de profundo respeito pelo corpo, membro de Cristo (cf. l Cor 6, 15), e templo do Espírito Santo (l Cor 6, 19). A alma cristãmente pudica tem horror de qualquer pecado de impureza e retira-se ao primeiro assomo da sedução.
O pudor sugere ainda aos pais e educadores os termos apropriados para formar, na castidade, a consciência dos jovens. Evidentemente, como lembrávamos há pouco numa alocução, "este pudor não se deve confundir com o silêncio perpétuo que vá até excluir, na formação moral, que se fale com sobriedade e prudência dessas matérias". Contudo, com freqüência demasiada nos nossos dias, certos professores e educadores julgam-se obrigados a iniciar as crianças inocentes nos segredos da geração duma maneira que lhes ofende o pudor. Ora, nesse assunto tem de se observar a justa moderação que exige o pudor.
. Alimenta-se esse do temor de Deus, temor filial baseado numa profunda humildade, o qual inspira horror ao menor pecado. Já o afirmava o nosso predecessor são Clemente I: "Aquele que é casto no seu corpo, não se glorie, pois deve saber que recebeu de outro o dom da continência".
Mas ninguém mostrou melhor que santo Agostinho a importância da humildade cristã para a defesa da virgindade: "Sendo a continência perpétua, e sobretudo a virgindade um grande bem nos santos de Deus, deve-se evitar com o maior cuidado que se corrompa com a soberba... Quanto maior vejo é este bem que eu vejo, mais temo que a soberba o roube. Esse bem virginal ninguém o conserva senão o próprio Deus que o deu: e 'Deus é caridade' (1 Jo 4, 8). Portanto, a guardiã da virgindade é a caridade; e a morada dessa guardiã é a humildade".
" Bem melhor fariam os educadores da juventude clerical, inculcando-lhe as normas do pudor cristão, que tanto contribui para manter incólume a virgindade, e bem pode chamar-se a prudência da castidade. O pudor adivinha o perigo, obsta a que se afronte, e leva a evitar aquelas mesmas ocasiões de que não se acautelam os menos prudentes. Ao pudor não agradam as palavras torpes ou menos honestas, e aborrece-lhe a mais leve imodéstia. Ele afasta-se da familiaridade suspeita com pessoas do outro sexo, porque enche a alma de profundo respeito pelo corpo, membro de Cristo (cf. l Cor 6, 15), e templo do Espírito Santo (l Cor 6, 19). A alma cristãmente pudica tem horror de qualquer pecado de impureza e retira-se ao primeiro assomo da sedução.
O pudor sugere ainda aos pais e educadores os termos apropriados para formar, na castidade, a consciência dos jovens. Evidentemente, como lembrávamos há pouco numa alocução, "este pudor não se deve confundir com o silêncio perpétuo que vá até excluir, na formação moral, que se fale com sobriedade e prudência dessas matérias". Contudo, com freqüência demasiada nos nossos dias, certos professores e educadores julgam-se obrigados a iniciar as crianças inocentes nos segredos da geração duma maneira que lhes ofende o pudor. Ora, nesse assunto tem de se observar a justa moderação que exige o pudor.
. Alimenta-se esse do temor de Deus, temor filial baseado numa profunda humildade, o qual inspira horror ao menor pecado. Já o afirmava o nosso predecessor são Clemente I: "Aquele que é casto no seu corpo, não se glorie, pois deve saber que recebeu de outro o dom da continência".
Mas ninguém mostrou melhor que santo Agostinho a importância da humildade cristã para a defesa da virgindade: "Sendo a continência perpétua, e sobretudo a virgindade um grande bem nos santos de Deus, deve-se evitar com o maior cuidado que se corrompa com a soberba... Quanto maior vejo é este bem que eu vejo, mais temo que a soberba o roube. Esse bem virginal ninguém o conserva senão o próprio Deus que o deu: e 'Deus é caridade' (1 Jo 4, 8). Portanto, a guardiã da virgindade é a caridade; e a morada dessa guardiã é a humildade".
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Relacionar-se com Nossa Senhora
Por Papa Francisco
" Aconselho-vos o que vos disse há pouco, procurar refúgio... Um bom relacionamento com Nossa Senhora; relação com Nossa Senhora ajuda-nos a ter um bom relacionamento com a Igreja: as duas são Mães...
Conheceis o lindo trecho de santo Isaac, abade da Estrela: ' o que se pode dizer de Maria pode dizer-se da Igreja e também da nossa alma. As três são femininas, as três são mães, as três dão vida. A relação com Nossa Senhora é uma relação de filho'... Vigiar sobre isto: se não tivermos um bom relacionamento com Nossa Senhora, haverá um pouco de orfandade no meu coração.
Recordo-me, uma vez, há 30 anos, estava no Norte da Europa: tinha que ir lá para a educação da Universidade de Córdova, da qual naquele momento eu era vice-chanceler. E convidou-me uma família de católicos praticantes; aquele era um país secularizado demais. E no jantar, tinham muitos filhos, eram católicos praticantes, ambos professores universitários, e também catequistas. A um certo ponto, falando de Jesus Cristo — entusiastas de Jesus Cristo, falo de há trinta anos — disseram: «Sim, graças a Deus superámos a etapa de Nossa Senhora...». E que significa isto, perguntei. «Sim, porque descobrimos Jesus Cristo, e já não precisamos dela». Senti-me um pouco contristado, não compreendi bem. E falámos um pouco sobre este aspecto. Não é esta a maturidade! Não é maturidade, esquecer a mãe é mau... E, dizendo de outro modo: se não quiseres Nossa Senhora por Mãe, sem dúvida tê-la-ás por sogra! E isto não é bom! Obrigado."
" Aconselho-vos o que vos disse há pouco, procurar refúgio... Um bom relacionamento com Nossa Senhora; relação com Nossa Senhora ajuda-nos a ter um bom relacionamento com a Igreja: as duas são Mães...
Conheceis o lindo trecho de santo Isaac, abade da Estrela: ' o que se pode dizer de Maria pode dizer-se da Igreja e também da nossa alma. As três são femininas, as três são mães, as três dão vida. A relação com Nossa Senhora é uma relação de filho'... Vigiar sobre isto: se não tivermos um bom relacionamento com Nossa Senhora, haverá um pouco de orfandade no meu coração.
Recordo-me, uma vez, há 30 anos, estava no Norte da Europa: tinha que ir lá para a educação da Universidade de Córdova, da qual naquele momento eu era vice-chanceler. E convidou-me uma família de católicos praticantes; aquele era um país secularizado demais. E no jantar, tinham muitos filhos, eram católicos praticantes, ambos professores universitários, e também catequistas. A um certo ponto, falando de Jesus Cristo — entusiastas de Jesus Cristo, falo de há trinta anos — disseram: «Sim, graças a Deus superámos a etapa de Nossa Senhora...». E que significa isto, perguntei. «Sim, porque descobrimos Jesus Cristo, e já não precisamos dela». Senti-me um pouco contristado, não compreendi bem. E falámos um pouco sobre este aspecto. Não é esta a maturidade! Não é maturidade, esquecer a mãe é mau... E, dizendo de outro modo: se não quiseres Nossa Senhora por Mãe, sem dúvida tê-la-ás por sogra! E isto não é bom! Obrigado."
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terça-feira, 12 de agosto de 2014
O Cristão e a Esperança.
Por Gustavo Corção.
"O cristão tem a promessa de Deus e espera. Ora, se um pai de família espera a visita dum amigo que tarda, não deverá decerto andar dum lado para outro, à toa, sob pretexto de impaciência e de amizade, nem consentir que os filhos e a mulher fiquem tontos entre o portão e o telefone. Ele deverá 'providenciar todas as coisas' e a esposa deverá trabalhar com paciência e alegria para que o amigo encontre a casa adornada e cada coisa pequenina em seu lugar.
Esperar para o cristão, é providenciar e preparar para o hóspede, é ser vigilante como um soldado, humilde como a dona de casa, confiante como a criança. Anos atrás as crianças tinham um sentido vivo de esperança, porque gostavam muito de brincar de soldado e de dona de casa que recebe visitas, mas o mundo de idéias avançadas e mecanizadas vai perdendo essas duas noções fundamentais, a do soldado e a do hóspede.
A visita hoje é um susto que se prega nos outros; é um aparecer de repente com gritos; é um acidente resolvido por uma guinada na direção de um automóvel. Hoje, por exemplo, há casas em que não se põe mais a toalha na mesa: o hóspede inopinado é conduzido para diante duma frigideire onde se improvisavam uns sanduíches americanos com um pão pedido às pressas pelo telefone.
Os soldados também vão deixando de existir com sua antiga galhardia para dar lugar a uns técnicos eficientes do manejo de certos instrumentos de engenharia. O ludus infantil tenta em vão se apegar a esses tristes modelos de vida, e a Esperança cristã encontra nos corações dos adultos, cada vez mais, a raiz de nossa infância quese calcinada.
Fonte: A descoberta do outro - pag 155 - Gustavo Corção
Mais de Corção - Aqui
São Bernardo de Claraval.
Por sua santidade Papa Pio XII
"A sua doutrina foi embebida quase toda nas páginas da Sagrada Escritura e dos santos padres, que dia e noite tinha à mão e meditava profundamente; não nas sutis disputas dos dialéticos e filósofos, que mais de uma vez parece menosprezar. Deve, todavia, notar-se que ele não rejeita a filosofia humana, a genuína filosofia que conduz a Deus, à vida honesta e à sabedoria cristã; mas aquela que, com vã verbosidade e falaz prestígio das cavilações, presume com temerária audácia subir às coisas divinas e sondar todos os segredos de Deus; de maneira a violar - como freqüentemente acontecia também então - a integridade da fé e miseravelmente cair na heresia.
"Vês... - escreve ele - como (s. Paulo apóstolo) faz depender o fruto e a utilidade da ciência do modo de saber? Que quer dizer modo de saber? Que quer dizer senão que se saiba com que ordem, com que vontade, para que fim se deva saber? Com que ordem: em primeiro lugar o que mais convém para a salvação; com que vontade: mais ardentemente o que mais acende o amor; para que fim: não por vaidade, ou por curiosidade, ou coisa parecida, mas somente para edificação própria ou do próximo. Há alguns de fato que gostam de saber só por saber; e é curiosidade ignóbil. Outros há que desejam saber para serem conhecidos; e é indigna vaidade. E há também os que desejam saber para vender a sua ciência, por exemplo, por dinheiro, pelas honras; e é vergonhosa mercadoria. Mas há ainda os que querem saber, para edificar, e é caridade. E, finalmente, os que desejam saber para serem educados; e é prudência".
A doutrina, ou melhor, a sabedoria que ele segue e ardentemente ama, bem a exprime com estas palavras: "Há o espírito de sabedoria e de inteligência que, à maneira da abelha que produz cera e mel, tem com que acender a luz da ciência e infundir o sabor da graça. Não espere, portanto, receber o beijo, nem o que compreende a verdade, mas não a ama; nem o que a ama, mas não a compreende". "Que faria a ciência sem o amor? Envaideceria. Que faria o amor sem a ciência? Erraria". "Só resplandecer é vão; só arder é pouco; arder e resplandecer é perfeito."Donde nasça, porém, a verdadeira e genuína doutrina, e como deva unir-se com a caridade, assim explica: "Deus é sabedoria e quer ser amado não só suave mas também sapientemente... Aliás com muita facilidade o espírito do erro zombará do teu zelo, se desprezares a ciência; nem o astuto inimigo tem instrumento mais eficaz para arrancar do coração o amor, do que conseguir que no mesmo amor se ande incautamente, e não com a razão".
O seu estilo vivaz, florido, abundante e sentencioso é tão suave e doce que atrai o espírito do leitor, deleita-o e eleva-o para as coisas do alto; excita, alimenta e dirige a piedade; força, enfim, o ânimo a procurar atingir os bens que não são caducos e passageiros, mas verdadeiros, certos e eternos. Por isso os seus escritos foram sempre tidos em grande consideração; e deles a própria Igreja tirou não poucas páginas celestiais e ardentes de piedade para a sagrada liturgia. Parecem vivificadas pelo sopro do Espírito Santo e resplandecentes de tal esplendor de luz que nunca se podem apagar no decurso dos séculos, pois nascem da alma de quem escreve, sequioso de verdade e caridade e desejoso de nutrir os outros e conformá-los com a sua imagem.
Sua caridade para com Deus
Apraz-nos, veneráveis irmãos, citar dos seus livros, para comum utilidade, algumas sentenças, entre as mais belas, acerca desta mística doutrina: "Ensinamos que toda alma, embora carregada de pecados, enredada nos vícios, escrava das paixões, prisioneira no exílio, encarcerada no corpo,.. ainda que, digo, de tal forma condenada e desesperada; ensinamos que ela pode, todavia, encontrar em si não só com que possa dilatar o espírito na esperança do perdão e da misericórdia; mas até com que ouse aspirar às núpcias do Verbo, não temer estreitar um pacto de aliança com Deus, nem ter receio de levar o suave jugo de amor com o Rei dos anjos. O que é que não pode ousar com segurança junto daquele cuja insigne imagem ela vê em si e cuja esplêndida semelhança ela conhece?"
"Tal conformidade desposa a alma com o Verbo, visto que assim ela se torna semelhante por meio da vontade àquele a quem é semelhante por natureza e o ama como é amada. Portanto se ama perfeitamente, contraiu as núpcias. Que há de mais aprazível do que tal conformidade? Que há de mais desejável do que aquela caridade, que faz com que, tu, ó alma, não contente do magistério humano, por ti mesma te aproximes com confiança do Verbo, estejas sempre unida ao Verbo, interrogues familiarmente o Verbo e o consultes sobre todas as coisas, tanto capaz de compreender quanto és audaz no desejo? É isso realmente um contrato de espiritual e santo conúbio. Disse pouco, contrato: é um abraço, na verdade, em que querer ou não querer a mesma coisa faz de dois um só espírito. Nem há que recear que a diferença das pessoas torne de qualquer maneira imperfeito o acordo das vontades, porque o amor não conhece temor reverencial. De fato amor vem de amar, não de reverenciar... O amor transborda, o amor; quando chega, assimila e submete todas as outras afeições. Por isso quem ama, ama e mais nada sabe".
Depois de ter observado que Deus quer ser amado pelos homens, muito mais que temido e reverenciado, acrescenta com agudeza e sagacidade: "Ele (o amor) basta por si só, agrada em si mesmo e por causa de si. É mérito e prêmio de si mesmo. O amor não procura motivo, nem fruto, fora de si. O seu fruto é o seu uso. Amo porque amo, amo para amar. Grande coisa é o amor, desde que recorra ao seu princípio, desde que voltando à sua origem, restituído à sua fonte, sempre dela tome o de que perenemente se alimentar. Entre todos os movimentos, sentimentos e afetos da alma, é só no amor que a criatura pode, embora não adequadamente, corresponder ao seu Autor, ou pagar com o mesmo amor".
Visto que ele próprio várias vezes experimentou, na contemplação e na oração, esse divino amor com o qual nos podemos unir estreitamente a Deus, do seu espírito saem estas palavras abrasadas: "Feliz (a alma) que mereceu ser prevenida com a bênção de tão grande suavidade! Feliz, porque teve a graça de experimentar tão grande abraço de felicidade! Isso não é outra coisa senão amor santo e casto, suave e doce; amor tão sereno como sincero; amor mútuo, íntimo e forte, que une dois não numa carne só, mas num só espírito, faz com que dois já não sejam dois, mas um só, como disse s. Paulo: 'Quem adora a Deus é um só espírito com ele"'.
Embora nem todos possam atingir o cume de tal contemplação divina, de que fala s. Bernardo com sublimes pensamentos e palavras; embora nem todos possam unir-se tão intimamente a Deus, que se sintam unidos ao Sumo Bem como que pelos vínculos de arcano conúbio celestial; todavia, todos podem e devem elevar de vez em quando o espírito das coisas terrenas às celestes, e amar com vontade apaixonada o Supremo Doador de todos os bens.
O contemplativo
Desta divina caridade ninguém falou talvez com tal clareza, elevação e ardor como são Bernardo. "A causa para amar a Deus - assim diz - é o próprio Deus; a medida, amá-lo sem medida". "Onde há amor, não há canseira, mas gosto".
Ele mesmo confessa que o experimentou, quando escreve: "Oh! amor santo e casto! Oh! doce e suave afeto!... Tanto mais doce e suave, porque é todo divino o sentimento que se prova. Experimentá-lo é divinizar-se".E noutro lugar: "É melhor para mim, Senhor, abraçar-te na tribulação e estar contigo na fornalha, do que estar sem ti até mesmo no Céu". Quando, porém, chegou à suma e perfeita caridade, que o uniu em íntimo conúbio com o próprio Deus, então goza de uma alegria e paz tal que não pode haver outra maior: "Oh! lugar do verdadeiro repouso... em que não se vê a Deus como que perturbado pela ira e ocupado em cuidados; mas nele se experimenta a sua vontade bondosa, benévola e perfeita. Essa visão não atemoriza, mas afaga; não excita curiosidade inquieta, mas acalma; não cansa os sentidos, mas tranqüiliza. Aqui realmente repousa-se. Deus tranqüilo dá tranqüilidade em tudo; e vê-lo pacífico é estar em paz".
Todavia esse repouso total não é morte da alma, mas verdadeira vida: "Este sono vital e vigilante ilumina pelo contrário o sentido interior e, sendo repelida a morte, dá a vida eterna. É deveras um sono, que todavia não adormece, mas eleva. É também morte - não receio dizê-lo - visto que o apóstolo elogiando alguns ainda vivos na carne, assim diz: "Estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus".
Esse total repouso do espírito, de que gozamos correspondendo com o nosso ao amor de Deus, e por meio do qual para ele nos voltamos e dirigimos com todo o nosso ser, não nos leva à preguiça nem à inércia, mas a uma álacre, solícita e operosa diligência, com que nos esforçamos por procurar, com a ajuda de Deus, não só a nossa salvação, mas também a dos outros. De fato, tal sublime meditação e contemplação, incitada e estimulada pelo amor divino, "governa os afetos, dirige as ações, corrige os excessos, regula os costumes, aformoseia e põe em ordem a vida, dá enfim a ciência das coisas divinas e humanas... É ela que distingue o que é confuso, une o que está dividido, recolhe o que está espalhado, investiga o que está escondido, procura a verdade, pondera o que é verossímil e descobre a ficção e o artifício. É ela que preordena o que se deve fazer, reflete sobre o que se fez, de maneira que nada fique na mente por corrigir. É ela que na prosperidade, nas contrariedades quase não as sente; uma é fortaleza, a outra prudência".
O homem de ação
E com efeito, embora deseje ficar imerso em tão alta contemplação e suave meditação, que se nutre do espírito divino, todavia o Doutor de Claraval não se fecha na sua cela, que "guardada é suave", mas onde quer que se trate da causa de Deus e da Igreja, está imediatamente presente com o conselho, com a palavra e com a ação. Afirmava de fato que não "deve cada qual viver para si só, mas para todos". De si mesmo, além disso, e dos seus, assim escrevia: "Também aos nossos irmãos, no meio dos quais vivemos, somos devedores, por direito de fraternidade e convívio humano, de conselho e de auxílio".
Quando, porém, com tristeza, via ameaçada ou perseguida nossa santa religião, não se poupava a canseiras, viagens e cuidados para a defender esforçadamente e ajudá-la segundo as suas forças. "Nada daquilo que se revele interesse de Deus - dizia - me é alheio". E ao rei Luís de França escrevia estas corajosas palavras: "Nós, filhos da Igreja, não podemos de forma alguma dissimular as injúrias feitas à nossa mãe, o seu desprezo e os seus direitos conculcados... Certamente estaremos firmes, e combateremos até à morte, se for necessário, pela nossa mãe, com as armas convenientes; não com os escudos e as espadas, mas com as orações e lágrimas diante de Deus".
A Pedro, abade de Cluny: "Glorio-me nas minhas tribulações, se fui considerado digno de sofrer alguma coisa pela Igreja. Esta é na verdade a minha glória que exalta a minha cabeça, o triunfo da Igreja. Com efeito se fomos companheiros na dificuldade, sê-lo-emos também na consolação. Houve que trabalhar e sofrer juntamente com a nossa mãe...".
Quando depois o corpo místico de Jesus Cristo foi perturbado por um cisma tão grave que até os bons estavam hesitantes entre uma e outra parte, ele entregou-se totalmente a compor os dissídios e à feliz reconciliação e união dos espíritos. Visto que os príncipes, por ambição do domínio terreno, estavam divididos por terríveis discórdias, de que podiam derivar graves prejuízos para os povos, fez-se artífice de paz e reconciliador de mútua concórdia. Enfim, pois que os lugares santos da Palestina, que o divino Redentor consagrou com o seu sangue, corriam grande perigo, e estavam expostos à pressão hostil de exércitos estrangeiros, por mandato do sumo pontífice excitou com altas palavras e mais elevada caridade os príncipes e os povos cristãos a uma nova cruzada; se ela não teve êxito feliz, não foi certamente por culpa sua.
E quando a integridade da fé católica e dos costumes, transmitida pelos antigos como herança sagrada, estava exposta a gravíssimos perigos, sobretudo por obra de Abelardo, Arnaldo de Bréscia e Gilberto Porretano, ele, quer com a publicação de escritos cheios de doutrina, quer com laboriosas viagens, tentou tudo o que pode, amparado pela graça divina, para que os erros fossem debelados e condenados, e para que os errantes conforme as suas possibilidades voltassem ao reto caminho e se emendassem.
O defensor da autoridade pontifícia
Como bem sabia que nesta questão não importava tanto a doutrina dos doutores, como a autoridade especialmente do romano pontífice, tratou de interpor tal autoridade, que em dirimir tais questões reconhecia suprema e completamente infalível. Por isso ao nosso predecessor de feliz memória Eugênio III, que fora seu discípulo, escreve estas palavras, que revelam o seu amor e profunda reverência para com ele, unida com aquela liberdade de espírito, que convém aos santos: "O amor não conhece o patrão, conhece o filho mesmo com a tiara... Admoestar-te-ei, portanto, não como mestre, mas como mãe; certamente como alguém que te quer muito".
Dirige-se-lhe, em seguida, com estas ardentes palavras: "Quem és? O sumo sacerdote, o sumo pontífice. És o príncipe dos bispos, o herdeiro dos apóstolos... Pedro por poder, por unção Cristo. És aquele a quem foram entregues as chaves e confiadas as ovelhas. Há também outros porteiros do céu e pastores de rebanhos; mas tu és tanto mais glorioso, quanto maior é a diferença com que herdaste, em comparação dos outros, os dois nomes. Aqueles foram confiados os seus rebanhos, e a cada qual o seu: a ti foram confiados todos, a ti só, na unidade. E não só és pastor dos rebanhos mas único pastor de todos os pastores".E de novo: "Devia sair deste mundo quem quisesse encontrar o que não pertence ao teu cuidado".
Reconhece, porém, aberta e plenamente a infalibilidade do magistério do romano pontífice, quando se trata de coisas de fé e costumes. Quando combate, na verdade, os erros de Abelardo, o qual, "quando fala da Santíssima Trindade, sabe a Ário; quando da graça, sabe a Pelágio; quando sobre a pessoa de Cristo, sabe a Nestório" "ele que... põe graus na Santíssima Trindade, modos na majestade, sucessão numérica na eternidade"(37); e no qual "a razão humana tudo chama a si, nada deixando à fé"(38); não só discute, desfaz e refuta os seus ardis e sofismas, sutis e falazes, mas também escreve ao nosso predecessor de imortal memória Eugênio III, por tal motivo, estas graves palavras: "É mister referir à vossa autoridade apostólica todos os perigos... sobretudo os que dizem respeito à fé. Julgo, pois, justo que se remediem os prejuízos da fé sobretudo onde ela não pode faltar. É esta de fato a prerrogativa da Sé Apostólica... É tempo de reconhecerdes a vossa autoridade, Pai amantíssimo... Nisso realmente fazeis as vezes de Pedro, cuja cadeira ocupais, se confirmais com as vossas admoestações os espíritos hesitantes na fé e se com a vossa autoridade esmagais os seus corruptores".
Força e humildade
Mas de onde esse monge humilde, quase sem recursos humanos, pôde receber a força para superar as mais árduas dificuldades, resolver os mais complicados problemas e dirimir as mais intricadas questões, só se pode compreender se se considera a exímia santidade de vida, que o ornava, unida a um grande amor da verdade. Ardia sobretudo, como dissemos, da mais ardente caridade para com Deus e para com o próximo, que é, como sabeis, veneráveis irmãos, o preceito principal e como que o compêndio de todo o Evangelho; de modo que não só vivia sempre misticamente unido ao Pai celeste, mas nada mais desejava do que lucrar os homens para Cristo, defender os sacrossantos direitos da Igreja e defender com invicta coragem a integridade da fé católica.
No meio de tanta benevolência e estima de que gozava junto dos sumos pontífices, dos povos, não se envaidecia, nem corria atrás da transitória e vã glória dos homens, mas sempre nele resplandecia aquela humildade cristã, que "reúne as outras virtudes... depois de as reunir guarda-as... e conservando-as aperfeiçoa-as"(40); de maneira que "sem ela... nem sequer parecem virtudes".(41) Por isso "a sua alma não foi tentada pelas honras que lhe ofereceram, nem o seu pé se moveu para procurar a glória; nem a tiara e o anel o atraíam mais do que o ancinho e a enxada".(42) E, sujeitando-se a tantas e tão grandes canseiras pela glória de Deus e proveito do nome cristão, professava-se "servo inútil dos servos de Deus"(43), "desprezível inseto" (44) , "árvore estéril"(45), "pecador, cinza...".(46)Alimentava essa humildade cristã e as outras virtudes com a assídua contemplação das coisas celestes, com ardentes orações dirigidas a Deus, com as quais atraia a graça sobrenatural sobre si e sobre os seus empreendimentos e obras.
Seu amor a Jesus
De modo muito especial amava tão ardentemente Jesus Cristo, divino Redentor, que sob sua moção e impulso escrevia belas e elevadas páginas, que ainda hoje causam a admiração de todos e fomentam a piedade do leitor. "O que é que enriquece a alma que medita... dá força às virtudes, faz prosperar os bons e honestos costumes, suscita puros afetos? É árido todo o alimento da alma, se não tiver esse azeite; e insípido, se não for temperado com este sal. Se escreves alguma coisa, não pinto gosto se não leio Jesus. Se discutes e falas, não me agrada, se não ouço Jesus. Jesus é mel na boca, doce melodia no ouvido, alegria no coração. Mas é também medicina. Há no meio de vós alguém triste? Jesus desça ao coração e depois suba aos lábios; e eis que à luz desse nome desaparecem todas as nuvens, volta a serenidade. Cometeu alguém um pecado? Corre desesperado ao laço da morte? Mas se invocar esse nome de vida, não há de sentir imediatamente o respiro vital?... A quem é que, agitado e hesitante nos perigos, a invocação desse nome de força não restituiu imediatamente a confiança e repeliu o medo?... Nada melhor refreia o ímpeto da ira, reprime o tumor da soberba e cura a ferida da inveja...".
O louvor da Mãe de Deus
A esse ardente amor por Jesus Cristo unia-se uma devoção terna e suave à sua excelsa Mãe, que amava e venerava com filial ternura. Tinha tanta confiança no seu poderoso patrocínio, que não receou escrever: "Deus quis que nada recebêssemos que não passe pelas mãos de Maria".(48) E de novo: "Tal é a vontade daquele, que quis que nós tudo tivéssemos por meio de Maria".(49)
E agora apraz-nos, veneráveis irmãos, propor à meditação de todos aquela página, que, sobre os louvores à virgem Mãe de Deus, é talvez a mais bela, a mais ardente, a mais apta a excitar em nós o amor para com ela e a mais útil para fomentar a piedade e para imitar os seus exemplos de virtude: "...Chama-se estrela do mar, e o nome é bem apropriado à Virgem Mãe. Ela na verdade é comparada muito justamente a uma estrela; porque assim como a estrela emite os seus raios, sem se corromper, assim também a Virgem dá à luz o seu Filho sem lesar a sua integridade. Os raios não diminuem a claridade à estrela, nem o Filho à Virgem a sua integridade. Ela é, portanto, aquela nobre estrela que nasceu de Jacó, cujos raios iluminam todo o universo, cujo esplendor brilha no céu e penetra no inferno... É ela, digo, a estrela preclara e exímia, erguida necessariamente sobre este grande e largo mar, que ilumina com os seus méritos e ilustra com seus exemplos. Oh! tu, quem quer que sejas, que te vês mais flutuar à mercê das ondas neste mundo em tempestade do que andar sobre a terra; não tires os olhos do fulgor dessa estrela, se não queres ser submergido pelas tempestades. Se se levantarem os ventos das tentações, se topares nos escolhos das tribulações, olha para a estrela, invoca Maria. Se fores arremessado pelas ondas da soberba, da ambição, da murmuração e da inveja: olha para a estrela, invoca Maria. Se a ira, a avareza ou as atrações da carne sacudirem a barquinha da alma: olha para Maria. Se, perturbado pela enormidade do pecado, cheio de confusão pela fealdade da consciência, cheio de medo pelo horror do juízo, começares a ser devorado pelos abismos da tristeza e do desespero: pensa em Maria. Nos perigos, nas aflições, nas incertezas, pensa em Maria, invoca Maria. Que ela não se afaste da tua boca nem do teu coração; e para obter o auxílio da sua oração, nunca deixes o exemplo da sua vida. Se a segues, não te podes perder; se a invocas, não podes desesperar; se pensas nela, não te podes enganar. Se ela te ampara, não cais; se te protege, não tens que temer; se te guia, não te cansas; se te é propícia, chegas ao fim...".(50)
CONCLUSÃO
Julgamos, pois, que não podíamos terminar melhor esta carta encíclica do que convidando-vos a todos, com as palavras do doutor melífluo, a aumentar cada dia mais a devoção para com a santa Mãe de Deus, e imitar com o maior empenho suas excelsas virtudes, cada qual segundo as peculiares condições da sua vida. Se no século XII graves perigos ameaçavam a Igreja e a humanidade, não menos graves, sem dúvida, ameaçam a nossa época. A fé católica, que dá aos homens o supremo conforto, não raramente afrouxou nos espíritos, mas até em alguns países é áspera e publicamente combatida. E quando a religião cristã é desprezada ou combatida, vê-se infelizmente que a moralidade individual e pública se desvia do reto caminho, e até às vezes, através dos meandros do erro, cai miseramente nos vícios.
À caridade, que é vínculo da perfeição, da concórdia e da paz, substituem-se os ódios, as inimizades e as discórdias.
. Há inquietação, angústia e trepidação no espírito humano; teme-se que, se a luz do Evangelho for pouco a pouco diminuindo e afrouxando em muitos, ou - pior ainda-for rejeitada completamente, desmoronem os próprios alicerces da civilização e da vida doméstica; e dessa forma venham tempos ainda piores e mais infelizes.
Assim como o doutor de Claraval pediu o auxílio da santíssima Virgem e o alcançou para a sua época turbulenta, assim também nós todos, com a mesma constante piedade e oração, devemos alcançar da nossa Mãe divina que para estes graves males, que já avançam ou se temem, impetre de Deus os remédios oportunos; e conceda, com o auxílio divino, benigna e poderosa, que uma sincera, sólida e frutuosa paz brilhe finalmente para a Igreja, para os povos, para as nações.
Sejam esses os abundantes e salutares frutos, que, sob a proteção de s. Bernardo, tragam as celebrações centenárias da sua pia morte; que todos se unam conosco nestas preces e súplicas, e, observando e meditando os exemplos do doutor melífluo, envidem todos os esforços para seguir com boa vontade e zelo as suas pegadas.
34. Desses salutares frutos seja propiciadora a bênção apostólica que a vós, veneráveis irmãos, aos rebanhos que vos foram confiados, e especialmente àqueles que abraçaram a ordem de s. Bernardo, de todo o coração concedemos.
Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 24 de maio, festa do Pentecostes, de 1953, XV ano do nosso pontificado.
PIO PP. XII
Fonte: http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html
"A sua doutrina foi embebida quase toda nas páginas da Sagrada Escritura e dos santos padres, que dia e noite tinha à mão e meditava profundamente; não nas sutis disputas dos dialéticos e filósofos, que mais de uma vez parece menosprezar. Deve, todavia, notar-se que ele não rejeita a filosofia humana, a genuína filosofia que conduz a Deus, à vida honesta e à sabedoria cristã; mas aquela que, com vã verbosidade e falaz prestígio das cavilações, presume com temerária audácia subir às coisas divinas e sondar todos os segredos de Deus; de maneira a violar - como freqüentemente acontecia também então - a integridade da fé e miseravelmente cair na heresia.
"Vês... - escreve ele - como (s. Paulo apóstolo) faz depender o fruto e a utilidade da ciência do modo de saber? Que quer dizer modo de saber? Que quer dizer senão que se saiba com que ordem, com que vontade, para que fim se deva saber? Com que ordem: em primeiro lugar o que mais convém para a salvação; com que vontade: mais ardentemente o que mais acende o amor; para que fim: não por vaidade, ou por curiosidade, ou coisa parecida, mas somente para edificação própria ou do próximo. Há alguns de fato que gostam de saber só por saber; e é curiosidade ignóbil. Outros há que desejam saber para serem conhecidos; e é indigna vaidade. E há também os que desejam saber para vender a sua ciência, por exemplo, por dinheiro, pelas honras; e é vergonhosa mercadoria. Mas há ainda os que querem saber, para edificar, e é caridade. E, finalmente, os que desejam saber para serem educados; e é prudência".
A doutrina, ou melhor, a sabedoria que ele segue e ardentemente ama, bem a exprime com estas palavras: "Há o espírito de sabedoria e de inteligência que, à maneira da abelha que produz cera e mel, tem com que acender a luz da ciência e infundir o sabor da graça. Não espere, portanto, receber o beijo, nem o que compreende a verdade, mas não a ama; nem o que a ama, mas não a compreende". "Que faria a ciência sem o amor? Envaideceria. Que faria o amor sem a ciência? Erraria". "Só resplandecer é vão; só arder é pouco; arder e resplandecer é perfeito."Donde nasça, porém, a verdadeira e genuína doutrina, e como deva unir-se com a caridade, assim explica: "Deus é sabedoria e quer ser amado não só suave mas também sapientemente... Aliás com muita facilidade o espírito do erro zombará do teu zelo, se desprezares a ciência; nem o astuto inimigo tem instrumento mais eficaz para arrancar do coração o amor, do que conseguir que no mesmo amor se ande incautamente, e não com a razão".
O seu estilo vivaz, florido, abundante e sentencioso é tão suave e doce que atrai o espírito do leitor, deleita-o e eleva-o para as coisas do alto; excita, alimenta e dirige a piedade; força, enfim, o ânimo a procurar atingir os bens que não são caducos e passageiros, mas verdadeiros, certos e eternos. Por isso os seus escritos foram sempre tidos em grande consideração; e deles a própria Igreja tirou não poucas páginas celestiais e ardentes de piedade para a sagrada liturgia. Parecem vivificadas pelo sopro do Espírito Santo e resplandecentes de tal esplendor de luz que nunca se podem apagar no decurso dos séculos, pois nascem da alma de quem escreve, sequioso de verdade e caridade e desejoso de nutrir os outros e conformá-los com a sua imagem.
Sua caridade para com Deus
Apraz-nos, veneráveis irmãos, citar dos seus livros, para comum utilidade, algumas sentenças, entre as mais belas, acerca desta mística doutrina: "Ensinamos que toda alma, embora carregada de pecados, enredada nos vícios, escrava das paixões, prisioneira no exílio, encarcerada no corpo,.. ainda que, digo, de tal forma condenada e desesperada; ensinamos que ela pode, todavia, encontrar em si não só com que possa dilatar o espírito na esperança do perdão e da misericórdia; mas até com que ouse aspirar às núpcias do Verbo, não temer estreitar um pacto de aliança com Deus, nem ter receio de levar o suave jugo de amor com o Rei dos anjos. O que é que não pode ousar com segurança junto daquele cuja insigne imagem ela vê em si e cuja esplêndida semelhança ela conhece?"
"Tal conformidade desposa a alma com o Verbo, visto que assim ela se torna semelhante por meio da vontade àquele a quem é semelhante por natureza e o ama como é amada. Portanto se ama perfeitamente, contraiu as núpcias. Que há de mais aprazível do que tal conformidade? Que há de mais desejável do que aquela caridade, que faz com que, tu, ó alma, não contente do magistério humano, por ti mesma te aproximes com confiança do Verbo, estejas sempre unida ao Verbo, interrogues familiarmente o Verbo e o consultes sobre todas as coisas, tanto capaz de compreender quanto és audaz no desejo? É isso realmente um contrato de espiritual e santo conúbio. Disse pouco, contrato: é um abraço, na verdade, em que querer ou não querer a mesma coisa faz de dois um só espírito. Nem há que recear que a diferença das pessoas torne de qualquer maneira imperfeito o acordo das vontades, porque o amor não conhece temor reverencial. De fato amor vem de amar, não de reverenciar... O amor transborda, o amor; quando chega, assimila e submete todas as outras afeições. Por isso quem ama, ama e mais nada sabe".
Depois de ter observado que Deus quer ser amado pelos homens, muito mais que temido e reverenciado, acrescenta com agudeza e sagacidade: "Ele (o amor) basta por si só, agrada em si mesmo e por causa de si. É mérito e prêmio de si mesmo. O amor não procura motivo, nem fruto, fora de si. O seu fruto é o seu uso. Amo porque amo, amo para amar. Grande coisa é o amor, desde que recorra ao seu princípio, desde que voltando à sua origem, restituído à sua fonte, sempre dela tome o de que perenemente se alimentar. Entre todos os movimentos, sentimentos e afetos da alma, é só no amor que a criatura pode, embora não adequadamente, corresponder ao seu Autor, ou pagar com o mesmo amor".
Visto que ele próprio várias vezes experimentou, na contemplação e na oração, esse divino amor com o qual nos podemos unir estreitamente a Deus, do seu espírito saem estas palavras abrasadas: "Feliz (a alma) que mereceu ser prevenida com a bênção de tão grande suavidade! Feliz, porque teve a graça de experimentar tão grande abraço de felicidade! Isso não é outra coisa senão amor santo e casto, suave e doce; amor tão sereno como sincero; amor mútuo, íntimo e forte, que une dois não numa carne só, mas num só espírito, faz com que dois já não sejam dois, mas um só, como disse s. Paulo: 'Quem adora a Deus é um só espírito com ele"'.
Embora nem todos possam atingir o cume de tal contemplação divina, de que fala s. Bernardo com sublimes pensamentos e palavras; embora nem todos possam unir-se tão intimamente a Deus, que se sintam unidos ao Sumo Bem como que pelos vínculos de arcano conúbio celestial; todavia, todos podem e devem elevar de vez em quando o espírito das coisas terrenas às celestes, e amar com vontade apaixonada o Supremo Doador de todos os bens.
O contemplativo
Desta divina caridade ninguém falou talvez com tal clareza, elevação e ardor como são Bernardo. "A causa para amar a Deus - assim diz - é o próprio Deus; a medida, amá-lo sem medida". "Onde há amor, não há canseira, mas gosto".
Ele mesmo confessa que o experimentou, quando escreve: "Oh! amor santo e casto! Oh! doce e suave afeto!... Tanto mais doce e suave, porque é todo divino o sentimento que se prova. Experimentá-lo é divinizar-se".E noutro lugar: "É melhor para mim, Senhor, abraçar-te na tribulação e estar contigo na fornalha, do que estar sem ti até mesmo no Céu". Quando, porém, chegou à suma e perfeita caridade, que o uniu em íntimo conúbio com o próprio Deus, então goza de uma alegria e paz tal que não pode haver outra maior: "Oh! lugar do verdadeiro repouso... em que não se vê a Deus como que perturbado pela ira e ocupado em cuidados; mas nele se experimenta a sua vontade bondosa, benévola e perfeita. Essa visão não atemoriza, mas afaga; não excita curiosidade inquieta, mas acalma; não cansa os sentidos, mas tranqüiliza. Aqui realmente repousa-se. Deus tranqüilo dá tranqüilidade em tudo; e vê-lo pacífico é estar em paz".
Todavia esse repouso total não é morte da alma, mas verdadeira vida: "Este sono vital e vigilante ilumina pelo contrário o sentido interior e, sendo repelida a morte, dá a vida eterna. É deveras um sono, que todavia não adormece, mas eleva. É também morte - não receio dizê-lo - visto que o apóstolo elogiando alguns ainda vivos na carne, assim diz: "Estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus".
Esse total repouso do espírito, de que gozamos correspondendo com o nosso ao amor de Deus, e por meio do qual para ele nos voltamos e dirigimos com todo o nosso ser, não nos leva à preguiça nem à inércia, mas a uma álacre, solícita e operosa diligência, com que nos esforçamos por procurar, com a ajuda de Deus, não só a nossa salvação, mas também a dos outros. De fato, tal sublime meditação e contemplação, incitada e estimulada pelo amor divino, "governa os afetos, dirige as ações, corrige os excessos, regula os costumes, aformoseia e põe em ordem a vida, dá enfim a ciência das coisas divinas e humanas... É ela que distingue o que é confuso, une o que está dividido, recolhe o que está espalhado, investiga o que está escondido, procura a verdade, pondera o que é verossímil e descobre a ficção e o artifício. É ela que preordena o que se deve fazer, reflete sobre o que se fez, de maneira que nada fique na mente por corrigir. É ela que na prosperidade, nas contrariedades quase não as sente; uma é fortaleza, a outra prudência".
O homem de ação
E com efeito, embora deseje ficar imerso em tão alta contemplação e suave meditação, que se nutre do espírito divino, todavia o Doutor de Claraval não se fecha na sua cela, que "guardada é suave", mas onde quer que se trate da causa de Deus e da Igreja, está imediatamente presente com o conselho, com a palavra e com a ação. Afirmava de fato que não "deve cada qual viver para si só, mas para todos". De si mesmo, além disso, e dos seus, assim escrevia: "Também aos nossos irmãos, no meio dos quais vivemos, somos devedores, por direito de fraternidade e convívio humano, de conselho e de auxílio".
Quando, porém, com tristeza, via ameaçada ou perseguida nossa santa religião, não se poupava a canseiras, viagens e cuidados para a defender esforçadamente e ajudá-la segundo as suas forças. "Nada daquilo que se revele interesse de Deus - dizia - me é alheio". E ao rei Luís de França escrevia estas corajosas palavras: "Nós, filhos da Igreja, não podemos de forma alguma dissimular as injúrias feitas à nossa mãe, o seu desprezo e os seus direitos conculcados... Certamente estaremos firmes, e combateremos até à morte, se for necessário, pela nossa mãe, com as armas convenientes; não com os escudos e as espadas, mas com as orações e lágrimas diante de Deus".
A Pedro, abade de Cluny: "Glorio-me nas minhas tribulações, se fui considerado digno de sofrer alguma coisa pela Igreja. Esta é na verdade a minha glória que exalta a minha cabeça, o triunfo da Igreja. Com efeito se fomos companheiros na dificuldade, sê-lo-emos também na consolação. Houve que trabalhar e sofrer juntamente com a nossa mãe...".
Quando depois o corpo místico de Jesus Cristo foi perturbado por um cisma tão grave que até os bons estavam hesitantes entre uma e outra parte, ele entregou-se totalmente a compor os dissídios e à feliz reconciliação e união dos espíritos. Visto que os príncipes, por ambição do domínio terreno, estavam divididos por terríveis discórdias, de que podiam derivar graves prejuízos para os povos, fez-se artífice de paz e reconciliador de mútua concórdia. Enfim, pois que os lugares santos da Palestina, que o divino Redentor consagrou com o seu sangue, corriam grande perigo, e estavam expostos à pressão hostil de exércitos estrangeiros, por mandato do sumo pontífice excitou com altas palavras e mais elevada caridade os príncipes e os povos cristãos a uma nova cruzada; se ela não teve êxito feliz, não foi certamente por culpa sua.
E quando a integridade da fé católica e dos costumes, transmitida pelos antigos como herança sagrada, estava exposta a gravíssimos perigos, sobretudo por obra de Abelardo, Arnaldo de Bréscia e Gilberto Porretano, ele, quer com a publicação de escritos cheios de doutrina, quer com laboriosas viagens, tentou tudo o que pode, amparado pela graça divina, para que os erros fossem debelados e condenados, e para que os errantes conforme as suas possibilidades voltassem ao reto caminho e se emendassem.
O defensor da autoridade pontifícia
Como bem sabia que nesta questão não importava tanto a doutrina dos doutores, como a autoridade especialmente do romano pontífice, tratou de interpor tal autoridade, que em dirimir tais questões reconhecia suprema e completamente infalível. Por isso ao nosso predecessor de feliz memória Eugênio III, que fora seu discípulo, escreve estas palavras, que revelam o seu amor e profunda reverência para com ele, unida com aquela liberdade de espírito, que convém aos santos: "O amor não conhece o patrão, conhece o filho mesmo com a tiara... Admoestar-te-ei, portanto, não como mestre, mas como mãe; certamente como alguém que te quer muito".
Dirige-se-lhe, em seguida, com estas ardentes palavras: "Quem és? O sumo sacerdote, o sumo pontífice. És o príncipe dos bispos, o herdeiro dos apóstolos... Pedro por poder, por unção Cristo. És aquele a quem foram entregues as chaves e confiadas as ovelhas. Há também outros porteiros do céu e pastores de rebanhos; mas tu és tanto mais glorioso, quanto maior é a diferença com que herdaste, em comparação dos outros, os dois nomes. Aqueles foram confiados os seus rebanhos, e a cada qual o seu: a ti foram confiados todos, a ti só, na unidade. E não só és pastor dos rebanhos mas único pastor de todos os pastores".E de novo: "Devia sair deste mundo quem quisesse encontrar o que não pertence ao teu cuidado".
Reconhece, porém, aberta e plenamente a infalibilidade do magistério do romano pontífice, quando se trata de coisas de fé e costumes. Quando combate, na verdade, os erros de Abelardo, o qual, "quando fala da Santíssima Trindade, sabe a Ário; quando da graça, sabe a Pelágio; quando sobre a pessoa de Cristo, sabe a Nestório" "ele que... põe graus na Santíssima Trindade, modos na majestade, sucessão numérica na eternidade"(37); e no qual "a razão humana tudo chama a si, nada deixando à fé"(38); não só discute, desfaz e refuta os seus ardis e sofismas, sutis e falazes, mas também escreve ao nosso predecessor de imortal memória Eugênio III, por tal motivo, estas graves palavras: "É mister referir à vossa autoridade apostólica todos os perigos... sobretudo os que dizem respeito à fé. Julgo, pois, justo que se remediem os prejuízos da fé sobretudo onde ela não pode faltar. É esta de fato a prerrogativa da Sé Apostólica... É tempo de reconhecerdes a vossa autoridade, Pai amantíssimo... Nisso realmente fazeis as vezes de Pedro, cuja cadeira ocupais, se confirmais com as vossas admoestações os espíritos hesitantes na fé e se com a vossa autoridade esmagais os seus corruptores".
Força e humildade
Mas de onde esse monge humilde, quase sem recursos humanos, pôde receber a força para superar as mais árduas dificuldades, resolver os mais complicados problemas e dirimir as mais intricadas questões, só se pode compreender se se considera a exímia santidade de vida, que o ornava, unida a um grande amor da verdade. Ardia sobretudo, como dissemos, da mais ardente caridade para com Deus e para com o próximo, que é, como sabeis, veneráveis irmãos, o preceito principal e como que o compêndio de todo o Evangelho; de modo que não só vivia sempre misticamente unido ao Pai celeste, mas nada mais desejava do que lucrar os homens para Cristo, defender os sacrossantos direitos da Igreja e defender com invicta coragem a integridade da fé católica.
No meio de tanta benevolência e estima de que gozava junto dos sumos pontífices, dos povos, não se envaidecia, nem corria atrás da transitória e vã glória dos homens, mas sempre nele resplandecia aquela humildade cristã, que "reúne as outras virtudes... depois de as reunir guarda-as... e conservando-as aperfeiçoa-as"(40); de maneira que "sem ela... nem sequer parecem virtudes".(41) Por isso "a sua alma não foi tentada pelas honras que lhe ofereceram, nem o seu pé se moveu para procurar a glória; nem a tiara e o anel o atraíam mais do que o ancinho e a enxada".(42) E, sujeitando-se a tantas e tão grandes canseiras pela glória de Deus e proveito do nome cristão, professava-se "servo inútil dos servos de Deus"(43), "desprezível inseto" (44) , "árvore estéril"(45), "pecador, cinza...".(46)Alimentava essa humildade cristã e as outras virtudes com a assídua contemplação das coisas celestes, com ardentes orações dirigidas a Deus, com as quais atraia a graça sobrenatural sobre si e sobre os seus empreendimentos e obras.
Seu amor a Jesus
De modo muito especial amava tão ardentemente Jesus Cristo, divino Redentor, que sob sua moção e impulso escrevia belas e elevadas páginas, que ainda hoje causam a admiração de todos e fomentam a piedade do leitor. "O que é que enriquece a alma que medita... dá força às virtudes, faz prosperar os bons e honestos costumes, suscita puros afetos? É árido todo o alimento da alma, se não tiver esse azeite; e insípido, se não for temperado com este sal. Se escreves alguma coisa, não pinto gosto se não leio Jesus. Se discutes e falas, não me agrada, se não ouço Jesus. Jesus é mel na boca, doce melodia no ouvido, alegria no coração. Mas é também medicina. Há no meio de vós alguém triste? Jesus desça ao coração e depois suba aos lábios; e eis que à luz desse nome desaparecem todas as nuvens, volta a serenidade. Cometeu alguém um pecado? Corre desesperado ao laço da morte? Mas se invocar esse nome de vida, não há de sentir imediatamente o respiro vital?... A quem é que, agitado e hesitante nos perigos, a invocação desse nome de força não restituiu imediatamente a confiança e repeliu o medo?... Nada melhor refreia o ímpeto da ira, reprime o tumor da soberba e cura a ferida da inveja...".
O louvor da Mãe de Deus
A esse ardente amor por Jesus Cristo unia-se uma devoção terna e suave à sua excelsa Mãe, que amava e venerava com filial ternura. Tinha tanta confiança no seu poderoso patrocínio, que não receou escrever: "Deus quis que nada recebêssemos que não passe pelas mãos de Maria".(48) E de novo: "Tal é a vontade daquele, que quis que nós tudo tivéssemos por meio de Maria".(49)
E agora apraz-nos, veneráveis irmãos, propor à meditação de todos aquela página, que, sobre os louvores à virgem Mãe de Deus, é talvez a mais bela, a mais ardente, a mais apta a excitar em nós o amor para com ela e a mais útil para fomentar a piedade e para imitar os seus exemplos de virtude: "...Chama-se estrela do mar, e o nome é bem apropriado à Virgem Mãe. Ela na verdade é comparada muito justamente a uma estrela; porque assim como a estrela emite os seus raios, sem se corromper, assim também a Virgem dá à luz o seu Filho sem lesar a sua integridade. Os raios não diminuem a claridade à estrela, nem o Filho à Virgem a sua integridade. Ela é, portanto, aquela nobre estrela que nasceu de Jacó, cujos raios iluminam todo o universo, cujo esplendor brilha no céu e penetra no inferno... É ela, digo, a estrela preclara e exímia, erguida necessariamente sobre este grande e largo mar, que ilumina com os seus méritos e ilustra com seus exemplos. Oh! tu, quem quer que sejas, que te vês mais flutuar à mercê das ondas neste mundo em tempestade do que andar sobre a terra; não tires os olhos do fulgor dessa estrela, se não queres ser submergido pelas tempestades. Se se levantarem os ventos das tentações, se topares nos escolhos das tribulações, olha para a estrela, invoca Maria. Se fores arremessado pelas ondas da soberba, da ambição, da murmuração e da inveja: olha para a estrela, invoca Maria. Se a ira, a avareza ou as atrações da carne sacudirem a barquinha da alma: olha para Maria. Se, perturbado pela enormidade do pecado, cheio de confusão pela fealdade da consciência, cheio de medo pelo horror do juízo, começares a ser devorado pelos abismos da tristeza e do desespero: pensa em Maria. Nos perigos, nas aflições, nas incertezas, pensa em Maria, invoca Maria. Que ela não se afaste da tua boca nem do teu coração; e para obter o auxílio da sua oração, nunca deixes o exemplo da sua vida. Se a segues, não te podes perder; se a invocas, não podes desesperar; se pensas nela, não te podes enganar. Se ela te ampara, não cais; se te protege, não tens que temer; se te guia, não te cansas; se te é propícia, chegas ao fim...".(50)
CONCLUSÃO
Julgamos, pois, que não podíamos terminar melhor esta carta encíclica do que convidando-vos a todos, com as palavras do doutor melífluo, a aumentar cada dia mais a devoção para com a santa Mãe de Deus, e imitar com o maior empenho suas excelsas virtudes, cada qual segundo as peculiares condições da sua vida. Se no século XII graves perigos ameaçavam a Igreja e a humanidade, não menos graves, sem dúvida, ameaçam a nossa época. A fé católica, que dá aos homens o supremo conforto, não raramente afrouxou nos espíritos, mas até em alguns países é áspera e publicamente combatida. E quando a religião cristã é desprezada ou combatida, vê-se infelizmente que a moralidade individual e pública se desvia do reto caminho, e até às vezes, através dos meandros do erro, cai miseramente nos vícios.
À caridade, que é vínculo da perfeição, da concórdia e da paz, substituem-se os ódios, as inimizades e as discórdias.
. Há inquietação, angústia e trepidação no espírito humano; teme-se que, se a luz do Evangelho for pouco a pouco diminuindo e afrouxando em muitos, ou - pior ainda-for rejeitada completamente, desmoronem os próprios alicerces da civilização e da vida doméstica; e dessa forma venham tempos ainda piores e mais infelizes.
Assim como o doutor de Claraval pediu o auxílio da santíssima Virgem e o alcançou para a sua época turbulenta, assim também nós todos, com a mesma constante piedade e oração, devemos alcançar da nossa Mãe divina que para estes graves males, que já avançam ou se temem, impetre de Deus os remédios oportunos; e conceda, com o auxílio divino, benigna e poderosa, que uma sincera, sólida e frutuosa paz brilhe finalmente para a Igreja, para os povos, para as nações.
Sejam esses os abundantes e salutares frutos, que, sob a proteção de s. Bernardo, tragam as celebrações centenárias da sua pia morte; que todos se unam conosco nestas preces e súplicas, e, observando e meditando os exemplos do doutor melífluo, envidem todos os esforços para seguir com boa vontade e zelo as suas pegadas.
34. Desses salutares frutos seja propiciadora a bênção apostólica que a vós, veneráveis irmãos, aos rebanhos que vos foram confiados, e especialmente àqueles que abraçaram a ordem de s. Bernardo, de todo o coração concedemos.
Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 24 de maio, festa do Pentecostes, de 1953, XV ano do nosso pontificado.
PIO PP. XII
Fonte: http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html
As satisfações Criadas.
Adaptação do livro A Vida Interior - de François Sales Pollien
Primeira parte: A Vida que herdamos
Segunda parte: A finalidade da criação
Terceira parte: O ordenamento de minhas relações divinas
Quarta parte: A anterioridade de Deus
Quinta parte: A superioridade de Deus.
Sexta parte: O uso das Criaturas.
Variedade dos prazeres criados:
" Fica entendido: As criaturas são apenas o canal e não a fonte da felicidade que experimento em meu crescimento para Deus. Deus é a fonte, o único princípio da minha felicidade.
Mas as criaturas são ainda portadoras de um outro tipo de satisfações: as satisfações criadas.Elas contém, semeadas para mim pelas mãos do seu Autor, uma variedade infinita de prazeres.: prazeres materiais da vista, do ouvido, do olfato, do paladar e do tato, belezas da natureza e das artes, encantos da música, perfume das flores, sabores dos alimentos, etc. Prazeres morais da família, da amizade, da literatura e da ciência, da descoberta e da contemplação da verdade, prazeres sobrenaturais da oração, das práticas religiosas e dos toques divinos da graça.
Quantos prazeres! E como são variados e extensos!
Que representam eles para Deus que os fez, e qual é a sua função?
A - A gota de óleo:
As criaturas são instrumentos de Deus para nós, Ele destinou a nosso uso. Minha faculdades se desgastam rapidamente e se fatigam, e por isso necessitam da gota de óleo que suaviza, da gota de água que refresca, da lima que aguça. Elas precisam de ânimo e vigor, de entusismo e de força, de destreza e alegria.
Necessitam, pois, segundo extensão e as exigências de seus deveres, dessa alegria do Senhor que é a sua força. (Ne 8,10). Quando as engrenagens da alma estão lubrificadas e engraxadas, os lábios cantam com alegria e facilidade os louvores de Deus. (Sl 62,6). Eis portanto o papel desse óleo de alegria, colocado por Deus nas criaturas, a serviço das almas que querem amar a justiça e odiar a iniquidade (Sl 44,8).
B - Antes e depois do pecado:
No plano divino inicial, todas as criaturas eram instrumentos, nenhuma era obstáculo; e cada uma trazia consigo sua gota de óleo, isto é, sua alegria, que tornava mais fácil o seu uso em função de Deus. Infelizmente, porém, o pecado transtornou essa ordem perfeita; encontramos obstáculos a cada passo e dores a cada momento.
Deus não havia feito nem os obstáculos, nem as dores; elas são consequências do pecado. Ao restaurar a ordem degradada Jesus Cristo não suprimiu os obstáculos, nem as dores, mas deu a ambos uma utilidade, que estudaremos mais adiante.
Apesar do pecado, ainda restam múltiplos prazeres, que não deixam faltar totalmente o óleo da alegria às minhas faculdades. Em toda parte onde há deveres a cumprir, encontro também instrumentos suficientes, com frequência portadores da doçura que facilita seu uso - Assim, por que existe o prazer da família? - Para facilitar aos pais e aos filhos o grande dever da educação. - Por que o prazer da amizade? - Para impulsionar para o bem as almas unidas por seus laços - Por que o prazer dos alimentos: - Para me ajudar a responder ao dever fundamental da conservação corporal. - Por que o prazer da oração, dos sacramentos e dos favores espirituais?- Para favorecer o grande e sagrado dever das relações divinas.
O prazer sempre responde a um dever, para facilitar o seu cumprimento e será tanto mais intenso, quanto mais importante for o dever.
C - Prazer unicamente instrumental:
Esse prazer é, pois, verdadeiramente uma satisfação, já que responde a uma necessidade. das minhas faculdades e satisfaz essa necessidade. Mas é uma satisfação apenas instrumental, da qual devo me servir e não uma satisfação final, na qual eu possa descansar. É um meio e não um fim.
Quando digo que sou feito para a felicidade e que a felicidade é o fim secundário da minha existência, não me refiro, de forma alguma, a esse prazer que me vem das criaturas. Nestas não há para mim, nenhum vestígio de finalidade; minha finalidade e felicidade estão em Deus e as criaturas contém unicamente meios.
Quando alguém se engana a respeito do prazer criado e vive para desfruta-lo, isso transforma terrivelmente o plano divino. Tal transtorno infelizmente é muito frequente! É sobre este ponto que me engano, cada vez que saio da ordem. - ou seja, é uma desordem.
O prazer é bom, certamente, quando eu uso de forma ordenada. Quando dele abuso, torna-se o pior de forma ordenada. Quando dele abuso, torna-se o pior dos males e a fonte de minhas aberrações. Feliz o homem que dele se serve! Oxalá eu aprenda a nunca perverter o pensamento de Deus. Se o prazer não é mau em si, o seu abuso pode terna-lo mau.
Todo prazer que serve para facilitar o cumprimento do dever é sadio, fortifica e eleva. Quando contraria o dever torna-se pernicioso, deletério, aviltante. No primeiro caso alimenta as virtudes, no segundo, produz monstros. Cabe a mim decidir como utiliza-los, mas é preciso que seja sempre com moderação, uma vez que, depois do pecado original, as satisfações mais legítimas - e sobretudo as dos sentidos - tornaram-se um perigo.
Não somente elas correm o risco de assumir o primeiro plano na intenção, como também é difícil, para quem enelas toma gosto, desejar apenas as que são legítimas; quem se deixa escorregar pelo declive de sua natureza decaída, logo buscará também as demais.
Para manter o controle sobre nossas inclinações, é preciso dirigi-las com rédeas curtas. Dai vem a necessidade de mortificação, para levar um vida verdadeiramente cristã e essa necessidade será ainda maior na medida que buscamos a santidade e esforçar-nos para amar a Deus de todo coração, despojando-nos de qualquer apego às satisfações criadas.
Depois veremos: O ordenamento de minhas relações com as criaturas.
Estudo sobre Mortificação AQUI
Primeira parte: A Vida que herdamos
Segunda parte: A finalidade da criação
Terceira parte: O ordenamento de minhas relações divinas
Quarta parte: A anterioridade de Deus
Quinta parte: A superioridade de Deus.
Sexta parte: O uso das Criaturas.
Variedade dos prazeres criados:
" Fica entendido: As criaturas são apenas o canal e não a fonte da felicidade que experimento em meu crescimento para Deus. Deus é a fonte, o único princípio da minha felicidade.
Mas as criaturas são ainda portadoras de um outro tipo de satisfações: as satisfações criadas.Elas contém, semeadas para mim pelas mãos do seu Autor, uma variedade infinita de prazeres.: prazeres materiais da vista, do ouvido, do olfato, do paladar e do tato, belezas da natureza e das artes, encantos da música, perfume das flores, sabores dos alimentos, etc. Prazeres morais da família, da amizade, da literatura e da ciência, da descoberta e da contemplação da verdade, prazeres sobrenaturais da oração, das práticas religiosas e dos toques divinos da graça.
Quantos prazeres! E como são variados e extensos!
Que representam eles para Deus que os fez, e qual é a sua função?
A - A gota de óleo:
As criaturas são instrumentos de Deus para nós, Ele destinou a nosso uso. Minha faculdades se desgastam rapidamente e se fatigam, e por isso necessitam da gota de óleo que suaviza, da gota de água que refresca, da lima que aguça. Elas precisam de ânimo e vigor, de entusismo e de força, de destreza e alegria.
Necessitam, pois, segundo extensão e as exigências de seus deveres, dessa alegria do Senhor que é a sua força. (Ne 8,10). Quando as engrenagens da alma estão lubrificadas e engraxadas, os lábios cantam com alegria e facilidade os louvores de Deus. (Sl 62,6). Eis portanto o papel desse óleo de alegria, colocado por Deus nas criaturas, a serviço das almas que querem amar a justiça e odiar a iniquidade (Sl 44,8).
B - Antes e depois do pecado:
No plano divino inicial, todas as criaturas eram instrumentos, nenhuma era obstáculo; e cada uma trazia consigo sua gota de óleo, isto é, sua alegria, que tornava mais fácil o seu uso em função de Deus. Infelizmente, porém, o pecado transtornou essa ordem perfeita; encontramos obstáculos a cada passo e dores a cada momento.
Deus não havia feito nem os obstáculos, nem as dores; elas são consequências do pecado. Ao restaurar a ordem degradada Jesus Cristo não suprimiu os obstáculos, nem as dores, mas deu a ambos uma utilidade, que estudaremos mais adiante.
Apesar do pecado, ainda restam múltiplos prazeres, que não deixam faltar totalmente o óleo da alegria às minhas faculdades. Em toda parte onde há deveres a cumprir, encontro também instrumentos suficientes, com frequência portadores da doçura que facilita seu uso - Assim, por que existe o prazer da família? - Para facilitar aos pais e aos filhos o grande dever da educação. - Por que o prazer da amizade? - Para impulsionar para o bem as almas unidas por seus laços - Por que o prazer dos alimentos: - Para me ajudar a responder ao dever fundamental da conservação corporal. - Por que o prazer da oração, dos sacramentos e dos favores espirituais?- Para favorecer o grande e sagrado dever das relações divinas.
O prazer sempre responde a um dever, para facilitar o seu cumprimento e será tanto mais intenso, quanto mais importante for o dever.
C - Prazer unicamente instrumental:
Esse prazer é, pois, verdadeiramente uma satisfação, já que responde a uma necessidade. das minhas faculdades e satisfaz essa necessidade. Mas é uma satisfação apenas instrumental, da qual devo me servir e não uma satisfação final, na qual eu possa descansar. É um meio e não um fim.
Quando digo que sou feito para a felicidade e que a felicidade é o fim secundário da minha existência, não me refiro, de forma alguma, a esse prazer que me vem das criaturas. Nestas não há para mim, nenhum vestígio de finalidade; minha finalidade e felicidade estão em Deus e as criaturas contém unicamente meios.
Quando alguém se engana a respeito do prazer criado e vive para desfruta-lo, isso transforma terrivelmente o plano divino. Tal transtorno infelizmente é muito frequente! É sobre este ponto que me engano, cada vez que saio da ordem. - ou seja, é uma desordem.
O prazer é bom, certamente, quando eu uso de forma ordenada. Quando dele abuso, torna-se o pior de forma ordenada. Quando dele abuso, torna-se o pior dos males e a fonte de minhas aberrações. Feliz o homem que dele se serve! Oxalá eu aprenda a nunca perverter o pensamento de Deus. Se o prazer não é mau em si, o seu abuso pode terna-lo mau.
Todo prazer que serve para facilitar o cumprimento do dever é sadio, fortifica e eleva. Quando contraria o dever torna-se pernicioso, deletério, aviltante. No primeiro caso alimenta as virtudes, no segundo, produz monstros. Cabe a mim decidir como utiliza-los, mas é preciso que seja sempre com moderação, uma vez que, depois do pecado original, as satisfações mais legítimas - e sobretudo as dos sentidos - tornaram-se um perigo.
Não somente elas correm o risco de assumir o primeiro plano na intenção, como também é difícil, para quem enelas toma gosto, desejar apenas as que são legítimas; quem se deixa escorregar pelo declive de sua natureza decaída, logo buscará também as demais.
Para manter o controle sobre nossas inclinações, é preciso dirigi-las com rédeas curtas. Dai vem a necessidade de mortificação, para levar um vida verdadeiramente cristã e essa necessidade será ainda maior na medida que buscamos a santidade e esforçar-nos para amar a Deus de todo coração, despojando-nos de qualquer apego às satisfações criadas.
Depois veremos: O ordenamento de minhas relações com as criaturas.
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segunda-feira, 11 de agosto de 2014
Lembranças de Minha Vida
Por Bento XVI
Primeira parte: Aqui
Segunda parte: Aqui
( Casa onde nasceu Bento XVI)
"Não se comungava tão frequentemente como hoje, mas havia datas marcadas para que todos recebessem os sacramentos, e a isso dificilmente alguém se subtraía; quem não pudesse mostrar sua ficha de confissão pascal era considerado um paria.
Quando hoje se diz que tudo isso era muito formal e superficial, reconheço de bom grado que, sem dúvida, não poucas pessoas agiam mais por coação social do que por convicção interna. Todavia, não deixava de ter valor que na Páscoa também os fazendeiros, que a bem dizer eram grandes proprietários, tivessem que se ajoelhar no confessionário e acusar-se como pecadores, exatamente como seus empregados e empregadas, que naquele tempo ainda eram numerosos. Esse momento de auto humilhação, em que todas as distinções de classe caíam, certamente não era totalmente sem efeito.
O ano litúrgico imprimia seu ritmo ao tempo, e desde criança, aliás especialmente como criança, senti isso com muita gratidão e alegria. No Advento, as missas em honra dos anjos eram celebradas muito festivamente, de manhã cedinho, em uma igreja escura, iluminada apenas por velas. A alegre expectativa do Natal dava àqueles dias escuros um caráter todo especial. Todos os anos nosso presépio ganhava mais algumas figuras, e era sempre uma alegria especial buscar no mato, com nosso pai, o musgo, o zimbro e os galhos de pinheiro.
Nas quintas-feiras da Quaresma realizavam-se as comemorações do Monte das Oliveiras; sua seriedade e confiante esperança sempre me penetravam profundamente na alma. Especialmente impressionante era, depois, na noite do Sábado Santo, a celebração da ressurreição.
Durante toda a Semana Santa, cortinas pretas cobriam as janelas da igreja, deixando todo aquele espaço, também durante o dia, em uma misteriosa penumbra. Quando o vigário cantava as palavras: “Cristo ressuscitou”, as cortinas de repente eram recolhidas e uma luz radiante fluía pelo espaço. Era a mais impressionante representação da ressurreição do Senhor de que posso me lembrar.
O movimento litúrgico, que naquele tempo chegou a seu auge, não deixou de atingir também nossa aldeia. O pároco começou a organizar missas comunitárias para a meninada da escola; os textos da missa eram lidos do “Schott”, e todos juntos rezavam as respostas.
O que era o “Schott”?
No fim do século XIX, Anselm Schott, um beneditino de Beuron, tinha traduzido o missal para o alemão. Havia edições com o texto apenas em alemão; outras em que somente alguns trechos estavam impressos em latim e em alemão; e outras que traziam todo o texto em latim, com a tradução alemã ao lado. Um vigário progressista deu o “Schott” de presente a meus pais no dia de seu casamento, em 1920; assim, esse livro de orações esteve presente em nossa família desde o começo.
Nossos pais ajudaram-nos desde cedo a nos familiarizar com a liturgia: havia um livro de orações para crianças que se apoiava no missal, e no qual os momentos sucessivos do ato sagrado eram representados por imagens, de sorte que era fácil acompanhar o que estava acontecendo.
Ao lado havia sempre uma oração em que o essencial das diversas fases da liturgia estava resumido e acessível para a oração de uma criança. Algum tempo depois, ganhei um “Schott” para crianças, no qual os textos essenciais da liturgia já estavam impressos; em seguida, o “Schott” dominical, em que a liturgia dos domingos e dias de festa já estava completamente reproduzida; finalmente, o missal completo para todos os dias.
Cada novo degrau no acesso à liturgia era, para mim, um grande acontecimento. Cada livro novo me era uma preciosidade, e eu não podia sonhar com nada mais lindo. Foi para mim uma aventura cativante esse lento acesso ao misterioso mundo da liturgia, que lá no altar, diante de nós, se realizava.
Tornou-se cada vez mais claro para mim que eu me encontrava aí diante de uma realidade que não foi inventada por uma pessoa qualquer, e não havia sido criada por uma autoridade ou grande personagem. Essa misteriosa fusão de textos e ações tinha nascido da fé da Igreja, através dos séculos.
. Carregava dentro de si o peso de toda a história, mas era, ao mesmo tempo, muito mais do que um produto da história humana. Cada século tinha contribuído com seus vestígios. As introduções nos ensinavam o que tinha vindo da Igreja primitiva, da Idade Média, dos tempos modernos.
Nem tudo era lógico.Tudo era bastante complicado; nem sempre era fácil a gente se orientar. Mas exatamente por isso aquela estrutura era maravilhosa, e nos sentíamos em casa.
Como criança, eu naturalmente não percebi tudo isso em detalhe, mas meu caminho com a liturgia foi um processo contínuo de crescimento, penetrando numa grandiosa realidade, que supera todas as individualidades e gerações, o que me levava a sempre renovadas surpresas e descobertas.
A inesgotável realidade da liturgia católica acompanhou-me em todas as fases de minha vida; por isso, não posso deixar de voltar continuamente a esse assunto.
O Comunismo e a destruição da Família
Por Orlando Figes
Livro: Sussurros
Resumo de uma parte do Capítulo: Crianças de 1917.
"Declarou Stalin em 1926: 'As atitudes e os hábitos que herdamos da antiga sociedade são os inimigos mais perigosos do socialismo'. Anatoly Lunacharsky escreveu em 1927: ' A dita esfera da vida privada não pode nos escapar, porque é precisamente nela que o objetivo final da revolução deve ser alcançado'.
A família foi a primeira arena na qual os bolcheviques começaram a luta. Na década de 1920, eles consideravam a nocividade social da 'família burguesa' uma verdade inquestionável: ela olhava para dentro de si própria e era conservadora, uma fortaleza da religião, da superstição, da ignorância e do preconceito; ela fomentava o egotismo e as aquisições materiais, além de oprimir mulheres e crianças.
Os bolcheviques esperavam que a família desaparecesse conforme a Rússia se desenvolvesse até se transformar em um sistema totalmente socialista, no qual o Estado assumiria a responsabilidade por todas as funções básicas do lar, oferecendo creches, lavanderias e refeitórios em centros públicos e em prédios residenciais. Liberadas do trabalho em casa, as mulheres ficariam livres para ingressar na força de trabalho em um nível igual ao dos homens. O casamento patriarcal, com suas correspondentes morais sexuais, morreria - para ser substituído, acreditavam os radicais, por 'uniões livres de amor'.
Para os bolcheviques as famílias eram o maior obstáculo à socialização das crianças. 'Por amar a criança, a família a torna um ser egotista, encorajando-a a ver-se como o centro do universo', escreveu a pensadora educacional soviética. Teóricos bolcheviques concordavam com a necessidade esse amor egotista pelo amor racional de uma 'família social'mais ampla. O ABC do comunismo (1919) vislumbrava uma sociedade futura na qual os pais deixariam de utilizar a palavra 'eu'em referência a um filho, pois se importariam com todas as crianças na comunidade.
Para acelerar a desintegração da família várias estratégias foram tomadas, como forçar as famílias ricas a dividirem seus apartamentos com os pobres urbanos. Os proprietários ocupavam os cômodos principais, enquanto os quartos dos fundos eram ocupados por outras famílias. A política tinha um apelo ideológico forte não somente como uma guerra contra o privilégio, como foi apresentada na propaganda do novo regime: 'Guerra contra os palácios!, mas também como parte da cruzada para projetar um modo de vida mais coletivo.
Para eles, desaparecendo o espaço e a propriedade privada, a família individual burguesa, seria substituída pela fraternidade e por oraganizações comunistas e a vida do indivíduo passaria a ser imersa na comundade.
A partir da metade da decada de 1920 os arquitetos construtivistas propuseram a obliteração completa da esfera privada construindo 'casas comunais', nas quais toda a propriedade, incluindo roupas e roupas intimas seriam compartilhadas, onde tarefas domésticas seriam designadas rotativamente a grupos e onde todos dormiriam em um grande dormitório, dividido por gênero, com quartos particulares para práticas sexuais.
O Novo Código da Casamento e da Família (1918) estabeleceu uma estrutura legislativa que visava claramente facilitar a ruptura da família tradicional, removendo a influência da Igreja sobre o casamento e o divórcio, tornando-os simples processos de registro com o Estado, e assegurando direitos legais iguais aos casamentos de facto (casais vivendo juntos) e aos casamentos legais. O Código tornou o divórcio acessível para todos. Resultado: maior indice de divorcios do mundo - à medida que o colapso da ordem cristã - patriarcal e o caos dos anos revolucionarios afrouxaram a moral sexual e os laços familiares e comunais.
Nos primeiros anos do poder soviético, a ruptura familiar era tão comum entre os ativistas revolucionários que quase constituía um risco do trabalho. Relações casuais eram praticamente a norma nos círculos bolcheviques, quando qualer camarada podia ser enviado de uma hora para outra para algum setor diante do front.
Os ativistas do partido e os jovens participantes da Liga Jovem Comunista eram ensinados a colocar o o compromentimento com o proletariado acima do amor romântico ou da família. A promiscuidade sexual era mais acentuada nos escalões jovens do que entre a juventude soviética de modo geral. Muitos viam a licença sexual como uma forma de libertação de convenções morais burguesas e um sinal da " modernidade soviética". Alguns até defendiam a promiscuidade como um modo de reagir à formação de relações burguesas bígamas que separavam os amantes do coletivo e os afastavam da lealdade do Partido.
Era comum que os bolcheviques fossem maus pais e maridos porque a exigências do patido os afastavam de casa. " Nós comunistas, não conhecemos nossas próprias famílias", observou um bolchevique de Moscou." Você sai cedo e chega tarde em casa. Você vê a esposa raramente e quase nunca vê os filhos"
Depois continuamos.
Na foto abaixo vemos crianças que sofreram os horrores do comunismo, com sua fome e suas desgraças. No comunismo todo mundo é igual, na miséria e na fome. Que Deus tenha misericórdia de nós e do mundo inteiro.
Livro: Sussurros
Resumo de uma parte do Capítulo: Crianças de 1917.
"Declarou Stalin em 1926: 'As atitudes e os hábitos que herdamos da antiga sociedade são os inimigos mais perigosos do socialismo'. Anatoly Lunacharsky escreveu em 1927: ' A dita esfera da vida privada não pode nos escapar, porque é precisamente nela que o objetivo final da revolução deve ser alcançado'.
A família foi a primeira arena na qual os bolcheviques começaram a luta. Na década de 1920, eles consideravam a nocividade social da 'família burguesa' uma verdade inquestionável: ela olhava para dentro de si própria e era conservadora, uma fortaleza da religião, da superstição, da ignorância e do preconceito; ela fomentava o egotismo e as aquisições materiais, além de oprimir mulheres e crianças.
Os bolcheviques esperavam que a família desaparecesse conforme a Rússia se desenvolvesse até se transformar em um sistema totalmente socialista, no qual o Estado assumiria a responsabilidade por todas as funções básicas do lar, oferecendo creches, lavanderias e refeitórios em centros públicos e em prédios residenciais. Liberadas do trabalho em casa, as mulheres ficariam livres para ingressar na força de trabalho em um nível igual ao dos homens. O casamento patriarcal, com suas correspondentes morais sexuais, morreria - para ser substituído, acreditavam os radicais, por 'uniões livres de amor'.
Para os bolcheviques as famílias eram o maior obstáculo à socialização das crianças. 'Por amar a criança, a família a torna um ser egotista, encorajando-a a ver-se como o centro do universo', escreveu a pensadora educacional soviética. Teóricos bolcheviques concordavam com a necessidade esse amor egotista pelo amor racional de uma 'família social'mais ampla. O ABC do comunismo (1919) vislumbrava uma sociedade futura na qual os pais deixariam de utilizar a palavra 'eu'em referência a um filho, pois se importariam com todas as crianças na comunidade.
Para acelerar a desintegração da família várias estratégias foram tomadas, como forçar as famílias ricas a dividirem seus apartamentos com os pobres urbanos. Os proprietários ocupavam os cômodos principais, enquanto os quartos dos fundos eram ocupados por outras famílias. A política tinha um apelo ideológico forte não somente como uma guerra contra o privilégio, como foi apresentada na propaganda do novo regime: 'Guerra contra os palácios!, mas também como parte da cruzada para projetar um modo de vida mais coletivo.
Para eles, desaparecendo o espaço e a propriedade privada, a família individual burguesa, seria substituída pela fraternidade e por oraganizações comunistas e a vida do indivíduo passaria a ser imersa na comundade.
A partir da metade da decada de 1920 os arquitetos construtivistas propuseram a obliteração completa da esfera privada construindo 'casas comunais', nas quais toda a propriedade, incluindo roupas e roupas intimas seriam compartilhadas, onde tarefas domésticas seriam designadas rotativamente a grupos e onde todos dormiriam em um grande dormitório, dividido por gênero, com quartos particulares para práticas sexuais.
O Novo Código da Casamento e da Família (1918) estabeleceu uma estrutura legislativa que visava claramente facilitar a ruptura da família tradicional, removendo a influência da Igreja sobre o casamento e o divórcio, tornando-os simples processos de registro com o Estado, e assegurando direitos legais iguais aos casamentos de facto (casais vivendo juntos) e aos casamentos legais. O Código tornou o divórcio acessível para todos. Resultado: maior indice de divorcios do mundo - à medida que o colapso da ordem cristã - patriarcal e o caos dos anos revolucionarios afrouxaram a moral sexual e os laços familiares e comunais.
Nos primeiros anos do poder soviético, a ruptura familiar era tão comum entre os ativistas revolucionários que quase constituía um risco do trabalho. Relações casuais eram praticamente a norma nos círculos bolcheviques, quando qualer camarada podia ser enviado de uma hora para outra para algum setor diante do front.
Os ativistas do partido e os jovens participantes da Liga Jovem Comunista eram ensinados a colocar o o compromentimento com o proletariado acima do amor romântico ou da família. A promiscuidade sexual era mais acentuada nos escalões jovens do que entre a juventude soviética de modo geral. Muitos viam a licença sexual como uma forma de libertação de convenções morais burguesas e um sinal da " modernidade soviética". Alguns até defendiam a promiscuidade como um modo de reagir à formação de relações burguesas bígamas que separavam os amantes do coletivo e os afastavam da lealdade do Partido.
Era comum que os bolcheviques fossem maus pais e maridos porque a exigências do patido os afastavam de casa. " Nós comunistas, não conhecemos nossas próprias famílias", observou um bolchevique de Moscou." Você sai cedo e chega tarde em casa. Você vê a esposa raramente e quase nunca vê os filhos"
Depois continuamos.
Na foto abaixo vemos crianças que sofreram os horrores do comunismo, com sua fome e suas desgraças. No comunismo todo mundo é igual, na miséria e na fome. Que Deus tenha misericórdia de nós e do mundo inteiro.
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
São Domingos de Gusmão
Por Bento XVI
" Gostaria de vos falar de um santo que ofereceu uma contribuição fundamental para a renovação da Igreja do seu tempo. Trata-se de São Domingos, fundador da Ordem dos Pregadores, também conhecidos como Padres Pregadores.
O seu sucessor na orientação da Ordem, Beato Jordão da Saxónia, oferece um retrato completo de São Domingos no texto de uma oração famosa: "Inflamado de zelo por Deus e de ardor sobrenatural, pela tua caridade sem confins e o fervor do espírito veemente, consagraste-te inteiramente com o voto da pobreza perpétua à observância apostólica e à pregação evangélica". É ressaltada precisamente esta característica fundamental do testemunho de Domingos: ele falava sempre com Deus e de Deus. Na vida dos santos, o amor pelo Senhor e pelo próximo, a busca da glória de Deus e da salvação das almas caminham sempre juntos.
Domingos nasceu em Caleruega, na Espanha, por volta de 1170. Pertencia a uma nobre família da Velha Castilha e, ajudado por um tio sacerdote, formou-se numa célebre escola de Palência. Distinguiu-se imediatamente pelo interesse no estudo da Sagrada Escritura e pelo amor aos pobres, a tal ponto que chegou a vender os livros, que na sua época constituíam um bem de grande valor, para socorrer com o lucro as vítimas de uma carestia.
Tendo sido ordenado sacerdote, foi eleito cónego do cabido da Catedral na sua Diocese de origem, Osma. Embora esta nomeação pudesse representar para ele algum motivo de prestígio na Igreja e na sociedade, ele não a interpretou como um privilégio pessoal, nem como o início de uma carreira eclesiástica brilhante, mas como um serviço a prestar com dedicação e humildade. Não é porventura uma tentação, a da carreira, do poder, uma tentação da qual não estão imunes nem sequer aqueles que desempenham um papel de animação e de governo na Igreja? Recordei-o há alguns meses, durante a consagração de alguns Bispos: "Não procuremos o poder, o prestígio e a estima para nós mesmos... Sabemos como as coisas na sociedade civil e, com frequência, também na Igreja sofrem pelo facto de que muitos deles, aos quais foi conferida uma responsabilidade, trabalham para si mesmos e não para a comunidade" (Homilia durante a Capela Papal para a Ordenação episcopal de cinco Excelentíssimos Prelados, 12 de Setembro de 2009).
O Bispo de Osma, que se chamava Diogo, um pastor verdadeiro e zeloso, observou depressa as qualidades espirituais de Domingos, e quis valer-se da sua colaboração. Juntos, partiram para o Norte da Europa a fim de realizar missões diplomáticas que lhes eram confiadas pelo rei de Castilha. Viajando, Domingos descobriu dois desafios enormes para a Igreja do seu tempo: a existência de povos ainda não evangelizados, nas extremidades setentrionais do continente europeu, e a laceração religiosa que debilitava a vida cristã no Sul da França, onde a acção de alguns grupos heréticos criava confusão e o afastamento da verdade da fé.
A acção missionária a favor daqueles que não conheciam a luz do Evangelho e a obra de reevangelização das comunidades cristãs tornaram-se assim as metas apostólicas que Domingos se propôs alcançar. O Papa, que o Bispo Diogo e Domingos visitaram para pedir conselho, pediu a este último que se dedicasse à pregação aos Albigenses, um grupo herético que defendia uma concepção dualista da realidade, ou seja, com dois princípios criadores igualmente poderosos, o Bem e o Mal. Por conseguinte, este grupo desprezava a matéria como proveniente do princípio do mal, rejeitando até o matrimónio, chegando mesmo a negar a encarnação de Cristo, os sacramentos em que o Senhor nos "toca" através da matéria, e a ressurreição dos corpos. Os Albigenses apreciavam a vida pobre e austera – neste sentido, eram também exemplares – e criticavam a riqueza do Clero daquela época.
Domingos aceitou com entusiasmo esta missão, que realizou precisamente com o exemplo da sua existência pobre e austera, com a pregação do Evangelho e com debates públicos. A esta missão de pregar a Boa Nova ele dedicou o resto da sua vida. Os seus filhos teriam realizado inclusive os outros sonhos de São Domingos: a missão ad gentes, ou seja, àqueles que ainda não conheciam Jesus, e a missão àqueles que viviam nas cidades, sobretudo nas universitárias, onde as novas tendências intelectuais eram um desafio para a fé dos cultos.
Este grande santo recorda-nos que no coração da Igreja deve sempre arder um fogo missionário, que impele incessantemente a fazer o primeiro anúncio do Evangelho e, onde for necessário, a uma nova evangelização: com efeito, Cristo é o bem mais precioso que os homens e as mulheres de todos os tempos e lugares têm o direito de conhecer e de amar! E é consolador ver que até na Igreja de hoje são muitos – pastores e fiéis leigos, membros de antigas ordens religiosas e de novos movimentos eclesiais – que com alegria despendem a sua vida por este ideal supremo: anunciar e testemunhar o Evangelho!
Depois, a Domingos de Gusmão uniram-se outros homens, atraídos pela mesma aspiração. Deste modo, progressivamente, da primeira fundação de Toulouse teve origem a Ordem dos Pregadores. Com efeito, Domingos em plena sintonia com as directrizes dos Papas do seu tempo, Inocêncio III, Honório III, adoptou a antiga Regra de Santo Agostinho, adaptando-a às exigências de vida apostólica que o levaram, bem como os seus companheiros, a pregar passando de um lugar para outro, mas depois voltando aos próprios conventos, lugares de estudo, oração e vida comunitária. De modo particular, Domingos quis dar relevo a dois valores considerados indispensáveis para o bom êxito da missão evangelizadora: a vida comunitária na pobreza e o estudo.
Antes de tudo, Domingos e os Padres Pregadores apresentavam-se como mendicantes, isto é, sem vastas propriedades de terrenos para administrar. Este elemento tornava-os mais disponíveis ao estudo e à pregação itinerante, e constituía um testemunho concreto para as pessoas. O governo interno dos conventos e das províncias dominicanas estruturou-se segundo o sistema de cabidos, que elegiam os seus próprios Superiores, sucessivamente confirmados pelos Superiores maiores; portanto, uma organização que estimulava a vida fraterna e a responsabilidade de todos os membros da comunidade, exigindo fortes convicções pessoais.
A escolha deste sistema nascia precisamente do facto que os Dominicanos, como pregadores da verdade de Deus, tinham que ser coerentes com quanto anunciavam. A verdade estudada e compartilhada na caridade com os irmãos constitui o fundamento mais profundo da alegria. O Beato Jordão da Saxónia diz de São Domingos: "Ele acolhia cada homem no grande seio da caridade e, dado que amava todos, todos o amavam. Fez para si uma lei pessoal de se alegrar com as pessoas felizes e de chorar com aqueles que choravam" (Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum autore Iordano de Saxonia, ed. H. C. Scheeben [Monumenta Historica Sancti Patris Nostri Dominici, Romae, 1935]).
Em segundo lugar, com um gesto intrépido, Domingos quis que os seus seguidores adquirissem uma formação teológica sólida e não hesitou em enviá-los às Universidades dessa época, embora não poucos eclesiásticos vissem com desconfiança estas instituições culturais. As Constituições da Ordem dos Pregadores atribuem muita importância ao estudo como preparação para o apostolado. Domingos queria que os seus Padres se dedicassem a isto sem poupar esforços, com diligência e piedade; um estudo fundado na alma de todo o saber teológico, ou seja, na Sagrada Escritura, e respeitador das interrogações formuladas pela razão. O desenvolvimento da cultura impõe àqueles que desempenham o ministério da Palavra, a vários níveis, que sejam bem preparados.
Domingos, que quis fundar uma Ordem religiosa de pregadores-teólogos, lembra-nos que a teologia tem uma dimensão espiritual e pastoral, que enriquece a alma e a vida. Os presbíteros, os consagrados e também todos os fiéis podem encontrar uma profunda "alegria interior" na contemplação da beleza da verdade que vem de Deus, verdade sempre actual e viva. O lema dos Padres Pregadores – contemplata aliis tradere – ajuda-nos a descobrir, além disso, um anseio pastoral no estudo contemplativo de tal verdade, pela exigência de comunicar aos outros o fruto da própria contemplação.
Quando Domingos faleceu, em 1221 em Bolonha, a cidade que o declarou padroeiro, a sua obra já tinha alcançado grande sucesso. A Ordem dos Pregadores, com o apoio da Santa Sé, difundiu-se em muitos países da Europa, em benefício da Igreja inteira. Domingos foi canonizado em 1234, e é ele mesmo que, com a sua santidade, nos indica dois meios indispensáveis a fim de que acção apostólica seja incisiva. Em primeiro lugar, a devoção mariana, que ele cultivou com ternura e deixou como herança preciosa aos seus filhos espirituais, que na história da Igreja tiveram o grande mérito de difundir a recitação do santo Rosário, tão querida ao povo cristão e tão rica de valores evangélicos, uma autêntica escola de fé e de piedade. Em segundo lugar Domingos, que assumiu o cuidado de alguns mosteiros femininos na França e em Roma, acreditou até ao fundo no valor da oração de intercessão pelo bom êxito do afã apostólico. Só no Paraíso compreenderemos quão eficazmente a oração das irmãs claustrais acompanham a obra apostólica! A cada uma delas dirijo o meu pensamento grato e carinhoso.
Estimados irmãos e irmãs, a vida de Domingos de Gusmão estimule todos nós a sermos fervorosos na oração, corajosos na vivência da fé e profundamente apaixonados por Jesus Cristo. Por sua intercessão, peçamos a Deus que enriqueça sempre a Igreja com autênticos pregadores do Evangelho.
Para ver como São Domingos recebeu o Rosário de Nossa Senhora, leia AQUI
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