segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Natividade da Santíssima Virgem

Beato Guerric de Igny (c. 1080-1157), abade cisterciense
1º sermão para a Natividade de Maria


"Hoje nasceu a Virgem de quem quis nascer a salvação de todos, para dar àqueles que nasciam para morrer a possibilidade de renascerem para a vida.

 Hoje nasceu a nossa nova mãe, que apagou a maldição de Eva, nossa primeira mãe. Assim, através dela, somos herdeiros da bênção, nós, que por causa da primeira mãe tínhamos nascido sob a antiga maldição.

Sim, Ela é na verdade uma nova mãe, uma mãe que renovou a juventude dos filhos envelhecidos, que curou o mal dum envelhecimento hereditário e de todas as outras formas de envelhecimento que lhe tinham sido acrescentadas.

 Sim, Ela é na verdade uma nova mãe, que dá à luz um filho através dum prodígio novo, permanecendo virgem, Ela é a que deu ao mundo Aquele que criou o mundo."

domingo, 7 de setembro de 2014

União e concórdia no seio das famílias


Por sua santidade Papa João XXIII



"Finalmente exortamos instante e paternalmente todas as famílias a que procurem alcançar e reforçar aquela união e concórdia, a que convidamos os povos, os governantes e todas as classes sociais. Se não há paz, união e concórdia nas famílias, como poderá havê-la na sociedade civil?

Esta ordenada e harmônica união, que deve sempre reinar dentro das paredes domésticas, nasce do vínculo indissolúvel e da santidade própria do matrimônio cristão e contribui imensamente para a ordem, progresso e o bem-estar de toda a sociedade civil.

O pai faça, por assim dizer, as vezes de Deus no lar e oriente, não só com a autoridade, mas também com o exemplo. A mãe, com a delicadeza da alma e a virtude, procure educar forte e suavemente os filhos; para com o marido seja boa e afetuosa; e com ele prepare os filhos, dom preciosíssimo de Deus, para uma vida honesta e religiosa. Os filhos, por sua vez, sejam sempre obedientes aos pais, como devem, amem-nos, consolem-nos e, sendo necessário, ajudem-nos.

Dentro das paredes domésticas reine aquela caridade que abrasava a Sagrada Família de Nazaré, floresçam todas as virtudes cristãs, domine a união dos corações, e brilhe o exemplo duma vida honesta. Não aconteça nunca - como pedimos ardentemente a Deus - que seja perturbada tão bela, suave e necessária concórdia; quando a instituição cristã da família vacila, quando são negados ou violados os mandamentos do Divino Redentor sobre este ponto, então desabam os fundamentos da civilização, a sociedade civil corrompe-se e corre grave perigo com prejuízos incalculáveis para todos os cidadãos.

Fonte: AQUI

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Papa João XXIII e a Família


Por Santo João Paulo II - no Centenário do Nascimento de João XXII


" Se nos perguntamos onde e como adquiriu o Papa João esses dotes de bondade e paternidade, unidas estas a uma fé cristã sempre íntegra e pura, é fácil responder: na família.


Ele mesmo, por toda a sua longa vida e num grandíssimo número de escritos, particulares e oficiais, recorda, comovida e reconhecidamente o seu patriarcal lar doméstico, os anos da meninice e da adolescência, passados num ambiente límpido e sereno, em que o estilo era a graça de Deus, vivida com simplicidade e coerência, a regra de vida era o catecismo e a instrução paroquial, o conforto era a oração, especialmente a Missa festiva e o Terço vespertino, e o empenho quotidiano era a caridade: "Éramos pobres — escrevia o Papa João — mas contentes com a nossa condição, confiados na ajuda da Providência. Quando um mendigo se apresentava à porta da cozinha, onde uns 20 jovens esperavam a tigela de caldo, havia sempre um lugar a mais. A minha mãe apressava-se em mandar sentar o hóspede ao lado de nós" (Giornale dell'anima, IV ed. Appendice).

O Papa João foi verdadeiramente um homem mandado por Deus  e já tinha posto de sobreaviso acerca dos perigos que a ameaçam: "Este santuário — dizia com lágrimas no coração — está ameaçado por muitas insídias. Uma propaganda, por vezes sem limite, serve-se dos poderosos meios da imprensa, do espectáculo e do divertimento para difundir, especialmente na juventude, os germes nefastos da corrupção. É necessário que a família se defenda... Aproveitando também, quando é necessário, a tutela da lei civil .

Por isso, o seu ensinamento permanece válido e perene, porque é a voz da Verdade e é o que no íntimo deseja e espera a alma de cada pessoa. Apraz-me sintetizar esse ensinamento nos seguintes: Cinco "pontos firmes".

— Primeiro de tudo, a sacralidade da família, e portanto também do amor e da sexualidade: "a família é dom de Deus — dizia —, encerra uma vocação que vem do alto, a qual não se improvisa" (idem, Vol. III, p. 67). "Na família dá-se a mais admirável e íntima cooperação do homem com Deus: as duas pessoas humanas criadas à imagem e semelhança divina, são chamadas não só ao grande encargo de continuar e prolongar a obra criadora, dando a vida física a novos seres, a que o Espírito vivificador infunde o vigoroso princípio da vida imortal, mas são chamadas também ao dever mais nobre e que aperfeiçoa o primeiro, isto é, o da educação cívica e cristã da prole" (idem, Vol. II, p. 519). Por motivo desta essencial característica, quis Jesus que o matrimónio fosse 'Sacramento' ".

A moralidade da família. "Não nos deixemos enganar, cegar, iludir — aconselhava com sabedoria cristã e paternal —: a Cruz é sempre a única esperança de salvação; a Lei de Deus está sempre nela, com os seus dez mandamentos a recordar ao mundo que só nela está a salvaguarda das consciências e das famílias, que só na sua observância está o segredo da paz e da tranquilidade de consciência. Quem se esquece disto, embora pareça esquivar qualquer preocupação de seriedade, depressa ou tarde constrói para si a própria tristeza e miséria" (idem, Vol. II, pp. 281-282). E noutra ocasião acrescentava: "O culto da pureza é a honra e o tesouro mais precioso da família cristã" (idem, Vol. IV, p. 897).

A responsabilidade da família. O Papa João tem confiança na obra educativa dos pais, sustentada pela graça divina. Dirigindo-se ás mães dizia: "A voz da mãe, quando anima, convida e repreende, permanece esculpida profundamente no coração dos seus, e não se esquece nunca. Oh, só Deus conhece o bem despertado por esta voz, e a utilidade que ela procura à Igreja e à sociedade humana" (idem, Vol. II, p. 67). E aos pais acrescentava: "Nas famílias — onde o pai reza e tem fé alegre e consciente, frequenta as instruções catequéticas e a elas leva os filhos — não haverá tempestades nem desolações de uma juventude rebelde e sem amor. A nossa palavra quer ser sempre de esperança; mas estamos certo que, nalgumas expressões desconfortantes de vida juvenil, a maior responsabilidade se deve buscar primeiramente naqueles progenitores, especialmente nos pais de família, que fogem dos deveres precisos e graves do seu estado" (idem, Vol. IV, p. 272).

A finalidade da família. Sob este ponto, o Papa João era claro e linear: o fim para que se nasce é a santidade e a salvação, e a família é querida por Deus para este fim. Há vinte anos, na carta-testamento, escrita por ocasião dos seus 80 anos, recordando uma a uma as suas amadas pessoas de família dizia: "Isto é o que mais vale: assegurar cada um a vida eterna confiando na bondade do Senhor que tudo vê e a tudo provê" (3 de Dezembro de 1961). E comentando cada um dos mistérios do Rosário, afirmava que pedia no terceiro mistério gozoso pelas crianças de todas as raças humanas vindas à luz nas últimas 24 horas (idem, Vol. IV, p. 241).

A exemplaridade da família cristã. O Papa João exortava insistentemente os pais e os filhos cristãos a serem exemplo de fé e virtude no mundo moderno, segundo o modelo da Sagrada Família: "O segredo da verdadeira paz — dizia —, do mútuo e duradouro acordo, da docilidade dos filhos, do florescer de costumes delicados, está na imitação continua e generosa da doçura e da modéstia da Família de Nazaré" (idem, Vol. II, pp. 118-119). O Papa João está seguro que destas famílias exemplares podem brotar numerosas e escolhidas vocações sacerdotais e religiosas, apesar das dificuldades dos tempos.

Esta é, em síntese, a doutrina do grande e amável Pontífice, acerca da família, doutrina que soa a condenação clara das teorias e das práticas, que são contra a instituição familiar""

Fonte: AQUI

São Gregório Magno







São Gregório nasceu no ano de 540 em Roma, de família nobre. Ainda muito jovem foi primeiro ministro do governo de Roma. Grande admirador de Sâo Bento, resolveu transformar suas muitas posses em mosteiros. Pouco tempo pode ficar nos mosteiros porque o papa Pelágio o enviou como núncio apostólico em Constantinopla até o ano 585.

Foi feito Papa em 590 e seu pontificado foi até 604. Foi um dos maiores papas que a Igreja já teve. Bossuet considerava-o "Modelo perfeito de como governa a Igreja". Nele encontram-se todas as qualidades do homem de governo, o senso do dever, da medida e da dignidade.

Até nós chegaram 848 se suas cartas e muitas de suas homilias. Promoveu na liturgia o canto "gregoriano". Profunda influencia exerceram os seus escritos:"Vida de São Bento" e "Regra Pastoral", válido ainda hoje.

Morreu em 12 de março de 604 e sua festa liturgica é no dia 3 de setembro.

Ensinamentos de São Gregório Magno:

-"Cada qual suporta o próximo na medida que o ama".

-"Quando uma alma olha para Deus toda a natureza lhe parece insignificante".

-"Diante dos homens é virtude suportar os inimigos, mas diante de Deus a virtude é ama-los".

-"O sacrifício do altar será para nós uma Hóstia (vítima) verdadeiramente aceita a Deus, quando nós mesmos nos fizermos vítimas".

-"Nosso Redentor mostrou-se como uma só pessoa com a santa Igreja, que ele assumiu".

-"Deus quer que lhe façamos violência com as nossas orações, pois tal violência não o irrita, mas o aplaca".

-"Todos os santos foram mártires ou pela espada ou pela paciencia".

-"Quando damos aos pobres as coisas indispensáveis, não praticamos com eles grande generosidade pessoal, mas lhes devolvemos o que é deles. Cumprimos um dever de justiça e não tanto um ato de caridade".

-"Da inveja nasce o ódio, a maledicência, a calúnia, a alegria causada pela desgraça do próximo e desprazer causado por sua prosperidade".

São Gregório Magno: Rogai por nós!

terça-feira, 2 de setembro de 2014

A fé e a família

Sua santidade Papa Francisco



"No caminho de Abraão para a cidade futura, a Carta aos Hebreus alude à bênção que se transmite dos pais aos filhos (cf. 11, 20-21). O primeiro âmbito da cidade dos homens iluminado pela fé é a família; penso, antes de mais nada, na união estável do homem e da mulher no matrimónio. Tal união nasce do seu amor, sinal e presença do amor de Deus, nasce do reconhecimento e aceitação do bem que é a diferença sexual, em virtude da qual os cônjuges se podem unir numa só carne (cf. Gn 2, 24) e são capazes de gerar uma nova vida, manifestação da bondade do Criador, da sua sabedoria e do seu desígnio de amor.

Fundados sobre este amor, homem e mulher podem prometer-se amor mútuo com um gesto que compromete a vida inteira e que lembra muitos traços da fé: prometer um amor que dure para sempre é possível quando se descobre um desígnio maior que os próprios projectos, que nos sustenta e permite doar o futuro inteiro à pessoa amada. Depois, a fé pode ajudar a individuar em toda a sua profundidade e riqueza a geração dos filhos, porque faz reconhecer nela o amor criador que nos dá e nos entrega o mistério de uma nova pessoa; foi assim que Sara, pela sua fé, se tornou mãe, apoiando-se na fidelidade de Deus à sua promessa (cf. Heb 11, 11).

Em família, a fé acompanha todas as idades da vida, a começar pela infância: as crianças aprendem a confiar no amor de seus pais. Por isso, é importante que os pais cultivem práticas de fé comuns na família, que acompanhem o amadurecimento da fé dos filhos. Sobretudo os jovens, que atravessam uma idade da vida tão complexa, rica e importante para a fé, devem sentir a proximidade e a atenção da família e da comunidade eclesial no seu caminho de crescimento da fé.

Todos vimos como, nas Jornadas Mundiais da Juventude, os jovens mostram a alegria da fé, o compromisso de viver uma fé cada vez mais sólida e generosa. Os jovens têm o desejo de uma vida grande; o encontro com Cristo, o deixar-se conquistar e guiar pelo seu amor alarga o horizonte da existência, dá-lhe uma esperança firme que não desilude.

A fé não é um refúgio para gente sem coragem, mas a dilatação da vida: faz descobrir uma grande chamada — a vocação ao amor — e assegura que este amor é fiável, que vale a pena entregar-se a ele, porque o seu fundamento se encontra na fidelidade de Deus, que é mais forte do que toda a nossa fragilidade.

 Uma luz para a vida em sociedade

 Assimilada e aprofundada em família, a fé torna-se luz para iluminar todas as relações sociais. Como experiência da paternidade e da misericórdia de Deus, dilata-se depois em caminho fraterno. Na Idade Moderna, procurou-se construir a fraternidade universal entre os homens, baseando-se na sua igualdade; mas, pouco a pouco, fomos compreendendo que esta fraternidade, privada do referimento a um Pai comum como seu fundamento último, não consegue subsistir; por isso, é necessário voltar à verdadeira raiz da fraternidade.

Desde o seu início, a história de fé foi uma história de fraternidade, embora não desprovida de conflitos. Deus chama Abraão para sair da sua terra, prometendo fazer dele uma única e grande nação, um grande povo, sobre o qual repousa a Bênção divina (cf. Gn 12, 1-3). À medida que a história da salvação avança, o homem descobre que Deus quer fazer a todos participar como irmãos da única bênção, que encontra a sua plenitude em Jesus, para que todos se tornem um só. O amor inexaurível do Pai é-nos comunicado em Jesus, também através da presença do irmão. A fé ensina-nos a ver que, em cada homem, há uma bênção para mim, que a luz do rosto de Deus me ilumina através do rosto do irmão.

Quantos benefícios trouxe o olhar da fé cristã à cidade dos homens para a sua vida em comum! Graças à fé, compreendemos a dignidade única de cada pessoa, que não era tão evidente no mundo antigo. No século II, o pagão Celso censurava os cristãos por algo que lhe parecia uma ilusão e um engano: pensar que Deus tivesse criado o mundo para o homem, colocando-o no vértice do universo inteiro. « Porquê pretender que [a verdura] cresça para os homens, em vez de crescer para os mais selvagens dos animais sem razão? » « Se olhássemos a terra do alto do céu, que diferença se nos ofereceria entre as nossas actividades e as das formigas e das abelhas? »

No centro da fé bíblica, há o amor de Deus, o seu cuidado concreto por cada pessoa, o seu desejo de salvação que abraça toda a humanidade e a criação inteira e que atinge o clímax na encarnação, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Quando se obscurece esta realidade, falta o critério para individuar o que torna preciosa e única a vida do homem; e este perde o seu lugar no universo, extravia-se na natureza, renunciando à própria responsabilidade moral, ou então pretende ser árbitro absoluto, arrogando-se um poder de manipulação sem limites.

. Além disso a fé, ao revelar-nos o amor de Deus Criador, faz-nos olhar com maior respeito para a natureza, fazendo-nos reconhecer nela uma gramática escrita por Ele e uma habitação que nos foi confiada para ser cultivada e guardada; ajuda-nos a encontrar modelos de progresso, que não se baseiem apenas na utilidade e no lucro mas considerem a criação como dom, de que todos somos devedores; ensina-nos a individuar formas justas de governo, reconhecendo que a autoridade vem de Deus para estar ao serviço do bem comum.

 A fé afirma também a possibilidade do perdão, que muitas vezes requer tempo, canseira, paciência e empenho; um perdão possível quando se descobre que o bem é sempre mais originário e mais forte que o mal, que a palavra com que Deus afirma a nossa vida é mais profunda do que todas as nossas negações. Aliás, mesmo dum ponto de vista simplesmente antropológico, a unidade é superior ao conflito; devemos preocupar-nos também com o conflito, mas vivendo-o de tal modo que nos leve a resolvê-lo, a superá-lo, como elo duma cadeia, num avanço para a unidade.

Quando a fé esmorece, há o risco de esmorecerem também os fundamentos do viver, como advertia o poeta Thomas Sterls Eliot: « Precisais porventura que se vos diga que até aqueles modestos sucessos / que vos permitem ser orgulhosos de uma sociedade educada / dificilmente sobreviveriam à fé, a que devem o seu significado? »

 Se tiramos a fé em Deus das nossas cidades, enfraquecer-se-á a confiança entre nós, apenas o medo nos manterá unidos, e a estabilidade ficará ameaçada. Afirma a Carta aos Hebreus: « Deus não Se envergonha de ser chamado o "seu Deus", porque preparou para eles uma cidade » (Heb 11, 16). A expressão « não se envergonha » tem conotado um reconhecimento público: pretende-se afirmar que Deus, com o seu agir concreto, confessa publicamente a sua presença entre nós, o seu desejo de tornar firmes as relações entre os homens.

 Porventura vamos ser nós a envergonhar-nos de chamar a Deus « o nosso Deus »? Seremos por acaso nós a recusar-nos a confessá-Lo como tal na nossa vida pública, a propor a grandeza da vida comum que Ele torna possível? A fé ilumina a vida social: possui uma luz criadora para cada momento novo da história, porque coloca todos os acontecimentos em relação com a origem e o destino de tudo no Pai que nos ama."

Fonte: Lumen Fidei

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Restaurar a propriedade ou destruir a liberdade?

Por Venerável Fulton Sheen

Primeira Parte: Propriedade Privada e Liberdade



" A ditadura do Proletariado - Comunismo -; não é a solução para as nossas desigualdades, pois a história da Rússia com suas carnificinas diárias provam que a ditadura do proletariado significa na prática ditadura SOBRE o proletariado.

Os comunistas estão simplesmente perdendo seu tempo ao atacarem a propriedade produtiva. Atacam-na não porque julguem que a propriedade é intrinsicamenteerrada, mas porque julgam que ela foi roubada pelo capitalismo.

Há uma forte parcela de inveja no ataque comunista contra a propriedade privada. Na verdade, odeia os proprietários particulares, porque os admira; odeia o capitalismo, porque ele próprio quer se tornar um capitalista. Se os comunistas aanalisassem honestamente os seus sentimentos, perceberiam que o que eles realmente procuram é a solução cristã, isto é, a abolição do proletariado como elemento preponderante na sociedade, pois enquanto o proletário viver à disposição de outrem, não será livre, quer viva com o salário dos capitalistas, quer sob a opressão dos Chefes Vermelhos.

A posição da Igreja é que uma mais larga distribuição da propriedade privada é necessária à salvaguarda e proteção da liberdade humana.. Isto não quer dizer que todos devem possuir a propriedade privada, mas que deve possuí-la um número de pessoas sificiente para dar um certo cunho à sociedade.

Por este meio espera a Igreja introduzir a democracia na ordem econômica, como é de supor já exista na ordem política, onde exista uma renascimento das relações humanas, que virá dar ao trabalhador as mesmas oportunidades para manifestar suas necessidades, seus desejos, seus direitos, que como cidadão, tem na democracia política. A liberdade política se desdobrará assim em liberdade econômica, de modo que, correspondendo ao seu voto como cidadão responsável haverá, conforme proconiza o santo padre:algumka participação nos lucros, na administração e ou na propriedade da indústria.

A Igreja sempre foi a favor da propriedade privada, porque defendendo-a ela defende a liberdade, pois não existe neste mundo mais vivo sentimento de liberdade, quando, fechada a porta e sentados mesmo numa cadeira quebrada, contemplamos, como de um trono, o império que podemos chamar nosso.

Alguns séculos atrás a Igreja saía a campo para se bater contra o determinismo calvinista, que asseverava que o homem era predestinado ao céu ou ao inferno independente de seus méritos. Refutando esse erro, sustentou a Igreja  a liberdade do homem à santidade. Sai hoje a Igreja para novos campos de batalha, não para defender a liberdade de cada um ser santo, mas a liberdade do homem a ser homem - o direito de ser independente daqueles que agora o possuem por possuírem aquilo que ele trabalha.

A Igreja que outrora lutou para se libertar do fiat teológico de uma vontade soberana arbitrária, luta agora para libertar o homem do fiat econômico do capitalismo arbitrário.

Depois continuamos  - valerá a pena!

Fonte: O problema de Liberdade



sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Martírio de São João Batista

Por Bento XVI




" Celebramos a memória do martírio de são João Baptista, o precursor de Jesus. No Calendário romano, é o único santo do qual se celebra tanto o nascimento, a 24 de Junho, como a morte ocorrida através do martírio.

 A memória hodierna remonta à dedicação de uma cripta de Sebaste, em Samaria onde, já em meados do século IV, se venerava a sua cabeça. Depois, o culto alargou-se a Jerusalém, às Igrejas do Oriente e a Roma, com o título de Degolação de são João Baptista. No Martirológio romano faz-se referência a uma segunda descoberta da preciosa relíquia, transportada naquela ocasião para a igreja de São Silvestre em Campo Márcio, em Roma.

Estas breves referências históricas ajudam-nos a compreender como é antiga e profunda a veneração de são João Baptista. Nos Evangelhos realça-se muito bem o seu papel em relação a Jesus. De modo particular, são Lucas narra o seu nascimento, a sua vida no deserto e a sua pregação, e no Evangelho de  são Marcos fala-nos da sua morte dramática.

João Baptista começa a sua pregação sob o imperador Tibério, em 27-28 d.C., e o convite claro que ele dirige ao povo que acorre para o ouvir é que prepare o caminho para receber o Senhor, e endireitem as veredas tortas da própria vida através de uma conversão radical do coração (cf. Lc 3, 4). Contudo, João Baptista não se limita a pregar a penitência e a conversão mas, reconhecendo Jesus como «o Cordeiro de Deus» que veio para tirar o pecado do mundo (cf. Jo 1, 29), tem a profunda humildade de mostrar em Jesus o verdadeiro Enviado de Deus, pondo-se de lado a fim de que Jesus possa crescer, ser ouvido e seguido.

 Como último gesto, João Baptista testemunha com o sangue a sua fidelidade aos mandamentos de Deus, sem ceder nem desistir, cumprindo a sua missão até ao fim. São Beda, monge do século IX, nas suas Homilias diz assim: «São João, por [Cristo] deu a sua vida; embora não lhe tenha sido imposto que negasse Jesus Cristo, só lhe foi imposto que não dissesse a verdade» (cf. Hom. 23: ccl 122, 354). E ele dizia a verdade, e assim morreu por Cristo, que é a Verdade. Precisamente pelo amor à Verdade, não cedeu a compromissos nem teve medo de dirigir palavras fortes a quantos tinham perdido o caminho de Deus.

Nós vemos esta grande figura, esta força na paixão, na resistência contra os poderosos. Interroguemo-nos: de onde nasce esta vida, esta interioridade tão forte, tão recta e tão coerente, empregue totalmente por Deus e para preparar o caminho para Jesus? A resposta é simples: da relação com Deus, da oração, que é o fio condutor de toda a sua existência. João é o dom divino longamente invocado pelos seus pais, Zacarias e Isabel (cf. Lc 1, 13); uma dádiva grande, humanamente inesperada, porque ambos eram de idade avançada e Isabel era estéril (cf. Lc 1, 7); mas a Deus nada é impossível (cf. Lc 1, 36).

 O anúncio deste nascimento verifica-se precisamente no contexto da oração, no templo de Jerusalém; aliás, acontece quando Zacarias recebe o grande privilégio de entrar no lugar mais sagrado do templo para fazer a oferta do incenso ao Senhor (cf. Lc 1, 8-20). Também o nascimento de João Baptista é marcado pela oração: o cântico de alegria, de louvor e de acção de graças que Zacarias eleva ao Senhor e que nós recitamos todas as manhãs nas Laudes, o «Benedictus», exalta a obra de Deus na história e indica profeticamente a missão do filho João: preceder o Filho de Deus que se fez carne, para lhe preparar as estradas (cf. Lc 1, 67-79).

Toda a existência do precursor de Jesus é alimentada pela relação com Deus, de modo particular o período transcorrido em regiões desertas (cf. Lc 1, 80); as regiões desertas que são lugares de tentação, mas também lugares onde o homem sente a própria pobreza, porque desprovido de apoios e certezas materiais, e compreende que o único ponto de referência sólido permanece o próprio Deus. Mas João Baptista não é apenas um homem de oração, do contacto permanente com Deus, mas também um guia para esta relação. Citando a oração que Jesus ensina aos discípulos, o «Pai-Nosso», o evangelista Lucas anota que o pedido é formulado pelos discípulos com estas palavras: «Senhor, ensinai-nos a rezar, como também João ensinou aos seus discípulos» (cf. Lc 11, 1).

Caros irmãos e irmãs, celebrar o martírio de são João Baptista recorda-nos, também a nós cristãos deste nosso tempo, que não se pode ceder a compromissos com o amor a Cristo, à sua Palavra e à Verdade. A Verdade é Verdade, não existem compromissos. A vida cristã exige, por assim dizer, o «martírio» da fidelidade quotidiana ao Evangelho, ou seja, a coragem de deixar que Cristo cresça em nós e que seja Cristo quem orienta o nosso pensamento e as nossas acções.

Mas isto só se verifica na nossa vida se a nossa relação com Deus for sólida. A oração não é tempo perdido, não é roubar espaço às actividades, inclusive às obras apostólicas, mas é precisamente o contrário: se formos capazes de ter uma vida de oração fiel, constante e confiante, o próprio Deus dar-nos-á a capacidade e a força para viver de modo feliz e tranquilo, para superar as dificuldades e testemunhá-lo com coragem. São João Baptista interceda por nós, a fim de sabermos conservar sempre o primado de Deus na nossa vida. Obrigado!"

Fonte AQUI

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Vinde, Senhor Jesus, vinde! Maranata!

Por Gustavo Corção.


" A Igreja, na sua esfera sobrenatural, também tem seus apolínios e seus dionisíacos, também se diferencia como dois braços abertos, para amparar o mundo à direita e à esquerda.

Desde o princípio da pregação, nos primeiros tempos do Cristianismo, nasceram duas fontes de graça na Igreja visível para cercar as almas em conformidade com a diversidade em suas naturezas. E essas duas fontes são a Igreja dos Sacramentos e a Igreja dos carismas - os bispos e os monges.

Nos momentos mais difíceis da história eles se ampararam e trocaram entre si seus dons e é por isso que hoje os padres não se casam e os monges se ordenam. A Igreja dos  Bipos é a Hierarquia que tem o centro em Roma, na Cátedra de Pedro, e pastoreia dispensando às almas o Sacramento e o Magistério.

A Igreja dos monges, enquanto sómente monges, é formada da comunidade que milita sob uma regra na unidade do Espírito Santo: seu papel no mundo é o exemplo ontológico, concreto, duma antecipação do Reino, da Jerusalém celeste. Vivem à espera do Senhor com cintos apertados e as lâmpadas acesas. Por isso pode-se também dizer que sua função no mundo é cantar a Esperança.

O mundo amanhã, que mal entrevemos nessa aurora de sangue, ou voltará a Cristo ou se perderá. A última colheita dos eleitos ficará então entregue à cólera paternal do Rei que manda buscar com violência os convivas nos caminhos. Mas o mundo só poderá voltar ao Cristo substancialemente, isto é, ao Cristo e não essa aquarela esbatida que chamam de civilização cristã.

E duas coisas aparecem com uma urgência insofismável para que essa volta seja realmente uma volta cristã e para que ela seja possível. É preciso insistir, ensinar, restaurar a firmeza de pedra, de Pedro, na objetividade Sacramental do Catolicismo; e também, e principalmente se é verdade que o mundo sofre perticularmente de desespero, é preciso colocar o monaquismo na sua base antiga, paulina, para que os povos inebriados tenham u exemplo de unidade e ouçam o cando da Esperança.

O Evangelho de João não tem como o de Mateus uma longa mensagem de esperança. No Evangelho de João a esperança entra pelo amor e começa logo com as núpcias de Caná. É muito mais tarde, já nas vésperas da Paixão, Jesus diz aos discípulos: ' Ainda um pouco de tempo e vós não me vereis; depois, ainda um pouco de tempo, ver-me-eis novamente'.

Os discípulos O interrogaram sobre esse modicum , esse " ainda um pouco de tempo" e Jesus lhes promete uma alegria que ninguém lhes poderá tirar. A esperança nesse Evangelho está abraçada à caridade e as palavras de Jesus procuram conter no amor a impaciência cristã.

O Homem de Deus também é impaciente, ms em relação ao hóspede que tarda.´É impaciente na parusia, mas paciente no cotidiano. Estamos no tempo, mas não somos do tempo. E como estamos no tempo, somos pacientes; e como não somos do tempo, somos impacientes.

O cristão é realmente segundo a esperança, vigilante como um soldado e confiante como a criança. Cuidadoso como um soldado que o Rei mandou vigiar os confins de seu Império, e descuidado como uma criança que dorme. Nossa impaciência é amorosa porque queremos conhecer os nomes de filhos que nos estão guardados na eternidade; mas nossa paciência ainda é mais amorosa porque é com ela que participamos na Paixão do Senhor.

Somos impacientes como crianças, pacientes como soldados. Impacientes como noivos e pacientes como noivos.  Não há conflito ou paradoxo entre a parusia e o cotidiano, como os há entre a parusia e o cotidiano,  como não os há entre o enxoval e as núpcias. Há ainda  um pouco de tempo...

O tempo já não é nosso inimigo porque, se tem a medida duma separação, tem também a medida duma solicitude , e assim sacralizado na Liturgia, é instrumento de Redenção.

Os anos entram e saem nos arrastando para as idades  que o mundo ridiculariza; passam novos solstícios e novos plenilúnios, enquanto a Penélope paciente parece tecer e desmanchar como uma louca diante dos olhos dos pretendentes. Dizem que os ciclos do Natal e Páscoa giram monotamente em torno dum sol alheio e distante.

Mas a Esposa paciente que gira a roca e maneja o fuso tem ouvidos finos e ouve os passos do Bem_Amado que vem correndo pelos montes. Curva-se  mais sobre o pano que tece, vigia com mais zelo  o óleo de sua lâmpada. Ainda um pouco de tempo, ainda um pouco de tempo...

Os monges, soldados que vigiam e crianças que cantam, curvam-se sobre a imensa tapeçaria litúrgica que paramenta os séculos, e retomam o fio: Advento, Natal, Páscoa; e recomeçam cada dia: Vésperas, Matinas, Laudes; atentos como soldados, confiantes como crianças.....

E a Esposa de ouvidos finos ouve os passos do Bem- Amado que vem correndo pelos montes. Ele aí vem! E cedendo à impaciencia apaixonada que nada mais pode conter, suspende ummomento o fuso, para um instante a roca, esquece a lâmpada, e grita dentro do coração:

 - Vinde, Senhor Jesus, vinde! Maranata!

Fonte: a Descoberta do Outro - pags 160 a 163.