sábado, 14 de fevereiro de 2015




"Para a religião, todos os homens são iguais assim como todos os centavos são iguais, pois só há valor neles porque carregam a imagem do Rei. Este fato não é suficientemente observado no estudo dos heróis religiosos. A piedade produz grandeza intelectual precisamente porque ela é indiferente à grandeza intelectual. A força de Oliver Cromwell (Lorde protetor da Inglaterra no séc. XVII) residia no fato de que ele se importava com a religião. Mas a força da religião é que ela não se importa com Cromwell, não mais do que com qualquer outra pessoa. Ele e seu séquito são igualmente bem-vindos aos lugares quentes e hospitaleiros do inferno. Tem sido afirmado, muito acertadamente, que a religião é a coisa que faz o homem ordinário se sentir extraordinário; é uma verdade igualmente importante que a religião é a coisa que faz o homem extraordinário se sentir ordinário.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Vivo sin vivir en mi (Blanca Cajales) -Santa Teresa de Avila




MORRO PORQUE NÃO MORRO
Santa Teresa de Jesus
Vivo sem viver em mim,
E tão alta vida espero,
Que morro porque não morro.
Vivo já fora de mim,
Desde que morro d'Amor,
Porque vivo no Senhor
Que me escolheu para Si;
Quando o coração Lhe dei
Com terno amor lhe gravei:
Que morro porque não morro.
Esta divina prisão
Do grande amor em que vivo,
Fez a Deus ser meu cativo,
E livre o meu coração;
E causa em mim tal paixão
Ser eu de Deus a prisao,
Que morro porque não morro.
Ai que longe é esta vida!
Que duros estes desterrros!
Este cárcere, estes ferros
Onde a alma está metida.
Só de esperar a saída
Me causa dor tão sentida,
Que morro porque não morro.
Ai, que vida tão amarga
Por não gozar o Senhor!
Pois sendo doce o amor,
Não o é, a espera larga;
Tira-me, ó Deus, este fardo
Tão pesado e tão amargo,
Que morro porque não morro

Santa Teresa

15 de outubro, dia de Santa Teresa D'Ávila, a grande doutora da Igreja


"Esta divina prisão
Do amor em que hoje vivo,
Tornou Deus o meu cativo
E livre meu coração.
E causa em mim tal paixão
Deus meu prisioneiro ver,
Que morro por não morrer.
Ai, que longa é esta vida!,
Que duros estes desterros!,
Esta prisão, estes ferros
Em que a alma está metida!
Só esperar a saída
Causa em mim tanto sofrer,
Que morro por não morrer."
Vivo sem viver em mim!

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

A entronização do Interesse Privado

Por Venerável Fulton Sheen




Primeira Parte - AQUI
Segunda Parte - AQUI
Terceira Parte - AQUI
Quarta Parte  - AQUI
Quinta Parte - AQUI

" Mussolini, perante as massas de seu país, argumentava: ' Porventura não sois capazes de ver que qualquer sistema político que proclame o direito do indivíduo a permanecer livre do contrôle do Estado e que reduza o Estado a funções policiais, acabará significando que este deixa os fracos sem proteção  contra os fortes? O Estado deve proteger os fracos contra os fortes'. E assim falando Mussolini estava com a razão!

Como todos os reformadores, porém, foi longe demais. Descartou-se do Estado-polícia, fazendo do estado uma aia e eliminou de um só golpe a liberdade individual e a democracia. Eis o que constitui o erro do fascismo: O Estado é tudo!

Hitler a seu turno alegou: ´Porventura não sois capazes de ver que, definindo a liberdade como o direito de fazer tudo o que vos aprouver, acabacareis caindo na anarquia? É pois necessário reinstaurar a lei e a autoridade'. E assim falando, Hitler estava com a razão!

Adiantou-se de mais, porém, como acontece sempre nesses casos e reinstaurou a lei a expensas da liberdade. A liberdade , que no regime liberal significa o direito de fazer tudo o que aprouver, consistia já  agora na prerrogativa de fazer tudo a que se é obrigado, em vez  de ser aquilo em que se cumpre transforma-la depois da guerra, isto é, a faculdade de fazer o que é de nosso dever. E assim volveu a escravidão a este mundo.

A força dos sistemas totalitários estava em trazerem de certo modo, uma resposta - falsa que fosse -, ao domínio larvado dos senhores da finança e à indiferença das democracias pelos valores absolutos e em proclamarem a precedência do organismo político sobre o interesse privado.

No final, porém, nenhuma daquelas soluções foi eficaz, porque nenhuma compreendeu a natureza do homem como criatura, dotada de direitos por possuir uma alma e sujeita a deveres instituídos por Deus.Os males que se propunham curar eram devidos, principalmente, à descristianização, tornando o mundo anticristão. Como o capitalismo, o indiferentismo e a oligarquia financeira tinham brotado num mundo cujas raízes eram cristãs, cometeram o engano de pensar que aqueles males deviam ser imputados ao cristianismo.

Daí pretenderam que " a religião é o ópio do povo". O que conseguiram ver foi que, no campo da civilização ocidental em que crescia o trigal do Cristianismo, entraram alguns inimigos pela calada da noite e semearam joio e o cardo. A solução do problema não consistia em desenraizar o trigo do Cristianismo, porém queimar o joio de nosso indiferentismo por ele.

A história desses últimos cem anos é a do Filho Pródigo. A civilização ocidental abandonou a Casa Paterna levando um pouco da substância espiritual que nela se acumulara no decorrer de mil e seiscentos anos de martírio e de pensar rigoroso. Acham-nos agora bastante afastados daqueles tempos, para verificar que ela despendeu todo o capital que possuía: a crença na Divindade de Cristo, na inspiração da Sagrada Escritura, na Lei Moral e na existência  de Deus. Chegou por fim ao momento em que, como o Filho Pródigo, alimentou-se de glandes, à falta do pão da Casa Paterna. - as glandes do liberalismo, do materialismo, do agnosticismo.

Estava certo que o Filho Pródigo tivesse fome; era esse o caminho que Deus lhe traçara. Estava ceeto, também, que os Estados totalitários tivessem fome de lei, bem comum e autoridade. Andaram errado em comer glandes do fascismo, do nazismo e do totalitarismo. O modo adequado de interpretar os sistemas
totalitários, é ver neles outras tentativas convulsas de atalhar a desintegração do organismo social: o despertar da consciência aquisitiva fundada sobre o primado do lucro, o momento final de que o homem não
pode viver sem Deus.

Como o inimigo é diabólico em sua filosofia

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Nossa Senhora do Rosário

Por Bento XVI



" Para ser apóstolos do Rosário, é preciso fazer experiência em primeira pessoa da beleza e da profundidade desta oração, simples e acessível a todos. É necessário antes de tudo deixar-se guiar pela mão da Virgem Maria e contemplar o rosto de Cristo:  rosto jubiloso, luminoso, doloroso e glorioso.

Quem, como Maria e juntamente com Ela, guarda e medita assiduamente os mistérios de Jesus, assimila cada vez mais os seus sentimentos e conforma-se com Ele. Apraz-me, a este propósito, citar uma bonita consideração do beato Bartolo Longo:  "Como dois amigos escreve ele praticando frequentemente juntos, costumam conformar-se também nos costumes, assim nós, conversando familiarmente com Jesus e com a Virgem, ao meditar os Mistérios do Rosário, e formando juntos uma mesma vida com a Comunhão, podemos tornar-nos, na medida em que for capaz a nossa pequenez, semelhantes a eles, e aprender destes excelsos exemplos o viver humilde, pobre, escondido, paciente, perfeito" (I Quindici Sabati del Santissimo Rosario, 27ª ed., Pompei, 1916, p. 27:  cit. em Rosarium Virginis Mariae, 15).

O Rosário é escola de contemplação e de silêncio. À primeira vista, poderia parecer uma oração que acumula palavras, portanto dificilmente conciliável com o silêncio que é justamente recomendado para a meditação e a contemplação. Na realidade, esta repetição ritmada da Ave-Maria não perturba o silêncio interior, aliás, exige-o e alimenta-o. Analogamente a quanto acontece para os Salmos quando se reza a Liturgia das Horas, o silêncio sobressai através das palavras e das frases, não como um vazio, mas como uma presença de sentido último que transcende as próprias palavras e juntamente com elas fala ao coração.

Assim, recitando as Ave-Marias é preciso prestar atenção para que as nossas vozes não "se sobreponham" à de Deus, o qual fala sempre através do silêncio, como "o sussurrar de uma brisa leve" (1 Rs 19, 12). Como é importante então cuidar este silêncio cheio de Deus quer na recitação pessoal quer na comunitária! Mesmo quando é rezado, como hoje, por grandes assembleias e como fazeis todos os dias neste Santuário, é necessário que se sinta o Rosário como oração contemplativa, e isto não pode acontecer se falta um clima de silêncio interior.

Se a contemplação cristã não pode prescindir da Palavra de Deus, também o Rosário, para ser oração contemplativa, deve emergir sempre do silêncio do coração como resposta à Palavra, a exemplo de Maria. Considerando bem, o Rosário está totalmente imbuído de elementos tirados da Escritura. Há antes de mais a enunciação do mistério, feita preferivelmente, como hoje, com palavras tiradas da Bíblia. 

Segue-se o Pai-Nosso:  dando à oração a orientação "vertical", abre o ânimo de quem recita o Rosário para a justa atitude filial, segundo o convite do Senhor:  "Quando rezais dizeis:  Pai..." (Lc 11, 2). A primeira parte da Ave-Maria, também ela tirada do Evangelho, faz-nos ouvir todas as vezes as palavras com que Deus se dirigiu à Virgem Maria através do Anjo, e as de bênção da prima Isabel. A segunda parte da Ave-Maria ressoa como a resposta dos filhos que, dirigindo-se suplicantes à Mãe, mais não fazem do que expressar a própria adesão ao desígnio salvífico, revelado por Deus. Assim o pensamento de quem reza permanece sempre ancorado na Escritura e nos mistérios que nela são apresentados.

sábado, 4 de outubro de 2014

Devemos Ser Simples, Humildes e Puros



Da Carta a todos os fiéis, de São Francisco de Assis
(Opuscula, edit. Quarachi 1949,87-94) (Séc.XIII)

São Francisco de Assis


"O Pai Altíssimo anunciou a vinda do céu do tão digno, tão santo e glorioso Verbo do Pai, através de seu santo, Gabriel, à santa e gloriosa Virgem Maria, em cujo seio recebeu a verdadeira carne de nossa humanidade e fragilidade. Ele quis, no entanto, sendo incomparavelmente mais rico, escolher a pobreza junto com a sua santíssima mãe. Nas vésperas de sua paixão, celebrou a Páscoa com os discípulos. Depois, orou ao Pai dizendo: Pai, se for possível, afaste-se de mim este cálice (Mt 26,39).

Pôs, contudo, sua vontade na vontade do Pai. E a vontade do Pai era que seu Filho bendito e glorioso, dado a nós e nascido para nós, se oferecesse em sacrifício e vítima no altar da cruz, pelo seu próprio sangue. Sacrifício não para si, por quem tudo foi feito, mas por nossos pecados, deixando-nos o exemplo para lhe seguirmos as pegadas (cf. 1Pd 2,21). E quer que todos nos salvemos por ele e o acolhamos com coração puro e corpo casto.

Ó como são felizes e benditos aqueles que amam o Senhor e fazem o que o mesmo Senhor diz no evangelho: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e ao próximo como a ti mesmo! (Lc 10,27). Amemos, portanto, a Deus e adoremo-lo com coração puro e mente pura porque, acima de tudo, disto está ele à procura e diz: Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade (Jo 4,23). É necessário que todos que o adoram, o adorem no espírito da verdade. E dia e noite elevemos para ele louvores e orações, dizendo: Pai nosso que estás nos céus (Mt 6,9); porque é preciso orar sempre e não desfalecer (cf. Lc 18,1).

Além disto, produzamos dignos frutos de penitência (cf. Mt 3,8). E amemos os próximos como a nós mesmos. Tenhamos caridade e humildade e façamos esmolas, já que estas lavam as almas das nódoas dos pecados. Os homens perdem tudo o que deixam neste mundo. Levam consigo somente a paga da caridade e as esmolas que fizeram: delas receberão do Senhor o prêmio e a justa recompensa.

Não nos convém sermos sábios e prudentes segundo a carne, mas temos antes de ser simples, humildes e puros. Jamais desejemos ficar acima dos outros, mas prefiramos ser servos e submissos a toda criatura humana, por causa de Deus. Sobre todos os que assim agirem e perseverarem até o fim repousará o Espírito do Senhor e fará neles sua casa e mansão.

Serão filhos do Pai celeste, pois fazem suas obras, e são esposos, irmãos e mães de nosso Senhor Jesus Cristo.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Irradiação do Sobrenatural - a Bondade

Por Dom J.B. Chautard.

A Alma de todo Apostolado.




" A bondade natural, simples fruto do temperamento, dista tanto da bondade sobrenatural de uma alma de apóstolo, como o humano dista do divino. A primeira poderá fazer nascer o respeito e mesmo até a simpatia pelo operário evangélico e por vezes desviar para a criatura uma afeição que apenas deveria ter Deus como objeto. Jamais, porém, logrará determinar as almas fazerem, tendo apenas Deus realmente em vista, os sacrifícios necessários para o regresso ao seu Criador. Só a bondade que promana da intimidade com Jesus vingará realizar esse efeito.

O ardente amor por Jesus e a verdadeira dileção para as almas darão ao apóstolo todas as audácias compatíveis com o tato e com a prudência. A um leigo eminente ouvimos contar o seguinte fato: Falando com Pio X, tinha esse leigo, no decurso da conversação, desfechado algumas palavras mordentes sobre um inimigo da Igreja. " Meu fiho, disse-lhe o Papa, não aprovo a sua linguagem. Como castigo, ouça esta história.

Acabara de chegar à sua primeira paróquia um sacerdote, que eu conheci muito bem. Julgou ele do seu dever de visitar  todas as famílias.: Judeus, protestantes, até maçons, ninguém foi excluído, e o pároco anunciou do púlpito que renovaria sua visita todos os anos. Tanto se admiraram disto os colegas dele que se queixaram ao bispo. Este mandou logo chamar o acusado e repreendeu-o com veemência.

" Monsenhor, responde-lhe modestamente o pároco, Jesus, no Evangelho, ordena ao pastor que conduza ao aprisco todas as suas ovelhas, oportet illas adducere. Como lograr esse resultado sem ir á procura delas? Demais a mais, eu nunca transijo com os princípios; limito-me a testemunhar o meu interesse e a minha caridade a todas as almas, mesmo às desgarradas, que Deus me confiou. Anunciei essas visitas do púlpito; e se é desejo formal de V. Exª que eu cesse de as fazer, queira ter a bondade de me dar por escrito essa proibição.afim de que se saiba que eu apenas obedeço às ordens de V. Exª.

Abalado pelo acerto destas palavras, o bispo não insistiu. O futuro veio depois dar razão a esse sacerdote, que teve a alegria de converter algumas dessas almas desgarradas e impôs às outras um grande respeito pela nossa santa religião.

O humilde sacerdote veio a ser, por vontade de Deus, o Papa que agora lhe dá, meu filho, esta lição de caridade. Seja pois inabalável nos princípios, mas estenda a sua caridade a todos os homens, mesmo que eles sejam os piores inimigos da Igreja"




quinta-feira, 2 de outubro de 2014

AntiCristo

Instrução pastoral do Cardeal Pie - Quaresma 1863



"Anticristo, o que nega que Jesus seja Deus; anticristo, o que nega que Jesus seja homem; anticristo, o que nega que Jesus seja homem e Deus ao mesmo tempo.

Um anticristo, nos diz São João, nega o Pai, pois negando o Pai nega o Filho: Hic est antichristus qui negat Patrem et filium (I Jo. 2, 22). De fato, não há anticristianismo mais radical do que aquele que nega a divindade em sua raiz, em seu princípio. Como o Cristo seria Deus se Deus não existisse? Ora, negar o ser divino, a substância divina, a personalidade divina e introduzir não sei que outra teodicéia é prova de que suprimem a realidade, substituindo-a por abstrações e sonhos que flutuam entre o ateísmo e o panteísmo ou que não têm sentido algum. Eis o sistema capital da atual situação intelectual; eis o ensinamento que enche os livros e inspira as lições de toda uma escola, abundante e poderosa. Diante de tais doutrinas, “só tenho uma coisa a dizer-vos: cuidado com o anticristo”: Unum moneo: cavete antechristum.

São João continua: “Todo aquele que nega o Filho, também não reconhece o Pai. O que crê no Filho de Deus, tem em si o testemunho de Deus. O que não crê no Filho, torna Deus mentiroso, porque não crê no testemunho que Deus deu de seu Filho. Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho, não tem a vida” (I Jo. 2,23; 5, 10-12). “Muitos sedutores se têm levantado no mundo, que não confessam que Jesus Cristo tenha vindo em carne; quem faz isso é um sedutor e um anticristo”: “Qui non confiteur Christum in carne venisse, hic est seductor et antichristum” (II Jo. 7). Ora, se os senhores escutarem o que se diz hoje e se lerem o que se escreve atualmente, descobrirão ou que o personagem histórico Jesus nem chegou a existir (ao menos como é representado nos Evangelhos) ou que foi um desses tipos que manifestou mais fortemente o ideal de sabedoria, de razão, de perfeição e que convencionou-se denominar “Deus”. Jamais admitirão que o Filho de Maria seja o Filho de Deus feito homem, o Verbo feito carne, aquele em que reside corporalmente a plenitude da divindade (Col. 2, 9), e, para concluir definitivamente, o Homem-Deus. Aterrorizado com tais blasfêmias, que são a própria inversão do símbolo cristão, “só tenho uma coisa a dizer-vos: cuidado com o anticristo”: “Unum moneo: cavete antechristum”.

Que diria eu ainda? Anticristo, o que nega o milagre, o que ensina que o milagre não tem lugar possível na trama das coisas humanas. Cristo, ainda que suas palavras tivessem um tom que merecesse credibilidade, só estabeleceu sua divindade pelo argumento decisivo do milagre. Ele deu a seus apóstolos, como meio de persuasão e conquista, o poder de operar milagres. Sua vinda ao mundo em carne, a união entre a natureza humana e a natureza divina em uma única pessoa é o milagre por excelência. Suprimir o milagre é suprimir toda a ordem sobrenatural e cristã. Aqui repito: “Cuidado com o anticristo”: “Unum moneo: cavete antechristum”.

Anticristo, aquele que nega a revelação divina das Escrituras: pois são os profetas divinamente inspiradas que nos anunciaram o Cristo. São os Evangelhos ditados pelo Espírito Santo, assim como os atos e as cartas dos Apóstolos que nos fazem conhecer a Cristo. Podemos alegar as próprias palavras de Santo Hilário: “Quem quer que negue o Cristo tal como foi anunciado pelos Apóstolos, este é um anticristo”: “Quisquis enim Christum, qualis ab apostolis est praedicatus, negavit, antichristum est”. Se os senhores ouvirem negar os livros santos, se sua autoridade for desprezada como simples concepção e invenção do espírito humano, “tenho um conselho a dar: cuidado com o anticristo”: “Unum moneo: cavete antechristum”.

Anticristo, aquele que nega a instituição divina a missão divina da Igreja, pois a conclusão, a finalização das obras, dos sofrimentos e da morte de Jesus Cristo foi a fundação de sua Igreja. “Cristo amou a Igreja e por ela se entregou a si mesmo, para a santificar, purificando-a no batismo da água pela palavra da vida, para apresentar a si mesmo esta Igreja gloriosa, sem mácula, sem ruga, mas santa e imaculada” (Ef. 5.25-27). Ora, se a Igreja não possui um caráter sobrenatural, se ela é somente uma instituição terrena, um dos estabelecimentos religiosos destinados a desempenhar um papel mais ou menos longo no seio da humanidade, uma sociedade exposta às vicissitudes e falhas das coisas desse mundo, uma escola mais ou menos respeitável de filosofia e filantropia, numa palavra, se a Igreja não é divina, é que Cristo, seu fundador, não é Deus. Rejeitar a divindade da obra é rejeitar a divindade do autor: “Tenho sempre a mesma recomendação a dar: cuidado com o anticristo”: “Unum moneo: cavete antechristum”.

Anticristo, aquele que nega a suprema e indefectível autoridade de Pedro. Na verdade, Jesus Cristo, depois de ter olhado nos olhos desse homem, disse-lhe: “Simão, filho de João, tu serás chamado Cefas que quer dizer Pedro” (Jo. 1, 42); “e sobre esta pedra Eu edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão sobre ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; e tudo o que desatares sobre a terra, será desatado nos céus” (Mt. 16, 18-19). E o mesmo Jesus lhe disse ainda: “Simão, Simão, eis que Satanás te reclamou com instância para te joeirar como trigo; mas eu roguei por ti, para que tua fé não falte; e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos” (Lc. 22, 31-32). Se essas palavras de Jesus Cristo não fizeram de Pedro o fundamento inabalável da Igreja, a rocha imutável da verdade, o oráculo infalível da fé, é porque quem as pronunciou não tinha o poder de torna-las eficazes. Ferir Pedro é ferir a cabeça viva, o chefe invisível da Igreja cristã que nele revive e subsiste. “Clamo ainda: cuidado com o anticristo”: “Unum moneo: cavete antichristum”.

Anticristo, aquele que nega ou despreza o sacerdote cristão. Jesus Cristo ressuscitado disse a seus apóstolos: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo. 20, 21). “Foi-me dado todo o poder no céu e na terra. Ide, pois, ensinai a todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as observar todas as coisas que vos mandei; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt. 28, 18-20). Se os poderes assim conferidos por Jesus não são os plenos poderes de ensinar a verdade em nome de Deus pela pregação, de administrar a graça dos sacramentos, de velar pela observância dos preceitos divinos pelo governo eclesiástico e se, no exercício de seus poderes, o sacerdócio cristão não for sustentado por uma assistência contínua e uma presença quotidiana de Cristo, aqui ainda, deve-se admitir que Cristo falou mais do que podia fazer. Conseqüentemente, ele não é Deus. O Senhor disse aos próprios levitas da antiga lei: “Não toqueis os meus ungidos” (I Par. 16, 22), e disse aos ministros da nova lei: “O que vos recebe, a Mim recebe; e o que Me recebe, recebe Aquele que Me enviou” (Mt. 10, 40); sabendo disso, quando vejo a língua de meu país se depravar até chegar a transforma em título de insulto e desdém essa primícia sacerdotal e real chamada clericatura, e que o vocabulário tinha sido por muito tempo sinônimo de saber e de instrução, me sinto tomado de imensa piedade por uma geração cuja própria elite sucumbe a tal baixeza e se mostra culpada de tal esquecimento e desrespeito em relação ao que todos os povos tiveram de mais sagrado. E “repito sempre a mesma lição: cuidado com o anticristo: unum moneo: cavete antichristum”.

Anticristo, aquele que nega a superioridade dos tempos e países cristãos sobre os tempos e países infiéis ou idólatras. Se Jesus Cristo, que nos iluminou quando estávamos nas trevas e nas sombras da morte, e deu ao mundo o tesouro da verdade e da graça, não enriqueceu o mundo com bens superiores aos possuídos no seio do paganismo, [e falo até mesmo do mundo social e político] é que a obra do Cristo não é uma obra divina. Além disso: se o Evangelho que salva os homens é impotente para fornecer os princípios do verdadeiro progresso dos povos; se a luz revelada, proveitosa aos indivíduos é prejudicial às sociedades, e talvez até para as famílias, é prejudicial e inaceitável para as cidades e os impérios; em outros termos, se Jesus Cristo, que os profetas prometeram e a quem o Pai deu as nações como herança, só pode exercer seu poder sobre elas em seu detrimento e para sua infelicidade temporal, tem de se concluir que Jesus Cristo não é Deus. Porque nem em Sua pessoa nem no exercício dos Seus direitos, Jesus Cristo pode ser dividido, dissolvido, fracionado. Nele, a distinção das naturezas e das operações nunca poderá ser a separação, a oposição. O divino não pode ser antipático ao humano, nem o humano ao divino. Ao contrário, ele é a paz, a aproximação, a reconciliação, é o traço de união “que faz de duas coisas, uma”: “ipse est pax nostra qui fecit utraque unum” (Ef. 2, 14). Por isso São João nos diz: “todo espírito que divide Jesus não é de Deus; mas este é um anticristo do qual vós ouvistes que vem, e agora está já no mundo”. “Et omnis spiritus qui sivit Jesum, ex Deo non est; et hic est antichristum de quo audistis quoniam venit, et nunc jam in mundo est” (I Jo. 4, 3). Quando ouço então certos ruídos que surgem, certos aforismos que prevalecem com maior freqüência dia a dia e se introduzem no coração das sociedades, dissolvendo-as sob a ação daquele por quem o mundo há de perecer, “lanço um grito de alarme: cuidado com o anticristo”: “unum moneo: cavete antichristum”.

Poderíamos, caros irmãos, nos estender sobre os detalhes dos erros que se propagam a cada dia em nosso redor, que constituem o que poderíamos chamar anticristianismo. O que dissemos é mais do que suficiente para excitar em nós a vigilância e desconfiança de qualquer doutrina que não proceda da Igreja (...).

Permaneçamos firmes na fé antiga e invariável da Santa Igreja; “sejam homens e não crianças flutuantes, e levadas, ao sabor de todo vento de doutrina, pela malignidade dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro” (Ef. 4, 14). O divino Salvador disse, profetizando os tempos de ruína de Jerusalém: “Mas ai das mulheres grávidas e das que tiverem crianças de peito naqueles dias!” (Mt. 24, 19). Santo Hilário nos explica essa passagem: “Nos dias difíceis e de tempestade da Igreja, ai das almas minadas pela incerteza e nas quais a fé e a piedade estiverem ainda em estado embrionário ou ainda na infância. Umas, surpreendidas no embaraço de suas incertezas e atrasadas por causa das irresoluções de seu espírito constantemente irrequieto, estarão muito pesadas para escapar às perseguições do anticristo. Outras, tendo apenas degustado os mistério da fé em embebidas somente de uma fraca dose de ciência divina, não terão força suficiente e habilidade necessário para resistir a tão grandes assaltos” (Comment. In Mat. 25. 6). É esse o peso e debilitação das almas que hão de tornar os últimos tempos tão perniciosos, propícios a tantas quedas.

Por outro lado, Santo Agostinho ressalta o quanto esses dias de provações serão favoráveis ao embelezamento e crescimento do mérito das almas fieis. Comentando a passagem do Apocalipse: “depois disso é necessário que o demônio seja solto por um pouco de tempo” (Ap. 20, 3), o santo doutor nos mostra que o demônio nunca está preso de maneira absoluta durante a vida da Igreja militante. Entretanto, ele fica freqüentemente preso no sentido de que não lhe é permitido utilizar sua força toda nem todos os seus artifícios para seduzir os homens.

A enfermidade do grande número é tal que, se ele tivesse esse pleno poder ao longo de todos os séculos, muitas almas com que Deus quer aumentar e povoar sua Igreja seriam desviadas da verdadeira crença ou tornar-se-iam apóstatas: isso Deus não quer suportar. Eis porque o demônio fica parcialmente atado. Porém, por outro lado, se ele nunca fosse solto, o poder de sua malícia seria menos conhecido; a paciência da Cidade Santa menos exercida e compreenderíamos menos o imenso fruto que o Todo Poderoso soube tirar da imensa força do mal. O Senhor então desatá-lo-á por um tempo a fim de mostrar a energia com a qual a cidade de Deus vencerá tão horrível adversário, para a grande glória de seu redentor, de seu auxílio, de seu libertador. E o santo doutor chega a dizer a seus contemporâneos: “Quanto a nós, irmãos, quem somos e que mérito possuímos em comparação aos santos e fiéis de então? Porque, para prova-los, o inimigo que nós já temos tanta dificuldade em combater e vencer atado, estará desatado”.

Coragem, meus caros irmãos. Quanto mais a religião é atacada, a Igreja oprimida por todos os lados, quanto mais as doutrinas errôneas e de perversão moral invadem os discursos, livros e teatros e enchem a toda a atmosfera com seus miasmas pestilentos, mais possível será adquirir grandeza, perfeição e mérito diante de Deus, se não nos deixarmos abalar em nenhuma de nossas convicções e permanecermos fiéis ao Senhor Jesus, coisa em que muitos outros falharam e tiveram a desgraça de abandona-Lo.

 Não vos deixai seduzir pela força e número dos perversos, nem pelas aparentes vitórias dos adversários de Jesus Cristo. Está escrito que os maus e os sedutores farão a terra progredir; progresso no mal, progresso na destruição, progresso na desordem: proficient in pejus “irão de mal a pior” (II Tim. 3, 13). Mas também está escrito que esse tipo de sucesso nunca durará por muito tempo. Os homens que resistem à verdade, pessoas corrompidas em seu espírito e réprobos sob o olhar da fé não tardarão a se convencer dessa loucura juntamente com seus seguidores nessa via.

Perseverai na fé, caríssimos irmãos; perseverai também nas obras, sobretudo nas obras de caridade. É uma doutrina constante e que não deve ser abandonada a nenhum preço: aqueles que crêem em Deus são os que tomam a frente das boas obras: a humanidade, e principalmente, a humanidade sofredora encontrará sempre consolo desse modo. Não ouvimos dizer também, que nesses últimos dias, a esmola feita por sentimento sobrenatural e segundo as tradições da piedade cristã não terá lugar no seio de nossas sociedades e que seu “selo eclesiástico” será uma ofensa à dignidade dos necessitados que se tenta aliviar? O naturalismo, o ardor que põe na secularização de tudo, entende que fazer o bem é obra puramente humana, profana e não tem nada em comum com a ordem da graça e da salvação. Propósito execrável, e se pudesse chegar a desencorajar a caridade cristã e sacerdotal, conseguiria neutralizar as mais oportunas fontes de alívio dos infelizes.

Ah! Eu vos diria ainda: “cuidado com o anticristo”: “unum moneo: cavete antichristum”. Mas tenham os olhos sempre fixos em Cristo; no menino Jesus do estábulo de Belém; no operário-Deus do ateliê de Nazaré; naquele que, sendo rico por natureza fez-se pobre para nos enriquecer com sua humilhação; naquele que será um dia nosso juiz, e que, em consideração com essa multidão de operários indigentes e privados de trabalho que terá sido aliviada por amor a Ele, nos fará possuir o reino que seu Pai nos preparou.      

(Revista Sim Sim Não Não N°146  Janeiro-Fevereiro de 2006)
Originalmente publicado na Permanência

Fonte: AQUI

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Santa Terezinha



"Pôs diante dos meus olhos o livro da natureza e compreendi que todas as flores por ele criadas são belas, e que o esplendor da rosa e a brancura do lírio não tiram o perfume da humilde violeta nem a simplicidade encantadora da margarida... Compreendi que se todas as flores quisessem ser rosas, a natureza perderia sua pompa primaveril e os campos já não seriam salpicados de florzinhas...

O mesmo ocorre no mundo das almas, o jardim de Jesus. Ele quis criar grandes santos, que podem ser comparados aos lírios e às rosas; mas criou também outros menores, e estes devem se conformar em ser margaridas ou violetas destinadas a alegrar os olhos de Deus quando contempla seus pés. A perfeição consiste em fazer sua vontade, em ser aquilo que Ele quer que sejamos...

Compreendi também que o amor de Nosso Senhor se manifesta tanto na alma mais simples, que não coloca nenhuma resistência a sua graça, quanto na alma mais sublime. É próprio do amor abaixar-se..."


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Papa Francisco e a ditadura comunista

Catequese desta Quarta feira 

Fonte: Aleteia. 


" Eles se somam às centenas de religiosos cristãos e muçulmanos assassinados, torturados, presos e deportados somente porque acreditavam em Deus. Foram anos sombrios, nos quais foi pisoteada a liberdade religiosa e era proibido crer em Deus, milhares de igrejas e mesquitas foram destruídas e transformadas em lojas e cinemas da propaganda marxista. Livros religiosos foram queimados e os pais proibidos de dar aos filhos nomes de santos ou antepassados. A recordação destes eventos é essencial para o futuro de um povo. 

A memória dos mártires que resistiram na fé é a garantia do destino da Albânia, pois seu sangue não foi derramado inutilmente, mas é uma semente que trará frutos de paz e de colaboração fraterna”.

 Francisco lembrou também o encontro com os sacerdotes, pessoas consagradas, seminaristas e movimentos laicais e a comovente recordação das vítimas de perseguições e dos mártires albaneses. 

“Eles não são os vencidos, mas os vencedores. Seu heróico testemunho reflete o poder absoluto de Deus, que sempre consola seu povo, abrindo novos caminhos e horizontes de esperança. Isto tudo nos confirma que a força da Igreja não vem da sua capacidade organizativa nem das estruturas, mas do amor de Cristo. Este amor nos sustenta nas dificuldades e nos inspira a bondade e o perdão, e demonstra a misericórdia de Deus”.

 Terminando a catequese, o Papa renovou o convite à coragem do bem, para construir o presente e o amanhã. “Que a lembrança de um passado duro se converta numa maior abertura aos irmãos, especialmente aos mais fracos, para assim dar testemunho do dinamismo da caridade, tão necessária no mundo de hoje”.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Filme Completo: SÃO PADRE PIO DE PIETRELCINA - Imagem Digital.

A Realeza de Maria na Tradição

Por Sua Santidade Papa Pio XII


" Com razão acreditou sempre o povo fiel, já nos séculos passados, que a mulher, de quem nasceu o Filho do Altíssimo – o qual "reinará eternamente na casa de Jacó", (será) "Príncipe da Paz" , "Rei dos Reis e Senhor dos senhores", recebeu mais que todas as outras criaturas singulares privilégios de graça. E considerando que há estreita relação entre uma mãe e o seu filho, sem dificuldade reconheceu na Mãe de Deus a dignidade real sobre todas as coisas.

Assim, baseando-se nas palavras do arcanjo Gabriel, que predisse o reino eterno do Filho de Maria, e nas de Isabel, que se inclinou diante dela e a saudou como "Mãe do meu Senhor" compreende-se que já os antigos escritores eclesiásticos chamassem a Maria "mãe do Rei" e "Mãe do Senhor", dando claramente a entender que da realeza do Filho derivara para a Mãe certa elevação e preeminência.

 Santo Efrém, com grande inspiração poética, põe estas palavras na boca de Maria: "Erga-me o firmamento nos seus braços, porque eu estou mais honrada do que ele. O céu não foi tua mãe, e fizeste dele teu trono. Ora, quanto mais se deve honrar e venerar a mãe do Rei, do que o seu trono!" Em outro passo, assim invoca a Maria santíssima: "...Virgem augusta e protetora, rainha e senhora, protege-me à tua sombra, guarda-me, para que Satanás, que semeia ruínas, não me ataque, nem triunfe de mim o iníquo adversário".

 A Maria chama s. Gregório Nazianzeno "Mãe do Rei de todo o universo", "Mãe virgem, [que] deu à luz o Rei do todo o mundo". Prudêncio diz que a Mãe se maravilha "de ter gerado a Deus não só como homem mas também como sumo rei".

E afirmam claramente a dignidade real de Maria aqueles que a chamam "senhora", "dominadora" e "rainha".

. Já numa homilia atribuída a Orígenes, Maria é chamada por Isabel não só "Mãe do meu Senhor" mas também "Tu, minha Senhora".

 O mesmo conceito se pode deduzir dum texto de s. Jerônimo, que expõe o próprio parecer acerca das várias interpretações do nome de Maria: "Saiba-se que Maria, na língua siríaca, significa Senhora".(15) Igualmente e com mais decisão, se exprime depois s. Pedro Crisólogo: "O nome hebraico Maria traduz-se por "Domina" em latim: "portanto o anjo chama-lhe Senhora para livrar do temor de escrava a mãe do Dominador, a qual nasce e se chama Senhora pelo poder do Filho".

Santo Epifânio, bispo de Constantinopla, escreve ao papa Hormisdas pedindo a conservação da unidade da Igreja "mediante a graça da Trindade una e santa e por intercessão de nossa Senhora, a santa e gloriosa virgem Maria, Mãe de Deus".

 Um autor do mesmo tempo dirige-se a Maria santíssima, sentada à direita de Deus, invocando-a solenemente como "Senhora dos mortais, santíssima Mãe de Deus".

 Santo André Cretense atribui muitas vezes a dignidade real à virgem Maria; escreve, por exemplo: "Leva [Jesus Cristo] neste dia da morada terrestre [para o céu], como rainha do gênero humano, a sua Mãe sempre virgem, em cujo seio, permanecendo Deus, tomou a carne humana". E noutro lugar: "Rainha de todo o gênero humano, porque, fiel à significação do seu nome, se encontra acima de tudo quanto não é Deus".

 Do mesmo modo se dirige s. Germano à humildade da Virgem: "Senta-te, ó Senhora; sendo tu Rainha e mais eminente que todos os reis, pertence-te estar sentada no lugar mais nobre"; e chama-lhe: "Senhora de todos aqueles que habitam a terra".

 São João Damasceno proclama-a "rainha, protetora e senhora" e também: "senhora de todas as criaturas"; e um antigo escritor da Igreja ocidental chama-lhe: "ditosa rainha", "rainha eterna junto do Filho Rei", e diz que ela tem a "nívea cabeça ornada com um diadema de ouro".

 Finalmente, s. Ildefonso de Toledo resume-lhe quase todos os títulos de honra nesta saudação: "Ó minha senhora, minha dominadora: tu dominas em mim, ó mãe do meu Senhor... Senhora entre as escravas, rainha entre as irmãs".

Recolhendo a lição desses e outros inumeráveis testemunhos antigos, chamaram os teólogos a santíssima Virgem, rainha de todas as coisas criadas, rainha do mundo e senhora do universo.

Por sua vez, os sumos pastores da Igreja julgavam obrigação sua aprovar e promover a devoção à celeste Mãe e Rainha com exortação e louvores. Pondo de parte os documentos dos papas recentes, recordamos que já no século VII o nosso predecessor s. Martinho I chamou a Maria "gloriosa Senhora nossa, sempre virgem";s. Agatão, na carta sinodal enviada aos padres do sexto concílio ecumênico, chamou-a "Senhora nossa, verdadeiramente e com propriedade Mãe de Deus"; e no século VIII, Gregório II, em carta ao patriarca s. Germano, que foi lida entre as aclamações dos padres do sétimo concílio ecumênico, proclamava Maria "Senhora de todos e verdadeira Mãe de Deus" e "Senhora de todos os cristãos".

 Apraz-nos recordar também que o nosso predecessor de imortal memória Sixto IV, querendo favorecer a doutrina da imaculada conceição da santíssima Virgem, começa a carta apostólica Cum praeexcelsa chamando precisamente a Maria "rainha sempre vigilante, a interceder junto ao Rei, que ela gerou". Do mesmo modo Bento XIV, na carta apostólica Gloriosae Dominae , chama a Maria "rainha do céu e da terra", afirmando que o sumo Rei lhe contou, em certo modo, o seu próprio império.

 Por isso, s. Afonso de Ligório, tendo presente todos os testemunhos dos séculos precedentes, pôde escrever com a maior devoção: "Porque a virgem Maria foi elevada até ser Mãe do Rei dos reis, com justa razão a distingue a Igreja com o título de Rainha".

domingo, 21 de setembro de 2014

Testemunho de um sacerdote condenado à morte pelo regime comunista fez o Papa chorar




Fonte:  ACIDIGITAL




"Entre lágrimas, o Papa Francisco estreitou em um forte abraço ao sacerdote Ernest Simoni, de 84 anos, um dos últimos sobreviventes da terrível perseguição comunista na Albânia, quem foi encarcerado em condições desumanas e se livrou da pena de morte que sofreria devido à sua fidelidade à Igreja e ao Sucessor de Pedro.

Durante sua visita a Tirana, o Papa Francisco teve um encontro na Catedral de São Paulo com os sacerdotes, religiosos, religiosas, seminaristas e movimentos leigos da Albânia, onde escutou com atenção o testemunho do Padre Simoni.

O presbítero relatou que em dezembro de 1944 começou na Albânia um regime comunista ateu que buscou eliminar a fé e o clero com “prisões, torturas e assassinatos de sacerdotes e leigos durante sete anos seguidos, derramando o sangue dos fiéis alguns dos quais antes de ser fuzilados gritavam: ‘Viva Cristo Rei!’”.

Em 1952, as autoridades comunistas reuniram os sacerdotes que sobreviveram ao regime e ofereceram a liberdade em troca de distanciar-se do Papa e o Vaticano, proposta que estes jamais aceitaram. Assim, o Pe. Simoni relatou que antes de ser ordenado sacerdote estudou com os franciscanos por 10 anos desde 1938 até 1948, e quando seus superiores foram fuzilados pelos comunistas seguiu seus estudos clandestinamente.

“Dois anos terríveis se passaram e no dia 7 de abril de 1956 fui ordenado sacerdote, um dia depois da Páscoa e na Festa da Divina Misericórdia celebrei minha Primeira Missa”.

Em 24 de dezembro de 1963 ao concluir a Missa de Vésperas de Natal, quatro oficiais apresentaram o decreto de prisão e fuzilamento, e o padre foi algemado e detido. No interrogatório lhe disseram que seria enforcado como um inimigo porque disse ao povo “que morreremos todos por Cristo se for necessário”.

As torturas o deixaram em muito mal estado. “O Senhor quis que continuasse vivendo”. Entre os cargos que lhe imputaram figurava celebrar uma Missa pela alma do Presidente John F. Kennedy assassinado um mês antes de sua prisão, e por ter celebrado missa, por indicação do Papa Paulo VI, por todos os sacerdotes do mundo.

“A Divina Providência quis que minha condenação à morte não fosse realizada imediatamente. Na sala trouxeram um outro prisioneiro, um querido amigo meu, com o propósito de me espiar, e começou a falar mal do partido”, recordou.

“Eu de todos os modos respondia que Cristo tinha nos ensinado a amar os inimigos e a perdoá-los e que nós devíamos nos empenhar no bem do povo. Essas minhas palavras chegaram aos ouvidos do ditador que após alguns dias livrou-me da pena de morte”, explicou o P. Simone.

Os comunistas trocaram sua sentença de morte por uma pena de 28 anos de trabalhos forçados. “Trabalhei nos canais de esgotos e durante o período da prisão celebrei a Missa, confessei e distribuiu a comunhão às escondidas”, relatou.

O sacerdote foi liberado quando caiu o regime comunista e começou a liberdade religiosa. “O Senhor me ajudou a servir tantos povos e a reconciliar a muitas pessoas afastando o ódio e o diabo dos corações dos homens”, assegurou.

“Santidade, seguro de poder expressar a intenção dos presentes eu peço que pela intercessão da Santíssima Mãe de Cristo, o Senhor lhe dê vida, saúde e força na guia do grande rebanho que é a Igreja de Cristo, Amém”, concluiu o sacerdote antes de dar ao Papa um abraço que comoveu o Pontífice às lágrimas.

A doutrina Comunista


Sua Santidade Papa Pio XI


"A doutrina comunista que em nossos dias se apregoa, de modo muito mais acentuado que outros sistemas semelhantes do passado, apresenta-se sob a máscara de redenção dos humildes. E um pseudo-ideal de justiça, de igualdade e de fraternidade universal no trabalho de tal modo impregna toda a sua doutrina e toda a sua atividade dum misticismo hipócrita, que as multidões seduzidas por promessas falazes e como que estimuladas por um contágio violentíssimo lhes comunica um ardor e entusiasmo irreprimível, o que é muito mais fácil em nossos dias, em que a pouco equitativa repartição dos bens deste mundo dá como conseqüência a miséria anormal de muitos.

 Proclamam com orgulho e exaltam até esse pseudo-ideal, como se dele se tivesse originado o progresso econômico, o qual, quando em alguma parte é real, tem explicação em causas muito diversas, como, por exemplo, a intensificação da produção industrial, introduzida em regiões que antes nada disso possuíam, a valorização de enormes riquezas naturais, exploradas com imensos lucros, sem o menor respeito dos direitos humanos, o emprego enfim da coação brutal que dura e cruelmente força os operários a pesadíssimos trabalhos com um salário de miséria".

Fonte:  Divinis Redemptoris

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Cristo Rei

Por São João Paulo II




 1. Regnavit a ligno Deus!

O texto do Evangelho de São Lucas, leva-nos com o pensamento à cena altamente dramática que se realiza no «lugar chamado Calvário» (Lc. 23, 33) e apresenta-nos, à volta de Jesus crucificado, três grupos de pessoas que variadamente discutem a sua «figura» e o seu «fim».

 Quem é, na realidade, aquele que está ali crucificado? Enquanto a gente comum e anónima ficava em geral incerta e se limitava a olhar, «os chefes zombavam, dizendo: 'salvou os outros: salve-se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito'». Como se vê, a arma deles é a ironia negadora e demolidora. Mas também os soldados — o segundo grupo troçavam d'Ele e, quase em tom de provocação e desafio, diziam-lhe: «Se és o rei dos Judeus, salva-Te a Ti mesmo», inspirando-se talvez nas palavras mesmas da inscrição, que viam colocada por cima da Sua cabeça. Estavam, por fim, os dois malfeitores em contraste um com o outro ao julgarem o Companheiro de suplício: enquanto um O blasfemava, recolhendo e repetindo as expressões depreciativas dos soldados e dos chefes, o outro declarava abertamente que Jesus «nada praticara de condenável» e, dirigindo-se a Ele, assim Lhe pedia: «Jesus, lembra-Te de mim quando estiveres no Teu reino».

Eis como, no momento culminante da crucifixão, precisamente quando a vida do profeta de Nazaré está para ser suprimida, nós pode-mos recolher, mesmo no vivo de discussões e contradições, este misterioso aludir ao Rei e ao reino.

Podemos dizer, que a realeza de Cristo, deve ser sempre referida ao acontecimento que se executa naquela colina, e ser compreendida no mistério salvífico, aí operado por Cristo: refiro-me ao acontecimento e ao mistério da redenção do homem. Cristo Jesus — devemo-lo fazer notar — afirma-se rei precisamente no momento em que, entre as dores e angústias da cruz, entre as incompreensões e as blasfémias dos presentes, agoniza e morre. Na verdade, realeza singular é a Sua, tal que só os olhos da fé a podem reconhecer: Regnavit a ligno Deus!

A realeza de Cristo, que nasce da morte no Calvário e culmina no acontecimento dela inseparável, a ressurreição, recorda-nos aquela centralidade, que a ele compete por motivo daquilo que é e daquilo que fez. Verbo de Deus e Filho de Deus, primeiro que tudo e acima de tudo, «por Ele — como em breve repetiremos no Credo — todas as coisas foram feitas», Ele tem um intrínseco, essencial e inalienável primado na ordem da criação a respeito da qual é a suprema causa exemplar. E depois que «o Verbo se fez homem e habitou entre nós» (Jo. 1, 14), também como homem e Filho do homem, consegue um segundo título na ordem da redenção, mediante a obediência ao desígnio do Pai, mediante o sofrimento da morte e consequente triunfo da ressurreição.

Convergindo n'Ele este duplo primado, temos portanto não só o direito e o dever, mas também a satisfação e a honra, de confessar o Seu excelso senhorio sobre as coisas e sobre os homens, que pode ser chamado, com termo não certamente impróprio nem metafórico, realeza. «Humilhou-se a Si mesmo, feito obediente até à morte e morte de cruz. Por isso é que Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todo o nome, para que, ao nome de Jesus, todo o joelho se dobre, nos céus, na terra e nos infernos, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor» (Flp. 2, 8-11). Eis o nome de que nos fala o Apóstolo: é o nome do Senhor e serve para designar a inigualável dignidade, que só a Ele pertence e O coloca a Ele só — como escrevi no princípio da minha primeira Encíclica — no centro, mesmo no vértice do cosmos e da história. Ave Dominus noster! Ave rex noster!

Mas querendo considerar, além dos títulos e das razões, também a natureza e o âmbito da realeza de Cristo nosso Senhor, não podemos deixar de subir a esse poder que Ele próprio, na altura de deixar esta terra, definiu como total e universal, colocando-o na base da missão confiada aos Apóstolos: «Foi-Me dado todo o poder no céu e na terra. Ide pois, ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo quanto vos tenho mandado» (Mt. 28, 18-20). Nestas palavras não há só — como é evidente — a explícita reivindicação de uma autoridade soberana, mas está também indicada, no acto mesmo em que ela é participada aos Apóstolos, uma sua ramificação em distintas, embora coordenadas, funções espirituais. Se, de facto, Cristo ressuscitado diz aos seus que vão e recorda o que já mandou, e se Lhes entrega o encargo tanto de ensinar como de baptizar, isto explica-se porque Ele mesmo, precisamente em virtude do sumo poder que Lhe pertence, possui em plenitude tais direitos e está habilitado a exercitar tais funções, como Rei, Mestre e Sacerdote.

Não é certamente o caso de nos perguntarmos qual foi o primeiro destes três títulos, porque, no contexto geral da missão salvífica que recebeu Cristo do Pai, a cada um deles correspondem funções igualmente necessárias e importantes. Todavia, mesmo para nos mantermos fiéis ao conteúdo da Liturgia de hoje, é oportuno insistir na função real e concentrar o nosso olhar, iluminado pela fé, na figura de Cristo como rei e senhor.

A este propósito, parece óbvia ,a exclusão de qualquer referência de natureza política ou temporalesca. A pergunta formal que Lhe fez Pilatos «És Tu o rei dos Judeus?» (Jo. 18, 33), Jesus responde explicitamente que o Seu reino não é deste mundo e, diante da insistência do procurador romano, afirma «Tu o dizes: Eu sou rei», acrescentando logo a seguir: «Para isto nasci, e para isto vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade» (Jo. 18, 37). De tal modo, declara Ele qual é a dimensão exacta da Sua realeza e a esfera em que se exercita: é a dimensão espiritual que encerra, em primeiro lugar, a verdade para anunciar e servir. O Seu reino, embora comece cá em baixo na terra, nada tem contudo de terreno, e transcende toda a limitação humana, lançado como está para a sua consumação além do tempo, na infinidade do eterno.

Foi a este reino que nos chamou Cristo Jesus, dando-nos uma vocação que nos leva a participar naqueles seus poderes que já recordei. Nós todos estamos ao serviço, em virtude da consagração baptismal, estamos investidos de uma dignidade e de um cargo real, sacerdotal e profético, com o fim de podermos eficazmente colaborar no seu crescimento e na sua difusão.


Fonte: AQUI



Prepara-te Para a Tentação

Do Sermão sobre os pastores, de Santo Agostinho, bispo




"Já sabeis o que amam os maus pastores. Vede o que descuidam. Ao enfermo não fortificastes; do doente não cuidastes; o machucado, isto é, fraturado, não pensastes; ao desgarrado, não reconduzistes; ao que se perdia não fostes procurar e ao forte oprimistes (Ez 34,4), matastes, destruístes. A ovelha se enfraquece, quer dizer, tem coração débil, imprudente e desprevenido, a ponto de ceder às tentações que sobrevierem.

O pastor negligente, quando alguém se lhe confia, não lhe diz: Filho, vindo para servir a Deus, mantém-te na justiça e prepara-te para a tentação (cf. Eclo 2,1). Quem assim fala fortifica o fraco e de fraco faz firme, de modo que, se lhe forem confiados os bens deste mundo, não se fiará neles. Se, contudo, houver aprendido a fiar-se na prosperidade terena, por esta mesma prosperidade será corrompido; sobrevindo adversidades, ferir-se-á e talvez pereça.

Quem assim o edifica, não o constrói sobre pedra, mas sobre a areia. A pedra era Cristo (cf. 1Cor 10,4). Os cristãos têm de imitar os sofrimentos de Cristo e não ir atrás de prazeres. O fraco se fortifica quando lhe dizem: “Espera, sim, provações neste mundo, mas de todas elas te livrará o Senhor, se teu coração não voltar atrás. Pois para fortalecer teu coração veio padecer, veio morrer, veio ser coberto de escarros, veio ser coroado de espinhos, veio ouvir insultos, veio enfim ser pregado na cruz. Tudo isto por tua causa e tu, nada: não para Ele, mas em teu favor”.

Quais são estes que, por temerem ofender os ouvintes, não apenas não os prepararam para as inevitáveis provações, mas prometem a felicidade neste mundo, que Deus não prometeu a este mundo? Ele predisse labutas e mais labutas, que até o fim sobreviriam a este mundo. E tu queres que o cristão esteja isento destas labutas? Justamente por ser cristão, sofrerá algo mais neste mundo.

Com efeito disse o Apóstolo: Todos aqueles que querem viver sinceramente em Cristo, sofrerão perseguições (2Tm 3,12). Agora tu, pastor insensato, que procuras os teus interesses e não os de Jesus Cristo, deixa que Ele diga: Todos aqueles que querem viver sinceramente em Cristo, sofrerão perseguições. E por tua conta vai dizendo: “Se em Cristo viveres piedosamente, terás abundância de todos os bens. Se não tens filhos, tê-lo-ás e os criarás, e nenhum morrerá”.

 É esta tua construção? Olha o que fazes, onde a colocas. Sobre a areia a constróis. Virá a chuva, o rio transbordará, soprará o vento, baterão contra esta casa; ela cairá e será grande sua ruína.Tira-a da areia, põe-na sobre a pedra: esteja em Cristo aquele a quem desejas ver cristão. Observe os injustos sofrimentos de Cristo, observe-o sem pecado, pagando o que não devia, observe a Escritura a lhe dizer: O Senhor castiga todo aquele que reconhece como filho (Hb 12,6). Ou se prepare para ser castigado, ou não procure ser aceito.

(Sermo 46,10-11: CCL 41,536-538) (Séc.V)