segunda-feira, 25 de julho de 2011

A Vida da Graça - Da Parte de Jesus na Vida Cristã



A Vida Espiritual - Explicada e Comentada - de Adolfh Tanquerey

É toda a Santíssima Trindade que nos confere esta participação da vida divina. Mas a Santíssima Trindade fá-lo por causa dos méritos e satisfações de Jesus Cristo que, por este motivo, desempenha um papel tão essencial em nossa vida sobrenatural que esta se chama com razão "vida cristã". Conforme a doutrina de São Paulo, Jesus Cristo é cabeça da humanidade regenerada, como Adão o tinha sido da raça humana em seu berço, mas de modo muito mais perfeito.

Pelos seus méritos, Jesus reconquistou os nossos direitos à graça e à glória; pelos seus exemplos, mostra-nos como devemos viver, para nos santificarmos e merecermos o céu; mas é, antes de tudo, a cabeça dum corpo místico de que nós somos os membros: é, pois, a causa meritória, exemplar e vital da nossa santificação.

1 - Jesus causa meritória da nossa vida espiritual

Quando dizemos que Jesus é causa meritória da nossa santificação, tomamos esta palavra no seu sentido mais lato, enquanto compreende a um tempo a satisfação e o mérito: «Propter nimiam caritatem qua diJexit nos, sua sanctissima passione in ligno crucis nobis iustificationem meruit et pro nobis satisfecit» Logicamente a satisfação precede o mérito, neste sentido que é mister reparar primeiro a ofensa feita a Deus, para obter o perdão dos nossos pecados e merecer a graça; mas em realidade todos os atos livres de Nosso Senhor eram ao mesmo tempo satisfatórios e meritórios; e todos tinham valor moral infinito. Não nos resta senão tirar desta verdade algumas conclusões.

A) Não há pecado irremessível, contanto que, contritos e humilhados, dele peçamos confiadamente perdão. É o que fazemos no santo tribunal da Penitência, onde a virtude do sangue de Jesus Cristo nos é aplicada por intermédio do ministro de Deus. É o que fazemos ainda no Santo Sacrifício da Missa, onde Jesus continua a oferecer-se, pelas mãos do sacerdote, como vítima de propiciação, excitando em nossa alma sentimentos profundos de contrição, tornando-nos a Deus propício, obtendo-nos perdão cada vez mais completo dos nossos pecados, e remissão mais abundante da pena que deveríamos sofrer para os expiar. Podemos acreditar que todos os nossos atos cristãos, unidos aos sofrimentos de Jesus, têm valor satisfatório para nós e para as almas por quem os oferecemos.

B) Jesus mereceu também para nós todas as graças de que necessitamos, para atingirmos o nosso fim sobrenatural e cultivarmos em nós a vida cristã: "Bendito seja Deus que nos abençoou-nos em Cristo com toda a sorte de bençãos espirituais»: graças de conversão, graças de perseverança, graça para resistir às tentações, graças para bem nos aproveitarmos das provações, graças de consolação no meio dos trabalhos, graças de renovação espiritual, graças de segunda conversão, graça de perseverança final; tudo isso nos mereceu Jesus Cristo; e afirma-nos que tudo quanto pedirmos a seu Pai em seu nome, isto é, apoiando-nos em seus merecimentos, nos será concedido. Para nos inspirar mais confiança, instituiu os Sacramentos, sinais visíveis que nos conferem a graça em todas as circunstâncias importantes da nossa vida - dão direito a graças atuais que obtemos em tempo oportuno.

C) Fez mais ainda: deu-nos o poder de satisfazer e merecer, querendo assim associar-nos a Si mesmo, como causas secundárias, e fazer-nos obreiros da nossa própria santificação. Dá-nos até sobre isso preceito, condição essencial da nossa vida espiritual. Se carregou sua Cruz, foi para que nós O seguíssemos, levando a nossa: «Si quis vult post me venire, abneget semetipsum, tollat cru cem suam, et sequatur me". Assim o compreenderam os Apóstolos: «Se queremos ter parte na sua glória, diz São Paulo, é mister que tenhamos parte nos seus sofrimentos, si tamen compatimur, ut et conglorificemur»;(Rm 8,13) e São Pedro acrescenta que, "se Cristo sofreu por nós, foi para que nós lhe seguíssemos as pisadas" (IPed2,21)

Há mais: as almas generosas sentem-se impelidas, como São Paulo a sofrer alegremente, em união com Cristo, pelo seu corpo místico que é a Igreja; e assim têm parte na eficácia redentora da sua Paixão e colaboram secundariamente na salvação de seus irmãos.

Como esta doutrina é mais verdadeira, mais nobre, mais consoladora do que a inacreditável afirmação de certos protestantes que têm a triste coragem de asseverar que, havendo Cristo padecido suficientemente por nós, não senão que gozar dos frutos da sua redenção, sem beber o seu cálice! Com isso pretendem render homenagem à plenitude dos merecimentos de Cristo, quando realmente esta faculdade de merecer não faz senão dar maior realce à plenitude da redenção. E na verdade, não será mais honroso para Cristo manifestar a fecundidade das suas satisfações, associando-nos à sua obra redentora e tornando-nos capazes de nela colaborar, posto que secundariamente, imitando os seus exemplos?

2 - Jesus causa exemplar da nossa vida

Jesus Cristo não se contentou de merecer por nós; quis ser causa exemplar, modelo vivo da nossa vida sobrenatural. Grande era a necessidade que tínhamos dum modelo deste gênero; porquanto, para cultivar uma vida, que é participação da própria vida de Deus, é mister aproximar-nos, o mais possível, da vida divina. Ora, como bem observa Santo Agostinho, "os homens que tínhamos diante dos olhos, eram demasiadamente imperfeitos para nos servirem de modelos, e Deus, que é a mesma santidade, parecia muito distante. Foi então que o Filho eterno de Deus, sua viva imagem, se fez homem, para nos mostrar, pelos seus exemplos, como é possível na terra aproximar-nos da perfeição divina. Filho de Deus e filho do homem, viveu uma vida verdadeiramente deiforrne, e pôde-nos dizer: «Qui videt me, videt et Patrem» I, quem me vê, vê o meu Pai. Tendo manifestado nas suas ações a santidade divina, pôde-nos propor como possível a imitação das divinas perfeições: «Estote ergo vos perfecti sicut et Pater vester caelestis perfectus est»

É por isso que o Pai no-lo propõe como modelo: no batismo e na transfiguração, aparece aos discípulos e diz-lhes, falando de seu Filho: «Hic est Filius meus dilectus in quo mihi bene complacui, eis aqui o meu Filho muito amado em quem tenho todas as minhas complacências». Se tem nele todas as suas complacências, é sinal que deseja que O imitemos. E assim, Nosso Senhor nos diz com toda a confiança; «Ego sum via ... nemo venit ad Patrem nisi per me ... Discite a me, quia mitis sum et humilis corde ... Exemplum enim dedi vobis, ut quemadmodum ego feci vobis, ita et vos faciatis» E que outra coisa é, em substância, o Evangelho senão a narração dos feitos e maravilhas de Nosso Senhor, enquanto são propostos à nossa intimidação «coepit facere et docere?"

Que é o Cristianismo senão a imitação de Jesus Cristo? Tanto assim que São Paulo resumirá todos os deveres cristãos no de imitar a Nosso Senhor: «Imitatores mei estote sicut et ego Christi»

a) Jesus é modelo perfeito Até mesmo por confissão daqueles que não crêem na sua divindade, Jesus é o protótipo mais acabado de virtude que jamais apareceu na terra. Praticou as virtudes em grau heróico, e com as disposições interiores mais perfeitas: religião para com Deus, amor do próximo, aniquilamento a respeito de si mesmo, horror ao pecado e do que a ele pode conduzir, e contudo é modelo imitável e universal, cheio de encanto, cujos exemplos são cheios de eficácia.

b) É modelo que todos podem imitar, pois se dignou desposar as misérias e fraquezas, passar até pela tentação, ser-nos semelhante em exceto o pecado. «Non enim habemus Pontificem qui non possit compati infirmitatibus nostris; tentatum autem per omnia pro similitudine absque peccato". Durante trinta anos, viveu a vida mais oculta, mais obscura, mais comum, obedecendo a Maria e a José, trabalhando como um aprendiz e operário, - "fabri fillius» ; e por esse modo veio a ser o modelo mais acabado da maior dos homens que não têm senão deveres obscuros que desempenhar, e se hão de santificar no meio das ocupações mais comuns.

Mas teve também a sua vida pública: praticou o apostolado, quer por meio dum escol, formando os Apóstolos, quer entre o povo, evangelizando as multidões. Então sofreu cansaço e fome; gozou da amizade de alguns e houve de suportar a ingratidão dos outros; teve os seus triunfos e os seus reveses; numa palavra, passou pelas vicissitudes de todo o homem que tem relações com amigos e com o público.

A Paixão deu-nos o exemplo da paciência mais heróica no meio das torturas e morais, que tolerou não somente sem se queixar, mas pedindo até por seus verdugos. E não se diga que, sendo Deus, sofreu menos. Era homem também: dotado de finíssima sensibilidade, sentiu mais vivamente que nós poderiamos sentir a ingratidão dos homens, o desamparo de seus amigos, a traição de Judas: experimentou tais sentimentos de tédio, de tristeza, de pavor que não deixar de orar para o cálix de amargura se afastasse dele, se era possível; e na Cruz, soltou este grito lancinante, que bem mostra a profundeza das suas agonias: «Deus meus, Deus meus, ut qui dereliquisti me?» Foi, pois, um modelo universal.

c) E mostra-se também cheio de encanto. - Havia anunciado que, tanto que fosse elevado da terra (fazendo alusão ao suplício da Cruz), atrairia tudo a Si. Esta profecia realizou-se ao verem o que Jesus fez e sofreu por eles, os corações generosos apaixonaram-se de amor para como divino Crucificado, e, conseqüentemente, para com a cruz; a despeito das repugnâncias da natureza, levam esforçadamente as suas cruzes interiores e exteriores, quer para mais se parecerem com o seu divino Mestre, quer para lhe testemunharem o seu amor, sofrendo com Ele e por Ele, quer para terem parte mais abundante nos frutos da redenção e colaborarem com Ele na santificação de seus irmãos. É o que aparece na vida dos Santos, que correm com mais sofreguidão atrás das cruzes que os mundanos atrás dos prazeres.

d) Este poder de atração é tanto mais forte quanto mais eficaz é a graça: como todas as ações de Jesus, antes de sua morte, eram meritórias, mereceu-nos a graça de as praticar semelhantes; quando consideramos a sua humildade, pobreza, mortificação e demais virtudes, sentimo-nos arrastados a imitá-lo não somente pela força persuasiva dos seus exemplos, mas ainda pela eficácia das graças que Ele nos mereceu, praticando as virtudes e nos concede nesta ocasião.

Há sobretudo certas ações de Nosso Senhor, às quais, por mais importantes, nos devemos unir de modo especial, visto conterem graças mais abundantes: são os seus mistérios. Assim, por exemplo, o mistério da Encarnação mereceu-nos uma graça de renúncia a nós mesmos e de união com Deus, visto que Nosso Senhor nos ofereceu consigo, para nos consagrar todos a seu Pai; o mistério da Crucifixão mereceu-nos a graça de crucificar a carne e as suas concuspicências; o mistério da Morte mereceu-nos o morrer ao pecado e as suas causas, etc.

Isto melhor o compreenderemos, vendo como Jesus é a cabeça do corpo místico de que somos membros

Jesus cabeça dum corpo místico ou fonte de vida

Esta doutrina encontra-se já substancialmente na palavra de Nosso Senhor: «Ego sum vi tis, vos palmites. Eu sou a videira, vós os sarmentos». Jesus afirma, efetivamente, que nós recebemos dele a nossa vida, como as varas a recebem da cepa a que estão unidas. Esta comparação faz, pois, sobressair a comunidade de vida que existe entre Nosso Senhor e nós; daqui é fácil passar à concepção do corpo místico em que Jesus, como cabeça, faz passar a vida aos seus membros. É São Paulo que insiste mais sobre esta doutrina tão fecunda em resultados

Num corpo requer-se uma cabeça, uma alma, e membros - São estes os elementos que vamos descrever, seguindo a doutrina do Apóstolo:

A cabeça desempenha no corpo humano uma tríplice função: função de preeminência, visto ser nele a parte principalíssima; função de centro de unidade, pois que liga harmonicamente e dirige todos os membros; função de influxo vital, já que é dela que parte o movimento e a vida. Ora, é precisamente esta tríplice função que Jesus exerce na Igreja e sobre as almas.

a) Tem, sem dúvida alguma, a preeminência sobre todos os homens. Ele que, como Homem-Deus, é o primogênito de toda a criatura, o objeto das complacências divinas, o modelo acabado de todas as virtudes, a causa meritória da nossa santificação, Ele que por causa dos seus méritos, foi exaltado acima de toda a criatura e diante do seu trono vê dobrar-se todos no céu, na terra e nos infernos.

b) Na Igreja, é Ele o centro de unidade. Duas coisas são essenciais no organismo perfeito: a variedade dos órgãos e das funções que desempenham, e a sua unidade num princípio comum: sem este duplo elemento não haveria senão uma massa inerte ou um agregado de seres vivos sem nexo orgânico. Ora, é ainda Jesus que, depois de ter estabelecido na Igreja a variedade dos órgâos pela instituição duma hierarquia, sendo o centro de unidade, pois que é Ele, o chefe invisível mas real, imprime aos chefes hierárquicos a direção e o movimento.

c) É Ele ainda o princípio do influxo vital que anima e vivifica todos os membros. Até mesmo como homem recebe a plenitude da graça, para no-lo comunicar: «Vidimus eum plenum gratiae et veritatis ... de cuius plenitudine nos omnes a ccepimus, et gratiam pro gratia». Pois não é causa meritória de todas as graças que recebemos, e que nos são distribuídas pelo Espírito Santo? É por isso que o Concílio de Trento afirma, sem hesitar, esta ação, este influxo vital de Jesus sobre os justos.

A qualquer corpo é indispensável não somente uma cabeça, também uma alma. Ora, é o Espírito Santo (isto é, a Santíssima Trindade designada por este nome) que é a alma do corpo místico de que Jesus é a cabeça; é Ele, efetivamente, que difunde nas almas a caridade e a graça merecidas por Nosso Senhor. Eis o motivo por que Ele é chamado Espírito que vivifica: «Credo in Spiritum ... VÍvificantem». Eis a razão por que Santo Agostinho nos diz que o Espírito Santo é para o corpo da Igreja o que a alma é para o corpo natural: «Quod est in corpore nostro anima, id est Spiritus Sanctus in corpore Christi quod est EccJesia» Esta expressão foi, aliás, consagrada por Leão XIII na sua Encíclica sobre o Espírito Santo . É ainda este divino Espírito que distribui os diversos carismas: a uns o discurso de sabedoria ou a graça da pregação, a outros o dom dos milagres, a estes o dom da profecia, àqueles o dom das línguas, etc.: «Haec autem omnia operatur unus atque idem Spiritus, dividens singulis prout vult»

Esta dupla ação de Cristo e do Espírito Santo, longe de se embaraçar mutuamente, completa-se. O Espírito Santo vem-nos por Jesus Cristo. Quando Jesus vivia na terra, possuía em sua alma santa a plenitude do Espírito; pelas suas ações e sobretudo pelos seus sofrimentos e pela sua morte mereceu que este Espírito nos fosse comunicado; é, pois, graças a Ele, que o Espírito Santo nos vem comunicar a vida e as virtudes de Cristo, e nos toma semelhantes a Ele.

Assim, tudo se explica: Jesus, sendo homem, é o único que pode ser a cabeça dum corpo místico composto de homens, já que a cabeça e os membros devem ser da mesma natureza; mas, como homem, não pode por si mesmo conferir a graça necessária à vida dos seus membros; o Espírito Santo supre-o, desempenhando essa função; mas, como o faz em virtude dos merecimentos do Salvador, pode-se dizer que o influxo vital parte verdadeiramente de Jesus para chegar aos seus membros.

Quais são os membros deste corpo místico? Todos os batizados.

É, efetivamente, pelo batismo que somos incorporados em Cristo, diz São Paulo: «Etenim in uno Spiritu omnes nos in unum corpus baptizati sumus». Eis o motivo por que ele ajunta que fomos batizados em Cristo, que pelo batismo nos revestimos de Cristo, isto é, participamos das disposições interiores de Cristo: o que o Decreto aos Armênios explica, dizendo que pelo batismo nos tornamos membros de Cristo e do corpo da Igreja: «per ipsum (baptismum) enim membra Christi ac de corpore efficimur EccJesiae» .

Daqui resulta que todos os batizados são membros de Cristo, mas em graus diversos: os justos estão-lhe unidos pela graça habitual e por todos os privilégios que a acompanham; os pecadores, pela fé e esperança; os bem-aventurados, pela visão beatífica. - Quanto aos infiéis, não são atualmente membros de seu Corpo místico; mas, enquanto estão na terra, são chamados a sê-lo; só os condenados estão para sempre excluídos deste privilégio.

Conseqüências deste dogma.

A) É sobre esta incorporação Cristo que se baseia a comunicação dos Santos: os justos da terra, as do Purgatório e os Santos do Céu fazem todos parte do corpo místico de Jesus, todos participam da sua vida, recebem a sua influência e devem amar-se e auxiliar-se mutuamente como membros dum mesmo corpo ; porquanto, diz-no-Io São Paulo, se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele, e se um membro é glorificado, todos se regozijam com ele: «Si quid patitur unum membrum, compatiuntur omnia membra; sive gloriatur unum membrum, congaudent omnia membra"

B) É por isso que todos os cristão são irmãos; doravante não há mais nem Judeu, nem Grego, nem homem livre nem escravo; somos todos em Cristo Jesus. Somos, pois, todos solidários, e o que é útil a um é aos outros, porquanto, seja qual for a diversidade dos dons e dos ofícios, o corpo todo aproveita do que há de bom em cada um dos membros, do mesmo modo que cada membro aproveita, por seu turno, dos bens do corpo. É ainda esta doutrina que explica o motivo por que Nosso Senhor dizer: o que fazeis ao menor dos meus, é a mim que o fazeis.

C) Daqui resulta que, segundo a doutrina de São Paulo, os cristãos são o complemento de Cristo: Deus, com efeito, deu-o por cabeça suprema à Igreja, que é seu corpo, a plenitude daquele que enche em todos. E na verdade, Jesus, perfeito em si mesmo, necessita dum complemento para formar o seu corpo místico: sob este aspecto não se basta a si mesmo, precisa de membros, para exercer todas as funções vitais.

E M. Oliver conclui «Emprestemos as nossas almas ao Espírito de Jesus Cristo, para que Ele cresça em nós. Se Ele encontra sujeitos dispostos, dilata-se, aumenta, difunde-se nos seus corações, e embalsama-os da unção espiritual de que Ele mesmo está embalsamado». - É assim que podemos e devemos completar a Paixão do Salvador Jesus, sofrendo como Ele sofreu, a fim de que esta Paixão, tão completa em si mesma, se complete ainda nos seus membros através do tempo e do espaço: Como se vê, pois, não há nada mais fecundo que esta doutrina sobre o Corpo místico de Jesus.

Conclusão: Devoção ao Verbo Encarnado

De tudo o que levamos dito sobre o papel de Jesus na vida espiritual, resulta que, para cultivar esta vida, devemos viver em união íntima, afetuosa, e habitual com Ele, por outros termos, praticar a devoção ao Verbo Encarnado: «Qui Manet in me et ego in eo, hic fert fructum multum; Aquele que permanece em mim e Eu nele, produz frutos abundantes»

É o que nos inculca a Santa Igreja, recordando-nos, ao fim do Cânone da Missa, que é por Ele que recebemos todos os bens espirituais, por Ele que somos vivificados e abençoados, por Ele, com Ele e n'Ele que devemos render toda a honra e glória a Deus Pai Todo-Poderoso, na unidade do Espírito Santo. É um programa completo de vida espiritual: tendo recebido tudo de Deus por Jesus Cristo, é por Ele que devemos glorificar a Deus, por Ele que devemos pedir novas graças, com Ele e n'Ele que devemos praticar todas as nossas ações.

Sendo Jesus o perfeito adorador de seu Pai, ou, como diz M. Olier, o religioso de Deus, o único que lhe pode oferecer homenagens infinitas, é evidente que, para tributarmos o devido culto à Santíssima Trindade, não podemos fazer nada melhor que unir-nos estreitamente a Ele, cada vez que queremos cumprir os nossos deveres de religião. O que é tanto mais fácil, quanto Jesus, sendo como é a cabeça dum corpo místico de que nós somos os membros, adora a seu Pai não somente em seu nome, mas em nome de todos aqueles que são incorporados nele, e põe à nossa disposição as homenagens que presta a Deus, permitindo-nos que nos apropriemos delas, para as oferecermos à Santíssima Trindade.

É igualmente com Ele e por Ele que mais eficazmente podemos pedir novas graças; porquanto Jesus, Sumo Sacerdote, não cessa de interceder por nós, «semper vivens ad interpellandum pro nobis» Até mesmo quando tivemos a infelicidade de ofender a Deus, Ele advoga nossa causa com tanto mais eloqüência quanto é certo que oferece ao mesmo tempo o seu sangue derramado por nós. Além disso, dá às nossas orações um valor tal que, se pedirmos em seu nome, isto é, apoiados nos seus merecimentos infinitos, temos a certeza de ser atendidos: «Amen, amen, dico bis, si quid petieritis Patrem in nomine meo, dabit vobis» O valor - seus méritos é, efetivamente, comunicado aos seus membros, e Deus pode recusar nada a seu Filho: «exauditus est pro sua reverentia"

Enfim, é em união com Ele que devemos praticar todas as nossas ações, tendo habitualmente, segundo uma bela expressão de M. Olie, Jesus diante dos olhos, no coração e nas mãos: - diante dos olhos, isto é, considerando-o como o modelo que devemos imitar, e perguntando-nos, como São Vicente de Paulo: Que faria Jesus, se estivesse em meu lugar? - no coração, atraindo a nós as suas disposições interiores, a sua pureza de intenção, o seu fervor, para praticarmos as nossas ações com seu espírito; - nas mãos, executando com generosidade, energia e constância as boas inspirações que Ele nos sugeriu.

Então será transformada a nossa vida, e viveremos da vida de Cristo:" Eu vivo, mas já não sou que e vivo, porque é Jesus que vive em mim» Glórias a Deus!!

(Depois veremos: Da Parte da Santissima Virgem na vida Cristã)

1 - A Vida da Graça - Um tesouro a adquirir
2 - Queda e Castigo
3 - Redenção
4 - Natureza da Graça
5 - Do Organismo da Vida Cristã
6 - União entre a alma e Deus
7 - Das Virtudes e dos Dons
8 - Da Graça Atual

Nenhum comentário:

Postar um comentário