segunda-feira, 5 de março de 2012

Céu e Terra em miniatura


Por Scott Hann

"Muitos pequenos detalhes da visão de João se esclarecem quando procuramos entrar em contato com o Apocalípse da maneira como seu público original deve tê-lo feito.Se fôssemos judeu-cristãos de fala grega do tempo de João e vivêssemos nas cidades da província romana da Asia, é provável que conhecessemos a topografia de Jerusalém por causa de nossas peregrinações regulares.

Jerusalém era exatamente importante para os leitores de João.Era a capital e o centro economico do antigo Israel, além do centro cultural e academico da nação.Mas,acima de tudo, Jerusalém era o coração espiritual do povo israelita, como o Vaticano para os católicos.

Em Jerusalém, sentiríamos a mais profunda afeição pelo Templo, que era o centro da vida cultural e religiosa para os judeus de todo mundo.Jerusalém não era tanto uma cidade com um Templo quanto o Templo com uma cidade construída em sua volta.

Para os judeus piedosos, mais que lugar de culto, o Templo representava a maquete de toda criação.Assim como o universo foi feito para ser o santuário de Deus, com Adão como sacerdote, o Templo deveria restaurar essa ordem, com sacerdotes de Israel oficiando diante do Santo dos Santos.

Como judeus-cristãos, reconheceríamos imediatamente o Templo na descrição que o Apocalípse faz do céu. No templo, como no céu de João, os sete candelabros de ouro (Ap 1,12) e o altar de perfumes (8,3-5) ficavam diante do Santo dos Santos.

No Templo, quatro querubins esculpidos adornavam as paredes, como os quatro anjos vivos ministram diante do trono no céu de João.Os vinte e quatro "anciãos" (em grego ptrsbyteroi)são uma réplica dos vinte e quatro grupos de sacerdotes que serviam no Templo todos os anos.O "mar límpido, semelhante ao cristal"(Ap 4,6)era a grande piscina de bronze polido do Templo que comportava 45 mil litros de àgua.

Como no Templo de Salomão, no centro,do templo do Apocalípse ficava a Arca da aliança.(Ap 11,19)O apocalípse revelava o Templo - mas para os judeus devotos e os judeus convertidos ao cristianismo também revelava muito mais, pois o Templo e seus ornamentos indicavam realidades mais elevadas.

Como Moisés (veja Ex 25,9), o rei Davi recebeu o plano do templo do próprio Deus: "Tudo isto encontra-se num escrito redigido pela mão do Senhor, que me fez compreender todas as obras do plano" (I Cr 29,19).

O Templo deveria seguir o modelo da corte celeste: " Ordenaste-me construir um Templo em tua morada, à imitação da tenda santa que tinhas preparado desde a origem" (Sb 9,8).

Da imitação à Participação.

De acordo com as antigas crenças judaicas, o culto no Templo de Jerusalém espelhava o culto dos anjos no céu.O sacerdócio levítico,a liturgia da aliança, os sacrifícios eram vagas representações de modelos celestes. Ainda assim, o livro do Apocalípse tinha algo diferente , algo mais. Enquanto Israel rezava "por imitação dos anjos", a Igreja do Apocalípse adorava "junto com os anjos" (veja 19,10).

Enquanto sómente os sacerdotes podiam entrar no lugar santo do Templo de Jerusalém, o Apocalípse mostrava uma nação de sacerdotes (Veja 5,10;20,6) que habitavam sempre na presença de Deus.Já não haveria um arquétipo celeste e uma imitação terrena.Agora o Apocalíse revelava "um só culto", compartilhado por homens e anjos!

Das Cinzas.

Os biblistas discordam a respeito de quando o livro do Apocalípse foi escrito; as estimativas variam do fim dos anos 60 até o final dos anos 90d.C. Entretanto, quase todos concordam que a medição do Templo por João (Ap 11,1) indica uma data anterior a 70, pois depois desta data não havia mais Templo para medir.

De qualquer modo,o culto sacrifical da antiga aliança encontrou seu fim definitivo com a destruição do templo e de Jerusalém em 70 d.C.Para os judeus de todo o mundo esse foi um acontecimento cataclísmico - que prefigurava o juízo final do "templo cósmico" no fim dos tempos.

Depois de 70 d.C. a fumaça dos cordeiros dos sacrifícios de Israel não mais subiu.As legiões romanas reduziram a entulho enegrecido pelo fogo a cidade e o santuário que davam sentido à vida dos judeus da Palestina e do exterior.

O que João descreve em sua visão era nada menos que o fim do mundo antigo, da antiga Jerusalém, da antiga aliança e a criação de um mundo novo, uma nova Jerusalém. Com a ordem do mundo novo surgiu uma nova ordem de culto.

É difícil "não " ouvir ecos do evangelho de João:" Destrui este templo, e em tres dias eu o reerguerei" (Jo 2,19)..."vem a hora em que nem sobre esta montanha, nem em Jerusalém adorareis o Pai...na qual os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade"(Jo 4,21.23).

No Apocalípse, essas previsões se realizam quando o novo Templo se revela como o corpo místico de Cristo, a Igreja e qdo a adoração "no Espírito" tem lugar na nova Jerusalém celeste.Do mesmo modo, é fácil entender por que os cristãos primitivos consideravam o véu rasgado do Templo tão significativo do ponto de vista teológico e litúrgico.

O véu rasgou-se exatamente quando o corpo de Cristo foi decisivamente rasgado.Quando Jesus completou a oferenda terrena de seu corpo, Deus assegurou que o mundo soubesse que o véu fora removido do "Santuário".

Agora todos - reunidos na Igreja - podiam entrar em sua presença no dia do Senhor:

Destarte, irmaõs, temos total garantia de acesso ao santuário pelo sangue de Jesus. Temos aí um caminho novo e vivo, que Ele inaugurou através do véu, isto é, através da sua humanidade...Velemos una pelos outros para nos estimular à caridade e às boas obras.Não abandonemos as nossas assembléias..mas animemo-nos, tanto mais que vedes o Dia aproximar-se (Hb 10,19-20.24-25).

" No Espírito no dia do Senhor", João viu algo que era mais completo do que qualquer narrativa ou argumento poderia transmitir.Ele viu que parte do mundo já estava transformada em um novo céu e uma nova terra.Alguns séculos mais tarde,Scott (e agora nós!) começamos a nos voltar para olhar.

Fonte: O Banquete do Cordeiro

Veja o estudo AQUI

Depois veremos: Quem é quem no Céu.
O Elenco de Milhares do Apocalípse:

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